Sunday, August 02, 2026

Uma poesia com ajuda da IA

 


UM MENINO DO CEARÁ

Silvio Persivo

Eu era um menino que cabia numa rua. A Rocha Lima, em Fortaleza-o mundo começava depois da esquina e ia até o céu se alongando no mar.

Li Nietzsche antes de saber amarrar os sapatos. Machado me ensinou que as palavras têm espinhos. Os russos me mostraram que a neve também dói. E Balzac

O rádio da naquele tempo era um oráculo de voz. Dentro dele moravam vozes que falavam mais alto que o silêncio do sertão.

O cinema era no domingo. A música de todos os dias. E eu -eu era um menino que colecionava ausências como quem coleciona figurinhas.

Hoje, cinquenta anos depois, pergunto: o que sobrou daquele menino? Respondo: sobrou o Ceará. O resto foi travessia.

 

Uma poesia de Dante Maffia

 


DALL'ALTRA RIVA
Dante Maffia
Non volevo morire soffocata
dai calcinacci, gli occhi
sfondati dalle pietre all'improvviso
diventate nemiche. Avanzavo ancora
infinite carezze da lui, e con il sole
c'era un patto segreto
come tra api e fiori.
Non riesco a sentire la voce di mia madre,
anche se sento le sue mani accanto.
Un vento viscido mi attraversa il corpo,
San Pietro litiga con qualcuno,
meno male.

DO OUTRO LADO

Eu não desejo morrer sufocada

pelos escombros, meus olhos

quebrados pelas pedras que de improviso se tornaram

inimigas. Apesar disto, eu avançava

para carícias infinitas dele, e com o sol

havia um pacto secreto

como entre abelhas e flores.

Não consigo ouvir a voz da minha mãe,

embora sinta suas mãos ao meu lado.

Um vento viscoso me atravessa o corpo,

São Pedro está discutindo com alguém,

menos mal.

Ilustração: Jornal Contato.


Uma poesia de Kira Tucker

 


PRECIOUS

Kira Tucker

Copper keeps life from my womb; aluminum 

fills my pores, silver my teeth. My blood won’t hold iron,

so I take it daily. Food brings a sickness I can’t measure

under my tongue, only on my waning waist. Some metal

 

belongs in the body. The day a grate raised my skirt

on the street, I noticed only one rush of air between ore

andwhore. The boy who learns to caress his face with a blade

will grow into a man I’ll pay to slice my skin with steel. Beauty

 

is no alchemy: it merely means making space for more things

that shine. Like the ancient statues men scrapped for daggers.

Like powder packed into bullets, their touch so intimate

it kills. Like any body in this millennium, I’ll survive

 

in silicon chips after death. Until then, lead me

somewhere precious. Guide me with ungloved hands.

PRECIOSO

O cobre guarda a vida do meu ventre; o alumínio

enche meus poros, a prata meus dentes. Meu sangue não segura o ferro,

então o tomo diariamente. A comida traz uma doença que não consigo medir

sob minha língua, somente em minha cintura cada vez menor. Algum metal

 

pertence ao corpo. No dia em que uma grade levantou minha saia

na rua, notei apenas uma lufada de ar entre o minério

e a prostituta. O menino que aprende a acariciar o rosto com uma lâmina

irá crescer será um homem a quem eu pagarei para cortar minha pele com aço. A beleza

 

não é alquimia: meramente significa abrir espaço para mais coisas

que brilham. Como as estátuas antigas que os homens desmontaram para fazer adagas.

 

Como a pólvora compactada em balas, seu toque tão íntimo

que mata. Como qualquer corpo neste milênio, eu sobreviverei

 

em chips de silício após a morte. Até lá, guia-me

a algum lugar precioso. Guia-me com mãos sem luvas.

Ilustração: Bonito Way.