Thursday, June 11, 2026

Um poema de Pierluigi Cappello

 


APPUNTO

Pierluigi Cappello

Dal desiderarti al pensarti mia

sei rimasta tu, mentre entri e siedi.

La luce ti viene alle spalle dalla porta socchiusa,

il pruno lascia il suo bianco al mattino.

Così intonati, il bianco e il pruno

fermi nel sole, noi.

 

In questa maniera gli alberi parlano al cielo

l’ombra degli alberi cresce lungo le iridi

verde più cielo

in questo modo di stare, precipitati.

EXATAMENTE

De desejar te pensar como minha,

permaneces, ao entrar e se sentar.

A luz vem de trás de ti pela porta entreaberta,

a ameixeira deixa suas folhas brancas pela manhã.

Tão em sintonia, o branco e a ameixeira

ainda ao sol, nós.

 

Desta maneira as árvores falam com o céu

a sombra das árvores cresce ao longo das íris

mais verdes que o céu

neste modo de estar, caída.

Ilustração: Sos Italian.


Outro poema de Luis Martín-Santos

 


ARMONÍA

Luis Martín-Santos

Armonía siempre es razón,
razón y causa:
De los leves efectos de una pausa
desciende el rubor de la emoción.

Armonía siempre es verdad,
verdad y reto:
Tras su ágil vallado, el verde seto
un brinco es, tras el triunfo del audaz.

Armonía siempre es mujer,
mujer fecunda:
su seno portentoso el mundo inunda
de belleza bañando al puro ser.

HARMONIA

A harmonia sempre é razão,

razão e causa:

Dos leves efeitos de uma pausa

descende o rubor da emoção.

A harmonia sempre é verdade,

verdade e desafio:

Por trás de sua cerca veloz, a cobertura verde

um salto é, por trás do triunfo do audaz.

A harmonia sempre é mulher,

mulher fecunda:

seu seio portentoso o mundo inunda

de beleza, banhando o ser puro.

Ilustração: Origem do Conceito. 

Wednesday, June 10, 2026

CONFISSÃO

 


LADRÃO DE CORAÇÃO

Silvio Persivo

Não vou negar que, muitas vezes, 

aproveitando o descuido ou a ocasião,

talvez movido pelo impulso ou a emoção,

roubei algumas coisas. 

A maioria muito insignificante

nos meus momentos morais mais claudicantes,

o que não me absolve não. 

Fui ladrão sim, 

porém de um roubo sinto orgulho

e, se pego, me declararei culpado

sem contestação. 

Fui eu sim. 

Fui eu, sem escrúpulo ou remorso nenhum, 

quem roubou, quem roubou

teu coração! 

L' Adieu de Guillaume Apollinaire

 

L'ADIEU
Guillaume Apollinaire
J'ai cueilli ce brin de bruyère
L'automne est morte souviens-t'en
Nous ne nous verrons plus sur terre
Odeur du temps
Brin de bruyère
Et souviens-toi que je t'attends
                                       O ADEUS

Eu colhi este ramo de urze

O outono está morto, lembre-se disso

Não nos veremos mais sobre a Terra

Aroma do tempo

Ramo de urze

E lembre-se que estou esperando por ti.

Ilustração: Infusões com História. 



Um poema de Jeffrey McDaniel

 


                        THE BIOLOGY OF NUMBERS

Jeffrey McDaniel
Once I dated a woman I only liked 43%.
So I only listened to 43% of what she said.
Only told the truth 43% of the time.
And only kissed with 43% of my lips.

Some say you can't quantify desire,
attaching a number to passion isn't right,
that the human heart doesn't work like that.
But for me it does-I walk down the street

and numbers appear on the foreheads
of the people I look at. In bars, it's worse.
With each drink, the numbers go up
until every woman in the joint has a blurry

eighty something above her eyebrows,
and the next day I can only remember 17%
of what actually happened. That's the problem
with booze-it screws with your math.

A BIOLOGIA DOS NÚMEROS

Uma vez sai com uma mulher que só gostava 43%.

Assim só escutei 43% do que ela disse.

Só lhe disse a verdade 43% do tempo.

E só a beijei com 43% dos meus lábios.

 

Alguns dizem que você não se pode quantificar o desejo,

Que por um número na paixão não é razoável,

Que o coração humano não funciona assim.

Porém, para mim sim. Eu caminho rua abaixo

 

E os números aparecem nas frontes

Das pessoas. Nos bares é pior.

Cada drinque que bebo, os números sobem

Até que toda mulher no local esteja turva.

 

oitenta e alguma coisa acima das sobrancelhas,

e no dia seguinte eu só posso lembrar de 17%

do que realmente se passou. Este é o problema

com a bebida - ela acaba sua matemática.  

Ilustração: Amazon. 



Monday, June 08, 2026

Départ de Arthur Rimbaud

 

DÉPART
Arthur Rimbaud
Assez vu. La vision s'est rencontrée à tous les airs.
Assez eu. Rumeurs des villes, le soir, et au soleil, et toujours.
Assez connu. Les arrêts de la vie.
- Ô Rumeurs et Visions!Départ dans l'affection et le bruit neufs!

PARTIDA

Já se viu bastante. A visão foi reencontrada em todos os ares.

Já se viu bastante. Rumores das vilas, a noite, ao sol, e sempre.

Já se conheceu bastante. As euforias da vida.

-Ó rumores e visões! Partida em meio a afetos e barulhos novos! 


Outro poema de Carlos Pujol

 


Carlos Pujol

En el álbum de cosas del pasado
se ve al niño a la espera, un poco incrédulo
de todo lo que ve. Las condiciones
de la felicidad,
el arte de ser crueles,
la sinrazón y aquel aprendizaje
de extrañas disciplinas
para sobrevivir a los adultos,
es cuanto se le da a modo de herencia.
Atónito, inocente, colegial,
tan violento y sombrío,
contempla todo aquello
y acepta ciegamente la lección
de estar perdiendo todas las batallas.

 

No álbum das coisas do passado,

se vê o menino a espera, um pouco incrédulo

de tudo que vê. As condições

da felicidade,

a arte de ser cruel,

sem razão e aquela aprendizagem

de estranhas disciplinas

para sobreviver aos adultos,

é tudo o que lhe é dado como herança.

Atônito, inocente, colegial,

tão violento e sombrio,

contempla tudo aquilo

e aceita cegamente a lição

de estar perdendo todas as batalhas.

 



Sunday, June 07, 2026

Charada


CHARADA 

Silvio Persivo

Há muitas coisas que não entendo.

Outras nunca irei mesmo entender.

Algumas até me esforço em busca de significado

e depois, derrotado, até multiplico

para quem sabe, alguém mais sábio, decifre. 

E, muitas outras, ficam onde estão 

com seus mistérios e a minha falta de compreensão-

que não muda nada mesmo. 

Ilustração: Ei Nerd. 

 

The Islands III de Hilda Doolitle

 



THE ISLANDS III.
Hilda Doolitle
What can love of land give to me
that you have not,
what can love of strife break in me
that you have not?

Though Sparta enter Athens,
salt, rising to wreak terror
Thebes wrack Sparta,
each changes as water,
and fall back.

AS ILHAS III.

O que o amor pela terra pode me dar

que você não tenha,

o que o amor pela discórdia pode quebrar em mim

que você não tenha?

 

Embora Esparta entre em Atenas,

o sal, se erguendo para semear o terror,

Tebas abala Esparta,

cada uma muda como a água,

e cai de volta.

Ilustração: National Canal Museum. 


Um poema de Carlos Pujol

 

Carlos Pujol

De la vida no hay mucho que contar,
conjeturas, anécdotas,
cosas que por fortuna se olvidaron
y un rimero más alto que yo mismo
de poemas sin fin dando noticias
personales que son del todo falsas.
O al menos de verdad muy indecisa.
Y hasta podemos recordar historias
que nunca han sucedido.
La realidad no es seria,
porque de casi todo
hace ya mucho tiempo.

 

Da vida não há muito o que contar,

conjecturas, anedotas,

coisas que, por sorte, se esqueceram

e um monte mais alto que eu mesmo

de poemas sem fim dando notícias

pessoais que são completamente falsas.

Ou, ao menos, de verdade duvidosa.

E até podemos recordar histórias

Que nunca sucederam.

A realidade não é séria

porque quase tudo

faz já muito tempo.

Ilustração: Freepik.


Saturday, June 06, 2026

Nosso Reino

 

O MEU REINO É TEU

Silvio Persivo

Ó minha linda,

sim, tu serás minha rainha.

A consorte do poderoso rei

de coisa nenhuma.

Seremos, sim, monarcas absolutos

do majestoso reino do imaterial

do Nada-na tua imaginação ou na minha.

Apesar de termos tanto poder,

é força dizer,

não poderemos vencer

nem a feroz monotonia,

nem as mortes,

que nos traz a pandemia.

Como o nosso reino,

de bites, de palavras, de imagens

e de isolamento

é feito,

se encontra na casa e no pensamento.

Reino sem corte,

sem exércitos,

nem títulos nobiliárquicos

nem sujeito a golpes ou crises

só com uma lei

que nos oprime a ser felizes.

Rainha de apenas um súdito,

não serás alvo de vaias ou de aplausos.

Só te prometo homenagens

de poemas e canções

que falarão sobre a felicidade

de nosso amor real.

E se não formos,

como nos filmes,

felizes eternamente,

que possamos ser felizes,

ao menos por um dia,

já será bem melhor

do que estes tempos

de intensa apatia.

Ilustração: Veja-SP.


Mozart por Ramón Xirau

 


MOZART​​ 

Ramón Xirau

Si me preguntan: ¿quién?, contesto Mozart.​​ 

Schönberg, el de la noche​​ 

lógica escribe, vendrá después el canto.​​ 

Mozart no, es melodía.​​ 

(Leed las cartas).​​ 

La Linz, dos días,​​ 

las Misas ruegan, ruegan, eterno es el​​ 

espíritu. También inmortal el cuerpo:​​ 

entre el gozo y el dolor, todo alegría.​​ 

Eine Kleine... Quisiéramos oirte siempre.​​ 

Si me preguntas: ¿quién?, contesto Mozart y nombres​​ 

absolutos.​​ 

¿Por qué te pareces tanto a Novalis joven​​ 

musicalmente muerto y renacido?​​ 

El bosque, de brisa a brisa, es canto.​​ 

Si me preguntan: ¿quién?, contesto Mozart,​​ 

solamente Mozart.

(Versiones del catalán de Marco Antonio Campos).

MOZART

Se me perguntam: quem?, respondo Mozart.

Schoenberg, o da noite

a lógica escreve, virá depois a canção.

Mozart não, é melodia.

 

(Leia as cartas).

Linz, dois dias,

as missas rezam, rezam, eterno é o

espírito. Também imortal é o corpo:

entre o gozo e a dor, todo alegria.

Uma pequena... Queríamos sempre te ouvir.

Se me perguntarem: quem?, respondo Mozart e nomes absolutos.

Por que você se parece tanto com o jovem Novalis,

musicalmente morto e renascido?

A floresta, de brisa a brisa, é canção.

Se me perguntarem: quem?, respondo Mozart,

somente Mozart.

(Versão a partir do catalão por Marco Antonio Campos).

Ilustração: History and Biography.


Mozart by Caroline Knox

 

                                         MOZART

Caroline Knox

Can you imagine

what is true, that

smack in the middle

of making The Magic

Flute he interrupted

himself to make

“Ave Verum Corpus,”

world’s most truth-telling

motet (Who made its

text?  Maybe a pope),

then got himself on

track, back to TMF

(all the while dealing

with money worry and

sickness of wife).  When

you get to the esto nobis

cadence in “AVC,”  you

scale the spine of the

European Enlightenment;

when you get to the

idiotic “Three Faithful

Youths” chorus in TMF:

 

        “Three faithful youths we now will lend you

        Upon your journey they’ll attend you;

        Though young in years, these youths so fair

        Heed the words of wisdom rare!”

 

you’re dealing with

Bertie Wooster’s

three best friends.

Because he was Mozart,

not a problem.

MOZART

Você consegue imaginar

o que é verdade, que

bem no meio

da criação de A Flauta

Mágica

ele se interrompeu

para compor

“Ave Verum Corpus”,

o moteto mais revelador da verdade do mundo (Quem escreveu a

letra? Talvez um papa),

e então retomou

o trabalho, voltando para A Flauta Mágica

(enquanto lidava

com preocupações financeiras e

a doença da esposa). Quando

você chega à cadência esto nobis

em “Ave Verum Corpus”, você

escala a espinha dorsal do

Iluminismo Europeu;

 

quando você chega ao

idiota coro dos “Três Jovens Fiéis” em A Flauta Mágica:

 

 

“Três jovens fiéis nós agora lhe emprestaremos

Na sua jornada eles o acompanharão;

Embora jovens em anos, esses jovens tão belos

Atendem às raras palavras de sabedoria!”

 

você está lidando com os

três melhores amigos de Bertie Wooster.

Porque ele era Mozart,

não havia problema.

Ilustração: Lizen Portfólio. 



Um poema de Luis Martín-Santos

 

TIEMPO

Luis Martín-Santos

I

Protofenómeno de todas
las tragedias. Posibilidad
de magia en lo real. Mis odas
sin sentido dan mi maldad.

 

Sutil derramarme en cada
nervio. Y en el eje mutátil
de las constelaciones. Nada
huye mi acariciar vibrátil.

 

Sólo el péndulo ama el contacto
áspero de mis labios. Cruza
su espada. Al rojo el hierro es pacto.
A lo sin fondo, fondo buza.

II

¡Qué fluir de abismo, abismo, abismo
en raudas espirales! Ojos
en lo profundo de mí mismo,
trazan en sangre los despojos.

Melodía fugada ausente
del cielo y de la tierra. Vuelan
violines fragmentados. Mente
y carne y cifra se congelan.

 

Y una espantosa laxitud
descuñe el torso del potente.
Hiela mi soplo. Hiela. Alud
de hielo, ante lo eterno, miente.

TEMPO

I

Protofenômeno de todas as

tragédias. Possibilidade

da magia no real. Minhas odes

sem sentido dão minha maldade.

 

Sutil derramamento em cada

nervo. E no eixo mutável

das constelações. Nada

foge do meu acariciar vibrante.

 

Só o pêndulo ama o toque áspero

dos meus lábios. Cruza

sua espada. À brasa o ferro é um pacto.

Ao abismo sem fundo, mergulha.

II

Que fluir do abismo, abismo, abismo

em rápidas espirais! Olhos

nas profundezas de mim mesmo,

traçam em sangue os despojos.

 

Melodia fugaz ausente

do céu e da terra.

Violinos fragmentados voam. Mente

e carne e cifra congelam.

 

E uma espantosa frouxidão

desaperta o torso do potente.

Gela minha respiração congela. Gela. Avalanche

de gelo, diante do eterno, mente.

Ilustração: HypeScience. 


Tuesday, June 02, 2026

NADA ALÉM DE AGORA

 


Se tudo antes era melhor

nem sei.

Hoje, só sei, que, agora,

quero amar 

muito mais do que amei.

Fecha os olhos, 

me beija, 

seja a sereia, a cereja, 

a ilusão, o amor 

com que sempre sonhei.

Depois que importa? 

Você não sabe

nem sei 

quando se abrir aquela porta

e o tempo

nos levar ao esquecimento

que de nós todos 

é o destino, o fim. 

O que será de você.

O que será de mim. 

Monday, June 01, 2026

Uma poesia de Gabriel Zaid

LA OFRENDA  

Gabriel Zaid

Mi amada es una tierra agradecida.
Jamás se pierde lo que en ella se siembra.
Toda fe puesta en ella fructifica.
Aun la menor palabra en ella da su fruto.
Todo en ella se cumple, todo llega al verano.
Cargada está de dádivas, pródiga
y en sazón.
En sus labios la gracia se siente agradecida.
En sus ojos, su pecho, sus actos, su silencio.
Le he dado lo que es suyo, por eso me lo entrega.
Es el altar, la diosa y el cuerpo de la ofrenda.

A OFERENDA

Minha amada é uma terra agradecida.

Jamais se perde o que nela se semeia.

Toda fé posta nela se frutifica.

Até a menor palavra nela dá seu fruto.

Tudo nela se cumpre, tudo chega ao verão.

Carregada está de dádivas, pródiga

e no seu tempo.

Em seus lábios, a graça se sente agradecida.

Em seus olhos, seu peito, suas ações, seu silêncio.

Eu lhe dei o que é seu, e por isso me devolve.

Ela é o altar, a deusa e o corpo da oferenda.

Ilustração: Reddit.