Thursday, October 22, 2026

Uma poesia de Gregory Fraser

 

 

MISCARRIAGE

Gregory Fraser

Load audio playerabout

They tell me God exists.
I’m not so sure.
They tell me I exist.
I have my doubts.
 
It’s said I raged like a star
after you crossed
out of time
forever. Raged
and then collapsed.
I can’t deny or confirm.

MALOGRO

Eles dizem que Deus existe.

Não tenho tanta certeza.

Eles dizem que eu existo.

Eu tenho minhas dúvidas.

 

Dizem que eu ardi furioso como uma estrela

depois que você cruzou

para fora do tempo

para sempre. Fiquei furioso

e, então, colapsei.

Não posso negar ou confirmar.

Ilustração: Blog Eurekka.


Due de Pierluigui Cappello

 


DUE

Pierluigui Cappello

Lascio la camera com'era quando era nei tuoi occhi,

incontrarti è il sapore che trattengo nel sorso di caffè.

 

Tra il piacere e quel che resta del piacere

il mio corpo sta come un posto dove si piange

perché non c’è nessuno.

 

Un giorno settembre era limpido e ventoso

il silenzio ammutoliva, la terra tornava al cielo.

 

DOIS

Deixo o quarto como estava quando estava em seus olhos,

encontrar você é o sabor que guardo no gole de café.

 

Entre o prazer e o que restou do prazer,

meu corpo é como um lugar onde se chora

porque não há ninguém lá.

 

Num dia de setembro, estava claro e ventoso,

o silêncio silenciou, a terra retornou ao céu.


De volta Lila Calderón

 


VEINTICUATRO VECES POR SEGUNDO

Lila Calderón

No es mi día/ he pensado en ti veinticuatro veces por segundo/ en cámara rápida te he rebobinado/ te he congelado te puse sepia/ He pensado  que entras por la puerta/ por el tragaluz/ el espejo  la ventana/ que atraviesas  paredes/ que brotas desde mi mente/ que estás en la televisión/ en el reflejo  debajo de la cama/ que juegas fútbol y lanzas un gol contra la cortina del baño/ He creído verte llegar diciendo/ que esperabas verme llegar/ corriendo hasta tus brazos dorados/ broncíneos marmóreos pétreos/ aparecer allá y emitir un monólogo/ en plena terraza mientras las olas se levantan/ y las gaviotas se dispersan mar adentro/ montadas en ballenas que huyen de sus cazadores/ disfrazadas de delfines/ Oigo alarmas y no puedo creer en la velocidad/ del pensamiento/ en esta calle todos los autos tienen el mismo sonido/ las llaves en las puertas giran del mismo modo/ y los pasos de los otros dejan tus mismas huellas/ He viajado contigo y he vuelto/ Tu fotografía no me deja en paz/ sonríe todo el tiempo/ como si nada/ me pregunto qué costaría una llamada telefónica/ hay que ser bien cabeza dura/ y olvidarse/ de lo que cuesta interceptar el amor/ experimentar ese estremecimiento/ viajar por los siete mares/ vivir con la misma dignidad el sueño o la vida real/ cocinar lavar planchar cantar/ reconocer/ que nos hemos encontrado/ un poco más allá del cruce de nuestros caminos/ porque sería ambicioso/ e irresponsable/ pensar creer suponer deducir/ a partir de no sé qué premisa/ que este peldaño mohoso/ representa el medio de nuestras vidas/ La longevidad/ no es ningún premio cuando sabemos/ que desde esta mitad comienza el deterioro/ y el olvido se instala/ como una película cortada mientras revisamos la página del obituario/ y decimos sonriendo/ qué bien/ este  no es mi día

VINTE E QUATRO VEZES POR SEGUNDO

Não é o meu dia/ pensei em você vinte e quatro vezes por segundo/ rebobinei você em câmera rápida/ congelei você, coloquei você em sépia/ Imaginei você entrando pela porta/ pela claraboia/ pelo espelho, pela janela/ atravessando paredes/ brotando da minha mente/ aparecendo na televisão/ no reflexo, debaixo da cama/ jogando futebol e marcando um gol na cortina do banheiro/ Acreditei ver você chegando e dizendo/ que esperava me ver chegar/ correndo para os seus braços dourados/ bronzeados, marmóreos, pétreos/ aparecer ali e fazer um monólogo/ no terraço, enquanto as ondas se erguem/ e as gaivotas se dispersam mar adentro/ montadas em baleias que fogem de seus caçadores/ disfarçadas de golfinhos/ Ouço alarmes e não consigo acreditar na velocidade/ do pensamento/ nesta rua, todos os carros têm o mesmo som/ as chaves nas portas giram do mesmo jeito/ e os passos dos outros deixam as mesmas pegadas que as suas/ Viajei com você e voltei/ Sua fotografia não me deixa em paz/ sorri o tempo todo/ como se nada tivesse acontecido/ pergunto-me quanto custaria uma ligação telefônica/ é preciso ser muito cabeça-dura/ e esquecer/ o custo de interceptar o amor/ de experimentar aquele estremecimento/ de viajar pelos sete mares/ de viver com a mesma dignidade o sonho ou a vida real/ cozinhar, lavar, passar, cantar/ reconhecer/ que nos encontramos/ um pouco além do cruzamento dos nossos caminhos/ porque seria ambicioso/ e irresponsável/ pensar, acreditar, supor, deduzir/ a partir de não sei qual premissa/ que este degrau mofado/ representa a metade das nossas vidas/ A longevidade/ não é prêmio nenhum quando sabemos/ que, a partir dessa metade, começa a deterioração/ e o esquecimento se instala/ como um filme interrompido enquanto olhamos a página do obituário/ e dizemos, sorrindo:/ que bom/ este não é o meu dia

 

 

Wednesday, October 21, 2026

Uma Prece por um Brasil Feliz ( A Prayer for a Happy Brazil)

 

Uma Prece por um Brasil Feliz

 Silvio Persivo 

Ó Santa Terezinha do Menino Jesus,

que Dele recebeste a divina graça,

leva embora esta dor que nos abraça,

dissipa as sombras, devolve-nos a luz!

 

Que este mal que assola nosso País,

esta longa e tão pesada cruz,

se desfaça neste domingo, enfim,

e a esperança volte a florir!

 

Já passou da hora, Santa querida,

de devolver ao Brasil a alegria,

a paz, a fé e o amor pela vida.

Intercede por nós, neste santo dia,

e faz do Brasil uma nação feliz!

A Prayer for a Happy Brazil

O Saint Thérèse of the Child Jesus,

you who received divine grace from Him,

take away this pain that holds us in its grip,

dispel the shadows, restore our light!

 

May this evil that plagues our country-

this long and heavy cross-

finally dissolve this Sunday,

and may hope bloom once again!

 

It is high time, dear Saint,

to restore to Brazil its joy,

its peace, its faith, and its love for life.

Intercede for us on this holy day,

and make Brazil a happy nation!

Ilustração: Diocese de Juina. 

Morning Song de Sylvia Plath

 


MORNING SONG
Sylvia Plath
Loves set you going like a fat gold watch.
The midwife slapped your footsoles, and your bald cry
Took its place among the elements.

Our voices echo, magnifying your arrival. New statue
Ina drafty museum, your nakedness
Shadows our safety. We stand round blankly as walls.

I’m no more your mother
Than the cloud that distils a mirror to reflect its own slow
Effacement at the wind’s hand.

All night your moth-breath
Flickers among the flat pink roses. I wake to listen:
A far sea moves in my ear.

One cry, and I stumble from bed, cow-heavy and floral
In my Victorian nightgown.
Your mouth opens clean as a cat’s. the window square

Whitens and swallows its dull stars. And now you try
Your handful of notes;
The clear vowels rise like balloons.

CANÇÃO DA MANHÃ

O amor levou você como um relógio de ouro bojudo.

A parteira bateu na planta dos seus pés, e seu grito nu

Assumiu seu lugar entre os elementos.

 

Nossas vozes ecoam, amplificando sua chegada. Nova estátua

Em um museu cheio de correntes de ar, sua nudez

Faz sombra à nossa segurança. Ficamos em volta, inexpressivos como paredes.

 

Eu não sou mais sua mãe

Do que a nuvem que destila um espelho para refletir seu próprio lento

Apagamento pelas mãos do vento.

 

A noite toda, sua respiração de mariposa

Tremeluz entre as rosas planas e rosadas. Eu acordo para ouvir:

Um mar distante se mover em meu ouvido.

 

Um grito, e tropeço para fora da cama, pesada como uma vaca e florida

Em minha camisola vitoriana.

Sua boca se abre, limpa como a de um gato. O quadrado da janela

 

Branqueia e engole suas estrelas foscas. E agora você experimenta

Seu punhado de notas;

As claras vogais sobem como balões.

Ilustração: Portal Viver Bem Unimed.


Y Sin Embargo Amor de Roque Dalton

 


                            Y SIN EMBARGO AMOR  

Roque Dalton

Y sin embargo, amor, a través de las lágrimas,
yo sabía que al fin iba a quedarme
desnudo en la ribera de la risa.

Aquí,
hoy,
digo:
siempre recordaré tu desnudez en mis manos,
tu olor a disfrutada madera de sándalo
clavada junto al sol de la mañana;
tu risa de muchacha,
o de arroyo,
o de pájaro;
tus manos largas y amantes
como un lirio traidor a sus antiguos colores;
tu voz,
tus ojos,
lo de abarcable en ti que entre mis pasos
pensaba sostener con las palabras.

Pero ya no habrá tiempo de llorar.

Ha terminado
la hora de la ceniza para mi corazón.

Hace frío sin ti,
pero se vive.

E, SEM EMBARGO, AMOR

E, sem embargo, amor, através das lágrimas,

eu sabia que, no fim, iria ficar

nu na margem do riso.

 

Aqui,

hoje,

digo:

sempre lembrarei da tua nudez em minhas mãos,

do teu cheiro de madeira de sândalo desfrutada

cravada junto ao sol da manhã;

do teu riso de moça,

ou de riacho,

ou de pássaro;

das tuas mãos longas e amantes

como um lírio traidor de suas antigas cores;

da tua voz,

dos teus olhos,

do que, em ti, foi possível abarcar e que, entre os meus passos,

eu pensava sustentar com as palavras.

 

Porém já não há tempo para chorar.

 

Está terminada

a hora das cinzas para o meu coração.

Faz frio sem ti,

porém, se vive.  

Ilustração: Tribuna do Sertão.

Tuesday, October 13, 2026

A Inglória Dança da Vida (The Inglorious Dance Of Life).

 

  
                     A INGLÓRIA DANÇA DA VIDA

Silvio Persivo

Se formos pensar

Em tudo que existe nada nos importa

E, no fim, tudo pesa

Como uma folha ao vento.

Mundo passageiro

Como um sonho breve

Ou um jogo ligeiro.

 

Nada levamos desta vida.

Seja a glória, a fama, amor, dinheiro.

É tudo apenas uma memória momentânea

Como a lembrança

De uma partida bem jogada.

O vão contentamento, depois o nada.

 

A glória pesa como um fardo.

A fama, uma febril ilusão.

O amor, no final, uma prisão.

O dinheiro, um logro mascarado

de termos feito um jogo bem jogado.

 

A vida, no entanto, joga xadrez

conosco como uma inteligência artificial:

é impossível ganhar no final.

O xeque mate nos foi dado no nascimento,

no momento da primeira jogada.

Devemos felizes nos sentir pelo jogo,

aproveitar os dias

e mais nada.

 

E é verdade que, alguns,

por meio da ciência, ou pelo vinho,

pensam ter, por breves momentos,

a sensação de vitória.

Porém logo a morte ou a idade

encerra o sentimento de felicidade.

Os sinos dobram,

as sombras chamam por nós:

cala-se a voz.

 

Talvez, por algum tempo,

fique a lembrança.

O sonho, no entanto,

já se foi,

depois se vai, no tempo, a memória

e o jogo se esvai e se destrói,

com as peças retiradas,

para a vala comum do esquecimento

ou desfeitas pelo pó do tempo.

Goza, pois o que te resta é o momento!

THE INGLORIOUS DANCE OF LIFE

If we stop to think

About all that exists, nothing truly matters

And, in the end, everything weighs

No more than a leaf in the wind.

A fleeting world,

Like a brief dream

Or a quick game.

 

We take nothing from this life-

Be it glory, fame, love, or money.

It is all merely a momentary memory,

Like the recollection

Of a well-played match.

 Vain contentment, followed by nothingness.

 

Glory weighs heavy like a burden.

Fame is a feverish illusion.

Love, in the end, a prison.

Money, a deception masked

As having played the game well.

 

Life, however, plays chess

Against us like an artificial intelligence:

It is impossible to win in the end.

Checkmate was dealt to us at birth,

At the moment of the opening move.

We should find happiness in the game,

Savor the days,

And nothing more.

 

And it is true that some,

Through science or through wine,

Think they hold, for brief moments,

The sensation of victory.

Yet soon, death or old age

Brings that feeling of happiness to an end.

The bells toll,

The shadows call to us:

The voice falls silent.

 

Perhaps, for a time,

The memory lingers.

The dream, however,

Is already gone;

Then, in time, the memory fades,

And the game dissolves and falls apart-

The pieces swept away

To the common grave of oblivion

Or undone by the dust of time.

Rejoice, for the moment is all that remains!

 




A poesia de Fosca Massuco

 

                                       Fosca Massucco 

Immersa in una tonale di gioia, io trionfo

incessante negli anditi riverberanti dell’anima

come un crine ebbro di pece sulla corda.

 

Il dolore è silenzio del tono puro

per distratta sottrazione.

 

Imersa numa tonalidade de alegria, eu triunfo

incessante no andamento reverberante da alma

como um fio de cabelo ébrio de breu numa corda.

 

A dor é o silêncio do tom puro

pela distraída subtração.

Ilustração: Violino-Arte e Técnica. 



Eis a poesia de Lila Calderón

 


                                              HABLAS
                                             (Fragmento)

 Lila Calderón

El personaje está perdido
HABLAS       le preguntan
hablo y leo y pienso responde
y sé hacer música                    quiero saber
dónde estaban esos conocimientos
cómo me hiciste con quiénes
Soy malo o bueno                   y duda
Eran materiales    sólo materiales
responde Víctor Frankenstein
ante la impertinencia de su maniquí
Y sin embargo más tarde
el monstruo
dice haber terminado con la humanidad
y muere digno ante la muerte de su padre

 FALAS

(Fragmento)

O personagem está perdido

FALAS   lhe    perguntam

falo e leio e penso responde

e sei fazer música                    quero saber

onde estavam esses conhecimentos

como me fizeste com quem

Sou mau ou bom                   e dúvida

Eram materiais    só materiais

responde Victor Frankenstein

diante da impertinência de seu manequim

E, sem embargo, mais tarde

o monstro

diz haver terminado com a humanidade

e morre digno diante da morte de seu pai.

Ilustração: Isto É Dinheiro. 


The Windhover de Gerard Manley Hopkins

 

THE WINDHOVER

Gerard Manley Hopkins

To Christ Our Lord
I CAUGHT this morning morning’s minion, king- 
  dom of daylight’s dauphin, dapple-dawn-drawn Falcon, in his riding 
  Of the rolling level underneath him steady air, and striding 
High there, how he rung upon the rein of a wimpling wing 
In his ecstasy! then off, off forth on swing,
  As a skate’s heel sweeps smooth on a bow-bend: the hurl and gliding 
  Rebuffed the big wind. My heart in hiding 
Stirred for a bird, – the achieve of; the mastery of the thing! 
 
Brute beauty and valour and act, oh, air, pride, plume, here 
  Buckle! AND the fire that breaks from thee then, a billion
Times told lovelier, more dangerous, O my chevalier! 
 
  No wonder of it: shéer plód makes plough down sillion 
Shine, and blue-bleak embers, ah my dear, 
  Fall, gall themselves, and gash gold-vermillion.

O PENEIRADOR

A Cristo, Nosso Senhor

Capturei hoje de manhã o favorito da manhã, o príncipe

herdeiro do reino da luz do dia, o Falcão traçado pela alvorada mosqueada, em seu planar

Sobre o ar firme e nivelado que rolava sob ele, e avançando

Lá no alto, como ele girava sobre as rédeas de uma asa ondulante

Em seu êxtase! Depois, partindo, lançando-se num balanço,

Como a lâmina de um patim desliza suave numa curva: o impulso e o planar

Desafiavam o vento forte. Meu coração, antes oculto,

Agitou-se por uma ave - pela proeza, pela maestria daquela criatura!

 

Beleza bruta, valor e ação- oh, ar, orgulho, plumagem -aqui

Convergem com força! E o fogo que então de ti irrompe, bilhões

De vezes mais belo e perigoso, ó meu cavaleiro!

 

Não é de se estranhar: o puro esforço faz o arado, no sulco,

Brilhar, e brasas azuladas e frias - ah, meu caro-

Caem, ferem-se e rasgam-se em tons de ouro e vermelhão.

Ilustração: São Carlos em rede.


Monday, October 12, 2026

Enquanto Átropos Não Usa a Tesoura (While Atropos Does Not Wield The Shears)

 


        ENQUANTO ÁTROPOS NÃO USA A TESOURA

Silvio Persivo

Quando a razão nos acena, silente,
com a sombra de Átropos à nossa frente,
a mais temida das filhas da Noite,
que encerra o destino sem alarde ou açoite;

 

quando Láquesis, com mãos soberanas,
mede os dias, as horas, as semanas,
do fio que Cloto, em seu fuso, teceu,
percebemos, enfim, o que a vida nos deu.

 

E treme a alma, ante o esquecimento,
quando mais desejamos deter o momento;
quando ainda há caminhos, vertigens, calor,
e tanto a descobrir nas entranhas do amor.

 

Que estranho destino: saber que há um fim
e, ainda assim, guardar primaveras em mim;
buscar na alegria o que a dor não desfez,
e amar como se fosse a primeira vez.

 

Pois, se a tesoura já ronda o tecido,
que não nos encontre do sonho esquecido;
que o último fio, ao romper-se, afinal,
nos surpreenda vivendo-e não sofrendo o final.

 

WHILE ATROPOS DOES NOT WIELD THE SHEARS

When reason silently beckons us,

with the shadow of Atropos looming ahead-

the most feared of the daughters of Night,

who brings destiny to a close without fanfare or lash;

 

when Lachesis, with sovereign hands,

measures the days, the hours, and the weeks

of the thread that Clotho spun on her spindle,

we finally grasp what life has bestowed upon us.

 

And the soul trembles at the thought of oblivion,

precisely when we most wish to hold back the moment;

when paths, dizzying heights, and warmth still remain,

and there is so much to discover in the depths of love.

 

What a strange destiny: to know there is an end

and yet, to harbor springs within myself;

to seek in joy what pain could not undo,

and to love as if it were the very first time.

 

For if the shears are already hovering near the fabric,

may they not find us having forgotten our dreams;

may the final thread, when it snaps at last,

find us living-and not merely suffering-the end.

Ilustração: Instagram. 


Debout de Blaise Cendrars

 

DEBOUT
Blaise Cendrars

La nuit s’avance
Lê jour commence à poindre
Un fenêtre s’ouvre.
Un homme se penche a dehors en fredonnant.
Il est en brás de chemise et regarde de par le monde.
Le vent murmure doucement comme une tête bourdonnante.

DE PÉ

A noite avança

O dia começa a amanhecer

Uma janela se abre.

Um homem se debruça para fora, cantarolando.

Ele está de mangas de camisa e olha o mundo.

O vento murmura docemente, como uma cabeça borbulhando.

Ilustração: El Hombre. 

                                                  

É Pierluigui Cappello

 


                                      Pierluigui Cappello

Scrivere come sai dimenticare,

scrivere e dimenticare.

 

Tenere un mondo intero sul palmo

e dopo soffiare.

 

Escreva como sabe esquecer,

escreva e esqueça.

 

Tenha um mundo inteiro na palma da sua mão

e depois sopre.

Ilustração: Dreamstime. 


Deshora de Eduardo Mitre

 


DESHORA

Eduardo Mitre

                                  polvo serán, mas polvo enamorado.
                                  
Francisco de Quevedo

La cercanía infranqueable entre sus cuerpos.
Un puente de miradas donde se cruzan
y se separan.
En sus labios:
un vaivén de palabras o de silencios
-no la lenta fragua del beso.
No el hondo goce
ni la dicha tersa
de las desnudeces enlazadas:
sólo el roce eléctrico
de los muslos que se adivinan.

Sólo el asombro de conocerse
en la esquina
de los tardíos encuentros.

Y el sueño donde quizá se poseen
al lado
de otro cuerpo que duerme.

Y el carbón del deseo
que ha de volverse sin duda
puro diamante

al precio de no haber sido nunca
los dos el mismo leño
la húmeda llama
en el lecho
de esta única vida.

HORA TARDIA

                                                 serão pó, mas pó apaixonado.

                                                 Francisco de Quevedo

 

A proximidade intransponível entre seus corpos.

Uma ponte de olhares onde se cruzam

e se separam.

Nos lábios:

um vai e vem de palavras ou de silêncios

-não a lenta forja do beijo.

Não o profundo gozo

nem a sorte limpa

das nudezes enlaçadas:

só o roçar elétrico

das coxas que se adivinham.

 

Só o espanto de se conhecerem

na esquina

dos encontros tardios.

 

E o sonho talvez de que se possuam

ao lado

de outro corpo que dorme.

 

E a brasa do desejo

que há de se tornar, sem dúvida,

puro diamante

 

ao preço de nunca terem sido

os dois o mesmo lenho,

a chama úmida

no leito

desta vida única.

Ilustração: Fast Company Brasil.