Sunday, July 26, 2026

Desiderata, o grande poema de Max Ehrman

 


                                    DESIDERATA

Max Ehrman

Go placidly amid the noise and haste,
and remember what peace there may be in silence.
As far as possible, without surrender, be on good terms with all persons.
Speak your truth quietly and clearly; and listen to others,
even to the dull and ignorant; they too have their story.

Avoid loud and aggressive persons, they are vexations to the spirit.
If you compare yourself with others, you may become vain and bitter,
for always there will be greater and lesser persons than yourself.
Enjoy your achievements as well as your plans.

Keep interested in your own career, however humble;
it is a real possession in the changing fortunes of time.
Exercise caution in your business affairs,
for the world is full of trickery.
But let this not blind you to what virtue there is;
many persons strive for high ideals,
and everywhere life is full of heroism.

Be yourself. Especially do not feign affection.
Neither be cynical about love;
for in the face of all aridity and disenchantment
it is as perennial as the grass.
Take kindly the counsel of the years,
gracefully surrendering the things of youth.
Nurture strength of spirit to shield you in sudden misfortune.
But do not distress yourself with dark imaginings.
Many fears are born of fatigue and loneliness.

Beyond a wholesome discipline, be gentle with yourself.
You are a child of the universe no less than the trees and the stars;
you have a right to be here. And whether or not it is clear to you,
no doubt the universe is unfolding as it should.

Therefore be at peace with God, whatever you conceive Him to be.
And whatever your labors and aspirations,
in the noisy confusion of life, keep peace with your soul.
With all its sham, drudgery and broken dreams,
it is still a beautiful world.
Be cheerful. Strive to be happy.

DESIDERATA

Siga placidamente entre o ruído e à pressa,

e lembre-se da paz que pode haver no silêncio.

Na medida do possível, sem se anular, mantenha-se em harmonia com todas as pessoas.

Diga a sua verdade com calma e clareza; e ouça os outros,

mesmo os limitados e ignorantes; eles também têm a sua história.

Evite pessoas barulhentas e agressivas; elas atormentam o espírito.

Se você se comparar aos outros, poderá tornar-se vaidoso e amargo,

pois sempre haverá pessoas melhores ou piores do que você.

Desfrute tanto das suas conquistas quanto dos seus planos.

Mantenha o interesse na sua própria carreira, por mais humilde que seja;

ela é uma posse real diante das mudanças do tempo.

Seja cauteloso nos seus negócios,

pois o mundo está cheio de artimanhas.

Mas não deixe que isso o cegue para a virtude existente;

muitas pessoas lutam por ideais elevados,

e, por toda parte, a vida é repleta de heroísmo.

Seja você mesmo. Sobretudo, não finja afeto.

Nem seja cínico em relação ao amor;

pois, diante de toda aridez e desencanto,

ele é tão perene quanto a relva.

Aceite com serenidade os conselhos dos anos,

abrindo mão com elegância das coisas da juventude.

Cultive a força de espírito para se proteger em infortúnios repentinos.

Mas não se atormente com pensamentos sombrios.

Muitos medos nascem da fadiga e da solidão.

Além de uma disciplina saudável, seja gentil consigo mesmo.

Você é filho do universo, tanto quanto as árvores e as estrelas;

você tem o direito de estar aqui. E, esteja isso claro para você ou não,

não há dúvida de que o universo segue o seu curso como deve ser.

Portanto, esteja em paz com Deus, qualquer que seja a sua concepção d'Ele.

E, quaisquer que sejam os seus trabalhos e aspirações,

na confusa agitação da vida, mantenha a paz com a sua alma.

Com todas as suas falsidades, fadigas e sonhos desfeitos,

o mundo ainda é belo.

Seja alegre. Esforce-se para ser feliz.

Ilustração: Pensar Contemporâneo. 


Outra vez Elizabeth Stellavato

 


                                 NO, HAY FUTURO

Elizabeth Stellavato

El perro olfatea el suelo
busca desesperado
una pista
una huella
que le marque el camino.

Quizás de eso se trate todo
en definitiva
creer que hasta una piedra en el suelo
es
la señal que necesitamos
para volver a casa.

NÃO, HÁ FUTURO

O cachorro fareja o sol

busca desesperado

uma pista

uma trilha

Que lhe marque o caminho.

Talvez seja isto do que se trata

No fim das contas

Crer que até uma pedra no solo

é

o sinal que necessitamos

para voltar para casa.

Ilustração: A12. 


Saturday, July 25, 2026

Poema da Busca

 


                              POEMA DA BUSCA

                         Silvio Persivo  

Seria preciso fazer uma poesia com a beleza de teus olhos.

Todavia, os deuses estão sempre no caminho

e odeiam a perfeição nos fazeres humanos.

Assim me retiraram a inspiração

com e-mails, mensagens de whatsapp, posts de Facebook e de Instagram e até com músicas ruins.

De forma que me vejo assim embaraçado

tentando lembrar de nosso amor no começo

para superar este imenso tropeço

de não te dar os versos que merece

e, buscando, por meio de preces,

recuperar a beleza dos tempos perdidos

e um sentido para a vida

sem o teu amor.

POEM OF SEARCH 

It would be necessary to write poetry with the beauty of your eyes.

However, the gods are always in the way

and they hate perfection in human doings.

So they took away my inspiration

with emails, whatsapp messages, Facebook and Instagram posts and even bad music.

So I find myself so embarrassed

trying to remember our love in the beginning

to overcome this huge stumbling block

of not giving you the verses you deserve

and, seeking, through prayers,

recover the beauty of lost times

and a meaning to life

Ilustração: Seu Dinheiro. 


Friday, July 24, 2026

Ô Beaus Yeus Bruns... de Louise Labé

 


                                   Ô BEAUS YEUS BRUNS...

Louise Labé
Ô beaus yeus bruns, ô regars destournez,
Ô chaus soupirs, ô larmes espandues,
Ô noires nuits vainement atendues,
Ô jours luisans vainement retournez:
Ô tristes pleins, ô désirs obstinez,
Ô tems perdu, ô peines despendues,
Ô mile morts en mile rets tendues,
Ô pires maus contre moi destinez.
Ô ris, ô front, cheveus, bras, mains et doits:
Ô lut pleintif, viole, archet et vois:
Tant de flambeaus pour ardre une femmelle!
De toy me plein, que tant de feus portant,
Et tant d'endrois d'iceus mon coeur tatant,
N'en est sur toy volé quelque estincelle.

OH! BELOS OLHOS NEGROS

Oh! Belos olhos negros, oh! olhar distanciado,

Oh! Cálidos suspiros, oh! lágrimas derramadas

Oh! Noites escuras inutilmente atendidas

Oh! Dias claros inutilmente retornados:

Oh! Dolentes queixas, oh! desejos obstinados,

Oh! Tempo perdido, oh! penas desperdiçadas,

Ó mil mortes em mil redes armadas,

Ó males terríveis a mim destinados.

Ó sorriso, ó testa, cabelo, braços, mãos e dedos:

Ó alaúde plangente, viola, arco e voz:

Tantas chamas para fazer arder uma mulher!

De ti me queixo, que, tantos fogos possuindo,

Em tantos lugares meu coração foi acendendo,

Sem nenhuma faísca sequer em ti cair.

Ilustração: Pinterest. 


Thursday, July 23, 2026

Um poema de Elizabeth Stellavato

 


CENTRIFUGADO

Elizabeth Stellavato

Encontré una remera tuya
entre la ropa recién lavada
y lo tomé como una prueba
de mi error de cálculo:
hay fibras nuestras
que aún pueden

unirse

por ciclos breves.

CENTRIFUGADO

Encontrei uma camiseta tua

entre as roupas recém-lavadas

e a tomei como uma prova

do meu erro de cálculo:

há fibras nossas

que ainda podem

se unir

por ciclos breves.

Ilustração: Blog Bosch Eletrodomésticos-Bosch.


Uma poesia de Eavan Boland

 


THE POETS

Eavan Boland

They, like all creatures, being made
For the shovel and worm,
Ransacked their perishable minds and found
Pattern and form
And with their own hands quarried from hard words
A figure in which secret things confide.
They are abroad: their spirits like a pride
Of lions circulate,
Are desperate, just as the jewelled beast,
That lion constellate,
Whose scenery is Betelgeuse and Mars,
Hunts without respite among fixed stars.
And they prevail: to his undoing every day
The essential sun
Proceeds, but only to accommodate
A tenant moon,
And he remains until the very break
Of morning, absentee landlord of the dark.

OS POETAS

Eles, como todas as criaturas, feitas

Para a pá e o verme,

Vasculharam suas mentes perecíveis e encontraram

Padrão e forma

E, com as suas próprias mãos, extraíram de palavras duras

Uma figura à qual as coisas secretas se confiam.

Eles vagam: seus espíritos, como uma alcateia

De leões, circulam,

Estão desesperados, justo como uma fera cravejada de joias, Aquele leão constelado,

Cujo cenário é Betelgeuse e Marte,

Caçadores sem trégua entre as estrelas fixas.

E eles prevalecem: para a sua ruína, a cada dia,

O sol essencial

Procedimentos, mas apenas para acomodar

A uma lua inquilina,

E ele permanece até o romper

Da manhã, senhor ausente da escuridão.

Ilustração: Guarulhos Cultural.


Monday, July 20, 2026

Nocturno, Gabriel Zaid

 


NOCTURNO

Gabriel Zaid

Manantiales del agua
ya perenne, profunda vida
abierta en tus ojos.

Convive en ti la tierra
Poblada, su verdad
numerosa y sencilla.

Abre su plenitud
callada, su misterio,
la fábula del mundo.

Hallan su vocación
del Huerto, su quehacer,
manos contemplativas.

Estalla un mediodía
nocturno, arde en gracia
la noche, calla el cielo.

Tenue viento de pájaros
de recóndito fuego
habla en bocas y manos.

Viñas, las del silencio.
Viñas, las de las palabras
cargadas de silencio.

NOTURNO

Mananciais de água

já perenes, profunda vida

aberta nos teus olhos.

 

Convive em ti, a terra

povoada, sua verdade

numerosa e sensível

 

Abre sua plenitude,

calada, seu mistério,

a fábula do mundo.

 

Acham sua vocação

da horta, seu quefazer,

mãos contemplativas.

 

Estala um meio-dia

noturno, arde em graça

a noite, cala o céu.

 

Tênue vento de pássaros,

de recôndito fogo

fala em bocas e mãos.

 

Vinhedos, os do silêncio.

Vinhedos, os das palavras

Carregadas de silêncio.

Ilustração: Facebook.


BALLAD FOR YOKO ONO

 

BALADA PARA YOKO ONO

Silvio Persivo

Nada é tão bonito

Quanto o olhar

Da mulher que se ama.

BALLAD FOR YOKO ONO

Nothing is so beautiful

as for the look

of the woman who loves

Ilustração: Cantinho Vegetariano. 

 


Sunday, July 19, 2026

E, mais uma vez, Beatriz de La Vega

 


Beatriz de La Vega

Algunas noches cuando todos duermen
me escapo en silencio al monte
a llorarle a la luna.

Porque de día una madre es invencible
y no debe andar aullando por las esquinas.

Otras, sin embargo, salto por los tejados
con el arco y las flechas
buscando enemigos escondidos y batallas.

Alguien para salvar.
A cualquiera menos a una misma.

Algumas noites, quando todos dormem,

eu escapo em silêncio para ao monte

para chorar para a lua.

Porque de dia uma mãe é invencível

e não deveria andar uivando pelas esquinas.

Outras vezes, sem embargo, salto pelos telhados

com o arco e as flechas

buscando inimigos escondidos e batalhas.

Alguém para salvar.

Qualquer um, menos a mim mesmo.


"A Glass Of Wine" de Andrew Motion

 

A GLASS OF WINE

Andrew Motion

Exactly as the setting sun
clips the heel of the garden,

exactly as a pigeon
roosting tries to sing
and ends up moaning,

exactly as the ping
of someone’s automatic carlock
dies into a flock
of tiny echo-aftershocks,

a shapely hand of cloud
emerges from the crowd
of airy nothings that the wind allowed
to tumble over us all day
and points the way

towards its own decay
but not before
a final sunlight-shudder pours
away across our garden-floor

so steadily, so slow
it shows you everything you need to know
about this glass I’m holding out to you,

its open eye
enough to bear the whole weight of the sky.

UMA TAÇA DE VINHO

Exatamente quando o sol poente

toca a extremidade do jardim,

 

exatamente quando um pombo

empoleirado tenta cantar

e acaba gemendo,

 

exatamente quando o bip

do travamento automático de um carro

se morre numa revoada

de minúsculos ecos residuais,

 

uma mão de nuvem de formas belas

emerge da multidão

de nadas etéreos que o vento deixou

rolarem sobre nós o dia todo

e aponta o caminho

 

para a sua própria decadência,

mas não sem antes

um último tremor de luz solar derramar-se

através das flores do nosso jardim

 

tão constante, tão lento,

que lhe revela tudo o que precisa saber

sobre esta taça que estendo para você,

 

de olho aberto

ser suficiente para suportar todo o peso do céu.

Ilustração: Blog Milium. 


Saturday, July 18, 2026

Outra poesia de Andrea Franco

 


                                          Andrea Franco

la noche en que volví

a dormir fue la única

en la que no dormiste

te vi después perfectamente

los metros cuadrados

por los que circulaste

tu contorno vacío en

el sillón la mesada los

intentos de encender

la hornalla y la chispa

un sol intacto en medio de

los árboles los dibujos

grabados las horas que

siguieron atrás o adentro

de mis párpados

las páginas que leíste

sin saber que leíamos

lo mismo

 

A noite em que voltei a dormir

foi a única

em que não dormistes

Depois, eu te vi perfeitamente

os metros quadrados

pelos quais circulastes

seu contorno vazio na

poltrona, no balcão, as

tentativas de acender

o fogão e a faísca

um sol intocado em meio

às árvores, os desenhos

gravados, as horas que

se seguiram atrás ou dentro

das minhas pálpebras

as páginas que lestes

sem saber que estávamos lendo

a mesma coisa

Ilustração: Atena Editora. 


Soneto das Borboletas (Sonnet of Butterflies) de Silvio Persivo

 


SONETO DAS BORBOLETAS

Silvio Persivo

Assim deitada e nua te encontro

Molhada de desejo, um ar tão natural

Que atiça a chama do amor sedento

Que se sacia em ti com uma fúria animal

Porém, mais do que eu, queimas em brasas

E queres muito mais do que até posso,

Pois tu queres a música sem pausas

E muito além da carne comes até o osso

Queimando na fogueira sempre acesa,

Entre as paredes, nossa vida presa,

É a melhor com que jamais sonhamos

Nem sei, nem sabes, o que lá fora espera

O mundo é aqui. E, em plena primavera,

Há menos borboletas do que nós gozamos!

SONNET OF BUTTERFLIES

So lying down and naked I find you

Wet with desire, an air so natural

That stokes the flame of thirsty love

That satiates itself in you with an animal fury

However, more than me, you burn in embers

And you want much more than I can,

Because you want music without pauses

And far beyond the flesh you eat to the bone

Burning in the ever-lit fire,

Between the walls, our life trapped,

It's the best we've ever dreamed of

I don't even know, you don't even know, what awaits out there

The world is here. And in the middle of spring

There are fewer butterflies than we enjoy!

Ilustração: Concursos do Brasil.