Viva a Poesia
Sunday, August 16, 2026
Porto Velho
PORTO VELHO
Silvio Persivo
Esta cidade de quem todos
reclamam-
E parece que ninguém ama-
É a minha cidade.
Não sei o que ela tem
Nem o que me ofereceu
Que não seja,
Talvez,
Um pôr de sol
Que distribui cores de
Rembrandt,
Minhas maiores alegrias,
Os doces momentos que já
esqueci,
Porém, que fizeram a vida
valer a pena,
Esta vontade eterna e
sempre não pequena
De viver mais,
Uma tristeza vaga e
Este calor aconchegante
Que vem do céu azul,
Que, de repente, se
apreteja
E se transforma em vento
e chuva
Soando docemente
Como um salmo em igreja.
Sei que ela não é tão
bela
Como deveria.
Mas, quem é?
Esta cidade assim
Mesmo parecendo suja,
feia,
Mal-acabada, em eterna
construção,
Tem o dom de ser
Minha terra amada
E há sempre de ser linda
para mim
E viver eternamente no
meu coração.
PORTO VELHO
This city that everyone
complains about-
And it seems that nobody
loves-
It's my city.
I don't know what she has
Not what you offered me
That is not,
Perhaps,
a sunset
Who doles out Rembrandt
colors,
My greatest joys,
The sweet moments that I
already forgot,
However, who made life
worthwhile,
This eternal will and
always not small
to live longer,
A vague sadness and
this cozy warmth
That comes from the blue
sky,
That suddenly appears
And turns into wind and
rain
sweet sounding
Like a psalm in church.
I know she's not that
pretty
As it should.
But, who is it?
this city like this
Even though it looks
dirty, ugly,
Badly finished, in
eternal construction,
has the gift of being
my beloved land
And you will always be
beautiful to me
And live forever in my
heart.
Ilustração: Governo de
Rondônia.
Wednesday, August 12, 2026
Mais uma poesia de Jûri Talvet
Suponiendo que el polvo
solo
es el polvo del más allá
Jüri Talvet
El cielo es de un azul
inusitado
en esta primavera estonia
(¿nostalgia del futuro? ¿buen augurio?)
Las palabras liberan el horizonte
y he aquí que todos somos
muchísimo mejores. Es como si los ataúdes
que flotan sin cesar en el aire de tu ensueño
ya no sirvieran para el mal.
Tampoco para el bien. El polvo
–cualquier polvo– sin embargo
contiene más tristeza
que un cuerpo vivo. Así,
en esta primavera que muestra en Estonia
un cielo tan insólitamente azul,
cualquier desequilibrio en todo aquello
que promete y augura es un reflejo
del más allá, de lo real y verdadero.
SUPONDO QUE A POEIRA SEJA
APENAS
A POEIRA DO ALÉM
O céu está de um azul inusitado
nesta primavera estoniana
(nostalgia pelo futuro?
um bom presságio?)
As palavras liberam o
horizonte
e eis que todos nós aqui estamos
muito melhor. É como se
os caixões
flutuando incessantemente
no ar dos seus sonhos
não servissem mais para o
mal.
Tampouco para o bem. A
poeira
-Qualquer poeira-sem
embargo,
contém mais tristeza
do que um corpo vivo.
Assim,
nesta primavera que exibe
na Estônia
um céu tão insolitamente
azul,
qualquer desequilíbrio em
tudo aquilo
que promete e prenuncia é
um reflexo
da vida após a morte,
daquilo que é real e verdadeiro.
Ilustração: A Mente é
Maravilhosa.
Monday, August 10, 2026
THE BOY FROM CEARÁ (FINAL VERSION)
O MENINO DO CEARÁ (Última versão)
Silvio Persivo
Eu era um menino que cabia inteiro numa rua. A Rocha
Lima, em Fortaleza. O mundo começava depois da esquina e ia até o céu se
alongando no mar que cabia num pires.
Li Nietzsche antes de saber amarrar os sapatos. Os
pensamentos não precisavam de cadarço. Machado me ensinou que as palavras
têm espinhos e que a gente sangra lendo. Os russos me mostraram que a neve
também dói. E Balzac me contou que o mundo é uma comédia que as formigas não
entendem.
O rádio naquele tempo era um oráculo de lata. Dentro
dele moravam vozes que falavam mais alto que o silêncio do sertão (um
silêncio que a gente podia descascar igual a uma laranja).
O cinema era aos domingos. A música era de todo dia. E
eu - eu era um menino que colecionava ausências. Colecionava ausências como
quem coleciona asa de cigarra. Guardava no bolso junto com pedras que tinham
sede e sementes, que viravam sonhos.
Hoje, cinquenta anos depois, pergunto: o que sobrou
daquele menino? Respondo: Sobrou o Ceará. O resto foi travessia. A rua
Rocha Lima, essa, ainda cabe inteira dentro de mim e é a maior de todas
as minhas lembranças!
THE BOY FROM CEARÁ (FINAL VERSION)
I was a boy who fit entirely within a single street:
Rocha Lima, in Fortaleza. The world began just around the corner and stretched
all the way to the sky, extending into a sea that could fit inside a saucer.
I read Nietzsche before I knew how to tie my shoes.
Thoughts didn't need shoelaces. Machado taught me that words have thorns and
that we bleed when we read. The Russians showed me that snow can hurt, too. And
Balzac told me that the world is a comedy that ants cannot understand.
Back then, the radio was a tin oracle. Inside it lived
voices that spoke louder than the silence of the sertão-a silence one could
peel away just like an orange.
The movies were for Sundays. Music was for every day.
And I-I was a boy who collected absences. I collected absences the way one
collects cicada wings. I kept them in my pocket alongside thirsty stones and
seeds that turned into dreams.
Today, fifty years later, I ask: what remains of that
boy? My answer: Ceará remains. The rest was a journey. As for Rocha Lima Street-it
still fits entirely within me, and it is the greatest of all my memories!
Ilustração: iStock.
De volta Elizabeth Stellavato
NINGUNA MUERTE ES LINDA
EN EL CEMENTO
Elizabeth Stellavato
Mirás hacia el centro de
la ruta
y manejás en silencio.
Yo me detengo en los costados
y veo a un animal muerto.
Lo pasamos muy rápido
se lo ve muy chico
parece ser un zorro negro.
Una mancha blanca
recorre el lateral de su cuerpo.
Te digo: ¿lo viste?
¿Viste al zorro negro?
Quisiera bajarme
correr al animal y llevarlo un poco más adentro
más cerca del verde, de las flores y de los árboles
que lo rodeen los colores cálidos
quizás vos estés pensando lo mismo
no decís nada
pero el silencio igual se escapa
por las ventanillas del auto
apenas abiertas
para no empañarlo todo.
NENHUMA MORTE É LINDA NO
CONCRETO
Olhas para o centro da rota
e manejas em silêncio.
Eu me detenho no
acostamento
e vejo a um animal morto.
Passamos por ele muito
rápido
parece muito pequeno
parece ser uma raposa
preta.
Uma mancha branca
está ao longo do corpo.
Te digo: Viste?
Viste a raposa preta?
Quero sair
correr até o animal e
levá-lo um pouco mais para dentro
mais perto do verde, das
flores e das árvores
onde cores quentes o
cercam
talvez você esteja
pensando a mesma coisa
não dizes nada
porém um silêncio igual
se escapa
pelas janelas do carro
mal abertas
para não embaçar tudo.
Saturday, August 08, 2026
LXXII
Silvio
Persivo
De
tanto amor que amei não sou culpado.
É
que o amor em mim, como um escrito,
foi
marcado para ser feito o infinito
um
traçado do destino já marcado.
Fui
tão pródigo de amor e inebriado
enveredei
por este caminho tão bonito
de
viver a amar como único fito
sem
perceber o custo tão demasiado.
E
tanto amor distribui sem que soubesse
que
comigo mesmo era desumano:
que
um dia faltaria, se muito o desse.
E
só muito tarde percebi o meu engano.
Amor
somente se dá para quem merece
ou se recebe em troca apenas dano.
LXXII
I'm not guilty of so much
love that I loved.
Is that the love in me,
like a writing,
was marked to be done
infinity
a route of the
destination already marked.
I was so lavish with love
and intoxicated
I took this beautiful
path
from living to loving as
the only purpose
without realizing the
cost so too much.
And so much love
distributes without knowing
that with myself was
inhuman:
that one day would be
lacking, if much were to be given.
Outra poesia deJüri Talvet
A UN ESCRITOR NATURALISTA
Jüri Talvet
Te mando un montón de
ropa vieja
para que les pongas calcetines, pantalones
y un abrigo ligero, por lo menos,
a tus personajes que, como dices,
han sido tomados de la vida misma.
(Quien haya sido tomado de la tierra, ese…)
Quien haya sido tomado de la vida, volverá
a la vida. Pero ya que los pintas desnudos
acuérdate que en la calle, mientras tanto,
ha empezado el invierno.
A UM ESCRITOR NATURALISTA
Te mando um monte de
roupas velhas
para que lhes ponha meias,
calças,
e um casaco leve, pelo
menos
a teus personagens, que
como dizes
foram tomados da vida
mesma.
(Quem havia sido tomado
da terra, esse...)
Quem havia sido tomado da
vida voltará
à vida. Porém, já que os
pinta nus,
acorda-te que na rua,
enquanto isto, na rua,
o inverno já começou.
Ilustração: Tempo.pt.
Friday, August 07, 2026
IV QUARANTINE por Eavan Boland
IV QUARANTINE
Eavan Boland
In the worst hour of the worst season
of the worst year of a whole people
a man set out from the workhouse with his wife.
He was walking – they were both walking – north.
She was sick with famine fever and could not keep up.
He lifted her and put her on his back.
He walked like that west and west and north.
Until at nightfall under freezing stars they arrived.
In the morning they were both found dead.
Of cold. Of hunger. Of the toxins of a whole history.
But her feet were held against his breastbone.
The last heat of his flesh was his last gift to her.
Let no love poem ever come to this threshold.
There is no place here for the inexact
praise of the easy graces and sensuality of the body.
There is only time for this merciless inventory:
Their death together in the winter of 1847.
Also what they suffered. How they lived.
And what there is between a man and woman.
And in which darkness it can best be proved.
IV QUARENTENA
Na pior hora da pior
estação
do pior ano de todo um
povo
um homem saiu do asilo
com sua esposa.
Ele caminhava- ambos
caminhavam-para o norte.
Ela estava doente com
febre da fome e não conseguia acompanhá-lo.
Ele a carregou e a
colocou nas costas.
Ele caminhou assim para
oeste, do oeste ao norte.
Até que, ao cair da
noite, sob estrelas congelantes, eles chegaram.
NA manhã, ambos foram
encontrados mortos.
De frio. De fome. Das
toxinas de toda uma história.
Porém os pés dela estavam
encostados em seu peito.
O último calor de sua
carne foi seu último presente para ela.
Que nenhum poema de amor
jamais chegue a este limiar.
Não há lugar aqui para o
elogio impreciso
das graças fáceis e da
sensualidade do corpo.
Há tempo apenas para este
inventário impiedoso:
A morte deles juntos no
inverno de 1847.
Também o que sofreram.
Como viveram.
E o que existe entre um
homem e uma mulher.
E em qual escuridão isto
pode ser melhor comprovado.
Ilustração: Estado de
Minas.
Um poema de Patricio Foglia
creo en dios
padre todopoderoso
(creador del cielo
& de la tierra)
Patricio Foglia
yo sí creo en dios
en un dios pero chúcaro
medio bravo tipo zeus
antiguo testamento style
dios chasqueó su látigo
sobre mí
y yo puse en la consola
cada uno de sus hechos
mezclé copié & pegué
y así fue como hice
que su música retumbe
CREIO EM DEUS
PAI TODO PODEROSO
(CRIADOR DO CÉU
& DA TERRA)
Eu sim creio em Deus
em um deus, mas um deus
selvagem
meio feroz, como Zeus
no estilo do Antigo
Testamento
Deus que me chicoteou
e eu coloquei no console
cada um de seus feitos
mesclei, copiei e colei
e assim foi como fiz
para sua música retumbar
Ilustração: Opus Dei.
Thursday, August 06, 2026
The Last Call de Andrw Motion
THE LAST CALL
Andrew Motion
Death called me,
I did not hear.
He spoke again:
Come near.
I went to look
for pity.
Poor death, I thought,
he loves me.
I guessed right,
he does.
And now I love him too,
just because.
O ÚLTIMO CHAMADO
A Morte me chamou,
eu não ouvi.
Ela falou de novo:
Aproxime-se.
Fui em busca
de pena.
Pobre Morte, pensei,
ela me ama.
Eu estava certo:
ela ama mesmo.
E agora eu a amo também,
simplesmente porque sim.
Wednesday, August 05, 2026
Uma poesia de Jüri Talvet
Jüri Talvet
El amor
es
mandamiento, así pensaba
Kierkegaard. Mejor será
-pienso yo- amar, sin hacer
caso de ese mandamiento.
Reconociéndose
el alma con el alma,
respondiendo
la sangre a la sangre,
sin saber, en pleno
vuelo-hacia arriba
o hacia abajo-,
cuál habrá de ser
el lugar de destino.
O amor
é um mandamento, assim
pensava
Kierkegaard. Melhor será
-penso eu-amar, sem fazer
caso desse mandamento.
Reconhecendo-se
a alma com a alma,
respondendo
o sangue com o sangue,
sem saber, em pleno
voo-para cima
ou para baixo-,
qual haverá de ser
o lugar de destino.
Ilustração; Blog
Instaviagem.
Um poema de Gerard Manley Hopkins
HEAVEN HAVEN
Gerard Manley Hopkins
I HAVE desired to go
Where springs not fail,
To fields where flies no sharp and sided hail
And a few lilies blow.
And I have asked to
be
Where no storms come,
Where the green swell is in the havens dumb,
And out of the swing of the sea.
ABRIGO DO CÉU
Desejei ir
Onde as fontes não secam,
A campos onde não cai o
granizo cortante
E onde florescem alguns
lírios.
E pedi para estar
Onde não chegam
tempestades,
Onde a vaga verde repousa
em portos silenciosos,
Fora do balanço do mar.
Ilustração: Magnific.
Momento, Momento (Moment, Moment)
Silvio
Persivo
Não
há muito tempo mais.
Ainda
assim me perco em coisas banais,
Em
ações e movimentos sem lógica e sem explicação.
Agarro
tua mão,
Embora
sabendo que este carinho todo, em breve,
Será
tido apenas como dissimulação,
Como
parte de uma falsidade que não há.
Todo
amor, no entanto, por mais forte
E
doce que seja,
É
uma luta contra o egoísmo e a natureza.
Uma
tentativa de unir
O
que sempre esteve separado.
Não,
não digo nada.
Não
diga nada.
Deita
do meu lado e sente este momento.
É
tudo que temos
E
nunca se pode saber
Se
não é tudo que teremos
There isn't much time left.
I
still get lost in banal things,
In
actions and movements without logic and without explanation.
I
grab your hand,
Although
knowing that all this affection, soon,
It
will only be taken as a dissimulation,
As
part of a falsehood that does not exist.
All
love, however, however strong
And
sweet as it is,
It
is a fight against selfishness and nature.
An
attempt to unite
What
has always been separate.
No,
I don't say anything.
Do
not say anything.
Lie
beside me and feel this moment.
It's
all we have
And
you can never know
If
it's not all we'll have.
Ilustrtação: Magnific.
