Tuesday, September 29, 2026

Esperança, Meu Amor, Esperança (Hope, My Love, Hope)

 



ESPERANÇA, MEU AMOR, ESPERANÇA

Silvio Persivo

Há algo dentro de mim

Que, mesmo quando o frio me faz tremer

E a escuridão encobre todo sinal de luz

Que me lembra do sol, do calor, do amor

Que sei que virão um dia.

É, pode até ser ilusão,

Mas, ainda creio

Que voarei sem receio na amplidão

Como um pássaro que sabe a direção

Nem que seja a última coisa da vida

Para te entregar meu coração,

Minha querida!

HOPE, MY LOVE, HOPE

There is something within me

That-even when the cold makes me shiver

And darkness veils every sign of light-

Reminds me of the sun, the warmth, the love

That I know will come one day.

Yes, it might even be an illusion,

But I still believe

That I will fly unafraid across the vast expanse

Like a bird that knows the way-

Even if it is the last thing I do in life-

To give you my heart,

My beloved!




When You Are Old de W.B. Yeats

 


WHEN YOU ARE OLD

W.B.Yeats

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

 

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

 

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

QUANDO VOCÊ FOR VELHA

Quando você for velha, grisalha e cheia de sono,

E, cochilando junto à lareira, tomar este livro,

E lentamente lê-lo, e sonhar com o olhar suave

Que teus olhos tiveram uma vez, e com suas sombras profundas;

 

Quantos amaram teus momentos de alegre graça,

E amaram tua beleza com amor falso ou verdadeiro,

Porém um homem amou a alma peregrina em você,

E amou as mágoas da transformação de tua face;

 

E, inclinando-te junto às incandescentes brasas,

Com certa tristeza, como o Amor fugiu murmura

E caminha, lá no alto, sobre as montanhas

E esconde tua face numa multidão de estrelas.

Ilustração: TVI-Notícias.

Um poema de Gutierre de Cetina

 

HORAS ALEGRES QUE PASÁIS VOLANDO

Gutierre de Cetina

Horas alegres que pasáis volando
porque a vueltas del bien mayor mal sienta;
sabrosa noche que en tan dulce afrenta
el triste despedir me vas mostrando;

importuno reloj, que apresurando
tu curso, mi dolor me representa;
estrellas con quien nunca tuve cuenta,
que mi partida vais acelerando;

gallo que mi pesar has denunciado;
lucero que mi luz va obscureciendo;
y tú, mal sosegada y moza aurora;

si en vos cabe dolor de mi cuidado,
id poco a poco el paso deteniendo,
si no puede ser más, siquiera un hora.

HORAS ALEGRES QUE PASSAM VOANDO

Horas alegres que passam voando

Para que no maior bem, o maior mal sinta;

saborosa noite que de tão doce afronta

o triste despedir me vás mostrando

 

relógio importuno, que vai apressando

teu curso, a minha dor representa;

estrelas com as quais nunca tive conta,

que minha partida vai acelerando;

 

galo que meu pesar hás denunciado;

estrela que minha luz vai obscurecendo;

e tu, mal sossegada e jovem aurora;

 

se em vós cabe a dor do meu cuidado,

ide pouco a pouco o passo diminuindo,

se não puder ser mais, sequer por uma hora.

Ilustração: Uol. 


Monday, September 28, 2026

Photographie de Guillaume Apollinaire

 


PHOTOGRAPHIE
Guillaume Apollinaire
Ton sourire m'attire comme
Pourrait m'attirer une fleur
Photographie tu es le champignon brun
De la forêt
Qu'est sa beauté
Les blancs y sont
Un clair de lune
Dans un jardin pacifique
Plein d'eaux vives et de jardiniers endiablés
Photographie tu es la fumée de l'ardeur
Qu'est sa beauté
Et il y a en toi
Photographie
Des tons alanguis
On y entend
Une mélopée
Photographie tu es l'ombre
Du Soleil
Qu'est sa Beauté

FOTOGRAFIA

Teu sorriso me atrai como

Como me atrai uma flor.

Fotografia, você é o cogumelo marrom

Da floresta

Qual é a sua beleza?

Os brancos que estão lá

Um clarão de lua

Em um jardim tranquilo

Cheio de águas correntes e jardineiros frenéticos

Fotografia, tu és a fumaça do ardor

Qual é a sua beleza?

E a que há em ti

Fotografia

Tons lânguidos

Ouve-se

Uma melodia

Fotografia, és a sombra

Do Sol

Qual é a sua beleza?

Ilustração: Freepik.


Outra poesia de Ángel Guinda

 



ANTES DE QUE SEA TARDE

Ángel Guinda

Un hombre,
harto de estar entre los humanos,
estatua lapidada en un mundo del que abomina,
comparece ante su conciencia.
Un hombre,
que recorrió los caminos del exceso
y escaló las rampas del conocimiento,
encastillado entre sus fracasos y renuncias,
despreciando los fuegos fatuos de la vanidad,
la sed de ser o el victimismo,
se dispone a revisar su vida
antes de que sea tarde.

ANTES QUE SEJA TARDE

Um homem,

cansado de estar entre humanos,

estátua lapidada em um mundo que abomina,

comparece diante de sua consciência.

Um homem,

que recorreu os caminhos do excesso

e escalou as rampas do conhecimento,

entrincheirado entre seus fracassos e renúncias,

desprezando os fogos-fátuos da vaidade,

a sede de ser ou a vitimismo,

prepara-se para rever sua vida

antes que seja tarde.

Ilustrações: Retrospectivas e expectativas- by Janaína Esmeraldo. 

Saturday, September 26, 2026

Até Tão Longe (Even From So Far Away)

 

                                    ATÉ TÃO LONGE

Silvio Persivo

Se agora houvesse um café,

ainda que fora da tradicional hora,

 eu te falaria, com ternura, sobre o reino de prazer

que a distância não revela

e a beleza simples de viver ao teu lado.

Olho as evoluções do tempo, os pontos negros, as sombras, os cinzentos espaços;

perscruto as escolhas sem me sentir culpado

por não saber os próximos passos, por não ter soluções.

Adoraria uma sardinha ou um peixe grelhado;

estar do teu lado ainda,

minha linda,

enquanto degusto o sashimi com shoyu, este molho japonês, tão nosso.

Mas vivo o que posso,

e o possível, agora,

é apenas te dizer:

ainda que tão longe,

com o amargor de tanta distância,

não se esgota o meu querer:

sinto uma imensa saudade de você!

EVEN FROM SO FAR AWAY

If there were a coffee now-

even if it were outside the usual time-

I would speak to you, tenderly, of the realm of pleasure

that distance does not reveal,

and the simple beauty of living by your side.

I watch the unfolding of time, the dark spots, the shadows, the gray spaces;

I examine my choices without feeling guilty

for not knowing the next steps, for having no solutions.

I would love a sardine or some grilled fish;

to be by your side still,

my lovely one,

while savoring sashimi with shoyu-that Japanese sauce that feels so much like ours.

But I live what I can,

and what is possible now

is simply to tell you:

even from so far away,

amidst the bitterness of such distance,

my longing does not fade:

I miss you so deeply!

 



E, ainda, Julieta Sbdar Kaplan

 


NOSOTRAS, IRRESPEITUOSAS

Julieta Sbdar Kaplan

Nosotras, irrespetuosas

vamos cambiando el pronombre.

Somos la alumna y la maestra

y se la pasan conversando.

En la escritura

como en la clase

nos asalta la distracción,

estamos enamoradas:

por puras ganas de conversar

levantamos a cada rato

la cabeza del poema.

NÓS, DESRESPEITOSAS

Nós, desrespeitosas

continuamos mudando o pronome.

Somos a aluna e a mestra

e eles passam o tempo conversando.

Na escrita

como na aula

a distração nos assalta,

estamos apaixonados:

só vontade de conversar

levantamos a cada momento

a cabeça do poema.


Tuesday, September 22, 2026

Balthus Digressão (Balthus: A Digresssion)

 


BALTHUS DIGRESSÃO

Silvio Persivo

Uma obra de arte,

 mesmo que de um museu não faça parte,

 é objeto de significados escondidos-

nunca o mesmo para olhos diversos.

Requer, como as melhores coisas,

uma mistura de sentimento

e, talvez, esforço para o entendimento.

Muitas vezes, trabalho para o descobrimento

ou a mera percepção que dá prazer

em perceber o que algo pode ser.

A arte não está na palavra nem na matéria.

A arte, espécie etérea, 

situa-se exatamente

onde um olhar diz que está-

e pode nem ser lá, certamente-

desde que isto nos deixe contente.

BALTHUS: A DIGRESSION

A work of art-

even if it is not part of a museum-

is an object of hidden meanings,

never the same to different eyes.

It requires, like the best things,

a blend of feeling

and, perhaps, an effort to understand.

Often, it involves the work of discovery,

or the simple perception that brings pleasure

in grasping what something might be.

Art lies neither in the word nor in the matter.

Art, an ethereal entity,

is situated exactly

where a gaze says it is-

and it may not even be there, to be sure-

provided that this brings us contentment.

Ilustração: alexanderadamsart-Word Press.com.


Uma poesia de Ron Padgett

 


THE DEATH OF EMPEDOCLES

Ron Padgett
Five fingers on each hand, five
toes on each foot, that's enough.

I get into the past
which has a different kind of dust on it.

There's an old Coke bottle with dust on it
behind the bust of I think Empedocles—

Nobody from the neck down. O
Empedocles, don't jump into that volcano!

But jump he did, with his whole body,
bouncing off the rocks on the way down.

And you call this a philosopher?
I don't think he set a very good example.

A MORTE DE EMPÉDOCLES

Cinco dedos em cada mão, cinco

dedos em cada pé; é o suficiente.

 

Volto ao passado,

que tem um tipo diferente de poeira.

 

Há uma garrafa de Coca-Cola empoeirada

atrás do busto de - creio eu-Empédocles...

 

Nada do pescoço para baixo. Ó

Empédocles, não pule naquele vulcão!

 

Porém ele pulou, de corpo inteiro,

batendo nas rochas durante a queda.

 

E a isto chamas de filósofo?

Não penso que seja um bom exemplo.

Ilustração: UAI.


De volta Julieta Sbdar Kaplan

 


MARCADOR VERDE SOBRE PIZARRA BLANCA

Julieta Sbdar Kaplan

Anoto un tópico literario

y no lo borro.

Más tarde, cuando

la profesora de matemáticas

enseñe límites

derivadas, funciones

se va a leer de fondo

tempus fugit

semiborrado y suelto:

empu f git.

La palabra olvidada

incompleta en la pizarra

es cadáver, es sombra, es polvo

y es nada. Es la fuga

pero también ese instante

en que la letra

con tinta entra o queda

hasta la hora siguiente

y los tiempos, superpuestos

no avanzan ni se pierden.

MARCADOR VERDE NO QUADRO BRANCO

Anoto um tópico literário

e não o apago.

Mais tarde, quando

a professora de matemática

ensinar limites

derivadas, funções

ficará visível ao fundo

tempus fugit

meio apagado e solto:

empus f git.

A palavra esquecida

incompleta no quadro

é cadáver, é sombra, é pó

e é nada. É a fuga

porém também este instante

em que a letra

a tinta entra ou fica

até a próxima hora

e os tempos sobrepostos

nem avançam nem se perdem.

Ilustração: Pamono.


Imutável (Unchanging)

 


IMUTÁVEL

Silvio Persivo

És tão previsível, tão fiel

Que não mudas de comportamento

Tanto que teu lugar no céu

É questão de tempo, reconhecimento.

Sempre no cinema ou restaurante

Repetes teu lugar, uma constante.

És uma beata forte na tua fé

Resistente a qualquer pecado.

Jamais mudas do lugar marcado

Nem da marca e da hora do café.

UNCHANGING

You are so predictable, so steadfast,

That your ways never change;

So much so that your place in heaven

Is merely a matter of time and recognition.

Always at the cinema or the restaurant,

You return to the same seat-a constant.

A devout soul, strong in your faith,

Resistant to any sin,

You never stray from your chosen spot,

Nor from your brand of coffee or the time you drink it.

Ilustração: Cafézinho em Casa.

Monday, September 21, 2026

CXXI LA MORT DES AMANTS de Charles Baudelaire

 


CXXI
LA MORT DES AMANTS

Charles Baudelaire
Nous aurons des lits pleins d’odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d’étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.

Usant à l’envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d’adieux;

Et plus tard un Ange, entr’ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.

A MORTE DOS AMANTES
Nós teremos leitos plenos de odores ligeiros
Dos divãs de profundos como tumbas,
E estranhas flores sobre prateleiras,
Eclodidas para nós sob os céus belos.

A arder nas suas luzes derradeiras,
Nossos dois corações serão duas grandes tochas,
Que refletirão deles duplas luzes
Em nossos dois espíritos, esses gêmeos espelhos.

Uma noite feita de rosa e místico azul,
Nós trocaremos um raio único
Como um longo soluço; todo cheio de adeuses

E mais tarde, um anjo entreabrindo as portas,
Virá reanimar, fiel e alegre,
Os espelhos manchados e as chamas mortas.

Ilustração: DepositoPhotos.

 


"A Visit" de Margareth Atwood

 

                                           A VISIT

 Margaret Atwood

Gone are the days
when you could walk on water.
When you could walk.

The days are gone.
Only one day remains,
the one you’re in.

The memory is no friend.
It can only tell you
what you no longer have:

a left hand you can use,
two feet that walk.
All the brain’s gadgets.

Hello, hello.
The one hand that still works
grips, won’t let go.

That is not a train.
There is no cricket.
Let’s not panic.

Let’s talk about axes,
which kinds are good,
the many names of wood.

This is how to build
a house, a boat, a tent.
No use; the toolbox

refuses to reveal its verbs;
the rasp, the plane, the awl,
revert to sullen metal.

Do you recognize anything? I said.
Anything familiar?
Yes, you said. The bed.

Better to watch the stream
that flows across the floor
and is made of sunlight,

the forest made of shadows;
better to watch the fireplace
which is now a beach.

UMA VISITA

Já se foram os dias

em que você podia andar sobre as águas.

Em que você podia andar.

Os dias se foram.

Resta apenas um dia,

aquele em que você está.

A memória não é amiga.

Ela só sabe dizer

o que você já não tem:

uma mão esquerda que você pode usar,

dois pés que caminham.

Todos os mecanismos do cérebro.

Olá, olá.

A única mão que ainda funciona

agarra, não solta.

Aquilo não é um trem.

Não há grilo algum.

Não vamos entrar em pânico.

Vamos falar de machados,

quais são os bons,

os muitos nomes da madeira.

É assim que se constrói

uma casa, um barco, uma barraca.

Não adianta; a caixa de ferramentas

recusa-se a revelar seus verbos;

a grosa, a plaina, o furador,

voltam a ser metal inerte.

Você reconhece alguma coisa? eu disse.

Algo familiar?

Sim, você disse. A cama.

Melhor observar o riacho

que corre pelo chão

e é feito de luz do sol,

a floresta feita de sombras;

melhor observar a lareira

que agora é uma praia.

Ilustração: Arquitetura-Vida Decora. 



Uma poesia de Julieta Sbdar Kaplan

 


POEMA SENTIMENTAL

Julieta Sbdar Kaplan

Endecasílabos y alejandrinos

en un cuaderno en blanco.

Voy a escribir con rima

un poema sentimental:

enamorado

entusiasmado

abandonado.

Al amor, a la poesía

entro por el participio:

del pretérito

su forma invariable.

El participio

señala lo que ha sido,

pero también da forma

a lo que está siendo.

POEMA SENTIMENTAL

Hendecassílabos e Alexandrinos

num caderno em branco.

Vou escrever um poema com rima

sentimental:

apaixonado

entusiasmado

abandonado.

Ao amor, à poesia

Entro pelo particípio:

do pretérito

sua forma invariável.

O particípio

assinala o que foi,

mas também dá forma

ao que está sendo.

Ilustração: Flickr. 

 

Sunday, September 20, 2026

De volta Tino Di Cicco

 


Tino Di Cicco

io in te mondo

cercavo oltre

 

qualcosa come una rivelazione

 

una luminosa oscurità

da spendere

sulle mimetiche trappole

dell’evidenza

 

Eu em ti, mundo

buscava além

 

qualquer coisa como uma revelação

 

uma luminosa escuridão

para despender

nas armadilhas miméticas

da evidência

Ilustração: Wordpress.