Saturday, July 20, 2019

Outra poesia de Mary Oliver


 
FALL                                
Mary Oliver

the black oaks
fling their bronze fruit
into all the pockets of the earth
            pock pock

they knock against the thresholds
the roof the sidewalk
fill the eaves
            the bottom line

of the old gold song
of the almost finished year
what is spring all that tender
            green stuff

compared to this
falling of tiny oak trees
out of the oak trees
            then the clouds

gathering thick along the west
then advancing
then closing over
            breaking open

the silence
then the rain
dashing its silver seeds
            against the house

OUTONO

os carvalhos pretos
lançam seus frutos bronzeados
em todos os sulcos da terra
            ploc ploc

eles batem sobre os umbrais
com o teto a calçada
enchem as calhas
            até o fundo

da velha canção dourada
do ano quase acabado
o que é a primavera toda a delicada
            coisa verde

comparada com essa
queda de pequenos carvalhos
acima dos carvalhos
            estão as nuvens

acumulando-se grossas no oeste
então avançando
depois fechando em volta
            rompendo ao meio

o silêncio
então a chuva
atira suas sementes de prata
            contra a casa

Ilustração: Revide.

IMERSO NUMA ROUBADA


Os olhos de lagarta da mulher branca 
me perseguem
de um jeito tão infantil
que sou capaz de acreditar 
na sua capacidade de me amar, 
apesar do seu coração de bronze 
escondido sob as vestes pretas
e de seus lábios selados 
que sabem dizer palavras 
que machucam 
como se fossem orações 
de louvor a um deus que não existe. 
Somente seus cabelos
e seu colo de marfim
esclarecem para mim, 
com seus encantos e tentações,
que me engano, 
mas, sei que vou me perder
em suas carnes brancas, 
cheio de paixão e de desejo, 
adorando cada beijo, 
até entrar pelo cano. 

Mais uma poesia de Gustavo Adolfo Bécquer


RIMA XXIX                      
Gustavo Adolfo Bécquer

   Sobre la falda tenía
    el libro abierto;
en mi mejilla tocaban
    sus rizos negros;
no veíamos letras
    ninguno creo;
mas guardábamos ambos
    hondo silencio.
¿Cuánto duró?  Ni aun entonces
    pude saberlo.
Sólo sé que no se oía
    más que el aliento,
que apresurado escapaba
    del labio seco.
Sólo sé que nos volvimos
    los dos a un tiempo,
y nuestros ojos se hallaron
    ¡y sonó un beso!

                      *
Creación de Dante era el libro;
    era su Infierno.
Cuando a él bajamos los ojos,
    yo dije trémulo:
—¿Comprendes ya que un poema
    cabe en un verso?
Y ella respondió encendida:
    —¡Ya lo comprendo!


Rima XXIX

Sobre a saia tinha
    o livro aberto;
no meu rosto tocavam
     seus cachos negros;
não vimos letras
     ninguém crê;
mas, guardamos ambos
    profundo silêncio.
Quanto tempo durou? Nem mesmo depois
     poderia saber.
Só sei que não se ouvia
     mais do que a respiração,
que apressada escapava
    do  lábio seco.
Só sei que voltamos
     os dois no tempo,
e nossos olhos se falaram
     E mandou um beijo!

                       *
A criação de Dante foi o livro;
     era seu Inferno.
Quando sobre ele baixamos os olhos,
     eu disse tremendo:
-Compreendes já que um poema
     cabe num verso?
E ela respondeu iluminada:
     -Sim, já compreendo!


Ilustração: Uma mulher...menina...

Friday, July 19, 2019

Uma poesia de Cristian Cano


                         
MUNDO ESCONDI-TE

Cristian Cano

Te llamo y te hablo
No paro de hablarte
Y te levantás dormida
Y no querés escuchar,
Pero te digo que es un poco
Como suicidarme a cada rato.
Tirás la ropa al piso y vas
Como con los ojos cerrados
¡Te grito descangayada!
Y otra vez el mechón negro en la cara
Me estampás una cachetada
Ahora, el orden dentro del desorden
Es como fusilarse feliz.

ESCONDE-TE DO MUNDO


Te chamo e te falo
Não paro de falar-te
E te levantas dormida
E não queres escutar,
Porém, te digo que é um pouco
Como suicidar-me a cada momento.
Jogas a roupa no chão e vai
Como com os olhos fechados
Te grito relaxada!
E outra vez a tarja preta em teu rosto
me bate na cara
Agora, a ordem dentro da desordem
É como fuzilar-se feliz.


Ilustração: melhorcomsaude.com.br.

Mais uma poesia de Antonio Gala





QUIZA EL AMOR ES SIMPLEMENTE ESTO

Antonio Gala

Quizá el amor es simplemente esto:
entregar una mano a otras dos manos,
olfatear una dorada nuca
y sentir que otro cuerpo nos responde en silencio.

El grito y el dolor se pierden, dejan
sólo las huellas de sus negros rebaños,
y nada más nos queda este presente eterno
de renovarse entre unos brazos

Maquina la frente tortuosos caminos
y el corazón con frecuencia se confunde,
mientras las manos, en su sencillo oficio,
torpes y humildes siempre aciertan.

En medio de la noche alza su queja
el desamado, y a las estrellas mezcla
en su triste destino.
Cuando exhausto baja los ojos, ve otros ojos
que infantiles se miran en los suyos.

Quizá el amor sea simplemente eso:
el gesto de acercarse y olvidarse.
Cada uno permanece siendo él mismo,
pero hay dos cuerpos que se funden.

Qué locura querer forzar un pecho
o una boca sellada.
Cerca del ofuscado, su caricia otro pecho exige,
otros labios, su beso,
su natural deleite otra criatura.

De madrugada, junto al frío,
el insomne contempla sus inusadas manos:
piensa orgulloso que todo allí termina;
por sus sienes las lágrimas resbalan...
Y sin embargo, el amor quizá sea sólo esto:
olvidarse del llanto, dar de beber con gozo
a la boca que nos da, gozosa, su agua;
resignarse a la paz inocente del tigre;
dormirse junto a un cuerpo que se duerme.


TALVEZ O AMOR SEJA SIMPLESMENTE ISTO

Talvez o amor é simplesmente isto:
entregar uma mão a outras duas mãos,
cheirar um pescoço dourado
e sentir que o outro corpo responde a nós em silêncio.

O choro e dor se perdem, deixando
apenas traços de seus rebanhos negros,
e nada mais resta fora este eterno presente
renovado entre uns braços

Máquina à frente dos caminhos tortuosos
e o coração, muitas vezes, se confunde,
enquanto suas mãos no seu sensível ofício,
desajeitadas e humilde sempre acertam.

No meio da noite levanta sua queixa
os não amados e as estrelas mescla
no seu triste destino.
Quando exausto olha para baixo, vê outros olhos
infantis que se olham nos seus.

Talvez o amor seja apenas isto:
o gesto de se achegar e esquecer.
Cada um permanece sendo o mesmo,
porém,mas há dois corpos que se fundem.

Que loucura querer forçar um seio
ou uma boca selada.
Perto da ofuscada, sua carícia outro seio requer,
outros lábios, seu beijo,
seu natural deleite, outra criatura.

De madrugada, junto ao frio,
o insone contempla suas mãos inusadas:
pensa orgulhoso que tudo aí termina;
por suas faces lágrimas escorregam ...
E, no entanto, o amor pode ser apenas isto:
esquecer o pranto, dar de beber com gozo
a boca que nos dá, com alegria, sua água;
resignar-se à paz inocente do tigre;
dormir junto a um corpo que dorme.

Ilustração: Tumblr.

Uma poesia de Mary Oliver





AT BLACK RIVER

Mary Oliver

All day
   its dark, slick bronze soaks
     in a mossy place,
         its teeth,

a multitude
   set
     for the comedy
         that never comes –

its tail
   knobbed and shiny,
     and with a heavy-weight’s punch
         packed around the bone.

In beautiful Florida
   he is king
     of his own part
         of the black river,

and from his nap
   he will wake
     into the warm darkness
         to boom, and thrust forward,

paralyzing
   the swift, thin-waisted fish,
     or the bird
         in its frilled, white gown

that has dipped down
   from the heaven of leaves
     one last time,
         to drink.

Don’t think
   I’m not afraid.
     There is such an unleashing
         of horror.

Then I remember:
   death comes before
     the rolling away
         of the stone.

NO  RIO NEGRO

Todo o dia
   seu bronze escuro e liso se banha
     num lugar coberto de musgo,
         seus dentes,

uma multidão
   postada
     para uma comédia
         que nunca vem-

sua cauda
   protuberante e brilhante,
     e com um soco de peso-pesado
         guardado em volta do osso.

Na beleza da Flórida
   ele é rei
     da sua própria parte
         do rio negro,

e de seu sono
   ele vai acordar
     na escuridão morna
         pra troar, e arremeter adiante,

paralisando
   o peixe ágil, de cintura fina,
     ou a ave
         de penugem branca

que mergulhou
   de um céu de folhas
     uma última vez,
         pra beber.

Não pense
   que não tenho medo.
     Existe tal desencadeamento
         de horror.

Aí eu lembro:
   a morte vem antes
     da pedra rolar
              pra longe.

Ilustração: Youtube.

Uma poesia de Manuel Gutiérrez Nájera


PARA ENTONCES       
Manuel Gutiérrez Nájera

Quiero morir cuando decline el día,
en alta mar y con la cara al cielo,
donde parezca sueño la agonía,
y el alma, un ave que remonta el vuelo.

No escuchar los últimos instantes,
ya con el cielo y con el mar a solas,
más voces ni plegarias sollozantes
que el majestuoso tumbo de las olas.

Morir cuando la luz, triste, retira
sus áureas redes de la onda verde,
y ser como ese sol que lento expira:
algo muy luminoso que se pierde.

Morir, y joven: antes que destruya
el tiempo aleve la gentil corona;
cuando la vida dice aún: soy tuya,
aunque sepamos bien que nos traiciona.

PARA ENTÃO

Quero morrer quando declina o dia,
no alto mar e com o rosto para o céu
onde pareça ser um sonho a agonia
e a alma, um pássaro que voa ao léu.

Não escutar nos últimos instantes,
já com o céu e com o mar a sós,
mais vozes ou orações soluçantes
que do majestoso soar das ondas, a voz.

Morra quando a luz, triste, retira
suas redes douradas da onda verde,
e ser como este sol que lento expira:
algo muito luminoso que se perde.

Morra e jovem: antes que se destrua
o tempo, ao revés, a gentil coroa;
quando a vida diz ainda: eu sou tua
embora saibamos bem que nos atraiçoa.

Ilustração: Me Apaixonei.