Tuesday, September 22, 2026

Balthus Digressão (Balthus: A Digresssion)

 


BALTHUS DIGRESSÃO

Silvio Persivo

Uma obra de arte,

 mesmo que de um museu não faça parte,

 é objeto de significados escondidos-

nunca o mesmo para olhos diversos.

Requer, como as melhores coisas,

uma mistura de sentimento

e, talvez, esforço para o entendimento.

Muitas vezes, trabalho para o descobrimento

ou a mera percepção que dá prazer

em perceber o que algo pode ser.

A arte não está na palavra nem na matéria.

A arte, espécie etérea, 

situa-se exatamente

onde um olhar diz que está-

e pode nem ser lá, certamente-

desde que isto nos deixe contente.

BALTHUS: A DIGRESSION

A work of art-

even if it is not part of a museum-

is an object of hidden meanings,

never the same to different eyes.

It requires, like the best things,

a blend of feeling

and, perhaps, an effort to understand.

Often, it involves the work of discovery,

or the simple perception that brings pleasure

in grasping what something might be.

Art lies neither in the word nor in the matter.

Art, an ethereal entity,

is situated exactly

where a gaze says it is-

and it may not even be there, to be sure-

provided that this brings us contentment.

Ilustração: alexanderadamsart-Word Press.com.


Uma poesia de Ron Padgett

 


THE DEATH OF EMPEDOCLES

Ron Padgett
Five fingers on each hand, five
toes on each foot, that's enough.

I get into the past
which has a different kind of dust on it.

There's an old Coke bottle with dust on it
behind the bust of I think Empedocles—

Nobody from the neck down. O
Empedocles, don't jump into that volcano!

But jump he did, with his whole body,
bouncing off the rocks on the way down.

And you call this a philosopher?
I don't think he set a very good example.

A MORTE DE EMPÉDOCLES

Cinco dedos em cada mão, cinco

dedos em cada pé; é o suficiente.

 

Volto ao passado,

que tem um tipo diferente de poeira.

 

Há uma garrafa de Coca-Cola empoeirada

atrás do busto de - creio eu-Empédocles...

 

Nada do pescoço para baixo. Ó

Empédocles, não pule naquele vulcão!

 

Porém ele pulou, de corpo inteiro,

batendo nas rochas durante a queda.

 

E a isto chamas de filósofo?

Não penso que seja um bom exemplo.

Ilustração: UAI.


De volta Julieta Sbdar Kaplan

 


MARCADOR VERDE SOBRE PIZARRA BLANCA

Julieta Sbdar Kaplan

Anoto un tópico literario

y no lo borro.

Más tarde, cuando

la profesora de matemáticas

enseñe límites

derivadas, funciones

se va a leer de fondo

tempus fugit

semiborrado y suelto:

empu f git.

La palabra olvidada

incompleta en la pizarra

es cadáver, es sombra, es polvo

y es nada. Es la fuga

pero también ese instante

en que la letra

con tinta entra o queda

hasta la hora siguiente

y los tiempos, superpuestos

no avanzan ni se pierden.

MARCADOR VERDE NO QUADRO BRANCO

Anoto um tópico literário

e não o apago.

Mais tarde, quando

a professora de matemática

ensinar limites

derivadas, funções

ficará visível ao fundo

tempus fugit

meio apagado e solto:

empus f git.

A palavra esquecida

incompleta no quadro

é cadáver, é sombra, é pó

e é nada. É a fuga

porém também este instante

em que a letra

a tinta entra ou fica

até a próxima hora

e os tempos sobrepostos

nem avançam nem se perdem.

Ilustração: Pamono.


Imutável (Unchanging)

 


IMUTÁVEL

Silvio Persivo

És tão previsível, tão fiel

Que não mudas de comportamento

Tanto que teu lugar no céu

É questão de tempo, reconhecimento.

Sempre no cinema ou restaurante

Repetes teu lugar, uma constante.

És uma beata forte na tua fé

Resistente a qualquer pecado.

Jamais mudas do lugar marcado

Nem da marca e da hora do café.

UNCHANGING

You are so predictable, so steadfast,

That your ways never change;

So much so that your place in heaven

Is merely a matter of time and recognition.

Always at the cinema or the restaurant,

You return to the same seat-a constant.

A devout soul, strong in your faith,

Resistant to any sin,

You never stray from your chosen spot,

Nor from your brand of coffee or the time you drink it.

Ilustração: Cafézinho em Casa.

Monday, September 21, 2026

CXXI LA MORT DES AMANTS de Charles Baudelaire

 


CXXI
LA MORT DES AMANTS

Charles Baudelaire
Nous aurons des lits pleins d’odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d’étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.

Usant à l’envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d’adieux;

Et plus tard un Ange, entr’ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.

A MORTE DOS AMANTES
Nós teremos leitos plenos de odores ligeiros
Dos divãs de profundos como tumbas,
E estranhas flores sobre prateleiras,
Eclodidas para nós sob os céus belos.

A arder nas suas luzes derradeiras,
Nossos dois corações serão duas grandes tochas,
Que refletirão deles duplas luzes
Em nossos dois espíritos, esses gêmeos espelhos.

Uma noite feita de rosa e místico azul,
Nós trocaremos um raio único
Como um longo soluço; todo cheio de adeuses

E mais tarde, um anjo entreabrindo as portas,
Virá reanimar, fiel e alegre,
Os espelhos manchados e as chamas mortas.

Ilustração: DepositoPhotos.

 


"A Visit" de Margareth Atwood

 

                                           A VISIT

 Margaret Atwood

Gone are the days
when you could walk on water.
When you could walk.

The days are gone.
Only one day remains,
the one you’re in.

The memory is no friend.
It can only tell you
what you no longer have:

a left hand you can use,
two feet that walk.
All the brain’s gadgets.

Hello, hello.
The one hand that still works
grips, won’t let go.

That is not a train.
There is no cricket.
Let’s not panic.

Let’s talk about axes,
which kinds are good,
the many names of wood.

This is how to build
a house, a boat, a tent.
No use; the toolbox

refuses to reveal its verbs;
the rasp, the plane, the awl,
revert to sullen metal.

Do you recognize anything? I said.
Anything familiar?
Yes, you said. The bed.

Better to watch the stream
that flows across the floor
and is made of sunlight,

the forest made of shadows;
better to watch the fireplace
which is now a beach.

UMA VISITA

Já se foram os dias

em que você podia andar sobre as águas.

Em que você podia andar.

Os dias se foram.

Resta apenas um dia,

aquele em que você está.

A memória não é amiga.

Ela só sabe dizer

o que você já não tem:

uma mão esquerda que você pode usar,

dois pés que caminham.

Todos os mecanismos do cérebro.

Olá, olá.

A única mão que ainda funciona

agarra, não solta.

Aquilo não é um trem.

Não há grilo algum.

Não vamos entrar em pânico.

Vamos falar de machados,

quais são os bons,

os muitos nomes da madeira.

É assim que se constrói

uma casa, um barco, uma barraca.

Não adianta; a caixa de ferramentas

recusa-se a revelar seus verbos;

a grosa, a plaina, o furador,

voltam a ser metal inerte.

Você reconhece alguma coisa? eu disse.

Algo familiar?

Sim, você disse. A cama.

Melhor observar o riacho

que corre pelo chão

e é feito de luz do sol,

a floresta feita de sombras;

melhor observar a lareira

que agora é uma praia.

Ilustração: Arquitetura-Vida Decora. 



Uma poesia de Julieta Sbdar Kaplan

 


POEMA SENTIMENTAL

Julieta Sbdar Kaplan

Endecasílabos y alejandrinos

en un cuaderno en blanco.

Voy a escribir con rima

un poema sentimental:

enamorado

entusiasmado

abandonado.

Al amor, a la poesía

entro por el participio:

del pretérito

su forma invariable.

El participio

señala lo que ha sido,

pero también da forma

a lo que está siendo.

POEMA SENTIMENTAL

Hendecassílabos e Alexandrinos

num caderno em branco.

Vou escrever um poema com rima

sentimental:

apaixonado

entusiasmado

abandonado.

Ao amor, à poesia

Entro pelo particípio:

do pretérito

sua forma invariável.

O particípio

assinala o que foi,

mas também dá forma

ao que está sendo.

Ilustração: Flickr. 

 

Sunday, September 20, 2026

De volta Tino Di Cicco

 


Tino Di Cicco

io in te mondo

cercavo oltre

 

qualcosa come una rivelazione

 

una luminosa oscurità

da spendere

sulle mimetiche trappole

dell’evidenza

 

Eu em ti, mundo

buscava além

 

qualquer coisa como uma revelação

 

uma luminosa escuridão

para despender

nas armadilhas miméticas

da evidência

Ilustração: Wordpress. 


Saturday, September 19, 2026

Thursday, September 17, 2026

Um poema de Fosca Massucco

 


Fosca Massucco 

Se non fossi stata io, nulla sarei stata-

né caso mi avrebbe cercata

                                          (o necessità richiesta).

 

Un miserevole frattale ricomposto,

vano quanto bruma bassa.

 

Quando non sarò più io, nulla sarà –

sorte e necessità in equilibrio.

 

Se não tivesse sido eu, eu não teria sido nada-

nem o acaso teria me acercado (ou a necessidade exigido).

 

Um miserável fractal recomposto,

tão vão quanto uma bruma escassa.

 

Quando eu não for mais eu, nada serei-

a sorte e a necessidade em equilíbrio.

Ilustração: Reddit. 

Outra vez Daniel Fernández

 


EL VIEJO TEMA DE LA ROSA

                                                      Amago de la humana arquitectura.

                                                      Sor Juana Inés de la Cruz

Daniel Fernández

 

Describir, por ejemplo, ciertas cosas:
que el ruboroso rojo del ocaso
sabe a un verano azul cuando olorosa
me llevas tras tus pasos.
Pero cómo escribir sobre ti, rosa
que yo no tengo entre las manos,
sin acordarme de esas otras,
símbolo apenas del pasado.
Así también tú al cabo:
no más que temblorosas
sílabas sobre el blanco
de una hoja.

O VELHO TEMA DA ROSA

                                       Um toque de arquitetura humana.

                                                  Sor Juana Inés de la Cruz

 

Descrever, por exemplo, certas coisas:

que o vermelho rubor do pôr do sol

sabe a um verão azul quando, perfumada,

me levas atrás de teus passos.

Porém, como escrever sobre ti, rosa

que eu não tenho entre as mãos,

sem me lembrar daquelas outras,

símbolos apenas do passado.

Assim também tu ao cabo:

não mais que sílabas trêmulas

no branco

de uma página.

Ilustração: Taquari Flores.


Monday, September 14, 2026

Uma poesia de Stella Sierra

 


PERFECCIÓN DE LA ROSA

Stella Sierra

¡Oh rosa, plenitud de muerte y vida!
Esencia, luz y ser, belleza. ¿Tanto
adoró tu deidad el sol y el llanto
para engarzar tu imagen definida?

Rosa del goce sin dolor, nacida
de la nada a lo breve: dulce canto
del ruiseñor, que enseña en su quebranto
con la novia, vestal entristecida.

¡Perfección de la rosa, gracia nueva
que en la infinita soledad eleva
su seno crespo y puro en ágil vuelo!

¡Oh rosa eterna, frágil, casta, sola!
Tu aliento leve como tu corola.
¡Virgen desnuda, fiel, carne de cielo!

A PERFEIÇÃO DA ROSA

Ó rosa, plenitude de morte e vida!

Essência, luz e ser, beleza. Tanto

Adoro tua divindade o sol e o pranto

para forjar tua imagem tão definida?

 

Rosa de gozo sem dor, nascida

do nada ao breve: doce canto

do rouxinol, que ensina em seu quebranto

com a noiva, uma virgem vestal entristecida.

 

Perfeição da rosa, graça nova

que na infinita solidão eleva,

em ágil voo, seu puro e anelado seio!

 

Ó rosa eterna, frágil, casta, exclusiva!

Teu hálito quanto tua corola tão concisa.

Carne do céu, fiel, Virgem nua sem receio!

Ilustração: Reddit. 


Sunday, September 13, 2026

Questões Insolúveis (Unsolvable Issues)

 


Silvio Persivo

A matéria é invisível.

Ninguém entende muito do espaço, 

do tempo, da onda ou da luz. 

Nenhuma escola ensina

que o saber é provisório, artificial, 

mas todos consideram natural 

ser cheio de certezas. 

O verdadeiro saber vem das crianças

indagando 

respostas sem esperanças

como quem sou eu? 

Quem é você? 

De onde vem o que não se pode ver? 

Enfim o que nunca iremos saber. 


Matter is invisible.

No one understands much about space,

time, waves, or light.

No school teaches

that knowledge is provisional, artificial,

yet everyone considers it natural

to be full of certainties.

True knowledge comes from children

asking

questions without easy answers-

like "Who am I?"

"Who are you?"

"Where does the unseen come from?"

In the end, what we will never know.

Ilustração: IPLA-Instituto de Psicanálise Lacaniana. 

"L'Adieu" de Guillaume Apollinaire

 



L'ADIEU

Guillaume Apollinaire

J'ai cueilli ce brin de bruyère

L'automne est morte souviens-t'en

Nous ne nous verrons plus sur terre

Odeur du temps

Brin de bruyère

Et souviens-toi que je t'attends

O ADEUS

Eu colhi este ramo de urze

O outono morreu, lembre-se.

Não mais nos veremos sobre a Terra

Odor do tempo

Ramo de urze

E lembre-se que estou te esperando.

Ilustração: Medium.  




Um poema de Tino Di Cicco

 


Tino Di Cicco

la prossima volta sarò un’altra cosa

 

uno come la notte

qualcosa come il tempo

 

mi riconoscerai dal fuoco

del vulcano

dal tumulto della primavera

dal pudore della neve

 

la prossima volta non ci sarà vagito

né libro

 

Da próxima vez serei uma outra coisa

 

um como a noite

qualquer coisa como o tempo

 

me reconhecerás pelo fogo

do vulcão

pelo tumulto da primavera

pelo pudor da neve

 

Da próxima vez não haverá lágrimas

nem livro

Ilustração: Prime Vídeo.