Sunday, May 18, 2025

Uma poesia de Glória Gervitz

 


FROM “MIGRACIONES”

 Glória Gervitz

ahora estoy en un paisaje de cenzontles
cada vez estoy más cerca

cuando posea esa inmensidad
apenas tendré fuerza para despertar en la brevedad de la muerte

la luz golpea el aire
estamos donde los colores se abren
son días largos y apretados como la migraña
y todo se repite
los árboles desamarrándose
la noche deshaciéndose
¿y después?
lo único verdadero es el reflejo del sueño que trato de fracturar

y que ni siquiera me atrevo a soñar
continuo plagio de mí misma
y el lugar del encuentro es sólo tiempo
todo no es sino tiempo
allá donde unas cuantas buganvilias en un vaso de agua
bastan para hacernos un jardín
porque morimos solos
y la muerte es apenas el despertar
de este sueño primero de vivir
y dijo mi abuela a la salida del cine
sueña que es hermoso el sueño de la vida muchacha
se oxida la lumbre de las veladoras
y yo ¿dónde estoy?
soy la que fui siempre
lo inesperado de estar siendo
llego al lugar del principio donde comienza el comienzo
éste es el tiempo
es el tiempo de despertar
la abuela enciende las velas sabáticas desde su muerte y me mira

se extiende el sábado hasta nunca hasta después hasta antes
mi abuela que murió de sueños
mece interminablemente el sueño que la inventa
que yo invento
una niña loca me mira desde adentro

 

estoy intacta

DE “MIGRAÇÕES”

Agora estou numa paisagem de pássaros zombadores

cada vez estou mais perto

 

quando possuir essa imensidão

apenas terei forças para despertar na brevidade da morte

 

a luz golpeia o ar

estamos onde as cores se abrem

São dias longos e tensos como uma enxaqueca

e tudo se repete

as árvores se desfazendo

a noite se dissolvendo

e depois?

A única coisa verdadeira é o reflexo do sonho que tento fraturar

 

e que nem sequer me atrevo a sonhar

contínuo um plágio de mim mesmo

e o lugar de encontro é só o tempo

tudo não é senão o tempo

ali onde algumas buganvílias em um copo d'água

bastam para fazer um jardim para nós

porque morremos sozinhos

e a morte é apenas o despertar

deste sonho primeiro de viver

e minha avó disse quando saímos do cinema

sonhe que o sonho da vida é formoso, menina

a luz da vela oxida

e eu onde estou?

Sou a que fui sempre

o inesperado de estar sendo

chego ao lugar do princípio onde começa o começo

este é o tempo

o tempo de despertar

A avó acende as velas do sábado desde a sua morte e me olha

 

se estende o sábado até nunca até depois até antes

minha avó que morreu de sonhos

mexe infinitamente o sonho que ela inventa

que eu invento

uma garota louca me olha de dentro

 

Estou intacta.

Ilustração: Meer.

Thursday, May 15, 2025

Uma poesia de Gustavo Yuste

 


CREYNTE

Gustavo Yuste 

En medio de la noche,
literalmente en el vértice
que separa a la oscuridad
de la madrugada,
tu imagen se presenta
como una diosa pagana
a la que ya no puedo rezarle
ni pedirle.
Lo que se adora
nunca responde,
¿no es esa la gracia
de todo esto?

O CRENTE

No meio da noite

literalmente no vértice

que separa a escuridão

sa madrugada,

tua imagem se apresenta

como uma deusa pagã

para a qual não se pode rezar

nem pedir.

O que se adora

nunca responde,

não é esta a graça

de tudo isto?

Ilustração: Comunidade de Nova Vida Vida. 


O Multimiliardário




Agora que você me deu de presente

a ilha que batizei com seu nome,

em Chalbacheb, 

como já possuía,

com registro em cartório, 

a pequenina e distante estrela, Earandel, 

mesmo sem tomar posse 

destes bens tão raros,

me considero o homem mais rico do mundo.

Tenho três coisas que ninguém pode ter:

uma ilha, uma estrela e o teu amor! 

Ilustração: Superinteressante. 

Hypothesis de Lyell's por Kenneth Rexroth

 


Lyell’s Hypothesis Again

Kenneth Rexroth

The mountain road ends here,
Broken away in the chasm where
The bridge washed out years ago.
The first scarlet larkspur glitters
In the first patch of April
Morning sunlight. The engorged creek
Roars and rustles like a military
Ball. Here by the waterfall,
Insuperable life, flushed
With the equinox, sentient
And sentimental, falls away
To the sea and death. The tissue
Of sympathy and agony
That binds the flesh in its Nessus' shirt;
The clotted cobweb of unself
And self; sheds itself and flecks
The sun's bed with darts of blossom
Like flagellant blood above
The water bursting in the vibrant
Air. This ego, bound by personal
Tragedy and the vast
Impersonal vindictiveness
Of the ruined and ruining world,
Pauses in this immortality,
As passionate, as apathetic,
As the lava flow that burned here once;
And stopped here; and said, 'This far
And no further.' And spoke thereafter
In the simple diction of stone.


Naked in the warm April air,
We lie under the redwoods,
In the sunny lee of a cliff.
As you kneel above me I see
Tiny red marks on your flanks
Like bites, where the redwood cones
Have pressed into your flesh.
You can find just the same marks
In the lignite in the cliff
Over our heads. Sequoia
Langsdorfii before the ice,
And sempervirens afterwards,
There is little difference,
Except for all those years.


Here in the sweet, moribund
Fetor of spring flowers, washed,
Flotsam and jetsam together,
Cool and naked together,
Under this tree for a moment,
We have escaped the bitterness
Of love, and love lost, and love
Betrayed. And what might have been,
And what might be, fall equally
Away with what is, and leave
Only these ideograms
Printed on the immortal
Hydrocarbons of flesh and stone.

A HIPOTÉSE DE LYELL NOVAMENTE

A estrada da montanha termina aqui,

Quebrada no abismo onde

A ponte foi arrastada anos atrás.

A primeira espora escarlate brilha

No primeiro pedaço de abril

Sol da manhã. O riacho cheio

Ruge e farfalha como um baile militar. Aqui, perto da cachoeira,

Vida insuperável, afogueada

Com o equinócio, senciente

E sentimental, cai

Para o mar e a morte. O tecido

De simpatia e agonia

Que une a carne em sua camisa de Nesso;

A teia coagulada do não-eu

E do eu; se desprende e salpica

O leito do sol com dardos de flores

Como sangue flagelante acima

A água explodindo no vibrante

Ar. Este ego, preso pela tragédia pessoal e pela vasta Vingança impessoal do mundo arruinado e em ruínas, Pausa nesta imortalidade, Tão apaixonado, como apático, Como o fluxo de lava que queimou aqui uma vez; E parou aqui; e disse: 'Até aqui

E não mais longe.' E falou depois

Na dicção simples da pedra.

 

Nus no ar quente de abril, deitamo-nos sob as sequoias,

Ao abrigo ensolarado de um penhasco.

Enquanto você se ajoelha acima de mim, vejo

Finas marcas vermelhas em seus flancos

Como mordidas, onde as pinhas

Pressionaram sua carne.

Você pode encontrar exatamente as mesmas marcas

No linhito do penhasco

Sobre nossas cabeças. Sequoia

Langsdorfii antes do gelo,

E sempervirens depois,

Há pouca diferença,

Exceto por todos aqueles anos.

 

Aqui no doce e moribundo

Fedor de flores primaveris, lavadas,

Destroços e refugos juntos,

Frios e nus juntos,

Debaixo desta árvore por um momento,

Escapamos da amargura

Do amor, do amor perdido e do amor

Traído. E o que poderia ter sido,

E o que poderia ser, cai igualmente

Fora com o que é, e deixa

Apenas estes ideogramas

Impressos nos imortais

Hidrocarbonetos de carne e pedra.

Ilustração: Springer Link.

Tuesday, May 13, 2025

Um poema de Lauren K. Watel

 

 


THE LAST ACT

Lauren K. Watel

When the sun takes a final bow, its luminous gown glittering as it leaves the stage, and the audience stands, stretches, files out of the theater, only then do the fireflies enter, lighting their delicate lamps to show us the way out, and they hover over the edges of the grass like our smallest hopes, evening’s fading beacons. We drive past the fields in our rented sedans, windows sealed against the heat, we stretch our feet in our stiff shoes, the lights flying past, those tiny flares floating above the grass, we roar by, our engines, our wheels, our windows sealed, the fields aspark under that lowering curtain, and we strain to see them, wait for that slight hint, as if someone is whispering the word: fire. So quietly, so gently, so brief, it’s almost as if we imagined that bit of air, we crane our necks, waiting for the next flash, holding our breath, hoping, hoping, remembering those moments, when we caught them inside the globe of our clasped hands, put them in a jar, and screwed on a lid with holes in the top, a starry sky for the jar of the world, and we carried the world into our room, and we peered through its glass walls, the pulsing lights, the glimmering hopes, which we hold in our hands, which we watch in the dark, those flashes, each like a star shorting out and out.

O ÚLTIMO ATO

Quando o sol faz uma final reverência, seu manto luminoso cintila ao deixar o palco, e a plateia se levanta, se espreguiça, sai em fila do teatro, só então os vaga-lumes entram, acendendo suas delicadas lâmpadas para nos mostrar a saída, e pairam sobre as bordas da grama como nossas menores esperanças, os faróis que se apagam da noite. Nós dirigimos pelos campos em nossos sedãs alugados, com as janelas fechadas contra o calor, esticamos os pés em nossos sapatos duros, as luzes passando voando, aqueles pequenos sinalizadores flutuando sobre a grama, passamos rugindo, nossos motores, nossas rodas, nossas janelas fechadas, os campos brilhando sob aquela cortina que se abaixa, e nos esforçamos para vê-los, esperamos por aquele leve sinal, como se alguém estivesse sussurrando a palavra: fogo. Tão silenciosamente, tão suavemente, tão breve, é quase como se imaginássemos aquele pedaço de ar, esticamos nossos pescoços, esperando pelo próximo flash, prendendo a respiração, esperando, esperando, lembrando daqueles momentos, quando os pegamos dentro do globo de nossas mãos entrelaçadas, os colocamos em um jarro e fechamos uma tampa com furos no topo, um céu estrelado para o jarro do mundo, e carregamos o mundo para o nosso quarto, e espiamos através de suas paredes de vidro, as luzes pulsantes, as esperanças brilhantes, que seguramos em nossas mãos, que observamos no escuro, aqueles flashes, cada um como uma estrela em curto-circuito.

Ilustração: G1.

E, de volta, Hanni Ossot

 


LA MORDIDA PROFUNDA

Hanni Ossott

Hay una mordida profunda

incisiva

en el centro de mi sexo

por la cual yo me erijo como yo misma

y soy,

y poseo y dono.

Regalo mi cuerpo y mi ansia.

Hay una mordida en mí

que doblega al otro

lo arrodilla, lo inclina.

Por esa mordida se abre un vasto mar de vacíos

vértigos

precipitaciones

abismos.

Me cruza una pendiente

me traza un precipicio

en el amor...

y en todas mis secretas junturas

con cuido, con recelo, tú te avienes a mí

y no me sabes.

A MORDIDA PROFUNDA

Há uma mordida profunda,

incisiva

no centro de meu sexo

pelo qual eu me erijo como eu mesmo

e sou,

e possuo e doo.

Ofereço meu corpo e minha ansia.

Há uma mordida em mim

que subjuga o outro

que o ajoelha, o curva.

Por esta mordida se abre um vasto mar de vazio

vertigem

precipitação

abismos.

Me cruza uma ladeira

me atrai um precipício

no amor...

e em todas as minhas juntas secretas

Com cuidado, com receio, tu concordas comigo

e não me conheces.

Ilustração: Cliníca Odontológica Malavasi.

Monday, May 12, 2025

PARA FAZER AMOR

 


Para fazer amor, meu bem,

dia não tem.

hora não há.

É só me dar a mão

e começar.

Para fazer amor, meu bem,

basta um olhar de carinho,

da cama fazer um ninho

tudo bem devagarinho.

Para fazer amor, meu bem,

é preciso amar

o amor que se tem.

Sorrir, dançar nos teus braços

num gostoso vai e vem.

Para fazer amor, meu bem,

só preciso de uns beijinhos,

uns carinhos, uns abraços.

Umas palavras doces

que me diz

para me fazer feliz.

Ilustração: Poesia Galvaneana.

 

Sunday, May 11, 2025

Claribel Alegria, pois

 


RITO INCUMPLIDO

Claribel Alegría

                                  A mi madre

Dicen que la muerte es solitaria
que nos morimos solos
aunque estemos rodeados de aquellos que nos aman
pero tú me llamaste
y yo no estuve:
no te cerré los ojos
no te besé la frente
no te ayudé a pasar
al otro lado
estuve lejos
lejos de ti que me alumbraste
me nutriste
educaste mis alas.
No cumplí con el rito
estuve lejos
lejos
y ese es el sollozo que me arrebata en olas
en cúpulas
en grutas
y no puede salir
y me persigue en sueños
y me ahoga.
Perdóname/libérame
necesito aullar
batir tambores
un golpe en la cerviz
un estallido
para arrancar de cuajo este sollozo
y no invocarte más
en desolados
versos.

RITO NÃO CUMPRIDO

                                     Para minha mãe

Dizem que a morte é solitária

Que nós morremos sozinhos

ainda que rodeados daqueles que nos amam

porém tu me chamaste  

e eu não estevi:

não fechei seus olhos

não beijei tua testa

não te ajudei a passar

ao outro lado

estive longe

longe de ti que me iluminou

me nutriu

que educaste minhas asas.

Não cumpri o rito

estive longe

longe

e este é o soluço que me arrebata em ondas

em cúpulas

em grutas

e não posso sair

e me persegue sonhos

e me afoga.


Perdoe-me/liberte-me

preciso uivar

bater tambores

um golpe no pescoço

uma explosão

para arrancar este soluço

e não te invocar mais

em desolados

versos.

Ilustração: Depositphotos.


Friday, May 09, 2025

Sonnet XXVII William Shakespeare

 


Sonnet XXVII

William Shakespeare
Weary with toil, I haste me to my bed,
The dear respose for limbs with travel tired,
But then begins a journey in my head
To work my mind, when body’s work’s expired.
For then my thoughts (from far where I abide)
Intend a zealous pilgrimage to thee,
And keep my drooping eyelids open wide,
Looking on darkness which the blind do see.
Save that my soul’s imaginary sight
Presents thy shadow to my sightless view,
Which like a jewel (hung in ghastly night)
Makes black night beauteous, and her old face new.
Lo thus by day my limbs, by night my mind,
For thee, and for my self, no quiet find.

Soneto XXVII
Cansado do trabalho, apresso-me para a cama,

O caro repouso dos membros ​​de viagem cansados,

Mas então uma jornada minha cabeça chama

Trabalha minha mente, o trabalho do corpo terminado.

Então (de longe, onde permaneço) meus pensamentos

Pretendem, zelosa a ti, uma peregrinação

E mantêm minhas pálpebras caídas bem abertas,

Olhando o que os cegos veem, a escuridão.

Exceto que na minha imaginária mente

Tua sombra à minha visão cega traz,

Tal qual uma joia (pendurada em medonha noite)

Faz a negra noite bela e seu velho rosto refaz.

E assim, de dia, o corpo, de noite a mente,

Para ti, e por mim mesmo, a paz não sente.

Ilustração: SPX diagnóstico por imagem.

Gladys González de volta

 


Trozos de mercurio

Gladys González

Una pensión en Valparaíso
una cama
una mesa y dos sillas
tengo a John Milton
sobre la taza del baño
estoy bebiendo lo que queda de la tarde
he escrito cosas mientras estaba borracha
que me parecen bien
espero a mi amiga del cerro Barón
para que me recoja despacito
como trozos de mercurio
y me lleve a comer algo
en un restauran donde halla wurlitzer
porque quiero escuchar
esa canción de Bob Dylan
todo lo que me resta de vida

PEDAÇOS DE MERCÚRIO

Uma pensão em Valparaíso

uma cama

uma mesa e duas cadeiras

tenho John Milton

no vaso sanitário

estou bebendo o que resta da tarde

já escrevi coisas enquanto estava bêbado

que me parecem boas

espero minha amigo do Cerro Barón

para que possa me pegar devagar

como pedaços de mercúrio

e me leve para comer algo

num restaurante onde tem Wurlitzer

porque quero escutar

essa canção de Bob Dylan

tudo que me resta de vida

Ilustração: Meteroríticas.

Thursday, May 08, 2025

O QUINTO ELEMENTO

 


Ah! O meu amor por ti

não é algo que se possa discutir. 

Não tem lógica, tamanho, dimensão forma,

pois escapa das normas

e se espraia pelo tempo

até invadir todo o pensamento. 

Ah! O meu amor por ti, minha linda,  

me embriaga,

não me deixa refletir

por me acompanhar em todas as partes

e, como uma melodia desconhecida, 

ser a memória de toda a minha vida.

Ah! O meu amor por ti, minha amada, 

é o quinto elemento,

que caiu do céu, 

num inesperado momento,

e num instante

me fez novamente ser criança 

e dançando na chuva

ser feliz. 

As folhas que se movem de Rafael Alberti

 


MOVED LAS HOJAS, LAS HOJAS

Rafael Alberti

                                                               Para María Asunción Mateo,
                                                               prendedora de estos cantos

Moved las hojas, las hojas,
albas hojas de este libro.
Canto yo.
Vuelan pájaros y flores.
Soy yo.
Vuelan. Pero si no vuelven,
si quedan mudas las hojas…
¿Dónde estaré yo?
La mano que aquí me puso,
sabe dónde vuelo yo.

MOVE AS FOLHAS, AS FOLHAS

                                                            Para Maria Assunção Mateo,

                                                            a prendedora desses cantos

 

Move as folhas, as folhas,

folhas brancas deste livro.

Canto eu.

Voam os pássaros e as flores.

Sou eu.

Voam. Porém se não voltam,

se ficarem mudas as folhas…

Onde estarei eu?

A mão que me pôs,

sabe para onde voo eu.

Ilustração: Shutterstock.

Outra poesia de Bahnu Kapil

 


HUMANIMAL [I WANT TO MAKE A DARK MIRROR OUT OF WRITING]

Bhanu Kapil

47. I want to make a dark mirror out of writing: one child facing the other, like Dora and little Hans. I want to write, for example, about the violence done to my father’s body as a child. In this re-telling, India is blue, green, black and yellow like the actual, reflective surface of a mercury globe. I pour the mercury into a shallow box to see it: my father’s right leg, linear and hard as the bone it contains, and silver. There are scooped out places where the flesh is missing, shiny, as they would be regardless of race. A scar is memory. Memory is wrong. The wrong face appears in the wrong memory. A face, for example, condenses on the surface of the mirror in the bathroom when I stop writing to wash my face. Hands on the basin, I look up, and see it: the distinct image of an owlgirl. Her eyes protrude, her tongue is sticking out, and she has horns, wings and feet. Talons. I look into her eyes and see his. Writing makes a mirror between the two children who perceive each other. In a physical world, the mirror is a slice of dark space. How do you break a space? No. Tell me a story set in a different time, in a different place. Because I’m scared. I’m scared of the child I’m making.

48. They dragged her from a dark room and put her in a sheet. They broke her legs then re-set them. Both children, the wolfgirls, were given a fine yellow powder to clean their kidneys but their bodies, having adapted to animal ways of excreting meat, could not cope with this technology. Red worms came out of their bodies and the younger girl died. Kamala mourned the death of her sister with, as Joseph wrote, “an affection.” There, in a dark room deep in the Home. Many rooms are dark in India to kill the sun. In Midnapure, I stood in that room, and blinked. When my vision adjusted, I saw a picture of Jesus above a bed, positioned yet dusty on a faded turquoise wall. Many walls in India are turquoise, which is a color the human soul soaks up in an architecture not even knowing it was thirsty. I was thirsty and a girl of about eight, Joseph’s great-granddaughter, brought me tea. I sat on the edge of the bed and tried to focus upon the memory available to me in the room, but there was no experience. When I opened my eyes, I observed Jesus once again, the blood pouring from his open chest, the heart, and onto, it seemed, the floor, in drips.

HUMANIMAL [QUERO FAZER UM ESPELHO ESCURO DA ESCRITA]

47. Eu desejo fazer um espelho escuro da escrita: uma criança em frente para a outra, como Dora e o pequeno Hans. Eu desejo escrever, por exemplo, sobre a violência sofrida contra o corpo do meu pai quando criança. Nesta recontagem, a Índia é azul, verde, preta e amarela como a superfície real e reflexiva de um globo de mercúrio. Eu despejo o mercúrio em uma caixa rasa para vê-lo: a perna direita do meu pai, linear e dura como o osso que contém, e prateada. Há lugares escavados onde falta carne, brilhantes, como seriam independentemente da raça. Uma cicatriz é memória. A memória está errada. O rosto errado aparece na memória errada. Um rosto, por exemplo, condensa-se na superfície do espelho do banheiro quando eu paro de escrever para lavar o rosto. Com as mãos na pia, olho para cima e o vejo: a imagem distinta de uma menina coruja. Seus olhos se projetam, sua língua está para fora, e ela tem chifres, asas e pés. Garras. Eu olho em seus olhos e vejo os dele. A escrita cria um espelho entre as duas crianças que se percebem. Em um mundo físico, o espelho é uma fatia de espaço escuro. Como se quebra um espaço? Não. Conte-me uma história ambientada em um tempo diferente, em um lugar diferente. Porque eu estou com medo. Eu estou com medo da criança que estou criando.

48. Eles a arrastaram de um quarto escuro e a colocaram em um lençol. Quebraram suas pernas e as recolocaram. Ambas as crianças, as meninas-lobo, receberam um pó amarelo fino para limpar os rins, mas seus corpos, tendo se adaptado aos hábitos animais de excretar carne, não conseguiram lidar com essa tecnologia. Vermes vermelhos saíram de seus corpos e a menina mais nova morreu. Kamala lamentou a morte de sua irmã com, como Joseph escreveu, "um afeto". Lá, em um quarto escuro nas profundezas do Lar. Muitos cômodos são escuros na Índia para matar o sol. Em Midnapure, eu fiquei naquele quarto e pisquei. Quando minha visão se ajustou, vi uma imagem de Jesus sobre uma cama, posicionada ainda empoeirada em uma parede turquesa desbotada. Muitas paredes na Índia são turquesa, uma cor que a alma humana absorve em uma arquitetura sem nem saber que estava com sede. Eu estava com sede e uma menina de cerca de oito anos, bisneta de Joseph, me trouxe chá. Sentei-me na beira da cama e tentei me concentrar na memória disponível para mim no quarto, mas não havia experiência. Quando abri os olhos, observei Jesus mais uma vez, o sangue escorrendo de seu peito aberto, do coração e, ao que parecia, do chão, em gotas.

Ilustração: Myloview. 

Saturday, May 03, 2025

Tirando dúvidas!

 



Não, não, nanão! Desculpe bela,

mas os ovos Fabergé não são somente dois!

Não podem ser comprados por bagatela

nem podem ser vendidos em cartela!

Ilustração: Newgreenfil. 


Uma poesia de Bhanu Kapil

 


PILGRIMAGE

Bhanu Kapil

The arch of my foot aches.
Soon, we’re walking through nettles, a yellow paddock,
               fresh ginger packed between the gum
And tooth.
In excess, sugars become fat, a kind
               of sealant. Organs bleating
On the forest floor.
A first step.
Blue radiance, paper that receives ink, coffee with cream. By day 8,
               I can’t remember life
With my family.

PEREGRINAÇÃO

O arco do meu pé dói.

Cedo, nós iremos caminhando através de urtigas, um pasto amarelo,

gengibre fresco entre a gengiva

e o dente.

Em excesso, os açúcares viram gordura, uma espécie

de selante. Órgãos balindo

no chão da floresta.

Um primeiro passo.

Brilho azul, o papel que recebe a tinta, café com creme. No oitavo dia,

Não consigo me lembrar da vida

Com minha família.

Ilustração: Comissão Nacional de Diáconos.


Friday, May 02, 2025

Uma poesia de Luciana Maxit

 


Luciana Maxit

de incógnito encontré a cupido hurgando en la basura de la cocina cerca de las tres de la mañana

 lo escuché murmurar
creo que cantaba
una canción sobre la guerra
mientras separaba, sigiloso
los plásticos y los cadáveres
de los paquetes de fideos

me acerqué despacio para hablar
quería decirle de dónde vengo
dibujar la forma exacta de mi historia
le hablé de vos, imaginando
podríamos haber inventado
cierto mundo común
sostenerlo entre las manos
verlo crecer en una casa
hecha de materiales nobles
y contarle cuentos de carver
para que encuentre el sueño
ante la finura de su trazo

pero el amor, me dijo
es un invento accidental
una historia que se cuenta sola
una flecha que se equivoca

mi opción es seguir
explorando en la basura
buscar el momento eureka
y confiar en que el viento
amontone los pedazos
alguna vez.

de incógnito encontro de  Cupido revirando o lixo da cozinha por volta das três da manhã.

 

Eu o escutei murmurar

creio que cantava

uma canção sobre guerra

enquanto se separava, sigilosamente

os plásticos e cadáveres

dos pacotes de macarrão

me acerquei devagar para falar

queria dizer-lhe de onde venho

desenhar a forma exata da minha história

falei sobre você, imaginando

que poderíamos ter inventado

um certo mundo comum

sustentá-lo entre as mãos

vê-lo crescer em uma casa

feito de materiais nobres

e contar-lhe contos de escultor

para que encontre o sono

diante da finura do seu traço

mas amor, ele me disse

é uma invenção acidental

uma história que se conta só

uma flecha que se equivoca

minha opção é seguir

explorando o lixo

buscar o momento eureka

e confiar que o vento

amontonhe os pedaços

alguma vez.

Ilustração: Santhatela.

Thursday, May 01, 2025

Coração Iludido



Os anjos estavam vestidos de palhaços

quando a lua no céu iluminou

nosso beijo de amor.

Foi uma apoteose trágica, 

o naufrágio de um barco, 

a queda de uma estrela cadente, 

uma mágica decepcionante. 

Mal me beijou, de repente,

como um relâmpago  sumiu,

tão rapidamente, 

que nunca mais ninguém 

te viu. 

E até hoje

meu magoada coração 

vive atrás de tua ilusão.