Friday, August 21, 2026

Bem fora da hora do café



        

                              CONTIGO NA DISTÂNCIA

                             Silvio Persivo

                             Se tivesse um café,

agora,

mesmo fora

da tradicional hora,

gostaria tanto

que te falaria, até por

                                     delicadeza,

                               sobre o reino de prazer

                               não expresso e a beleza

                                de viver ao teu lado.

                               Olho para as evoluções

                               do tempo, os pontos negros,

                                as sombras, os cinzentos espaços,

                                      perscruto as escolhas

                                sem me sentir culpado

                                por não saber os próximos passos

                                e por não ter soluções.

                                Adoraria uma sardinha

                                ou um peixe grelhado,

                                também estar do lado,

                                enquanto degusto o sashimi

                                com shoyu,

                                este molho japonês nosso,

                                mas, vivo o que posso

                                e o possível, no momento,

                                é te dizer

                                que, até de tão longe,

                                não se esgota o meu querer.

                                Sinto falta de você!

 CONTIGO EN LA DISTANCIA

Silvio Persivo

Si tuviera un café ahora,

incluso fuera de la hora habitual,

me encantaría,

que te contaría, incluso con delicadeza,

sobre el reino del placer inexpresado y la belleza

de vivir a tu lado.

Observo la evolución del tiempo, los puntos negros,

las sombras, los espacios grises,

analico las decisiones

sin sentirme culpable por no saber qué hacer a continuación

ni por no tener soluciones.

Me encantaría una sardina

o un pescado a la parrilla,

estar también a tu lado,

mientras saboreo el sashimi con salsa de soja,

esa salsa japonesa nuestra,

pero vivo lo que puedo,

y lo que es posible, por el momento,

es decirte

que, incluso desde tan lejos,

mi deseo no se agota.

¡Te extraño!

Ilustração: Caneca Cerâmica-I love coffee



Um poema de Boderra Joe

 


CURVE  WAVES

Boderra Joe

a hole

            a floating rib

an admirer’s shadow

            ribs with grief

a taper hall

            an empty street

a black hole 

            named love

its low density

            like clouds, dust, cosmic ray

 

at the center of the milky way

            thousands of them

i bet it hurts

            your lungs

as air expands

            tears through tissue

you inhale all the oxygen

            from us in fifteen seconds

who can dust your bones?

            time is infinite

 

i wish upon stars

            not old enough for light to reach

 wish upon a name

            to leave your lips as print

even moon rocks crumble

            zero point zero four inches

a million years

            call it what it feels like

love

            space junk

a dirty collision

            a chain reaction

a thick cloud of debris

            traveling fast

ONDAS CURVAS

um buraco

             uma costela flutuante

a sombra de um admirador

             costelas com tristeza

um salão cônico

             uma rua vazia

um buraco negro

             chamado amor

com baixa densidade

             como nuvens, poeira, raio cósmico

 

no centro da via láctea

             milhares deles

eu aposto que dói

             seus pulmões

medida que o ar se expande

             lágrimas através do tecido

você inala todo o oxigênio

             nosso em quinze segundos

quem pode limpar seus ossos?

             o tempo é infinito

 

eu desejo às estrelas

             não há idade suficiente para a luz chegar

 ao desejo em cima de um nome

             para deixar seus lábios como impressão

até as rochas da lua desmoronem

             zero ponto zero quatro polegadas

um milhão de anos

             chame-o como se sente

amor

             lixo espacial

uma colisão suja

             uma reação em cadeia

uma espessa nuvem de detritos

             viajando rápido

Ilustração: Correio Braziliense. 






Luis de Góngora volta por aqui


NO DE FINO DIAMANTE O RUBI ARDIENTE

Luis de Góngora

No de fino diamante o rubí ardiente
(Luces brillando aquel, este centellas)
Crespo volumen vio de plumas bellas
Nacer la gala más vistosamente,

Que obscura el vuelo, y con razón doliente,
De la perla católica que sellas,
A besar te levantas las estrellas,
Melancólica aguja, si luciente.

Pompa eres de dolor, seña no vana
De nuestra vanidad. Dígalo el viento,
Que ya de aromas, ya de luces, tanto

Humo te debe. ¡Ay, ambición humana,
Prudente pavón hoy con ojos ciento,
Si al desengaño se los das y al llanto!

NÃO DE FINO DIAMANTE OU RUBI ARDENTE

Não de fino diamante ou rubi ardente

(Luzes brilhando, aquelas, estas centelhas)

Crespo volume encaracolado serrado de belas penas

Nascer esplendor mais vistosamente,

 

Do que o obscuro voo, e com razão dolente,

Da pérola católica que que selas,

Ao se elevar para beijar as estrelas,

Agulha melancólica, se brilhante.

 

Pompa és de dor, um sinal não em vão

De nossa vaidade. Diga-o o vento,

Já de aromas, já de luzes, tanto

 

A fumaça te deve. Ai, humana ambição,

Prudente pavão hoje com de olhos um cento,

Se aos desenganos se entrega ao pranto!


Sunday, August 16, 2026

Porto Velho

 


PORTO VELHO

Silvio Persivo

Esta cidade de quem todos reclamam-

E parece que ninguém ama-

É a minha cidade.

 

Não sei o que ela tem

Nem o que me ofereceu

Que não seja,

Talvez,

Um pôr de sol

Que distribui cores de Rembrandt,

Minhas maiores alegrias,

Os doces momentos que já esqueci,

Porém, que fizeram a vida valer a pena,

Esta vontade eterna e sempre não pequena

De viver mais,

Uma tristeza vaga e

Este calor aconchegante

Que vem do céu azul,

Que, de repente, se apreteja

E se transforma em vento e chuva

Soando docemente

Como um salmo em igreja.

 

Sei que ela não é tão bela

Como deveria.

Mas, quem é?

Esta cidade assim

Mesmo parecendo suja, feia,

Mal-acabada, em eterna construção,

Tem o dom de ser

Minha terra amada

E há sempre de ser linda para mim

E viver eternamente no meu coração.

PORTO VELHO

This city that everyone complains about-

And it seems that nobody loves-

It's my city.

 

I don't know what she has

Not what you offered me

That is not,

Perhaps,

a sunset

Who doles out Rembrandt colors,

My greatest joys,

The sweet moments that I already forgot,

However, who made life worthwhile,

This eternal will and always not small

to live longer,

A vague sadness and

this cozy warmth

That comes from the blue sky,

That suddenly appears

And turns into wind and rain

sweet sounding

Like a psalm in church.

 

I know she's not that pretty

As it should.

But, who is it?

this city like this

Even though it looks dirty, ugly,

Badly finished, in eternal construction,

has the gift of being

my beloved land

And you will always be beautiful to me

And live forever in my heart.

Ilustração: Governo de Rondônia.

 

Wednesday, August 12, 2026

Mais uma poesia de Jûri Talvet

 


Suponiendo que el polvo solo
es el polvo del más allá

Jüri Talvet

El cielo es de un azul inusitado
en esta primavera estonia
(¿nostalgia del futuro? ¿buen augurio?)
Las palabras liberan el horizonte
y he aquí que todos somos
muchísimo mejores. Es como si los ataúdes
que flotan sin cesar en el aire de tu ensueño
ya no sirvieran para el mal.
Tampoco para el bien. El polvo
–cualquier polvo– sin embargo
contiene más tristeza
que un cuerpo vivo. Así,
en esta primavera que muestra en Estonia
un cielo tan insólitamente azul,
cualquier desequilibrio en todo aquello
que promete y augura es un reflejo
del más allá, de lo real y verdadero.

SUPONDO QUE A POEIRA SEJA APENAS

A POEIRA DO ALÉM

O céu está de um azul inusitado

nesta primavera estoniana

(nostalgia pelo futuro? um bom presságio?)

As palavras liberam o horizonte

e eis que todos nós aqui estamos

muito melhor. É como se os caixões

flutuando incessantemente no ar dos seus sonhos

não servissem mais para o mal.

Tampouco para o bem. A poeira

-Qualquer poeira-sem embargo,

contém mais tristeza

do que um corpo vivo. Assim,

nesta primavera que exibe na Estônia

um céu tão insolitamente azul,

qualquer desequilíbrio em tudo aquilo

que promete e prenuncia é um reflexo

da vida após a morte, daquilo que é real e verdadeiro.

Ilustração: A Mente é Maravilhosa.


Monday, August 10, 2026

THE BOY FROM CEARÁ (FINAL VERSION)

 


O MENINO DO CEARÁ (Última versão)

Silvio Persivo

Eu era um menino que cabia inteiro numa rua. A Rocha Lima, em Fortaleza. O mundo começava depois da esquina e ia até o céu se alongando no mar que cabia num pires.

Li Nietzsche antes de saber amarrar os sapatos. Os pensamentos não precisavam de cadarço. Machado me ensinou que as palavras têm espinhos e que a gente sangra lendo. Os russos me mostraram que a neve também dói. E Balzac me contou que o mundo é uma comédia que as formigas não entendem.

O rádio naquele tempo era um oráculo de lata. Dentro dele moravam vozes que falavam mais alto que o silêncio do sertão (um silêncio que a gente podia descascar igual a uma laranja).

O cinema era aos domingos. A música era de todo dia. E eu - eu era um menino que colecionava ausências. Colecionava ausências como quem coleciona asa de cigarra. Guardava no bolso junto com pedras que tinham sede e sementes, que viravam sonhos.

Hoje, cinquenta anos depois, pergunto: o que sobrou daquele menino? Respondo: Sobrou o Ceará. O resto foi travessia. A rua Rocha Lima, essa, ainda cabe inteira dentro de mim e é a maior de todas as minhas lembranças!

THE BOY FROM CEARÁ (FINAL VERSION)

I was a boy who fit entirely within a single street: Rocha Lima, in Fortaleza. The world began just around the corner and stretched all the way to the sky, extending into a sea that could fit inside a saucer.

I read Nietzsche before I knew how to tie my shoes. Thoughts didn't need shoelaces. Machado taught me that words have thorns and that we bleed when we read. The Russians showed me that snow can hurt, too. And Balzac told me that the world is a comedy that ants cannot understand.

Back then, the radio was a tin oracle. Inside it lived voices that spoke louder than the silence of the sertão-a silence one could peel away just like an orange.

The movies were for Sundays. Music was for every day. And I-I was a boy who collected absences. I collected absences the way one collects cicada wings. I kept them in my pocket alongside thirsty stones and seeds that turned into dreams.

Today, fifty years later, I ask: what remains of that boy? My answer: Ceará remains. The rest was a journey. As for Rocha Lima Street-it still fits entirely within me, and it is the greatest of all my memories!

Ilustração: iStock.

 

De volta Elizabeth Stellavato

 

NINGUNA MUERTE ES LINDA EN EL CEMENTO

Elizabeth Stellavato

Mirás hacia el centro de la ruta
y manejás en silencio.
Yo me detengo en los costados
y veo a un animal muerto.
Lo pasamos muy rápido
se lo ve muy chico
parece ser un zorro negro.
Una mancha blanca
recorre el lateral de su cuerpo.
Te digo: ¿lo viste?
¿Viste al zorro negro?
Quisiera bajarme
correr al animal y llevarlo un poco más adentro
más cerca del verde, de las flores y de los árboles
que lo rodeen los colores cálidos
quizás vos estés pensando lo mismo
no decís nada
pero el silencio igual se escapa
por las ventanillas del auto
apenas abiertas
para no empañarlo todo.

NENHUMA MORTE É LINDA NO CONCRETO

Olhas para o centro da rota

e manejas em silêncio.

Eu me detenho no acostamento

e vejo a um animal morto.

Passamos por ele muito rápido

parece muito pequeno

parece ser uma raposa preta.

Uma mancha branca

está ao longo do corpo.

Te digo: Viste?

Viste a raposa preta?

Quero sair

correr até o animal e levá-lo um pouco mais para dentro

mais perto do verde, das flores e das árvores

onde cores quentes o cercam

talvez você esteja pensando a mesma coisa

não dizes nada

porém um silêncio igual se escapa

pelas janelas do carro

mal abertas

para não embaçar tudo.


Ilustração: MeisterDrucke. 



Saturday, August 08, 2026

LXXII

 


LXXII

Silvio Persivo

De tanto amor que amei não sou culpado.

É que o amor em mim, como um escrito,

foi marcado para ser feito o infinito

um traçado do destino já marcado.

 

Fui tão pródigo de amor e inebriado

enveredei por este caminho tão bonito

de viver a amar como único fito

sem perceber o custo tão demasiado.

 

E tanto amor distribui sem que soubesse

que comigo mesmo era desumano:

que um dia faltaria, se muito o desse.

 

E só muito tarde percebi o meu engano.

Amor somente se dá para quem merece

ou se recebe em troca apenas dano.

LXXII

I'm not guilty of so much love that I loved.

Is that the love in me, like a writing,

was marked to be done infinity

a route of the destination already marked.

 

I was so lavish with love and intoxicated

I took this beautiful path

from living to loving as the only purpose

without realizing the cost so too much.

 

And so much love distributes without knowing

that with myself was inhuman:

that one day would be lacking, if much were to be given.

 

Outra poesia deJüri Talvet

 


A UN ESCRITOR NATURALISTA

Jüri Talvet

Te mando un montón de ropa vieja
para que les pongas calcetines, pantalones
y un abrigo ligero, por lo menos,
a tus personajes que, como dices,
han sido tomados de la vida misma.
(Quien haya sido tomado de la tierra, ese…)
Quien haya sido tomado de la vida, volverá
a la vida. Pero ya que los pintas desnudos
acuérdate que en la calle, mientras tanto,
ha empezado el invierno.

A UM ESCRITOR NATURALISTA

Te mando um monte de roupas velhas

para que lhes ponha meias, calças,

e um casaco leve, pelo menos

a teus personagens, que como dizes

foram tomados da vida mesma.

(Quem havia sido tomado da terra, esse...)

Quem havia sido tomado da vida voltará

à vida. Porém, já que os pinta nus,

acorda-te que na rua, enquanto isto, na rua,

o inverno já começou.

Ilustração: Tempo.pt.


Friday, August 07, 2026

IV QUARANTINE por Eavan Boland

 

                                  IV QUARANTINE

Eavan Boland

In the worst hour of the worst season
of the worst year of a whole people
a man set out from the workhouse with his wife.
He was walking – they were both walking – north.
She was sick with famine fever and could not keep up.
He lifted her and put her on his back.
He walked like that west and west and north.
Until at nightfall under freezing stars they arrived.
In the morning they were both found dead.
Of cold. Of hunger. Of the toxins of a whole history.
But her feet were held against his breastbone.
The last heat of his flesh was his last gift to her.
Let no love poem ever come to this threshold.
There is no place here for the inexact
praise of the easy graces and sensuality of the body.
There is only time for this merciless inventory:
Their death together in the winter of 1847.
Also what they suffered. How they lived.
And what there is between a man and woman.
And in which darkness it can best be proved.

IV QUARENTENA

Na pior hora da pior estação

do pior ano de todo um povo

um homem saiu do asilo com sua esposa.

Ele caminhava- ambos caminhavam-para o norte.

Ela estava doente com febre da fome e não conseguia acompanhá-lo.

Ele a carregou e a colocou nas costas.

Ele caminhou assim para oeste, do oeste ao norte.

Até que, ao cair da noite, sob estrelas congelantes, eles chegaram.

NA manhã, ambos foram encontrados mortos.

De frio. De fome. Das toxinas de toda uma história.

Porém os pés dela estavam encostados em seu peito.

O último calor de sua carne foi seu último presente para ela.

Que nenhum poema de amor jamais chegue a este limiar.

Não há lugar aqui para o elogio impreciso

das graças fáceis e da sensualidade do corpo.

Há tempo apenas para este inventário impiedoso:

A morte deles juntos no inverno de 1847.

Também o que sofreram. Como viveram.

E o que existe entre um homem e uma mulher.

E em qual escuridão isto pode ser melhor comprovado.

Ilustração: Estado de Minas.




Um poema de Patricio Foglia

 


creo en dios
padre todopoderoso

(creador del cielo
& de la tierra)

Patricio Foglia

yo sí creo en dios
en un dios pero chúcaro

medio bravo tipo zeus
antiguo testamento style

dios chasqueó su látigo sobre mí
y yo puse en la consola

cada uno de sus hechos
mezclé copié & pegué

y así fue como hice
que su música retumbe

CREIO EM DEUS

PAI TODO PODEROSO

(CRIADOR DO CÉU

& DA TERRA)

Eu sim creio em Deus

em um deus, mas um deus selvagem

meio feroz, como Zeus

no estilo do Antigo Testamento

Deus que me chicoteou

e eu coloquei no console

cada um de seus feitos

mesclei, copiei e colei

e assim foi como fiz

para sua música retumbar

Ilustração: Opus Dei.

 

Thursday, August 06, 2026

The Last Call de Andrw Motion

 

 

THE LAST CALL 

Andrew Motion

Death called me,
I did not hear.
He spoke again:
Come near.

I went to look
for pity.
Poor death, I thought,
he loves me.

I guessed right,
he does.
And now I love him too,
just because.

O ÚLTIMO CHAMADO

A Morte me chamou,

eu não ouvi.

Ela falou de novo:

Aproxime-se.

 

Fui em busca

de pena.

Pobre Morte, pensei,

ela me ama.

 

Eu estava certo:

ela ama mesmo.

E agora eu a amo também,

simplesmente porque sim.

Ilustração: Dreamtime