Sunday, April 12, 2026

Outra poesia de Michel Houellebecq

 

IL EST VRAI  
Michel Houellebecq
Il est vrai que ce monde où nous respirons mal
N'inspire plus en nous qu'un dégoût manifeste,
Une envie de s'enfuir sans demander son reste,
Et nous ne lisons plus les titres du journal.

Nous voulons retourner dans l'ancienne demeure
Où nos pères ont vécu sous l'aile d'un archange,
Nous voulons retrouver cette morale étrange
Qui sanctifiait la vie jusqu'à la dernière heure.

Nous voulons quelque chose comme une fidélité,
Comme un enlacement de douces dépendances,
Quelque chose qui dépasse et contienne l'existence ;
Nous ne pouvons plus vivre loin de l'éternité.

É VERDADE

É verdade que este mundo em que mal conseguimos respirar

Inspira em nós apenas um asco manifesto,

Um desejo de fugir sem nada esperar,

E não lemos os títulos dos jornais, de resto.

 

Queremos voltar à morada antiga

Onde a asa de um arcanjo cobria nossos pais,

Queremos recobrar a moral estranha

Que até o último instante santifica a vida.

 

Queremos algo como fidelidade,

Como uma imbricação de doces dependências,

Algo que transcenda e abarque a existência;

Não podemos mais viver sem a eternidade.

 



Uma poesia de Carmen Verde Arocha

  

MARES Y HALAGOS

Carmen Verde Arocha

Tu pelo ondulado, canoso
acabas de cortarlo
sigues cortando
y deja tu coronilla brillante

allí entrará la luz
entraré yo
con mis pechos pequeños
y colinas tapizadas de amaranto.

Desnudos peces quietos somos
al resguardo
del recóndito río
que nos hunde sus dientes.

«La mujer que pesca señales en el aire».
Es tu voz que se escucha en el mar.

Tú y yo
peces hambrientos
de múltiples manos
estaremos siempre atados
(estoy segura)
a ese lazo
de lluvia
que te impulsa

al frote del ardor y
aún no lo sabes.

MARES E PLANÍCIES

Teu cabelo ondulado e grisalho

acabas de cortar

segues cortando

e deixa tua coroa brilhante

lá a luz entrará

entrarei eu

com meus seios pequenos

e colinas cobertas de amaranto.

Peixes nus e quietos somos

resguardados

do rio oculto

que crava seus dentes em nós.

"A mulher que pesca sinais no ar."

É a tua voz que se ouve no mar.

Tu e eu

peixes famintos

com muitas mãos

estaremos sempre atados

(estou segura)

a esse laço

de chuva

que te impulsiona

à fricção do ardor e

ainda que não o saibas.

Ilustração: OTSS.

Saturday, April 11, 2026

Se Questo è un uomo de Primo Levi

 

SE QUESTO È UN UOMO

Primo Levi

Voi che vivete sicuri
nelle seu tiepide case,
voi che trovate tornando a sera
il cibo caldo e visi amici:

Considere se este é um homem
que trabalha no fango
que não conhece o ritmo
que lotta para o meio painel
que muore para um si ou para um não.
Considere se esta é uma dona,
sem cabelo e sem nome
sem mais força para lembrar
seus olhos e freddo il grembo
como uma rana d'inverno.

Medite que este é o estado:
vi comando queste parole.
Escolpitele nel seu cuore
stando in casa andando per via,
coricandovi, alzandovi.
Ripetetele ai vostri figli.
O vi si sfaccia la casa,
la malattia vi impedisca,
e vostri nati torcano il viso da voi.

SE ISTO É UM HOMEM

Vocês que vivem seguros
nas suas casas acolhedoras,

que voltam ao entardecer para encontrar
comida quente e rostos amigos:

Considere se este é um homem,
que trabalha na lama,
que não conhece a paz,
que luta por um pedaço de pão,
que morre por um sim ou um não.
Considere se esta é uma mulher,
sem cabelo nem nome,
sem forças para se lembrar,
com os olhos vazios e o ventre frio
como um sapo no inverno.

Medite que esta é a situação:
recomendo estas palavras.
Grave-as em seus corações:

estando em casa, caminhando pelas ruas,
quando se deitarem e quando se levantarem.
Repitam-nas aos seus filhos.
Caso contrário, sua casa poderá ruir,
a doença poderá torná-los impotentes e
seus filhos podem desviar o olhar de vocês.

Ilustração: Opus Dei.

Friday, April 10, 2026

Especial mesmo é a Maniçoba

 


LOUVAÇÃO À MANIÇOBA

Silvio Persivo

A maniçoba é dos deuses um presente,

Feita com a maniva e nobres ingredientes,

como toucinho, charque e calabresa,

a feijoada vegetal é uma beleza.

 

Cortados em rodelas o bacon, o paio

E, com folhas de louro, se faz o ensaio

Costelinhas defumadas e porco assado,

Com a maniva dissolvida em um ensopado.

 

Cozinhando por dias em fogo brando,

Até o caldo ficar preto e consistente,

A maniçoba encorpada é um deleite,

Acompanhada de farinha e arroz quente.

 

Depois de provar, é impossível esquecer,

Por isto a maniçoba, um tesouro da culinária,

Agradável, maravilhoso, o que dá mais prazer

Entre todos pratos que existem na Amazônia!

Ilustração: DOL.

(De "Receitas Amazônicas Temperadas com Poesia). 

 

Thursday, April 09, 2026

Mentiras, Mentiras de Andrés Garcia Cerdán

 

MENTIRAS, MENTIRAS

Andrés Garcia Cerdán

Íbamos por las calles
intentando escucharnos en mitad del escándalo,
pero no escuchábamos nada.
No había nada
que oír.
Palabras y palabras a nuestro alrededor,
un ruido atroz, como de cosas
rotas, que crujen
y se desgajan
y se hacen
añicos.
Paradójicamente, aquello era el silencio,
el silencio absoluto.
Lo real se colaba por el ruido
como se cuela el agua sucia
por el sumidero de las pilas de fregar.
Hablaba todo el mundo
de todo,
pero todo era silencio en todo.
Tanto bullicio para qué.
Ahorcada en los semáforos
moría la verdad,
esto es, todo lo que
tiene que ver con la belleza.
Ya no olían a nada los limones:
dónde su cristal amarillo,
el jugo de su hermoso ácido.

MENTIRAS, MENTIRAS

Íamos pelas ruas

tentando nos ouvir em meio ao tumulto,

porém não ouvíamos nada.

Não havia nada

para ouvir.

Palavras e palavras ao nosso redor,

um ruído atroz, como coisas

quebradas, rangendo

e se despedaçando

e se estilhaçando

em pedaços.

Paradoxalmente, aquilo era silêncio,

silêncio absoluto.

A realidade se infiltrava pelo ruído

como água suja que escorre

pelo ralo da pia.

Todos falavam

sobre tudo,

mas tudo era silêncio dentro de tudo.

Tanto alvoroço para quê?

Paralisada no semáforo,

a verdade estava morrendo,

isto é, tudo

relacionado à beleza.

Os limões não cheiravam mais a nada:

onde estava seu vidro amarelo,

o suco de seu belo ácido?




Words de Jane Hirshfield

 

WORDS

Jane Hirshfield

Words are loyal.
Whatever they name they take the side of.
As the word courage will afterward grip just as well 
the frightened girl soldier who stands on one side of barbed wire, 
the frightened boy soldier who stands on the other.
Death’s clay, they look at each other with wide-open eyes.
And words-that love peace, love gossip-refuse to condemn them.

PALAVRAS

As palavras são leais.

Qualquer nome que lhes deem, elas tomam partido.

Assim como a palavra coragem, depois, agarrará tão bem

a garota soldado assustada que está de um lado do arame farpado,

o garoto soldado assustado que está do outro.

Argila da morte, eles se olham um ao outro com os olhos bem abertos.

E as palavras- que amam a paz, que amam a fofoca-se recusam a condená-los.

Ilustração: Alimento Diário.


Wednesday, April 08, 2026

Os Bravos e Esquecidos Soldados da Borracha

 


OS  SOLDADOS DA BORRACHA

Silvio Persivo

Nunca foi leve o chamado da pátria,
nem doce o sonho que os fez partir;
eram homens de pó e de seca exata,
com fome de vida e pressa de existir.

Do Ceará ressequido e esquecido,
brotaram como prece no chão rachado,
carregando no peito um Brasil prometido
e nos olhos um futuro imaginado.

Nos porões da esperança embarcaram,
sem céu, sem rumo, sem luz, sem chão;
na noite densa, amontoados, sonharam
com dignidade, trabalho e pão.

Do cozidão ralo e do charque salgado,
fizeram sustento e resignação;
cada corpo cansado, cada olhar calado,
era um grito contido na escuridão.

Mas a selva - ah, a selva amazônica-
não conhece promessas nem compaixão;
ergueu-se soberana, verde e irônica,
testando o limite de cada irmão.

Ali, o látex sangrava das árvores
como seiva e suor entrelaçados;
e junto ao corte preciso dos homens
iam seus sonhos sendo exauridos, calados.

Chamaram-nos soldados- e eram, de fato-
sem farda, sem arma, sem medalha ou canhão;
travaram na mata um combate ingrato,
defendendo a pátria com a própria mão.

Pobres arigós, heróis esquecidos,
que a história demora a reconhecer;
muitos tombaram, sequer sabidos,
sem ao menos um nome para sobreviver.

E hoje, no silêncio da relva espessa,
onde o tempo repousa sem explicação,
ecoam memórias de dor e promessa
dos homens que deram a vida à nação.

Que a terra os guarde com mais justiça
do que o mundo lhes soube ofertar;
pois sua luta, feita em sacrifício,
foi um Brasil inteiro a sustentar.

Uma poesia de Naomi Shihab Nye

 


EMPTY

Naomi Shihab Nye

I don’t want to see
what spilled out,
blue clay jug of dreams
toppled at the head of his pallet
found at dawn,
every drop of future
gone. 

VAZIO

Eu não quero ver

o que derramou,

o jarro azul de barro dos sonhos

tombou na cabeceira de sua cama

encontrado ao amanhecer,

cada gota de futuro

se foi.

Ilustração: Dreamstime.


Surfing La Manga de Andrés Garcia Cerdán

 


                                   SURFING LA MANGA

Andrés Garcia Cerdán

 

                                         me hablas del dolor tu cabello es rubio
                                         a qué dolor te refieres

                                                                          J. F. Kosta

Entre las ramas de los ficus
y una señal de tráfico,
entre un anuncio de telefonía
y algunos edificios
en construcción, se alcanza a ver
allá a lo lejos
una franja de mar.

Me hablas de la sed,
de lo que amas.
Para llegar al agua,
has de cruzar isletas de cemento,
líneas amarillas
y algunos callejones
donde hacen hilera los cubos de basura,
los cactus desahuciados
y algunas tiendas de comida rápida.
Por la Gran Vía de La Manga, nadie.
Solo el silencio
dinamitado
por las motos de los repartidores.
En el vacío se equilibran
los hoteles desiertos,
apenas una luz
en un bloque de veinte alturas.
Un cartel nos invita a clases de alemán:
Die Zukunft ist da!
Los periódicos dicen que a la playa
llegan miles de peces a morir
heridos de fosfatos.
Me hablas de Anne Sexton,
de su locura deliciosa.
De fondo, un rumor.
El cartel de Surfing La Manga
se resiste a ceder la luz
que le queda del último verano.
Se alquilan motos de agua,
tablas de surf, tumbonas,
pero no todavía:
ahora todo está cerrado.
Al fin el mar,
tras la alambrada de un desguace,
como un animal gris
que se abraza a su presa justo antes de engullirla.

SURFANDO EM LA MANGA

                                          Você me fala de dor, seu cabelo é loiro.

                                          A que dor você se refere?

                                                                               J. F. Kosta

Entre os galhos dos fícus

e uma placa de trânsito,

entre um outdoor de telefone

e alguns prédios

em construção, você consegue distinguir

ao longe

uma faixa de mar.

me falas de sede,

daquilo que você ama.

Para chegar à água,

precisas atravessar ilhas de concreto,

faixas amarelas

e alguns becos

onde latas de lixo se alinham,

os cactos abandonados

e algumas lanchonetes.

Na Gran Vía de La Manga, ninguém.

Apenas o silêncio

quebrado

pelas motos de entrega.

No vazio, os hotéis desertos se equilibram

no horizonte,

mal uma luz

em um prédio de vinte andares.

Uma placa nos convida para aulas de alemão:

Die Zukunft ist da!

Os jornais dizem que milhares de peixes são levados para a praia

para morrer,

feridos por fosfatos.

me contas sobre Anne Sexton,

sobre sua deliciosa loucura.

Ao fundo, um murmúrio.

A placa de Surfing La Manga

resiste a ceder os últimos vestígios

da luz do verão passado.

Jet skis,

pranchas de surfe, espreguiçadeiras são alugadas,

mas ainda não:

tudo está fechado agora.

Finalmente, o mar,

atrás do arame farpado de um ferro-velho,

como um animal cinzento

agarrando-se à sua presa pouco antes de engoli-la.

Ilustração: Yumping. 


Monday, April 06, 2026

Interlude de Edith Sitwell revista

 

INTERLUDE

Edith Sitwell

Amid this hot green glowing gloom     

A word falls with a raindrop’s boom ...

 

Like baskets of ripe fruit in air     

The bird-songs seem, suspended where

 

Those goldfinches-the ripe warm lights         

Peck slyly at them-take quick flights.  

 

My feet are feathered like a bird  

Among the shadows scarcely heard;    

 

I bring you branches green with dew   

And fruits that you may crown anew     

 

Your whirring waspish-gilded hair

Amid this cornucópia-

 

Until your warm lips bear the stains     

And bird-blood leap within your veins.

INTERLUDIO

No meio dessa penumbra verde e quente

Uma palavra cai com o estrondo de uma gota de chuva...

 

Como cestas de frutas maduras no ar

Os cantos dos pássaros parecem suspensos onde

 

Aqueles pintassilgos-as luzes quentes e maduras

Bicavam astutamente-alçam voos rápidos.

 

Meus pés são emplumados como os de um pássaro

Entre as sombras quase inaudíveis;

 

Eu te trago ramos verdes de orvalho

E frutos para que possas coroar novamente

 

Teus cabelos dourados como vespas

No meio dessa cornucópia-

 

Até que teus lábios quentes carreguem as manchas

E o sangue de pássaro pulse dentro de tuas veias.

Ilustração: Devo tudo ao cinema. 

Naufragio de Dulce María Loynaz

 


                                      NAUFRAGIO

Dulce María Loynaz

¡Ay qué nadar de alma es este mar!
¡Qué bracear de náufrago y qué hundirse
y hacerse a flote y otra vez hundirse!
¡Ay qué mar sin riberas ni horizonte,
ni barco que esperar! Y qué agarrarse
a esta blanda tiniebla, a este vacío
que da vueltas y vueltas... A esta agua
negra que se resbala entre los dedos...
¡Qué tragar sal y muerte en esta ausencia
infinita de ti!

NAUFRÁGIO

Ah, que nadar de alma neste mar!

Que se debater de náufrago, afundando

e emergindo, apenas para afundar de novo!

Aí, que mar sem margens ou horizonte,

sem um navio para esperar! E que agarrar-se

a esta suave escuridão, a este vazio

que dá voltas e voltas... A esta

água negra que escorre entre os meus dedos...

Que trago como sal e morte nesta

infinita ausência de você!

Ilustração: Ateliê de Humanidades. 


Sunday, April 05, 2026

X-Caboclinho

 


X-CABOCLINHO

Silvio Persivo

O X-Caboclinho, tesouro culinário

De Manaus, patrimônio cultural.

Sanduíche que no café diário

O torna uma refeição sem igual.

 

No pão francês, o tucumã se exalta

Com seu aroma e sabor marcante

A banana pacovã se agiganta

E o queijo dá um toque elegante

 

É simples de fazer, sem mistério

Até crianças podem preparar

 O que o torna mais extraordinário

 

É como a cereja do bolo para o cenário

Cultural da cidade, que vive a degustar

Este prazer inigualável ao paladar.

Ilustração: BNC Amazonas. 

(De "Receitas da Amazônia Temperadas com Poesia").