Tuesday, June 30, 2026

Um poema de Karlos Ramos

 


TEN CUIDADO  

Karlos Ramos

Llevo un frío informe en el cuerpo
y el ardor del grito en la garganta
tengo la sed de diez mil hogueras acechantes
y la negra esperanza de los guillotinados
asediándome el alma.
Sobrevuelo el llano antiguo del rencor
yermo de buenos sentimientos y morales
habitando un mar de ventanas cerradas y postigos
y endebles convicciones y naturaleza débil.
Camino las calles malolientes
desnudo de pudor y de coraje
y prosigo no te fíes
ten cuidado de esta agua
del almizcle bautismal
de este vientre lleno de soberbia
de ese beso inuit
de este vil y falso esquimal.

TEM CUIDADO

Levo um frio informe no corpo

e a ardência de um grito na garganta

Tenho a sede de dez mil fogueiras à espreita

e a esperança negra dos guilhotinados

assediando-me a alma.

Sobrevoo a antiga planície do rancor

deserto de bons sentimentos e moral

habitando um mar de janelas e persianas fechadas

de fracas convicções e de natureza débil.

Caminho pelas ruas malcheirosas

nu de pudor e de coragem

e prossigo: não te fies

tem cuidado com esta água

de almíscar batismal

deste ventre cheio de orgulho

daquele beijo inuit

deste vil e falso esquimó.


Uma poesia de Henrik Nordbrandt a partir do italiano

 


                                          Henrik Nordbrandt

Tu sei il mio amore e la mia disperazione.
Tu sei la mia follia e la mia saggezza.
E sei tutti i luoghi in cui non sono stato

e che mi chiamano da tutti gli angoli del mondo.
Tu sei queste sei righe
cui devo limitarmi per non gridare.

 

Tu és meu amor e o meu desespero.

Tu és minha loucura e a minha sabedoria.

E és todos os lugares onde estive.

 

e que me chamam de todos os rincões do mundo.

Tu és estas seis linhas

a que devo limitar-me para não gritar.  

Ilustração: Fast Company Brazil. 


Com vocês Leanne O'Sullivan

 

                                   SELF PORTRAIT

Leanne O’Sullivan

This blank paper is the one good thing.
I want to fill it with colour, soundlessness
like a heart that shuts with slow murmurings.
I feel myself slipping into that whiteness.
My dumb legs, my red hair pale by moonlight
as I doze into a laudanum pod,
secretly happy, blooming in the night
though the cold surrounds my bed.

This is the woman as God has created her,
this is the woman I am outdoing.
She is a ghost the more I see her.
Her eyes dry against my breath. She is moving
from me into this true radiance while
I stare. I don’t move, the heart stops its flood
of rust and the mirror crackles to sand.
My babe, the brush is slipping from my hand.

AUTORETRATO

Esta folha em branco é a única coisa boa.

Quero preenchê-la com cor, com a ausência de som,

como um coração que se fecha em suaves murmúrios.

Sinto-me deslizar para dentro desta brancura.

Minhas pernas inertes, meus cabelos vermelhos empalidecidos pelo luar

enquanto adormeço rumo a uma cápsula de láudano,

secretamente feliz, florescendo na noite

através do frio que cerca minha cama.

 

Esta é a mulher tal como Deus a criou,

esta é a mulher que estou superando.

Ela se torna um fantasma quanto mais a vejo.

Seus olhos ressecam sob a minha respiração. Ela se afasta

de mim em direção a este verdadeiro esplendor, enquanto

eu a observo fixamente. Não me movo; o coração interrompe sua torrente

de ferrugem e o espelho estala, transformando-se em areia.

Meu bebê, o pincel está escapando da minha mão.

Ilustração: História das Artes. 



Monday, June 29, 2026

Georges Bataulle, um poema

 


                             MA FOLIE ET MA PEUR

Georges Bataille

Ma folie et ma peur

Ont de grands yeux morts

La fixité de la fièvre.

 

Ce qui regarde dans ces yeux

Est le néant de l’univers

Mes yeux sont d’aveugles ciels

 

Dans mon impénétrable nuit

Est l’impossible criant

Tout s’effondre.

MINHA LOUCURA E MEU MEDO

Minha loucura e meu medo

Possuem grandes olhos mortos

A fixidez da febre.

 

O que olham esses olhos

É o nada do universo

Meus olhos são céus cegos

 

Em minha impenetrável noite

Está o impossível gritando

Tudo está desmoronando.

Ilustração: ND Mais. 


Só para te lembrar


Meu amor, eu não preciso de plateia.

Preciso apenas que a vida vá fluindo,

como na ampulheta, a areia.

E, no tempo certo, a arte sugindo

para transformar nosso amor

em sentimento e poesia. 

Sou o jardineiro, você, a flor

e, para a beleza florescer, não há magia.

Precisa somente de cultivar bem

o amor que se tem,

olhar a vida com os olhos certos,

criar os hábitos que são corretos

de viver os altos e baixos da viagem, 

que não viver bem 

com o que se tem

é a pior bobagem!

Ilustração: Revista Bula. 

Eis, novamente, Roberto Juarroz

 


La casa del hombre (Poesía Vertical X - 17)

Roberto Juarroz

Hay que remodelar la casa del hombre,
podarla como se poda un árbol
e introducir en su material más sensible
el delicado injerto de la vida,
para que la casa crezca con el hombre
y también se empequeñezca con él.

Hay que humanizar la casa del hombre
y retrasar además su destino de ruinas
o de asolada por los bárbaros
que siempre la circundan,
enseñándole para eso a respirar con el hombre
y hasta vivir y morir con él.

O prepararla por lo menos
para que cuando el hombre se caiga
o escape o se evapore,
la casa del hombre conserve por un tiempo
algo así como el duplicado de su imagen,
una transsubstanciación o reminiscencia
de su corta memoria,
hasta entregarla, mejor que otros hombres,
o la publicidad subliminal
de los vientos anónimos del mundo.

A CASA DO HOMEM (POESIA VERTICAL-X-17)

Há que remodelar a casa do homem,

Podá-la como se poda uma árvore,

e introduzir em seu material mais sensível

o delicado enxerto da vida,

para que a casa possa crescer com o homem

e também diminuir com ele.

 

Há que humanizar a casa do homem

e, ademais, atrasar o seu destino de ruína

ou de ser assolada pelos bárbaros

que sempre a circundam,

ensinando-lhe para isto a respirar com o homem

e até a viver e morrer com ele.

 

Ou prepará-la ao menos

para que, quando o homem caia

ou escape ou evapore,

a casa do homem conserve por um tempo

algo assim como uma duplicata de sua imagem,

uma transubstanciação ou reminiscência

de sua curta memória,

até que seja entregá-la, melhor do que outros homens,

ou a publicidade subliminar

dos ventos anônimos do mundo.

Ilustração: Marie Claire. 

Saturday, June 27, 2026

Um poema de Paul Laurence Dunbar

 


INVITATION TO LOVE

Paul Laurence Dunbar

Come when the nights are bright with stars

Or come when the moon is mellow;

Come when the sun his golden bars

Drops on the hay-field yellow.

Come in the twilight soft and gray,

Come in the night or come in the day,

Come, O love, whene’er you may,

And you are welcome, welcome.

 

You are sweet, O Love, dear Love,

You are soft as the nesting dove.

Come to my heart and bring it to rest

As the bird flies home to its welcome nest.

 

Come when my heart is full of grief

Or when my heart is merry;

Come with the falling of the leaf

Or with the redd’ning cherry.

Come when the year’s first blossom blows,

Come when the summer gleams and glows,

Come with the winter’s drifting snows,

And you are welcome, welcome.

CONVITE PARA O AMOR

Venha quando as estrelas brilharem nas noites

Ou venha quando a lua for suave;

Venha quando o sol com seus raios dourados

Espalhar-se sobre o campo de feno amarelado.

Venha no crepúsculo suave e cinzento,

Venha à noite ou venha de dia,

Venha, ó amor, quando puder,

E será bem-vindo, bem-vindo.

 

Você é doce, ó Amor, querido Amor,

Você é suave como a pomba em seu ninho.

Venha ao meu coração e traga a paz,

Como a ave que voa para o seu ninho acolhedor.

 

Venha quando meu coração está cheio de pesar

Ou quando meu coração está alegre;

Venha com a queda das folhas

Ou com a cereja que avermelha.

Venha quando a primeira flor do ano desabrocha,

Venha quando o verão resplandece e brilha,

Venha com a neve que o inverno traz,

E será bem-vindo, bem-vindo.

Ilustração: Sabrina Arcega Papelaria Fina. 


ME DEIXE EM PAZ

 


Há um momento na vida-

quem é velho sabe-

que não se aguenta mais ninguém. 

E foi num momento assim

em que me senti muito ruim,

em que me senti insuportável,

que minha mulher chegou e disse;

-Se você morrer eu morro junto. 

Tive que mudar de assunto.

Não podia dizer para ela

que até para morrer se precisa de paz!

"Fresco" de César Vallejo

 


FRESCO

César Vallejo

Llegué a confundirme con ella,
tanto...! Por sus recodos
espirituales, yo me iba
jugando entre tiernos fresales,
entre sus griegas manos matinales.

Ella me acomodaba después los lazos negros
y bohemios de la corbata. Y yo
volvía a ver la piedra
absorta, desairados los bancos, y el reloj
que nos iba envolviendo en su carrete,
al dar su inacabable molinete.

Buenas noches aquellas,
que hoy la dan por reír
de mi extraño morir,
de mi modo de andar meditabundo.
Alfeñiques de oro,
joyas de azúcar
que al fin se quiebran en
el mortero de losa de este mundo.

Pero para las lágrimas de amor,
los luceros son lindos pañuelitos
lilas,
naranjos,
verdes,
que empapa el corazón.
Y si hay ya mucha hiel en esas sedas,
hay un cariño que no nace nunca,
que nunca muere,
vuela otro gran pañuelo apocalíptico,
la mano azul, inédita de Dios!

FRESCO

Cheguei a me confundir com ela,
tanto...! Por suas curvas
espirituais, eu ia me
jogando entre tenros pés de morango,
entre suas mãos gregas matinais.

Ela me acomodava depois os laços pretos
e boêmios de gravata. E eu.
voltava a ver a pedra
absorvida, os bancos desprezados e o relógio
que nos ia envolvendo em seu carretel,
ao girar seu incansável molinete.

Boa noite aqueles,
que hoje nos estão fazendo rir
de minha estranha morte,
do meu jeito pensativo de andar.
Caveiras de açúcar douradas,
joias de açúcar
que enfim se infiltram na
laje de argamassa deste mundo.

Porém para as lágrimas de amor,
as estrelas são lindos lencinhos.
lilases,
laranjas,
verde,
que encharca o coração.
E se já existe muito fel nessas sedas,
Existe um amor que nunca nasce,
que nunca morre,
voa outro grande lenço apocalíptico,
a mão azul, inédita de Deus!

Ilustração: Tumblr. 


Wednesday, June 24, 2026

Tanto Amor

 


TANTO AMOR

Silvio Persivo

Que amor é este? –É um amor sem nome.

Por que ele existe? -Ele não se explica.

E como se resume? Numa dor que fica,

Numa sensação insatisfeita de imensa fome.

 

Que caminho busca? -Nem ele mesmo sabe.

Há ilusão ainda? -Enquanto houver vida.

Ela o que lhe diz? Se contenta tão querida

Em sorrir do meu amor que todo lhe cabe.

 

Que faz você que não a deixa? -Morro

Cada segundo numa queixa silenciosa

Sabendo que, por ser-me assim preciosa,

Há de me sugar o sangue sem socorro.

 

Que pensa em fazer? –Pensar resolve?

O que resolve, então? –Morrer, talvez,

De amor, de solidão, saudade, de uma vez

Para ver se tanto amor não me absolve

SO MUCH LOVE

What love is this? -It's a nameless love.

Why does he exist? -He doesn't explain himself.

And how does it sum up? In a pain that remains,

In an unsatisfied feeling of immense hunger.

 

What path are you looking for? - Not even he knows.

Is there still illusion?-As long as there is life.

What does she tell you? so happy dear

In smiling at my love that all fits you.

 

What are you doing that doesn't leave her?-I die

Every second in a silent complaint

Knowing that, because you are so precious to me,

It will suck my blood without help.

 

What are you thinking of doing? – Thinking solves?

What solves it then? – Die, perhaps.

Of love, of loneliness, longing, all at once

To see if so much love doesn't absolve me. 

Ilustração: Filmaffinit. 

 

Tuesday, June 23, 2026

Um poema de Carlos Baldelomar

 

                                          CONDICIONES

Carlos Baldelomar

Lo sé,
vos sos un pájaro.
Y yo,
solo un perro sin casa
ladrándole a la luna.

CONDIÇÕES

Eu sei,

vos sois um pássaro.

E eu,

só sou um cachorro sem casa

latindo para a lua.

 



Sunday, June 21, 2026

Outro poema de Pierluigi Cappello

 

                                         Pierluigi Cappello

Scrivere come sai dimenticare,

scrivere e dimenticare.

 

Tenere un mondo intero sul palmo

e dopo soffiare.


Escreva como sabe esquecer,

escreva e esqueça.


Tenha um mundo inteiro na palma da sua mão

e depois sopre.

 



Saturday, June 20, 2026

Um poema de David Arthur

 

                  UN TIERNO ROBO DE DULZURA

David Arthur

Tentado por sus fragrancias

y sus seductores colores radientes,

la mariposa se posó sobre el tallo

de su flor favorita, permitiendo

el visitante, sin resistencia,

saborear el néctar recóndito,

un tierno robo de dulzura,

que no solamente satisfizo su sed,

sino, en su inconsciencia, embellece

el jardín lleno de futuras flores.

*

Como la mariposa, yo también me sentí tentado,

por tu cautivador aroma y

tus labios predicando promesas,

una fusión fatal para el corazón de un jóven,

pero nuestras sonrisas vacilantes y miradas furtivas

me persuardieron de rozar suavemente

tus labios con los míos,

un tierno  robo de  dulzura.

Mi indiscreción fue recompensada por tu caricia,

y los vinculos entrañables por toda una vida.

UM TERNO ROUBO DE DOCE

Tentado por suas fragrâncias

e suas sedutoras cores radiantes,

a borboleta pousou no caule

de sua flor favorita, permitindo

ao visitante, sem resistência,

saborear o néctar escondido,

um terno roubo de doçura,

que não só saciou sua sede,

senão, em sua inconsciência, embelezou

o jardim repleto de futuras flores.

 

*

Como a borboleta, eu também me senti tentado,

pelo seu aroma cativante e

teus lábios pregando promessas,

uma fusão fatal para o coração de um jovem,

porém nossos sorrisos vacilantes e olhares furtivos

me persuadiram a roçar suavemente

teus lábios nos meus,

um terno roubo de doçura.

Minha indiscrição foi recompensada por teu carinho,

e pelos laços preciosos por toda a vida.

Ilustração: Amazon. 



Um poema de Katherine Mansfield

 


WHY LOVE IS BLIND

Katherine Mansfield
The Cupid child tired of the winter day
Wept and lamented for the skies of blue
Till, foolish child! He cried his eyes away-
And violets grew.

PORQUE O AMOR É CEGO

O filho de Cupido, cansado do dia de inverno,

Chorava e lamentando-se pelos céus tristes.

Até que, tolo menino! Chorou até as lágrimas caírem.

E as violetas desabrocharam.

Ilustração: Flores e Folhagens. 


Tuesday, June 16, 2026

Olhos de Gata



Tento fugir dos teus olhos de gata

que fingem não me ver

(tento também fingir 

não saber

do teu interesse tão claro).

Zombeteira me ignoras

brincando com o celular

até que, cansada, caminhas pelo salão,

como se abrindo espaços pela amplidão,

soberana da tua beleza, 

passas por mim.

Não me viro.

Sei que voltarás para o mesmo lugar

e ficarás quieta, feiticeira,

tecendo uma magia desnecessária 

para me encantar. 

Ilustração: Marie Claire. 


E, de volta, Carlos Pujol

 


                                           Carlos Pujol

La habitación se llena de fantasmas
que guardan un silencio desdeñoso
a causa de no haber
existido jamás.
Veo que entran y salen
de la memoria como
si fuera un territorio conquistado.
El miedo también tiene sus costumbres.
Conviene respetarlas
puesto que forman parte
de un orden misterioso y sin piedad
que uno mismo ha dispuesto.

 

A casa se enche de fantasmas

que guardam um silêncio desdenhoso

por causa de não haver

existido jamais.

Vejo que entram e saem

da memória como

se fosse território conquistado.

O medo também tem seus costumes.

Convém respeitá-los

posto que fazem parte

de uma ordem misteriosa e sem piedade

que cada um estabeleceu para si.

Ilustração: V9vitoriosa. 


Sunday, June 14, 2026

Um poema de Edwin Markham

 


 

 

CIRCLE

Edwin Markham
He drew a circle that shut me out
Heretic, rebel, a thing to flout
But love and I had the wit to win;
We drew a circle that took him in.

CIRCULO

Ele desenhou um círculo que me excluiu

Herético, rebelde, uma coisa a ser desprezada

Porém, o amor e eu tivemos a astúcia para ganhar;

Nós desenhamos um círculo que o prendeu.

Ilustração: Magnific. 


Thursday, June 11, 2026

Um poema de Pierluigi Cappello

 


APPUNTO

Pierluigi Cappello

Dal desiderarti al pensarti mia

sei rimasta tu, mentre entri e siedi.

La luce ti viene alle spalle dalla porta socchiusa,

il pruno lascia il suo bianco al mattino.

Così intonati, il bianco e il pruno

fermi nel sole, noi.

 

In questa maniera gli alberi parlano al cielo

l’ombra degli alberi cresce lungo le iridi

verde più cielo

in questo modo di stare, precipitati.

EXATAMENTE

De desejar te pensar como minha,

permaneces, ao entrar e se sentar.

A luz vem de trás de ti pela porta entreaberta,

a ameixeira deixa suas folhas brancas pela manhã.

Tão em sintonia, o branco e a ameixeira

ainda ao sol, nós.

 

Desta maneira as árvores falam com o céu

a sombra das árvores cresce ao longo das íris

mais verdes que o céu

neste modo de estar, caída.

Ilustração: Sos Italian.


Outro poema de Luis Martín-Santos

 


ARMONÍA

Luis Martín-Santos

Armonía siempre es razón,
razón y causa:
De los leves efectos de una pausa
desciende el rubor de la emoción.

Armonía siempre es verdad,
verdad y reto:
Tras su ágil vallado, el verde seto
un brinco es, tras el triunfo del audaz.

Armonía siempre es mujer,
mujer fecunda:
su seno portentoso el mundo inunda
de belleza bañando al puro ser.

HARMONIA

A harmonia sempre é razão,

razão e causa:

Dos leves efeitos de uma pausa

descende o rubor da emoção.

A harmonia sempre é verdade,

verdade e desafio:

Por trás de sua cerca veloz, a cobertura verde

um salto é, por trás do triunfo do audaz.

A harmonia sempre é mulher,

mulher fecunda:

seu seio portentoso o mundo inunda

de beleza, banhando o ser puro.

Ilustração: Origem do Conceito. 

Wednesday, June 10, 2026

CONFISSÃO

 


LADRÃO DE CORAÇÃO

Silvio Persivo

Não vou negar que, muitas vezes, 

aproveitando o descuido ou a ocasião,

talvez movido pelo impulso ou a emoção,

roubei algumas coisas. 

A maioria muito insignificante

nos meus momentos morais mais claudicantes,

o que não me absolve não. 

Fui ladrão sim, 

porém de um roubo sinto orgulho

e, se pego, me declararei culpado

sem contestação. 

Fui eu sim. 

Fui eu, sem escrúpulo ou remorso nenhum, 

quem roubou, quem roubou

teu coração! 

L' Adieu de Guillaume Apollinaire

 

L'ADIEU
Guillaume Apollinaire
J'ai cueilli ce brin de bruyère
L'automne est morte souviens-t'en
Nous ne nous verrons plus sur terre
Odeur du temps
Brin de bruyère
Et souviens-toi que je t'attends
                                       O ADEUS

Eu colhi este ramo de urze

O outono está morto, lembre-se disso

Não nos veremos mais sobre a Terra

Aroma do tempo

Ramo de urze

E lembre-se que estou esperando por ti.

Ilustração: Infusões com História.