Saturday, August 29, 2026

Não é a rosa o importante

 

                     O IMPORTANTE NÃO É A ROSA

Silvio Persivo

Uma rosa para você ofereci.

Você riu pela rosa ser de plástico

e não ter nenhum perfume.

-Não é uma rosa-me disse.

Também ri da minha tolice,

Porém, pensei que o mais importante

havia me sido dado:

sua atenção e seu tempo

que, por um momento,

me haviam sido doados.

Na vida, afinal, o mais importante

que se pode dar

é o minuto precioso

que se leva para amar.

IT’S NOT THE ROSE THAT MATTERS

I offered you a rose.

You laughed because it was plastic

and had no scent.

"It’s not a rose," you told me.

I laughed at my own foolishness, too,

yet I thought that the most important thing

had been given to me:

your attention and your time,

which, for a moment,

had been bestowed upon me.

In life, after all, the most important thing

one can give

is the precious minute

it takes to love.

Ilustração: JF Lembranças. 



Vociferando ( 大声) de Yang Li

 

                         大声

们站在河边上

大声地喊河对面的人

不知他听见没有

只知道他没有回

他正从河

远处走

远到我们再大声

他也不能听

们在

VOCIFERAR

Yang Li

desde una orilla del río

gritamos hacia la otra orilla

me pregunto si alguien nos habrá oído

solo sé que él no volvió la cabeza

se iba por la orilla

hacia lo lejos

tan lejos que por más que

vociferásemos

no podría oír

nuestras voces.

(Tradução para o espanhol de Isolda Morillo).

GRITAR

De uma margem do rio,

gritamos para a outra.

Me pergunto se alguém nos ouviu?

Só sei que ele não virou a cabeça.

Se foi pela margem,

para longe.

Tão longe que, por mais que

gritássemos, não poderia nos ouvir.

Ilustração: Pintarest. 



Uma poesia de Margaret Atwood

 


VARIATIONS ON THE WORD LOVE

 Margaret Atwood

This is a word we use to plug
holes with. It’s the right size for those warm
blanks in speech, for those red heart-
shaped vacancies on the page that look nothing
like real hearts. Add lace
and you can sell
it. We insert it also in the one empty
space on the printed form
that comes with no instructions. There are whole
magazines with not much in them
but the word love, you can
rub it all over your body and you
can cook with it too. How do we know
it isn’t what goes on at the cool
debaucheries of slugs under damp
pieces of cardboard? As for the weed-
seedlings nosing their tough snouts up
among the lettuces, they shout it.
Love! Love! sing the soldiers, raising
their glittering knives in salute.

Then there’s the two
of us. This word
is far too short for us, it has only
four letters, too sparse
to fill those deep bare
vacuums between the stars
that press on us with their deafness.
It’s not love we don’t wish
to fall into, but that fear.
this word is not enough but it will
have to do. It’s a single
vowel in this metallic
silence, a mouth that says
O again and again in wonder
and pain, a breath, a finger
grip on a cliffside. You can
hold on or let go.

VARIAÇÕES SOBRE A PALAVRA AMOR

É uma palavra que usamos para tapar

buracos. Tem o tamanho certo para aquelas lacunas

quentes na fala, para aqueles vazios vermelhos

em forma de coração na página que em nada

lembram corações de verdade. Acrescente renda

e você pode vendê-la. Nós a inserimos também no único

espaço vazio do formulário impresso

que vem sem instruções. Existem revistas

inteiras que não trazem quase nada

além da palavra amor; você pode

esfregá-la pelo corpo todo e pode

cozinhar com ela também. Como saber

se não é isso que acontece nas orgias

frias das lesmas, sob pedaços úmidos

de papelão? Quanto às mudas de ervas daninhas

que empurram seus focinhos resistentes

entre as alfaces, elas gritam essa palavra.

Amor! Amor! cantam os soldados, erguendo

suas facas cintilantes em saudação.

 

Depois, há nós

dois. Essa palavra

é curta demais para nós; tem apenas

quatro letras, é escassa demais

para preencher aqueles vazios profundos e nus

entre as estrelas

que nos pressionam com sua surdez.

Não é o amor em que não queremos

cair, mas aquele medo.

Essa palavra não basta, mas terá

de servir. É uma única

vogal neste silêncio

metálico, uma boca que diz

Ó, repetidamente, em assombro

e dor, um fôlego, um dedo

agarrado à encosta de um precipício. Você pode

segurar firme ou soltar.

Ilustração: Instagram.

 


Thursday, August 27, 2026

Love You

 


                                        LOVE YOU

Silvio Persivo

Ela, sem dúvida, é uma mulher especial,

Que me trata com tanto carinho

Que faz com que não me sinta sozinho

E se quer sair, me deixar, parece normal.

Adoro o seu ovo, o seu cafezinho,

Seu modo de ser do jeito que é.

O silêncio de saber que sou seu homem

E a certeza de saber ser minha mulher.

Reclama, às vezes, é claro do modo que amo,

Mas, nunca diz não quando a chamo

E tudo, tudo, em volta se dissolve

Porque entre nós só há love, love, love!

LOVE YOU

She is, without a doubt, a Woman so special,

Who treats me with such affection,

Who ensures I never feel alone,

And if she wants to go out-to leave me-it feels natural.

I love the way she makes eggs, her coffee,

The way she is-just being herself.

The quiet comfort of knowing I am her man,

And the certainty of knowing she is my woman.

She complains sometimes, of course, about the way I love,

But she never says no when I call her,

And everything, everything around us dissolves,

Because between us, there is only love, love, love!

Ilustração: Amazon. 


Eliodoro Aillón Terán com vocês

 


SIMPLEMENTE

Eliodoro Aillón Terán

Si pudiéramos decir:
el árbol, simplemente,
sin viento que lo inquieten,
sin pájaros que lo pinten.

Y luego,
la mujer, simplemente,
sin adjetivos,
sin paisaje que la desnude.

Después,
el hombre, simplemente,
sin miedo que lo agigante
ni sombra que lo entretenga.

Si pudiéramos decir:
el árbol, la mujer y el hombre,
simplemente,
sin vientos, sin pájaros, sin adjetivos,
sin paisaje, sin miedo y sin sombra.

SIMPLESMENTE

Simplesmente

Se pudéssemos dizer:

a árvore, simplesmente,

sem vento que a inquietem,

sem pássaros que a pintem.

 

E logo,

a mulher, simplesmente,

sem adjetivos,

sem paisagem que a desnude.

 

Depois,

o homem, simplesmente,

sem medo para o engrandecer

nem sombra para o distrair.

 

Se pudéssemos dizer:

a árvore, a mulher e o homem,

simplesmente,

sem ventos, sem pássaros, sem adjetivos,

sem paisagem, sem medo e sem sombra.

 

Simplesmente.


Eavan Boland de volta

 


                           ATLANTIS- A LOST SONNET

Eavan Boland

How on earth did it happen, I used to wonder
that a whole city--arches, pillars, colonnades,
not to mention vehicles and animals--had all
one fine day gone under?

I mean, I said to myself, the world was small then.
Surely a great city must have been missed?

I miss our old city--
white pepper, white pudding, you and I meeting under
fanlights and low skies to go home in it-Maybe
what really happened is

this: the old fable-makers searched hard for a word
to convey that what is gone is gone forever and
never found it. And so, in the best traditions of
where we come from

they gave their sorrow a name and drowned it.

ATLÂNTIDA-UM SONETO PERDIDO

Como foi que, na terra, isto aconteceu, eu usava me perguntar,

que uma cidade inteira - arcos, pilares, colunatas,

para não mencionar veículos e animais- tivesse,

num belo dia, submergido?

 

Em síntese, eu pensava comigo mesmo, o mundo era pequeno então.

Certamente uma grande cidade deve se ter sentido desaparecer?

 

Sinto falta da nossa velha cidade-

pimenta branca, pudim branco, eu e você nos encontrando sob

claraboias e céus baixos para voltar para casa nela- Talvez

o que realmente tenha acontecido seja

 

isto: os antigos fabulistas buscaram incansavelmente uma palavra

para expressar que o que se foi, foi-se para sempre, e

jamais a encontraram. E assim, seguindo as melhores tradições

de nossa origem,

 

deram um nome à sua tristeza e a afogaram.

Ilustração: National Geografhic. 


Tuesday, August 25, 2026

"Con El Alma" de William Keith Sutherland

 


CON EL ALMA

William Keith Sutherland

Tomé mis pasos, fríos, húmedos igual que mi rostro, y emprendí el camino.

Mi vida nómade, era suspiro deambulando entre tus hojas sin aún saberte cierta, era viento raudo entre tus rocas marinas, era ola desmayada, esperando reventar en tu mar nocturno, sonoro, infinito, orgásmico.

No busqué y llegaste ¿A qué se debe tanta vida que me es legada?

Mi silueta desnuda, inundada de raíces este campo santo que pare tanto olvido.

Mis manos sembraban fugaces estrellas en medio de una despedida, bajo el pecho pecoso de la diosa de este último firmamento.

La lluvia besaba el granito de mi lengua versada en la pureza, como soltura de un espíritu escondido entre la hierba fresca, agitada por las manos de ausentes dioses, en esta indolente lejanía.

Insondable es mi reflejo, un pálpito anacoreta, un hacha anclada en carne media, derramando vendimia al otro lado de tus bordes.

Bebí de tu vertiente pura y cálida sin tenerte, navegué aquellas aguas entre los muslos de tus montes, y abracé como un templo, tu fe más lejana.

Recorrí tu cuerpo desnudo como aguacero, acuné tus amaneceres y tu atardecer más triste, hice mío tu dolor más hondo, en silencio, observándote, como el tiempo, como beso eterno donde la razón no dicta s cátedra, ahí donde mis palabras fueron lengua en lo profundo y sublime, y levanté mi cuerpo en un mordisco, para caer de nuevo como hoguera en este encendido instante donde no hago más que darme a ti.

Me senté a navegar con mis ojos aquella tardecita lluviosa en el borde del estrecho mar, y sentiste al mundo como un temblor.

Acercaste esa distancia que deseas,y me hice poesía entre tus labios, un ave feliz en este mundo y posé mi razón frágil, entrega desnudada entre tus manos como un perdón.

Ahora, despierto en medio del embate de la razón, y sin embargo, aún estás ahí, tan presente sin tenerte, como bella melodía que siento, mas no veo; que me toca, hasta mi alma más lejana, aquella aún por nacer.

Aún amo aquel libro que selló en una conversación un destino, que aferró mis manos a una mirada, y que sin desear, rebosa todos mis sentidos.

COM A ALMA

Peguei meus passos, frios e úmidos como meu rosto, e parti.

Minha vida nômade era um suspiro vagando entre suas folhas sem ainda saber-te certa, era um vento rápido entre suas rochas marinhas, era uma onda fraca, esperando para estourar em seu mar noturno, sonoro, infinito, orgástico.

Não busquei e chegastes. Por que tanta vida me foi legada?

Minha silhueta nua, inundada de raízes, esse campo sagrado que impede tanto esquecimento.

Minhas mãos semearam estrelas fugazes em meio a uma despedida, sob o peito sardento da deusa deste último firmamento.

A chuva beijou o granito da minha língua versada em pureza, como a frouxidão de um espírito escondido entre a erva fresca, agitado pelas mãos de deuses ausentes, neste indolente afastamento.

Meu reflexo é insondável, o batimento cardíaco de um anacoreta, um machado ancorado no meio da carne, derramando colheita de uvas do outro lado de suas bordas.

Bebi da tua fonte pura e cálida sem ter-te, naveguei por aquelas águas entre os músculos das tuas montanhas, e abracei como um templo, a tua fé mais distante.

Corri sobre teu corpo nu como um aguaceiro, embalei teus amanheceres e teus entardeceres mais tristes, fiz minha a tua dor mais profunda, em silêncio, observando-te, como o tempo, como um beijo eterno onde a razão não dita seu ensinamento, ali onde minhas palavras eram língua no profundo e sublime, e ergui meu corpo numa mordida, para cair de novo como uma fogueira num instante ardente onde não faço outra coisa senão entregar-me a ti.

Sentei-me para navegar com os olhos naquela tardezinha chuvosa à beira do mar estreito, e sentiste o mundo tremer.

Te aproximaste à distância que desejas, e eu me tornei poesia entre seus lábios, um pássaro feliz neste mundo e coloquei minha razão frágil, entregue nua nas tuas mãos como um perdão.

Agora, desperto em meio ao combate da razão, e, sem embargo, continuas aí, tão presente sem te ter, como uma bela melodia que sinto, mas não vejo; que me toca, até mesmo a alma mais distante, aquela que ainda vai nascer.

Eu ainda amo aquele livro que selou um destino numa conversa, que segurou minhas mãos num olhar e que, sem querer, transbordou todos os meus sentidos.

Ilustração: Alta Muiscalidade.

 

Monday, August 24, 2026

E, agora, Giulio Maffii

 


                                              VI

Giulio Maffii

L’errore è dentro noi nelle parole

negli eventi nelle liste programmatiche

Siamo un prestito del tempo

le tre colonne del tempio?

siamo mercanti adoratori

la sconfitta di qualsiasi dio

siamo la terra guasta dentro la grondaia

il fine ultimo della nuvola

il grido dell’albero che esce dalla radice

siamo e fummo

perché il verbo non ha desinenze

quando è fuori dalla grammatica vivente

e poi scendemmo ancora mentre

VI

O erro está dentro de nós nas palavras

nos eventos nas listas programáticas

Somos um empréstimo do tempo

as três colunas do templo?

Somos adoradores de mercadores

a derrota de qualquer deus

somos a terra estragada dentro da sarjeta

o fim último da nuvem

o grito da árvore que vem da raiz

nós somos e fomos

porque o verbo não tem desinências

quando está fora da gramática viva

e por isto então descemos novamente

Ilustração: Patrícia Rodrigues.  


Sunday, August 23, 2026

Charles Bukowski em seu estado quase normal

 

HERE I AM

Charles Bukowski

drunk again at 3 a.m. at the end of my 2nd bottle
of wine, I have typed from a dozen to 15 pages of
poesy
an old man
maddened for the flesh of young girls in this
dwindling twilight
liver gone
kidneys going


pancrea pooped
top-floor blood pressure 

AQUI ESTOU EU

bêbado de novo às 3 da manhã, no fim da minha segunda garrafa

de vinho; eu digitei de uma dúzia a 15 páginas de

poesia

um homem velho

enlouquecido pela carne de moças jovens neste

crepúsculo minugante

o fígado já era

os rins já se foram

o pâncreas pifado

e a pressão arterial lá nas alturas

Ilustração: Xico Sá-UOL.

 


"A Veces" de Nicolás Guillén

 


A VECES

Nicolás Guillén

A veces tengo ganas de ser un cursi

para decir: La amo a usted con locura.

A veces tengo ganas de ser tonto

para gritar: ¡La quiero tanto!

A veces tengo ganas de ser un niño

para llorar acurrucado en su seno.

A veces tengo ganas de estar muerto

para sentir, bajo la tierra húmeda de mis jugos,

que me crece una flor rompiéndome el pecho,

una flor, y decir: Esta flor,

para usted.

ÀS VEZES

Às vezes tenho vontade de ser piegas

para dizer: te amo com loucura.

Às vezes tenho vontade de ser tonto

gritar: Te amo tanto!

Às vezes tenho vontade de ser uma criança

para chorar encolhida no seu seio.

Às vezes tenho vontade de estar morto.

para sentir, sob a terra úmida dos meus sucos,

que me cresce uma flor cresce rompendo-me o peito,

uma flor, e dizer: Esta flor,

para você.

Ilustração: Vecteezy.


Saturday, August 22, 2026

Ode ao Vinho (Ode To Wine)

 


                                  ODE AO VINHO

Silvio Persivo

Há um dia em que se calarão os desejos. 

Hoje não.

Hoje preciso, necessito, urgente

De teus beijos, de teu corpo,

De sentir de novo a sensação

De que o amor não é uma ilusão.

 

E sôfrego conseguir chegar a algo,

Deixar crescer a flor da pele

O desejo guardado

Que vem assim louco, desesperado,

Em paixão aflorar

E satisfeito e calmo estar.

 

Sei que fui,

Que vou além do que devia,

Mas, amor, o amor é uma agonia,

Desembrulhando as emoções inesperadas

Que são espalhadas em suor, manchas, lençóis

E deixam marcas eternas em nós.

 

A névoa brinca com a clareza.

Pode ser que a vida seja

Um caminho de luz

Perdido na noite escura.

Limito minha procura

Ao prazer do instante.

Nada de pensar no adiante

Nem antecipar o gozo ou a tristeza.

 

Cada momento tem sua própria beleza

Como o vinho que bebemos nesta mesa.  

ODE TO WINE

There will come a day when desires fall silent.

Not today.

Today I need-urgently need-

Your kisses, your body,

To feel once more the sensation

That love is no illusion.

 

And, breathless, to reach that point,

To let the flower of desire

Bloom upon the skin-

That pent-up longing, wild and desperate,

Bursting forth in passion,

Finding calm and fulfillment.

 

I know I have gone-

That I go-beyond what I should,

But, my love, love is an agony,

Unfolding unexpected emotions

Scattered in sweat, stains, and sheets,

Leaving eternal marks upon us.

 

Mist plays with clarity.

Life may well be

A path of light

Lost in the dark of night.

I limit my quest

To the pleasure of the moment.

No thinking of what lies ahead,

No anticipating ecstasy or sorrow.

 

Each moment holds its own beauty

Like the wine we drink at this table.

Ilustração: Facebook.


"Dream Variations" de Lanfston Hughes



DREAM VARIATIONS

Langston Hughes

To fling my arms wide

In some place of the sun,

To whirl and to dance

Till the white day is done.

Then rest at cool evening

Beneath a tall tree

While night comes on gently,

    Dark like me-

That is my dream!

 

To fling my arms wide

In the face of the sun,

Dance! Whirl! Whirl!

Till the quick day is done.

Rest at pale evening . . .

A tall, slim tree . . .

Night coming tenderly

    Black like me.

VARIAÇÕES DE SONHO

Para colocar meus braços longos

Em algum lugar do sol,

Para girar e dançar

Até o dia branco terminar.

Então descansar na fria noite

Sob uma árvore alta

Enquanto a noite vem gentilmente,

     Escura como eu-

Este é meu sonho!

 

Para pôr meus braços longos

Em frente ao sol,

Dançar! Girar! Girar!

Até que o rápido dia se vá.

Descansar na pálida noite. . .

Uma árvore alta e esguia. . .

A noite vindo suavemente

     Escura como eu.

Ilustrações: Correio Braziliense.