OS SOLDADOS DA BORRACHA
Silvio Persivo
Nunca foi leve o chamado da pátria,
nem doce o sonho que os fez partir;
eram homens de pó e de seca exata,
com fome de vida e pressa de existir.
Do Ceará ressequido e esquecido,
brotaram como prece no chão rachado,
carregando no peito um Brasil prometido
e nos olhos um futuro imaginado.
Nos porões da esperança embarcaram,
sem céu, sem rumo, sem luz, sem chão;
na noite densa, amontoados, sonharam
com dignidade, trabalho e pão.
Do cozidão ralo e do charque salgado,
fizeram sustento e resignação;
cada corpo cansado, cada olhar calado,
era um grito contido na escuridão.
Mas a selva - ah, a selva amazônica-
não conhece promessas nem compaixão;
ergueu-se soberana, verde e irônica,
testando o limite de cada irmão.
Ali, o látex sangrava das árvores
como seiva e suor entrelaçados;
e junto ao corte preciso dos homens
iam seus sonhos sendo exauridos, calados.
Chamaram-nos soldados- e eram, de fato-
sem farda, sem arma, sem medalha ou canhão;
travaram na mata um combate ingrato,
defendendo a pátria com a própria mão.
Pobres arigós, heróis esquecidos,
que a história demora a reconhecer;
muitos tombaram, sequer sabidos,
sem ao menos um nome para sobreviver.
E hoje, no silêncio da relva espessa,
onde o tempo repousa sem explicação,
ecoam memórias de dor e promessa
dos homens que deram a vida à nação.
Que a terra os guarde com mais justiça
do que o mundo lhes soube ofertar;
pois sua luta, feita em sacrifício,
foi um Brasil inteiro a sustentar.
