Sunday, August 23, 2026

Charles Bukowski em seu estado quase normal

 

HERE I AM

Charles Bukowski

drunk again at 3 a.m. at the end of my 2nd bottle
of wine, I have typed from a dozen to 15 pages of
poesy
an old man
maddened for the flesh of young girls in this
dwindling twilight
liver gone
kidneys going


pancrea pooped
top-floor blood pressure 

AQUI ESTOU EU

bêbado de novo às 3 da manhã, no fim da minha segunda garrafa

de vinho; eu digitei de uma dúzia a 15 páginas de

poesia

um homem velho

enlouquecido pela carne de moças jovens neste

crepúsculo minugante

o fígado já era

os rins já se foram

o pâncreas pifado

e a pressão arterial lá nas alturas

Ilustração: Xico Sá-UOL.

 


"A Veces" de Nicolás Guillén

 


A VECES

Nicolás Guillén

A veces tengo ganas de ser un cursi

para decir: La amo a usted con locura.

A veces tengo ganas de ser tonto

para gritar: ¡La quiero tanto!

A veces tengo ganas de ser un niño

para llorar acurrucado en su seno.

A veces tengo ganas de estar muerto

para sentir, bajo la tierra húmeda de mis jugos,

que me crece una flor rompiéndome el pecho,

una flor, y decir: Esta flor,

para usted.

ÀS VEZES

Às vezes tenho vontade de ser piegas

para dizer: te amo com loucura.

Às vezes tenho vontade de ser tonto

gritar: Te amo tanto!

Às vezes tenho vontade de ser uma criança

para chorar encolhida no seu seio.

Às vezes tenho vontade de estar morto.

para sentir, sob a terra úmida dos meus sucos,

que me cresce uma flor cresce rompendo-me o peito,

uma flor, e dizer: Esta flor,

para você.

Ilustração: Vecteezy.


Saturday, August 22, 2026

Ode ao Vinho (Ode To Wine)

 


                                  ODE AO VINHO

Silvio Persivo

Há um dia em que se calarão os desejos. 

Hoje não.

Hoje preciso, necessito, urgente

De teus beijos, de teu corpo,

De sentir de novo a sensação

De que o amor não é uma ilusão.

 

E sôfrego conseguir chegar a algo,

Deixar crescer a flor da pele

O desejo guardado

Que vem assim louco, desesperado,

Em paixão aflorar

E satisfeito e calmo estar.

 

Sei que fui,

Que vou além do que devia,

Mas, amor, o amor é uma agonia,

Desembrulhando as emoções inesperadas

Que são espalhadas em suor, manchas, lençóis

E deixam marcas eternas em nós.

 

A névoa brinca com a clareza.

Pode ser que a vida seja

Um caminho de luz

Perdido na noite escura.

Limito minha procura

Ao prazer do instante.

Nada de pensar no adiante

Nem antecipar o gozo ou a tristeza.

 

Cada momento tem sua própria beleza

Como o vinho que bebemos nesta mesa.  

ODE TO WINE

There will come a day when desires fall silent.

Not today.

Today I need-urgently need-

Your kisses, your body,

To feel once more the sensation

That love is no illusion.

 

And, breathless, to reach that point,

To let the flower of desire

Bloom upon the skin-

That pent-up longing, wild and desperate,

Bursting forth in passion,

Finding calm and fulfillment.

 

I know I have gone-

That I go-beyond what I should,

But, my love, love is an agony,

Unfolding unexpected emotions

Scattered in sweat, stains, and sheets,

Leaving eternal marks upon us.

 

Mist plays with clarity.

Life may well be

A path of light

Lost in the dark of night.

I limit my quest

To the pleasure of the moment.

No thinking of what lies ahead,

No anticipating ecstasy or sorrow.

 

Each moment holds its own beauty

Like the wine we drink at this table.

Ilustração: Facebook.


"Dream Variations" de Lanfston Hughes



DREAM VARIATIONS

Langston Hughes

To fling my arms wide

In some place of the sun,

To whirl and to dance

Till the white day is done.

Then rest at cool evening

Beneath a tall tree

While night comes on gently,

    Dark like me-

That is my dream!

 

To fling my arms wide

In the face of the sun,

Dance! Whirl! Whirl!

Till the quick day is done.

Rest at pale evening . . .

A tall, slim tree . . .

Night coming tenderly

    Black like me.

VARIAÇÕES DE SONHO

Para colocar meus braços longos

Em algum lugar do sol,

Para girar e dançar

Até o dia branco terminar.

Então descansar na fria noite

Sob uma árvore alta

Enquanto a noite vem gentilmente,

     Escura como eu-

Este é meu sonho!

 

Para pôr meus braços longos

Em frente ao sol,

Dançar! Girar! Girar!

Até que o rápido dia se vá.

Descansar na pálida noite. . .

Uma árvore alta e esguia. . .

A noite vindo suavemente

     Escura como eu.

Ilustrações: Correio Braziliense. 



Mais uma vez: as mesmas promessas

 


                                   MERCADERES DE ILUSIÓN

Aníbal Rodríguez

Proclamando libertad

llenos de falsos anhelos

los políticos siniestros

nos hablan de bien y paz.

 

Nos exhortan a luchar

con esforzado denuedo

pero ellos buscan el puesto

que plata les brindará.

 

De justicia hacen pendón

derechistas e izquierdosos;

y predicando el amor

 

y de equidad grandes logros;

ellos te ofrecen el sol

para conseguir tu voto.

MERCADORES DE ILUSÃO

Proclamando a liberdade,

cheios de falsas esperanças,

os políticos sinistros

nos falam de bem e paz.

 

Nos exortam a lutar

com esforçado denodo,

porém eles buscam o posto

que o dinheiro lhes brindará.

 

 

Da justiça fazem um pendão

direitistas e esquerdistas;

e pregando o amor

 

e de igualdade grandes conquistas;

eles te oferecem o sol

para conseguir o teu voto.

Ilustração: A Crítica de Campo Grande.

 





Friday, August 21, 2026

"ice" de Andrew Motion

 


                                            ICE

Andrew Motion

When friends no longer remembered
the reasons we set forth,
I switched between nanny and tartar
driving us on north.

Will you imagine a human hand
welded by ice to wood?
And skin when they chip it off?
I don’t think you should.

By day the appalling loose beauty
of prowling floes:
lions’ heads, dragons, crucifix-wrecks,
and a thing like a blown rose.

By night the seething hiss
of killers cruising past –
the silence after each fountain-jet,
and our hearts aghast.

Of our journey home and the rest
there is nothing more to say.
I have lived and not yet died.
I have sailed in the Scotia Sea.

GELO

Quando os amigos já não se lembravam

dos motivos que nos levaram a partir,

eu alternava entre babá e tártaro

conduzindo-nos para o norte.

 

Você consegue imaginar uma mão humana

soldada pelo gelo à madeira?

 

E a pele quando a lascam?

 

Acho que não deveria.

 

Durante o dia, a beleza selvagem e assustadora

dos blocos de gelo à espreita:

cabeças de leão, dragões, destroços de crucifixos,

e algo parecido com uma rosa desabrochada.

 

À noite, o sibilar fervilhante

de navios assassinos que passam velozmente –

o silêncio após cada jato de água,

e nossos corações em choque.

 

Da nossa jornada para casa e do resto,

não há mais nada a dizer.

Eu vivi e ainda não morri.

Eu naveguei no Mar da Escócia.

Ilustração: Get Your Guide. 


Bem fora da hora do café



        

                              CONTIGO NA DISTÂNCIA

                             Silvio Persivo

                             Se tivesse um café,

agora,

mesmo fora

da tradicional hora,

gostaria tanto

que te falaria, até por

                                     delicadeza,

                               sobre o reino de prazer

                               não expresso e a beleza

                                de viver ao teu lado.

                               Olho para as evoluções

                               do tempo, os pontos negros,

                                as sombras, os cinzentos espaços,

                                      perscruto as escolhas

                                sem me sentir culpado

                                por não saber os próximos passos

                                e por não ter soluções.

                                Adoraria uma sardinha

                                ou um peixe grelhado,

                                também estar do lado,

                                enquanto degusto o sashimi

                                com shoyu,

                                este molho japonês nosso,

                                mas, vivo o que posso

                                e o possível, no momento,

                                é te dizer

                                que, até de tão longe,

                                não se esgota o meu querer.

                                Sinto falta de você!

 CONTIGO EN LA DISTANCIA

Silvio Persivo

Si tuviera un café ahora,

incluso fuera de la hora habitual,

me encantaría,

que te contaría, incluso con delicadeza,

sobre el reino del placer inexpresado y la belleza

de vivir a tu lado.

Observo la evolución del tiempo, los puntos negros,

las sombras, los espacios grises,

analico las decisiones

sin sentirme culpable por no saber qué hacer a continuación

ni por no tener soluciones.

Me encantaría una sardina

o un pescado a la parrilla,

estar también a tu lado,

mientras saboreo el sashimi con salsa de soja,

esa salsa japonesa nuestra,

pero vivo lo que puedo,

y lo que es posible, por el momento,

es decirte

que, incluso desde tan lejos,

mi deseo no se agota.

¡Te extraño!

Ilustração: Caneca Cerâmica-I love coffee



Um poema de Boderra Joe

 


CURVE  WAVES

Boderra Joe

a hole

            a floating rib

an admirer’s shadow

            ribs with grief

a taper hall

            an empty street

a black hole 

            named love

its low density

            like clouds, dust, cosmic ray

 

at the center of the milky way

            thousands of them

i bet it hurts

            your lungs

as air expands

            tears through tissue

you inhale all the oxygen

            from us in fifteen seconds

who can dust your bones?

            time is infinite

 

i wish upon stars

            not old enough for light to reach

 wish upon a name

            to leave your lips as print

even moon rocks crumble

            zero point zero four inches

a million years

            call it what it feels like

love

            space junk

a dirty collision

            a chain reaction

a thick cloud of debris

            traveling fast

ONDAS CURVAS

um buraco

             uma costela flutuante

a sombra de um admirador

             costelas com tristeza

um salão cônico

             uma rua vazia

um buraco negro

             chamado amor

com baixa densidade

             como nuvens, poeira, raio cósmico

 

no centro da via láctea

             milhares deles

eu aposto que dói

             seus pulmões

medida que o ar se expande

             lágrimas através do tecido

você inala todo o oxigênio

             nosso em quinze segundos

quem pode limpar seus ossos?

             o tempo é infinito

 

eu desejo às estrelas

             não há idade suficiente para a luz chegar

 ao desejo em cima de um nome

             para deixar seus lábios como impressão

até as rochas da lua desmoronem

             zero ponto zero quatro polegadas

um milhão de anos

             chame-o como se sente

amor

             lixo espacial

uma colisão suja

             uma reação em cadeia

uma espessa nuvem de detritos

             viajando rápido

Ilustração: Correio Braziliense. 






Luis de Góngora volta por aqui


NO DE FINO DIAMANTE O RUBI ARDIENTE

Luis de Góngora

No de fino diamante o rubí ardiente
(Luces brillando aquel, este centellas)
Crespo volumen vio de plumas bellas
Nacer la gala más vistosamente,

Que obscura el vuelo, y con razón doliente,
De la perla católica que sellas,
A besar te levantas las estrellas,
Melancólica aguja, si luciente.

Pompa eres de dolor, seña no vana
De nuestra vanidad. Dígalo el viento,
Que ya de aromas, ya de luces, tanto

Humo te debe. ¡Ay, ambición humana,
Prudente pavón hoy con ojos ciento,
Si al desengaño se los das y al llanto!

NÃO DE FINO DIAMANTE OU RUBI ARDENTE

Não de fino diamante ou rubi ardente

(Luzes brilhando, aquelas, estas centelhas)

Crespo volume encaracolado serrado de belas penas

Nascer esplendor mais vistosamente,

 

Do que o obscuro voo, e com razão dolente,

Da pérola católica que que selas,

Ao se elevar para beijar as estrelas,

Agulha melancólica, se brilhante.

 

Pompa és de dor, um sinal não em vão

De nossa vaidade. Diga-o o vento,

Já de aromas, já de luzes, tanto

 

A fumaça te deve. Ai, humana ambição,

Prudente pavão hoje com de olhos um cento,

Se aos desenganos se entrega ao pranto!


Sunday, August 16, 2026

Porto Velho

 


PORTO VELHO

Silvio Persivo

Esta cidade de quem todos reclamam-

E parece que ninguém ama-

É a minha cidade.

 

Não sei o que ela tem

Nem o que me ofereceu

Que não seja,

Talvez,

Um pôr de sol

Que distribui cores de Rembrandt,

Minhas maiores alegrias,

Os doces momentos que já esqueci,

Porém, que fizeram a vida valer a pena,

Esta vontade eterna e sempre não pequena

De viver mais,

Uma tristeza vaga e

Este calor aconchegante

Que vem do céu azul,

Que, de repente, se apreteja

E se transforma em vento e chuva

Soando docemente

Como um salmo em igreja.

 

Sei que ela não é tão bela

Como deveria.

Mas, quem é?

Esta cidade assim

Mesmo parecendo suja, feia,

Mal-acabada, em eterna construção,

Tem o dom de ser

Minha terra amada

E há sempre de ser linda para mim

E viver eternamente no meu coração.

PORTO VELHO

This city that everyone complains about-

And it seems that nobody loves-

It's my city.

 

I don't know what she has

Not what you offered me

That is not,

Perhaps,

a sunset

Who doles out Rembrandt colors,

My greatest joys,

The sweet moments that I already forgot,

However, who made life worthwhile,

This eternal will and always not small

to live longer,

A vague sadness and

this cozy warmth

That comes from the blue sky,

That suddenly appears

And turns into wind and rain

sweet sounding

Like a psalm in church.

 

I know she's not that pretty

As it should.

But, who is it?

this city like this

Even though it looks dirty, ugly,

Badly finished, in eternal construction,

has the gift of being

my beloved land

And you will always be beautiful to me

And live forever in my heart.

Ilustração: Governo de Rondônia.