Thursday, April 02, 2026

Embriagar-se mais ainda

 


ENTRE O SUSPIRO E O EXCESSO DE VIDA

Silvio Persivo

Se acaso, após o último suspiro,
Constatarem, frios, que não mais respiro,
E um deus qualquer- ou gênio de lâmpada acesa-
Por caridade me conceda tal gentileza,

Não hesitarei, sem sombra ou maldade:

Pedirei de volta a minha vontade-
Que me ressuscite, ainda incompleto,
Pois há vida em mim que não coube no decreto.
 

Faltarão aos desejos seus últimos goles,
As promessas não ditas, os íntimos ardores,
O que ainda me cabe provar neste caminho,
Antes que se esgote o derradeiro vinho.
 

Quero mais taças erguidas ao acaso,
Mais risos que transbordem do raso,
Embriagar-me nas tulipas douradas,
Onde as horas se perdem desvairadas.
 

E que digam, ao ver-me nesse turbilhão:

-Este viveu sem medo da exaustão,
Pois fez da vida excesso e intensidade,
E no beijo e no vinho achou a eternidade.

Ilustração: Cultura de Fato. 


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