Tuesday, December 30, 2025

Salmo do Ano Novo

 



Longe soam, as notas do clarim, sons poderosos

Arautos de um novo tempo

Que fazem fortes e felizes nossas vidas passageiras.

Nós requentamos, com o óleo do otimismo, as nossas esperanças

E esquecemos a espada trocando-as pelas danças

E nos tornamos, inesperadamente, ótimos dançarinos.

Que toquem os sinos

Que o nosso amor seja a argamassa

Dos dias felizes

Dos caminhos não percorridos por nós e pelos ventos.

Que os deuses nos tragam de volta nossos sonhos de outrora

E possamos, satisfeitos de amor, saudar a aurora

Felizes com o novo amanhecer

Preparados para cantar, sorrir, viver

Um Novo Ano.

Ilustração: Freepik.

Poema das Coisas que Não Sei



Eu não poderia te dizer, sobre as coisas que não sei,

muito mais do que te digo:

Sou feliz contigo.

Sou feliz

contra toda lógica, circunstâncias, ocasião.

Se for loucura, prefiro não ser são.

E, se por muito tempo, não podemos estar juntos,

então, mudemos de assunto.

Falemos de amores ainda mais impossíveis.

Afinal não somos nenhum Romeu nem Julieta-

até pela idade- e o fato de que nossa nobreza é tupiniquim,

porém, não tenho culpa de te ter conhecido mais tarde do que devia,

da vida nos ter feito esta ironia

e de te amar tanto assim.

Não creio que isto possa ser ruim.

Ainda mais quando penso

que, sem você,                              

não tenho mais prazer

não tenho paz,

e quando, como agora,

fico distante, dói demais! 

Ilustração: Guiame.

 


Outro poema de Luiz Díaz

 

Por que tantas pessoas evitam espelhos? Entenda o que está por trás

Luiz Díaz

nunca quise la nariz de mi padre me miraba en los espejos buscando cambios como quien observa una flor esperando a que se abra

nunca quis o nariz do meu pai me olhava nos espelhos buscando mudanças, como quem observa uma flor esperando que ela desabroche.


Uma poesia de Álvaro Menen Desleal





Recetas a una vieja burguesa para que sea feliz del todo

Álvaro Menen Desleal

Sepulta cuidadosamente las páginas insólitas de

viejos cascarrabias como Marx, el gran culpable;

 

destruye hoja por hoja los versos de Rimbaud,

joven durazno con vicios milenarios, y quiebra

ojo por ojo a todo Baudelaire, harapo brujo,

alcohol mistificado, viejo corozo de durazno

con vicios renovados;

 

escupe por las rejas de la cárcel en que moran,

empotrados en sus huesos, algunos jóvenes poetas.

vigila que el guardián ponga las llaves

y agrega siete que te sean de confianza;

 

espulga el Nuevo Testamento y abomina del Antiguo,

cargados de puercas porquerías para lapidar

perezosos; de pechos como paloma para reyes

lúbricos y junturas de muslos como goznes

labrados de mano maestra;

 

compra galas chillonas sedosas suntuosas para

halagar al gazmoño;

 

lávate cada hora, refriégate de alcohol, pues el

talento, con todo y no ser contagioso, podría

afectarte de ictericia;

 

castiga tu pensamiento sin pausa ni misericordia,

si es que puedes pensar y si te sobra alguna

misericordia.

 

clávate las uñas en la carne cuando veas el amor

adolescente;

 

(desde luego, te prevengo contra mi persona);

 

pero, sobre todo, enciende hogueras altas

relucientes pulidas pendencieras piras funerarias

para quemar, quemarnos;

 

verás entonces, varicosa, que todo es más tranquilo.

y más tuyo.

al fin y al cabo

Dios te hizo cortada a su medida.


Receitas para uma Velha Burguesa Ser Completamente Feliz

Enterre cuidadosamente as páginas incomuns de

velhos rabugentos como Marx, o grande culpado;


destrua página por página os versos de Rimbaud,

pêssego jovem com vícios ancestrais, e quebre

olho por olho tudo de Baudelaire, trapo de feiticeiro,

álcool mistificado, caroço de pêssego velho

com vícios renovados;


cuspa pelas grades da prisão onde alguns jovens poetas habitam,

incrustada em seus ossos.


certifique-se de que o guarda coloque as chaves

e adicione sete em quem você possa confiar;

examine o Novo Testamento e abomine o Antigo,

carregado de lixo imundo para apedrejar os

preguiçosos; com seios como pombas para

reis lascivos e juntas de coxa como dobradiças

fabricadas por uma mão mestra;

Compre roupas vistosas, sedosas e suntuosas para lisonjear a pudica;

Lave-se a cada hora, esfregue-se com álcool, pois o talento, embora não contagioso, pode lhe causar icterícia;

castigue seus pensamentos sem pausa ou piedade, se é que você consegue pensar e se ainda lhe resta alguma piedade.

crave as unhas na própria carne quando vir o amor adolescente;

(é claro que eu o advirto contra mim);

mas, acima de tudo, acenda piras funerárias altas, reluzentes, polidas e briguentas para queimar, para nos queimar;

você verá então, varicoso, que tudo é mais calmo,

e mais seu.

afinal, Deus o fez talhado à sua medida.

Sunday, December 28, 2025

Antonietta Tiberia

 


                                 Antonietta Tiberia

I

Gradatamente

la notte si dirada

Pallida aurora

II

Nel tronco cavo

trabocca già di miele

Un alveare

III

Un globo rosso

buca il cielo al tramonto

Il sole cala

I

Gradativamente

a noite se clareia

Pálido amanhecer

II

No tronco oco

transbordante já de mel

Uma colmeia

III

Um globo vermelho

perfura o céu ao pôr do sol

O sol se põe

Ilustração: Civitatis Magazine.

 

 


Para um novo mundo de Claudia Keelan

 


                                TO THE NEW WORLD

Claudia Keelan

Saturday grieves

    Puritan seeking more weight

Machines look unhappy in the desert

    “you can’t tell me

he didn’t do it”

    no one there and it’s true

Her hands against the window

Her breath

The empty backs of trucks are screaming

what more do you want from me

I’ll be as clear as I can

My son knows the puddle is an ocean

Our camera killed Her

He fell by himself

Imperfection is everywhere. I wear her star.

Africa is a long scar in my head.

Sad grass.

Lovely mud ocean.

I’m seeing a world, no, a room, or

    a space like a musical phase

princess, sister/s’aint & tribe

    imperfect under funeral flowers

P/ity        Merc(I)(Y)        Peace

             &

           luve

All alone in our boats

 

PARA O NOVO MUNDO

Sábado de luto

Puritano buscando mais peso

Máquinas parecem infelizes no deserto

Você não pode me dizer

que ele não fez isso

Ninguém lá e é a verdade

As mãos dela contra a janela

Sua respiração

As traseiras vazias dos caminhões estão gritando

O que mais você quer de mim?

Serei o mais claro que posso ser

Meu filho sabe que a poça é um oceano

Nossa câmera a matou

Ele sentiu por ele mesmo

A imperfeição está em toda parte. Eu carrego sua estrela.

A África é uma longa cicatriz na minha cabeça.

Grama triste.

Lindo oceano de lama.

Estou vendo um mundo, não, um quarto, ou

um espaço como uma fase musical

Princesa, irmã/santa e tribo

Imperfeita sob flores fúnebres

Piedade Merc(I)(Y) Paz

e

amor

Sozinhos em nossos barcos

Ilustração: Wikipédia. 



Um poema narrativa de Luis Díaz

 


Luis Díaz

en esta familia tenemos un historial médico en el que abundan las mujeres con depresión y los maridos que no escuchan que están demasiado ocupados mirándose al espejo intentando sacarse los pelos enquistados de la barba estos mismos hombres llegan a su vejez deseando quedarse viudos pero cuando sus mujeres mueren se pasan lo que les queda de vida llorando se vuelven blandos como peras podridas solo quieren que les cojan la mano ahora que las tienen suaves ahora que ya no las usan para trabajar

Nesta família, temos um histórico médico onde abundam mulheres com depressão e maridos que não ouvem porque estão ocupados demais se olhando no espelho, tentando tirar pelos encravados da barba. Estes mesmos homens chegam à sua velhice desejando serem viúvos, porém quando suas esposas morrem, passam o que lhes resta da vida chorando se tornam moles como peras podres; só querem que lhes segurem as mãos agora que estão suaves, agora que já não as usam mais para trabalhar.

Ilustração: Aleteia. 

Uma poesia de Claudia Keelan

 

 

TOWARDS

 Claudia Keelan 

It was love and then

it was poetry

but it was poetry

that believed in love.

It was doubt and then

well, it was faith

but it was poetry

we worried the beads of.

It was death and then

--or before then?

in the actual face of—

in the deep pilings of—

fallen in the bagged old city

of—and then it was life,

savaged in the mouthings,

scraped in the garbage tin

of, ate in the holy

oh holy day of it was life

but it was poetry

we closed her lids with

 

EM DIREÇÃO

 

Foi amor e, então,

foi poesia

porém, foi poesia

que acreditava no amor.

Foi dúvida e depois

bem, foi fé,

porém, foi poesia

nos preocupamos com os seus pedaços.

Foi a morte e depois

- ou antes disso?

no rosto atual de ...

nas camadas profundas de ...

caídas na velha cidade ensacada

de ... e então foi a vida,

selvagem nas bocas

raspadas na lata de lixo

de, comi como santo

oh dia santo da vida

porém, foi poesia

nós fechamos com ela as pálpebras.

Ilustração: Kconline.site.



Outra poesia de Franco Pasquale

 


HO MEMORIA DI TE  

Franco Pasquale

Ho memoria di te,

indifferente e sfumata

al brusio della pioggia.

Del mio respiro corto

come piccole

foglie secche

ingiallite.

La luna di vetro

svelava la sua missione

profetica

decisa  ad esigere

 il conto.

Incuranti  ci amammo

e fu

la  nostra accecata

rivolta.

 

 

LEMBRO-ME DE TI

Lembro-me de ti,

indiferente e desvanecido

ao murmúrio da chuva.

Do meu curto respirar

como pequenas

folhas secas

amareladas.

A lua de vidro

revelou sua missão

profética,

decidida a cobrar

o preço.

Nós nos amávamos,

despreocupados,

e era

cega nossa revolta.

Ilustração: BBC.

Saturday, December 27, 2025

No Meu Olhar


O amor somente se revela

Sem saber a hora de se revelar.

Sei bem ao olhar para ela,

E perceber o amor no seu olhar.

 

Não precisa me dizer o que sente

Nem sei se sabe o que dizer.

Não tenho o dom de ler sua mente

Cala: parece esquecer...

 

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P'ra saber que a estou a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma, nem fala,

Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder lhe contar

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que lhe falar

Porque lhe falo no olhar...

Ilustração: Blog de Psicoanálise.

Friday, December 26, 2025

A Abelha por Emily Dickinson

 



THE BEE

By Emily Dickinson

Like trains of cars on tracks of plush

I hear the level bee:

A jar across the flowers goes,

Their velvet masonry

 

Withstands until the sweet assault

Their chivalry consumes,

While he, victorious, tilts away

To vanquish other blooms.

 

His feet are shod with gauze,

His helmet is of gold;

His breast, a single onyx

With chrysoprase, inlaid.

 

His labor is a chant,

His idleness a tune;

Oh, for a bee’s experience

Of clovers and of noon!

A ABELHA

Como trens de carros sobre trilhos de veludo

Ouço a abelha nivelada:

Um jarro atravessa as flores,

Sua alvenaria aveludada

 

Resiste até o doce ataque

Sua cavalaria consumir,

Enquanto ele, vitorioso, se inclina para longe

Para vencer outras flores.

 

Seus pés são calçados com gaze,

Seu capacete é de ouro;

Seu peito, uma ônix única

Com crisoprásio incrustado.

 

Seu trabalho é um cântico,

Sua ociosidade uma melodia;

Oh, pela experiência de uma abelha

De trevos e do meio-dia!

Ilustração: TerraMagna. 

É O VENTO... DE REPENTE...

 


                                     Existe sempre algo que nos faz querer.

Cair no risco bobo de se desejar

 

e como é bom sentir vontade de amar

quando a paixão nos pega

em qualquer lugar.

 

Quando sutilmente

Só há no pensamento

a ideia de que beijar

a mulher que se ama

é o único intento.

É simples assim...

Não existe explicação.

o amor é como o vento

que vem, de repente,

sussurrar 

que é hora de amar,

ser feliz e viver contente!!

Ilustração: Luso-Poemas 


Uma poesia de Luisa de Carvajal y Mendoza

 


                                AMOR Y AUSÊNCIA

Luisa de Carvajal y Mendoza

¿Cómo vives, sin quien vivir no puedes;
ausente, Silva, el alma, tienes vida;
y el corazón aquesa misma herida
gravemente atraviesa, y no te mueres?

Dime, si eres mortal, o inmortal eres.
¿Hate cortado amor a su medida,
o forjado en sus llamas derretida,
que tanto el natural límite excedes?

Vuelto a tu corazón, cifra divina,
de extremos mil, amor, en que su mano
mostrar quiso destreza peregrina,

y la fragilidad del pecho humano
en firmísima piedra diamantina,
con que quedó hecho alcázar soberano.

AMOR E AUSÊNCIA

Como vives, sem quem viver não podes?

Ausente, chora, a alma, e tens vida;

e no teu coração, essa mesma ferida,

gravemente te atravessa, e tu não morres?

 

Diga-me, se és mortal ou imortal és?

Acaso o amor te talhou à sua medida,

ou te forjou em suas chamas derretidas,

 que tanto ao limite natural excedes?

 

Volto ao teu coração, cifra divina,

de mil extremos, o amor, em que sua mão

quis mostrar a destreza peregrina,

 

e a fragilidade do peito humano

na mais firme pedra diamantina,

com a qual se fez um forte soberano.

Ilustração: Leo Dias. 


Uma poesia de Franco Pasquale

 


TU ERI COME IL FIUME INEVITABILE

Franco Pasquale

Tu eri come il fiume inevitabile

fertilizzavi le deserte zolle

da che veniva il grano degli dei.

E mentre l’altri corsi sul solstizio

scemavano lasciando i letti vuoti

d’estate regalavi la tua piena.

Mille e mill’anni vi placai la sete

TU ERAS COMO O RIO INEVITÁVEL

Tu eras como o rio inevitável

fertilizando os desertos torrões

de onde vinha o grão dos deuses.

E enquanto os outros rios no solstício

secavam deixando os leitos vazios

no verão, regalavas tua inundação.

Por mil e mil anos, eu aplaquei tua sede.

Ilustração: Software  Bíblico. 


Monday, December 15, 2025

Com vocês Patricia Smith



KATRINA

By Patricia Smith

I was birthed restless and elsewhere

 

gut dragging and bulging with ball lightning, slush,

broke through with branches, steel

 

I was bitch-monikered, hipped, I hefted

a whip rain, a swirling sheet of grit.

 

Scraping toward the first of you, hungering for wood, walls,

unturned skin. With shifting and frantic mouth, I loudly loved

the slow bones

 

of elders, fools, and willows.

KATRINA

Nasci inquieta e em outro lugar

 

com as entranhas se arrastando e estufando com relâmpagos globulares, lama,

rompi com galhos, aço

 

Fui apelidada de vadia, quadris, carreguei

uma chuva chicote, uma cortina rodopiante de areia.

 

Raspando em direção ao primeiro de vocês, faminta por madeira, paredes,

pele intocada. Com a boca trêmula e frenética, amei ruidosamente

os ossos lentos

 

de anciãos, tolos e salgueiros.

Ilustração: BBC.