Monday, April 10, 2006

UMA POETISA PARAGUAIA

EL BESO
Delfina Acosta

Voy a contarte un cuento que otras saben.

Las menos como tú jamás supieron.

Era un juego de a dos pues se enfrentaban

un rey hermoso y una reina a besos.

Y érase que ella alegre se moría

como última tecla en cada beso.

Y él riendo tomaba con su boca

un poco de su lengua y de su aliento.

Pasó el verano bajo el puente chino,

sopló el otoño y garuó el invierno,

volvió la primavera y se marchó

detrás de un par de niños aquel juego.

Y érase esa mujer que aún lo amaba,

y moría de pena, pero en serio.

Y érase la tristeza en el ciprés

la hora en que llovía en ese reino.

(De: Querido mío:, 2004)

O BEIJO
Vou contar-te um conto que outras sabem.
As menores como tu jamais souberam.
Era um jogo a dois, pois se enfrentavam
um rei formoso e uma rainha aos beijos.
E era assim que ela alegre se matava
como a última tecla em cada beijo.
E ele rindo roubava com sua boca
um pouco de sua língua e de seu alento.
Passou o verão sob a ponte chinesa,
soprou o outono e garoou o inverno,
voltou a primavera e marchou
por trás de um par de meninos aquele jogo.
E assim era essa mulher que ainda o amava,
e morria de pena, porém a sério.
E assim era a tristeza no cipreste
à hora em que chovia nesse reino.
(De: Meu Querido, 2004)

UM´POETA PARAGUAIO

POESIA
Víctor R. Casartelli

a Li Tai Po, que estará

bebiendo vino en las estrellas
Esta pasión secreta que nos mueve
a descifrar los símbolos, los sueños,
para cifrar con ellos la certeza,
¿es pasión en verdad o es la quimera
de urdir algunos versos con la trama
del amor, el dolor y la belleza?
Temblando ante la flor que se abre al mundo;
extático ante el beso o la mirada
que se prodigan los amantes núbiles
o sollozando sobre el pecho frágil
de los desamparados,
mi propia voz responde,
malabarando el verbo que se vuelve
–para mi corazón desguarnecido–
canción a la hermosura,
saeta del amor,
amparo en la tormenta.



POESIA
a Li Tai Po, que estará

bebendo vinho nas estrelas
Esta paixão secreta que nos move
a decifrar os símbolos, os sonhos,
para cifrar com eles as certezas,
é paixão na verdade ou é a quimera
de urdir alguns versos com a trama
do amor, da dor e da beleza?
Tremendo ante a flor que se abre ao mundo;
estático ante o beijo ou o olhar
que se esbanja com os virgens amantes
ou soluçando sobre o frágil peito
dos desamparados,
minha própria voz responde,
malbaratando o verbo que se volta
–para meu coração desguarnecido–
canção da formosura,
flecha do amor,
amparo na tormenta.

Sunday, April 09, 2006

UM POETA DE RIBERALTA

La Vida Me Está Matando

Pedro Shimose

Ya no me persigue el terror político
con su rayo láser,
ni los prójimos me aman
con su palo y su picana eléctrica.
Ya no me ofende la Declaración Universal
de los Derechos Humanos,
ni la bomba me quita el sueño,
ni siquiera los disparos
de una guerrita en Africa o Europa,
¡qué más da!
Caen los muros,
crecen los lamentos.
Y el odio vuelve
con sus ángeles violentos.
El Sur sigue donde estaba.
No nos portamos mal
(es evidente)
y todos tan contentos,
constitucionalmente.
Esta vida me sobra
con su nicotina,
con su infarto y su cáncer,
con su miedo al sida y las jeringas.
Sólo el amor
y la poesía
pueden ser míos
cuando a nadie parece ya importarle
el amor
y
la poesía.

A Vida está me matando

Já não me persegue o terror político
com seu raio laser,
nem os próximos me amam
com seus cassetetes e serras elétricas.
Já não me ofende a Declaração Universal
dos Direitos Humanos
nem a bomba me tira o sono
nem sequer uma guerrinha na
África ou na Europa.
O que mais acontece?
Caem os muros,
crescem os lamentos
o ódio volta
com seus anjos violentos.
O Sul segue para onde sempre esteve
Não nos portamos mal
(é evidente)
e todos estão contentes,
constitucionalmente.
Esta vida me excede
com sua nicotina,
seu enfarte e câncer,
com o medo da Aids e das seringas.
Só o amor e a poesia
podem ser meus
quando a nada parece importar
o amor
e a poesia.

O GRANDE POETA DE COCHABAMBA

La nao

Antonio Terán Cabrero

una cáscara apenas
en la impalpable imagen de los signos
con que se sueña alado un topo

una canción en la quietud del río
y en la canción un barco
desperezándose

huye tú visitante casual de este paraje
si no quieres quemarte en una hoguera silenciosa

la no colmada sed del puro instante
le ha dado nacimiento
a pesar de sus huesos de
carcoma
sobre un río sin agua

porque ya estuvo en el
infierno
y despierta en el vientre de una clara botella

como una melodía

en medio de la noche
iluminando un charco

esa calle de la infancia
aquel farol bajo la lluvia
o sólo el barco de papel que ha remontado
la corriente
y ahora tiembla en mi mano

más allá
del íntimo velamen
le espera el laberinto
del otro inmenso mar
donde las férulas no llegan

podrá entonces gritar todos los gritos
que no fueron
en la precaria palidez de nuestros días

así navegue en círculos
dentro del ojo ciego de la
esfinge

todo en la breve eternidad
de narrarse en el agua

A nau

Uma casca apenas
na impalpável imagem dos signos
com que se sonha soando alto

uma canção na quietude do rio
e com a canção
um barco despregando-se

foge tu visitante casual destas paragens
se não queres queimar-te na fogueira silenciosa

a não saciada sede do puro instinto
lhe há dado nascimento
apesar dos montes de ossos
sobre um rio sem água

porque já estava no inferno
e desperto no ventre de uma garrafa transparente
como uma melodia
no meio da noite iluminando um pântano

esse rio da minha infância
aquele farol sob a chuva
ou só o barco de papel que recuperei
da corrente
e agora treme em minhas mãos

mais além
do intimo velame
lhe espera o labirinto
de outro imenso mar
onde as borboletas não hão de chegar

podes então gritar todos os gritos
que não gritou
na precária palidez de nossos dias

assim navegue em círculos
dentro do olho cego da esfinge

tudo na breve eternidade
está escrito na água.

Saturday, April 08, 2006

UM POETA BOLIVIANO

CALÍGULA

Oscar Cerruto

Es la hora que más odias,
cuando la tarde cae
como si se desplomara del tejado.
Lobregueces rastreras
corren bajo tus pies y sientes
que eso que pasa enfriándote la cara
no es el viento.
Comienzas a oír voces
que nadie más oye.
Crees ver centuriones
de niebla entre la niebla,
manos que flotan,
lenguas arrancadas,
y disolverse en la noche
la tediosa muralla que te aísla.
Tu sombra acobardada te precede
por los polvorientos salones del palacio.
Y llegas a tu lecho en los hostiles dormitorios
sabiendo que allí sólo te aguardans
ueños enemigos.
Sueños con dientes sin fatiga,
puntuales, pertinaces
como la oscura rata que noche a noche
roe en las tablas del piso.

Calígula
É a hora que mais você odeia,
O cair da tarde
Que se destelha como um telhado.
Lentamente, rastejando
a escuridão se instala sob seus pés e você sente
que o que esfria seu rosto, de passagem,
não é o vento.
Começas a ouvir vozes
que ninguém mais ouve.
Começas a ver centuriões de névoa entre as névoas,
mãos que flutuam,
línguas arrancadas, e a dissolver-se na noite
a muralha que te isolava.
Tua sombra temerosa te precede
pelos salões poeirentos do palácio.
E chegas ao teu leito
Em dormitórios hostis
sabendo que ali somente te aguardam
sonhos inimigos.
Sonhos com dentes sem fadiga,
precisos, persistentes
como o preto rato que, noite após noite,
rói as tabuas do assoalho.

UMA POETISA BOLIVIANA

Ilustração Juarez Jarbas-www.comartevirtual.com.br
De "Territorial"
(fragmento)
Blanca Wiethüchter

Sólo tengo este cuerpo. Estos ojos y esta voz
Esta larga travesía de sueño cansada de morir.
Conservo el temor al atardecer.
No se comunica con nadie.

Por mi modo de andar
algo descubierto un poco esperando
cambio frecuentemente de parecer
conmigo no puedo vivir segura.

Habito un jardín de palabras
que han dejado de nombrarme
para nombrarla.
No me atrevo
pero es necesario decirlo. Es un secreto.
En realidad somos dos.

Ahora debo inventar a la otra.

De Territorial
(Fragmentos)

Só tenho este corpo. Estes olhos, esta voz
Esta larga travessia cansada de morrer.
Conservo o temor do entardecer.
Que não comunica nada.

Por meu modo de andar
Há algo descoberto um poço esperando
Troco freqüentemente de parecer
Comigo não se pode viver segura.

Habito um jardim de palavras
Que hão deixado de nomear-me
Para nomeá-la. Não me atrevo
Porém é necessário dizê-lo. É um segredo.
Na realidade somos duas.

Agora devo inventar a outra.

Friday, April 07, 2006

UM POETA PERUANO


CEMENTERIO DE PERROS
Carlos López Degregori

Una tarde encontré siete perros muertos en la carretera.
Canté aspirando el aire, las moscas, la violencia
y supe que sería definitivo mi verano.
Cómo llegaron aquí.
No sé.
La sabiduría es siempre de los huesos.
Pero pronto cumpliré los 33,
me casaré y tal vez tenga siete hijos.
Y cuando llegue la tarde en que confluyan veranos, carreteras
y una mosca perfecta me recuerde este cementerio de sol
cantaré de nuevo el triunfo de los perros.

CEMITÉRIO DE CACHORROS
Uma tarde encontrei sete cachorros mortos na estrada.
Cantei aspirando o ar, as moscas, a violência
e soube que o meu verão seria definitivo.
Como chegaram aqui.
Não sei.
A sabedoria é sempre dos ossos.
Porém logo farei 33 anos, me casarei
e talvez tenha sete filhos.
E quando mais tarde quando confluírem os verões, estradas
e uma mosca perfeita me recorde este cemitério de sol
cantarei de novo o triunfo dos cachorros.

Wednesday, April 05, 2006

EPICURISTAS, GRAÇAS A DEUS


A poesia do Olavo Bilac foi obtida no http://ferraro-rio.blogspot.com, um blog bom para relaxar...

Moralistas, perdoai!
(Olavo Bilac)

Nua, mas para o amor não cabe o pejo.
Na minha a sua boca eu comprimia
e,em frêmitos carnais, ela dizia:
- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo fremente,
a minha boca obedecia.
Os seus seios, tão rígidos, mordia,
fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
disse-me ela,ainda quase em grito:
- Mais abaixo, meu bem!
Num frenesi, no seu ventre pousei a minha boca.
- Mais abaixo, meu bem!
Disse ela, louca.
Moralistas, perdoai! Obedeci...

Moralistas, pouco importam!
(Olavo Bilac atualizado)

Nua, mas para o amor a nudez é ensejo.
Na minha a sua boca se alargava,
em beijos colossais, ela dizia:
- Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na consciência delicada do meu querer ardente,
lentamente a boca escorregava.
Os seus seios, docemente eretos, mordiscava,
deixando-a molhadinha de desejo.
Em suspiros de gozos infinitos me rogava,
excitada quase num sussurro:
- Mais abaixo, meu bem!
No embalo em seu umbigo pousei a minha boca.
- Mais abaixo, meu bem!
Disse ela, louca.
Moralistas, pouco importam! Obedeci...

Tuesday, April 04, 2006

OUTRO POETA PERUANO

S / T

Carlos Oliva

Tu tesoro, Carlos Oliva, es el amor que perdiste
en tus manos de navegante ebrio,
de náufrago sobre un tronco a la deriva,
de marino agotado de tanto nadar contra la corriente,
para llegar tenuemente hacia la reseca.
Mi poesía en sí no tiene nada que ver con la poesía:es un clamor de condenado.
Es una protesta, pero esta protesta es principalmente contra mí mismo.
El canto por el canto en sí no existe (ni siquiera en los pájaros).
El objeto de mi canto –lo que sea- es el de liberarme de mí mismo,
negarme a mí mismo, es decir salvarme a mí mismo.
De mi propia autodestrucción que está a punto de desintegrar mi vida.
Es una protesta contra mi condición humana, narcisista y sórdida y decadente.

S / T
Teu tesouro, Carlos Oliva, é o amor que perdestes nas tuas mãos
de navegante ébrio, de náufrago sobre um tronco à deriva,
de marinheiro esgotado de nadar contra a corrente,
para chegar tenuemente à ressaca.
Minha poesia em si não tem nada que ver com a poesia: é um clamor de condenado.
É um protesto, mas este protesto é principalmente contra mim mesmo.
O canto pelo canto em si não existe (nem sequer nos pássaros).
O objeto de meu canto –o que quer que seja- é o de libertar-me de mim mesmo,
negar a mim mesmo, quer dizer me salvar de mim mesmo.
De minha própria autodestruição que está a ponto de desintegrar minha vida.
É um protesto contra minha condição humana, narcisista e sórdida e decadente.

UM POETA PERUANO

PN
César Ángeles L.

A mi madre
debiera enseñarle mi pene
tal vez se convenciera de
que ya no soy un niño

A ti también
que te asustas cuando lees pene
debiera enseñárte lo
tal vez así dejarías de asustarte

A mi papá también
para que deje de aliarse a mi madre

(o tal vez no debiera enseñar nada:no vaya a ser que consideren
mejor reventarme los pulmones)

PN

A minha mãe deveria ensinar meu pênis
talvez se convencesse
de que não sou mais um menino

A ti também
Que te assustas
Quando digo pênis
Deveria ensinar-te
Para não mais se assustar

A meu papai também
para que deixe de se aliar a minha mãe

(ou talvez não devesse ensinar nada:
Pode ser que considerem mais fácil arrebentar-me os pulmões)

Monday, April 03, 2006

AINDA POMPONIO

Viajando desde lo invisible
Juan Pomponio

Aplaudiendo el acto del fuego
vándalos enamorados
saquean al corazón
profanando lo único que importa.
Jinetes del alba
cabalgan para atrapar
el rocío de tu cuerpo
que brilla en la inmensidad.

Viajando do invisível

Aplaudindo o ato do fogo
Vândalos enamorados
Saqueiam o coração,
O único que importa.
Cavaleiros do amanhecer
Cavalgam para atrapalhar
O orvalho de seu corpo
Que brilha na imensidão.

OUTRA POESIA DE POMPONIO


Éxodo infinito
Juan Pomponio

El éxodo de mi alma
Sigue su camino.
Y cada uno salvará su parte
y cada parte será de nadie
y nadie comprenderá lo que sucede:
en cada señal
un corazón.

Exodo infinito

O êxodo da minha alma
Segue seu caminho.
E cada um salvará sua parte
E cada parte será nada
E nada comprenderá do que sucede:
Em cada sinal
Um coração.

UM POETA ARGENTINO

Al despertar
Juan Pomponio
Cada uno de nosotros tendrá
que ubicar el origen del sol
el motivo de la luna
el sueño de las estrellas.
El brillo del camino espera
por el coraje de aquellos hombres
despiertos.





Ao despertar

Cada um de nós,
Ao despertar, terá
Que situar-se para encontrar a origem do sol,
a razão para a lua,
o sonho das estrelas.

O brilho do caminho espera
pela coragem dos homens
despertos.

Sunday, April 02, 2006

UMA POETISA ARGENTINA

FRENTE DE BATALLA
Teresa Palazzo Conti
“ Dejando un rastro de sangre”.
“ Dejando un rastro de lágrimas”.
Federico Garcia Lorca

Puntos desordenados
entre metrallas
y castigo.

En mis pensamientos detona el universo.

Se malogran las uvas
en la copa de vino
y se burlan las horas
por ser lentas.

En qué línea de fuego están sus ojos.

La espera se hace estéril
y un aletear de vidrios
cabalga
en el confín que mató mi horizonte.

Frente de Batalha

Pontos desordenados
entre tiroteios
e punição.

Em meus pensamentos detonam o universo.

As uvas azedaram
Nos copos de vinho
e enganam as horas
por serem lentas.

Em que linha de fogo estão teus olhos?

A espera se fez estéril
e o estilhaçar dos vidros
cavalga
na distância que matou meus horizontes.

O CORAÇÃO DA BAD GIRL

Sei ser difícil acreditar,
Mas, no passado essa garota,
Não bebia nenhuma gota
E odiava mesa de bar.
Sim a ruiva e brejeira
Até cerveja comprava
Sem conseguir tomar inteira.
Preconceitos internos-alegava.
Veja agora aonde foi parar:
Faz ronda nos bares da vida,
Em vinhos brancos, tintos
E até na pinga jaz perdida
Num desejo louco de se embriagar
De soltar os mais loucos instintos.
Quem diria que agora grita:
"Traz mais uma depressa, por favor!"
Deve ter sido por amor,
Baby, que virou uma bad girl.
Ah! Como a vida é cruel
Com as pessoas inocentes
Que mudam tanto e nem sentem!
Vai beber, se embriagar,
Xingar, brigar,
Sem rumo, perder o prumo e a direção
Que, nem sempre é verdade
A convicção da cidade
De que não tem dono não
O seu pobre, desejado e doce coração.
(De Poesias Mal Comportadas)

Saturday, April 01, 2006

OUTRA DE WILLIAM

Tango Portrait de Maria Amaral-página: maria.amaral.free.fr/ pageA2d.htm

Soneto 91
William Shakespeare
Some glory in their birth, some in their skill,
Some in their wealth, some in their body’s force,
Some in their garments, though new-fangled ill;
Some in their hawks and hounds, some in their horse;
And every humour hath his adjunct pleasure,
Wherein it finds a joy above rest:
But these particulars are not my measure;
All these I better in one general best.
Thy love is better than high birth to me,
Richer than wealth, prouder than garment’s cost,
Of more delight than hawks or horses be;
And having thee, of all men’s pride I boast:
Wretched in this alone, that thou mayst take
All this away and me most wretched make.

Soneto 91

Uns se vangloriam do nascimento, uns de sua habilidade,
Uns de sua riqueza, uns do seu corpo, a força
Uns de suas roupas, embora sejam só uma novidade;
Uns de seus falcões e cães, uns de seus cavalos de raça;
E cada temperamento tem a dose de prazer pedida
No qual encontra uma alegria superior:
Porém nenhum deles são a minha medida;
A todos estes prefiro um de ainda maior valor.
O teu amor que é bem melhor que ter berço de ouro,
Do que ser rico ou me vestir com traje suntuoso,
E dá mais prazer que falcões, cavalos ou tesouro;
E te tendo, do orgulho de todos os homens gozo:
Na minha infelicidade estou só, tu tens o poder
De tomar tudo e o maior dos miseráveis me fazer.

ELE, O WILLIAM


Soneto 52
William Shakespeare
So am I as the rich, whose blessed key
Can bring him to his sweet up-locked treasure,
The which he will not every hour survey,
For blunting the fine point of seldom pleasure
Therefor are feasts so solemn and so rare,
Since, seldom coming, in the long year set,
Like stones of worth they thinly placed are,
Or captain jewels in the carcanet.
So is the time that keeps you as my chest,
Os as the wardrobe which the robe doth hide,
To make some special instant special blest,
By new unfolding his imprison’d pride.
Blessed are you, whose worthiness gives scope,
Being had, to triumph, being lack’d, to hope.

Soneto 52
Estou como o rico que abençoa a chave
Por poder levá-lo ao seu doce tesouro oculto,
O qual não pode contemplar ininterrupto
Sob pena de um especial prazer tornar suave
De modo igual há solenes e raras festas celebradas
Por serem poucas no longo círculo anual,
Como pedras preciosas delicadamente colocadas
Ou como as jóias principais de um colar real.
Assim o tempo que a retém é como um estojo caro,
Ou como o armário que esconde o manto,
Especialmente para o instante mais que raro,
Que, orgulhoso, seu guardado valor revela.
Abençoada você, cujo espaço tão santo
Sendo usado, ao triunfo, se aliou, na espera.

Friday, March 31, 2006

SABEDORIA IGNORANTE

Acabo aqui:
Onde tudo começo.
No recomeço de tudo.

Há uma suave sensação
De sofrimento inútil
Em contar estrelas
Ou procurar verdades.
Toda mentira é confortável
E nunca arde.

Vejo a única luz
Da chama acesa do saber
Que me persegue
Por nada conhecer.
O peso dos sonhos que carrego
Envolto no véu da ignorância
É o que produz esta bonança
De saber apreciar o mar
E o luar.

A névoa brinca com a clareza.
Pode ser que a vida seja
Um caminho de luz.
Perdido na noite escura
Limito minha procura
Ao prazer do instante.
Nada de pensar no adiante
Nem antecipar o gozo ou a tristeza.

Cada momento tem sua própria beleza.

Thursday, March 30, 2006

ODE AO VINHO

Há um dia em que se calarão os desejos.
Hoje não.
Hoje preciso, necessito, urgente,
De teus beijos, de teu corpo,
De sentir de novo a sensação
De que o amor não é uma ilusão.

E sôfrego conseguir chegar a algo,
Deixar crescer à flor da pele
O desejo guardado,
Que vem assim louco, desesperado,
Em paixão aflorar
E satisfeito e calmo estar.

Sei que fui,
Que vou além do que devia,
Mas o amor, o amor é uma agonia,
Desembrulhando as emoções inesperadas
Que são espalhadas em suor, lençóis
E deixam marcas eternas em nós.

Pode não ter sentido
Sentir meu peito batendo assim
E tentar conservar na memória
O gosto de uma noite apenas.
O cálice da vida, no entanto,
Muitas vezes, não tem mais do que se abastecer.
Vem, amor, meu vinho é você
E preciso me embriagar.

PRIME CAUSE

O dragão malvado
Em sonhos me persegue
Normalmente por ruas e vielas
Com o furor assassino
De quem deseja me ver cadáver.
Rezo para que o mago do bem,
Que afasta as sombras
E trás a luz,
Apareça como um deus renascido,
Um moderno Jesus,
Para me salvar.
Encurralado, num beco sem saída,
Rememoro todos os pecados
Antes da hora final
Querendo identificar meus erros
E por qual deles pago assim
Para ter tão triste fim.
Deve ter sido minha soberba alucinante-
Penso no último instante-
Em que de horror brado
Já antevendo meu triste fado
E, quando sinto o calor da labareda,
Suando de medo acordo
E, feliz, de imediato, constato
Que ver filme de terror
Dá pesadelos!
(De Poemas Mal Comportados)

Wednesday, March 29, 2006

PROBLEMAS DE LINGUAGEM

Era uma japonesinha quase comum,
Meio gordinha.
Tentei falar com ela em inglês...
Uma vez, duas, três.
Eu falava, ela ria.
Meu desejo crescia
E a japonesinha era arisca
Procurava agarrar
E ela dava um jeito de escapar.
E ria, ria, ria sem parar
Aquilo só fazia me excitar!

A necessidade é criativa:
Analisei o caminho,
Fiz metas e planos
Com meia garrafa de rum
Pra não esquecer detalhe nenhum.
Quando ia passando
Agarrei com vontade a oriental
E tasquei-lhe uma chupada na orelha
De derreter metal.

Ela só ria, ria e ria...
Envolto no desejo
Cobri seu corpo de beijos,
Tirei, com rapidez, a sua roupa
E num tempo menor ainda
Ela dengosa se contorcia
E ria e gemia, gemia e ria sem parar...
Nem terminou direito de gozar
Só fez pegar as roupas
amassadas
E sem dizer nada correu e ria, ria,
ria sem parar.
Aquilo me enlouqueceu.

Nunca mais vi a japonesinha
Que desapareceu.
Perguntei tempos depois por ela
E me disseram que algo aconteceu.
A mudinha-me contaram-
Era mansa como uma ovelha
E, de uma hora pra outra, ficou braba
Quase que com a casa toda acaba
E só sossegou quando a deixaram
Fazer o curso de gueixa no Japão.
(De Poemas Mal Comportados)

TRAIÇÃO INACEITÁVEL

O Lixeiro Filósofo
Óleo de Roberto Magalhães (http://robertomagalhaes.art.br)

É verdade, compadre, que sinto falta,
Que a enganei, que esgotei as cotas.
Não posso, enfim lhe contar lorotas
Que já fizemos boas e a conta é alta.

Sei bem que, hoje, agora, é civilizado
E aceito, pela maioria, como normal.
Mas, meu amigo, não me leve a mal
Embora por dor igual tenha passado.

Não se trata mesmo de machismo.
Chega um tempo que isto é ridículo
E, quando já se perdeu até o lirismo,
A amizade é, por certo, o único vínculo.

O pecado dela, porém tem de mortal,
Infelizmente, um plus tão zombeteiro
Que ultrapassa a traição habitual:
Tinha que dar logo pra um lixeiro!

Monday, March 27, 2006

URGÊNCIA

Nesta noite, hoje, agora, já, há
Esta imensa necessidade de teu corpo,
Teus braços, tuas coxas, teu ventre, teus seios.
Todo meu conhecimento se resume
A este desejo desconhecido, e súbito,
Que me impele a dizer
Todas as palavras impensadas
Que brotam como flores incompreensíveis
Para que compreendas
O pouco significado do amanhã
Que, suspeito, tu sabes
Quando agora, já, neste momento,
Representas tudo e tudo represento:
Um homem, uma mulher e um doce momento
Em que a vida se faz mágica
E a paixão e o prazer são nossa razão
e alimento,
E alcançar, ao mesmo tempo, o céu,
O compasso que rege a dança
De nosso comum pensamento
Que nossos corpos conduz
A mais doce aliança.

Sunday, March 26, 2006

AUTÓPSIA

Foto de Nivaldo Narã da Ópera La Bòheme

Examinei o que restou de mim
Com a tua ausência
Constatando que a tua falta
Vai corroendo meus ossos,
Me prende a respiração,
Seca-me a pele outrora,
Pelos dias e noites de amor,
Umedecida e caudalosa,
Como se fosse um mar,
De todos fluidos do bem amar.
Não sei mais como procurar
A tua boca perdida,
As tuas mãos
Que acendiam a chama da paixão
E me deixaram orfão de ilusão.
A falta do teu corpo
No meu corpo
É tão inglória
Que pareço morto,
Sem futuro e história
Ainda cheio de vida.

Saturday, March 25, 2006

A POESIA DE UNGARETTI


CANTO
da IL SENTIMENTO DEL TEMPO - da L'AMORE
Giuseppe Ungaretti

Rivedo la tua bocca lenta
(Il mare le va incontro delle notti)
E la cavalla delle reni
In agonia caderti
Nelle mie braccia che cantavano,
E riportarti un sonno
Al colorito e a nuove morti.
E la crudele solitudine
Che in sè ciascuno scopre, se ama,
Ora tomba infinita,
Da te mi divide per sempre.
Cara, lontana come in uno specchio...

CANÇÃO

Recordo outra vez sua boca lenta
(o mar indo ao encontro da noite)
E o teu corpo deslizando
Na agonia a cair
Nos meus braços que cantaram,
E embalaram um sono
Que se coloria com a tinta nova da morte.

E a cruel solidão
Que em si todos descobrem, se amar,
Tombou na hora infinita,
Em que você de mim para sempre se separou.
Querida, distante como num espelho...

Obs.: Esta é uma prova incontestável de que quanto mais ignorante se é mais se trai....

NOTÍCIAS DE UMA ROSA EM NOVA ZELÂNDIA

Foto do rio Taumaranui by Rosa Maria

Sei lá onde fica a Nova Zelândia.
Talvez me lembre a Gentilândia,
Em Fortaleza,
Que deve ter mudado mais que as ondas
Do mar Egeu-se é que existe.

Sei, todavia que Rosa Maria,
Uma goiana desencontrada e inconformada,
Olha as águas escuras e geladas
Do rio Taumaranui,
Tentando sua vida construir, tira fotos e ri,
Nem me importa de quê,
Na sua aventura de viver.

Sei também que nenhum lugar é estranho,
Em qualquer lugar do mundo,
Quando se pode sentir o cheiro de jasmin-estrela
Num cantinho do terraço
E me parece impossível
Não pensar nela com carinho
E aqui, da Amazônia, de mansinho,
Invadindo, via Internet, seu espaço
Envio para Rosa aquele abraço.

Thursday, March 23, 2006

ESTUDO EM VERMELHO

CEREJA
No seu escorregar lúbrico
Denota toda a voluptuosidade
do mundo.
Sua cor vermelha
Traz a marca
Da sensualidade inata
E sei que, na minha boca,
seu corpo terá gosto de mel.
Apraz-me vê-la assim,
Em todo o seu esplendor,
Esperando a marca de meus dentes,
A viscosidade de minha língua
descobrindo-lhe os últimos segredos.
O palito, que é o prolongamento de minhas mãos,
Arranca do copo de Martini
Esta cereja afrodisíaca.
Fecho os olhos
Mergulhando na especial degustação
De sua alma feminina vegetal
E sei do mundo apenas que a cereja
É, como sua boca que me beija,
Profunda, misteriosa e sensual!

Wednesday, March 22, 2006

INFLEXÍVEL VINGANÇA


Há certos momentos na vida
Em que não se pode vacilar
Nem ser flexível.
É preciso ter determinação,
Vontade, decisão!

São momentos cruciais
Em que não se pode abrir mão
De ter uma férrea posição
Seja pela pátria ou honra,
Um valente em vão
Não se desonra.

E somente pára se vingado
Ou pensa poder me trair assim
Sem pagar nada ao fim?
Eu lhe digo que não
Não irei lhe dar descanso mais
Nem perdão jamais, jamais.

Só me consolarei com lágrimas,
Arrependimento, lamentos
Pedidos de perdão e sangue.
Nem que em mil tribunais ande
Hei de lhe fazer pagar
Enquanto um fio de vida me restar.

Exceto, se você voltar.
(De Poemas Mal Comportados)

Monday, March 20, 2006

ESTE AMOR


Este amor que é tudo quanto resta
Me redime das culpas e pecados.
É uma árvore, contudo uma floresta,
Um deserto de oásis alagado.

Este amor que é tudo quanto tive
Me desculpa dos erros e desejos.
É tão grande que em todo espaço vive;
Tão pequeno que mora nos teus beijos.

Este amor que é tudo quanto levo
Me deixa de ilusão carregado
Feliz de me atrever o quanto atrevo.

Este amor que é tudo que me é dado
É muito mais do que solo e relevo;
É terra, é ar, é céu, canção, pecado!
(Do livro Imagens da Incerteza).

TENDÊNCIA


O comum, o normal me ofende.
Sou um maldito consumado
Tanto que meu incessante fado
Para o desvio sempre tende.

As linhas retas me obcecam
Na sua linearidade absurda
Me soam feito nota surda
Na qual os cantos secam.

As coisas quadradas destroem
Toda e qualquer pretensão.
Estão ocultas nelas o não
Que nos olhos e ouvidos doem.

Os homens que vivem na média
São, para mim, como algozes.
Matam pensamentos velozes
Numa rotina que me entedia.

A vida do seres ditos normais
Para quem pensa é longo sono,
Pois implica no abandono
Dos prazeres mais vitais.
(Do Livro Imagens da Incerteza).

Sunday, March 19, 2006

INSONE AMOROSO

(Imagem pescada do Blog miombligo.free)

Depois de uma noite sem sono
As reações ficam prejudicadas
E as pálpebras cansadas,
Independentes do querer, se fecham
Em microssonos rápidos
E, nas estradas, fatais.
Vem, meu amor,
Desde que você se foi
Não durmo mais
E a culpa será toda sua
Se eu tiver um acidente!

EU, HEIN....


(Álvaro Campos revisitado a partir da margens do Rio Madeira)

Sim: Alguma coisa quero.
Com o fato de que não sei o que é me desespero.

Preciso chegar a algumas conclusões!
A única que não almejo é morrer.
Ou me apegar às modernas e horríveis estéticas!
Nada de politicamente certo e de ética!

Livrem-me da falsa metafísica!
Não me falem com vozes políticas em desenvolvimento sustentável nem no verde
Dos ecologistas (ecologistas, meu Deus, são falsos magos!) —
Sabem de todo futuro das ciências, das artes, da civilização...passada!

Que mal faz o progresso a eles todos?
Se têm o futuro nas mãos, criem outro!

Sou um leigo, mas creio no saber até onde ele sabe.
Fora disso sou ignorante, com todas dúvidas dos mortais comuns.
Por que sou obrigado a pensar como eles?
Não me perturbem, por amor de Deus!

Vão fazer suas passeatas, desfraldar bandeiras, se amarrar ou gritar slogans n’outra freguesia ou não tenho direito à paz?
Só por que desejam o contrário disto, e nem sabem o quê, gritam contra qualquer coisa?
Se outro mundo fosse possível seria um capaz de fazer-lhes todas vontades?
O mundo possível é este, tenham paciência!
Vão fazer barulho sem mim e bem longe.
Deixem-me sozinho seguir meu caminho!
Para quê vamos perturbar todos juntos?

Não me empurrem causas!
Não gosto de seguir a manada.
Quero ser sozinho.
Já disse que gosto de pensar sozinho!E só os idiotas adoram a companhia da cambulhada porque dá a impressão de que não erram sozinhos!

Claro que não há mais céu azul — nem é o mesmo da minha infância —
Até Heráclito já sabia que tudo muda!
O furioso Madeira explode em cachoeiras,
Grandes verdades nas águas se refletem!

Ó verdades revisitadas, Porto Velho de outrora é outra hoje!
E me oferece outras coisas em troca do que tirou e faz com que me sinta feliz como estou.

Sei que viver é lutar!
Há de se saber porque lutar...
E enquanto não se sabe o melhor é estudar do que repetir chavões e o silêncio para pensar é o melhor vizinho!

... e cultive o bom humor. Não há nada melhor para bem amar e o mundo mudar!

Friday, March 17, 2006

ROBERT FROST



The Pasture

Robert Frost

I’m going out to clean the pasture spring;
I’ll only stop to rake the leaves away
(And wait to watch the water clear, I may):
I sha’n’t be gone long.—You come too.

I’m going out to fetch the little calf
That’s standing by the mother. It’s so young,
It totters when she licks it with her tongue.
I sha’n’t be gone long.—You come too.

from North of Boston (1915)

O PASTO

Eu estou indo limpar a fonte do pasto;
Eu só pararei afastar as folhas sempre
(E assistir a água clarear, eu posso):
Eu não espero ir longe...Você também vêm.

Eu estou indo buscar o bezerrinho
Que estava esperando pela mãe. É tão jovem,
Até cambaleia quando com sua língua o lambe.
Eu não espero ir longe...Você também vêm

Thursday, March 16, 2006

A MORTE DO POETA


The Poet Is Dead
William Everson
(excerpt from Everson's memorial for Robinson Jeffers)

Snow on the headland,
The strangely beautiful
Oblique concurrence,
The strangely beautiful
Setting of death.

The great tongue
Dries in the mouth. I told you.
The voiceless throat
Cools silence. And the sea-granite eyes.
Washed the sibilant waters
That stretched lips kiss peace.

The poet is dead.

Nor will ever again hear the sea lions
Grunt in the kelp at Point Lobos.
Nor look to the south when the grunion
Run the Pacific, and the plunging
Shearwaters, insatiable,
Stun themselves in the sea.

O poeta está morto
(Excerto do Memorial de Everson para Robinson Jeffers)

Neve no promontório,
O estranhamente belo
Em sentido oblíquo,
O estranhamente belo
Na hora da morte.

A grande língua
Seca na boca. Eu disse a você.
A garganta muda
No frio silêncio. E os olhos de pedra esverdeada de mar.
Límpidas as águas rumorosas
Que estendem seus lábios para o beijo da paz.

O poeta está morto.

Nunca mais ouvirá os leões marinhos
Grunhirem na marinha de Ponto dos Lobos.
Nem irá mais olhar o sul quando os ventos uivarem
Correndo para o Pacífico e mergulhando
Ondas abaixo, insaciáveis,
Sacudindo o mar
E nele se transformando.

UMA POETISA NORTE-AMERICANA


Wild Geese

Mary Oliver

You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
for a hundred miles through the desert, repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes, over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting--
over and over announcing your place
in the family of things.

Gansos selvagens

Você não tem que ser bom.
Nem tem que caminhar sobre seus próprios joelhos
cem milhas pelo deserto, se arrependendo.
Você só tem que liberar o suave animal de seu corpo
para amar o que ama.
Me fale sobre o seu desespero e irei falar do meu.
Enquanto isto o mundo gira.
Enquanto o sol e os granizos da chuva
Estão rolando pelas paisagens,
Sobre as planícies e as árvores frondosas,
as montanhas e os rios.
Enquanto isto os gansos selvagens, lá no alto do céu azul transparente,
Estarão voltando para casa novamente.
Quem você é, não importa sozinho,
O mundo se oferece à sua imaginação,
Chamando, como aos gansos selvagens, à elegância e à excitação-
lá no alto, lá no alto a anunciar seu lugar
na família das coisas.

Wednesday, March 15, 2006

CANÇÃO DO AMOR MAIS TRISTE

É triste. Tudo é triste. E o meu coração,
terra desolada,
Bate descompassado num rumor de solidão.
Todo prazer, toda graça da vida acabou.
Onde estais? Onde estou?
Onde a felicidade de dias tão doces, tão bons
Nos quais ignoramos o significado
da distância e da saudade?
Insone minha cabeça arde
E meu corpo, cansado, sente a falta do teu
E, em tudo, só persiste a triste lembrança
Da imobilidade de teus olhos tristes
E do mais triste adeus.

Tudo me amarga a boca e me desencaminha.
Não me resta, apesar de frágil e melancólico,
Nem as volúpias inúteis das lágrimas.
Os olhos que me seguem,
As pessoas que me cercam
Não percebem o meu sofrer nem a dor
Nem são capazes de entender o amor
Nem os carinhos que abandonei
Contigo, mulher que amei,
E que ainda sonho amar,
Hoje, porém, não posso nem chorar.

A culpa é tua, minha vida. Tua é a culpa.
Como podes assim ser tão maluca
Que amastes a quem não podia amar
Se sabias ainda que pudesse não devia amar.
É tudo triste, mas há esperança, esperança
sempre há
E há de haver, com certeza, outra dança,
Pois feito criança, como por um brinquedo
perdido, choro
E por teu nome, em orações de amor, oro
Com a tristeza dos crentes que perderam a fé
E a tristeza dos amantes
que não podem mais amar.

Tuesday, March 14, 2006

TEMPO DE POESIA

Que todo o tempo era de poesia
Toda manhã, ao acordar, me dizia
Ao limpar a nevoa que o vidro encobria
E espantar o feroz frio que me acometia
Com o calor do ventre, a tepidez macia
Das suas mãos, da fogueira de seu corpo,
Chama que infatigavelmente ardia.

Que todo o tempo era de poesia
Me lembrava enquanto me esquecia
Nas xícaras de café, pão, na magia
Das manhãs em que permanecia
Preso aos lençóis, à cama e via
No tempo que passava a alegria
Da vida que maravilhosa parecia.

E naquele ritmo o tempo se perdia
Sob a cúpula dourada da volúpia
E nos corpos nem nas mãos se percebia
Leve lembrança do mundo, se existia
Ou se era um mito ou falsa alegoria.
Que todo o tempo era de poesia
É prova a dor e o caos pós-harmonia.

A POESIA É ISTO


È isto a poesia:
A magia do instante
Em que teu olhar capta
Toda a beleza do céu, do sol, do ar, da mata.

É isto a poesia:
Saber que há toda esta delícia,
Todo o prazer do amor,
Que resplandece em luz, em flor
E, de repente, murcha num adeus.

É isto a poesia:
Viver o momento intensamente,
Amar delirantemente
E, inesperadamente, perceber
Como a vida é curta
E mergulhar no nunca mais.

Monday, March 13, 2006

INSTANTÂNEO

No meio da festa tudo muda.
A morte, com sua foice imprevista,
Faz uma visita
E a satisfação se transforma em dor.
A felicidade, como o amor,
Todos sabem breve
E a terra, que dizem leve,
Pesadamente cobre
A alegria e a vida que havia.
No sorriso, que esquecido,
Permanece apenas na fotografia.

Sunday, March 12, 2006

CENA NOTURNA

E foi assim que na praia
Nós encontramos sozinhos...
Noite negra,
Areia alva,
Jangadas quietas,
Nenhum som, voz
E o gosto da tua boca
Me contando os segredos do mar.
Uma estrela indiscreta iluminou nosso amor
E a lua, recatada, entre as nuvens se
escondeu
Uma canção de amor provinda não sei
de onde
Nossos sonhos embalou.
A noção do tempo se perdeu
Só me lembro de tua voz rouca e
enternecida:
-Meu amor como é linda a vida!

SOBRE UM ADEUS


Nos teus olhos azuis havia lendas,
Antigos contos de fados e de fadas,
Magia, luzes, danças, contendas,
Cristais de copos mal quebrados
Que insinuavam as paixões mais plenas.
Na noite, então se cheia estava a lua
Um seresteiro vagava pela rua
Encantando os corações apaixonados
Que suspiravam pelo seu amor
Quando o violão soava encantador
Por sob as copas frondosas das mangueiras.
Ainda quis dizer, sem muito alarde,
Espera mais um pouco...Vai mais tarde,
Mas era tarde mesmo e a vida te levou!

Saturday, March 11, 2006

CONTRAPONTO FRANCISCANO


Se apresse, ligeiro,
Que tudo é pra já
O amor requer pressa
Não pode esperar sem gritar.
Em caixas, armários,
No fundo do mar
Na ausência de carinho
Se extingue no ar
E morre sem jeito de tanto chorar.

Thursday, March 09, 2006

UMA POETISA PERUANA



XXIV
Magdalena Chocano

Yo soy intratable
ninguna luz me alumbra

El corazón puro es un cuchillo acezando
navegable incrustación del mar
Yo soy transparente
ninguna luz me evade

Óyeme espora habitante
no sé si soy eterna no estoy segura
Quien a Sí Se crea a Sí Se destruye

Materia es energía
Luz es energía
Materia es luz
Círculo de tiza donde nada concluye

Estoy formándome/ estoy creciendo
mi cabeza enterrada empieza a abrir los ojos
voy a reunir las partes todas de mi cuerpo
voy a contemplarme
Aire/Tierra/Agua/Fuego ¿sabéis de mí?
No. Nadie sabe de mí
Ni yo misma me sé

Auscultemos la fibra cándida y salvaje del silencio
Oye el estampido de esquejes reluciente
vibración de telares
Oye el rumor de epopeyaque transgrede la vida

Huraño exceso el de mi transparencia
asaz deslumbrante
Empáñeme yo?
Hágame soportable?
Vuélqueme opaca y mortal?

Celebro la Arista.
La espina de la rosa.
La punta del proyectil!
Todo lo que vale a la hora de sacudir el polvo de lãs
Sandálias

Al final
Quien a Sí Se crea a Sí reposa
por eso nunca me equivoco o siempre
y la luz desespera de seguirme

XXIV

Eu sou insociável
nenhuma luz me ilumina
O coração puro é uma faca brilhando
Como bóia navegável incrustada no mar
Eu sou transparente
nenhuma luz me escapa

Escuta-me habitante esporo
Eu não sei se sou eterna nem se estou segura
Quem em si crê a si se destrói
Matéria é energia
Luz é energia
Matéria é luz
Círculo de giz de onde nada se conclui

Eu estou me formando / crescendo
Com a cabeça enterrada começo a abrir os olhos
Vou reunir as partes do meu corpo
Eu me contemplarei

Ar / Terra / Água/ Fogo, sabes de mim?
Não. Ninguém sabe de mim
Nem eu mesma sei de mim mesma

Auscultemos a fibra cândida e selvagem do silêncio
Escutemos o estampido de velozes relampagos
vibração de teares
Escutemos o rumor da epopéia que transgride a vida

Excesso insociável de minha transparência
Assaz deslumbrante

Vai me empanar?
Me fazer suportável?
Me tornar opaca e mortal?
Eu celebro a radicalidade.
O espinho da rosa.
A ponta do projétil!
Tudo o que vale na hora de sacudir o pó das
sandálias

No fim
Quem em si crê em si repousa
por isto nunca me equivoco ou sempre
e a luz se desespera ao me seguir inutilmente.

Tuesday, March 07, 2006

PRAZER


Exponho apenas os meus sonhos
Que, minhas feridas, se guardam em mim
nas cicatrizes.
E, se doem, quando faz frio,
Rio da minha dor,
Que dor maior é a angústia de viver
De saber que, entre um silêncio e outro,
Posso falar todas as palavras,
Amar todos os amores,
Sonhar todos os sonhos
E não ter medo de dizer sim
Ao gosto amargo do prazer,
Que é o gozo dos sentidos,
Deste estranho animal chamado homem.

Sunday, March 05, 2006

PERDIÇÃO

...e as lágrimas que não vem
não significam ausência de tristeza
são mais frutos da alma presa
da qual não brota coisa alguma...
Vida que percorro em tombos,
febril, veloz no meu cansaço.

Ah, sei que, aos poucos, me desfaço
e não disfarço
o mal que me corrói de saber
que me acabo vivendo um mau viver.
Limpo o corpo no prazer torpor
de explodir no gozo embriagador
sujando a alma que nunca se enganou.

...porque tardam tanto a morte e o amor?

Saturday, March 04, 2006

SONHO GREGO


Uma cadeira azul de palhinha
Em Kos Adosi
Sob a roseira
De rosas cor de rosa e vermelhas
É o paraiso.
Se você estiver junto
O céu alcanço
E, se tocar uma música grega,
Como Zorba danço.

Friday, March 03, 2006

THE BARBARIANS ARE COMING


THE BARBARIANS ARE COMING
Marilyn Chin
War chariots thunder, horses neigh, the barbarians are coming.

What are we waiting for, young nubile women pointing at the wall,
the barbarians are coming.

They have heard about a weakened link in the wall.
So, the barbarians have ears among us.

So deceive yourself with illusions: you are only one woman,
holding one broken brick in the wall.

So deceive yourself with illusions: as if you matter,
that brick and that wall.

The barbarians are coming: they have red beards
or beardlesswith a top knot.

The barbarians are coming: they are your fathers, brothers,
teachers, lovers; and they are clearly an other.

The barbarians are coming:
If you call me a horse, I must be a horse.
If you call me a bison, I am equally as guilty.

When a thing is true and is correctly described, one doubles
the blame by not admitting it: so, Chuangtzu, himself,
was a barbarian king!

Horse, horse, bison, bison, the barbarians are coming—
and how they love to come.

The smells of the great frontier exalt in them!

OS BÁRBAROS ESTÃO VINDO

Carruagens de guerra, cavalos relinchantes, os bárbaros estão vindo.

Por que estamos esperando nós, jovens mulheres núbeis, apontando o muro,
os bárbaros estão vindo.

Eles ouviram falar da frágil ligação debilitada no muro.
Assim, os bárbaros têm ouvidos entre nós.

Assim os enganemos com suas ilusões: você é só uma mulher
com um tijolo quebrado segurando o muro.

Assim os enganemos com suas ilusões: como se a você importasse
aquele tijolo e aquele muro.

Os bárbaros estão vindo: eles têm barbas vermelhas ou são imberbes
como um nó de topo.

Os bárbaros estão vindo: eles são como seus pais, irmãos,
professores, amantes; e eles são claramente um outro.

Os bárbaros estão vindo:
Se você me chamar um cavalo, eu devo ser um cavalo.
Se você me chamar um bisão, eu sou igualmente culpada.

Quando uma coisa é verdade e é descrita corretamente, a pessoa dobra
sua culpa em não admitir isto: assim, Chuangtzu, ele mesmo,
era um rei de bárbaro!

Cavalo, cavalo, bisão, bisão, que os bárbaros estão vindo-
e como eles amam vir.

Os aromas da grande fronteira se glorificam neles!

TEMPO


Te abandonas molemente aos afagos.
Percebo que teus seios são montanhas,
Teu ventre, um vale e, quando me apanhas,
Que teus olhos são dois enormes lagos.

Quando, então, danças no escuro
No ritmo febril de tua respiração
Teu sangue é uma lava, teu corpo, um vulcão
E no teu corpo o tempo está seguro.

Depois mais mole, e mesmo saciada,
Um sorriso, ou melhor, uma flor
Desabrocha como fruto do amor
E o tempo parece que não é mais nada!
(De Apocalypse, Editora Zanzalás).

IMAGEM

Imagem –
Eis o deus da falta de substância.
Procuro o sumo da realidade
Por detrás de signos
Que escondem a fome multiplicada
de milhões.

Imagem de televisão:
Do diplomata,
Que impecavelmente garante,
Por si e por seu passado,
Que todos estão errados
(Só ele não)
Que não houve o que houve.

Quedo-me atônito diante da versão
E os fatos que explodem no meu rosto
São fragmentos de uma manchete
que não é impressa
E eu, perante tantos eus despersonalizados,
Também tenho medo de fragmentar-me
De também despertar
um dia
apenas uma imagem.
(De Apocalpse)

Thursday, March 02, 2006

NO RETROVISOR


Que é o amor, menina?
Que é o amor?
É tomar estricnina
Tomar banho de vapor
Ou será pegar o bonde
Que vai pra Santa Tereza?

Sem resposta vou ficando
E insisto em perguntar:
Moça que vai pro Pará
Moça, moça o que é o amor?
Lá se foi sem dizer nada.

Meu senhor o que é o amor?
Será o paõ, o vinho, a oração, o pecado?
Mais um que ficou calado.
Meu velho o que é o amor?
Olhou-me desconfiado,
Com uma olhar embaçado,
E completou com um gesto
De quem só sente saudade:
-O amor é algo bom
Que está sempre no passado.

COMO O CACHORRO ATRÁS DO RABO

Porto Velho não é mais a mesma:
Não tem mais festas,
Não tem mais mulheres,
Não tem mais cerveja
Nem dinheiro-
Dizem todos os clientes dos doleiros,
Mas nada tem afetado os sonhos dos noiados.
Ouro não há mais.
Não há mais luar,
Poesia já não há:
Onde estão os olhos lindos de Maria?
Meu amigo Lito
Já não acredito no amanhecer
Nem que uísque faça mal.
Ora veja,
Como está mais moço o Juvenal,
Porém, para lhe imitar, vou me mudar
Para outro hemisfério
Porque aqui todo palhaço
É sempre sério.
Não me leve a mal
E que se foi mais um carnaval.
Deve ser que é março,
Um mês imoral,
Que me deixa assim
Atrás de tudo que corre de mim!
(Versos de uma música nunca musicada).