Wednesday, October 31, 2018

Uma poesia de Carmen del Río Bravo


DE NUEVO

Carmen del Río Bravo

Te enamoras de nuevo. Sientes que quieres de un modo diferente. Se te acelera el pulso cuando lo ves, cuando lo presientes, cuando lo recuerdas, cuando lo sueñas, cuando ni lo echas de menos. La piel se te vuelve viva, y hambrienta. Te descubres alerta, más carne y más deseo. Todo tiene olores y colores y sabores y sonidos de estreno. Y el tacto... hasta el papel adquiere uno más intenso, es mucho más suave y más rugoso.

Y a veces lo consigues. Eres correspondida. Todo parece diferente, nunca has sido tan piel, nunca tan sueño, nunca has volado tan alto tocando tanto el suelo.

Pasa el tiempo. Y un día amaneces con frío y cuando estiras el brazo no encuentras nada con que abrigarte. O lo que encuentras no abriga ya. Y poco a poco -no se suele tirar bruscamente- se agranda la distancia. Y te das cuenta de que hace tiempo que no te acaricia un folio ni te huele la sal en la cocina. Ya ni te mete mano la toalla. Y no hay más cera que la que arde. Y ésta no quema.

Después de algún tiempo lo que más echas de menos es a ti misma en vuelo -en celo-. Tu carne, tu deseo, tu conciencia... Ya estás lista. De nuevo.


DE NOVO

Te apaixonas de novo. Sentes que queres de um modo diferente. É o teu pulso que se acelera quando a vê, quando a recordas, quando sonhas sobre quando ou quando não a encontras. A pele se torna viva, e faminta. Te descobres alerta, mais carne e mais desejo. Tudo tem cores e odores e sabores e sons de estréia. E toque ... até  o papel adquire uma forma mais intensa, é muito mais suave e mais robusto.

E às vezes o consegues. És correspondido. Tudo parece diferente, nunca foi tão pele, nunca tão sonho, nunca voou tão alto, tocando tanto o chão.

O tempo voa. E um dia amanheces com frio e quando esticas  o braço não consegue encontrar qualquer coisa para mantê-lo aquecido. Ou o que você encontra não abriga mais. E, pouco a pouco- não se pode tirar bruscamente a distância- aumenta drasticamente a distância. E percebes que não te e acaricia um pedaço de papel ou não sentes o cheiro do sal na cozinha. E já não metes a mão na toalha. E não mais a cera arde. E já não queima.

Depois de algum tempo o que mais sinto é menos tua falta é a ti mesma no voo -em zelo. Tua carne, teu desejo, tua consciência ... Já estás pronta. De novo.

Ilustração: Comunidade Oásis. 

E, novamente, os versos de Dulce María Loynaz


CREACIÓN                   
Dulce María Loynaz

Y primero era el agua:
un agua ronca,
sin respirar de peces, sin orillas
que la apretaran…
Era el agua primero,
sobre un mundo naciendo de la mano de Dios…
Era el agua…
Todavía
la tierra no asomaba entre las olas,
todavía la tierra
sólo era un fango blando y tembloroso…
No había flor de lunas ni racimos
de islas… En el vientre
del agua joven se gestaban continentes…
¡Amanecer del mundo, despertar
del mundo!
¡Qué apagar de fuegos últimos¡
¡Qué mar en llamas bajo el cielo negro¡
Era primero el agua.

CRIAÇÃO

E primeiro era a água:
uma água rouca,
sem respirar de peixes, sem costas
que a apertaram ...
Era a água primeiro
sobre um mundo nascido da mão de Deus ...
Era a água ...
Todavia,
a terra não aparecia entre as ondas,
todavia, a terra
só era uma lama macia e trêmula ...
Não havia flor de luas ou raízes
das ilhas ... No ventre
da água jovem se gestavam continentes ...
Amanhecer do mundo, despertar
do mundo!
O que apagar dos últimos incêndios!
Que mar em chamas sob o céu negro!
Era primeiro a água.

Ilustração: Contos e Estudos Bíblicos.

Outra poesia de Félix Grande


Una postal de nieve                        
Félix Grande

Cuando me tienda en la vejez
como en un mal cerrado sepulcro
maldeciré tu nombre

Sólo porque esta noche
enajenado y absorto en tu cuerpo
he deseado que fueras eterna

y no sabía si pegarte o llorar.

Um cartão postal de neve

Quando na minha tenda na velhice
como em um mal fechado tumulo
amaldiçoar o teu nome

Só porque esta noite
alheado e absorto em teu corpo
desejei que fosses eterna

e eu não sabia se te pegava ou chorava.

Ilustração: hateyourmusic – Bandcamp. 

Tuesday, October 30, 2018

E, de volta, Delmira Agustini


Con tu retrato              

Delmira Agustini

Yo no sé si mis ojos o mis manos
encendieron la vida en tu retrato;
nubes humanas, rayos sobrehumanos,
todo tu Yo de Emperador innato

amanece a mis ojos, en mis manos.
¡Por eso, toda en llamas, yo desato
cabellos y alma para tu retrato,
y me abro en flor!… Entonces, soberanos

de la sombra y la luz, tus ojos graves
dicen grandezas que yo sé y tú sabes…
y te dejo morir… Queda en mis manos

una gran mancha lívida y sombría…
¡Y renaces en mi melancolía
formado de astros fríos y lejanos!

Com teu retrato

Eu não sei se meus olhos ou minhas mãos
incendiaram a vida em teu retrato;
nuvens humanas, raios sobre-humanos,
todo tu e eu de imperador inato

amanhece nos meus olhos, nas minhas mãos.
É por isso que, tudo em chamas, eu desato
cabelos e alma para o teu retrato
e eu me abro em flor! ... Então, soberanos

da sombra e da luz, teus olhos graves
dizem grandezas que eu e tu sabes ...
e te deixo morrer ... Fica nas mãos minhas

um grande mancha, lívida e sombria ...
E renasces na minha melancolia
formada de estrelas frias e retiradas!

Ilustração: Maria Antonieta Lourenço. 




Outra poesia de Carmelina Soto


Los amantes                   
Carmelina Soto

Los que se amaron deben quedar ciegos.
Porque sus gestos sean sin sentido.
Porque sus brazos giren sin gracia ni provecho.
Como las tempestades…
ciegos.

Ciegos como banderas después de la victoria
o como las espadas
que están siempre desnudas y gloriosas.

Qué rencor por los ciegos
y por las tempestades.
Y por los que creen que el amor es la hartura.
Oídlo bien: El amor es el hambre.

OS AMANTES

Os que amaram devem ficar cegos.
Porque seus gestos são sem sentido.
Porque seus braços giram sem graça ou proveito.
Como as tempestades ...
Cegos

Cegos como bandeiras depois da vitória
ou como as espadas
que estão sempre nuas e gloriosas.

Que rancor pelos cegos
e as tempestades.
E por aqueles que creem que o amor é abundante.
Ouça bem: o amor é fome.

Ilustração: Sertão Poeta.


Monday, October 29, 2018

Uma poesia de Félix Grande


Vivir a cara o cruz                                                 Félix Grande

Carezca yo de ti
y al infortunio suceda la desgracia
y a la desgracia el cataclismo
y a todo ello asistiría
con el desinterés de un muerto.

Estés conmigo tú
y por cada brizna de dicha
que pretendan arrebatarnos
avanzarían desde mi corazón
espléndidos ejércitos de odio.

Tú puedes ser la espalda atroz de mi destino
o mi patria de carne.

VIVER O ROSTO OU A CRUZ

Eu sinto a tua falta
e  ao infortúnio sucede à desgraça
e à desgraça o cataclismo
e a tudo isto assistiria
com o desinteresse de um morto.

Estás comigo tu
e para cada pedacinho de felicidade
que pretendem nos levar
avançariam do meu coração
esplêndidos exércitos de ódio.

Tu podes ser a  espada atroz do meu destino
ou minha pátria de carne.

Ilustração: Spirit Fanfics e Histórias.

Friday, October 26, 2018

Uma poesia de Akhmatova


I Taught Myself To Live Simply                  

Anna Akhmatova

I taught myself to live simply and wisely,
to look at the sky and pray to God,
and to wander long before evening
to tire my superfluous worries.
When the burdocks rustle in the ravine
and the yellow-red rowanberry cluster droops
I compose happy verses
about life's decay, decay and beauty.
I come back. The fluffy cat
licks my palm, purrs so sweetly
and the fire flares bright
on the saw-mill turret by the lake.
Only the cry of a stork landing on the roof
occasionally breaks the silence.
If you knock on my door
I may not even hear.

Eu ensinei a mim mesmo uma maneira simples

Eu ensinei a mim mesmo uma maneira simples e sábia de viver,
olhar para o céu e orar para Deus,
e vagar muito antes da noite
cansar minhas preocupações supérfluas.
Quando as bardanas farfalharem na ravina
e o aglomerado amarelo-vermelho da sorva inclinar-se
eu componho versos felizes
sobre a decadência, a decadência e a beleza da vida.
Eu volto. O gato fofo
lambe minha palma, ronrona tão docemente
e o fogo se ilumina
na torre da serraria à beira do lago.
Apenas o grito de uma cegonha pousando no telhado
ocasionalmente quebra o silêncio.
Se você bater na minha porta
eu posso nem ouvir.

Ilustração: A mente é maravilhosa.


Thursday, October 25, 2018

A poesia de Gilberto Owen


Es ya el cielo                   
Gilberto Owen

Es ya el cielo. O la noche. O el mar que me reclama
con la voz de mis ríos aún temblando en su trueno,
sus mármoles yacentes hechos carne en la arena,
y el hombre de la luna con la foca del circo,
y vicios de mejillas pintadas en los puertos,
y el horizonte tierno, siempre niño y eterno.
Si he de vivir, que sea sin timón y en delirio.

É já o céu

É já o céu. Ou a noite. Ou o mar que me reclama
com a voz dos meus rios ainda que tremendo em seu trovão,
os seus mármores deitados feito carne na areia,
e o homem da lua com a foca do circo,
e os vícios das bochechas pintadas nos portos,
e o horizonte terno, sempre criança e eterno.
Se tenho que viver, que seja sem leme e em delírio.

Ilustração: Marilda Castanha.

E, de volta, a poesia de Philip Larkin


Days                                 
Philip Larkin

What are days for?
Days are where we live. 
They come, they wake us 
Time and time over.
They are to be happy in: 
Where can we live but days?

Ah, solving that question
Brings the priest and the doctor 
In their long coats
Running over the fields.

OS DIAS

Para que são os dias?
Os dias são onde vivemos.
Eles vêm, eles nos acordam
Tempo e tempo terminados.
Eles são para sermos felizes neles:
Onde podemos viver, porém, os dias?

Ah, para solucionar esta pergunta
Estão o padre e o médico
Nos seus longos casacos
Correndo sobre os campos.

Ilustração: Blog da Sims.


Tuesday, October 23, 2018

AUSÊNCIA


É a tua ausência que nem mais lastimo.                                   
É a tua ausência que nem é mais falta.
É a tua presença tão branca,
tão apegada,
tão aconchegada
nos meus braços vazios
que já nem sinto frio.
E danço e canto e rio
e faço poesias
e invento tantas coisas
por saber que a tua ausência,
constante e assimilada,
é uma ficção, um nada,
pois, no meu coração
sempre terei você!

Ilustração: lamenteesmaravillosa.com.

Uma poesia de José Albi


Soneto de la ausência     
José Albi

¿Me oyes, amor? Hay un fragor de trenes,
o quizá de batanes o de espigas
que te aleja de mí. No, no me digas
que te irás para siempre. Los andenes

se despoblaron. Yo, regreso. Penes
por donde penes, corazón, no sigas,
no te sigas marchando. Más fatigas
y más amor perdido si no vienes.

Ay, dolor, que yo sé lo que me pasa.
Que mi casa sin ti ya no es mi casa,
y el aire ni respira ni madura.

Que estás dentro de mí, pero no basta
aunque te lleve hasta los huesos, hasta
la misma pena que hasta ti me dura.


SONETO DA AUSÊNCIA

Me ouves, amor? Há um barulho de trens,
ou talvez de moinhos ou de espigas
que te afasta de mim Não, não me digas
que te irás para sempre. As plataformas

se despovoaram. Eu regresso. Penes
por onde penes, coração, não sigas,
não sigas marchando Mais fatigas
e mais amor perdido se não vens.

Oh, dor, que eu sei o que me passa.
Que minha casa sem ti não é minha casa
e o ar não respira nem amadurecerá.

Que estás dentro de mim, porém, não basta
ainda que te leve os ossos, até
a mesma pena que ainda me dura.

Ilustração: Overdose de Poema e Outras Drogas.

E, novamente, Percy Bysshe Shelley

THE PAST                       
Percy Bysshe Shelley

I.
Wilt thou forget the happy hours
Which we buried in Love’s sweet bowers,
Heaping over their corpses cold
Blossoms and leaves, instead of mould?
Blossoms which were the joys that fell,
And leaves, the hopes that yet remain.

II.
Forget the dead, the past? Oh, yet
There are ghosts that may take revenge for it,
Memories that make the heart a tomb,
Regrets which glide through the spirit’s gloom,
And with ghastly whispers tell
That joy, once lost, is pain.


O PASSADO

I.
Você irá esquecer as horas felizes
Que nós passamos em doces amores nos carramanchões,
Empilhando sobre seus corpos frios
Flores e folhas, em vez de mofo?
Flores que eram as alegrias que caíam
E deixavam, as esperanças que ainda permanecem.

II.
Esqueça os mortos, o passado? Oh, ainda
Há fantasmas que podem se vingar por isso,
Memórias que fazem do coração uma tumba
Arrependimentos que deslizam pela escuridão do espírito
E com sussurros medonhos dizem
Que essa alegria, uma vez perdida, é dor.

Ilustração: Grupar-RP