Thursday, April 23, 2026

April de W.S. Mervin

  


                                          APRIL

W. S. Mervin

When we have gone the stone will stop singing

April April
Sinks through the sand of names

Days to come
With no stars hidden in them

You that can wait being there

You that lose nothing
Know nothing.

ABRIL

Quando nós tivermos ido a rocha irá parar de cantar

Abril abril

Afunda através das areias dos nomes

Os dias que virão

Sem estrelas escondidas neles

Você pode esperar aí

Você que não perdeu nada

Nada sabe

Ilustração: Digital Grátis.


Outra poesia de Félix Pillet

                                                  

 

DESDE EL PRIMER POEMA

Félix Pillet

Me dejaste, madre,
un cargamento de rimas.
Recitabas tus poetas,
muchas veces repetidos.
Los años velaron tus ojos,
ya no podías leer.

A cuatro manos,
las tuyas y las mías,
te escribí el primer poema.

Un agosto, ya lejano,
en la huerta, en el alfaz,
cerrabas los ojos
a la vida.

Aquí sigo,
sembrando palabras.

DESDE O PRIMEIRO POEMA

Me deixaste, mãe,

uma carga de rimas.

Recitavas teus poetas,

muitas vezes repetidos.

Os anos velaram seus olhos,

já não podias ler.

 

A quatro mãos,

com as suas e as minhas,

te escrevi o primeiro poema.

Num agosto, há muito tempo,

no pomar, no campo de alfafa,

fechavas os olhos

para a vida.

Aqui sigo,

semeando palavras.

Ilustração: Podscan.fm. 



Tuesday, April 21, 2026

UM VIOLINO MORTAL


Silvio Persivo

Quando ela tocava o violino,

mergulhava em um mosaico de sonhos,
onde cada nota encantava o silêncio
e o tempo, reverente, parava para escutar.

O mundo então se vestia de luz e cor,
como se a própria vida respirasse a música.
E eu, inevitável, 
me perdia inteiro naquele instante mágico,

morrendo de amor,
enquanto, paradoxalmente,
jamais estive tão vivo.

Ilustração: Donna Leslie.

 

Ti Vidi Un Giorno Per Alcuni Istanti de Cesare Pavese

 


TI VIDI UN GIORNO PER ALCUNI ISTANTI

Cesare Pavese

Ti vidi un giorno per alcuni istanti

e so che mai potrò più rivederti.

Tu mi passavi leggera dinanzi

levando il viso pieno di dolcezza

ravvolto nei capelli evanescenti.

Eri lontana, forse anche diversa,

forse ad altri vendevi quel tuo viso,

forse lo vendi ancora, ma il sorriso doloroso, mai

me lo potrò scordare. So che il tempo

mi scaccerà l’amarezza del cuore

e che mai più ti rivedrò in mia vita,

ma è tanto dolce sognare con te!

TE VI UM DIA POR ALGUNS INSTANTES

Te vi um dia por alguns instantes

e sei que não mais voltarei a te rever.

Tu me passaste ligeira indo adiante

levando o rosto cheio de doçura

envolto nos cabelos esvoaçantes.

Estava distante, talvez até diferente,

talvez vendesse teu rosto para os outros,

talvez ainda o venda, mas aquele sorriso doloroso,

eu nunca esquecerei. Sei que o tempo

apagará a amargura do meu coração

e que nunca mais a verei em minha vida,

mas é tão doce sonhar contigo!

Ilustração: Sonho Contigo. 


Uma poesia de María Mercedes Carranza

 


POEMA DEL DESAMOR

María Mercedes Carranza

Ahora en la hora del desamor
Y sin la rosada levedad que da el deseo
Flotan sus pasos y sus gestos.

Las sonrisas sonámbulas, casi sin boca,
Aquellas palabras que no fueron posibles,
Las preguntas que sólo zumbaron como moscas
Y sus ojos, frío pedazo de carne azul.
Días perdidos en oficios de la imaginación,
Como las cartas mentales al amanecer
O el recuerdo preciso y casi cierto
De encuentros en duermevela que fueron con nadie.
Los sueños, siempre los sueños.

¡Qué sucia es la luz de esta hora,
Qué turbia la memoria de lo poco que queda
Y qué mezquino el inminente olvido!

POEMA DO DESAMOR

Agora na hora do desamor

E sem a rosada leveza que dá o desejo

Flutuam seus passos e seus gestos.

 

Os sorrisos sonâmbulos, quase sem boca,

Aquelas palavras que não foram possíveis,

As perguntas que só zumbiram como moscas

E seus olhos, frios pedaços de carne azul.

Dias perdidos no ofício da imaginação,

Como as cartas mentais ao amanhecer

Ou a recordação precisa e quase certa

De encontros com o nada no meio sono.

Os sonhos, sempre os sonhos.

 

Que suja é a luz desta hora,

Que turva a memória do pedaço que fica

E que mesquinho o iminente esquecimento!

Ilustração: Metropolis.


Sunday, April 19, 2026

Um poema de W.S. Mervin

 


BY THE FRONT DOOR

W. S. Mervin

Rain through the morning
and in the long pool a toad singing
happiness old as water

NA PORTA DA FRENTE

A chuva atravessando a manhã

e na longa lagoa um sapo cantando

a felicidade velha como a água.

Ilustração: Guia Infantil.  


Uma poesia de Félix Pillet

 


LA VERDAD

Félix Pillet

                                                 Pues amarga la verdad,
                                                 quiero echarla de la boca.

                                                            Francisco de Quevedo

El silencio
de las palabras muertas,
el veneno
de las miradas extraviadas,
el callar por no difamar.

Una mentira
es una columna de humo
que ciega la mente,
agría el rostro,
avinagra la sangre.

A VERDADE

O silêncio

das palavras mortas,

o veneno dos olhares extraviados,

o calar para não difamar.

Uma mentira

é uma coluna de fumaça

que cega a mente

azeda o rosto,

avinagra o sangue.

Ilustração: Jornal Unifal/MG.

Friday, April 17, 2026

Outra poesia de Naomi Shihab Nye

 


                                SO MUCH HAPINESS

Naomi Shihab Nye

It is difficult to know what to do with so much happiness.
With sadness there is something to rub against,
a wound to tend with lotion and cloth.
When the world falls in around you, you have pieces to pick up,
something to hold in your hands, like ticket stubs or change.

But happiness floats.
It doesn’t need you to hold it down.
It doesn’t need anything.
Happiness lands on the roof of the next house, singing,
and disappears when it wants to.
You are happy either way.
Even the fact that you once lived in a peaceful tree house
and now live over a quarry of noise and dust
cannot make you unhappy.
Everything has a life of its own,
it too could wake up filled with possibilities
of coffee cake and ripe peaches,
and love even the floor which needs to be swept,
the soiled linens and scratched records . . .

Since there is no place large enough
to contain so much happiness,
you shrug, you raise your hands, and it flows out of you
into everything you touch. You are not responsible.
You take no credit, as the night sky takes no credit
for the moon, but continues to hold it, and share it,
and in that way, be known.

TANTA FELICIDADE

É difícil saber o que fazer com tanta felicidade.

Com a tristeza, há alguma coisa contra o qual se esfregar,

uma ferida para cuidar com loção e pano.

Quando o mundo cai em torno, você tem pedaços para juntar,

Alguma coisa para segurar nas mãos, como ingressos ou moedas.

Porém a felicidade flutua.

Ela não precisa de você para segurar.

Ela não precisa de nada.

A felicidade pousa no telhado da casa ao lado, cantando,

e desaparece quando quer.

Você é feliz de qualquer maneira.

Até o fato de você ter vivido em uma casa na árvore tranquila

e agora viver sobre uma pedreira barulhenta e empoeirada

não pode te deixar infeliz.

Tudo tem vida própria,

tudo também pode acordar cheio de possibilidades

de bolo de café e pêssegos maduros,

e amar até o chão que precisa ser varrido,

os lençóis sujos e os discos arranhados...

Como não há lugar grande o suficiente

para conter tanta felicidade,

você dá de ombros, levanta as mãos e ela flui de você

para tudo o que toca. Você não é responsável.

Você não se atribui o mérito, assim como o céu noturno não se atribui o mérito

pela lua, mas continua a sustentá-la e a compartilhá-la,

e dessa forma, a ser conhecida.

Ilustração: Acontece Botucatu.

 


Ilha da Desunião

 


Silvio Persivo

Nós navegamos tanto, tanto..

Com um barco sem rumo, sem bússola, direção 

e só encontramos uma única ilha

como tábua de salvação.

E, nela, filha, 

depois de tanto tempo juntos,

conseguimos nos perder.  

Ilustração: Superinteressante. 

Félix Pillet

               


                                                  DUETO

Félix Pillet

Hemos subido y bajado
la escalera del río,
sin dejar peldaños.
Mar y océano,
paisaje urbano y natural.
Camino interminable
sin acompañamiento.

Tú y yo, con lo exacto.

DUETO

Temos subido e descido

a escada do rio,

sem deixar pegadas.

Mar e oceano,

paisagem urbana e natural.

Caminho interminável

sem acompanhamento.

Tu e eu, com o valor exato.

Ilustração: Bem Muito/ Airton Laurindo.





Um Final Infeliz

 


FINAL INFELIZ
                       Silvio Persivo
O mundo é uma festa vermelha.

Muito tomate.

Tomate em profusão.

Logo me assanho

E seguro um tomate na mão

Jogando na cabeça do meu irmão

que toma um susto sem tamanho.

Mamãe não achou nada engraçado 

E por conta disto apanho.

Um final mal-acabado.

(De "Trinta e Um Poeminhas e Uma Cantiga de Roda Para Pequenininhos", Gráfica Imediata, 2025).

Ilustração: Tomate Brasil. 

Thursday, April 16, 2026

Um poema de W.J. Lofton

 


                                 THE LORD IS AMERICAN

W.J. Lofton

The world undresses 
its wounds. It wounds. This Father- 
His memory, torn 
clouds: forgetful weather. 
God’s goodness licks 
bowls bone-clean. Our fingers 
twist crumbs from air. 
We are hungry children 
abandoned by our country 
for bombs. For Rockets’ Red glare. How 
could we ever be patriots? 
My father is my flag. 
The national anthem is 
every word, every single word 
my mother could not whisper- 
could not say, 
could not say: 
her father colonized her. 
Made her mother nasty with jealousy. 
Could not say: she can’t stay 
In this world of touching. 
It maims. 
It elects evil. 
It is two gendered. 
It kneels on Sunday. 
The Lord is 
American & 
aims His rifle 
at us, His children 
once beggars 
rise into guerrillas.

O SENHOR É AMERICANO

O mundo desnuda

suas feridas. Ele fere. Este Pai-

Sua memória, rasgada

nuvens: tempo do esquecimento.

A bondade de Deus lambe

tigelas até ficarem impecáveis. Nossos dedos

recolhem migalhas do ar.

Somos crianças famintas

abandonadas por nosso país

por bombas. Pelo brilho vermelho dos foguetes. Como

poderíamos ser patriotas?

Meu pai é minha bandeira.

 

O hino nacional é

cada palavra, cada simples palavra

que minha mãe não podia sussurrar-

não podia dizer,

não podia dizer:

seu pai a colonizou.

Fez sua mãe amarga de ciúme.

Não podia dizer: ela não pode ficar

Neste mundo de toques.

Ele mutila.

Ele elege o mal.

Ele é de dois gêneros.

Ele se ajoelha no domingo.

O Senhor é

americano &

aponta Seu rifle

para nós. Seus filhos

que antes eram mendigos

viraram guerrilheiros.

Ilustração: CNN Portugal. 


Wednesday, April 15, 2026

Ho Sceso, Dandotu Il Braccio

 


               HO SCESO, DANDOTU IL BRACCIO

Eugenio Montale

Ho sceso, dandoti il braccio, almeno un milione di scale
e ora che non ci sei è il vuoto ad ogni gradino.
Anche così è stato breve il nostro lungo viaggio.
Il mio dura tuttora, nè più mi occorrono
le coincidenze, le prenotazioni,
le trappole, gli scorni di chi crede
che la realtà sia quella che si vede.

Ho sceso milioni di scale dandoti il braccio
non già perché con quattr'occhi forse si vede di più.
Con te le ho scese perché sapevo che di noi due
le sole vere pupille, sebbene tanto offuscate,
erano le tue.

DESCI DANDO-TE O BRAÇO

Desci um milhão de degraus, dando-te o meu braço,

e agora que não estás aqui, cada degrau está vazio.

Mesmo assim, foi breve a nossa longa viagem.

A minha ainda dura, e já não preciso

das coincidências, das reservas,

das armadilhas, do desprezo dos que creem

que a realidade é aquela que se vê.

Desci milhões de degraus, oferecendo-te o meu braço,

não porque talvez com quatro olhos se possa ver mais.

Desci-os contigo porque sabia que entre nós,

os únicos olhos verdadeiros, por mais embaçados que fossem,

eram os teus.

Ilustração: Unsplash. 


Penelope's Song de Louise Glück

 


                                 PENELOPE’S SONG

Louise Glück

Little soul, little perpetually undressed one,
Do now as I bid you, climb
The shelf-like branches of the spruce tree;
Wait at the top, attentive, like
A sentry or look-out. He will be home soon;
It behooves you to be
Generous. You have not been completely
Perfect either; with your troublesome body
You have done things you shouldn't
Discuss in poems. Therefore
Call out to him over the open water, over the bright
Water
With your dark song, with your grasping,
Unnatural song-passionate,
Like Maria Callas. Who
Wouldn't want you? Whose most demonic appetite
Could you possibly fail to answer? Soon
He will return from wherever he goes in the
Meantime.

A CANÇÃO DE PENELOPE

Alminha, pequena perpetuamente despida,

Faz agora como eu lhe peço, suba

Os galhos finos do abeto;

Espera no topo, atenta, como

Uma sentinela ou vigia. Ele cedo chegará em casa;

Convém que sejas

Generosa. Ainda que não tenha sido completamente

Perfeita; com seu corpo problemático,

Fez coisas que não deveria

Discutir em poemas. Portanto,

Chame-o sobre a água aberta, sobre a água clara

Com sua canção sombria, com tua sôfrega

Canção antinatural - apaixonada,

Como Maria Callas. Quem

Não a queria? A que apetite mais demoníaco

Poderia deixar de satisfazer? Logo

Ele regressará do lugar onde foi

Entretanto.

Ilustração: Mitologia Grega. 


Tuesday, April 14, 2026

Quiero Estar Em Tu Sueño

 


QUIERO ESTAR EM TU SUEÑO

Julia Prilutzky

Quiero estar en tu sueño. Ser tu sueño.
Penetrar más allá de lo que advierte
la mirada sutil. Como beleño
recorrer, galopar tu sangre inerte.

Quiero quebrar con definido empeño
toda defensa en ti: muralla, fuerte:
y adentrarme, crisálida de ensueño
más allá de tu vida y de tu muerte.

Más allá de tu piel, y más adentro
de toda sombra, y más allá del centro
desconocido, virgen, tembloroso...

Y estar dentro de ti -seguro puerto-
como un paradojal milagro cierto,
presentido a la vez que pavoroso.

QUERO ESTAR NO TEU SONHO

Quero estar no seu sonho. Ser o teu sonho.

Penetrar mais além do que adverte

o olhar sutil. Como cardo-beleno,

percorrer, galopar pelo seu sangue inerte.

 

Quero quebrar com definido afinco

toda defesa em ti: muralha forte:

e adentrar, um casulo onírico

mais além da tua vida e da tua morte.

 

Além da tua pele, e mais adentro

que toda sombra, e além do centro

desconhecido, virgem e temeroso...

 

E estar dentro de ti-um seguro porto-

como um milagre paradoxal e certo,

pressentido, porém pavoroso.

Ilustração: Drops do Cotidiano.

Uma poesia de Antonia Pozzi

 


LAMPI

Antonia Pozzi
Stanotte un sussultante cielo
malato di nuvole nere
acuisce a sprazzi vividi
il mio desiderio insonne
e lo fa duro e lucente
come una lama d’acciaio.

RELÂMPAGOS

Esta noite um tremulante céu

adoentado por nuvens negras

aguça em vívidos flashes

o meu desejo insone

e o faz duro e brilhante

como uma lâmina de aço.

Ilustração: Olhar Digital.