Thursday, March 12, 2026

Luz do Tempo

 


Luz do Tempo

Silvio Persivo (com a ajuda da IA) 

Não se apaga a luz do tempo
Com a chama que em mim se acende;
É paixão que o destino inventa
E ao nosso amor sempre defende.

Sei que será doce e risonho
Esse caminho que o sonho traçou;
Pois quando teu olhar me encontra
Meu mundo inteiro se iluminou.

Mas nas noites em que não vivo
E nos dias em que sonho sem dormir,
Nenhum motivo há neste mundo
Que me faça tão triste existir.

Ai de quem não celebra a vida,
Ai de quem não guarda no coração
Um punhado ardente de desejos
Sedentos de realização.

Ai de ti se não tiveres, amor,
Fome de saciar essa paixão,
De morrer no doce torpor
Que nasce do fogo da ilusão.

Pois amar é beber da vida
Sem medo da intensidade:
É sentir no peito a vertigem
Da mais pura felicidade.

John Donne de volta

 


THE FLEA

By John Donne

Mark but this flea, and mark in this,  

How little that which thou deniest me is;  

It sucked me first, and now sucks thee,

And in this flea our two bloods mingled be;  

Thou know’st that this cannot be said

A sin, nor shame, nor loss of maidenhead,

    Yet this enjoys before it woo,

    And pampered swells with one blood made of two,

    And this, alas, is more than we would do.

 

Oh stay, three lives in one flea spare,

Where we almost, nay more than married are.  

This flea is you and I, and this

Our marriage bed, and marriage temple is;  

Though parents grudge, and you, w'are met,  

And cloistered in these living walls of jet.

    Though use make you apt to kill me,

    Let not to that, self-murder added be,

    And sacrilege, three sins in killing three.

 

Cruel and sudden, hast thou since

Purpled thy nail, in blood of innocence?  

Wherein could this flea guilty be,

Except in that drop which it sucked from thee?  

Yet thou triumph’st, and say'st that thou  

Find’st not thy self, nor me the weaker now;

    ’Tis true; then learn how false, fears be:

    Just so much honor, when thou yield’st to me,

    Will waste, as this flea’s death took life from thee.

A PULGA

Observa apenas esta pulga, e observa nela,

Quão pouco é aquilo que negas a mim;

 

Ela me sugou primeiro, e agora suga a ti,

E na pulga nossos dois sangues misturados estão;

 

Tu sabes que isto não pode ser considerado

Pecado, nem vergonha, nem perda da virgindade,

Contudo, ela desfruta antes de cortejar,

E se aconchega mimada com um sangue feito de dois,

E isto, infelizmente, é mais do que fazemos.

 

Oh, espera, poupa três vidas em uma pulga,

Onde estamos quase, ou melhor, mais do que casados.

 

Esta pulga somos tu e eu, e isto

Nosso leito nupcial e templo do casamento é;

 

Embora os pais se ressintam, e tu, estamos reunidos,

E enclausurados nestas paredes vivas de azeviche.

 

Embora o hábito te torne propenso a me matar,

Que a isso não se acrescente suicídio,

E sacrilégio, três pecados em matar três.

 

Cruel e repentina, desde então

Purificaste tua unha com sangue de inocência?

Em que poderia esta pulga ser culpada,

Senão naquela gota que ela sugou de ti?

 

Contudo, triunfas e dizes que

Não te consideras, nem a mim, mais fracos agora;

É verdade; então aprende como são falsos os medos:

Tanta honra, quando te renderes a mim,

Será desperdiçada, quanto a morte desta pulga te tirou a vida.

Ilustração: Os Estrelinhas-SAPO.


Um poema como ideia de Alberto Girri

 


                        El poema como idea de la poesia

Alberto Girri

Que la finalidad
sea provocar el sentimiento
de las palabras,
y alcanzar
el desafío de la expresión,
perseguir objetos
que se ajustan al sentimiento,
hundirse en objetos
hasta la emoción adecuada,
está probado,
y tanto, probado y probado,
como no lo está
el que en esos tránsitos
la tendencia madre sea
por dónde va la inspiración,
«si en frío o en caliente»,
y no lo está
que haya que seguir a Homero
entre las Musas, su rogar que lo asistan,
y a Platón
saludando hermosos versos
más en mediocres pero iluminados
que en sagaces y hábiles exclusivamente
al amparo de sus propias fuerzas,
y a Dante, el reclamar
la intervención de dioses
acaso sin creer en ellos:
O buono Apollo, all’ultimo lavoro
fammi del tuo valor…
Pero tampoco ninguna
terminante prueba hacia lo opuesto,
que el poema
se conduzca en la mente como un
experimento en una ciencia natural,
y que la aptitud
combinatoria de la mente sea
la solo inspiración reconocible.

O POEMA COMO IDEIA DE POESIA 

Que a finalidade

seja provocar sentimentos

através das palavras,

e enfrentar

o desafio da expressão,

perseguir objetos

que se ajustem ao sentimento,

fundir-se aos objetos

até que a emoção apropriada seja provada,

está comprovado,

e comprovado sem sombra de dúvida,

assim como não está comprovado

que nessas transições

a tendência primária seja

para onde a inspiração leva,

"se está fria ou quente",

e se não está comprovado

que se deva seguir Homero

entre as Musas, seu apelo por sua ajuda,

e Platão

saudando versos belos

mais frequentemente em versos medíocres, porém iluminados,

do que em versos sagazes e habilidosos,

confiando exclusivamente em sua própria força,

e Dante, ao invocar

a intervenção dos deuses

talvez sem acreditar neles:

"Ó bom Apolo, no último trabalho

fammi del tuo valor…"

Mas também não há nenhuma

prova conclusiva em contrário,

que o poema

se conduza na mente como um

experimento em uma ciência natural,

e que a aptidão combinatória da mente seja

a única inspiração reconhecível.

Ilustração: Undetectable AI. 


Tuesday, March 10, 2026

Que Venha o Amanhã

 


Que venha o amanhã

com a festa merecida

com o gosto doce de quero mais, de vida.

Que venha o amanhã

com gosto de alfenim

para preencher os dias

com esta desbragada alegria

que prometeram para mim.

Que venha o amanhã

com a claridade do sol,

com o botão de rosa se abrindo,

com os olhos do meu amor,

que traz os sonhos sorrindo,

colocando doçura no viver.

Que venha o amanhã

nos fazendo de novo ser crianças

perdidas na gostosa dança

de aprender em cada dia

que só nos salva mesmo a alegria

e a vontade imensa

de amar, de ser feliz, de ter prazer.

Ilustração: Na Cozinha. 

Outra poesia de George Herbert

 

THE WINDOWS

By George Herbert

Lord, how can man preach thy eternal word?

    He is a brittle crazy glass;

Yet in thy temple thou dost him afford

    This glorious and transcendent place,

    To be a window, through thy grace.

 

But when thou dost anneal in glass thy story,

    Making thy life to shine within

The holy preachers, then the light and glory

    More reverend grows, and more doth win;

    Which else shows waterish, bleak, and thin.

 

Doctrine and life, colors and light, in one

    When they combine and mingle, bring

A strong regard and awe; but speech alone

    Doth vanish like a flaring thing,

    And in the ear, not conscience, ring.

AS JANELAS

Senhor, como pode o homem pregar a tua palavra eterna?

Ele é um vidro frágil e insensível;

Contudo, em teu templo, tu lhe concedes

Este lugar glorioso e transcendente,

Para ser uma janela, por tua graça.

 

Mas quando tu revestes em vidro a tua história,

Fazendo a tua vida brilhar dentro

Dos santos pregadores, então a luz e a glória

Tornam-se mais reverentes e conquistam mais;

O que, de outra forma, se mostra aguado, sombrio e tênue.

 

Doutrina e vida, cores e luz, em uma só

Quando se combinam e se misturam, trazem

Um forte respeito e temor; mas a fala sozinha

Desaparece como um clarão,

E ressoa no ouvido, não na consciência.

Ilustração: Tibério Z.


Monday, March 09, 2026

Los que Llamaron a La Muerte de Miguel Arteche


LOS QUE LLAMARON A LA MUERTE

Miguel Arteche

Los que llamaron a la muerte en la muerte han caído.
Los que cavaron la fosa yacen dentro de la fosa.
Estériles alimentos nos trajeron, pesadumbre de panes:
de culpa fue su palabra, su boca y su mirada.
Sobre las cordilleras se lamentan ahora,
dispersos por el mundo, rodeados por el llanto de las moscas.
Devorados serán los que ejercieron la noche,
ahogadas sus lenguas.
Creyeron que vivirían para mirar mil soles,
y ahora yacen en tinieblas.
...La nieve
brilla bajo la luna.

OS QUE CHAMARAM A MORTE

Os que chamaram a morte na morte caíram.

Os que cavaram a cova jazem dentro da cova.

Estéril alimento nos trouxeram, a tristeza dos pães:

de culpa foram suas palavras, suas bocas e seus olhares.

Sobre as cordilheiras se lamentam agora,

dispersos pelo mundo, rodeados pelo pranto das moscas.

Devorados serão os que empunharam a noite,

afogadas suas línguas.

Acreditavam que viveriam para ver mil sóis,

e agora jazem na escuridão.

...A neve

brilha sob a lua.

Ilustração: Freepik.

Sunday, March 08, 2026

PARABÉNS


Silvio Persivo

Levanta esta bebida, comemora, 

brindemos, pois, a este dia tão feliz, 

este dia do teu aniversário. 

Que as taças que tilintam sejam a música 

que inundem de alegria a caminhada

 onde os tempos maravilhosos se renovem 

como amanheceres brilhantes e formosos. 

Que a chuva, ou a névoa, se algum tempo, 

na tua vida te surpreender 

que seja, se possível, por momentos 

que jamais tirem a beleza do viver. 

Que a luz dos olhos teus iluminados 

afastem a escuridão dos dissabores 

e tua forma de ser, tua bondade

 faça do cotidiano um exercício 

de bem viver, de amar, de ser contente 

para tornar a felicidade, em ti, um vício, 

contra a lógica, quem sabe, eternamente!

(De "A Idade da Palavra (Antologia da Resistência), Fortaleza, Editora Premius, 2026. 

Outra poesia de Hugo Padeletti

 

Hugo Padeletti

Me he sentado a la puerta y he mirado pasar

los años como ramas hacia el humo.

Los pesados membrillos fueron humo

también. Y las granadas,

 

alveolada codicia de incendiados

veranos,

se abrieron sin salvarse:

 

amarilla, astringente, con amargo

sabor medicinal,

la cáscara en el clavo.

 

Me sentei junto à porta e olhei passarem

os anos como galhos até à fumaça.

Os pesados marmelos eram fumaça também.

E as romãs,

 

a ganância repleta de favos de mel dos escaldantes

verões,

se abriram sem salvar-se:

 

amarelas, adstringentes, com um amargo

sabor medicinal,

a casca do cravo.

Ilustração: Pharma Scalabis. 


Saturday, March 07, 2026

Seguindo em frente

 

Silvio Persivo 

Muitas vezes

só temos o cansaço, 

que nos faz dormir. 

E não há como rir 

antes de fechar os olhos esperando

que, por magia, tudo desapareça. 

Porém, quando abrimos os olhos de manhã

tudo permanece da mesma maneira. 

A vida não é brincadeira. 

O sol brilhando, no entanto, nos diz:

-Dê seu jeito. Cresça!

Seja feliz. 

Tua esperança e vã. 

E seguimos em frente em busca 

de construir um novo amanhã. 

Ilustração: Veectzy. 

Mais uma vez Martin Prieto

 

EN LA CASA, ESCRIBE 

Martin Prieto

Que descanse de mí, que yo

descanse de mí, materia disuelta

en el aire del prójimo.

 

Para no defraudar, quemé todos los papeles.

El inodoro se quebró, la base se quebró

y hubo que andar cagando por ahí

dos meses hasta que pegamos un trabajo

y baño nuevo.

¿Deberíamos extrañarnos de eso,

llamarlo “nuestra educación”?

Dulce, lovely cae la tarde,

con olor a mandarinas,

pero amargo es estarse aquí,

nadie me corta las uñas de los pies.

EM CASA, ESCREVE

Que descanse de mim, que eu

descanse de mim, matéria dissolvida

no ar do próximo.

 

Para não te fraudar, queimei todos os papéis.

O vaso sanitário quebrou, a base quebrou,

e tivemos que andar cagando por aí,

por dois meses, até conseguirmos um emprego

e um banheiro novo.

Deveríamos nos surpreender com isso,

chamar isso de “nossa educação”?

Doce, lovely, a tarde cai,

com o aroma de tangerinas,

porém é amargo estar aqui,

ninguém me corta as unhas dos pés.

Ilustração: Instagram. 



Friday, March 06, 2026

Uma poesia de Hugo Padeletti

 

                                  Hugo Padeletti

Pocas cosas
y sentido común
y la jarra de loza, grácil,
con el ramo
resplandeciente.

La difícil extracción del sentido
es simple:

el acto claro
en el momento claro
y pocas cosas –
verde
sobre blanco.

 

Poucas coisas

e bom senso

e a jarra de barro, graciosa,

com o buquê.

Resplandecente

 

A difícil extração do sentido

é simples:

 

o ato claro

no momento claro

e poucas coisas-

verde

sobre o branco.

Ilustração: Shopee.



Thursday, March 05, 2026

Outra poesia de Abdellafit Laâbi

 

 

JE SUIS L’ENFANT DE CE SIÈCLE

Abdellatif Laâbi 

Je suis l’enfant de ce siècle pitoyable

l’enfant qui n’a grandi

Les questions qui me brûlaient

                                                [la langue

ont brûlé mes ailes

J’avais appris à marcher

puis j’ai désappris

Je me suis lassé des oasis

et des chamelles avides de ruines

 Étendu au milieu du chemin

la tête tournée vers l’orient

j’attends la caravane des fous

SOU FILHO DESTE SÉCULO

Sou o filho deste século lamentável

a filho que nunca cresceu

As perguntas que me incendiavam

                                                     [a língua

queimaram minhas asas

Eu aprendi a caminhar

Mas, logo desaprendi

Me enfastiei dos oásis

e dos camelos ávidos por ruínas

Estendido no meio do caminho

minha cabeça se volta para o oriente

eu espero a caravana de tolos

Ilustração: Saúde. 



O Amor (II) por George Herbert

 


LOVE (II)

By George Herbert

Immortal Heat, O let Thy greater flame

Attract the lesser to it; let those fires

Which shall consume the world first make it tame,

And kindle in our hearts such true desires.

As may consume our lusts, and make Thee way:

Then shall our hearts pant Thee, then shall our brain

All her invention on Thine altar lay,

And there in hymns send back Thy fire again.

Our eyes shall see Thee, which before saw dust,

Dust blown by wit, till that they both were blind:

Thou shalt recover all Thy goods in kind,

Who wert disseized by usurping lust:

All knees shall bow to Thee; all wits shall rise,

And praise Him Who did make and mend our eyes.

AMOR (II)

Imortal calor, ó, deixa que tua maior chama

Atraia a menor para si; deixa ​​que esses fogos

Que irão consumir o mundo primeiro o doma,

E acendam em nossos corações tão verdadeiros desejos.

Que consumam nossas paixões e abram caminho para Ti:

Então nossos corações ansiarão por Ti, então nosso cérebro

Toda a sua invenção repousará em Teu altar,

E ali, em hinos, enviará Teu fogo de volta.

Nossos olhos Te verão, que antes viam pó,

Pó soprado pela inteligência, até que ambos ficaram cegos:

Tu recuperarás todos os Teus bens em espécie,

Aqueles que foram despojados pela luxúria usurpadora:

Todos os joelhos se dobrarão a Ti; toda a inteligência se erguerá,

E louvarás Aquele que criou e curou nossos olhos.

Ilustração: MIR.