Monday, May 04, 2026

Apresento Sara Toro

 


CARRUSEL DE HIPÓTESIS DEL MORRIRME

Sara Toro

Que me voy a morir,

piensan mis padres cada vez que mi cuerpo

deja un rastro defractario

en cielo extranjero,

o viajo en un vehículo que no conducen

sus pies,

sus manos,

la espalda recta

de sus decisiones.

Tampoco yo contemplo que sus dedos de tubérculo

alejado del agua,

o que su cintura kintsugi de Supergen setentero

estercolen la tierra antes que yo,

fruto último de su cosecha

arrancado verde

y exportado

para alimento de otros.

 

Si les precedo,

enterrarán de mí

la parte que no conocen.

Me vestirán con un jersey incómodo

e informarán de la tragedia a familia

y amigos varados

en el muelle de la infancia.

 

Yo que siempre fui

de vagabundeo

requeriré de hombros de hombre

y fémur-clavícula de mujer

para gestionar la materia fungible

de mi cuerpo.

(Ojalá se salven de la tragedia

algunos dedos manchados de carmín

y las córneas).

A mis ascendientes legaré

una sucesión intestada de perros

y amantes callejeros

que acariciará el agujero negro

de la historia.

Sobrevivirán,

inexplicablemente,

muchas de mis plantas de interior.

 

Alguien dirá tras mi funeral:

Me encantó. Lloré.

 

Mi fantasma arrepentido

de haber tardado tanto

en volver a casa,

tratará de atravesarse el lóbulo

con un zarcillo.

 

Pasará el pendiente,

la muerte pendiente

 

pasará.

CARROSEL DE HIPÓTESES DO MEU MORRER

Que vou morrer,

pensam meus pais toda vez que meu corpo

deixa um rastro fragmentado

em céus estrangeiros,

ou quando viajo em um veículo

que não é dirigido

por seus pés,

suas mãos,

a firmeza

de suas decisões.

 

Nem contemplo seus dedos tubérculo

distantes da água,

 

ou suas cinturas kintsugi de Supergen dos anos setenta

fertilizando a terra à minha frente,

o último fruto de sua colheita

colhido verde

e exportado

para alimentar outros.

 

Se eu os preceder,

eles enterrarão

a parte de mim que não conhecem.

Eles me vestirão com um suéter desconfortável

e informarão a família

e os amigos encalhados

no cais da infância sobre a tragédia.

 

Eu, que sempre fui

um andarilho,

precisarei dos ombros de um homem

e do fêmur e da clavícula de uma mulher

para lidar com a matéria consumível

do meu corpo.

 

(Espero que alguns dedos e córneas manchados de batom sejam poupados da tragédia.)

Aos meus ancestrais, legarei uma sucessão infestada de cães e amantes perdidos que acariciarão o buraco negro da história.

Muitas das minhas plantas de casa sobreviverão, inexplicavelmente.

 

Alguém dirá depois do meu funeral: "Me encantou.

Chorei."

 

Meu fantasma, arrependido

De ter demorado tanto

para voltar para casa,

 tentará perfurar o lóbulo da orelha

com uma gavinha.

 

O brinco passará,

a morte iminente

passará.

Ilustração: Bandalheira. 




Sim, Elliot Perlman

 


SEVEN TYPES OF AMBIGUITY

Elliot Perlman
He nearly called you again last night. Can you imagine that, after all this time? He can. He imagines calling you or running into you by chance. Depending on the weather, he imagines you in one of those cotton dresses of yours with flowers on it or in faded blue jeans and a thick woollen button-up cardigan over a checked shirt, drinking coffee from a mug, looking through your tortoiseshell glasses at a book of poetry while it rains. He thinks of you with your hair tied back and that characteristic sweet scent on your neck. He imagines you this way when he is on the train, in the supermarket, at his parents' house, at night, alone, and when he is with a woman.

SETE TIPOS DE AMBIGUIDADE

Ele quase te ligou de novo ontem à noite. Consegue imaginar isto, depois de tanto tempo? Ele pode. Ele imagina que te chamar ou de correr para ti por acaso. Dependendo do clima, ele te imagina com um daqueles seus vestidos de algodão com flores ou com jeans desbotados e um grosso cardigã de lã sobre uma camisa xadrez, tomando café em uma caneca, olhando um livro de poesia através de teus óculos de tartaruga enquanto chove. Ele pensa em ti com o cabelo preso e aquele perfume doce característico no pescoço. Ele te imagina assim quando está no trem, no supermercado, na casa dos pais, à noite, sozinho, e quando está com uma mulher.

Ilustração: Blog Marcos L. Mucheroni. 




Sunday, May 03, 2026

Cuidado com Ela

 

A TIGRESA

Silvio Persivo

Ela chega imensa,

branca, grande como uma recompensa

para beber vinho rosê

e gargalhar com uma amiga,

como quem crê na vida,

para contrastar de roupa preta.

Uma tigresa

que parece mansa nos gestos largos,

no seu modo de ser,

mas não prospere no engano.

Os detalhes traem suas garras,

pois mostram seu apetite

e desejo insano.

Nada de mostrar

qualquer atração, mínima que seja,

pois com a mesma avidez

que você bebe cerveja,

ela irá, de um só vez,

lhe devorar

roubando até teu ar,

com o maior prazer.

Ilustração: Diamond Art. 


Saturday, May 02, 2026

Uma poesia de Sergio M Moreno Rodríguez

 



ENCUENTRO

                 Sergio M Moreno Rodríguez                               

                                                            Para Silvia

HE BUSCADO al amor

en todas partes,

 

en los breves romances de verano,

en la febril pasión adolescente,

 

en los versos de Bécquer y Salinas,

en el cine italiano de posguerra.

 

No esperaba encontrarlo, lo confieso,

 

en el baño de un cuarto de hospital

limpiándome la sangre de las llagas,

 

compartiendo el dolor de mis heridas.

ENCONTRO

TENHO BUSCADO o amor

em todas as partes,

 

nos breves romances de verão,

na febril paixão adolescente,

 

nos versos de Bécquer y Salinas,

no cine italiano de pós-guerra.

 

Não esperava encontrá-lo, o confesso,

 

no banheiro de um quarto de hospital

limpando-me o sangue das chagas.

Ilustração: Biombo-Biômbo.


Friday, May 01, 2026

Sim é ainda W. S. Mervin

 


AFTER HADRIAN
W. S. Mervin
Little soul little stray
little drifter
now where will you stay
all pale and all alone
after the way
you used to make fun of things

DEPOIS DE ADRIANO

Pequena alma, pequeno peregrino

pequeno vagabundo

agora onde irá você ficar?

todo pálido e sozinho

depois do modo

que você usava para zombar das coisas


Saturday, April 25, 2026

A Presença que não parte


Se te perguntarem, meu amor,

se vou voltar,

A vida sempre dói de alguma maneira

 

Thylias Moss

my headache remains
a kind of proof of the seriousness
of what is locked in my brain,
everything tucked there, fusing there
into a feeling so tremendous it hurts

 

minha dor de cabeça permanece

como uma espécie de prova da seriedade

do que está preso no meu cérebro,

de todas as coisas que estão escondidos nele,

fundindo dentro um sentimento tão tremendo

que dói

Ilustração: SPDOF. 



Outra vez Raúl Quinto

 


                                                                      Raúl Quinto

de dónde viene lo que no puede venir

 

desde qué cuándo

 

qué es este aquí que sucede

este ahora por qué

 

esta corola de flor de vértigo

ardiendo al otro lado

de dónde viene si no puede venir

De onde vem o que não pode vir?

 Desde quando? 

O que é isso que se sucede aqui?

Isso agora por quê?


Esta corola de uma flor vertiginosa

ardendo do outro lado

De onde vem o que não pode vir?

Ilustração: revistaforum.com.br.


Thursday, April 23, 2026

April de W.S. Mervin

  


                                          APRIL

W. S. Mervin

When we have gone the stone will stop singing

April April
Sinks through the sand of names

Days to come
With no stars hidden in them

You that can wait being there

You that lose nothing
Know nothing.

ABRIL

Quando nós tivermos ido a rocha irá parar de cantar

Abril abril

Afunda através das areias dos nomes

Os dias que virão

Sem estrelas escondidas neles

Você pode esperar aí

Você que não perdeu nada

Nada sabe

Ilustração: Digital Grátis.


Outra poesia de Félix Pillet

                                                  

 

DESDE EL PRIMER POEMA

Félix Pillet

Me dejaste, madre,
un cargamento de rimas.
Recitabas tus poetas,
muchas veces repetidos.
Los años velaron tus ojos,
ya no podías leer.

A cuatro manos,
las tuyas y las mías,
te escribí el primer poema.

Un agosto, ya lejano,
en la huerta, en el alfaz,
cerrabas los ojos
a la vida.

Aquí sigo,
sembrando palabras.

DESDE O PRIMEIRO POEMA

Me deixaste, mãe,

uma carga de rimas.

Recitavas teus poetas,

muitas vezes repetidos.

Os anos velaram seus olhos,

já não podias ler.

 

A quatro mãos,

com as suas e as minhas,

te escrevi o primeiro poema.

Num agosto, há muito tempo,

no pomar, no campo de alfafa,

fechavas os olhos

para a vida.

Aqui sigo,

semeando palavras.

Ilustração: Podscan.fm. 



Tuesday, April 21, 2026

UM VIOLINO MORTAL


Silvio Persivo

Quando ela tocava o violino,

mergulhava em um mosaico de sonhos,
onde cada nota encantava o silêncio
e o tempo, reverente, parava para escutar.

O mundo então se vestia de luz e cor,
como se a própria vida respirasse a música.
E eu, inevitável, 
me perdia inteiro naquele instante mágico,

morrendo de amor,
enquanto, paradoxalmente,
jamais estive tão vivo.

Ilustração: Donna Leslie.

 

Ti Vidi Un Giorno Per Alcuni Istanti de Cesare Pavese

 


TI VIDI UN GIORNO PER ALCUNI ISTANTI

Cesare Pavese

Ti vidi un giorno per alcuni istanti

e so che mai potrò più rivederti.

Tu mi passavi leggera dinanzi

levando il viso pieno di dolcezza

ravvolto nei capelli evanescenti.

Eri lontana, forse anche diversa,

forse ad altri vendevi quel tuo viso,

forse lo vendi ancora, ma il sorriso doloroso, mai

me lo potrò scordare. So che il tempo

mi scaccerà l’amarezza del cuore

e che mai più ti rivedrò in mia vita,

ma è tanto dolce sognare con te!

TE VI UM DIA POR ALGUNS INSTANTES

Te vi um dia por alguns instantes

e sei que não mais voltarei a te rever.

Tu me passaste ligeira indo adiante

levando o rosto cheio de doçura

envolto nos cabelos esvoaçantes.

Estava distante, talvez até diferente,

talvez vendesse teu rosto para os outros,

talvez ainda o venda, mas aquele sorriso doloroso,

eu nunca esquecerei. Sei que o tempo

apagará a amargura do meu coração

e que nunca mais a verei em minha vida,

mas é tão doce sonhar contigo!

Ilustração: Sonho Contigo. 


Uma poesia de María Mercedes Carranza

 


POEMA DEL DESAMOR

María Mercedes Carranza

Ahora en la hora del desamor
Y sin la rosada levedad que da el deseo
Flotan sus pasos y sus gestos.

Las sonrisas sonámbulas, casi sin boca,
Aquellas palabras que no fueron posibles,
Las preguntas que sólo zumbaron como moscas
Y sus ojos, frío pedazo de carne azul.
Días perdidos en oficios de la imaginación,
Como las cartas mentales al amanecer
O el recuerdo preciso y casi cierto
De encuentros en duermevela que fueron con nadie.
Los sueños, siempre los sueños.

¡Qué sucia es la luz de esta hora,
Qué turbia la memoria de lo poco que queda
Y qué mezquino el inminente olvido!

POEMA DO DESAMOR

Agora na hora do desamor

E sem a rosada leveza que dá o desejo

Flutuam seus passos e seus gestos.

 

Os sorrisos sonâmbulos, quase sem boca,

Aquelas palavras que não foram possíveis,

As perguntas que só zumbiram como moscas

E seus olhos, frios pedaços de carne azul.

Dias perdidos no ofício da imaginação,

Como as cartas mentais ao amanhecer

Ou a recordação precisa e quase certa

De encontros com o nada no meio sono.

Os sonhos, sempre os sonhos.

 

Que suja é a luz desta hora,

Que turva a memória do pedaço que fica

E que mesquinho o iminente esquecimento!

Ilustração: Metropolis.