Tuesday, October 13, 2026

A Inglória Dança da Vida (The Inglorious Dance Of Life).

 

  
                     A INGLÓRIA DANÇA DA VIDA

Silvio Persivo

Se formos pensar

Em tudo que existe nada nos importa

E, no fim, tudo pesa

Como uma folha ao vento.

Mundo passageiro

Como um sonho breve

Ou um jogo ligeiro.

 

Nada levamos desta vida.

Seja a glória, a fama, amor, dinheiro.

É tudo apenas uma memória momentânea

Como a lembrança

De uma partida bem jogada.

O vão contentamento, depois o nada.

 

A glória pesa como um fardo.

A fama, uma febril ilusão.

O amor, no final, uma prisão.

O dinheiro, um logro mascarado

de termos feito um jogo bem jogado.

 

A vida, no entanto, joga xadrez

conosco como uma inteligência artificial:

é impossível ganhar no final.

O xeque mate nos foi dado no nascimento,

no momento da primeira jogada.

Devemos felizes nos sentir pelo jogo,

aproveitar os dias

e mais nada.

 

E é verdade que, alguns,

por meio da ciência, ou pelo vinho,

pensam ter, por breves momentos,

a sensação de vitória.

Porém logo a morte ou a idade

encerra o sentimento de felicidade.

Os sinos dobram,

as sombras chamam por nós:

cala-se a voz.

 

Talvez, por algum tempo,

fique a lembrança.

O sonho, no entanto,

já se foi,

depois se vai, no tempo, a memória

e o jogo se esvai e se destrói,

com as peças retiradas,

para a vala comum do esquecimento

ou desfeitas pelo pó do tempo.

Goza, pois o que te resta é o momento!

THE INGLORIOUS DANCE OF LIFE

If we stop to think

About all that exists, nothing truly matters

And, in the end, everything weighs

No more than a leaf in the wind.

A fleeting world,

Like a brief dream

Or a quick game.

 

We take nothing from this life-

Be it glory, fame, love, or money.

It is all merely a momentary memory,

Like the recollection

Of a well-played match.

 Vain contentment, followed by nothingness.

 

Glory weighs heavy like a burden.

Fame is a feverish illusion.

Love, in the end, a prison.

Money, a deception masked

As having played the game well.

 

Life, however, plays chess

Against us like an artificial intelligence:

It is impossible to win in the end.

Checkmate was dealt to us at birth,

At the moment of the opening move.

We should find happiness in the game,

Savor the days,

And nothing more.

 

And it is true that some,

Through science or through wine,

Think they hold, for brief moments,

The sensation of victory.

Yet soon, death or old age

Brings that feeling of happiness to an end.

The bells toll,

The shadows call to us:

The voice falls silent.

 

Perhaps, for a time,

The memory lingers.

The dream, however,

Is already gone;

Then, in time, the memory fades,

And the game dissolves and falls apart-

The pieces swept away

To the common grave of oblivion

Or undone by the dust of time.

Rejoice, for the moment is all that remains!

 




A poesia de Fosca Massuco

 

                                       Fosca Massucco 

Immersa in una tonale di gioia, io trionfo

incessante negli anditi riverberanti dell’anima

come un crine ebbro di pece sulla corda.

 

Il dolore è silenzio del tono puro

per distratta sottrazione.

 

Imersa numa tonalidade de alegria, eu triunfo

incessante no andamento reverberante da alma

como um fio de cabelo ébrio de breu numa corda.

 

A dor é o silêncio do tom puro

pela distraída subtração.

Ilustração: Violino-Arte e Técnica. 



Eis a poesia de Lila Calderón

 


                                              HABLAS
                                             (Fragmento)

 Lila Calderón

El personaje está perdido
HABLAS       le preguntan
hablo y leo y pienso responde
y sé hacer música                    quiero saber
dónde estaban esos conocimientos
cómo me hiciste con quiénes
Soy malo o bueno                   y duda
Eran materiales    sólo materiales
responde Víctor Frankenstein
ante la impertinencia de su maniquí
Y sin embargo más tarde
el monstruo
dice haber terminado con la humanidad
y muere digno ante la muerte de su padre

 FALAS

(Fragmento)

O personagem está perdido

FALAS   lhe    perguntam

falo e leio e penso responde

e sei fazer música                    quero saber

onde estavam esses conhecimentos

como me fizeste com quem

Sou mau ou bom                   e dúvida

Eram materiais    só materiais

responde Victor Frankenstein

diante da impertinência de seu manequim

E, sem embargo, mais tarde

o monstro

diz haver terminado com a humanidade

e morre digno diante da morte de seu pai.

Ilustração: Isto É Dinheiro. 


The Windhover de Gerard Manley Hopkins

 

THE WINDHOVER

Gerard Manley Hopkins

To Christ Our Lord
I CAUGHT this morning morning’s minion, king- 
  dom of daylight’s dauphin, dapple-dawn-drawn Falcon, in his riding 
  Of the rolling level underneath him steady air, and striding 
High there, how he rung upon the rein of a wimpling wing 
In his ecstasy! then off, off forth on swing,
  As a skate’s heel sweeps smooth on a bow-bend: the hurl and gliding 
  Rebuffed the big wind. My heart in hiding 
Stirred for a bird, – the achieve of; the mastery of the thing! 
 
Brute beauty and valour and act, oh, air, pride, plume, here 
  Buckle! AND the fire that breaks from thee then, a billion
Times told lovelier, more dangerous, O my chevalier! 
 
  No wonder of it: shéer plód makes plough down sillion 
Shine, and blue-bleak embers, ah my dear, 
  Fall, gall themselves, and gash gold-vermillion.

O PENEIRADOR

A Cristo, Nosso Senhor

Capturei hoje de manhã o favorito da manhã, o príncipe

herdeiro do reino da luz do dia, o Falcão traçado pela alvorada mosqueada, em seu planar

Sobre o ar firme e nivelado que rolava sob ele, e avançando

Lá no alto, como ele girava sobre as rédeas de uma asa ondulante

Em seu êxtase! Depois, partindo, lançando-se num balanço,

Como a lâmina de um patim desliza suave numa curva: o impulso e o planar

Desafiavam o vento forte. Meu coração, antes oculto,

Agitou-se por uma ave - pela proeza, pela maestria daquela criatura!

 

Beleza bruta, valor e ação- oh, ar, orgulho, plumagem -aqui

Convergem com força! E o fogo que então de ti irrompe, bilhões

De vezes mais belo e perigoso, ó meu cavaleiro!

 

Não é de se estranhar: o puro esforço faz o arado, no sulco,

Brilhar, e brasas azuladas e frias - ah, meu caro-

Caem, ferem-se e rasgam-se em tons de ouro e vermelhão.

Ilustração: São Carlos em rede.


Monday, October 12, 2026

Enquanto Átropos Não Usa a Tesoura (While Atropos Does Not Wield The Shears)

 


        ENQUANTO ÁTROPOS NÃO USA A TESOURA

Silvio Persivo

Quando a razão nos acena, silente,
com a sombra de Átropos à nossa frente,
a mais temida das filhas da Noite,
que encerra o destino sem alarde ou açoite;

 

quando Láquesis, com mãos soberanas,
mede os dias, as horas, as semanas,
do fio que Cloto, em seu fuso, teceu,
percebemos, enfim, o que a vida nos deu.

 

E treme a alma, ante o esquecimento,
quando mais desejamos deter o momento;
quando ainda há caminhos, vertigens, calor,
e tanto a descobrir nas entranhas do amor.

 

Que estranho destino: saber que há um fim
e, ainda assim, guardar primaveras em mim;
buscar na alegria o que a dor não desfez,
e amar como se fosse a primeira vez.

 

Pois, se a tesoura já ronda o tecido,
que não nos encontre do sonho esquecido;
que o último fio, ao romper-se, afinal,
nos surpreenda vivendo-e não sofrendo o final.

 

WHILE ATROPOS DOES NOT WIELD THE SHEARS

When reason silently beckons us,

with the shadow of Atropos looming ahead-

the most feared of the daughters of Night,

who brings destiny to a close without fanfare or lash;

 

when Lachesis, with sovereign hands,

measures the days, the hours, and the weeks

of the thread that Clotho spun on her spindle,

we finally grasp what life has bestowed upon us.

 

And the soul trembles at the thought of oblivion,

precisely when we most wish to hold back the moment;

when paths, dizzying heights, and warmth still remain,

and there is so much to discover in the depths of love.

 

What a strange destiny: to know there is an end

and yet, to harbor springs within myself;

to seek in joy what pain could not undo,

and to love as if it were the very first time.

 

For if the shears are already hovering near the fabric,

may they not find us having forgotten our dreams;

may the final thread, when it snaps at last,

find us living-and not merely suffering-the end.

Ilustração: Instagram. 


Debout de Blaise Cendrars

 

DEBOUT
Blaise Cendrars

La nuit s’avance
Lê jour commence à poindre
Un fenêtre s’ouvre.
Un homme se penche a dehors en fredonnant.
Il est en brás de chemise et regarde de par le monde.
Le vent murmure doucement comme une tête bourdonnante.

DE PÉ

A noite avança

O dia começa a amanhecer

Uma janela se abre.

Um homem se debruça para fora, cantarolando.

Ele está de mangas de camisa e olha o mundo.

O vento murmura docemente, como uma cabeça borbulhando.

Ilustração: El Hombre. 

                                                  

É Pierluigui Cappello

 


                                      Pierluigui Cappello

Scrivere come sai dimenticare,

scrivere e dimenticare.

 

Tenere un mondo intero sul palmo

e dopo soffiare.

 

Escreva como sabe esquecer,

escreva e esqueça.

 

Tenha um mundo inteiro na palma da sua mão

e depois sopre.

Ilustração: Dreamstime. 


Deshora de Eduardo Mitre

 


DESHORA

Eduardo Mitre

                                  polvo serán, mas polvo enamorado.
                                  
Francisco de Quevedo

La cercanía infranqueable entre sus cuerpos.
Un puente de miradas donde se cruzan
y se separan.
En sus labios:
un vaivén de palabras o de silencios
-no la lenta fragua del beso.
No el hondo goce
ni la dicha tersa
de las desnudeces enlazadas:
sólo el roce eléctrico
de los muslos que se adivinan.

Sólo el asombro de conocerse
en la esquina
de los tardíos encuentros.

Y el sueño donde quizá se poseen
al lado
de otro cuerpo que duerme.

Y el carbón del deseo
que ha de volverse sin duda
puro diamante

al precio de no haber sido nunca
los dos el mismo leño
la húmeda llama
en el lecho
de esta única vida.

HORA TARDIA

                                                 serão pó, mas pó apaixonado.

                                                 Francisco de Quevedo

 

A proximidade intransponível entre seus corpos.

Uma ponte de olhares onde se cruzam

e se separam.

Nos lábios:

um vai e vem de palavras ou de silêncios

-não a lenta forja do beijo.

Não o profundo gozo

nem a sorte limpa

das nudezes enlaçadas:

só o roçar elétrico

das coxas que se adivinham.

 

Só o espanto de se conhecerem

na esquina

dos encontros tardios.

 

E o sonho talvez de que se possuam

ao lado

de outro corpo que dorme.

 

E a brasa do desejo

que há de se tornar, sem dúvida,

puro diamante

 

ao preço de nunca terem sido

os dois o mesmo lenho,

a chama úmida

no leito

desta vida única.

Ilustração: Fast Company Brasil.


Tuesday, October 06, 2026

Canção de Fim de Tarde (Late Afternoon Song)

 


                         CANÇÃO DE FIM DE TARDE

Silvio Persivo

É fim de tarde,

o céu uma taça rosê

E a cor da maré

imita frios de prata

caídos do sol,

desmanchados no ar

em tons de mil cores

simulando flores.

A lua amarela

se introduz

tão bela

num rastro de luz

salpicando as águas do mar

o vento frio demais

arrepia os casais

aos beijos na luz do luar.

Perdi a conta das doses

se não me embriaguei

vou me embriagar

querendo esquecer

o imenso desejo

de correr para te beijar.

Mas, coragem não vejo

e fico aqui, tão covarde,

pensando em ti

neste fim de tarde.

LATE AFTERNOON SONG

It is late afternoon,

the sky a rosé goblet,

and the color of the tide

mimics cold silver

spilled from the sun,

dissolving in the air

in a thousand hues

resembling flowers.

The yellow moon

enters the scene,

so beautiful,

in a trail of light

speckling the sea waters;

the biting wind

sends shivers through couples

kissing in the moonlight.

I’ve lost count of the drinks;

if I haven’t gotten drunk yet,

I soon will,

trying to forget

the immense desire

to run and kiss you.

But I find no courage,

so I stay here, such a coward,

thinking of you

in this late afternoon.

Ilustração: Dreamstime. 


The Soul Selects Her Own Society (303) by Emily Dickinson

 


THE SOUL SELECTS HER OWN SOCIETY (303)

Emily Dickinson

The Soul selects her own Society-
Then- shuts the Door-
To her divine Majority-
Present no more-

 

Unmoved-she notes the Chariots- pausing-
At her low Gate-
Unmoved- an Emperor be kneeling
Upon her Mat-

 

I've known her-from an ample nation-
Choose One-
Then-close the Valves of her attention-
Like Stone-

A ALMA ESCOLHE SUA PRÓPRIA COMPANHIA (303)

A Alma escolhe sua própria companhia-

Então-fecha a porta-

À sua divina maioria-

Já não mais presente-

 

Inamovível- ela nota as carruagens- pausando-

No seu humilde portão-

Inamovível- um Imperador a ajoelhar-se

Sobre o seu tapete-

 

Eu a tinha visto-diante de uma ampla nação-

Escolher um-

Então-fechou as válvulas da sua atenção-

Como pedra-

Ilustração: Pousada Alto da Boa Vista. 




Mais uma vez Ángel Guinda

 

 YO ME ACUSO

Ángel Guinda

Atravesado por un rayo de sombra,
como todos los jóvenes, yo vine
a que se me llevara la vida por delante.
He pasado de largo, callé, cerré los ojos:
¡en nombre de vuestra generación yo me acuso!
Si escribo para nada, para nadie,
me sobra la palabra.
Si el padecer no es vivir,
el mundo está mal hecho,
cualquier tiempo pasado fue peor,
y me conformo;
si no echo abajo el cielo a puñetazos,
si no rompo la luz ni rasgo el aire,
si hiedo y trago tanta podredumbre,
estoy muerto: matadme una vez más.

EU ME ACUSO

Atingido por um raio de sombra,

como todos os jovens, eu vim

para deixar a vida me levar adiante.

Passei ao largo, calei, fechei os olhos:

em nome da sua geração, eu me acuso!

Se escrevo para nada, para ninguém,

me sobram palavras.

Se o padecer não é viver,

o mundo está mal feito,

qualquer tempo passado foi pior,

e me conformo;

se não ponho abaixo o céu com meus punhos,

se não rompo a luz nem rasgo o ar,

se fedo e trago tanta podridão,

estou morto: mata-me uma vez mais.

Ilustração: Jaime Wagner. 

Thursday, October 01, 2026

The Crocodile de Lewis Carroll

 

 

THE CROCODILE

Lewis Carroll

How doth the little crocodile
     Improve his shining tail,
And pour the waters of the Nile
     On every golden scale!

 

How cheerfully he seems to grin,
     How neatly spreads his claws,
And welcomes little fishes in,
     With gently smiling jaws!

O CROCODILO

Como faz o pequeno crocodilo

Aprimora sua brilhante cauda,

E derrama as águas do Nilo

Sobre cada escama dourada!

 

Com que parece sorrir alegremente,

Com que esmero estende as garras,

E acolhe os peixinhos docemente,

Com um sorriso suave nas mandíbulas!

Ilustração: DephositPhotos. 



Tuesday, September 29, 2026

Esperança, Meu Amor, Esperança (Hope, My Love, Hope)

 



ESPERANÇA, MEU AMOR, ESPERANÇA

Silvio Persivo

Há algo dentro de mim

Que, mesmo quando o frio me faz tremer

E a escuridão encobre todo sinal de luz

Que me lembra do sol, do calor, do amor

Que sei que virão um dia.

É, pode até ser ilusão,

Mas, ainda creio

Que voarei sem receio na amplidão

Como um pássaro que sabe a direção

Nem que seja a última coisa da vida

Para te entregar meu coração,

Minha querida!

HOPE, MY LOVE, HOPE

There is something within me

That-even when the cold makes me shiver

And darkness veils every sign of light-

Reminds me of the sun, the warmth, the love

That I know will come one day.

Yes, it might even be an illusion,

But I still believe

That I will fly unafraid across the vast expanse

Like a bird that knows the way-

Even if it is the last thing I do in life-

To give you my heart,

My beloved!