Wednesday, October 21, 2026

 


Y SIN EMBARGO AMOR  

Roque Dalton

Y sin embargo, amor, a través de las lágrimas,
yo sabía que al fin iba a quedarme
desnudo en la ribera de la risa.

Aquí,
hoy,
digo:
siempre recordaré tu desnudez en mis manos,
tu olor a disfrutada madera de sándalo
clavada junto al sol de la mañana;
tu risa de muchacha,
o de arroyo,
o de pájaro;
tus manos largas y amantes
como un lirio traidor a sus antiguos colores;
tu voz,
tus ojos,
lo de abarcable en ti que entre mis pasos
pensaba sostener con las palabras.

Pero ya no habrá tiempo de llorar.

Ha terminado
la hora de la ceniza para mi corazón.

E, SEM EMBARGO, AMOR

E, sem embargo, amor, através das lágrimas,

eu sabia que, no fim, iria ficar

nu na margem do riso.

 

Aqui,

hoje,

digo:

sempre lembrarei da tua nudez em minhas mãos,

do teu cheiro de madeira de sândalo desfrutada

cravada junto ao sol da manhã;

do teu riso de moça,

ou de riacho,

ou de pássaro;

das tuas mãos longas e amantes

como um lírio traidor de suas antigas cores;

da tua voz,

dos teus olhos,

do que, em ti, foi possível abarcar e que, entre os meus passos,

eu pensava sustentar com as palavras.

 

Porém já não há tempo para chorar.

 

Está terminada

a hora das cinzas para o meu coração.

Ilustração: Tribuna do Sertão.

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