Tuesday, August 25, 2026

"Con El Alma" de William Keith Sutherland

 


CON EL ALMA

William Keith Sutherland

Tomé mis pasos, fríos, húmedos igual que mi rostro, y emprendí el camino.

Mi vida nómade, era suspiro deambulando entre tus hojas sin aún saberte cierta, era viento raudo entre tus rocas marinas, era ola desmayada, esperando reventar en tu mar nocturno, sonoro, infinito, orgásmico.

No busqué y llegaste ¿A qué se debe tanta vida que me es legada?

Mi silueta desnuda, inundada de raíces este campo santo que pare tanto olvido.

Mis manos sembraban fugaces estrellas en medio de una despedida, bajo el pecho pecoso de la diosa de este último firmamento.

La lluvia besaba el granito de mi lengua versada en la pureza, como soltura de un espíritu escondido entre la hierba fresca, agitada por las manos de ausentes dioses, en esta indolente lejanía.

Insondable es mi reflejo, un pálpito anacoreta, un hacha anclada en carne media, derramando vendimia al otro lado de tus bordes.

Bebí de tu vertiente pura y cálida sin tenerte, navegué aquellas aguas entre los muslos de tus montes, y abracé como un templo, tu fe más lejana.

Recorrí tu cuerpo desnudo como aguacero, acuné tus amaneceres y tu atardecer más triste, hice mío tu dolor más hondo, en silencio, observándote, como el tiempo, como beso eterno donde la razón no dicta s cátedra, ahí donde mis palabras fueron lengua en lo profundo y sublime, y levanté mi cuerpo en un mordisco, para caer de nuevo como hoguera en este encendido instante donde no hago más que darme a ti.

Me senté a navegar con mis ojos aquella tardecita lluviosa en el borde del estrecho mar, y sentiste al mundo como un temblor.

Acercaste esa distancia que deseas,y me hice poesía entre tus labios, un ave feliz en este mundo y posé mi razón frágil, entrega desnudada entre tus manos como un perdón.

Ahora, despierto en medio del embate de la razón, y sin embargo, aún estás ahí, tan presente sin tenerte, como bella melodía que siento, mas no veo; que me toca, hasta mi alma más lejana, aquella aún por nacer.

Aún amo aquel libro que selló en una conversación un destino, que aferró mis manos a una mirada, y que sin desear, rebosa todos mis sentidos.

COM A ALMA

Peguei meus passos, frios e úmidos como meu rosto, e parti.

Minha vida nômade era um suspiro vagando entre suas folhas sem ainda saber-te certa, era um vento rápido entre suas rochas marinhas, era uma onda fraca, esperando para estourar em seu mar noturno, sonoro, infinito, orgástico.

Não busquei e chegastes. Por que tanta vida me foi legada?

Minha silhueta nua, inundada de raízes, esse campo sagrado que impede tanto esquecimento.

Minhas mãos semearam estrelas fugazes em meio a uma despedida, sob o peito sardento da deusa deste último firmamento.

A chuva beijou o granito da minha língua versada em pureza, como a frouxidão de um espírito escondido entre a erva fresca, agitado pelas mãos de deuses ausentes, neste indolente afastamento.

Meu reflexo é insondável, o batimento cardíaco de um anacoreta, um machado ancorado no meio da carne, derramando colheita de uvas do outro lado de suas bordas.

Bebi da tua fonte pura e cálida sem ter-te, naveguei por aquelas águas entre os músculos das tuas montanhas, e abracei como um templo, a tua fé mais distante.

Corri sobre teu corpo nu como um aguaceiro, embalei teus amanheceres e teus entardeceres mais tristes, fiz minha a tua dor mais profunda, em silêncio, observando-te, como o tempo, como um beijo eterno onde a razão não dita seu ensinamento, ali onde minhas palavras eram língua no profundo e sublime, e ergui meu corpo numa mordida, para cair de novo como uma fogueira num instante ardente onde não faço outra coisa senão entregar-me a ti.

Sentei-me para navegar com os olhos naquela tardezinha chuvosa à beira do mar estreito, e sentiste o mundo tremer.

Te aproximaste à distância que desejas, e eu me tornei poesia entre seus lábios, um pássaro feliz neste mundo e coloquei minha razão frágil, entregue nua nas tuas mãos como um perdão.

Agora, desperto em meio ao combate da razão, e, sem embargo, continuas aí, tão presente sem te ter, como uma bela melodia que sinto, mas não vejo; que me toca, até mesmo a alma mais distante, aquela que ainda vai nascer.

Eu ainda amo aquele livro que selou um destino numa conversa, que segurou minhas mãos num olhar e que, sem querer, transbordou todos os meus sentidos.

Ilustração: Alta Muiscalidade.

 

Monday, August 24, 2026

E, agora, Giulio Maffii

 


                                              VI

Giulio Maffii

L’errore è dentro noi nelle parole

negli eventi nelle liste programmatiche

Siamo un prestito del tempo

le tre colonne del tempio?

siamo mercanti adoratori

la sconfitta di qualsiasi dio

siamo la terra guasta dentro la grondaia

il fine ultimo della nuvola

il grido dell’albero che esce dalla radice

siamo e fummo

perché il verbo non ha desinenze

quando è fuori dalla grammatica vivente

e poi scendemmo ancora mentre

VI

O erro está dentro de nós nas palavras

nos eventos nas listas programáticas

Somos um empréstimo do tempo

as três colunas do templo?

Somos adoradores de mercadores

a derrota de qualquer deus

somos a terra estragada dentro da sarjeta

o fim último da nuvem

o grito da árvore que vem da raiz

nós somos e fomos

porque o verbo não tem desinências

quando está fora da gramática viva

e por isto então descemos novamente

Ilustração: Patrícia Rodrigues.  


Sunday, August 23, 2026

Charles Bukowski em seu estado quase normal

 

HERE I AM

Charles Bukowski

drunk again at 3 a.m. at the end of my 2nd bottle
of wine, I have typed from a dozen to 15 pages of
poesy
an old man
maddened for the flesh of young girls in this
dwindling twilight
liver gone
kidneys going


pancrea pooped
top-floor blood pressure 

AQUI ESTOU EU

bêbado de novo às 3 da manhã, no fim da minha segunda garrafa

de vinho; eu digitei de uma dúzia a 15 páginas de

poesia

um homem velho

enlouquecido pela carne de moças jovens neste

crepúsculo minugante

o fígado já era

os rins já se foram

o pâncreas pifado

e a pressão arterial lá nas alturas

Ilustração: Xico Sá-UOL.

 


"A Veces" de Nicolás Guillén

 


A VECES

Nicolás Guillén

A veces tengo ganas de ser un cursi

para decir: La amo a usted con locura.

A veces tengo ganas de ser tonto

para gritar: ¡La quiero tanto!

A veces tengo ganas de ser un niño

para llorar acurrucado en su seno.

A veces tengo ganas de estar muerto

para sentir, bajo la tierra húmeda de mis jugos,

que me crece una flor rompiéndome el pecho,

una flor, y decir: Esta flor,

para usted.

ÀS VEZES

Às vezes tenho vontade de ser piegas

para dizer: te amo com loucura.

Às vezes tenho vontade de ser tonto

gritar: Te amo tanto!

Às vezes tenho vontade de ser uma criança

para chorar encolhida no seu seio.

Às vezes tenho vontade de estar morto.

para sentir, sob a terra úmida dos meus sucos,

que me cresce uma flor cresce rompendo-me o peito,

uma flor, e dizer: Esta flor,

para você.

Ilustração: Vecteezy.


Saturday, August 22, 2026

Ode ao Vinho (Ode To Wine)

 


                                  ODE AO VINHO

Silvio Persivo

Há um dia em que se calarão os desejos. 

Hoje não.

Hoje preciso, necessito, urgente

De teus beijos, de teu corpo,

De sentir de novo a sensação

De que o amor não é uma ilusão.

 

E sôfrego conseguir chegar a algo,

Deixar crescer a flor da pele

O desejo guardado

Que vem assim louco, desesperado,

Em paixão aflorar

E satisfeito e calmo estar.

 

Sei que fui,

Que vou além do que devia,

Mas, amor, o amor é uma agonia,

Desembrulhando as emoções inesperadas

Que são espalhadas em suor, manchas, lençóis

E deixam marcas eternas em nós.

 

A névoa brinca com a clareza.

Pode ser que a vida seja

Um caminho de luz

Perdido na noite escura.

Limito minha procura

Ao prazer do instante.

Nada de pensar no adiante

Nem antecipar o gozo ou a tristeza.

 

Cada momento tem sua própria beleza

Como o vinho que bebemos nesta mesa.  

ODE TO WINE

There will come a day when desires fall silent.

Not today.

Today I need-urgently need-

Your kisses, your body,

To feel once more the sensation

That love is no illusion.

 

And, breathless, to reach that point,

To let the flower of desire

Bloom upon the skin-

That pent-up longing, wild and desperate,

Bursting forth in passion,

Finding calm and fulfillment.

 

I know I have gone-

That I go-beyond what I should,

But, my love, love is an agony,

Unfolding unexpected emotions

Scattered in sweat, stains, and sheets,

Leaving eternal marks upon us.

 

Mist plays with clarity.

Life may well be

A path of light

Lost in the dark of night.

I limit my quest

To the pleasure of the moment.

No thinking of what lies ahead,

No anticipating ecstasy or sorrow.

 

Each moment holds its own beauty

Like the wine we drink at this table.

Ilustração: Facebook.


"Dream Variations" de Lanfston Hughes



DREAM VARIATIONS

Langston Hughes

To fling my arms wide

In some place of the sun,

To whirl and to dance

Till the white day is done.

Then rest at cool evening

Beneath a tall tree

While night comes on gently,

    Dark like me-

That is my dream!

 

To fling my arms wide

In the face of the sun,

Dance! Whirl! Whirl!

Till the quick day is done.

Rest at pale evening . . .

A tall, slim tree . . .

Night coming tenderly

    Black like me.

VARIAÇÕES DE SONHO

Para colocar meus braços longos

Em algum lugar do sol,

Para girar e dançar

Até o dia branco terminar.

Então descansar na fria noite

Sob uma árvore alta

Enquanto a noite vem gentilmente,

     Escura como eu-

Este é meu sonho!

 

Para pôr meus braços longos

Em frente ao sol,

Dançar! Girar! Girar!

Até que o rápido dia se vá.

Descansar na pálida noite. . .

Uma árvore alta e esguia. . .

A noite vindo suavemente

     Escura como eu.

Ilustrações: Correio Braziliense. 



Mais uma vez: as mesmas promessas

 


                                   MERCADERES DE ILUSIÓN

Aníbal Rodríguez

Proclamando libertad

llenos de falsos anhelos

los políticos siniestros

nos hablan de bien y paz.

 

Nos exhortan a luchar

con esforzado denuedo

pero ellos buscan el puesto

que plata les brindará.

 

De justicia hacen pendón

derechistas e izquierdosos;

y predicando el amor

 

y de equidad grandes logros;

ellos te ofrecen el sol

para conseguir tu voto.

MERCADORES DE ILUSÃO

Proclamando a liberdade,

cheios de falsas esperanças,

os políticos sinistros

nos falam de bem e paz.

 

Nos exortam a lutar

com esforçado denodo,

porém eles buscam o posto

que o dinheiro lhes brindará.

 

 

Da justiça fazem um pendão

direitistas e esquerdistas;

e pregando o amor

 

e de igualdade grandes conquistas;

eles te oferecem o sol

para conseguir o teu voto.

Ilustração: A Crítica de Campo Grande.

 





Friday, August 21, 2026

"ice" de Andrew Motion

 


                                            ICE

Andrew Motion

When friends no longer remembered
the reasons we set forth,
I switched between nanny and tartar
driving us on north.

Will you imagine a human hand
welded by ice to wood?
And skin when they chip it off?
I don’t think you should.

By day the appalling loose beauty
of prowling floes:
lions’ heads, dragons, crucifix-wrecks,
and a thing like a blown rose.

By night the seething hiss
of killers cruising past –
the silence after each fountain-jet,
and our hearts aghast.

Of our journey home and the rest
there is nothing more to say.
I have lived and not yet died.
I have sailed in the Scotia Sea.

GELO

Quando os amigos já não se lembravam

dos motivos que nos levaram a partir,

eu alternava entre babá e tártaro

conduzindo-nos para o norte.

 

Você consegue imaginar uma mão humana

soldada pelo gelo à madeira?

 

E a pele quando a lascam?

 

Acho que não deveria.

 

Durante o dia, a beleza selvagem e assustadora

dos blocos de gelo à espreita:

cabeças de leão, dragões, destroços de crucifixos,

e algo parecido com uma rosa desabrochada.

 

À noite, o sibilar fervilhante

de navios assassinos que passam velozmente –

o silêncio após cada jato de água,

e nossos corações em choque.

 

Da nossa jornada para casa e do resto,

não há mais nada a dizer.

Eu vivi e ainda não morri.

Eu naveguei no Mar da Escócia.

Ilustração: Get Your Guide. 


Bem fora da hora do café



        

                              CONTIGO NA DISTÂNCIA

                             Silvio Persivo

                             Se tivesse um café,

agora,

mesmo fora

da tradicional hora,

gostaria tanto

que te falaria, até por

                                     delicadeza,

                               sobre o reino de prazer

                               não expresso e a beleza

                                de viver ao teu lado.

                               Olho para as evoluções

                               do tempo, os pontos negros,

                                as sombras, os cinzentos espaços,

                                      perscruto as escolhas

                                sem me sentir culpado

                                por não saber os próximos passos

                                e por não ter soluções.

                                Adoraria uma sardinha

                                ou um peixe grelhado,

                                também estar do lado,

                                enquanto degusto o sashimi

                                com shoyu,

                                este molho japonês nosso,

                                mas, vivo o que posso

                                e o possível, no momento,

                                é te dizer

                                que, até de tão longe,

                                não se esgota o meu querer.

                                Sinto falta de você!

 CONTIGO EN LA DISTANCIA

Silvio Persivo

Si tuviera un café ahora,

incluso fuera de la hora habitual,

me encantaría,

que te contaría, incluso con delicadeza,

sobre el reino del placer inexpresado y la belleza

de vivir a tu lado.

Observo la evolución del tiempo, los puntos negros,

las sombras, los espacios grises,

analico las decisiones

sin sentirme culpable por no saber qué hacer a continuación

ni por no tener soluciones.

Me encantaría una sardina

o un pescado a la parrilla,

estar también a tu lado,

mientras saboreo el sashimi con salsa de soja,

esa salsa japonesa nuestra,

pero vivo lo que puedo,

y lo que es posible, por el momento,

es decirte

que, incluso desde tan lejos,

mi deseo no se agota.

¡Te extraño!

Ilustração: Caneca Cerâmica-I love coffee



Um poema de Boderra Joe

 


CURVE  WAVES

Boderra Joe

a hole

            a floating rib

an admirer’s shadow

            ribs with grief

a taper hall

            an empty street

a black hole 

            named love

its low density

            like clouds, dust, cosmic ray

 

at the center of the milky way

            thousands of them

i bet it hurts

            your lungs

as air expands

            tears through tissue

you inhale all the oxygen

            from us in fifteen seconds

who can dust your bones?

            time is infinite

 

i wish upon stars

            not old enough for light to reach

 wish upon a name

            to leave your lips as print

even moon rocks crumble

            zero point zero four inches

a million years

            call it what it feels like

love

            space junk

a dirty collision

            a chain reaction

a thick cloud of debris

            traveling fast

ONDAS CURVAS

um buraco

             uma costela flutuante

a sombra de um admirador

             costelas com tristeza

um salão cônico

             uma rua vazia

um buraco negro

             chamado amor

com baixa densidade

             como nuvens, poeira, raio cósmico

 

no centro da via láctea

             milhares deles

eu aposto que dói

             seus pulmões

medida que o ar se expande

             lágrimas através do tecido

você inala todo o oxigênio

             nosso em quinze segundos

quem pode limpar seus ossos?

             o tempo é infinito

 

eu desejo às estrelas

             não há idade suficiente para a luz chegar

 ao desejo em cima de um nome

             para deixar seus lábios como impressão

até as rochas da lua desmoronem

             zero ponto zero quatro polegadas

um milhão de anos

             chame-o como se sente

amor

             lixo espacial

uma colisão suja

             uma reação em cadeia

uma espessa nuvem de detritos

             viajando rápido

Ilustração: Correio Braziliense.