Saturday, February 14, 2026

DECISÃO



Este carnaval me pede, 

me exige uma máscara

para esconder meus desejos. 

No entanto, no cotidiano,

são tantos já os mascarados

que nada mais é possível esconder. 

Largo a fantasia no guarda-roupa. 

Da bebida e da ressaca a decisão me poupa. 

Decido: não vou brincar. 

E tomo uma decisão para valer:

não vou passar nenhum carnaval mais 

longe de você!

Ilustração: Visão. 

 

Outra poesia de Michel Houellebecq

 


L EST VRAI

Michel Houellebecq

Il est vrai que ce monde où nous respirons mal

N'inspire plus en nous qu'un dégoût manifeste,

Une envie de s'enfuir sans demander son reste,

Et nous ne lisons plus les titres du journal.

 

Nous voulons retourner dans l'ancienne demeure

Où nos pères ont vécu sous l'aile d'un archange,

Nous voulons retrouver cette morale étrange

Qui sanctifiait la vie jusqu'à la dernière heure.

 

Nous voulons quelque chose comme une fidélité,

Comme un enlacement de douces dépendances,

Quelque chose qui dépasse et contienne l'existence ;

Nous ne pouvons plus vivre loin de l'éternité.

É VERDADE

É verdade que este mundo onde respiramos mal

Só inspira em nós um desgosto manifesto,

Um desejo de fugir sem esperar pelo resto,

E já não lemos as manchetes dos jornais.

 

Queremos regressar à antiga morada

Onde nossos pais viveram sob a proteção de um arcanjo,

Queremos recobrar essa moral estranha

Que até o último instante santifique a vida

 

Queremos qualquer coisa como uma fidelidade,

Como um abraço de doces dependências,

Qualquer coisa que supere e contenha a existência;

Não podemos mais viver longe da eternidade.

Ilustração: Mentes Bereanas. 


Um poema de Olivier Herrera Marín

 



ERAS TÚ  

Olivier Herrera Marín

No eres el sol,
ni eres la luna,
eres TÚ y me basta.

Para soñarte,
para amarte
más que a mi vida.

ERAS TU

Não eras o sol,

nem eras a llua,

Eras TU e me basta.

Para sonhar contigo,

para te amar

mais do que a minha vida.

Ilustração: O Globo.

 

 

 

Thursday, February 12, 2026

De volta Rita Indiana

 



LA VOLA UNTÁ DE PODER

Rita Indiana

yo admiro a la gente shoppenauer

que caen parao

como la gatúbela

con uñas de acero a lo maco

son prototipos de DIVAs

con un podólogo de guardaespaldas

uno sólo les ve el celaje

cuando pasan jugando "chicken" a 200

de riversa

para escuchar la voz de zaratustra.

A MOSCA UNTADA DE PODER

Eu admiro as pessoas consumidoras

Que caem de pé

como a mulher-gato

com pregos de aço de cadeia

são protótipos de DIVAs

com um podólogo de guarda-costas

que só veem as nuvens

quando passam jogando "galinha" a 200

caindo de costas

para ouvir a voz de Zaratustra

Ilustração: Ei Nerd. 

Wednesday, February 11, 2026

Eis Michel Houellebecq

 


EXISTER, PERCEVOIR

Michel Houellebecq

Exister, percevoir,

Être une sorte de résidu perceptif (si l’on peut dire)

Dans la salle d’embarquement du terminal Roissy 2D,

Attendant le vol à destination d’Alicante

Où ma vie se poursuivra

Pendant quelques années encore

En compagnie de mon petit chien

Et des joies (de plus en plus brèves)

Et de l’augmentation régulière des souffrances

En ces années qui précèdent immédiatement la mort.

EXISTIR, PERCEBER

Existir, perceber

Ser assim uma espécie de resíduo perceptivo (se assim podemos dizer)

Na sala de embarque do terminal Roissy 2D,

Esperando um voo com destinação à Alicante

Onde minha vida continuará

Uns poucos anos ainda

Na companhia de meu cachorrinho

E alegrias (cada vez mais breves)

E do aumento regular de meus sofrimentos

Nos anos que precedem imediatamente à morte

Ilustração: Instituto Life Fullness.

Tuesday, February 10, 2026

Blues Del Cementerio de Antonio Gamoneda

 


BLUES DEL CEMENTERIO

Antonio Gamoneda

Conozco un pueblo -no lo olvidaré-
que tiene un cementerio demasiado grande.
Hay en mi tierra un pueblo sin ventura
porque el cementerio es demasiado grande.
Sólo hay cuarenta almas en el pueblo.
No sé para qué tanto cementerio.

Cierto año la gente empezó a irse
y en muchas casas no quedaba nadie.
El año que la gente empezó a irse
en muchas casas no quedaba nadie.
Se llevaban los hijos y las camas.
Tenían que matar los animales.

El cementerio ya no tiene puertas
y allí entran y salen las gallinas.
El cementerio ya no tiene puertas
y salen al camino las ortigas.
Parece que saliera el cementerio
a los huertos y a las calles vacías.

Conozco un pueblo. No lo olvidaré.
Ay, en mi tierra sin ventura,
no olvidaré a mi pueblo.

¡Qué mala cosa es haber hecho
un cementerio demasiado grande!

BLUES DO CEMITÉRIO

Conheço uma cidade- não a esquecerei-

Que tem um cemitério demasiadamente grande.

Há na minha terra uma cidade sem ventura

Porque o cemitério é demasiadamente grande.

Só há quarenta almas na cidade.

Não sei para que tanto cemitério.

 

Certo ano as pessoas começaram a ir-se

E, em muitas casas, não restou ninguém.

O ano em que as pessoas começavam a ir-se

em muitas casas, não restou ninguém.

Levaram os seus filhos e as camas.

Tinham que matar os animais.

 

O cemitério já não tem portas

e ali entram e saem as galinhas.

O cemitério já não tem portas

e saem no caminho as urtigas.

Parece que sairá o cemitério

para as hortas e ruas vazias.

 

Conheço uma cidade. Não a esquecerei.

Aí! Em minha terra sem ventura,

não esquecerei minha cidade.

Que coisa ruim é haver feito

um cemitério demasiado grande!

Ilustração: Coroa de Flores Brasil.

Monday, February 09, 2026

Uma poesia de Pierre Alferi

 


Pierre Alferi

3. une image moins nette
que le fond : un visage qui se tourne
le mouvement du visage, son image arrêtée
prélevée, pour faire face
le regard qui se pose mais non
le regard posé, la traînee du regard balayant
une portion de disque, on ne sait pas encore
s’il se pose. L’image prise
de la circulation la relance
a besoin de reprises et comme elle
elle exige que plusieurs mouvements, droite et
courbe décrites d’un jet, se composent pour la
décrire. Cette image
est l’image retenue.

3. Uma imagem menos nítida

do que o fundo: um rosto virando

o movimento do rosto, sua imagem congelada

capturada, para encarar

o olhar que se fixa, mas não

o olhar fixo, o rastro do olhar varrendo

uma porção do disco, ainda não sabemos

se ele se fixa. A imagem capturada

da circulação, do relançamento

precisa de repetições e, como tal,

requer que vários movimentos, retos e

curvos, descritos de uma só vez, se componham para

descrevê-la. Esta imagem

é a imagem retida.

Ilustração: Olhar Digital.

Sunday, February 08, 2026

Soneto XXX de Pablo Neruda

 


SONETO XXX

Pablo Neruda

Tienes del archipiélago las hebras del alerce,

la carne trabajada por los siglos del tiempo,

venas que conocieron el mar de las maderas,

sangre verde caída de cielo a la memoria.

 

Nadie recogerá mi corazón perdido

entre tantas raíces, en la amarga frescura

del sol multiplicado por la furia del agua,

allí vive la sombra que no viaja conmigo.

 

Por eso tú saliste del Sur como una isla

poblada y coronada por plumas y maderas

y yo sentí el aroma de los bosques errantes,

 

hallé la miel oscura que conocí en la selva,

y toqué en tus caderas los pétalos sombríos

que nacieron conmigo y construyeron mi alma.

SONETO XXX

Tens do arquipélago os ramos do lariço

a carne trabalhada pelos séculos do tempo,

veias que conheceram o mar das madeiras,

sangue verde caído do céu na memória.

 

Ninguém recolherá meu coração perdido

entre tantas raízes, na amarga frescura

do sol multiplicado pela fúria da água,

vive a sombra que não viaja comigo.

 

Por isso tu saíste do Sul como uma ilha

povoada e coroada de plumas e madeiras

e eu senti o aroma das florestas errantes,

 

achei o mel escuro que conheci na selva,

e toquei em teus quadris as pétalas sombrias

que nasceram comigo e construíram minha alma.

Ilustração: CONTI outra.


Outra poesia de Svetlana Cârstean

 



Svetlana Cârstean

a quién temerías más
al que sabe con exactitud a quién matar
al que elige aleatoriamente
o al que mata a cualquiera
que se ponga delante de su objetivo

me pregunto si se puede entender un país mirando solo
a través
de una ventana
si se puede conocer a una familia amando solo a uno
de sus hijos.

A quem temerás mais?

Ao que sabe exatidão a quem matar

Ao que elege aleatoriamente?

Ou ao que mata a qualquer um

que se ponha diante do seu objetivo?

me pergunto se é possível entender um país olhando só

através

de uma janela

se se pode conhecer a uma família amando só um

a um de seus filhos?

Ilustração: Reddit. 

Um poema de Abdellatif Laâbi




REALITÉ

Abdellatif Laâbi 

Me voici de nouveau dans ma banlieue

Cette maison

que je changerai encore pour une autre

La pièce où je ne m’enferme plus pour écrire

(je ne suis pas à une contradiction près)

Ce que m’offre ma fenêtre

un bout de rue

où passent plus de voitures que de piétons

Un pan de ciel opaque

si bas

que les oiseaux s’y cognent les ailes

Sur mon bureau

les lettres se sont entassées

Sous mon coude

des poèmes inachevés

À côté

la machine à laver tourne

fait disparaître de mes habits

l’odeur du voyage

Voici que le téléphone sonne

Tel un automate

je tends la main

et me rends à la réalité

REALIDADE

Eis-me de novo aqui no meu bairro

Esta casa

que irei trocar por uma outra

O quarto onde já não me interno para escrever

(Não me importo com contradições)

O que me oferece minha janela

um trecho de rua

onde passam mais carros do que pedestres

Um pedaço de céu cerrado

tão baixo

que os pássaros batem as asas nele

Na minha mesa

cartas se amontoam

Sob o meu cotovelo

poemas inacabados

Ao lado

a máquina de lavar gira

fazendo desaparecer das minhas roupas

o odor das viagens

E agora o telefone está tocando

Como um autômato

Ilustração: Editora Ultimato. 


Saturday, February 07, 2026

Uma poesia de Svetlana Cârstean

 


Svetlana Cârstean

no estoy preparada separarme de nadie
tengo una opción noción inflexible sobre la cercanía
mi cuerpo se inclina en la dirección de donde tú vienes

Não estou preparada para me separar de nada

tenho uma opção da noção inflexível sobre a proximidade

meu corpo se inclina na direção de onde tu vens

E, outra vez, Patrizia Cavalli

 


Patrizia Cavalli

Io per guarirmi dei miei noiosi amori

ascolto i noiosissimi racconti

di altri amori. Pur nella noia

il dolore è vero, ma per un po’ lo vedo

in queste storie simili, irreale,

e mi sottraggo al mio perché è uguale.

 

Pensando a questo mi pento e mi vergogno

di aver sforzato con parole e pianti

i cuori calmi di chi mi stava intorno.

Ora capisco che è una presunzione

con abitanti di climi temperati

parlare di ghiacciai e di amazzonie.

 

Eu para me guardar dos meus amores enfadonhos,

escuto as histórias igualmente enfadonhas

de outros amores. Pois mesmo no tédio,

a dor é real, mas por um instante a vejo

nessas histórias semelhantes, irreais,

e me afasto da minha própria porque é igual.

 

Pensando na questão me lamento e me envergonho

de ter pressionado com palavras e lágrimas

os corações tranquilos dos que estavam no entorno.

Agora compreendo que é presunçoso

com habitantes de climas temperados

falar de geleiras e da Amazônia.

Uma poesia de Martin Prieto

 


UNA CANCIÓN 

Martin Prieto

Las plantas de lechuga,

húmedas por la lluvia de la noche anterior, verdes

contrastan en un paisaje acostumbrado

al maíz, al trigo y a la pastura.

Las mujeres no hornean, como antes el pan:

duermen a esta hora y sueñan con hombres elegantes

que las pasean en auto descapotados,

que les señalan, al cruzar el puente,

esos cuerpos encorvados y rústicos,

casi imperceptibles por la niebla,

que recogen y encajonan plantas de lechuga,

al amanecer.

UMA CANÇÃO

As alfaces,

úmidas pela chuva da noite anterior, verdes

contrastam com uma paisagem acostumada

ao milho, ao trigo e aos pastos.

As mulheres não assam como antes o pão:

dormem a esta hora e sonham com homens elegantes

que as levam para passear em conversíveis,

que apontam, ao atravessarem a ponte,

esses corpos curvados e rústicos,

quase imperceptíveis na neblina,

que colhem e ensacam alfaces,

ao amanhecer.

Ilustração: Canal do Horticultor.