Wednesday, April 08, 2026

Os Bravos e Esquecidos Soldados da Borracha

 


OS  SOLDADOS DA BORRACHA

Silvio Persivo

Nunca foi leve o chamado da pátria,
nem doce o sonho que os fez partir;
eram homens de pó e de seca exata,
com fome de vida e pressa de existir.

Do Ceará ressequido e esquecido,
brotaram como prece no chão rachado,
carregando no peito um Brasil prometido
e nos olhos um futuro imaginado.

Nos porões da esperança embarcaram,
sem céu, sem rumo, sem luz, sem chão;
na noite densa, amontoados, sonharam
com dignidade, trabalho e pão.

Do cozidão ralo e do charque salgado,
fizeram sustento e resignação;
cada corpo cansado, cada olhar calado,
era um grito contido na escuridão.

Mas a selva - ah, a selva amazônica-
não conhece promessas nem compaixão;
ergueu-se soberana, verde e irônica,
testando o limite de cada irmão.

Ali, o látex sangrava das árvores
como seiva e suor entrelaçados;
e junto ao corte preciso dos homens
iam seus sonhos sendo exauridos, calados.

Chamaram-nos soldados- e eram, de fato-
sem farda, sem arma, sem medalha ou canhão;
travaram na mata um combate ingrato,
defendendo a pátria com a própria mão.

Pobres arigós, heróis esquecidos,
que a história demora a reconhecer;
muitos tombaram, sequer sabidos,
sem ao menos um nome para sobreviver.

E hoje, no silêncio da relva espessa,
onde o tempo repousa sem explicação,
ecoam memórias de dor e promessa
dos homens que deram a vida à nação.

Que a terra os guarde com mais justiça
do que o mundo lhes soube ofertar;
pois sua luta, feita em sacrifício,
foi um Brasil inteiro a sustentar.

Uma poesia de Naomi Shihab Nye

 


EMPTY

Naomi Shihab Nye

I don’t want to see
what spilled out,
blue clay jug of dreams
toppled at the head of his pallet
found at dawn,
every drop of future
gone. 

VAZIO

Eu não quero ver

o que derramou,

o jarro azul de barro dos sonhos

tombou na cabeceira de sua cama

encontrado ao amanhecer,

cada gota de futuro

se foi.

Ilustração: Dreamstime.


Surfing La Manga de Andrés Garcia Cerdán

 


                                   SURFING LA MANGA

Andrés Garcia Cerdán

 

                                         me hablas del dolor tu cabello es rubio
                                         a qué dolor te refieres

                                                                          J. F. Kosta

Entre las ramas de los ficus
y una señal de tráfico,
entre un anuncio de telefonía
y algunos edificios
en construcción, se alcanza a ver
allá a lo lejos
una franja de mar.

Me hablas de la sed,
de lo que amas.
Para llegar al agua,
has de cruzar isletas de cemento,
líneas amarillas
y algunos callejones
donde hacen hilera los cubos de basura,
los cactus desahuciados
y algunas tiendas de comida rápida.
Por la Gran Vía de La Manga, nadie.
Solo el silencio
dinamitado
por las motos de los repartidores.
En el vacío se equilibran
los hoteles desiertos,
apenas una luz
en un bloque de veinte alturas.
Un cartel nos invita a clases de alemán:
Die Zukunft ist da!
Los periódicos dicen que a la playa
llegan miles de peces a morir
heridos de fosfatos.
Me hablas de Anne Sexton,
de su locura deliciosa.
De fondo, un rumor.
El cartel de Surfing La Manga
se resiste a ceder la luz
que le queda del último verano.
Se alquilan motos de agua,
tablas de surf, tumbonas,
pero no todavía:
ahora todo está cerrado.
Al fin el mar,
tras la alambrada de un desguace,
como un animal gris
que se abraza a su presa justo antes de engullirla.

SURFANDO EM LA MANGA

                                          Você me fala de dor, seu cabelo é loiro.

                                          A que dor você se refere?

                                                                               J. F. Kosta

Entre os galhos dos fícus

e uma placa de trânsito,

entre um outdoor de telefone

e alguns prédios

em construção, você consegue distinguir

ao longe

uma faixa de mar.

me falas de sede,

daquilo que você ama.

Para chegar à água,

precisas atravessar ilhas de concreto,

faixas amarelas

e alguns becos

onde latas de lixo se alinham,

os cactos abandonados

e algumas lanchonetes.

Na Gran Vía de La Manga, ninguém.

Apenas o silêncio

quebrado

pelas motos de entrega.

No vazio, os hotéis desertos se equilibram

no horizonte,

mal uma luz

em um prédio de vinte andares.

Uma placa nos convida para aulas de alemão:

Die Zukunft ist da!

Os jornais dizem que milhares de peixes são levados para a praia

para morrer,

feridos por fosfatos.

me contas sobre Anne Sexton,

sobre sua deliciosa loucura.

Ao fundo, um murmúrio.

A placa de Surfing La Manga

resiste a ceder os últimos vestígios

da luz do verão passado.

Jet skis,

pranchas de surfe, espreguiçadeiras são alugadas,

mas ainda não:

tudo está fechado agora.

Finalmente, o mar,

atrás do arame farpado de um ferro-velho,

como um animal cinzento

agarrando-se à sua presa pouco antes de engoli-la.

Ilustração: Yumping. 


Monday, April 06, 2026

Interlude de Edith Sitwell revista

 

INTERLUDE

Edith Sitwell

Amid this hot green glowing gloom     

A word falls with a raindrop’s boom ...

 

Like baskets of ripe fruit in air     

The bird-songs seem, suspended where

 

Those goldfinches-the ripe warm lights         

Peck slyly at them-take quick flights.  

 

My feet are feathered like a bird  

Among the shadows scarcely heard;    

 

I bring you branches green with dew   

And fruits that you may crown anew     

 

Your whirring waspish-gilded hair

Amid this cornucópia-

 

Until your warm lips bear the stains     

And bird-blood leap within your veins.

INTERLUDIO

No meio dessa penumbra verde e quente

Uma palavra cai com o estrondo de uma gota de chuva...

 

Como cestas de frutas maduras no ar

Os cantos dos pássaros parecem suspensos onde

 

Aqueles pintassilgos-as luzes quentes e maduras

Bicavam astutamente-alçam voos rápidos.

 

Meus pés são emplumados como os de um pássaro

Entre as sombras quase inaudíveis;

 

Eu te trago ramos verdes de orvalho

E frutos para que possas coroar novamente

 

Teus cabelos dourados como vespas

No meio dessa cornucópia-

 

Até que teus lábios quentes carreguem as manchas

E o sangue de pássaro pulse dentro de tuas veias.

Ilustração: Devo tudo ao cinema. 

Naufragio de Dulce María Loynaz

 


                                      NAUFRAGIO

Dulce María Loynaz

¡Ay qué nadar de alma es este mar!
¡Qué bracear de náufrago y qué hundirse
y hacerse a flote y otra vez hundirse!
¡Ay qué mar sin riberas ni horizonte,
ni barco que esperar! Y qué agarrarse
a esta blanda tiniebla, a este vacío
que da vueltas y vueltas... A esta agua
negra que se resbala entre los dedos...
¡Qué tragar sal y muerte en esta ausencia
infinita de ti!

NAUFRÁGIO

Ah, que nadar de alma neste mar!

Que se debater de náufrago, afundando

e emergindo, apenas para afundar de novo!

Aí, que mar sem margens ou horizonte,

sem um navio para esperar! E que agarrar-se

a esta suave escuridão, a este vazio

que dá voltas e voltas... A esta

água negra que escorre entre os meus dedos...

Que trago como sal e morte nesta

infinita ausência de você!

Ilustração: Ateliê de Humanidades. 


Sunday, April 05, 2026

X-Caboclinho

 


X-CABOCLINHO

Silvio Persivo

O X-Caboclinho, tesouro culinário

De Manaus, patrimônio cultural.

Sanduíche que no café diário

O torna uma refeição sem igual.

 

No pão francês, o tucumã se exalta

Com seu aroma e sabor marcante

A banana pacovã se agiganta

E o queijo dá um toque elegante

 

É simples de fazer, sem mistério

Até crianças podem preparar

 O que o torna mais extraordinário

 

É como a cereja do bolo para o cenário

Cultural da cidade, que vive a degustar

Este prazer inigualável ao paladar.

Ilustração: BNC Amazonas. 

(De "Receitas da Amazônia Temperadas com Poesia"). 

Saturday, April 04, 2026

Soneto do Amor Constante



SONETO DO AMOR CONSTANTE

Silvio Persivo ( Adptação camoniana pelo Chat GPT)

Meu amor, não requeiro vã plateia,

Basta-me a vida em manso e doce fluir,

Qual na ampulheta a fugitiva areia

Vai, em silêncio, o seu destino cumprir.


Que o nosso amor, no tempo apurado,

Se faça canto em terna melodia;

Serei jardineiro, atento e dedicado,

Serás a flor que exalta o claro dia.


Baste-nos só ternura e puro bem,

Felizes sempre com o que se tem,

Fitando a vida em límpida verdade;


E assim, a dois, num laço mais profundo,

Venceremos as sombras deste mundo,

Erguendo o amor à luz da eternidade.

Ilustração: Manus AI. 


Ho Bisogno Di Sentimenti de Alda Merini

 

                        HO BISOGNO DI SENTIMENTI

Alda Merini

Io non ho bisogno di denaro.
Ho bisogno di sentimenti.
Di parole, di parole scelte sapientemente,
di fiori, detti pensieri,
di rose, dette presenze,
di sogni, che abitino gli alberi,
di canzoni che faccian danzar le estátua,
di stelle che mormorino all'orecchio degli amanti…
Ho bisogno di poesia,
esta magia que brucia la pesantezza delle parole,
che risveglia le emoções e da colori novo…

PRECISO DE SENTIMENTOS

Eu não preciso de dinheiro.
Preciso de sentimentos,
palavras, palavras sabiamente escolhidas,
flores, ditas pensamentos,
rosas, ditas presenças,
de sonhos que habitam as árvores,
de canções que fazem as estátuas dançarem,
de estrelas que sussurram nos ouvidos dos amantes.
Preciso de poesia,
dessa magia que queima o peso das palavras.

que desperta emoções e dá novas cores.

Ilustração: Alibaba. 



Um poema de Louis-René des Forêts

 

OSTINATO
Louis-René des Forêts

C'est aussi que la recherche scrupuleuse de la vérité, l'absurde prétention à tout dire sont des instances auxquelles se soumettre reviendrait à s'enfermer dans les limites d'un dessein et manquer du même coup par souci de probité ce que les seules forces du hasard sans cesse remises en jeu à la faveur du langage et conditionnées par lui désignent au point le plus reculé comme le centre actif, la substance souterraine dont l'être se nourrit, quelle que soit la perte d'intensité qu'entraîne une représentation approximative qui, liée à la durée changeante d'une vie, doit varier ses reprises et s'en remettre pour chacune d'elles aux occasions de la chance, hors de toute sujétion à un ordre préétabli ou de conformité respectueuse à la réalité des faits derrière laquelle se dissimule comme la braise sous la cendre ce que les mots ont pour mission de ranimer.

(...)
De ce chaos désolé tout cependant l'engagerait à se détourner, si ce n'était ruiner le mouvement qui l'y a conduit, signer son échec avant même d'avoir échoué. Il lui faut donc aller son chemin jusqu'aux bornes extrêmes de l'endurance, dût-il se déchirer cruellement aux épines, traverser en suffoquant tous les feux de l'enfer pour ne déclarer forfait qu'à la veille d'en toucher le terme qui sera le moment de mourir comme chacun sans avoir établi sa preuve.
(...)
Quiconque refuse le fait accompli entre en hostilité avec lui-même et, livré sans rémission à tous les raffinements de la conscience et de son malheur, ne retrouvera jamais le repos, à moins de tabler par un lâche calcul sur les effets thérapeutiques du temps pour empêcher qu'elle le commande et le détruise, mais même si le besoin de souffler un peu devait un jour y conduire, comment vouloir d'un tel repos qui aurait le sens d'une trahison ?
Mieux vaut ne pas guérir si c'est pour rentrer sagement dans la vie et ses devoirs où, toute vision disparue, il n'y aurait d'autre lien entre eux que la distance infranchissable qui les sépare, d'autres recours contre les larmes qu'une volonté de désaffection, un sombre renoncement, la soumission aux réalités contraignantes dont l'esprit profondément atteint s'était détourné, opposant au monde étroit de la raison sa douleur infinie.

OSTINATO

É também porque a busca escrupulosa pela verdade, a pretensão absurda de dizer tudo, são exigências às quais submeter-se equivaleria a confinar-se aos limites de um projeto e, ao mesmo tempo, em nome da probidade, perder aquilo que somente as forças do acaso, constantemente postas em jogo pela linguagem e por ela condicionadas, designam no ponto mais remoto como o centro ativo, a substância subterrânea da qual o ser se alimenta, independentemente da perda de intensidade decorrente de uma representação aproximada que, ligada à duração mutável de uma vida, deve variar suas repetições e confiar, para cada uma delas, nas oportunidades do acaso, fora de qualquer sujeição a uma ordem preestabelecida ou conformidade respeitosa à realidade dos fatos por trás dos quais, como brasas sob as cinzas, jaz oculto o que as palavras têm a missão de reanimar.

(...) Tudo, sem embargo, o levaria a se afastar desse caos desolador, se não fosse porque significaria arruinar o próprio movimento que o levou até ali, para selar sua derrota antes mesmo de fracassar. Tem, portanto, de seguir seu caminho até os limites extremos da resistência, mesmo que isso signifique ser cruelmente dilacerado pelos espinhos, sufocado por todos os fogos do inferno, justo render-se na véspera de alcançar sua meta, que será o momento de morrer como todos os outros, sem ter se provado.

(...) Qualquer um que rejeita o fato consumado entra em hostilidade consigo mesmo e, submetido sem remissão a todos os requintes da consciência e de sua desgraça, nunca voltará a encontrar a paz, a não ser que confie, mediante um cálculo covarde, nos efeitos terapêuticos do tempo para impedir que a consciência o domine e o destrua. Porém, mesmo que a necessidade de um pouco de respiro o levasse um dia a isso, como aceitar esta trégua, que seria sinônimo de traição?

Mais vale não se curar se for para voltar docilmente à vida e aos seus deveres onde, daí desaparece toda visão, não haveria entre eles outra relação que a distância intransponível que os separa, nem outro recurso contra as lágrimas que uma voluntária indiferença, uma escura renúncia, a submissão às realidades inflexíveis das quais a mente profundamente afetada havia se afastado, opondo ao mundo estreito da razão sua dor infinita.

Ilustração: Treccani. 



Friday, April 03, 2026

Desilusão


Tantas coisas nunca tem explicações.. 
Como as palavras que quis me dizer. E as desculpas, que não me deram as noções da imensa falta que sentiria de você. Não há palavras que anestesiem os sentimentos, Se, depois de tanto amor, se perde toda a alegria. E impera a tristeza no cotidiano, no dia a dia, quando o sofrer nos ensina a dor dos lamentos.
Ilustração: Di Ferreros- Som da Desilusão Lirics.

Um poema de Elaine Vilar Madruga

 


Anestesia

Elaine Vilar Madruga

la poesía nada me ofrece
salvo el silencio
en el cielo de la boca
en la estría de la boca
nada me quita o me suma.

ANESTESIA

A poesia nada me oferece

salvo o silêncio

no céu da boca

no sulco da boca

nada me apaga ou me soma.

Ilustração: Portal SPR Notícias. 




Outra poesia de Matt Mason

 

THE START

Matt Mason

It probably started
in a whisper, a murmur,
a low tone hardly caught by the papers,
a sticker, a poster,
a brick wall with slogans in fresh, black paint
because
it probably started with a shove,
some bluster, a gunshot,
crushed fingers, it probably started
with a speech that caught the right ears
on an otherwise happy day,
yellow flowers in a wooden stand on the sidewalk,
red apples, radio
trying hard to smooth out the mood,
kid hurrying past, thinking,
God, he’s shouting
about me,
pulls his hat low,
it probably started
with another man
drunk on swagger,
it probably started
with a small crowd
coaxing exciting lies,
it probably started
with a neighborhood’s head bowed
as the drone grows each day
(though they’ll claim
it came
in a quick, monstrous surprise).

O COMEÇO

É provável que começou

com um sussurro, um murmúrio,

um tom baixo mal captado pelos jornais,

um adesivo, um cartaz,

uma parede de tijolos com novos slogans pintados de preto

porque

é provável que começou com um empurrão,

alguma fanfarronice, um tiro,

dedos esmagados, é provável que começou

com um discurso que chamou a atenção das pessoas certas

num dia feliz,

flores amarelas num suporte de madeira na calçada,

maçãs vermelhas, o rádio

tentando amenizar o clima,

uma criança correndo apressada, pensando:

Meu Deus, ele está gritando

sobre mim,

abaixa o chapéu,

é provável que começou

com outro homem

embriagado de arrogância,

provavelmente começou

com uma pequena multidão

incentivando mentiras empolgantes,

é provável que começou

com um bairro de cabeça baixa

enquanto o zumbido cresce a cada dia

(penso que eles aleguem

que veio

com uma veloz e monstruosa surpresa).

Ilustração: NeoFed.

 


Thursday, April 02, 2026

Embriagar-se mais ainda

 


ENTRE O SUSPIRO E O EXCESSO DE VIDA

Silvio Persivo

Se acaso, após o último suspiro,
Constatarem, frios, que não mais respiro,
E um deus qualquer- ou gênio de lâmpada acesa-
Por caridade me conceda tal gentileza,

Não hesitarei, sem sombra ou maldade:

Pedirei de volta a minha vontade-
Que me ressuscite, ainda incompleto,
Pois há vida em mim que não coube no decreto.
 

Faltarão aos desejos seus últimos goles,
As promessas não ditas, os íntimos ardores,
O que ainda me cabe provar neste caminho,
Antes que se esgote o derradeiro vinho.
 

Quero mais taças erguidas ao acaso,
Mais risos que transbordem do raso,
Embriagar-me nas tulipas douradas,
Onde as horas se perdem desvairadas.
 

E que digam, ao ver-me nesse turbilhão:

-Este viveu sem medo da exaustão,
Pois fez da vida excesso e intensidade,
E no beijo e no vinho achou a eternidade.

Ilustração: Cultura de Fato. 


Um poema de Lynne Thompson

 


                            CANTICLE AT TWILIGHT

Lynne Thompson

Floating like a feather
like a single grain in the sea
grateful despite being alive

craving grace as I crave evening
cradling rage as I cradle no vicar
I think I might just be a clock

& juju power in a terrible century
a needle & the way to plunge it in
dancing through a meadow away

*

floating like singular rage
unlike twenty sheaves of feathers
like a vicar alive & dancing anyway

craving this terrible century
and every clock cradled in the sea
I think I’ll always be the needle

grateful for my grain & juju power
and all the ways to plunge into it
in this meadow just for an Evening

CÂNTICO AO CREPÚSCULO

Flutuando como uma pena

como um único grão no mar

grato apesar de estar vivo

 

ansioso pela graça como anseio pelo entardecer

acolhendo a raiva como não acolho nenhum vigário

eu penso que eu posso ser apenas um relógio

 

& poder mágico em um século terrível

uma agulha e o caminho de mergulhá-la

dançando por uma planície distante

 *

flutuando como uma singular raiva

diferente de vinte feixes de penas

como um vigário vivo & dançando de algum jeito

 

ansioso por este terrível século

e cada relógio acolhido no mar

eu penso que eu sempre serei a agulha

 

grato pelo meu grão & poder mágico

e todas as maneiras de mergulhá-lo

nesta planície justo por uma noite

Ilustração: Paixão por Livros.

 

 


Elegía de Raúl Quinto

 



                                                              ELEGÍA

                                                 Raúl Quinto

                                           No digas piedra, di ventana

                                               Eugenio de Andrade

No dirijas tu voz a la quietud del muro,

en el aire persisten

las vendas en los ojos

del maniatado contra el musgo,

el vaho de los fusiles

como una enredadera

de nieve estrangulando la mañana,

el horizonte roto

por la estampida de los pájaros,

y ningún grito,

ninguna historia sino el miedo.

 

Frente a la desnudez del paredón

no digas piedra, di ventana

como quien dice herida

y abre los ojos al sonido,

 

como quien rompe un cristal

entre los dedos para ver la sangre

recorriendo las líneas de la mano

y encuentra la respuesta

al óxido, el pulso enfebrecido

de las tinieblas;

di la pólvora

y ciérrale los párpados

a la literatura.

(de La flor de la tortura, 2008)

 

ELEGIA

 

                                                        Não diga pedra, diga janela

                                                           Eugenio de Andrade

                                                                                                                              

Não dirija sua voz à quietude do muro,

no ar persistem

as vendas

dos olhos do homem amarrado contra o musgo,

o vapor dos rifles

como uma trepadeira

de neve estrangulando a manhã,

o horizonte estilhaçado

pela debandada de pássaros,

e nenhum grito,

nenhuma história além do medo.

 

Diante da nudez da parede

não diga pedra, diga janela

como quem diz ferida

e abre os olhos ao som,

 

como quem rompe um cristal

entre os dedos para ver o sangue

correndo pelas linhas da mão

e encontra a resposta

para a ferrugem, o pulso febril

da escuridão;

diz a pólvora

e fecha as pálpebras

da literatura.

(de A Flor da Tortura, 2008)

Ilustração: Definición.de.