Wednesday, November 04, 2026

Outra poesia de Franco Fortini

 


SONO NELLA STANZA…

Franco Fortini

Sono nella stanza dove tutto è ordinato

dove tutto è settembre.

Sul davanzale si agitano, avvisate

dei mutamenti celesti, le formiche.

Nessuna melodia nasconda qui

una severità modesta

la sola che non disconviene.


Assonanze! Le vostre ragioni

quando la notte è senza movimento

dal fondo dei legni le odo.

Ma il tarlo che rodeva non c’è più

ma immaginari i cigolii.

Voi nei sistemi strani che le disperazioni

levano dentro il fondo arduo del mondo

e ora nella stanza calma

dell’antenato che sono o divengo


immobili indifesi

ragni esili pendete.

ESTOU NO QUARTO…

Estou no quarto onde tudo está em ordem

onde tudo é setembro.


No parapeito da janela, as formigas se agitam, atentas

às mudanças celestiais.

Que nenhuma melodia aqui oculte

uma modesta severidade

a única que não é inadequada.


Assonâncias! Suas razões

quando a noite está sem movimento

eu as ouço das profundezas da floresta.

Mas o cupim que roía não está mais lá

mas o rangido é imaginário.

Você, nos estranhos sistemas que o desespero

ergue nas profundezas árduas do mundo

e agora no quarto calmo

do ancestral que sou ou me torno


imóvel, indefeso

você pende como aranhas esguias.

Ilustração: Hoteis.com. 


Thoughts In Solitude de Thomas Merton

 

THOUGHTS IN SOLITUDE

Thomas Merton

MY LORD GOD, I have no idea where I am going. I do not see the road ahead of me. I cannot know for certain where it will end. Nor do I really know myself, and the fact that I think that I am following your will does not mean that I am actually doing so. But I believe that the desire to please you does in fact please you. And I hope I have that desire in all that I am doing. I hope that I will never do anything apart from that desire. And I know that if I do this you will lead me by the right road though I may know nothing about it. Therefore will I trust you always though I may seem to be lost and in the shadow of death. I will not fear, for you are ever with me, and you will never leave me to face my perils alone.

PENSAMENTOS NA SOLIDÃO

Meu Senhor Deus, eu não faço ideia de para onde estou indo. Eu não vejo a estrada adiante de mim. Eu não posso saber, com certeza, será o seu fim. Nem conheço a mim mesmo de verdade; e o fato de eu pensar que estou seguindo a Tua vontade não significa que, de fato, a esteja seguindo. Porém acredito que o desejo de Te agradar, por si só, Te agrada. E eu espero ter este desejo em tudo o que estou  fazendo. Eu espero nunca fazer nada que se aparte desse desejo. E eu sei que, se eu agir assim, Tu me conduzirás pelo estrada certa, ainda que eu nada saiba a respeito dela. Por isto, eu confiarei sempre em Ti, mesmo que eu pareça estar perdido e na sombra da morte. Eu não terei medo, pois estás sempre comigo, e jamais me deixarás em frente aos meus perigos sozinho.

Ilustração: Psicólogos Berrini. 


Tuesday, November 03, 2026

Georges Schehadé, pois

 

SI TU RENCONTRES UM RAMIER....

Georges Schehadé
Si tu rencontres un ramier
dans un bois si jeune par la vie de sa neige
Quand les yeux veulent dire nœuds du soir
Fais un repos de tout ce qui est à lui
L'âge de la forêt mon amour est un songe

SE ENCONTRARES UM POMBO-TORCAZ...

Se encontrares um pombo-torcaz

numa mata tão jovem pela vida de sua neve

Quando os olhos querem expressar os nós do anoitecer

Há um repouso de tudo o que é seu

A idade da floresta, meu amor, é um sonho.

Ilustração: Wilder. 

Nadie Le Empuja de Josefina Plá

 


NADIE LE EMPUJA

Josefina Plá

Nadie le empuja  Nadie lo retiene
nadie le advierte nadie le cede el paso ni le espera

Indiferentes
le ven pasar con su sentencia
oculta como un zorro robado en la cintura
royéndole hasta el hueco de los dientes

Nadie le impide el paso ni le espera
porque todos quisieran ser los últimos.

Nadie le toca. Nadie
le empuja. Llega solo
llenándose sin nadie del silencio
de todos los que llegaron antes
tapiándose de nombres olvidados
y de palabras sin respuesta

Llega solo
nadie le empuja nadie le retiene
porque todos quisieran ser los últimos

NINGUÉM O EMPURRA

Ninguém o empurra, ninguém o retém;

ninguém o adverte, ninguém lhe cede passagem nem o espera.

 

Indiferentes,

veem-no passar com sua sentença

oculta na cintura como uma raposa roubada,

roendo-lhe até o vão dos dentes.

 

Ninguém lhe barra o caminho nem o espera,

porque todos gostariam de ser os últimos.

 

Ninguém o toca. Ninguém

o empurra. Chega sozinho,

enchendo-se-sem ninguém- do silêncio

de todos os que chegaram antes,

cercando-se de nomes esquecidos

e de palavras sem resposta.

 

Chega sozinho;

ninguém o empurra, ninguém o retém,

porque todos gostariam de ser os últimos.

Ilustração: Dramstime.


Monday, November 02, 2026

PECES de Iván Carvajal

 


PECES

Iván Carvajal

Bosteza
y por el vidrio
asciende
un globo de tiniebla

 

áureo la sombra esquiva
capta la piel el rayo
y va a esconderse

 

el otro es el sinuoso
golpetea a su diestra
sacudiendo la orilla

 

mordisquea la hilatura
vegetal el pez plata
y despeña su albergue

 

se niegan mas se abrazan
uno trama la noche
otro trae la aurora

 

si con uno vienen mareas
el otro expande el silencio
uno en claro y otro en sombra.

PEIXES

Boceja

e pelo vidro

ascende

um globo de treva

 

áurea, a sombra esquiva

a pele capta o raio

e vai se esconder

 

o outro é o sinuoso

golpeia à sua direita

sacudindo a margem

 

mordisca a trama

vegetal o peixe-prata

e precipita seu abrigo

 

recusam-se, mas se abraçam

uma trama a noite

o outro traz a aurora

 

se com um vêm marés

o outro expande o silêncio

um na luz e o outro na sombra.

Ilustração: Aquário Vivo.


PECES de Baldomero Fernández Moreno

 

                                                PECES

Baldomero Fernández Moreno

Bosteza y por el vidrio asciende
un globo de tiniebla.
Unas ascuas de oro que se agitan,
una cinta de plata que ondea.
El agua está dormida,
la tarde está muerta.

PEIXES

Boceja e, pelo vidro, ascende

um globo de treva.

Umas brasas de ouro que se agitam,

uma fita de prata que ondeia.

A água está dormida,

a tarde está morta.

Ilustração: Petz. 



Retórica Mais Que Sentimental ou RHETORIC BEYOND THE SENTIMENTAL or "Nothing for Even an Indian to Find Fault With"

 


RETÓRICA MAIS QUE SENTIMENTAL

ou "Para Índio Nenhum Botar Defeito"

Silvio Persivo

Num lugar incomum, o Brasil,

Sou mais um índio pueril

Em busca do futuro que sumiu

Com um resto da esperança que ruiu

Em algum outubro passado

Onde Macunaímas emocionados

Batiam seus tambores desconexos

Diante do milagre ante um mundo perplexo.

 

Nada demais para a pátria das jabuticabas.
Símbolo maior das infantilidades nossas,

Apenas mais um dia na pátria bananeira

No eterno festival de besteiras.

O tempo, porém, não para de passar

E um dia a história há de contar

Os fatos reais de mais uma lambança

Nos tristes trópicos onde a imoralidade dança,

A falta de escrúpulos feliz sapateia

E a mentira vira narrativa e teia.  

Enquanto a juriti canta pu-pu

Está na sua hora de ir.

RHETORIC BEYOND THE SENTIMENTAL

or "Nothing for Even an Indian to Find Fault With"

In an unusual place-Brazil-

I am but another naive native,

Searching for a future that has vanished,

Along with the last remnants of hope that crumbled

Back in some October long ago,

When emotional “Macunaímas”-

Figures of chaotic, shapeless myth-

Beat their disjointed drums

Before a miracle, leaving the world perplexed.

 

Nothing out of the ordinary for the "land of the “jabuticaba"-

That ultimate symbol of our own childishness.

Just another day in this "banana republic,"

Caught in an eternal festival of nonsense.

Yet, time keeps marching on,

And one day, history will surely recount

The true events of yet another colossal blunder

In these sad tropics, where immorality dances,

Where a total lack of scruples gleefully taps its feet,

And lies are spun into narratives-a tangled web.

As the “juriti” dove sings its mournful “pu-pu”,

It is time for you to go.

Ilustração: Desenredos. 

 

Sunday, November 01, 2026

Eis Silvia Guerra

 

CLOTO

Silvia Guerra

Afuera, en el cóncavo espejo que es Ahora
un fino entretejido se suspende: alguien
habla de dos, otros de cifras que son inmensas cantidades.
La ascendencia se pierde en estratos
que no tienen demasiada importancia.
Se nombran los caminos los pazos los pequeños jilgueros.
Se camina sonriendo por la empinada cuesta
con las botas sucias del barro del camino.
Se llenan los carrillos los rojos los sonrientes
de un aire
que ahí arriba se dice que es purísimo.
Y se habla de la guerra. Del color de la guerra.
Y aparecen los muertos, en fila, con el plato vacío
me preguntan algo que no entiendo, no entiendo qué me dicen
no entiendo qué hago ahí, por qué me siguen.
Y yo no sé qué hacer, y ellos tampoco.

CLOTO

Lá fora, no espelho côncavo que é o Agora

suspende-se um fino entrelaçado: alguém

fala de dois, outros de cifras que são quantidades imensas.

A ascendência perde-se em estratos

que não têm muita importância.

Nomeiam-se os caminhos, os solares, os pequenos pintassilgos.

Caminha-se sorrindo pela ladeira íngreme

com as botas sujas da lama do caminho.

Enchem-se as bochechas- vermelhas, sorridentes-

de um ar

que, lá no alto, dizem ser puríssimo.

E fala-se da guerra. Da cor da guerra.

E surgem os mortos, em fila, com o prato vazio;

perguntam-me algo que não entendo, não entendo o que me dizem,

não entendo o que faço ali, por que me seguem.

E eu não sei o que fazer, e eles também não.


Saturday, October 31, 2026

Yes, Alexander Posey

 


A VISION OF REST

Alexander Posey

    Some day this quest

       Shall cease;

          Some day,

          For aye,

    This heart shall rest

      In peace.

Sometimes—ofttimes—I almost feel

The calm upon my senses steal,

So soft, and all but hear

The dead leaves rustle near

And sign to be

At rest with me.

Though I behold

  The ashen branches tossing to and fro,

  Somehow I only vaguely know

The wind is rude and cold.

UMA VISÃO DE DESCANSO

     Algum dia esta busca

        Irá cessar;

           Algum dia,

           Pois sim,

     Este coração descansará

       Em paz.

Às vezes, muitas vezes, quase sinto

A calma rouba meus sentidos,

Tão suave, e quase ouvir

As folhas mortas farfalham perto

E sinal para ser

Descanse comigo.

Embora eu veja

   Os galhos cinzentos balançando de um lado para outro,

   De alguma forma eu só sei vagamente

O vento é forte e frio.

Ilustração: Tua Saúde.


Friday, October 30, 2026

Novamente Dario Jaramillo Aguedelo

 


 

SÓLO EL AZAR, 10

 Dario Jaramillo Aguedelo

Sólo el azar me dio la piel que amé
y sólo el azar -o el cansancio-
extinguió el fuego.
Lo que siguió no fue el azar,
es lo que sigue siempre,
la lenta pesadilla del olvido
y luego cierto desprecio
por ese que fui yo y que amaba
y también por el que soy ahora
el mismo que no sabe por qué amó.
Sólo la carne se equivoca.

SÓ O ACASO, 10

Só o acaso me deu a pele que amei

e só o acaso - ou o cansaço-

extinguiu o fogo.

O que se seguiu não foi o acaso,

é o que segue sempre:

o lento pesadelo do esquecimento

e, depois, um certo desprezo

por esse que fui e que amava,

e também por aquele que sou agora-

o mesmo que não sabe por que amou.

Só a carne se equivoca.

Ilustração: Monergismo. 


Um poema de D.A. Powell

                         


                         THE MIRACLE OF GIVING

D. A. Powell

Twice Christ took the bread apart

with his human hands that he used for

such tasks, once with fish and once with wine,

the grain a pattern of tribute, distribute,

as he worked the division of himself into

feeding others with his body, taken but not taken,

there but not there, it was two times

two times two. Ever body got some body

who will feed them even when there seem hardly

enough to go round. When I hungered the word

fed me. Even so, so many others hungered

he needed a hundred more human hands.

That was when I said here take mine.

O MILAGRE DE DOAR

Duas vezes Cristo pegou o pão partindo-o

com suas mãos humanas que usava para

tais tarefas, uma vez com peixe e outra com vinho,

o grão um padrão de homenagem, distribuiu,

enquanto trabalhava na divisão dele mesmo em

alimentando outros com seu corpo, tomado, porém não tomado,

lá, mas não lá, foram duas vezes

duas vezes dois. Sempre o corpo tem algum corpo

quem irá alimentá-los mesmo quando parecer difícil

o suficiente para dar uma volta. Quando eu tive fome da palavra

me alimentou. Mesmo assim, tantos outros passaram fome

ele necessitava de mais cem mãos humanas.

Foi quando eu disse aqui toma a minha.

Ilustração: Simplesmente Cristão. 



Como Te Amei (How I Loved You)


COMO TE AMEI

Silvio Persivo

Te amei com as palavras

e, mudo, amei mais ainda 

com meu assustado coração.

 

Te amei com os olhos claros

e com os olhos cheio de ilusão

e a boca com sede de beijos.

 

Te amei com a pele quente

com as pernas, os braços, os pés

e todos os gritos de paixão.

 

Te amei com os afagos das mãos,

que, agora, te dizem adeus

e te procuram em vão.

 

Te amei como um sedento

procurando água no deserto

ignorante de ter oásis perto.

 

Te amei oh! que loucura

como se neste mundo

só houvesse tu, criatura.

HOW I LOVED YOU

I loved you with words,

and, in silence, I loved you even more

with my startled heart.

 

I loved you with clear eyes,

with eyes full of dreams,

and a mouth thirsting for kisses.

 

I loved you with warm skin-

with my legs, my arms, my feet-

and every cry of passion.

 

I loved you with the caress of my hands,

which now bid you farewell

and search for you in vain.

 

I loved you like one who is thirsty,

seeking water in the desert,

unaware that an oasis lies nearby.

 

I loved you-oh, what madness!-

as if, in this entire world,

there were only you, my dear.

Ilustração: Mensagens com Amor.


Wednesday, October 28, 2026

The Message To The Fish of Lewis Carroll

 


THE MESSAGE TO THE FISH

Lewis Carroll

In winter, when the fields are white,
I sing this song for your delight-

In spring, when woods are getting green,
I’ll try and tell you what I mean.

In summer, when the days are long,
Perhaps you’ll understand the song:

In autumn, when the leaves are brown,
Take pen and ink, and write it down.

A MENSAGEM DOS PEIXES

No inverno, quando os campos estão brancos,

Eu canto esta canção para o seu deleite-

 

Na primavera, quando os bosques estão verdes,

Eu tentarei explicar o que quero dizer.

 

No verão, quando os dias estão longos,

Talvez você irá compreender a canção:

 

No outono, quando as folhas estão marrons,

Pegue papel e tinta, e, então, anote.

Ilustração: Instagram.


Dario Jaramillo Aguedelo de retorno

 


SÓLO EL AZAR, 11

Dario Jaramillo Aguedelo

Blando mineral sobre la caña,

grafito que se desmorona

encima de una lámina de pulpa

y deja unos silencios clamorosos

en sus ansias de ser labios.

SÓ O ACASO, 11

Mineral macio sobre a cana,

grafite que se desmorona

sobre uma lâmina de polpa

e deixa uns silêncios clamorosos

nas suas ânsias de ser lábios.

Ilustração: Terra de Cultivo. 

Collective Unconscious

 

Silvio Persivo

Sinta que há um pulsar

no silêncio que nos cerca,

na quietude do céu,

no ar onde se irradiam

luzes, cores, ondas, partículas

de tudo que faz parte da unidade

que não existe

e procura o equilíbrio.

 

Há uma diversidade.

em cada forma e modo de ser

um ritmo e uma melodia,

um inconsciente coletivo

que, por algum motivo,

dança nos sonhos, nas imagens,

nas memórias.

E, vez por outra, desagua

nas ideias comuns

de mentes diferentes.

 

Sense that there is a pulse

in the silence that surrounds us,

in the stillness of the sky,

in the air where lights, colors,

waves, and particles radiate-

all of it part of a unity

that does not exist,

yet seeks balance.

 

There is a diversity;

in every form and way of being,

a rhythm and a melody,

a collective unconscious

that, for some reason,

dances within dreams, images,

and memories.

And, from time to time, it flows

into the shared ideas

of different minds.