O MENINO DO CEARÁ (Última versão)
Silvio Persivo
Eu era um menino que cabia inteiro numa rua. A Rocha
Lima, em Fortaleza. O mundo começava depois da esquina e ia até o céu se
alongando no mar que cabia num pires.
Li Nietzsche antes de saber amarrar os sapatos. Os
pensamentos não precisavam de cadarço. Machado me ensinou que as palavras
têm espinhos e que a gente sangra lendo. Os russos me mostraram que a neve
também dói. E Balzac me contou que o mundo é uma comédia que as formigas não
entendem.
O rádio naquele tempo era um oráculo de lata. Dentro
dele moravam vozes que falavam mais alto que o silêncio do sertão (um
silêncio que a gente podia descascar igual a uma laranja).
O cinema era aos domingos. A música era de todo dia. E
eu - eu era um menino que colecionava ausências. Colecionava ausências como
quem coleciona asa de cigarra. Guardava no bolso junto com pedras que tinham
sede e sementes, que viravam sonhos.
Hoje, cinquenta anos depois, pergunto: o que sobrou
daquele menino? Respondo: Sobrou o Ceará. O resto foi travessia. A rua
Rocha Lima, essa, ainda cabe inteira dentro de mim e é a maior de todas
as minhas lembranças!
THE BOY FROM CEARÁ (FINAL VERSION)
I was a boy who fit entirely within a single street:
Rocha Lima, in Fortaleza. The world began just around the corner and stretched
all the way to the sky, extending into a sea that could fit inside a saucer.
I read Nietzsche before I knew how to tie my shoes.
Thoughts didn't need shoelaces. Machado taught me that words have thorns and
that we bleed when we read. The Russians showed me that snow can hurt, too. And
Balzac told me that the world is a comedy that ants cannot understand.
Back then, the radio was a tin oracle. Inside it lived
voices that spoke louder than the silence of the sertão-a silence one could
peel away just like an orange.
The movies were for Sundays. Music was for every day.
And I-I was a boy who collected absences. I collected absences the way one
collects cicada wings. I kept them in my pocket alongside thirsty stones and
seeds that turned into dreams.
Today, fifty years later, I ask: what remains of that
boy? My answer: Ceará remains. The rest was a journey. As for Rocha Lima Street-it
still fits entirely within me, and it is the greatest of all my memories!
Ilustração: iStock.
