Thursday, November 10, 2022

REFLEXÃO NUM AVIÃO EM TURBULÊNCIA

 


 Senti, quando entrei, que embarcar neste avião

era como entrar em velocidade na contramão.

E, ao olhar para a cabine do piloto,

reconheci, de pronto, o cara louco

que, ontem, bebia vodca como se fosse água.

Nem pensem que extravaso alguma mágoa.

Não. Devo reconhecer que devia ter descido,

mas, a vida, de qualquer modo, é um perigo,

de forma que fiquei e depositei minha confiança

na estatística, que me informa que uma queda

é mais difícil do que ganhar na loteria.

Agora, com este descalabro, este balançar,

como se fosse bola de pingue pongue,

sinto que errei, que fiz o que não devia.

Talvez tenha sido o fato de que esta companhia,

além de cumprir horários, nunca perdeu uma nave,

esqueci que avião é pesado, não é ave,

e o passado nada informa sobre o futuro.

Na verdade, só nos resta rezar,

principalmente, vendo o medo, é duro,

que se vê no olhar da comissária,

depois de falar com o copiloto.

Não é hora de procurar culpados.

Mortos não culpam ninguém

e também nenhuma culpa tem.

Vão passar anos investigando

e, depois, numa breve nota

dirão que foi erro humano

ou de manutenção.

Nada de chorar.

Encare as coisas com isenção:

pegamos o voo errado.

É muito azar!

Ilustração: e-destinos.com.br.

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