Saturday, March 28, 2026

Terras Raras ? Vai aprender...

 


RASAS PERCEPÇÕES SOBRE TERRAS RARAS

Silvio Persivo

Nas frias pedreiras suecas, ao tempo rendidas,
Foi Carl Axel Arrhenius quem viu, entre as pedras, a luz:
O ítrio surgia, em silêncio, das terras escondidas,
Primeiro sopro raro que a ciência conduz.

Dezessete são- discretos, porém fundamentais-
Neodímio, praseodímio, disprósio em vigília,
Térbio e lantânio, guardiões minerais,
Ocultos na monazita, na xenotímio em família.

Mas não se entregam fáceis ao labor do homem:
De uma tonelada de terra, um quilo apenas vem,
Como se a natureza impusesse o nome
Do esforço preciso a quem busca além.

E eu, que pouco sei, te digo com singeleza, filho:
Que ali reside o pulso oculto do engenho humano-
Nos superímãs, no futuro, no brilho do trilho...
Quer saber mais? Vai- desvenda o arcano.

 

 

Uma poesia de Holly Karapetkov

 

SONG OF THE EXILES

Holly Karapetkov

There never was a garden,
only a leaving:
miles and miles
of footprints in the dirt.

In the beginning-
the shattered sun, the wind,
and nothing left but our shadows
sifting through the dust behind us.

When we turned
we did not turn to salt.
When we turned
there was nothing behind us to burn

nothing to return to
though who could blame us for turning,
with only the long days ahead
tongues tripping in the dirt.

They said we didn’t belong.
They blamed us
for leaving the garden
which never was or would be.

Where could we go,
we who had come from nowhere
and hence could not
return?

CANÇÃO DOS EXILADOS

Nunca houve um jardim,

só uma partida:

milhas e milhas

de pegadas na terra.

No princípio-

o sol destroçado, o vento,

e nada restou além de nossas sombras

peneirando a poeira atrás de nós.

Quando nos viramos,

não nos transformamos em sal.

Quando nos viramos,

não havia nada atrás de nós para queimar,

nada para onde retornar,

embora quem pudesse nos culpar por nos virarmos,

só com os longos dias pela frente,

as línguas tropeçando na lama.

Eles disseram que não pertencíamos.

Eles nos culparam

por deixar o jardim

que nunca existiu nem existiria.

 

Para onde poderíamos ir,

nós que viemos do nada,

e, portanto, não podíamos

retornar?

Ilustração: Top Leituras. 

E, mais uma vez, Itzíar López Guil

 

 

BUFANDA PARA EL MAL TIEMPO

Itzíar López Guil

Te buscaré en los libros y en los bosques, con
la carnosa luz de la albahaca me sentaré a
esperarte, padre mío.

 

Y volverán las largas sobremesas
deshojando verdades, mano a mano.

 

Qué silencioso mar son las estrellas, la
hoguera que hoy escribe en nuestros rostros.
Sopla el aire y te acaricia el pelo, mis
párpados se aflojan.

No los abro cuando me alzas en brazos, y, en
tu pecho apoyada,

 

voy al sueño…

UM CACHECOL PARA O MAU TEMPO

Te buscarei nos livros e nas florestas, com

a luz carnuda do manjericão. Sentarei e

esperarei por ti, meu pai.

 

E voltarão as longas sobremesas,

desfolhando verdades, mão a mão.

 

Que mar silencioso são as estrelas, a

fogueira que hoje escreve em nossos rostos.

O ar sopra e acaricia teus cabelos, minhas

pálpebras se fecham.

Não as abro quando me levantas em teus braços e, encostada em

teu peito,

 

vou sonhar…

Ilustração: Amazon. 

Friday, March 27, 2026

Fiore Del Nulla, de Diego Valeri

 


FIORE DEL NULLA

Diego Valeri

Quando ti schiudi, fiore divino,
assorto è il tempo fuor di notte e di giorno,
l'aria non ha colore,
tutto è perduto intorno.
Tu solo sei, divino fiore del nulla, amor.

FLOR DO NADA

Quando te abres, flor divina

absorvido é o tempo fora da noite e do dia,

o ar não tem cor,

tudo é perdido ao redor.

Só tu és, divina flor do nada, amor.

Ilustração: Blog Giuliana Flores.


Mi Alegría de José María Hinojosa

 


MI ALEGRÍA

José María Hinojosa

Vino a mí en espiral,
con vuelo de mañana,
su voz hecha sonrisa
de lucero del alba.

Mi sangre baña el río
en aleteo de agallas;
queda el cuerpo sin sangre
y oye la voz del alba.

Está mi cuerpo frío
ya tendido en la playa,
y huyendo de la luz
desaparece el alba.

Su voz hecha sonrisa
vino a mí en espiral;
mi gesto sin aristas
fue a ella en espiral.

MINHA ALEGRIA

Veio a mim em espiral,

com o voo da manhã,

sua voz feito um sorriso

como a estrela da manhã.

 

Meu sangue banha o rio

no bater das asas;

fica o corpo sem sangue

e ouve a voz da alba.

 

Está meu corpo frio

já estendido na praia,

e fugindo da luz

desaparece a alba.

 

Sua voz feito um sorriso

veio a mim em espiral;

meu gesto sem arestas

foi a ela em espiral.

Ilustração: Reddit. 


Uma poesia de Matt Mason

 

 

UNTITLED POEM FOR SARAH

Matt Mason

Every morning you’d think
all the moths would throw themselves
into the Sun.

 

But they wait
for streetlights
to consume them

 

in small coughs
of sparkle.
My dear,

 

my dear,
my dear:
I have stopped

 

listening to my moth soul.
My dear, I am done
tilting at streetlights.

 

My paper wings soar,
brush
your blazing heart.

POEMA SEM TÍTULO PARA SARAH

Toda manhã você pensaria

que todas as mariposas se atirariam

ao Sol.

 

Porém elas esperam

que as luzes da rua

as consumam

 

em pequenas tosses

de brilho.

Minha querida,

 

minha querida,

minha querida:

Eu tenho parado

ouvindo minha alma de mariposa.

 

Minha querida, eu estou cansado

de lutar contra as luzes da rua.

 

Minhas asas de papel voam,

ao roçar

seu coração ardente.

Ilustração: HypeScience. 

 

 



Thursday, March 26, 2026

Quando Aquarius chegar.....

 


QUANDO AQUARIUS ABRE OS CÉUS

Silvio Persivo, com auxílio do Chat GPT. 

Em Aquarius, Peixes pressentem: vão entrar os astros,
e um sopro de infinito nasce do Nada-
Prepare-se! -sussurra o tempo em seus mistérios,
como aurora que explode antes de ser lembrada.

O nove de copas avisa, pleno e luminoso:
nada conterá a maré dos teus desejos,
belo futuro que vejo, vasto e precioso,
bordado em luz, sem medo nem ensejos.

Ó maravilha!- canta o destino em brasa-
sucesso, amor, dinheiro em doce harmonia;
prepare as taças, o vinho que extravasa,
e os fogos de artifício brilhando à noite em poesia.

E o Hierofonte, solene, firma os compromissos,
dá forma ao sonho, ergue pontes no invisível;
enquanto o oito de copas desfaz antigos feitiços
e manda seguir- viver o novo possível.

Porque Aquarius traz mais que liberdade:
traz meios, caminhos, matéria ao que é etéreo,
faz do que é improvável concreta verdade,
e do que era sonho, um real tão sério.

Uau!- exclama a alma em festa e em vida-
é tudo aquilo que um dia você pediu:
o universo responde, porta aberta e erguida,
e o Nada, enfim, em Tudo se expandiu.

Ilustração: Nano Banana 2.

Outra poesia de Edith Sitwell

 


FIREWORK

Edith Sitwell

Pink faces-(worlds or flowers or seas or stars),
You all alike are patterned with hot bars

Of coloured light; and falling where I stand,
The sharp and rainbow splinters from the band

Seem fireworks, splinters of the Infinite-
(Glitter of leaves the echoes). And the night

Will weld this dust of bright Infinity
To forms that we may touch and call and see:-

Pink pyramids of faces: tulip-trees
Spilling night perfumes on the terraces.

The music, blond airs waving like a sea
Draws in its vortex of immensity

The new-awakened flower-strange hair and eyes
Of crowds beneath the floating summer skies.

And, ’gainst the silk pavilions of the sea
I watch the people move incessantly

Vibrating, petals blown from flower-hued stars
Beneath the music-fireworks’ waving bars;

So all seems indivisible, at one:
The flow of hair, the flowers, the seas that run,-

A coloured floating music of the night
Through the pavilions of the Infinite.

FOGOS DE ARTÍFICIO

Rostos rosados ​-(mundos ou flores ou mares ou estrelas),

Todos vocês, iguais, são padronizados com faixas incandescentes

De luz colorida; e caindo onde estou,

Os estilhaços afiados e iridescentes da faixa

Parecem fogos de artifício, estilhaços do Infinito-

(O brilho das folhas, os ecos). E a noite

Unirá essa poeira do Infinito brilhante

Em formas que podemos tocar, chamar e ver:

Pirâmides rosadas de rostos: tulipas

Derramando perfumes noturnos nos terraços.

A música, ares louros ondulando como o mar

Atrai seu vórtice de imensidão

Os cabelos e olhos de flores recém-despertas

Das multidões sob os céus flutuantes de verão.

E, contra os pavilhões de seda do mar,

observando as pessoas se moverem incessantemente

Vibrando, pétalas sopradas de estrelas cor de flores

Sob as barras ondulantes dos fogos de artifício musicais;

Assim, tudo parece indivisível, só um:

O movimento dos cabelos, as flores, os mares que correm,-

Uma música colorida e flutuante da noite

Através dos pavilhões do Infinito.

Ilustração: O Globo.


Wednesday, March 25, 2026

Vocação é vocação! Mas, alguns, dizem que sou mentiroso

 


O PESCADOR

 Silvio Persivo

Desde cedo soube, à beira do rio mar,
Que a pesca em mim nascia como um dom;
Sem esforço algum, sabia encontrar
O ponto exato onde pescar era bom.

Não falo sequer da arte em meu estilo:
Jaús, pacus, dourados reluzentes,
Pirarara, pintados-com sigilo-
Enchiam meus cestos, sempre abundantes.

Houve quem, tomado de despeito,
Dissesse: “Compra tudo no mercado!”
Mas a inveja não apaga o meu feito.

Pois na lida fui mestre consagrado;
E um boto, ao notar meu raro jeito,
Saltou do rio- aplaudiu-me, encantado.

Ilustração: Chat GPT. 

Um poema de Fernando Valverde

 


                                        EL FINAL

Fernando Valverde

Cuando miré hacia el puente me temblaron las manos.
Era un lugar terrible que me causaba espanto.
No era largo ni oscuro.
Lo rodeaban hojas o pájaros o lluvia
según las estaciones.
Por más que procuré forzar la vista
resultaba imposible divisar el final.
Parecía un camino al horizonte.
Has cruzado ese puente y ahora necesito
caminar hacia él.
No tanto por seguirte o por volver a encontrarte,
es más grande la angustia de intuir un abismo.

O FINAL

Quando olhei para a ponte, me tremeram as mãos.

Era um lugar terrível que me causava espanto.

Não era largo nem escuro.

O rodeavam folhas ou pássaros ou chuva,

segundo as estações.

Por mais que procurasse forçar a vista,

resultava impossível divisar o final.

Parecia um caminho até o horizonte.

Havias cruzado essa ponte, e agora necessito

caminhar até ela.

Não tanto para seguir-te ou voltar a te encontrar,

é mais a grande angústia de pressentir um abismo.

Ilustração: 123RF. 


Tuesday, March 24, 2026

Uma homenagem ao grande Américo Casara, o intelectual de Laranjeiras, Rei do Uitotos.

 

SONETO A AMÉRICO CASARA

Silvio Persivo, com o apoio do Chat GPT.

De Turim trouxe o traço e a arquitetura,
De Harvard, o pensar universal;
Mas foi no Sul que achou nova aventura,
No verde intenso e bruto do real.

Rasgou sertões, venceu o desconhecido,
No Vale do Guaporé fez morada;
Do látex fez sustento destemido,
E à selva deu ciência refinada.

Entre os Uitotos, soube ser ponte e guia,
Com arte e verbo abriu novos caminhos;
Fez do saber abrigo e companhia,
Unindo mundos antes tão desunidos.

Em cada chão, plantou futuro e história:
Família, amor- seu verdadeiro triunfo e glória.

A Sensação, Arthur Rimbaud

 


SENSATION

                       Arthur Rimbaud
Par les soirs bleus d'été, j'irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l'herbe menue :
Rêveur, j'en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien :
Mais l'amour infini me montera dans l'âme,
Et j'irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, - heureux comme avec une femme.

SENSAÇÃO

Pelas noites azuis de verão, irei pelos caminhos,

Recortado pelo trigo, pisando na grama fina:

Sonhando, sentirei sua frescura em meus pés.

 

Deixarei o vento banhe minha cabeça desnuda.

 

Não falarei, não pensarei em nada:

Porém um amor infinito ascenderá em minha alma,

E irei longe, muito longe, como um cigano,

Pela Natureza, - feliz como se junto de uma mulher.

Ilustração: O Estado de Minas. 

Outra poesia de Itzíar López Guil

 


MADREMAR

Itzíar López Guil

Vamos, madre, por todas las tabernas, como
blancas mendigas de la muerte, dejando
entre las mesas la alegría-la alegría del
aire- regalada.

Nuestros pasos son cada vez más cortos, más
turbias las palabras que nos hunden. Ahí
marcha mi hija, el yugo uncido, con este
viento negro que hoy arrasa.

Pero tu mano aferra mi antebrazo y vuelve
muro firme nuestros cuerpos: detrás, avanza
libre la pequeña.

Libre, sobre las mondas del pecado.
Libre, sobre el escombro de la culpa.

No importa cuánta rabia sople, cuánta
metralla:
contigo somos una, madre, hija.

Como son mar la arena y las corrientes.

MÃE DO MAR

Vamos, mãe, por todas as tabernas, como

mendigos brancos da morte, deixando

entre as mesas a alegria- a alegria do

ar-doada.

Nossos passos são cada vez mais curtos, mais

turvas as palavras que nos arrastam afundam. Ali

marcha minha filha, o jugo preso, com este

vento negro que hoje arrasa.

Porém tua mão se aferra ao meu antebraço e volta

a ser muro firme nossos corpos: atrás, avança livre a pequena.

Livre, sobre as cascas do pecado.

Livre, sobre os escombros da culpa.

Não importa quanta raiva sopre, quantos

estilhaços:

contigo somos uma, mãe, filha.

Como a areia e as correntes são o mar.

Ilustração: O Povo Mais. 


Monday, March 23, 2026

Uma poesia de uma leitura pisciana do Tarot

 


                           O INVISÍVEL QUE FLORESCE

(Leitura do Oráculo dos Anjos de Luz)

Silvio Persivo, com o auxílio do Chat GPT.

 Não importa o caminho-

se em vento, em chama, em silêncio-
virá.
Eu sei.

 

Virá como aquilo que surpreende
sem jamais ser estranho,
presente que já morava
no fundo do peito,
esperando seu próprio instante.

 

É a clareza que atravessa o véu,
um sussurro antigo
trazido por mãos invisíveis,
como quem vira a carta do acaso
e revela:
nunca houve desordem,
apenas um desenho ainda não visto.

 

O improvável se ergue
com a firmeza do inevitável,
e a justiça- não a dos homens-
mas a do tempo certo,
se instala como luz
em cada fresta da vida.

 

Então, tudo muda
sem que nada precise gritar.

Uma música começa-
perfeita, exata-
e o mundo aprende, enfim,
a dançar no compasso do que é.

 

Chega o novo tempo:
não como ruptura,
mas como reconhecimento.

 

E a estrela,
antes escondida nos olhos cansados,
arde plena no céu do agora,
com o brilho que sempre teve
- apenas aguardava ser visto.

 

E já não se fala em falta,
nem em espera,
nem em distância.

 

Porque tudo transborda.

 

E o que era promessa
se torna presença.

 

E o que era sonho
se torna chão.

 

E o que era eu
se torna infinito.

 

Não sei como,

mas, estava escrito.

 


Eis de novo Pierre Reverdy

 


FETICHE

                                             Pierre Reverdy
Petite poupée, marionnette porte-bonheur, elle se débat à ma fenêtre, au gré du vent. La pluie a mouillé sa robe, sa figure et ses mains qui déteignent. Elle a même perdu une jambe. Mais sa bague reste, et, avec elle son pouvoir. L'hiver elle frappe à la vitre de son petit pied chaussé de bleu et danse, danse de joie, de froid pour réchauffer son coeur, son coeur de bois porte-bonheur. La nuit, elle lève ses bras suppliants vers les étoiles.

FETICHE

Pequena boneca, marionete da sorte, ela se debate na minha janela, ao capricho do vento. A chuva empapou seu vestido, seu rosto e suas mãos, que agora estão manchadas. Ela até perdeu uma perna. Mas seu anel restou, e com ele, seu poder. No inverno, ela bate no vidro da janela com seu pezinho calçado de azul e dança, uma dança de alegria, de frio, para aquecer seu coração, seu coração de madeira da sorte. À noite, ela ergue seus braços suplicantes em direção às estrelas.

Ilustração: FEET MAG. 

Sunday, March 22, 2026

Outra poesia de Alberto Girri

 



GATO GRIS MUERTO

Alberto Girri

Brujos enseñaron que los gatos
pueden alojar almas humanas.

Figura empapada del asfalto o vuelto hacia las nubes,
eres el muerto más perfecto que yo he visto.
Pero cómo descubrir que la vigilia que te llega,
ya indiferente a cualquier invocación,
tu realidad verdadera de hijo del demonio,
de locatario esbelto de almas,
que estableció para tu antepasado africano
la voluntad miedosa de los clanes familiares
y confirmó la impar justicia de la magia.
Pronto vendrán hasta tu cuerpo abandonado
ladrones de velas,
y robarán las tibias, su recatada médula.
Porque es sabido que cuando tales huesos despierten
despertarán las almas en ellas internadas,
y en un pueblo lejano y caníbal,
hombres que trabajan y tienen amores,
instantáneamente se convierten en
estatuas.
Brujos enseñaron que los gatos
pueden alojar almas humanas,
y arañar, si quieren, el corazón del huésped.

GATO CINZA MORTO

Os feiticeiros ensinavam que os gatos

podem abrigar almas humanas.

Figura encharcada de asfalto ou voltada para as nuvens,

você é o morto mais perfeito que já vi.

Mas como descobrir que a vigília que vem até você,

agora indiferente a qualquer invocação,

sua verdadeira realidade como filho do diabo,

um frágil inquilino de almas,

que estabeleceu para seu ancestral africano

a vontade temível dos clãs familiares

e confirmou a justiça desigual da magia.

Em breve, ladrões de velas virão ao seu corpo abandonado,

e roubarão as tíbias, sua modesta medula.

Pois sabe-se que quando tais ossos despertam,

as almas neles sepultadas também despertam,

e em uma aldeia canibal distante,

homens que trabalham e amam,

instantaneamente se tornam

estátuas.

Os feiticeiros ensinavam que os gatos

podem abrigar almas humanas,

e arranhar, se quiserem, o coração de seu hospedeiro.

Ilustração: Revista Oeste.

Uma poesia de Edith Sitwell

 


                                     INTERLUDE

Edith Sitwell

Amid this hot green glowing gloom     

A word falls with a raindrop’s boom ...

 

Like baskets of ripe fruit in air     

The bird-songs seem, suspended where

 

Those goldfinches-the ripe warm lights         

Peck slyly at them-take quick flights.  

 

My feet are feathered like a bird  

Among the shadows scarcely heard;    

 

I bring you branches green with dew   

And fruits that you may crown anew     

 

Your whirring waspish-gilded hair

Amid this cornucópia-

 

Until your warm lips bear the stains     

And bird-blood leap within your veins.

INTERLUDIO

Em meio a esta verde e quente penumbra

Uma palavra cai com o barulho de uma gota de chuva...

 

Como cestas de maduras frutas no ar

Os cantos dos pássaros parecem suspensos onde

 

Aqueles pintassilgos- as luzes quentes e maduras l

Bicam astutamente eles- alçam rápidos voos.

 

.

 

Meus pés são emplumados como os de um pássaro

Entre as sombras quase inaudíveis;

 

Trago-te ramos verdes de orvalho

E frutos para que possas coroar novamente

 

Teus cabelos dourados como vespas

Em meio a essa cornucópia-

 

Até que teus lábios quentes carreguem as manchas

E o sangue de pássaro pulse em tuas veias.

Ilustração: Dreamstime.