Thursday, July 16, 2026

Canto ao Gozo Divino, de Silvio Persivo

 

                          CANTO AO GOZO DIVINO

Silvio Persivo

Morrer é como dormir e não mais acordar.

Não me importa mais.

E por que haveria de me importar?

Se ontem, feliz, beijei o bico dos teus seios intumescidos,

Abri, sem nenhum pudor, os tecidos que te cobriam,

Descobrindo, com febril amor, as doçuras de teu corpo,

Para deslizar nas tuas curvas mais sinuosas,

Como quem despenca num tobogã sem freio,

Sem medo algum, sem nervos, sem receio,

Precipitando-me ditoso nos teus orifícios

Que me fizeram desejar fazer da paixão vício

E sugar de tua flor todo o perfume, suor, sêmen, ais,

Numa sofreguidão, e calma,

De não se acabar mais.

Quase me senti um deus,

E, se deus há,

Nunca deve ter visto antes

Humanos tão felizes, saciados,

Amolecidos, puros, contentes, conscientes

De que gozaram o que podiam ter gozado.

E só quem amou um amor assim

Pode, sem susto, esperar o fim,

De vez que tanto amor

Jamais será superado

 

SONG TO DIVINE JOUISSANCE

 

Dying is like sleeping and never waking up.

I don't care anymore.

And why should I care?

If yesterday, happy, I kissed the tip of your swollen breasts,

I opened, without any shame, the fabrics that covered you,

Discovering, with feverish love, the sweetness of your body,

To slide on your most sinuous curves,

Like someone who falls down a toboggan without a brake,

Without any fear, without nerves, without apprehension,

Rushing blissfully into your orifices

That made me want to make passion an addiction

And suck from your flower all the perfume, sweat, semen, alas,

In eagerness, and calm,

Of not ending anymore.

I almost felt like a god,

And if there is a god,

never have seen before

Humans so happy, satiated,

Softened, pure, content, aware

What they enjoyed what they could have enjoyed.

And only those who loved a love like that

You can, without fear, wait for the end,

Since so much love

will never be surpassed.

Ilustração: Kama Sutra-Domestika. 



Um poema de Max Ehrmann

 

 

WE ARE ALL SHIPS...

Max Ehrmann
We are all ships returning home
laden with life's experience,
memories of work, good times and sorrows,
each with his special cargo;
And it is our common lot
to show the marks of the voyage,
here a shattered prow, there a patched rigging,
and every hulk turned black
by the unceasing batter of the restless wave.

May we be thankful for fair weather and smooth seas,
and in times of storm have the courage
and patience that mark every good mariner;
And, overall, may we have the cheering hope of joyful meetings,
as our ship at last drops anchor
in the still water of the eternal harbor.

NÓS TODOS SOMOS BARCOS...

Nós todos somos navios retornando para casa

carregados com as experiências da vida,

memórias de trabalho, bons momentos e tristezas,

cada um com sua carga especial;

E é nosso destino comum

mostrar as marcas da viagem,

aqui uma proa despedaçada, ali um cordame remendado,

e cada casco enegrecido

pelo incessante impacto das incansáveis ondas.

 

Que sejamos gratos pelo bom tempo e mares tranquilos,

e que em tempos de tempestade tenhamos a coragem

e a paciência que caracterizam todo bom marinheiro;

 

E, acima de tudo, que tenhamos a animadora esperança de encontros felizes,

quando nosso navio finalmente lançar âncora

nas águas calmas do porto eterno.

Ilustração: Arquidiocese de Manaus. 



De volta Andrea Franco

 

                                       Andrea Franco

después la casa se llenó de grillos

saltamontes iguanas una gacela

color caramelo

una avispa en las botas de lluvia

una invasión de vaquitas de san antonio

 

estando oculto

el mal se alimenta y vive

 

después hubo algo en todo

 

en la mariposa el tigre

un ninja en el pájaro

en la rama una serpiente

en los arbustos la mujer

 

estando oculto el espíritu

puede tragar lo que se lleva adentro

 

después soñé cada noche una cara

distinta a la tuya

hasta el arrocerito índigo

inflado como un pompón de peluche

era azul y volaba al ras del agua

 

Depois a casa se encheu de grilos

gafanhotos, iguanas, uma gazela

cor de caramelo

 

uma vespa nas botas de chuva

uma invasão de joaninhas

 

estando oculto

o mal se alimenta e vive

 

depois houve algo em tudo

 

na borboleta, o tigre

um ninja no pássaro

no galho, uma cobra

nos arbustos, a mulher

 

estando escondido, o espírito

pode tragar o que leva dentro

 

depois sonhei todas as noites com um rosto

distinto do teu

até com o pássaro-do-arroz-índigo

inchado como um pompom de pelúcia

que era azul e voava roçando a água

Ilustração: guiaesoterico.com. 



Guillaume Apollinaire olhando para trás...

 


J’AI EU LE COURAGE DE REGARDER EN ARRIÈRE...

Guillaume Apollinaire
J'ai eu le courage de regarder en arrière
Les cadavres de mes jours
Marquent ma route et je les pleure
Les uns pourrissent dans les églises italiennes
Ou bien dans de petits bois de citronniers
Qui fleurissent et fructifient
En même temps et en toute saison
D'autres jours ont pleuré avant de mourir dans des tavernes
Où d'ardents bouquets rouaient
Aux yeux d'une mulâtresse qui inventait la poésie
Et les roses de l'électricité s'ouvrent encore
Dans le jardin de ma mémoire

EU TIVE A CORAGEM DE OLHAR PARA TRÁS...

Eu tive a coragem de olhar para trás

Os cadáveres dos meus dias

Marcam minha rota e eu os lamento

Alguns apodrecem em igrejas italianas

Ou bem em pequenos pomares de limão

Que florescem e dão frutos

Ao mesmo tempo e em todas as estações

Outros dias choraram antes de morrer em tabernas

Onde buquês ardentes eram lançados

Diante dos olhos de uma mulata que inventou a poesia

E as rosas da eletricidade ainda florescem

No jardim da minha memória

Ilustração: Meus Pensamentos: Olhando para trás.

Wednesday, July 15, 2026

REENCONTRO


Quando você me olha, 

e meu coração se acelera,

até penso que a vida já era

que vou morrer de tanto amor. 

Seja assim,

ou se não for, 

viver sem teu olhar, 

sem o dom do teu sorriso

é como ser uma pedra,

que, por maior que seja seu tamanho,

nada nela medra. 

E, de novo, refeito do susto de viver,

na sombra carinhosa de teu olhar

não sentirei receio de morrer 

e até acredito que possa sonhar

em ser feliz e amar. 

Ilustração: Mensagens de Amor. 

 

Um poema de Andrea Franco

 


Andrea Franco

las casas se suceden y el paisaje

mental es siempre una ventana

de celosías apenas sostenidas

por un encastre débil en las junturas

y una palma

 

alta donde clavar un gallo negro

de madrugada llamar

a san cipriano pedir al diablo que a los buenos

espíritus los vuelva malos

 

dejar un puñado de tabaco

en el alféizar y alejarse

 

de la fascinación del precipicio

de la punta de montaña

de fijar la vista de más

del fondo del agua

 

As casas se sucedem, e a paisagem

mental é sempre uma janela

com treliças apenas sustentadas

por um encaixe frágil nas  

juntas,

e uma palmeira

 

 alta onde se pode pregar um galo preto

 para de madrugada chamar

 São Cipriano pedir ao diabo que os bons

 espíritos se tornem maus.

 

 deixar um punhado de tabaco

 no parapeito da janela e afastar-se

 

 da fascinação do precipício,

 do pico da montanha,

 de fixar o olhar

 no fundo das águas.

 Ilustração: Revista Adega. 



Monday, July 13, 2026

Uma poesia de Jordi Doce

 


PARA VIVIR

Jordi Doce

La mano escribe para no morir.
O cuenta el mundo en sílabas contadas
para decir: aquí termina el mundo,
fuera impera la noche
y el frío de la noche,
el lento gotear de las estrellas
y su terco silencio impenetrable.

La mano escribe para no morir.
Semeja su hermana, la lengua,
envuelta en un temblor que no comprende,
ajena a la raíz que la redime.

La mano escribe para no morir.
O dice el mundo en sílabas contadas
para decir: aquí termina el mundo,
fuera impera la noche
y el frío de la noche,
quietud de lo que nunca vive o muere
pues nunca tuvo nombre.

PARA VIVER

A mão escreve para não morrer.

Ou conta o mundo em sílabas contadas

Para dizer: aqui termina o mundo,

fora impera a noite

e o frio da noite,

o lento gotejar das estrelas

e seu teimoso silêncio impenetrável.

 

A mão escreve para não morrer.

Assemelha-se a sua irmã, a língua,

envolta em um temor que não compreende,

alheia a raiz que a redime.

 

A mão escreve para não morrer.

Ou diz o mundo em sílabas contadas

para dizer: aqui termina o mundo,

fora impera a noite

e o frio da noite,

quietude do que nunca vive ou morre

pois nunca teve nome.

Ilustração: Nexo Jornal.

Sunday, July 12, 2026

Exercícios Espirituais segundo Geoffrey Brock

 


EXERCITIA SPIRITUALIA

Geoffrey Brock
We met, like lovers in movies, on a quay
Beside the Seine. I was reading Foucault
And feeling smart. She called him an assault
On sense, and smiled. She was from Paraguay,
Was reading Saint Ignatius. Naivete
Aroused her, so she guided me to Chartres
And Sacre Coeur, to obscure theatres
For passion plays - she was my exegete.
In Rome (for Paris hadn't been enough)
We took a room, made love on the worn parquet,
Then strolled to Sant'Ignazio. Strange duet:
Pilgrim and pagan, gazing, as though through
That ceiling's flatness, toward some epitome
Of hoped-for depth. I swore I saw a dome.
EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS
Nos encontramos, como os amantes de das películas, em um cais
junto ao Sena. Eu estava lendo Foucalt
e me sentia inteligente. Ela me chamou de agressor
de sentido e sorriu. Ela era paraguaia,
lia Santo Inácio. A ingenuidade
a animava. Por isto me guiou a Chartres
e ao Sacre Coeur, a obscuros teatros
para ver peças de teatro da Paixão de Cristo. Ela foi minha exegeta.
Em Roma (porque Paris não foi bastante)
alugamos um quarto e nos amamos sobre o velho assoalho.
Depois nos lançamos correndo a Santo Inácio. Estranha dupla:
peregrina e pagã, olhando, como que através
da lisura daquele teto, algum epitome
da profundidade almejada. Jurei que vi uma cúpula.

Ilustração: Amazon.


De novo Karlos Ramos

 


                              NOVELA GRÁFICA

Karlos Ramos

Yo podría
lo sé bien
vivir en una novela gráfica o al menos
resistir
el embate de las olas ser
el fruto tardío de una relación incesante
entre tu boca apuntada de deseo
y el dibujo de mis márgenes
ser el envite atrevido
el trazo enérgico
la historia de amor desgarrada
la típica comedia romántica
de la posguerra americana
ser Solnegre
ser partida
ser el último día de Tyrone Power
con la cabeza sobre el pecho
oliva de la Reina de Saba.

NOVELA GRÁFICA

Eu poderia

o sei bem

viver em uma novela gráfica ou pelo menos

resistir

ao embate das ondas ser

o fruto tardio de uma relação incessante

entre tua boca apontada de desejo

e o desenho das minhas margens

ser o desafio ousado

o traço enérgico

a história de amor desgarrada

a típica comédia romântica

da América do pós-guerra

ser Solnegre

ser partida

ser o último dia de Tyrone Power

com a cabeça sobre o peito

cor de azeitona da Rainha de Sabá.

Ilustração: Renata Lustosa. 



Outra poesia de Georges Bataile

 

                                TU ES L’HORREUR...

Georges Bataille
Tu es l’horreur de la nuit
Je t’aime comme on râle
Tu es faible comme la mort

Je t’aime comme on délire
Tu sais que ma tête meurt
Tu es l’immensité la peur

Tu es belle comme on tue
Le cœur démesuré j’étouffe
Ton ventre est nu comme la nuit.

TU ÉS O HORROR...

Tu és o horror da noite

Eu te amo como se gemesse

Tu és frágil como a morte

 

Eu te amo como se delirasse

Sabes que minha mente morre

Tu és a imensidão, o medo

 

Tu és bela como matar é belo

Com meu coração desmesurado me afogo

Teu ventre é nu como a noite

Ilustração: Prime Vídeo. 




O amor que não é mais o mesmo



PARA NÃO TE ESQUECER

Silvio Persivo

Lentamente

como uma chama que se apaga

o nosso amor foi se acabando.

Por mais que peça ao tempo para parar,

indiferente, 

vai passando, 

vai deixando só

 lembrança

de um tempo tão feliz. 

E, de repente, somente existe

uma sombra de tudo,

que foi tanto,

E, para não te esquecer, 

Faço um verso para você 

e canto!

Ilustração: Mensagens de Amor. 

 

Monday, July 06, 2026

O Poema CXIV de Dulce María Loynaz

 


POEMA CXIV

Dulce María Loynaz

El mundo entero se me ha quedado vacío, dejado por los
hombres que se olvidaron de llevarme.
Sola estoy en esta vasta tierra, sin más compañía que los
animales que tampoco los hombres necesitan, que los árboles
que no creen necesitar.
Y mañana, cuando les falte el canto de la alondra o el perfume
de la rosa, se acordarán de que hubo una flor y que hubo un
pájaro. Y pensarán acaso que era bueno tenerlos.
Pero cuando les falte mi verso tímido, nadie sabrá que alguna
vez yo anduve entre ellos.

POEMA CXIV

O mundo inteiro ficou vazio para mim, deixada pelos

homens que se esqueceram de me levar.

Estou sozinho nesta vasta terra, sem outra companhia além dos animais que, tampouco os homens não necessitam, e das árvores

que eles creem que não necessitar.

E amanhã, quando lhes faltar o canto da cotovia ou o perfume

da rosa, eles se lembraram de que havia uma flor e que havia um

pássaro. E talvez pensem que foi bom tê-los.

Porém quando lhes faltar meu tímido verso, ninguém saberá que algum dia

eu andei entre eles.


Sunday, July 05, 2026

Outro poema de Karlos Ramos

 


                                          EL RINO

Karlos Ramos

Llenarme la vida de ti
vida inconmensurable
eso quisiera
en este mediodía paródico
de mi existencia
en esta hora funámbula y esquiva
ocultada a mi autobiografía.
Llenármela de ti apenas
para escupirla en un buche
de rabia rebeldía
insoportabilidad
para comer al fin
de tus manos
mansamente
para lamer las yemas de tus dedos
como un rinoceronte agradecido.

O RINO

Preencher-me a vida de ti

vida incomensurável

isto quisera

neste meio-dia paródico

de minha existência

nesta hora funâmbula e esquiva

ocultada da minha autobiografia.

Preencha-me de ti apenas

para poder cuspir de um gole

de raiva e de rebeldia

insuportável

para comer ao fim

de tuas mãos

mansamente

para lamber as gemas de teus dedos

como um rinoceronte agradecido.

Ilustração: Observador. 



Sonho de Inverno de Arthur Rimbaud

 

Rêvé pour l'hiver
Arthur Rimbaud
L'hiver, nous irons dans un petit wagon rose
Avec des coussins bleus.
Nous serons bien. Un nid de baisers fous repose
Dans chaque coin moelleux.

Tu fermeras l'oeil, pour ne point voir, par la glace,
Grimacer les ombres des soirs,
Ces monstruosités hargneuses, populace
De démons noirs et de loups noirs.

Puis tu te sentiras la joue égratignée...
Un petit baiser, comme une folle araignée,
Te courra par le cou...

Et tu me diras: "Cherche! "en inclinant la tête,
- Et nous prendrons du temps à trouver cette bête
- Qui voyage beaucoup...

SONHO DE INVERNO

No inverno, nós iremos num pequeno vagão rosa

Com almofadas azuis.

Nós estaremos bem. Um ninho de beijos loucos repousado

Em cada canto macio.

 

Tu fecharás os olhos, para não ver, através do vidro da janela,

A noite e suas negras sombras,

Os monstros ameaçantes, uma ralé

De demônios negros e lobos negros.

 

Depois sentirás tua bochecha arranhada...

Um pequeno beijo, como uma aranha louca,

Descerá pelo teu pescoço...

 

E tu me dirás: "Olha!" inclinando a cabeça,

- E perderemos muito tempo encontrando essa criatura

- Que viaja tanto...

Ilustração: Srock Cage. 

 



O amor é eterno, segundo Van Gogh

 

UM VAN GOGH DO AMOR  

Silvio Persivo

Nada do que fizermos há de mudar o que houve.

Sei que, hoje, talvez, te arrependas do amor passado,

Mas, a vida só vale à pena

Quando se olha para trás e há mais do que os ramos secos dos dias,

Quando existe a certeza de que existiu a alegria, o sentimento, a emoção!

Sei que dizes por aí que fui uma ilusão infeliz

Como se quisesses apagar a ternura que ainda me transmite

o teu olhar.

Deve ser pelo fato de que não consigas chorar

E porque não vivemos todo o grande amor que deveríamos viver.

Sinto te dizer

Que não há tempo nem espaço para mudar

o roteiro que a vida nos deu.

O que se perdeu, se perdeu.

O que se ganhou foi a ternura, o amor

Que construímos com as palavras e os encontros

Que, mesmo não sendo tantos,

Foi palco de um gozo tão grande e infinito

Que permanece na galeria de nossas vidas

Como o quadro mais bonito

E não posso fazer nada

Se, hoje, me diz

Que o escondeu voltado para a parede.

O nosso amor foi uma obra de arte

E cada qual faz o que quer com sua parte.

A minha sempre vou expor

Como se fosse um Van Gogh do amor.

A VAN GOGH OF LOVE

Nothing we do will change what happened.

I know that today, perhaps, you regret the past love,

But life is worth it

When you look back and there's more than the dry branches of days,

When there is certainty that there was joy, feeling, emotion!

I know you say that I was an unhappy illusion

As if you wanted to erase the tenderness that you still transmit to me

your look.

It must be because you can't cry

And because we don't experience all the great love we should experience.

sorry to tell you

That there is no time or space to change

the script that life gave us.

What was lost, was lost.

What was gained was tenderness, love

That we build with words and encounters

That, even if not so many,

It was the scene of such great and infinite joy

That remains in the gallery of our lives

like the most beautiful picture

And I can't do anything

If, today, tell me

Who hid it facing the wall.

Our love was a work of art

And each one does what he wants with his share.

mine will always show

Like a Van Gogh of love.

Thursday, July 02, 2026

E lá vem Luis Martín-Santos de novo

 

                                       ARMONÍA

Luis Martín-Santos

Armonía siempre es razón,
razón y causa:
De los leves efectos de una pausa
desciende el rubor de la emoción.

Armonía siempre es verdad,
verdad y reto:
Tras su ágil vallado, el verde seto
un brinco es, tras el triunfo del audaz.

Armonía siempre es mujer,
mujer fecunda:
su seno portentoso el mundo inunda
de belleza bañando al puro ser.

HARMONIA

A harmonia sempre é razão,

razão e causa:

Dos leves efeitos de uma pausa

descende o rubor da emoção.

A harmonia sempre é verdade,

verdade e desafio:

Por trás de sua cerca veloz, a cobertura verde

um salto é, por trás do triunfo do audaz.

A harmonia sempre é mulher,

mulher fecunda:

seu seio portentoso o mundo inunda

de beleza, banhando o ser puro.

Ilustração: Wikipédia.