Sunday, October 22, 2017

E ainda outra poesia de Fernando Bandini

RISSA                                                      
Fernando Bandini

Asciugo col fazzoletto
il sangue che mi cola
dal labbro.

Non ti ascolto. Sono sordo, sì
sono sordo. Va’ tu
che sei così bravo
a recuperare i cavi
del tramonto
adesso che scende la notte.

Mi rinfacci l’ombra
come se a seminarla
fossi stato io.

BRIGA  

Seco com o lenço
o sangue que me cai
pelos lábios.

Não te escuto. Sou surdo, sim,
sou surdo. Vê tu
que és tão ligeira

e recupera os raios
do ocaso
agora que a noite desce.

Me jogas no rosto a sombra
como se fosse eu
quem a semeara.


Ilustração: São Paulo de Cristal – blogger.

Friday, October 20, 2017

Uma poesia de Susan Randall

Susan Randall                                                      
Amami,
amami nei silenzi
notturni.
Amami come se
fosse per sempre,
amami al sorgere del
sole.
Amami negli infiniti
spazi del tempo
nel volo di un gabbiano
e, quando la vita verrà
a mancare
ricordati quanto io ti abbia
amato.


Ama-me,
ama-me no silêncio
noturno.
Ama-me como se
fosse para sempre,
Ama-me ao nascer do
sol.
Ama-me no infinito
espaço de tempo
do voo de uma gaivota
e quando a vida vier
a se perder
recorda-te o quanto eu te havia
amado. 

Ilustração: O Segredo. 

Outra poesia de Antonella Anedda


Exilium = 0-2014
                      …plenum exiliis mare, infecti caedibus scopuli.
                                                        Tacito, Historie

Antonella Anedda

Oggi penso ai due dei tanti morti affogati
a pochi metri da queste coste soleggiate
trovati sotto lo scafo, stretti, abbracciati.
Mi chiedo se sulle ossa crescerà il corallo
e cosa ne sarà del sangue dentro il sale,
allora studio – cerco tra i vecchi libri
di medicina legale di mio padre,
un manuale dove le vittime
sono fotografate insieme ai criminali
alla rinfusa: suicidi, assassini, organi genitali.
Niente paesaggi solo il cielo d’acciaio delle foto, raramente una sedia
un dorso coperto da lenzuolo, i piedi sopra una branda, nudi.
Leggo. Scopro che il termine esatto è livor mortis.
Il sangue si raccoglie in basso, si raggruma
prima rosso poi livido infine si fa polvere
e può sciogliersi nel sale.

EXÍLIO=0-2014

                               ....em pleno o exílio do mar, infectando as falésias mortas
                                                                   Tacito, História

Hoje penso em dois dos tantos que morrem afogados
a poucos metros das costas ensolaradas
encontrados sob o casco, apertados num abraço.
Me indago se o coral crescerá nos ossos
e o que será o sangue dentro do sal,
depois estudo – leio nos livros antigos
de medicina legal do meu pai,
um manual onde as vítimas
são fotografadas juntas com criminosos
em massa: suicídio, assassino, órgãos genitais.
Sem paisagens só o céu de aço das fotos, raramente uma cadeira
um dorso coberto com uma folha, os pés levantados de uma morena, nua.
Leio. Descubro que o termo exato é rigor mortis.
O sangue se recolhe no fundo, dobra-se
primeiro o hematoma fica vermelho, depois lívido, por fim como poeira
pode se derreter no sal.

Ilustração: blog do professor marciano dantas – blogger. 


Uma poesia de Eduardo Lhanos Melussa


DECLARACIÓN DE QUIEBRA

Eduardo Llanos Melussa                                                           

Me cansas, poesía, rumorosa felina,
musa musitadora, golondrina fogosa.
Pero aunque te niego, persisto en esta cosa
de creer que un incendio se apaga con bencina.

Me asomo a la ventana, descorro la cortina
y creo verme pasar: voy a cavar mi fosa
y a grabar mi epitafio (“Bajo tierra reposa
un iluso que quiso filmar en la neblina”).

Porfiada tortícolis de ser juez y ser parte,
emitiendo y tasando, como monedas duras,
acciones de mi endeble empresa de papel.

Ni poeta ni sastre: estoy harto de este arte
de enhebrar agujas en tu pieza a oscuras
y de hilvanarte fundas, serpiente cascabel.

DECLARAÇÃO DE QUEBRA

Me cansas, poesia, rumorosa felina,
musa musical, andorinha fogosa.
porém, ainda que te negue, persisto nesta coisa
de crer que um incêndio se apaga com benzina.

Me aproximo da janela, descerro a cortina
e creio me ver passar: vou cavar meu túmulo
e gravar meu epitáfio ("Sob a terra descansa
um iludido que quis filmar na neblina").

Dolorosos torcicolos de ser um juiz e ser parte,
emitindo e taxando, como moedas duras,
ações da minha frágil empresa de papel.

Nem poeta nem alfaiate: estou cansado desta arte
de enfiar agulhas em tuas peças escuras
e de me perder em seus meandros, serpente, cascavel.


Uma poesia de Juan Gustavo Cobo

DE VIVA VOZ              
Juan Gustavo Cobo

El amor es monstruoso.
Ya no recordamos
si alguna vez
fuimos otro distinto
de quien sólo existe
para escuchar una voz,
una exigencia brutal,
la dulzura innarrable
de un "te adoro, te adoro, te adoro",
un sarcasmo helado,
un sol bajo el cual
todo florece de nuevo.
(Cuando ella gritaba "loco"
y la espuma de su vientre
desbordaba fresca y ávida).
El amor es mortal:
te congela los pies
si huyes de él.

DE VIVA VOZ

O amor é monstruoso.
Já não recordamos
se alguma vez
fomos outro distinto
de quem só existe
para escutar uma voz,
uma exigência brutal,
a doçura inenarrável
de um “te adoro, te adoro, te adoro”,
um sarcasmo gelado,
um sol abaixo do qual
tudo floresce de novo.
(Quando ela gritava “louco”
e a espuma de seu ventre
desbordava fresca e ávida).
O amor é mortal:
te congela os pés
se foges dele.


Ilustração: Universo dos Leitores. 

Thursday, October 19, 2017

Uma poesia de Giovanni Raboni

Il rimorso di San Giovanni Battista                
 Giovanni Raboni

Silenzio. Udite. Io annuncio la sua morte
perchè sono di fronte a voi l’autore
della sua venuta e dei suoi giorni
disastrosi. Oh fossi morto prima,
nel deserto, come muoiono i cammelli
che si fidano troppo del proprio gozzo! Io così
della mia memoria, della memoria
che Dio mi concede sulle cose future.
Io non volevo ucciderlo
ma la mia fede si è tramutata in pietra o coltello, il mio battesimo
in violento scorpione. Mi perdoni
se troppo poco ho peccato! Io fiorisco di colpa
come la Vergine è fiorita in lui
nel grembo involontario.
  
O REMORSO DE SÃO JOÃO BATISTA

Silêncio. Escutem. Eu anuncio sua morte
aqui em frente a você o autor
de suas veias e de seus dias
desastrosos. Oh! Houvesse morrido antes
no deserto, como morrem os camelos
que confiam demasiado na sua própria garganta. Assim
de minha memória, da memória
que Deus me outorgou das coisas futuras.
Eu não queria matá-lo
Porém, minha fé se transformou em pedra ou faca, o meu batismo
em violento escorpião. Que me perdõe
se tão pouco tenho pecado! Eu floresço de culpa
como a virgem floresce nele,
no ventre involuntário.


Ilustração: Caritas in Veritate – blogger. 

Tuesday, October 17, 2017

RETALHOS


Não esperarei mais por tua volta.
A porta está aberta, a fechadura destravada,
Mas, as dores do passado estão mortas.

Nem sei se terei mais alegria
Na tua companhia. E se chegas serás uma incógnita
Depois de tantos dias de silêncio e esquecimento.

Serás, por acaso, a mesma nos carinhos e beijos?
Ou, pelos caminhos, na busca de esperança,
Em imaginários desejos e lábios outra se fez?

Nem sempre depois da tempestade a vida recompõe
O que as águas e os ventos destruíram. São fatos.
A passagem pode não ser visível e ser mortal.

Na realidade do viver se afoga a utopia
E o ponto na distância some, ou se agiganta,
Dependendo do olhar. Talvez não haja o que restaurar...

Talvez, quando voltares, se rasgue a fantasia,
Todo o passado seja um mundo fictício; o amor, um vício.
Nosso romance, uma mera ilusão.


Não esperarei tua chegada... partido estou na partida.

Ilustração: Minha Vida Literária

Sunday, October 15, 2017

POEMINHA DO AMOR INSATISFEITO


Este desejo tão impuro e tão carnal
Que é puro amor por ti
Me faz dizer,
Nas noites em que rolo na cama,
Nomes e coisas imorais,
Que nem penso em te falar,
Mas, todas as palavras se traduzem em te amar
E te fazer de gato e sapato,
Quando te pegar,
Como se ainda fosse 
O que sei que não sou,
Contudo, me perdoa.
Isto é amor.


Ilustração: O Segredo. 

Outra poesia de Fernando Bandini

 
GIANO BIFRONTE
            
Fernando Bandini

Lui non ha mai diviso
presente da passato.
Perché dietro il suo viso
non c’è nuca ma un altro viso ancora.
Segue senza girarsi il lungo volo
del falco pellegrino dall’aurora
fino al ponente che si oscura, dove
farà il suo nido
in dirupi o su rocche.

Non esiste per lui scoscendimento
fra il primo e il dopo, gli esce da due bocche
un solo occhiuto grido.


JANO BIFRONTE

Ele não separou nunca
o presente do passado.
Porque por trás do seu rosto
não há nuca, senão outro rosto.
Segue sem voltar o longo voo
do falcão peregrino desde aurora
até o poente que escurece, onde
vai fazer o seu ninho
entre despenhadeiros ou rochas.

Não existe desprendimento para ele
entre o antes e depois, sai de suas duas bocas
um só grito vigilante.


Ilustração: CiMarquesArtes – blogger. 

Friday, October 13, 2017

Uma poesia de Fernando Bandini

 
RISSA                                                                           
Fernando Bandini

Asciugo col fazzoletto
il sangue che mi cola
dal labbro.


Non ti ascolto. Sono sordo, sì
sono sordo. Va’ tu
che sei così bravo
a recuperare i cavi
del tramonto
adesso che scende la notte.


Mi rinfacci l’ombra
come se a seminarla
fossi stato io.


DISCUSSÃO

Seco com o lenço
o sangue que me cai
pelos lábios.


Não te escuto. Sou surdo, sim,
sou surdo. Vê tu,
que és tão ligeira

e recupera os raios
do ocaso
agora que a noite desce.


Me jogas no rosto a sombra
como se fosse eu
quem a semeou.

Ilustração: Uol Estilo. 


E, mais uma vez, ainda Dulce María Loynaz

Desprendimiento                                                    
Dulce María Loynaz

Dulzura de sentirse cada vez más lejano.
Más lejano y más vago. Sin saber si es porque
Las cosas se van yendo o es uno el que se va.
Dulzura del olvido como un rocío leve
Cayendo en la tiniebla. Dulzura de sentirse
Limpio de toda cosa. Dulzura de elevarse
Y ser como la estrella inaccesible y alta,
Alumbrando en silencio.
¡En silencio, Dios mío!

DESPRENDIMENTO

Doçura de sentir-se cada vez mais distante.
Mais distante e mais vago. Sem saber se é porque
as coisas se vão indo ou estão indo.
Doçura do esquecimento como um orvalho leve
caindo na escuridão. Doçura de sentir-se
limpo de todas as coisas. Doçura de elevar-se
E ser como a estrela inacessível e alta,
iluminando em silêncio.
Em silêncio, Deus meu!


Um poeminha de Tagore





Rabindranath Tagore

Clouds come floating into my life,
no longer to carry rain or usher storm,
but to add color to my sunset sky.


As nuvens flutuam na minha vida,
não para levar mais chuva ou inaugurar a tempestade,
porém, para adicionar cor ao meu pôr do sol no céu.


Ilustração: Tripadvisor. 

Outra poesia de Federico García Lorca


Vuelta de paseo
Federico García Lorca
Asesinado por el cielo.
Entre las formas que van hacia la sierpe
y las formas que buscan el cristal,
dejaré crecer mis cabellos.
Con el arbol de muñones que no canta
y el niño con el blanco rostro de huevo.
Con los animalitos de cabeza rota
y el agua harapienta de los pies secos.
Con todo lo que tiene cansancio sordomudo
y mariposa ahogada en el tintero.
Tropezando con mi rostro distinto de cada día.
¡Asesinado por el cielo!
Volta do passeio
Assassinado pelo céu.
Entre as formas que vão até a serpente
E as formas que buscam espelhos,
Deixarei crescer meus cabelos.
Com a árvore de tocos que não cantam
E o menino com o rosto branco de ovo.
Com os animalzinhos de cabeças quebradas
E a água salpicada dos pés secos.
Com tudo o que tem um cansaço surdo-mudo
E a mariposa afogada num tinteiro.
Tropeçando com meu rosto diferente a cada dia.
Assassinado pelo céu.

Ilustração: Uol.