Monday, October 12, 2026

Enquanto Átropos Não Usa a Tesoura (While Atropos Does Not Wield The Shears)

 


        ENQUANTO ÁTROPOS NÃO USA A TESOURA

Silvio Persivo

Quando a razão nos acena, silente,
com a sombra de Átropos à nossa frente,
a mais temida das filhas da Noite,
que encerra o destino sem alarde ou açoite;

 

quando Láquesis, com mãos soberanas,
mede os dias, as horas, as semanas,
do fio que Cloto, em seu fuso, teceu,
percebemos, enfim, o que a vida nos deu.

 

E treme a alma, ante o esquecimento,
quando mais desejamos deter o momento;
quando ainda há caminhos, vertigens, calor,
e tanto a descobrir nas entranhas do amor.

 

Que estranho destino: saber que há um fim
e, ainda assim, guardar primaveras em mim;
buscar na alegria o que a dor não desfez,
e amar como se fosse a primeira vez.

 

Pois, se a tesoura já ronda o tecido,
que não nos encontre do sonho esquecido;
que o último fio, ao romper-se, afinal,
nos surpreenda vivendo-e não sofrendo o final.

 

WHILE ATROPOS DOES NOT WIELD THE SHEARS

When reason silently beckons us,

with the shadow of Atropos looming ahead-

the most feared of the daughters of Night,

who brings destiny to a close without fanfare or lash;

 

when Lachesis, with sovereign hands,

measures the days, the hours, and the weeks

of the thread that Clotho spun on her spindle,

we finally grasp what life has bestowed upon us.

 

And the soul trembles at the thought of oblivion,

precisely when we most wish to hold back the moment;

when paths, dizzying heights, and warmth still remain,

and there is so much to discover in the depths of love.

 

What a strange destiny: to know there is an end

and yet, to harbor springs within myself;

to seek in joy what pain could not undo,

and to love as if it were the very first time.

 

For if the shears are already hovering near the fabric,

may they not find us having forgotten our dreams;

may the final thread, when it snaps at last,

find us living-and not merely suffering-the end.

Ilustração: Instagram. 


Debout de Blaise Cendrars

 

DEBOUT
Blaise Cendrars

La nuit s’avance
Lê jour commence à poindre
Un fenêtre s’ouvre.
Un homme se penche a dehors en fredonnant.
Il est en brás de chemise et regarde de par le monde.
Le vent murmure doucement comme une tête bourdonnante.

DE PÉ

A noite avança

O dia começa a amanhecer

Uma janela se abre.

Um homem se debruça para fora, cantarolando.

Ele está de mangas de camisa e olha o mundo.

O vento murmura docemente, como uma cabeça borbulhando.

Ilustração: El Hombre. 

                                                  

É Pierluigui Cappello

 


                                      Pierluigui Cappello

Scrivere come sai dimenticare,

scrivere e dimenticare.

 

Tenere un mondo intero sul palmo

e dopo soffiare.

 

Escreva como sabe esquecer,

escreva e esqueça.

 

Tenha um mundo inteiro na palma da sua mão

e depois sopre.

Ilustração: Dreamstime. 


Deshora de Eduardo Mitre

 


DESHORA

Eduardo Mitre

                                  polvo serán, mas polvo enamorado.
                                  
Francisco de Quevedo

La cercanía infranqueable entre sus cuerpos.
Un puente de miradas donde se cruzan
y se separan.
En sus labios:
un vaivén de palabras o de silencios
-no la lenta fragua del beso.
No el hondo goce
ni la dicha tersa
de las desnudeces enlazadas:
sólo el roce eléctrico
de los muslos que se adivinan.

Sólo el asombro de conocerse
en la esquina
de los tardíos encuentros.

Y el sueño donde quizá se poseen
al lado
de otro cuerpo que duerme.

Y el carbón del deseo
que ha de volverse sin duda
puro diamante

al precio de no haber sido nunca
los dos el mismo leño
la húmeda llama
en el lecho
de esta única vida.

HORA TARDIA

                                                 serão pó, mas pó apaixonado.

                                                 Francisco de Quevedo

 

A proximidade intransponível entre seus corpos.

Uma ponte de olhares onde se cruzam

e se separam.

Nos lábios:

um vai e vem de palavras ou de silêncios

-não a lenta forja do beijo.

Não o profundo gozo

nem a sorte limpa

das nudezes enlaçadas:

só o roçar elétrico

das coxas que se adivinham.

 

Só o espanto de se conhecerem

na esquina

dos encontros tardios.

 

E o sonho talvez de que se possuam

ao lado

de outro corpo que dorme.

 

E a brasa do desejo

que há de se tornar, sem dúvida,

puro diamante

 

ao preço de nunca terem sido

os dois o mesmo lenho,

a chama úmida

no leito

desta vida única.

Ilustração: Fast Company Brasil.


Tuesday, October 06, 2026

Canção de Fim de Tarde (Late Afternoon Song)

 


                         CANÇÃO DE FIM DE TARDE

Silvio Persivo

É fim de tarde,

o céu uma taça rosê

E a cor da maré

imita frios de prata

caídos do sol,

desmanchados no ar

em tons de mil cores

simulando flores.

A lua amarela

se introduz

tão bela

num rastro de luz

salpicando as águas do mar

o vento frio demais

arrepia os casais

aos beijos na luz do luar.

Perdi a conta das doses

se não me embriaguei

vou me embriagar

querendo esquecer

o imenso desejo

de correr para te beijar.

Mas, coragem não vejo

e fico aqui, tão covarde,

pensando em ti

neste fim de tarde.

LATE AFTERNOON SONG

It is late afternoon,

the sky a rosé goblet,

and the color of the tide

mimics cold silver

spilled from the sun,

dissolving in the air

in a thousand hues

resembling flowers.

The yellow moon

enters the scene,

so beautiful,

in a trail of light

speckling the sea waters;

the biting wind

sends shivers through couples

kissing in the moonlight.

I’ve lost count of the drinks;

if I haven’t gotten drunk yet,

I soon will,

trying to forget

the immense desire

to run and kiss you.

But I find no courage,

so I stay here, such a coward,

thinking of you

in this late afternoon.

Ilustração: Dreamstime. 


The Soul Selects Her Own Society (303) by Emily Dickinson

 


THE SOUL SELECTS HER OWN SOCIETY (303)

Emily Dickinson

The Soul selects her own Society-
Then- shuts the Door-
To her divine Majority-
Present no more-

 

Unmoved-she notes the Chariots- pausing-
At her low Gate-
Unmoved- an Emperor be kneeling
Upon her Mat-

 

I've known her-from an ample nation-
Choose One-
Then-close the Valves of her attention-
Like Stone-

A ALMA ESCOLHE SUA PRÓPRIA COMPANHIA (303)

A Alma escolhe sua própria companhia-

Então-fecha a porta-

À sua divina maioria-

Já não mais presente-

 

Inamovível- ela nota as carruagens- pausando-

No seu humilde portão-

Inamovível- um Imperador a ajoelhar-se

Sobre o seu tapete-

 

Eu a tinha visto-diante de uma ampla nação-

Escolher um-

Então-fechou as válvulas da sua atenção-

Como pedra-

Ilustração: Pousada Alto da Boa Vista. 




Mais uma vez Ángel Guinda

 

 YO ME ACUSO

Ángel Guinda

Atravesado por un rayo de sombra,
como todos los jóvenes, yo vine
a que se me llevara la vida por delante.
He pasado de largo, callé, cerré los ojos:
¡en nombre de vuestra generación yo me acuso!
Si escribo para nada, para nadie,
me sobra la palabra.
Si el padecer no es vivir,
el mundo está mal hecho,
cualquier tiempo pasado fue peor,
y me conformo;
si no echo abajo el cielo a puñetazos,
si no rompo la luz ni rasgo el aire,
si hiedo y trago tanta podredumbre,
estoy muerto: matadme una vez más.

EU ME ACUSO

Atingido por um raio de sombra,

como todos os jovens, eu vim

para deixar a vida me levar adiante.

Passei ao largo, calei, fechei os olhos:

em nome da sua geração, eu me acuso!

Se escrevo para nada, para ninguém,

me sobram palavras.

Se o padecer não é viver,

o mundo está mal feito,

qualquer tempo passado foi pior,

e me conformo;

se não ponho abaixo o céu com meus punhos,

se não rompo a luz nem rasgo o ar,

se fedo e trago tanta podridão,

estou morto: mata-me uma vez mais.

Ilustração: Jaime Wagner. 

Thursday, October 01, 2026

The Crocodile de Lewis Carroll

 

 

THE CROCODILE

Lewis Carroll

How doth the little crocodile
     Improve his shining tail,
And pour the waters of the Nile
     On every golden scale!

 

How cheerfully he seems to grin,
     How neatly spreads his claws,
And welcomes little fishes in,
     With gently smiling jaws!

O CROCODILO

Como faz o pequeno crocodilo

Aprimora sua brilhante cauda,

E derrama as águas do Nilo

Sobre cada escama dourada!

 

Com que parece sorrir alegremente,

Com que esmero estende as garras,

E acolhe os peixinhos docemente,

Com um sorriso suave nas mandíbulas!

Ilustração: DephositPhotos. 



Tuesday, September 29, 2026

Esperança, Meu Amor, Esperança (Hope, My Love, Hope)

 



ESPERANÇA, MEU AMOR, ESPERANÇA

Silvio Persivo

Há algo dentro de mim

Que, mesmo quando o frio me faz tremer

E a escuridão encobre todo sinal de luz

Que me lembra do sol, do calor, do amor

Que sei que virão um dia.

É, pode até ser ilusão,

Mas, ainda creio

Que voarei sem receio na amplidão

Como um pássaro que sabe a direção

Nem que seja a última coisa da vida

Para te entregar meu coração,

Minha querida!

HOPE, MY LOVE, HOPE

There is something within me

That-even when the cold makes me shiver

And darkness veils every sign of light-

Reminds me of the sun, the warmth, the love

That I know will come one day.

Yes, it might even be an illusion,

But I still believe

That I will fly unafraid across the vast expanse

Like a bird that knows the way-

Even if it is the last thing I do in life-

To give you my heart,

My beloved!




When You Are Old de W.B. Yeats

 


WHEN YOU ARE OLD

W.B.Yeats

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

 

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

 

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.

QUANDO VOCÊ FOR VELHA

Quando você for velha, grisalha e cheia de sono,

E, cochilando junto à lareira, tomar este livro,

E lentamente lê-lo, e sonhar com o olhar suave

Que teus olhos tiveram uma vez, e com suas sombras profundas;

 

Quantos amaram teus momentos de alegre graça,

E amaram tua beleza com amor falso ou verdadeiro,

Porém um homem amou a alma peregrina em você,

E amou as mágoas da transformação de tua face;

 

E, inclinando-te junto às incandescentes brasas,

Com certa tristeza, como o Amor fugiu murmura

E caminha, lá no alto, sobre as montanhas

E esconde tua face numa multidão de estrelas.

Ilustração: TVI-Notícias.

Um poema de Gutierre de Cetina

 

HORAS ALEGRES QUE PASÁIS VOLANDO

Gutierre de Cetina

Horas alegres que pasáis volando
porque a vueltas del bien mayor mal sienta;
sabrosa noche que en tan dulce afrenta
el triste despedir me vas mostrando;

importuno reloj, que apresurando
tu curso, mi dolor me representa;
estrellas con quien nunca tuve cuenta,
que mi partida vais acelerando;

gallo que mi pesar has denunciado;
lucero que mi luz va obscureciendo;
y tú, mal sosegada y moza aurora;

si en vos cabe dolor de mi cuidado,
id poco a poco el paso deteniendo,
si no puede ser más, siquiera un hora.

HORAS ALEGRES QUE PASSAM VOANDO

Horas alegres que passam voando

Para que no maior bem, o maior mal sinta;

saborosa noite que de tão doce afronta

o triste despedir me vás mostrando

 

relógio importuno, que vai apressando

teu curso, a minha dor representa;

estrelas com as quais nunca tive conta,

que minha partida vai acelerando;

 

galo que meu pesar hás denunciado;

estrela que minha luz vai obscurecendo;

e tu, mal sossegada e jovem aurora;

 

se em vós cabe a dor do meu cuidado,

ide pouco a pouco o passo diminuindo,

se não puder ser mais, sequer por uma hora.

Ilustração: Uol. 


Monday, September 28, 2026

Photographie de Guillaume Apollinaire

 


PHOTOGRAPHIE
Guillaume Apollinaire
Ton sourire m'attire comme
Pourrait m'attirer une fleur
Photographie tu es le champignon brun
De la forêt
Qu'est sa beauté
Les blancs y sont
Un clair de lune
Dans un jardin pacifique
Plein d'eaux vives et de jardiniers endiablés
Photographie tu es la fumée de l'ardeur
Qu'est sa beauté
Et il y a en toi
Photographie
Des tons alanguis
On y entend
Une mélopée
Photographie tu es l'ombre
Du Soleil
Qu'est sa Beauté

FOTOGRAFIA

Teu sorriso me atrai como

Como me atrai uma flor.

Fotografia, você é o cogumelo marrom

Da floresta

Qual é a sua beleza?

Os brancos que estão lá

Um clarão de lua

Em um jardim tranquilo

Cheio de águas correntes e jardineiros frenéticos

Fotografia, tu és a fumaça do ardor

Qual é a sua beleza?

E a que há em ti

Fotografia

Tons lânguidos

Ouve-se

Uma melodia

Fotografia, és a sombra

Do Sol

Qual é a sua beleza?

Ilustração: Freepik.


Outra poesia de Ángel Guinda

 



ANTES DE QUE SEA TARDE

Ángel Guinda

Un hombre,
harto de estar entre los humanos,
estatua lapidada en un mundo del que abomina,
comparece ante su conciencia.
Un hombre,
que recorrió los caminos del exceso
y escaló las rampas del conocimiento,
encastillado entre sus fracasos y renuncias,
despreciando los fuegos fatuos de la vanidad,
la sed de ser o el victimismo,
se dispone a revisar su vida
antes de que sea tarde.

ANTES QUE SEJA TARDE

Um homem,

cansado de estar entre humanos,

estátua lapidada em um mundo que abomina,

comparece diante de sua consciência.

Um homem,

que recorreu os caminhos do excesso

e escalou as rampas do conhecimento,

entrincheirado entre seus fracassos e renúncias,

desprezando os fogos-fátuos da vaidade,

a sede de ser ou a vitimismo,

prepara-se para rever sua vida

antes que seja tarde.

Ilustrações: Retrospectivas e expectativas- by Janaína Esmeraldo. 

Saturday, September 26, 2026

Até Tão Longe (Even From So Far Away)

 

                                    ATÉ TÃO LONGE

Silvio Persivo

Se agora houvesse um café,

ainda que fora da tradicional hora,

 eu te falaria, com ternura, sobre o reino de prazer

que a distância não revela

e a beleza simples de viver ao teu lado.

Olho as evoluções do tempo, os pontos negros, as sombras, os cinzentos espaços;

perscruto as escolhas sem me sentir culpado

por não saber os próximos passos, por não ter soluções.

Adoraria uma sardinha ou um peixe grelhado;

estar do teu lado ainda,

minha linda,

enquanto degusto o sashimi com shoyu, este molho japonês, tão nosso.

Mas vivo o que posso,

e o possível, agora,

é apenas te dizer:

ainda que tão longe,

com o amargor de tanta distância,

não se esgota o meu querer:

sinto uma imensa saudade de você!

EVEN FROM SO FAR AWAY

If there were a coffee now-

even if it were outside the usual time-

I would speak to you, tenderly, of the realm of pleasure

that distance does not reveal,

and the simple beauty of living by your side.

I watch the unfolding of time, the dark spots, the shadows, the gray spaces;

I examine my choices without feeling guilty

for not knowing the next steps, for having no solutions.

I would love a sardine or some grilled fish;

to be by your side still,

my lovely one,

while savoring sashimi with shoyu-that Japanese sauce that feels so much like ours.

But I live what I can,

and what is possible now

is simply to tell you:

even from so far away,

amidst the bitterness of such distance,

my longing does not fade:

I miss you so deeply!

 



E, ainda, Julieta Sbdar Kaplan

 


NOSOTRAS, IRRESPEITUOSAS

Julieta Sbdar Kaplan

Nosotras, irrespetuosas

vamos cambiando el pronombre.

Somos la alumna y la maestra

y se la pasan conversando.

En la escritura

como en la clase

nos asalta la distracción,

estamos enamoradas:

por puras ganas de conversar

levantamos a cada rato

la cabeza del poema.

NÓS, DESRESPEITOSAS

Nós, desrespeitosas

continuamos mudando o pronome.

Somos a aluna e a mestra

e eles passam o tempo conversando.

Na escrita

como na aula

a distração nos assalta,

estamos apaixonados:

só vontade de conversar

levantamos a cada momento

a cabeça do poema.


Tuesday, September 22, 2026

Balthus Digressão (Balthus: A Digresssion)

 


BALTHUS DIGRESSÃO

Silvio Persivo

Uma obra de arte,

 mesmo que de um museu não faça parte,

 é objeto de significados escondidos-

nunca o mesmo para olhos diversos.

Requer, como as melhores coisas,

uma mistura de sentimento

e, talvez, esforço para o entendimento.

Muitas vezes, trabalho para o descobrimento

ou a mera percepção que dá prazer

em perceber o que algo pode ser.

A arte não está na palavra nem na matéria.

A arte, espécie etérea, 

situa-se exatamente

onde um olhar diz que está-

e pode nem ser lá, certamente-

desde que isto nos deixe contente.

BALTHUS: A DIGRESSION

A work of art-

even if it is not part of a museum-

is an object of hidden meanings,

never the same to different eyes.

It requires, like the best things,

a blend of feeling

and, perhaps, an effort to understand.

Often, it involves the work of discovery,

or the simple perception that brings pleasure

in grasping what something might be.

Art lies neither in the word nor in the matter.

Art, an ethereal entity,

is situated exactly

where a gaze says it is-

and it may not even be there, to be sure-

provided that this brings us contentment.

Ilustração: alexanderadamsart-Word Press.com.