Friday, October 30, 2026

Novamente Dario Jaramillo Aguedelo

 


 

SÓLO EL AZAR, 10

 Dario Jaramillo Aguedelo

Sólo el azar me dio la piel que amé
y sólo el azar -o el cansancio-
extinguió el fuego.
Lo que siguió no fue el azar,
es lo que sigue siempre,
la lenta pesadilla del olvido
y luego cierto desprecio
por ese que fui yo y que amaba
y también por el que soy ahora
el mismo que no sabe por qué amó.
Sólo la carne se equivoca.

SÓ O ACASO, 10

Só o acaso me deu a pele que amei

e só o acaso - ou o cansaço-

extinguiu o fogo.

O que se seguiu não foi o acaso,

é o que segue sempre:

o lento pesadelo do esquecimento

e, depois, um certo desprezo

por esse que fui e que amava,

e também por aquele que sou agora-

o mesmo que não sabe por que amou.

Só a carne se equivoca.

Ilustração: Monergismo. 


Um poema de D.A. Powell

                         


                         THE MIRACLE OF GIVING

D. A. Powell

Twice Christ took the bread apart

with his human hands that he used for

such tasks, once with fish and once with wine,

the grain a pattern of tribute, distribute,

as he worked the division of himself into

feeding others with his body, taken but not taken,

there but not there, it was two times

two times two. Ever body got some body

who will feed them even when there seem hardly

enough to go round. When I hungered the word

fed me. Even so, so many others hungered

he needed a hundred more human hands.

That was when I said here take mine.

O MILAGRE DE DOAR

Duas vezes Cristo pegou o pão partindo-o

com suas mãos humanas que usava para

tais tarefas, uma vez com peixe e outra com vinho,

o grão um padrão de homenagem, distribuiu,

enquanto trabalhava na divisão dele mesmo em

alimentando outros com seu corpo, tomado, porém não tomado,

lá, mas não lá, foram duas vezes

duas vezes dois. Sempre o corpo tem algum corpo

quem irá alimentá-los mesmo quando parecer difícil

o suficiente para dar uma volta. Quando eu tive fome da palavra

me alimentou. Mesmo assim, tantos outros passaram fome

ele necessitava de mais cem mãos humanas.

Foi quando eu disse aqui toma a minha.

Ilustração: Simplesmente Cristão. 



Como Te Amei (How I Loved You)


COMO TE AMEI

Silvio Persivo

Te amei com as palavras

e, mudo, amei mais ainda 

com meu assustado coração.

 

Te amei com os olhos claros

e com os olhos cheio de ilusão

e a boca com sede de beijos.

 

Te amei com a pele quente

com as pernas, os braços, os pés

e todos os gritos de paixão.

 

Te amei com os afagos das mãos,

que, agora, te dizem adeus

e te procuram em vão.

 

Te amei como um sedento

procurando água no deserto

ignorante de ter oásis perto.

 

Te amei oh! que loucura

como se neste mundo

só houvesse tu, criatura.

HOW I LOVED YOU

I loved you with words,

and, in silence, I loved you even more

with my startled heart.

 

I loved you with clear eyes,

with eyes full of dreams,

and a mouth thirsting for kisses.

 

I loved you with warm skin-

with my legs, my arms, my feet-

and every cry of passion.

 

I loved you with the caress of my hands,

which now bid you farewell

and search for you in vain.

 

I loved you like one who is thirsty,

seeking water in the desert,

unaware that an oasis lies nearby.

 

I loved you-oh, what madness!-

as if, in this entire world,

there were only you, my dear.

Ilustração: Mensagens com Amor.


Wednesday, October 28, 2026

The Message To The Fish of Lewis Carroll

 


THE MESSAGE TO THE FISH

Lewis Carroll

In winter, when the fields are white,
I sing this song for your delight-

In spring, when woods are getting green,
I’ll try and tell you what I mean.

In summer, when the days are long,
Perhaps you’ll understand the song:

In autumn, when the leaves are brown,
Take pen and ink, and write it down.

A MENSAGEM DOS PEIXES

No inverno, quando os campos estão brancos,

Eu canto esta canção para o seu deleite-

 

Na primavera, quando os bosques estão verdes,

Eu tentarei explicar o que quero dizer.

 

No verão, quando os dias estão longos,

Talvez você irá compreender a canção:

 

No outono, quando as folhas estão marrons,

Pegue papel e tinta, e, então, anote.

Ilustração: Instagram.


Dario Jaramillo Aguedelo de retorno

 


SÓLO EL AZAR, 11

Dario Jaramillo Aguedelo

Blando mineral sobre la caña,

grafito que se desmorona

encima de una lámina de pulpa

y deja unos silencios clamorosos

en sus ansias de ser labios.

SÓ O ACASO, 11

Mineral macio sobre a cana,

grafite que se desmorona

sobre uma lâmina de polpa

e deixa uns silêncios clamorosos

nas suas ânsias de ser lábios.

Ilustração: Terra de Cultivo. 

Collective Unconscious

 

Silvio Persivo

Sinta que há um pulsar

no silêncio que nos cerca,

na quietude do céu,

no ar onde se irradiam

luzes, cores, ondas, partículas

de tudo que faz parte da unidade

que não existe

e procura o equilíbrio.

 

Há uma diversidade.

em cada forma e modo de ser

um ritmo e uma melodia,

um inconsciente coletivo

que, por algum motivo,

dança nos sonhos, nas imagens,

nas memórias.

E, vez por outra, desagua

nas ideias comuns

de mentes diferentes.

 

Sense that there is a pulse

in the silence that surrounds us,

in the stillness of the sky,

in the air where lights, colors,

waves, and particles radiate-

all of it part of a unity

that does not exist,

yet seeks balance.

 

There is a diversity;

in every form and way of being,

a rhythm and a melody,

a collective unconscious

that, for some reason,

dances within dreams, images,

and memories.

And, from time to time, it flows

into the shared ideas

of different minds.

 

Monday, October 26, 2026

Uma poesia de Carlie Hoffman

 

                           MEMORY OF FRANCE

Carlie Hoffman       

                                                     after Paul  Celan

I miss Paris when it rains, I miss the myth
of flower girls selling futures, bleak horse
with its music breaking down: 
You lose the lottery. I leave for the sea.
Grass grows between the cobblestone 
where we once stood, unrelating. 
The room is raining, each petal 
a beautiful hoof. You tune 
the chrysanthemum. I wear water 
as my blue apron, shaking 
your heart from my hair.

MEMÓRIA DA FRANÇA

                                         após Paul Celan

Sinto falta de Paris quando chove, sinto falta do mito

das vendedoras de flores que vendem futuros, um cavalo sombrio

com sua música a se espalhando:

Você perde a loteria. Eu parto para o mar.

A grama cresce entre as pedras do calçamento

onde um dia estivemos, sem relações.

Chove no quarto; cada pétala

é um belo casco. Você sintoniza

o crisântemo. Eu visto a água

como se fosse meu avental azul, sacudindo

seu coração do meu cabelo.

Ilustração: Dicas de Viagem. 



Uma poesia de Gabriel Celaya

 

UNA PAREJA PERDIDA

Gabriel Celaya

Iban los dos vestidos con descaro
-minifalda, melenas-
cogidos de la mano,
tan jóvenes que casi daban miedo,
tan absortos en un cero
que, aunque no se veían, les unía absolutos
algo fieramente puro.
Iban a cualquier parte cogidos de la mano.
Se amaban sin tristeza,
ni alegría, ni nada.
Y a veces se miraban, pero no se veían.
Y luego se sentaban en un banco cualquiera.
Pero no se veían.
Ella era muy bonita; parecía aturdida;
él, feroz y esmirriado.
No hablaban. No tenían ya nada que decirse.
Ya no se deseaban.
Pero seguían juntos, cogidos de la mano,
frente a algo que espantaba.

Mientras el transistor seguía sonando.

UM CASAL PERDIDO

Iam os dois vestidos com desfaçatez

-minissaia, cabelos longos-

de mãos dadas,

tão jovens que quase davam medo,

tão absortos em um nada

que, embora não se vissem, os unia

algo ferozmente puro.

Iam a qualquer lugar, de mãos dadas.

Amavam-se sem tristeza,

nem alegria, nem nada.

E, às vezes, se olhavam, porém não se viam.

E logo sentavam-se em um banco qualquer.

Porém não se viam.

Ela era muito bonita; parecia aturdida;

ele, feroz e franzino.

Não falavam. Já não tinham nada a dizer um ao outro.

Já não se desejavam.

Porém seguiam juntos, de mãos dadas,

diante de algo que espantava.

 

Enquanto o rádio seguia tocando.

Ilustração: Dephositos

Sunday, October 25, 2026

Uma poesia de Franco Fortini

 



LE PICCOLE PIANTE…

Franco Fortini

Le piccole piante mi vengo incontro e mi dicono:

“Tu, lo sappiamo, nulla puoi fare per noi.

Ma se vorrai entreremo nella tua stanza,

rami e radici fra le carte avranno scampo”.

 

Ho detto di sì a quella loro domanda

e il gregge di foglie ora è qui che mi guarda.

Con le foreste riposerò e le erbe sfinite,

vinte innumerabili armate che mi difendono.

AS PLANTINHAS…

As plantinhas vêm ao meu encontro e dizem:

"Tu, sabemos não pode fazer nada por nós.

Mas, se quiser, entraremos no seu salão.

Os galhos e raízes entre os papéis terão uma chance."

 

Eu disse sim aquela demanda delas,

e o bando de folhas agora está aqui, me observando.

Com as florestas repousarei e com as ervas exaustas,

derrotados os inumeráveis ​​exércitos que me defendem.

Ilustração: Panorama Móveis. 


Dario Jaramillo Aguedelo, pois

 


                          AMORES IMPOSIBLES, 10

 Dario Jaramillo Aguedelo

Fisuras en la luz de la mañana,
fracturas de lo que veo y oigo,
por ellas se acerca lo lejano,
se paraliza con nsepara lo que transcurre.
Adrede esta curva misteriosa,
adrede,

 

de pensamiento y de deseo adrede
está presente el gesto más presente,
por la grieta que ahora vivo,
por allá­ asoman un amor imposible y otro amor imposible.

AMORES IMPOSSÍVEIS, 10

Fissuras na luz da manhã,

fraturas do que vejo e ouço;

por elas, se acerca o distante,

o que transcorre paralisa-se.

Intencional, esta curva misteriosa,

intencional,

 

de pensamento e de desejo, intencional,

está presente o gesto mais presente;

pela fresta que agora vivo,

por ali assomam um amor impossível e outro amor impossível.

Ilustração: Pinterest.


October de Robert Frost

 


OCTOBER

Robert Frost

O hushed October morning mild,
Thy leaves have ripened to the fall;
To-morrow’s wind, if it be wild, 
Should waste them all. 
The crows above the forest call;
To-morrow they may form and go. 
O hushed October morning mild, 
Begin the hours of this day slow,
Make the day seem to us less brief.
Hearts not averse to being beguiled,
Beguile us in the way you know; 
Release one leaf at break of day;
At noon release another leaf; 
One from our trees, one far away;
Retard the sun with gentle mist;
Enchant the land with amethyst. 
Slow, slow! 
For the grapes’ sake, if they were all, 
Whose leaves already are burnt with frost,
Whose clustered fruit must else be lost-
For the grapes’ sake along the wall.

This poem is in the public domain.

OUTUBRO

Ó manhã de outubro, silenciosa e calma,

Tuas folhas amadureceram para a queda;

O vento de amanhã, se for selvagem,

Pode levar todas elas.

Os corvos grasnam sobre a floresta;

Amanhã, talvez se reúnam e partam.

Ó manhã de outubro, silenciosa e calma,

Faz as horas deste dia passarem devagar,

Torna o dia, para nós, menos breve.

Aos corações que não recusam a se enfeitiçar,

Enfeitiça-os, da maneira que bem sabes;

Solta uma folha ao romper do dia;

Ao meio-dia, solta outra folha;

Uma de nossas árvores, outra de distante;

Retarda o sol com uma névoa suave;

Encanta a terra com tons de ametista.

Devagar, bem devagar!

Pelas uvas-se é que só elas importam-,

Cujas folhas já foram queimadas pela geada,

E cujos cachos, de outro modo, se perderiam-

Pelas uvas que crescem junto ao muro.

Ilustração: Magnific.


Saturday, October 24, 2026

Ulisses de Iván Carvajal

 


ULISES

 Iván Carvajal

Va a soñar entre los picos de las gaviotas
Que vienen a sus pies por las migajas

 

Nadie asome a perturbar su somnolencia

 

A solas rumia el chasquido de las madreperlas
Enhiesto marino que enhebra sus leyendas
De Corsario de puertos lejanos

 

Viejo es su hábito de esconderse con los pájaros
En él nada queda de la ostentosa astucia
Y el olvido jubila sus Calypsos sus Penélopes

 

Ya sólo el sueño saquea sus andrajos.

ULISSES

Vai sonhar entre os bicos das gaivotas

Que vêm aos seus pés em busca de migalha

 

Que ninguém se aproxime para perturbar sua sonolência

 

Sozinho, rumina o estalo das madrepérolas

Marinheiro altivo que tece suas lendas

De corsário de portos distantes

 

É antigo o seu hábito de esconder-se com os pássaros

Nele nada resta da astúcia ostensiva

E o esquecimento aposenta suas Calipsos e Penélopes

 

Agora, apenas o sonho saqueia os seus andrajos.

Ilustração: Ulysses The Movie.


Ainda Tino Di Cicco

 


                                           Tino Di Cicco

la neve non scende più

nelle nostre città.

non ci tratta più da bambini.

 

ormai sappiamo barattare

dolore

con la merce del tempo

 

la verità dove sciogliere i cuori

deve ancora aspettare

 

A neve não cai mais

na nossa cidade.

Não nos trata mais como crianças.

 

Agora sabemos trocar

a dor

pela mercadoria do tempo.

 

A verdade que derrete corações

ainda precisa esperar.

Ilustração: Canção Nova. 


Thursday, October 22, 2026

Uma poesia de Gregory Fraser

 

 

MISCARRIAGE

Gregory Fraser

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They tell me God exists.
I’m not so sure.
They tell me I exist.
I have my doubts.
 
It’s said I raged like a star
after you crossed
out of time
forever. Raged
and then collapsed.
I can’t deny or confirm.

MALOGRO

Eles dizem que Deus existe.

Não tenho tanta certeza.

Eles dizem que eu existo.

Eu tenho minhas dúvidas.

 

Dizem que eu ardi furioso como uma estrela

depois que você cruzou

para fora do tempo

para sempre. Fiquei furioso

e, então, colapsei.

Não posso negar ou confirmar.

Ilustração: Blog Eurekka.


Due de Pierluigui Cappello

 


DUE

Pierluigui Cappello

Lascio la camera com'era quando era nei tuoi occhi,

incontrarti è il sapore che trattengo nel sorso di caffè.

 

Tra il piacere e quel che resta del piacere

il mio corpo sta come un posto dove si piange

perché non c’è nessuno.

 

Un giorno settembre era limpido e ventoso

il silenzio ammutoliva, la terra tornava al cielo.

 

DOIS

Deixo o quarto como estava quando estava em seus olhos,

encontrar você é o sabor que guardo no gole de café.

 

Entre o prazer e o que restou do prazer,

meu corpo é como um lugar onde se chora

porque não há ninguém lá.

 

Num dia de setembro, estava claro e ventoso,

o silêncio silenciou, a terra retornou ao céu.


De volta Lila Calderón

 


VEINTICUATRO VECES POR SEGUNDO

Lila Calderón

No es mi día/ he pensado en ti veinticuatro veces por segundo/ en cámara rápida te he rebobinado/ te he congelado te puse sepia/ He pensado  que entras por la puerta/ por el tragaluz/ el espejo  la ventana/ que atraviesas  paredes/ que brotas desde mi mente/ que estás en la televisión/ en el reflejo  debajo de la cama/ que juegas fútbol y lanzas un gol contra la cortina del baño/ He creído verte llegar diciendo/ que esperabas verme llegar/ corriendo hasta tus brazos dorados/ broncíneos marmóreos pétreos/ aparecer allá y emitir un monólogo/ en plena terraza mientras las olas se levantan/ y las gaviotas se dispersan mar adentro/ montadas en ballenas que huyen de sus cazadores/ disfrazadas de delfines/ Oigo alarmas y no puedo creer en la velocidad/ del pensamiento/ en esta calle todos los autos tienen el mismo sonido/ las llaves en las puertas giran del mismo modo/ y los pasos de los otros dejan tus mismas huellas/ He viajado contigo y he vuelto/ Tu fotografía no me deja en paz/ sonríe todo el tiempo/ como si nada/ me pregunto qué costaría una llamada telefónica/ hay que ser bien cabeza dura/ y olvidarse/ de lo que cuesta interceptar el amor/ experimentar ese estremecimiento/ viajar por los siete mares/ vivir con la misma dignidad el sueño o la vida real/ cocinar lavar planchar cantar/ reconocer/ que nos hemos encontrado/ un poco más allá del cruce de nuestros caminos/ porque sería ambicioso/ e irresponsable/ pensar creer suponer deducir/ a partir de no sé qué premisa/ que este peldaño mohoso/ representa el medio de nuestras vidas/ La longevidad/ no es ningún premio cuando sabemos/ que desde esta mitad comienza el deterioro/ y el olvido se instala/ como una película cortada mientras revisamos la página del obituario/ y decimos sonriendo/ qué bien/ este  no es mi día

VINTE E QUATRO VEZES POR SEGUNDO

Não é o meu dia/ pensei em você vinte e quatro vezes por segundo/ rebobinei você em câmera rápida/ congelei você, coloquei você em sépia/ Imaginei você entrando pela porta/ pela claraboia/ pelo espelho, pela janela/ atravessando paredes/ brotando da minha mente/ aparecendo na televisão/ no reflexo, debaixo da cama/ jogando futebol e marcando um gol na cortina do banheiro/ Acreditei ver você chegando e dizendo/ que esperava me ver chegar/ correndo para os seus braços dourados/ bronzeados, marmóreos, pétreos/ aparecer ali e fazer um monólogo/ no terraço, enquanto as ondas se erguem/ e as gaivotas se dispersam mar adentro/ montadas em baleias que fogem de seus caçadores/ disfarçadas de golfinhos/ Ouço alarmes e não consigo acreditar na velocidade/ do pensamento/ nesta rua, todos os carros têm o mesmo som/ as chaves nas portas giram do mesmo jeito/ e os passos dos outros deixam as mesmas pegadas que as suas/ Viajei com você e voltei/ Sua fotografia não me deixa em paz/ sorri o tempo todo/ como se nada tivesse acontecido/ pergunto-me quanto custaria uma ligação telefônica/ é preciso ser muito cabeça-dura/ e esquecer/ o custo de interceptar o amor/ de experimentar aquele estremecimento/ de viajar pelos sete mares/ de viver com a mesma dignidade o sonho ou a vida real/ cozinhar, lavar, passar, cantar/ reconhecer/ que nos encontramos/ um pouco além do cruzamento dos nossos caminhos/ porque seria ambicioso/ e irresponsável/ pensar, acreditar, supor, deduzir/ a partir de não sei qual premissa/ que este degrau mofado/ representa a metade das nossas vidas/ A longevidade/ não é prêmio nenhum quando sabemos/ que, a partir dessa metade, começa a deterioração/ e o esquecimento se instala/ como um filme interrompido enquanto olhamos a página do obituário/ e dizemos, sorrindo:/ que bom/ este não é o meu dia