Monday, March 31, 2025

Shakespeare sempre

 


Sonnet XVIII

William Shakespeare
Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimm’d,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature’s changing course
[ untrimm’d:
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow’st,
Nor shall death brag thou wander’st in his shade,
When in eternal lines to time thou grow’st,
So long as men can breathe, or eyes can see,
So long lives this, and this gives life to thee.
SONETO XVIII

Devo comparar-te a um dia de verão?

És mais adorável e mais temperado:

Ventos fortes espalham as folhas pelo chão,

E o tempo de verão parece bem encurtado:

Às vezes, o olho do céu brilha tão quente,

E por diversas vezes sua tez dourada escurece,

E cada dia belo de belo em algum tempo desce,

Por acaso, ou pelo curso da natureza inconstante

[ não aparada:

Mas em teu verão eterno não desaparecerás,

Nem a posse a beleza que possuis perderás,

Nem a morte há de se gabar que na sua sombra vagueias,

Nestas linhas eternas com o tempo crescerás,

Enquanto os homens respirarem, ou os olhos puderem ver,

Enquanto vida houver, meus versos te farão viver.

Ilustração: Oficina do Florista.

Sunday, March 30, 2025

Poemitos ou prosopografias de Ángel Borreguero?

 


40.

Ángel Borreguero

¿Ya? Qué va, me he limpiado en la sudadera de este.

47.

«Me apresuré a regalar las fresas a un muchachito que pareció enormemente sorprendido y asaltado por una leve sospecha. Para completar el asombro del chiquillo, Poirot le regaló la lechuga». Agatha Christie

48.

El ojo malo de Savater, amarillo como la piedra de Mazarino.

69.

Dientes de cerámica azul: entre Pumuki y Azufrito. El culo como un espectro hediondo.

40.

Já? Que se vá, eu me limpei no moletom deste cara.

47.

"Apressei-me a dar os morangos a um menino que pareceu enormemente surpreendido e assaltado por uma leve suspeita. Para completar o espanto do menino, Poirot deu-lhe a alface. Agatha Christie

 48.

Olho maligno de Savater, amarelo como a pedra de Mazarin.

 69.

Dentes de cerâmica azul: entre Pumuki e Azufrito. A bunda como um espectro indecente.

Ilustração: Myloview.

Outra poesia de Simon Armitage

 


THE CATCH

By Simon Armitage

Forget
the long, smouldering
afternoon. It is

this moment
when the ball scoots
off the edge

of the bat; upwards,
backwards, falling
seemingly

beyond him
yet he reaches
and picks it

out
of its loop
like
an apple
from a branch,
the first of the season

A CAPTURA

Esqueceu

a longa, calorosa

tarde. É

este momento

quando a bola sai

desde a borda

do bastão; até acima,

até abaixo, caindo

aparentemente

além dele

mas ele alcança

e a pega

fora

de seu laço

como

uma maçã

de um galho,

a primeira da temporada.

Ilustração: Freepik.

Saturday, March 29, 2025

Acalanto de Descanso


Sinto a sua presença nesta hora

em que, pela segunda vez, 

me visita a  asa negra da morte.

Sinto sua presença mais forte

e o seu sorriso me faz de novo reviver.

E, no entanto, você se vai, minha querida,

quando tudo parece florescer

e, mal acordo, seu vulto desvanece.

Sei que nada é o que parece

seja o por do sol ou o amanhecer

haverá sempre esta saudade

este vazio imenso de você 

e uma melancolia que não sei dizer. 

Ilustração: Uol Notícias. 

Uma poesia de Simon Armitage

 


Zoom!

By Simon Armitage

    It begins as a house, an end terrace

in this case

    but it will not stop there. Soon it is

an avenue

    which cambers arrogantly past the Mechanics' Institute,

turns left

    at the main road without even looking

and quickly it is

    a town with all four major clearing banks,

a daily paper

    and a football team pushing for promotion.

 

    On it goes, oblivious of the Planning Acts,

the green belts,

    and before we know it it is out of our hands:

city, nation,

    hemisphere, universe, hammering out in all directions

until suddenly,

    mercifully, it is drawn aside through the eye

of a black hole

    and bulleted into a neighbouring galaxy, emerging

smaller and smoother

    than a billiard ball but weighing more than Saturn.

 

    People stop me in the street, badger me

in the check-out queue

    and ask "What is this, this that is so small

and so very smooth

    but whose mass is greater than the ringed planet?"

It's just words

    I assure them. But they will not have it.

ZOOM!

Começa como uma casa, um fim de terraço

no caso

porém não irá parar aí. Cedo será

uma avenida

que dobra arrogantemente passando o Instituto Mecânico

girando à esquerda

na rua principal sem sequer olhar

e rapidamente é

uma cidade com todos os quatro maiores bancos,

um jornal diário

e um time de futebol lutando por promoção.

 

E continua alheia as leis de planificação.

aos cinturões verdes,

e antes que nos demos conta está fora de nossas mãos;

cidade, nação,

hemisfério, universo, expandindo-se em todas as direções

até que subitamente,

piedosamente, é atraído para o lado através do olho

de um buraco negro

e disparado até uma galáxia vizinha, emergindo

menor e mais suavemente

do que um bola de bilhar, porém mais pesada que Saturno.

 

O povo que para na rua, , me importunam

na fila do caixa

e perguntam "O que é isso, isso que é tão pequeno

e tão suave

Porém cuja massa é maior que a do planeta anelado?"

São apenas palavras

Eu lhes asseguro. Mas eles não aceitarão.

Ilustração: tl:dv.

Friday, March 28, 2025

Uma poesia de Yehuda Amichi

 


THE BODY IS THE CAUSE OF LOVE
Yehuda Amichi

The body is the cause of love;
after that, the fortress that protects it;
after that, love's prision.
But when the body dies, love is set free
in wild abundance,
like a slot machine that breaks down
and with a furious ringing pours out all at once
all the coins of
all the generations of luck.

O CORPO É A CAUSA DO AMOR

O corpo é a causa do amor;

depois disto, a fortaleza que o protege;

depois disto, a prisão do amor.

Porém quando o corpo morre, o amor é libertado

em selvagem abundância,

como uma máquina caça-níqueis que quebra

e com um toque furioso despeja de uma só vez

todas as moedas de

todas as gerações de sorte.

Ilustração: Terra.

Thursday, March 27, 2025

Completamente Perdido

 


Eu tentei me salvar de ti
Singrando mares que nunca vi
Me perdendo pelos caminhos
Como quem anda por terras estranhas
Sem saber o que é um mapa.
Eu tentei me salvar de ti
Mentindo que não senti
Vestindo máscara e capa
Com tamanhas artimanhas
Que, como um bobo da corte, ri
Do desprezo e da impotência
Que sem teu amor vivi
Perdido na inconsciência.

De: "Àguas Passadas", Editora Per Se, 2013).

Ilustração: Mega Curioso.

Outra vez Kim Morrissey

 


STEPFATHER

Kim Morrissey

Somewhere between the dark stain

on the tile

and the towels

heaped on the back of the toilet

you rest your case:

I may leave if I want

today you are giving me choices

 

I watch my head turn in the mirror

thin hair finger-brushed back

tied low on my neck like a bone

taste your hair at the back of my throat

tightly wound wires

riding the tip of my tongue

 

today is the day we make choices:

you or the foster home

you or the jail

PADRASTO

Em algum lugar entre a mancha escura

na telha

e as toalhas

amontoado na parte de trás do banheiro

você descansa do seu caso:

Posso sair se eu quiser

hoje você está me dando escolhas

 

Eu olho minha cabeça girando no espelho

os cabelos finos recobrados com os dedos

amarrados no meu pescoço como um osso

gosto do seu cabelo atrás da garganta

fios bem apertados

enrolados na ponta da minha língua

 

hoje é o dia em que fazemos escolhas:

você ou a casa adotada

você ou a prisão

Ilustração: capa-Eu Posso Amar.

Tuesday, March 25, 2025

Outra poesia de Hanni Ossott

 


Hanni Ossott

Y los muertos

amándonos

desde la memoria

dictando palabra y gesto

Los muertos tan con nosotros

en el alma

estrellas, astros

luz

código, señal

Los muertos

eso que no podemos asimilar

y está allí

hiriendo

e os mortos

amando-nos

desd’a memória

ditando palavra e gesto.

Os mortos estão conosco

na alma

estrelas, astros

luz

código, sinal

Os mortos

estes que não podemos assimilar

e estão ali

machucando

Ilustração: Mossoró Hoje.

Shakespeare sempre até mal traído

 


SONNET XXIII

William Shakespeare
As an unperfect actor on the stage,
Who with his fear is put beside his part,
Or some fierce thing replete with too much rage,
Whose strength’s abundance weakens his own heart;
So I for fear of trust, forget to say,
The perfect ceremony of love’s rite,
And in mine own love’s strength seem to decay,
O’ercharged with burthen of mine own love’s might:
O let my looks be then the eloquence,
And dumb presagers of my speaking breast,
Who plead for love, and look for recompense,
More than that tongue that more hath more expressed.
O learn to read what silent love hath writ,
To hear with eyes belongs to love’s fine wit.

SONETO XXIII

Como um ator no palco imperfeito

Faz mal faz o seu papel só por temer,

Ou o que repleto de tanto ódio no peito

Cuja abundância da força faz o coração enfraquecer,

Assim eu, por temer a verdade, esqueço de dizer

A perfeita cerimônia do rito do amor;

E minha própria força do amor parece se perder,

Sobrecarregado com o fardo do poder do meu próprio amor:

Ó, que meus olhares sejam então a eloquência,

E os presságios mudos do meu falante peito,

Que imploram por amor e buscam recompensa,

Mais do que aquela língua que mais tem se expressado.

Ó, aprenda a ler o que o amor silencioso há sentenciado,

Ouvir com os olhos do amor pertence à fina inteligência.

Ilustração: Revista Oeste.

Sunday, March 23, 2025

Segundo Louise Glück só escapamos se for um vício

 


13.

Louise Glück
Spring rain, then a night in summer.
A man's voice, then a woman's voice.

You grew up, you were struck by lightning.
When you opened your eyes, you were wired forever to your true love.

It only happened once. Then you were taken care of,
your story was finished.

It happened once. Being struck was like being vaccinated;
the rest of your life you were immune,
you were warm and dry.

Unless the shock wasn't deep enough.
Then you weren't vaccinated, you were addicted.

13.
Chuva de primavera, então uma noite de verão.
Uma voz de homem, então uma voz de mulher.

Você cresceu, foste alcançada por um relâmpago.
Quando abriu seus olhos, te ataste para sempre a teu verdadeiro amor.

Somente acontece uma vez. Então você toma cuidado,
se tua história terminou.

Somente acontece uma vez. Ser alcançada é como uma vacina,
o resto de tua vida fica imune,
seca e quente.

Ao menos que o golpe não tenha sido tão profundo.
Não como uma vacina, como um vício.

Ilustração: Correio Braziliense.

Friday, March 21, 2025

Ainda uma poesia de Daniel Durand

 


CAMINANDO EN EL VIENTO DE BOEDO

Daniel Durand

Todos los días al volver a casa
desde el trabajo gasto el dinero
que no tengo comprando libros inútiles.
Todos los días vuelvo borracho
desde el centro. La historia recuerda
pocos hombres que, así, hayan llegado
a los ochenta. Miro las membranas metálicas
de los techos destellar bajo la luna, escucho
los largos maullidos de los gatos reunidos
en terrazas. Grito bajo el viento del barrio,
ante la oscuridad y las horas que pasan,
y me pregunto por qué, los hombres,
sólo pensamos en las cosas que nos atormentan.

CAMINHANDO AO VENTO DE BOEDO

Todos os dias ao voltar para casa

do trabalho gasto o dinheiro,

que não tenho, comprando livros inúteis.

Todos os dias volto embriagado

do centro. A história recorda

poucos homens que, assim, tenham chegado

aos oitenta. Olho as membranas metálicas

dos clarões do telhado sob a lua, escuto

os longos miados dos gatos reunidos

nos terraços. Grito debaixo do vento de barro,

ante a escuridão e as horas que passam,

e me pergunto por que, os homens,

só pensam nas coisas que nos atormentam.

Ilustração: Aguiar Buenos Aires.

Thursday, March 20, 2025

Uma poesia de Rafael Pérez Estrada

 


CONCEPTOS PARA UNA POÉTICA

Rafael Pérez Estrada

Era de noche y me encontré al poeta: estaba tiritando de inédito.
Le pregunté y me dijo: Me pesa mucho la realidad para no ser poeta.

La poesía trasciende la condición del poeta.
La poesía debe ser eléctrica e inesperada, inmediata y en vena.

Un poema solo debe oler a poema, nunca a limón.
Ni tampoco deben oler los poemas a pan recién salido del horno.
Ni a tierra mojada por la lluvia.
Si dieran así, olerían a tópico, y el tópico es como un caracol haciendo eses con
su baba de plata.

El poeta, cómplice del silencio.

Solo sé que, si abro el poema, deberá sangrar.

Me hablaron de un poema milagroso que, en su soledad, llovía
abundantemente.

Al final hubimos de convenir que no era un poema, sino una nube.

CONCEITOS PARA UMA PÓETICA

Era de noite e me encontrei com o poeta: estava tiritando de inédito.

Lhe perguntei e me disse: Me pesa muito a realidade para não ser poeta.

A poesia transcende à condição do poeta.

A poesia deve ser elétrica e inesperada, imediata e na veia.

Um poema deve cheirar à poema, nunca a limão.

Nem tampouco devem cheirar os poemas a  pão recém saído do forno.

Nem à terra molhada pela chuva.

Se fizerem assim, cheirariam a clichê, e um clichê é como um caracol fazendo esses com

sua baba de prata.

O poeta, cumplice do silêncio.

Só sei que, se abro o poema, deverá sangrar.

Me falaram de um poema milagroso em que, na sua solidão chovia

abundantemente

no final tivemos que concordar que não era um poema, sim uma nuvem.

Ilustração: Toda a Matéria.

 

 

Wednesday, March 19, 2025

Promessa Inesperada

 


Quem és tu que vens de forma inesperada,

Parecendo nem pisar no chão, com doce mansidão,

Tumultuar a placidez das noites enluaradas?

 

A tua formosura precedida do perfume bom de amor e vida,

Preenche o tempo com a plenitude prometida

Para a qual as coisas haviam sido destinadas.

 

E, absorto na tua beleza, contrário minha própria natureza,

Te estendendo, num gesto ousado, as mãos,

Na esperança de que não sejas mais uma ilusão.

Ilustração: Amazon.



Tuesday, March 18, 2025

Louise Glück retornando

 


9.

Louise Glück
A night in summer. Outside,
sounds of a summer storm. Then the sky clearing.
In the window, constellations of summer.

I'm in a bed. This man and I,
we are suspended in the strange calm
sex often induces. Most sex induces.
Longing, what is that? Desire, what is that?

In the window, constellations of summer.
Once, I could name them.
9.
Uma noite de verão. Lá fora,
sons da tormenta de verão. Depois se aclara o céu.
Na janela, constelações de verão.

Estou em uma cama. Esre homem e eu
nós suspendidos numa estranha calma
a que o nos induz o sexo.
Desejar, o que é isto? O desejo, o que é?

Na janela, constelações de verão.
Faz tempo que eu podia nomeá-las.

Ilustração: Diário Campineiro.

Daniel Durand Outra vez

 


 LA CASA DE MAMI

Daniel Durand

Una casa blanca
soleada y amplia
con grandes ventanales
en los cuatro costados
que dan a un jardín propio.
A pleno entra el sol
y las brisas la atraviesan.
Ventanales grandes
con cortinas blancas y suaves
que al menor suspiro inflan
las velas y la casa vuela.

 

Una casa blanca, amplia y soleada
con ventanas en los cuatro costados
que dan a un jardín propio.
A pleno entra el sol
y las brisas la cruzan.
Ventanales grandes
con cortinas blancas y suaves
que al menor suspiro
inflan las velas y la casa vuela.

 

Una casa blanca.

A CASA DE MAMÃE

Uma casa branca

ensolarada e ampla

com grandes janelas

em todos os quatro lados

que têm vista para um jardim privado.

O sol brilha em cheio

e as brisas a atravessam.

Janelas grandes

com cortinas brancas suaves

que ao menor suspiro inflam

as velas e voa a casa.

 

Uma casa branca, ampla e ensolarada

com janelas nos quatro lados

que têm vista para um jardim privado.

O sol brilha em cheio

e as brisas a cruzam.

Janelas grandes

com cortinas brancas suaves

que ao menor suspiro

inflam as velas e a voa a casa.

 

Uma casa branca.

Ilustração: OLX.

Monday, March 17, 2025

O Alicerce da Poesia



Poeta seja direto-ela me disse-

Por que ainda fazer poesia? 

Não é tolice?

E me olhou com seus belos olhos,

que só a poesia poderia perceber.

Dei, porém, uma resposta clichê:

-A realidade é muito cruel sem poesia. 

Ela me olhou, talvez decepcionada 

por considerar minha resposta evasiva,

com um olhar descrente

de quem desejava um argumento mais convincente. 

Então tive que dizer

que o todo poeta é só um meio, 

pois a poesia transcende o poeta. 

Ele, como uma antena, apenas recebe,

em silêncio, mensagens das quais nada sabe.

A poesia como um raio cai, de forma sempre inesperada, 

como uma carícia ou uma chicotada

sem precisar de razões. 

A poesia é a apreensão de um momento

e só existe quando gera sensações, 

quando cria sentimentos. 

Ilustração: Editoras.Com. 


Uma poesia de Claire Beynon

 


THIN ICE
Claire Beynon
Step out
onto white

not as a body
bearing any weight

but as a feather
might.

Think
of ink

in a quill
drawing a cantata

out of
light.

GELO FINO

Sair

sobre o branco

 

não como um corpo

que tenha algum peso

 

sim como o faria

uma pena

 

Pensa

em tinta

 

em uma pena

que desenharia

 

Uma cantata

Feita de luz.

Ilustração: National Geographic.