Saturday, August 08, 2026

LXXII

 


LXXII

Silvio Persivo

De tanto amor que amei não sou culpado.

É que o amor em mim, como um escrito,

foi marcado para ser feito o infinito

um traçado do destino já marcado.

 

Fui tão pródigo de amor e inebriado

enveredei por este caminho tão bonito

de viver a amar como único fito

sem perceber o custo tão demasiado.

 

E tanto amor distribui sem que soubesse

que comigo mesmo era desumano:

que um dia faltaria, se muito o desse.

 

E só muito tarde percebi o meu engano.

Amor somente se dá para quem merece

ou se recebe em troca apenas dano.

LXXII

I'm not guilty of so much love that I loved.

Is that the love in me, like a writing,

was marked to be done infinity

a route of the destination already marked.

 

I was so lavish with love and intoxicated

I took this beautiful path

from living to loving as the only purpose

without realizing the cost so too much.

 

And so much love distributes without knowing

that with myself was inhuman:

that one day would be lacking, if much were to be given.

 

Outra poesia deJüri Talvet

 


A UN ESCRITOR NATURALISTA

Jüri Talvet

Te mando un montón de ropa vieja
para que les pongas calcetines, pantalones
y un abrigo ligero, por lo menos,
a tus personajes que, como dices,
han sido tomados de la vida misma.
(Quien haya sido tomado de la tierra, ese…)
Quien haya sido tomado de la vida, volverá
a la vida. Pero ya que los pintas desnudos
acuérdate que en la calle, mientras tanto,
ha empezado el invierno.

A UM ESCRITOR NATURALISTA

Te mando um monte de roupas velhas

para que lhes ponha meias, calças,

e um casaco leve, pelo menos

a teus personagens, que como dizes

foram tomados da vida mesma.

(Quem havia sido tomado da terra, esse...)

Quem havia sido tomado da vida voltará

à vida. Porém, já que os pinta nus,

acorda-te que na rua, enquanto isto, na rua,

o inverno já começou.

Ilustração: Tempo.pt.


Friday, August 07, 2026

IV QUARANTINE por Eavan Boland

 

                                  IV QUARANTINE

Eavan Boland

In the worst hour of the worst season
of the worst year of a whole people
a man set out from the workhouse with his wife.
He was walking – they were both walking – north.
She was sick with famine fever and could not keep up.
He lifted her and put her on his back.
He walked like that west and west and north.
Until at nightfall under freezing stars they arrived.
In the morning they were both found dead.
Of cold. Of hunger. Of the toxins of a whole history.
But her feet were held against his breastbone.
The last heat of his flesh was his last gift to her.
Let no love poem ever come to this threshold.
There is no place here for the inexact
praise of the easy graces and sensuality of the body.
There is only time for this merciless inventory:
Their death together in the winter of 1847.
Also what they suffered. How they lived.
And what there is between a man and woman.
And in which darkness it can best be proved.

IV QUARENTENA

Na pior hora da pior estação

do pior ano de todo um povo

um homem saiu do asilo com sua esposa.

Ele caminhava- ambos caminhavam-para o norte.

Ela estava doente com febre da fome e não conseguia acompanhá-lo.

Ele a carregou e a colocou nas costas.

Ele caminhou assim para oeste, do oeste ao norte.

Até que, ao cair da noite, sob estrelas congelantes, eles chegaram.

NA manhã, ambos foram encontrados mortos.

De frio. De fome. Das toxinas de toda uma história.

Porém os pés dela estavam encostados em seu peito.

O último calor de sua carne foi seu último presente para ela.

Que nenhum poema de amor jamais chegue a este limiar.

Não há lugar aqui para o elogio impreciso

das graças fáceis e da sensualidade do corpo.

Há tempo apenas para este inventário impiedoso:

A morte deles juntos no inverno de 1847.

Também o que sofreram. Como viveram.

E o que existe entre um homem e uma mulher.

E em qual escuridão isto pode ser melhor comprovado.

Ilustração: Estado de Minas.




Um poema de Patricio Foglia

 


creo en dios
padre todopoderoso

(creador del cielo
& de la tierra)

Patricio Foglia

yo sí creo en dios
en un dios pero chúcaro

medio bravo tipo zeus
antiguo testamento style

dios chasqueó su látigo sobre mí
y yo puse en la consola

cada uno de sus hechos
mezclé copié & pegué

y así fue como hice
que su música retumbe

CREIO EM DEUS

PAI TODO PODEROSO

(CRIADOR DO CÉU

& DA TERRA)

Eu sim creio em Deus

em um deus, mas um deus selvagem

meio feroz, como Zeus

no estilo do Antigo Testamento

Deus que me chicoteou

e eu coloquei no console

cada um de seus feitos

mesclei, copiei e colei

e assim foi como fiz

para sua música retumbar

Ilustração: Opus Dei.

 

Thursday, August 06, 2026

The Last Call de Andrw Motion

 

 

THE LAST CALL 

Andrew Motion

Death called me,
I did not hear.
He spoke again:
Come near.

I went to look
for pity.
Poor death, I thought,
he loves me.

I guessed right,
he does.
And now I love him too,
just because.

O ÚLTIMO CHAMADO

A Morte me chamou,

eu não ouvi.

Ela falou de novo:

Aproxime-se.

 

Fui em busca

de pena.

Pobre Morte, pensei,

ela me ama.

 

Eu estava certo:

ela ama mesmo.

E agora eu a amo também,

simplesmente porque sim.

Ilustração: Dreamtime





Wednesday, August 05, 2026

Uma poesia de Jüri Talvet

 


Jüri Talvet

El amor
es mandamiento, así pensaba
Kierkegaard. Mejor será
-pienso yo- amar, sin hacer
caso de ese mandamiento.
Reconociéndose
el alma con el alma,
respondiendo
la sangre a la sangre,
sin saber, en pleno
vuelo-hacia arriba
o hacia abajo-,
cuál habrá de ser
el lugar de destino.

O amor

é um mandamento, assim pensava

Kierkegaard. Melhor será

-penso eu-amar, sem fazer

caso desse mandamento.

Reconhecendo-se

a alma com a alma,

respondendo

o sangue com o sangue,

sem saber, em pleno

voo-para cima

ou para baixo-,

qual haverá de ser

o lugar de destino.

Ilustração; Blog Instaviagem.


Um poema de Gerard Manley Hopkins

 

                                  HEAVEN HAVEN

Gerard Manley Hopkins

I HAVE desired to go 
      Where springs not fail, 
To fields where flies no sharp and sided hail 
    And a few lilies blow. 
 
    And I have asked to be         
      Where no storms come, 
Where the green swell is in the havens dumb, 
    And out of the swing of the sea. 

ABRIGO DO CÉU

Desejei ir

Onde as fontes não secam,

A campos onde não cai o granizo cortante

E onde florescem alguns lírios.

 

E pedi para estar

Onde não chegam tempestades,

Onde a vaga verde repousa em portos silenciosos,

Fora do balanço do mar.

Ilustração: Magnific. 



Momento, Momento (Moment, Moment)

 


MOMENTO, MOMENTO

Silvio Persivo

Não há muito tempo mais.

Ainda assim me perco em coisas banais,

Em ações e movimentos sem lógica e sem explicação.

Agarro tua mão,

Embora sabendo que este carinho todo, em breve,

Será tido apenas como dissimulação,

Como parte de uma falsidade que não há.

Todo amor, no entanto, por mais forte

E doce que seja,

É uma luta contra o egoísmo e a natureza.

Uma tentativa de unir

O que sempre esteve separado.

Não, não digo nada.

Não diga nada.

Deita do meu lado e sente este momento.

É tudo que temos

E nunca se pode saber

Se não é tudo que teremos

MOMENT, MOMENT

There isn't much time left.

I still get lost in banal things,

In actions and movements without logic and without explanation.

I grab your hand,

Although knowing that all this affection, soon,

It will only be taken as a dissimulation,

As part of a falsehood that does not exist.

All love, however, however strong

And sweet as it is,

It is a fight against selfishness and nature.

An attempt to unite

What has always been separate.

No, I don't say anything.

Do not say anything.

Lie beside me and feel this moment.

It's all we have

And you can never know

If it's not all we'll have.

Ilustrtação: Magnific. 

 

Tuesday, August 04, 2026

O Cavaleiro da Triste Figura

 


                     Soneto do Cavaleiro da Triste Figura

Silvio Persivo

O nobre cavaleiro, de alma verdadeira,

Que a sua donzela defende com valor,

Zela pelo dever de qualquer maneira,

E cumpre o seu juramento com louvor.

 

Em nada o desonra seu sonho irreal,

Nem os combates com moinhos de vento,

Pois o que o sustenta é o grande ideal,

Que habita sólido no seu pensamento.

 

Herói esquálido, de visão cansada,

Com gordo escudeiro, realista e fiel,

Que o avisa contra a quimera alimentada,

 

Pensando que o vão combate é algo cruel.

Porém não percebe, na sua cega sorte,

Que o amo faz história e supera a própria morte.

Ilustraçâo: Portal Lunetas.


"Quijote" de Maria Cristina Orantes

 


QUIJOTE

María Cristina Orantes

Pincelada que baja desde el cielo
a repartir un bien incomprensible,
larga y triste figura
que quiere llevar miel entre las manos;
rayo de sol que besa los labios de la amada,
una amada que a los ojos del mundo
está desvanecida.
Hebra ambulante
intentando quebrar una muralla.
Insomne velador de armas durmientes,
con una lanza al hombro

QUIXOTE

Uma pincelada que desce do céu

a repartir um bem incompreensível,

uma figura longa e triste

que deseja levar mel entre as mãos;

um raio de sol que beija os lábios da amada,

uma amada que, aos olhos do mundo,

está desaparecida.

Um fio ambulante

tentando quebrar uma muralha.

Um insone vigia de armas adormecidas,

com uma lança no ombro.

Ilustração: wikiquote. 




Sunday, August 02, 2026

A BOY FROM CEARÁ- Uma poesia com ajuda da IA

 


UM MENINO DO CEARÁ

Silvio Persivo

Eu era um menino que cabia numa rua. A Rocha Lima, em Fortaleza-o mundo começava depois da esquina e ia até o céu se alongando no mar.

Li Nietzsche antes de saber amarrar os sapatos. Machado me ensinou que as palavras têm espinhos. Os russos me mostraram que a neve também dói. E Balzac que me ensinou que o mundo é uma Comédia Humana. 

O rádio da naquele tempo era um oráculo de voz. Dentro dele moravam vozes que falavam mais alto que o silêncio do sertão.

O cinema era no domingo. A música de todos os dias. E eu -eu era um menino que colecionava ausências como quem coleciona figurinhas.

Hoje, cinquenta anos depois, pergunto: o que sobrou daquele menino? Respondo: sobrou o Ceará. O resto foi travessia.

A BOY FROM CEARÁ

I was a boy who fit within the confines of a single street: Rocha Lima, in Fortaleza—where the world began just around the corner and stretched all the way to the sky, extending into the sea.

I read Nietzsche before I knew how to tie my shoelaces. Machado taught me that words have thorns. The Russians showed me that snow can hurt, too. And Balzac taught me that the world is a *Human Comedy*.

Back then, the radio was an oracle of voices. Inside it lived voices that spoke louder than the silence of the *sertão*.

The movies were for Sundays. Music was for every day. And I—I was a boy who collected absences the way others collect trading cards.

Today, fifty years later, I ask myself: what remains of that boy? My answer: Ceará remains. The rest was merely the journey.

Uma poesia de Dante Maffia

 


DALL'ALTRA RIVA
Dante Maffia
Non volevo morire soffocata
dai calcinacci, gli occhi
sfondati dalle pietre all'improvviso
diventate nemiche. Avanzavo ancora
infinite carezze da lui, e con il sole
c'era un patto segreto
come tra api e fiori.
Non riesco a sentire la voce di mia madre,
anche se sento le sue mani accanto.
Un vento viscido mi attraversa il corpo,
San Pietro litiga con qualcuno,
meno male.

DO OUTRO LADO

Eu não desejo morrer sufocada

pelos escombros, meus olhos

quebrados pelas pedras que de improviso se tornaram

inimigas. Apesar disto, eu avançava

para carícias infinitas dele, e com o sol

havia um pacto secreto

como entre abelhas e flores.

Não consigo ouvir a voz da minha mãe,

embora sinta suas mãos ao meu lado.

Um vento viscoso me atravessa o corpo,

São Pedro está discutindo com alguém,

menos mal.

Ilustração: Jornal Contato.


Uma poesia de Kira Tucker

 


PRECIOUS

Kira Tucker

Copper keeps life from my womb; aluminum 

fills my pores, silver my teeth. My blood won’t hold iron,

so I take it daily. Food brings a sickness I can’t measure

under my tongue, only on my waning waist. Some metal

 

belongs in the body. The day a grate raised my skirt

on the street, I noticed only one rush of air between ore

andwhore. The boy who learns to caress his face with a blade

will grow into a man I’ll pay to slice my skin with steel. Beauty

 

is no alchemy: it merely means making space for more things

that shine. Like the ancient statues men scrapped for daggers.

Like powder packed into bullets, their touch so intimate

it kills. Like any body in this millennium, I’ll survive

 

in silicon chips after death. Until then, lead me

somewhere precious. Guide me with ungloved hands.

PRECIOSO

O cobre guarda a vida do meu ventre; o alumínio

enche meus poros, a prata meus dentes. Meu sangue não segura o ferro,

então o tomo diariamente. A comida traz uma doença que não consigo medir

sob minha língua, somente em minha cintura cada vez menor. Algum metal

 

pertence ao corpo. No dia em que uma grade levantou minha saia

na rua, notei apenas uma lufada de ar entre o minério

e a prostituta. O menino que aprende a acariciar o rosto com uma lâmina

irá crescer será um homem a quem eu pagarei para cortar minha pele com aço. A beleza

 

não é alquimia: meramente significa abrir espaço para mais coisas

que brilham. Como as estátuas antigas que os homens desmontaram para fazer adagas.

 

Como a pólvora compactada em balas, seu toque tão íntimo

que mata. Como qualquer corpo neste milênio, eu sobreviverei

 

em chips de silício após a morte. Até lá, guia-me

a algum lugar precioso. Guia-me com mãos sem luvas.

Ilustração: Bonito Way.

Friday, July 31, 2026

O Que é o Rio? (What is The River)

 


O QUE É O RIO

Silvio Persivo

O que é o rio senão uma imitação da vida?

Um fluxo constante, uma ativa jornada,

De ir em frente, com suas forças e fraquezas,

Águas claras ou enegrecidas de lodo, todas certezas.

 

O rio segue, sem poder voltar para trás,

Com a determinação ir até o fim, se estender

Com o claro objetivo: deixar de ser e se perder,

No oceano infinito, onde o rio se desfaz.

 

Assim como nós, o rio corre para desaparecer,

Em um destino certo que não podemos deter,

Mas no caminho há beleza, há vida a se viver,

E cada curva, cada canto, cada espaço a percorrer.

 

O rio nos ensina que a vida é um fluir constante,

Um ir em frente, mesmo diante da adversidade,

Com forças fortes ou fracas, o rio segue avante,

E nos lembra que também tem sua beleza e verdade.

 

O que é o rio senão uma imitação da vida?

Um fluxo constante, uma ativa jornada.

Na sua simplicidade, há a preciosa lição,

De que vida, como o rio, é o instante da canção!

WHAT IS THE RIVER

What is the river if not an imitation of life?

A constant flow, an active journey,

Moving ever forward, with its strengths and weaknesses,

Waters clear or darkened by silt—all certainties.

 

The river flows on, unable to turn back,

Determined to reach the end, to stretch out

With a clear goal: to cease being and lose itself

In the infinite ocean, where the river dissolves.

 

Just like us, the river runs toward its disappearance,

Toward a sure destiny we cannot halt,

Yet there is beauty along the way, a life to be lived,

And every bend, every nook, every stretch to traverse.

 

The river teaches us that life is a constant flow,

A moving forward, even in the face of adversity;

With strength or frailty, the river presses on,

Reminding us that it, too, holds beauty and truth.

 

What is the river if not an imitation of life?

A constant flow, an active journey.

In its simplicity lies a precious lesson:

That life, like the river, is the moment of the song!

Ilustração: Revista Galileu. 

Poema CXIV de Dulce María Loynaz

 

POEMA CXIV

Dulce María Loynaz

El mundo entero se me ha quedado vacío, dejado por los
hombres que se olvidaron de llevarme.
Sola estoy en esta vasta tierra, sin más compañía que los
animales que tampoco los hombres necesitan, que los árboles
que no creen necesitar.
Y mañana, cuando les falte el canto de la alondra o el perfume
de la rosa, se acordarán de que hubo una flor y que hubo un
pájaro. Y pensarán acaso que era bueno tenerlos.
Pero cuando les falte mi verso tímido, nadie sabrá que alguna
vez yo anduve entre ellos.

POEMA CXIV

O mundo inteiro ficou vazio para mim, deixada pelos

homens que se esqueceram de me levar.

Estou sozinho nesta vasta terra, sem outra companhia além dos animais que, tampouco os homens não necessitam, e das árvores

que eles creem que não necessitar.

E amanhã, quando lhes faltar o canto da cotovia ou o perfume

da rosa, eles se lembraram de que havia uma flor e que havia um

pássaro. E talvez pensem que foi bom tê-los.

Porém quando lhes faltar meu tímido verso, ninguém saberá que algum dia

eu andei entre eles.

Ilustração: Rodrigo de Haro-Galeria Alfaville. 



Mutation de Guillaume Apollinaire

 


MUTATION
Guillaume Apollinaire
Une femme qui pleurait
Eh ! Oh ! Ha !
Des soldats qui passaient
Eh ! Oh ! Ha !
Un éclusier qui pêchait
Eh ! Oh ! Ha !
Les tranchées qui blanchissaient
Eh ! Oh ! Ha !
Des obus qui pétaient
Eh ! Oh ! Ha !
Des allumettes qui ne prenaient pas
Et tout
A tant changé
En moi
Tout
Sauf mon Amour
Eh ! Oh ! Ha !

MUTAÇÃO

Uma mulher que chorava

Eh! Oh! Ha!

Os soldados passando

Eh! Oh! Ha!

Um guarda de eclusa pescando

Eh! Oh! Ha!

Trincheiras que embranquecem

Eh! Oh! Ha!

Os obuses explodindo

Eh! Oh! Ha!

Fósforos que não acendiam

E tudo

Que mudou tanto

Em mim

Tudo

Exceto meu amor

Eh! Oh! Ha!

Ilustração: Reconquiste o seu Amor.