Monday, May 11, 2026

O Sabor do Pato no Tucupi

 


O PATO NO TUCUPI DE URSULA MALONEY

 Silvio Persivo

O pato no tucupi de Ursula Maloney,

Nos agrada por seu sabor azedo e picante,

ardência na boca, quietude no coração.

A moleza que vem depois, como uma oração.

 

O mundo parece um lugar de paz,

com a ilusão que seremos felizes demais.

Um prato tão singular, de sabor tão refinado,

Que nos deixa sempre maravilhados.


É da cozinha regional nossa vaidade,

E não há outro igual-isto é verdade.

O pato cozido, no tucupi perfeito,

conquista a vista e deixa o paladar satisfeito.


Um prato que nos leva às alturas,

a melhor das amazônicas gostosuras.

Uma experiência única para se repetir.

Depois da primeira vez o bis vai se pedir! 


O PATO NO TUCUPI BY URSULA MALONEY

The Duck in the Tucupi by Ursula Maloney,

We like it for its sour and spicy flavor,

burning in the mouth, stillness in the heart.

The softness that comes afterwards, like a prayer.

 

The world seems a peaceful place,

with the illusion that we will be too happy.

Such a unique dish, with such a refined flavor,

That always leaves us amazed.

 

Our vanity is regional cuisine,

And there's no other like it - that's true.

Boiled duck, in the perfect tucupi,

conquers the eye and leaves the palate satisfied.

 

A dish that takes us to heights,

the best of Amazonian delicacies.

A unique experience to repeat.

After the first time the encore will be asked!

Ilustração: Receitas Naturais. 

Fonte: E-book "Receitas Amazônicas Temperadas com Poesia" disponível na Hotmart. 

 


De Wallace Stevens "Earthy Anedcotes"

 

                             EARTHY ANECDOTES

                                        Wallace Stevens

Every time the bucks went clattering,
Over Oklahoma
A firecat bristled in the way.

Wherever they went,
They went clattering.
Until they swerved,
In a swift, circular line,
To the right,
Because of the firecat.

Or until they swerved,
In a swift, circular line,
To the left,
Because of the firecat.

The bucks clattered.
The firecat went leaping,
To the right, to the left,
And
Bristled in the way.

Later, the firecat closed his bright eyes
And slept.

ANEDOTAS TERRESTRES

Toda vez que os cervos trovejavam,

Sobre Oklahoma,

Um lince-pardo se arrepiava no caminho.

Enquanto eles iam,

Trocavam os chifres.

Até que eles desviavam,

Em uma rápida linha circular,

Para a direita,

Por causa do lince-pardo.

Ou até que desviavam,

Em uma rápida linha circular,

Para a esquerda,

Por causa do lince-pardo.

Os cervos trovejavam.

O lince-pardo saltava,

Para a direita, para a esquerda,

E

Se arrepiava no caminho.

Mais tarde, o lince-pardo fechou seus olhos brilhantes

E dormiu.

                                    Ilustração: Wikipédia. 



Sólo en Sueños de Jaime Sabines

 

                                  SÓLO EN SUEÑOS

Jaime Sabines

Sólo en sueños,
sólo en el otro mundo del sueño te consigo,
a ciertas horas, cuando cierro puertas
detrás de mí.
¡Con qué desprecio he visto a los que sueñan,
y ahora estoy preso en su sortilegio,
atrapado en su red!
¡Con qué morboso deleite te introduzco
en la casa abandonada, y te amo mil veces
de la misma manera distinta!
Esos sitios que tú y yo conocemos
nos esperan todas las noches
como una vieja cama
y hay cosas en lo oscuro que nos sonríen.
Me gusta decirte lo de siempre
y mis manos adoran tu pelo
y te estrecho, poco a poco, hasta mi sangre.
Pequeña y dulce, te abrazas a mi abrazo,
y con mi mano en tu boca, te busco y te busco.
A veces lo recuerdo. A veces
sólo el cuerpo cansado me lo dice.
Al duro amanecer estás desvaneciéndote
y entre mis brazos sólo queda tu sombra.

SÓ EM SONHOS

Só em sonhos,

só no outro mundo dos sonhos te consigo,

a certas horas, quando fecho as portas

atrás de mim.

Com que desprezo tenho visto aos que sonham,

e agora estou preso em seu sortilégio,

emaranhado em sua rede!

Com que mórbido deleite te introduzo

na casa abandonada, e te amo mil vezes

da mesma maneira diferente!

Esses locais que tu e eu conhecemos

nos esperam todas as noites

como uma velha cama

e há coisas no escuro que nos sorriem.

Gosto de te dizer as mesmas coisas de sempre

e minhas mãos adoram teu cabelo

e eu te estreito, pouco a pouco, até estar no meu sangue.

Pequena e doce, te abraças ao meu abraço,

e com minha mão em tua boca, te busco e te busco.

Às vezes o recordo. Às vezes

só o corpo cansado o diz.

Ao duro amanhecer tu estás desaparecendo

e entre meus braços só fica a tua sombra.

Ilustração: Casule. 



Sunday, May 10, 2026

O que é teu, meu, nosso

 

INEVITÁVEL

Silvio Persivo

Eu já morri uma vez

e lembro até hoje

que a vida seguiu 

do mesmo jeito.

E eu ali, corpo morto,

imóvel, como pedra, perfeito

no maior silêncio. 

Morri e ninguém soube. 

Nada na vida mudou,

fora quem eu sou. 

É verdade 

que voltei a viver, felizmente,

e digo isto muito contente

com o adiamento.

Embora consciente 

de que morrer

é só questão de tempo

e que a vida seguirá seu curso,

naturalmente

e serei ignorado novamente. 

Por isto eu bebo e rio, 

enquanto posso. 

Só o agora é nosso. 

Test de Poema Venusiano de Marisa López Soria

 


TEST DE POEMA VENUSIANO

Marisa López Soria

Yo te amo

Je t’aime

Ich libe Dich

Io t’amo

¿Cuánto?

Ponga una cruz en la respuesta adecuada.

Con fervor

En tiempo tridimensional

Lo frecuente

Con vértigo y locura

Al modo de Petrarca

Malamente

¿Hasta cuándo?

Hasta desfallecer

Hasta el 15 de septiembre a las 17,35

Hasta que los pájaros florezcan

Hasta que tires los calzoncillos al suelo

Hasta que los océanos se evaporen

Mientras no silbes durmiendo.

Desataré mis trenzas

para poner la cruz donde convenga

sino y significado afloran inconscientes

en el museo de pérdidas-.

Mas hete aquí la gracia, el quid de la cosa.

TESTE DE POEMA VENUSIANO

Eu te amo

Je t’aime

Ich libe Dich

Io t’amo

Quanto?

Ponha uma cruz na resposta adequada,

com fervor

em tempo tridimensional

com frequência

com vertigem e loucura

ao modo de Petrarca

malmente

Até quando?

Até desfalecer

Até 15 de setembro às 17,35

Até que os pássaros floresçam

Até que tires as cuecas di solo

Até que os oceanos se evaporem

Enquanto não assovies dormindo

desatarei minhas tranças

para por a cruz onde convenha

destino e significado afloram inconscientes

no museu das perdas-

mas aqui a beleza, o cerne da questão.

Ilustração: Olhar Digital. 

Uma poesia de Carolyb Forché

 


IN TIME OF WAR

Carolyn Forché

And so we stayed, night after night awake

until the moon fell behind the blackened cypress,

and bats returned to their caverns having gorged

on the night air, and all remained still until the hour

of rising, when the headless woman was no longer seen

nor a ghostly drum heard, nor anyone taking

the form of mist or a fiddler, and the box never opened

by itself, nor were there whispers or other sounds, no rustling 

dress or pet ape trapped in a secret passage, but there was

labored breathing, and unseen hands leafing through

the pages of a visitor’s book, and above the ruins a girl

in white lace, and five or more candles floating,

and someone did see a white dog bound into a nearby

wood, but there were neither bagpipes nor smiling skull,

no skeletons piled in the oubliette, and there was,

as it turned out, no yellow monkey, no blood

leaking from a slit throat, and no one saw

a woman carrying the severed head,

but there were children standing on their own

graves and there was the distant rumble of cannon.

EM TEMPO DE GUERRA

E assim ficamos, noite após noite acordados

até que a lua se pôs atrás do cipreste enegrecido,

e os morcegos retornaram às suas cavernas depois de se fartarem

do ar da noite, e tudo permaneceu imóvel até a hora

do despertar, quando a mulher sem cabeça não era mais vista

nem um tambor fantasmagórico era ouvido, nem ninguém assumindo a forma de névoa ou de um violinista, e a caixa nunca se abriu

sozinha, nem houve sussurros ou outros sons, nenhum farfalhar

de vestido ou macaco de estimação preso em uma passagem secreta, mas havia

respiração ofegante e mãos invisíveis folheando

as páginas de um livro de visitantes, e acima das ruínas uma garota

de renda branca, e cinco ou mais velas flutuando,

e alguém viu um cachorro branco preso em um bosque próximo,

mas não havia gaitas de foles nem caveira sorridente,

nenhum esqueleto empilhado na masmorra, e havia,

como se constatou, nenhum macaco amarelo, nenhum sangue

vazando de uma garganta cortada, e ninguém viu

uma mulher carregando a cabeça decepada,

mas havia crianças em pé sobre suas próprias

sepulturas e ouviu-se o distante estrondo de canhões.

Ilustração: BBC.


Thursday, May 07, 2026

Uma poesia de Marisa López Soria

 


Marisa López Soria

El que me da de cantar

El hombre que se avino

no trajo joyas ni añadiduras   llegó

con manta de cobijarnos, tapaderas, fuentes, cacerolas

y en las toallas aroma de tierra fértil.

Es muy extraño, es diferente, nadie le iguala

su seda teje cicatrices del jardín de mi vestido

silencio asienta por oída, prudencia por palabras

no hay mapa parecido por gozoso

usa talante de amor humor que rondan las amigas

vaya misterio su esencia de pan y mirabelle

los doce meses Eros    me baila el agua

y dice recordarme de cuando fuimos delfines rosas.

Cosa tan rara, magia simpática, que este hombre

tan hombre, tan elegante, no precise adjetivos

no utilice hugoboss ni reloj de marca.

Él, sin anillo ni grabada la fecha, esposada me tiene

con hilos invisibles y con un secreto

que solo es nuestro.

O que me dá canções

O homem que veio

não trouxe joias nem acréscimos, chegou

com um cobertor para nos abrigar, tampas, travessas, panelas

e nas toalhas, o aroma de terra fértil.

É muito estranho, é diferente, ninguém o igualha

sua seda tece cicatrizes do jardim do meu vestido

o silêncio se instala ao ouvido, a prudência pelas palavras

não há mapa como o dele, tão alegre

ele veste uma disposição amorosa, um humor que as amigas apreciam

que mistério, sua essência de pão e ameixa mirabelle

por doze meses, Eros dança para mim

e diz que se recorda de quando éramos golfinhos cor-de-rosa.

Uma coisa tão rara, uma magia encantadora, que este homem

tão másculo, tão elegante, não precisa de adjetivos

não usa Hugo Boss nem um relógio de grife.

Ele, sem aliança ou data gravada, me algemou

com fios invisíveis e um segredo

que é só nosso.

Ilustração: Spirit Fanfics e Histórias.  

 

Pensamentos vadios

 


COMO LIGAR O PERIGO

Silvio Persivo
Não me engano com a criança.
Nem tenho a menor esperança
de que não seja o que é:
uma apaixonante mulher.
Os sinais estão na camiseta
onde duas ferraduras 
estão bem posicionadas
de uma forma que no centro
surgem os dois botões 
que apenas precisam ser apertados
para o prazer ser ativado 
e tudo se tornar 
uma imensa confusão 
na vida e no meu coração. 
Ilustração: Segundo Furo. 



Eis Carolyn Forché

 


WHAT COMES

Carolyn Forché

 

J’ai rapporté du désespoir un panier si petit mon amour, qu’on a pu le tresser en osier.
I brought from despair a basket so small, my love, that it might have been woven of willow.
                                                                                       -Rene Char

to speak is not yet to have spoken.

the not-yet of a white realm of nothing left

neither for itself nor another

a no-longer already there, along with the arrival of what has been 

light and the reverse of light

terror as walking blind along the breaking sea, body in whom I lived

the not-yet of death darkening what it briefly illuminates

an unknown place as between languages

back and forth, breath to breath as a calm

in the surround rises, fireflies in lindens, an ache of pine

you have yourself within you

yourself, you have her, and there is nothing

that cannot be seen

open then to the coming of what comes

O QUE VEM

Eu trouxe de volta do desespero uma cesta tão pequena, meu amor, que poderia ser feita de vime.

-René Char

falar é não ter ainda falado.

o não-ainda de um reino branco de nada restou

nem para si mesmo nem para outro

um não-mais já ali, junto com a chegada do que foi

luz e o reverso da luz

terror como caminhar cego ao longo do mar revolto, corpo em quem eu vivia

o não-ainda da morte escurecendo o que ela brevemente ilumina

um lugar desconhecido como entre línguas

para frente e para trás, respiração a respiração como uma calma

no entorno surge, vaga-lumes em tílias, uma dor de pinheiro

você tem a si mesmo dentro de si

você mesmo, você a tem, e não há nada

que não possa ser visto

abra-se então para a chegada do que vem

Ilustração: O Estadão.


Monday, May 04, 2026

Apresento Sara Toro

 


CARRUSEL DE HIPÓTESIS DEL MORRIRME

Sara Toro

Que me voy a morir,

piensan mis padres cada vez que mi cuerpo

deja un rastro defractario

en cielo extranjero,

o viajo en un vehículo que no conducen

sus pies,

sus manos,

la espalda recta

de sus decisiones.

Tampoco yo contemplo que sus dedos de tubérculo

alejado del agua,

o que su cintura kintsugi de Supergen setentero

estercolen la tierra antes que yo,

fruto último de su cosecha

arrancado verde

y exportado

para alimento de otros.

 

Si les precedo,

enterrarán de mí

la parte que no conocen.

Me vestirán con un jersey incómodo

e informarán de la tragedia a familia

y amigos varados

en el muelle de la infancia.

 

Yo que siempre fui

de vagabundeo

requeriré de hombros de hombre

y fémur-clavícula de mujer

para gestionar la materia fungible

de mi cuerpo.

(Ojalá se salven de la tragedia

algunos dedos manchados de carmín

y las córneas).

A mis ascendientes legaré

una sucesión intestada de perros

y amantes callejeros

que acariciará el agujero negro

de la historia.

Sobrevivirán,

inexplicablemente,

muchas de mis plantas de interior.

 

Alguien dirá tras mi funeral:

Me encantó. Lloré.

 

Mi fantasma arrepentido

de haber tardado tanto

en volver a casa,

tratará de atravesarse el lóbulo

con un zarcillo.

 

Pasará el pendiente,

la muerte pendiente

 

pasará.

CARROSEL DE HIPÓTESES DO MEU MORRER

Que vou morrer,

pensam meus pais toda vez que meu corpo

deixa um rastro fragmentado

em céus estrangeiros,

ou quando viajo em um veículo

que não é dirigido

por seus pés,

suas mãos,

a firmeza

de suas decisões.

 

Nem contemplo seus dedos tubérculo

distantes da água,

 

ou suas cinturas kintsugi de Supergen dos anos setenta

fertilizando a terra à minha frente,

o último fruto de sua colheita

colhido verde

e exportado

para alimentar outros.

 

Se eu os preceder,

eles enterrarão

a parte de mim que não conhecem.

Eles me vestirão com um suéter desconfortável

e informarão a família

e os amigos encalhados

no cais da infância sobre a tragédia.

 

Eu, que sempre fui

um andarilho,

precisarei dos ombros de um homem

e do fêmur e da clavícula de uma mulher

para lidar com a matéria consumível

do meu corpo.

 

(Espero que alguns dedos e córneas manchados de batom sejam poupados da tragédia.)

Aos meus ancestrais, legarei uma sucessão infestada de cães e amantes perdidos que acariciarão o buraco negro da história.

Muitas das minhas plantas de casa sobreviverão, inexplicavelmente.

 

Alguém dirá depois do meu funeral: "Me encantou.

Chorei."

 

Meu fantasma, arrependido

De ter demorado tanto

para voltar para casa,

 tentará perfurar o lóbulo da orelha

com uma gavinha.

 

O brinco passará,

a morte iminente

passará.

Ilustração: Bandalheira.