Wednesday, April 15, 2026

Ho Sceso, Dandotu Il Braccio

 


               HO SCESO, DANDOTU IL BRACCIO

Eugenio Montale

Ho sceso, dandoti il braccio, almeno un milione di scale
e ora che non ci sei è il vuoto ad ogni gradino.
Anche così è stato breve il nostro lungo viaggio.
Il mio dura tuttora, nè più mi occorrono
le coincidenze, le prenotazioni,
le trappole, gli scorni di chi crede
che la realtà sia quella che si vede.

Ho sceso milioni di scale dandoti il braccio
non già perché con quattr'occhi forse si vede di più.
Con te le ho scese perché sapevo che di noi due
le sole vere pupille, sebbene tanto offuscate,
erano le tue.

DESCI DANDO-TE O BRAÇO

Desci um milhão de degraus, dando-te o meu braço,

e agora que não estás aqui, cada degrau está vazio.

Mesmo assim, foi breve a nossa longa viagem.

A minha ainda dura, e já não preciso

das coincidências, das reservas,

das armadilhas, do desprezo dos que creem

que a realidade é aquela que se vê.

Desci milhões de degraus, oferecendo-te o meu braço,

não porque talvez com quatro olhos se possa ver mais.

Desci-os contigo porque sabia que entre nós,

os únicos olhos verdadeiros, por mais embaçados que fossem,

eram os teus.

Ilustração: Unsplash. 


Penelope's Song de Louise Glück

 


                                 PENELOPE’S SONG

Louise Glück

Little soul, little perpetually undressed one,
Do now as I bid you, climb
The shelf-like branches of the spruce tree;
Wait at the top, attentive, like
A sentry or look-out. He will be home soon;
It behooves you to be
Generous. You have not been completely
Perfect either; with your troublesome body
You have done things you shouldn't
Discuss in poems. Therefore
Call out to him over the open water, over the bright
Water
With your dark song, with your grasping,
Unnatural song-passionate,
Like Maria Callas. Who
Wouldn't want you? Whose most demonic appetite
Could you possibly fail to answer? Soon
He will return from wherever he goes in the
Meantime.

A CANÇÃO DE PENELOPE

Alminha, pequena perpetuamente despida,

Faz agora como eu lhe peço, suba

Os galhos finos do abeto;

Espera no topo, atenta, como

Uma sentinela ou vigia. Ele cedo chegará em casa;

Convém que sejas

Generosa. Ainda que não tenha sido completamente

Perfeita; com seu corpo problemático,

Fez coisas que não deveria

Discutir em poemas. Portanto,

Chame-o sobre a água aberta, sobre a água clara

Com sua canção sombria, com tua sôfrega

Canção antinatural - apaixonada,

Como Maria Callas. Quem

Não a queria? A que apetite mais demoníaco

Poderia deixar de satisfazer? Logo

Ele regressará do lugar onde foi

Entretanto.

Ilustração: Mitologia Grega. 


Tuesday, April 14, 2026

Quiero Estar Em Tu Sueño

 


QUIERO ESTAR EM TU SUEÑO

Julia Prilutzky

Quiero estar en tu sueño. Ser tu sueño.
Penetrar más allá de lo que advierte
la mirada sutil. Como beleño
recorrer, galopar tu sangre inerte.

Quiero quebrar con definido empeño
toda defensa en ti: muralla, fuerte:
y adentrarme, crisálida de ensueño
más allá de tu vida y de tu muerte.

Más allá de tu piel, y más adentro
de toda sombra, y más allá del centro
desconocido, virgen, tembloroso...

Y estar dentro de ti -seguro puerto-
como un paradojal milagro cierto,
presentido a la vez que pavoroso.

QUERO ESTAR NO TEU SONHO

Quero estar no seu sonho. Ser o teu sonho.

Penetrar mais além do que adverte

o olhar sutil. Como cardo-beleno,

percorrer, galopar pelo seu sangue inerte.

 

Quero quebrar com definido afinco

toda defesa em ti: muralha forte:

e adentrar, um casulo onírico

mais além da tua vida e da tua morte.

 

Além da tua pele, e mais adentro

que toda sombra, e além do centro

desconhecido, virgem e temeroso...

 

E estar dentro de ti-um seguro porto-

como um milagre paradoxal e certo,

pressentido, porém pavoroso.

Ilustração: Drops do Cotidiano.

Uma poesia de Antonia Pozzi

 


LAMPI

Antonia Pozzi
Stanotte un sussultante cielo
malato di nuvole nere
acuisce a sprazzi vividi
il mio desiderio insonne
e lo fa duro e lucente
come una lama d’acciaio.

RELÂMPAGOS

Esta noite um tremulante céu

adoentado por nuvens negras

aguça em vívidos flashes

o meu desejo insone

e o faz duro e brilhante

como uma lâmina de aço.

Ilustração: Olhar Digital. 


Monday, April 13, 2026

Alla Sera, um clássico de Ugo Foscolo

 


ALLA SERA

 Ugo Foscolo

Forse perchè della fatal quïete
Tu sei l’immago, a me sì cara vieni.
O sera! E quando ti corteggian liete
Le nubi estive e i zeffiri sereni,
E quando del nevoso aere inquïete
Tenebre e lunghe all’universo meni,
Sempre scendi invocata, e le secrete
Vie del mio cor söavemente tieni.
Vagar mi fai co’ miei pensier sull’orme
Che vanno al nulla eterno, e intanto fugge
Questo reo tempo, e van con lui le torme
Delle cure onde meco egli si stnigge;
E mentre io guardo la tua pace, dorme
Quello spirto guerrier ch’entro mi rugge.

À NOITE

Talvez porque da fatal quietude

és a imagem, você me vem tão querida,

Ó noite! E quando te cortejam alegres

as nuvens de verão e as brisas serenas,

E quando do ar nervoso e inquieto

Trazes sombras longas e escuras ao universo,

Sempre desces, invocada, e os caminhos secretos do meu coração guardas.

Vagar me faz com meus pensamentos pelas trilhas

Que levam ao nada eterno, e enquanto isso foge este tempo culpado,

e com ele vão as multidões

De preocupações que o consomem;

E enquanto contemplo tua paz,

Aquele espírito guerreiro que ruge dentro de mim dorme.

Ilustração: Unsplash. 

Libélula de Andrés Garcia Cerdán

 


LIBÉLULA

Andrés Garcia Cerdán

La errática canción de la libélula
traza en el aire de la tarde
un mapa.
Sobre el agua en remanso de un regato
que nace en la piscina,
entre el polvo y la hierba,
el insecto dibuja un laberinto
de vuelo.
A veces se detiene sobre una rama seca
o inquiere las orillas desbordadas
de un charco.
Se levanta a los aires
y vuelve
a explorar esa inmensidad
cuyo fondo es un cielo azul, envenenado de verano.
Destila orgullo y elocuencia,
fragilidad.
Suspendida en la nada,
en vuelos que van y vienen
sin saber muy bien desde cuándo
ni adónde
ni hacia quién,
va dejando su hilo de oro apresurado,
un polen transparente
que lo recoge todo
y que todo lo purifica.
He ido uniendo en mi cabeza

esta deriva suya,
su no estarse quieta nunca.
Lo que he encontrado al fin,
como imagen completa de este día de julio,
son los ojos sin dueño de mi madre.

LIBÉLULA

A errática canção da libélula

traça no ar da tarde um mapa.

Sobre a água parada de um riacho

que nasce na piscina,

entre a poeira e a grama,

o inseto desenha um labirinto

de voo.

Às vezes, se detém em um galho seco

ou indaga sobre as margens transbordantes

de um charco.

Levanta-se no ar

e volta

para explorar essa imensidão

cujo fundo é um céu azul, envenenado pelo verão.

Destila orgulho e eloquência,

fragilidade.

Suspenso no nada,

em voos que vêm e vão

sem saber bem quando

nem de onde

ou para quem,

vai deixando seu fio dourado apressado,

um pólen transparente

que reúne tudo

e purifica tudo.

Tenho reunido em minha mente

essa deriva sua,

essa sua inquietude.

O que finalmente encontrei,

como a imagem completa deste dia de julho,

são os olhos desamparados da minha mãe.

Ilustração: Reddit.


Uma poesia de Lütfiye Güzel


Lütfiye Güzel

hinter dieser tür

wohne ich

es ist der kleine fleck

zwischen dem

nicht-bleiben-wollen

&

dem

nicht-weggehen-können

Atrás desta porta

eu moro

é o pequeno espaço

entre-o-não querer-ficar

&

o

não- poder- ir-embora

Ilustração: Romani Alianças. 

 


Sunday, April 12, 2026

Outra poesia de Michel Houellebecq

 

IL EST VRAI  
Michel Houellebecq
Il est vrai que ce monde où nous respirons mal
N'inspire plus en nous qu'un dégoût manifeste,
Une envie de s'enfuir sans demander son reste,
Et nous ne lisons plus les titres du journal.

Nous voulons retourner dans l'ancienne demeure
Où nos pères ont vécu sous l'aile d'un archange,
Nous voulons retrouver cette morale étrange
Qui sanctifiait la vie jusqu'à la dernière heure.

Nous voulons quelque chose comme une fidélité,
Comme un enlacement de douces dépendances,
Quelque chose qui dépasse et contienne l'existence ;
Nous ne pouvons plus vivre loin de l'éternité.

É VERDADE

É verdade que este mundo em que mal conseguimos respirar

Inspira em nós apenas um asco manifesto,

Um desejo de fugir sem nada esperar,

E não lemos os títulos dos jornais, de resto.

 

Queremos voltar à morada antiga

Onde a asa de um arcanjo cobria nossos pais,

Queremos recobrar a moral estranha

Que até o último instante santifica a vida.

 

Queremos algo como fidelidade,

Como uma imbricação de doces dependências,

Algo que transcenda e abarque a existência;

Não podemos mais viver sem a eternidade.

 



Uma poesia de Carmen Verde Arocha

  

MARES Y HALAGOS

Carmen Verde Arocha

Tu pelo ondulado, canoso
acabas de cortarlo
sigues cortando
y deja tu coronilla brillante

allí entrará la luz
entraré yo
con mis pechos pequeños
y colinas tapizadas de amaranto.

Desnudos peces quietos somos
al resguardo
del recóndito río
que nos hunde sus dientes.

«La mujer que pesca señales en el aire».
Es tu voz que se escucha en el mar.

Tú y yo
peces hambrientos
de múltiples manos
estaremos siempre atados
(estoy segura)
a ese lazo
de lluvia
que te impulsa

al frote del ardor y
aún no lo sabes.

MARES E PLANÍCIES

Teu cabelo ondulado e grisalho

acabas de cortar

segues cortando

e deixa tua coroa brilhante

lá a luz entrará

entrarei eu

com meus seios pequenos

e colinas cobertas de amaranto.

Peixes nus e quietos somos

resguardados

do rio oculto

que crava seus dentes em nós.

"A mulher que pesca sinais no ar."

É a tua voz que se ouve no mar.

Tu e eu

peixes famintos

com muitas mãos

estaremos sempre atados

(estou segura)

a esse laço

de chuva

que te impulsiona

à fricção do ardor e

ainda que não o saibas.

Ilustração: OTSS.

Saturday, April 11, 2026

Se Questo è un uomo de Primo Levi

 

SE QUESTO È UN UOMO

Primo Levi

Voi che vivete sicuri
nelle seu tiepide case,
voi che trovate tornando a sera
il cibo caldo e visi amici:

Considere se este é um homem
que trabalha no fango
que não conhece o ritmo
que lotta para o meio painel
que muore para um si ou para um não.
Considere se esta é uma dona,
sem cabelo e sem nome
sem mais força para lembrar
seus olhos e freddo il grembo
como uma rana d'inverno.

Medite que este é o estado:
vi comando queste parole.
Escolpitele nel seu cuore
stando in casa andando per via,
coricandovi, alzandovi.
Ripetetele ai vostri figli.
O vi si sfaccia la casa,
la malattia vi impedisca,
e vostri nati torcano il viso da voi.

SE ISTO É UM HOMEM

Vocês que vivem seguros
nas suas casas acolhedoras,

que voltam ao entardecer para encontrar
comida quente e rostos amigos:

Considere se este é um homem,
que trabalha na lama,
que não conhece a paz,
que luta por um pedaço de pão,
que morre por um sim ou um não.
Considere se esta é uma mulher,
sem cabelo nem nome,
sem forças para se lembrar,
com os olhos vazios e o ventre frio
como um sapo no inverno.

Medite que esta é a situação:
recomendo estas palavras.
Grave-as em seus corações:

estando em casa, caminhando pelas ruas,
quando se deitarem e quando se levantarem.
Repitam-nas aos seus filhos.
Caso contrário, sua casa poderá ruir,
a doença poderá torná-los impotentes e
seus filhos podem desviar o olhar de vocês.

Ilustração: Opus Dei.

Friday, April 10, 2026

Especial mesmo é a Maniçoba

 


LOUVAÇÃO À MANIÇOBA

Silvio Persivo

A maniçoba é dos deuses um presente,

Feita com a maniva e nobres ingredientes,

como toucinho, charque e calabresa,

a feijoada vegetal é uma beleza.

 

Cortados em rodelas o bacon, o paio

E, com folhas de louro, se faz o ensaio

Costelinhas defumadas e porco assado,

Com a maniva dissolvida em um ensopado.

 

Cozinhando por dias em fogo brando,

Até o caldo ficar preto e consistente,

A maniçoba encorpada é um deleite,

Acompanhada de farinha e arroz quente.

 

Depois de provar, é impossível esquecer,

Por isto a maniçoba, um tesouro da culinária,

Agradável, maravilhoso, o que dá mais prazer

Entre todos pratos que existem na Amazônia!

Ilustração: DOL.

(De "Receitas Amazônicas Temperadas com Poesia). 

 

Thursday, April 09, 2026

Mentiras, Mentiras de Andrés Garcia Cerdán

 

MENTIRAS, MENTIRAS

Andrés Garcia Cerdán

Íbamos por las calles
intentando escucharnos en mitad del escándalo,
pero no escuchábamos nada.
No había nada
que oír.
Palabras y palabras a nuestro alrededor,
un ruido atroz, como de cosas
rotas, que crujen
y se desgajan
y se hacen
añicos.
Paradójicamente, aquello era el silencio,
el silencio absoluto.
Lo real se colaba por el ruido
como se cuela el agua sucia
por el sumidero de las pilas de fregar.
Hablaba todo el mundo
de todo,
pero todo era silencio en todo.
Tanto bullicio para qué.
Ahorcada en los semáforos
moría la verdad,
esto es, todo lo que
tiene que ver con la belleza.
Ya no olían a nada los limones:
dónde su cristal amarillo,
el jugo de su hermoso ácido.

MENTIRAS, MENTIRAS

Íamos pelas ruas

tentando nos ouvir em meio ao tumulto,

porém não ouvíamos nada.

Não havia nada

para ouvir.

Palavras e palavras ao nosso redor,

um ruído atroz, como coisas

quebradas, rangendo

e se despedaçando

e se estilhaçando

em pedaços.

Paradoxalmente, aquilo era silêncio,

silêncio absoluto.

A realidade se infiltrava pelo ruído

como água suja que escorre

pelo ralo da pia.

Todos falavam

sobre tudo,

mas tudo era silêncio dentro de tudo.

Tanto alvoroço para quê?

Paralisada no semáforo,

a verdade estava morrendo,

isto é, tudo

relacionado à beleza.

Os limões não cheiravam mais a nada:

onde estava seu vidro amarelo,

o suco de seu belo ácido?




Words de Jane Hirshfield

 

WORDS

Jane Hirshfield

Words are loyal.
Whatever they name they take the side of.
As the word courage will afterward grip just as well 
the frightened girl soldier who stands on one side of barbed wire, 
the frightened boy soldier who stands on the other.
Death’s clay, they look at each other with wide-open eyes.
And words-that love peace, love gossip-refuse to condemn them.

PALAVRAS

As palavras são leais.

Qualquer nome que lhes deem, elas tomam partido.

Assim como a palavra coragem, depois, agarrará tão bem

a garota soldado assustada que está de um lado do arame farpado,

o garoto soldado assustado que está do outro.

Argila da morte, eles se olham um ao outro com os olhos bem abertos.

E as palavras- que amam a paz, que amam a fofoca-se recusam a condená-los.

Ilustração: Alimento Diário.