Wednesday, April 08, 2026

Surfing La Manga de Andrés Garcia Cerdán

 


                                   SURFING LA MANGA

Andrés Garcia Cerdán

 

                                         me hablas del dolor tu cabello es rubio
                                         a qué dolor te refieres

                                                                          J. F. Kosta

Entre las ramas de los ficus
y una señal de tráfico,
entre un anuncio de telefonía
y algunos edificios
en construcción, se alcanza a ver
allá a lo lejos
una franja de mar.

Me hablas de la sed,
de lo que amas.
Para llegar al agua,
has de cruzar isletas de cemento,
líneas amarillas
y algunos callejones
donde hacen hilera los cubos de basura,
los cactus desahuciados
y algunas tiendas de comida rápida.
Por la Gran Vía de La Manga, nadie.
Solo el silencio
dinamitado
por las motos de los repartidores.
En el vacío se equilibran
los hoteles desiertos,
apenas una luz
en un bloque de veinte alturas.
Un cartel nos invita a clases de alemán:
Die Zukunft ist da!
Los periódicos dicen que a la playa
llegan miles de peces a morir
heridos de fosfatos.
Me hablas de Anne Sexton,
de su locura deliciosa.
De fondo, un rumor.
El cartel de Surfing La Manga
se resiste a ceder la luz
que le queda del último verano.
Se alquilan motos de agua,
tablas de surf, tumbonas,
pero no todavía:
ahora todo está cerrado.
Al fin el mar,
tras la alambrada de un desguace,
como un animal gris
que se abraza a su presa justo antes de engullirla.

SURFANDO EM LA MANGA

                                          Você me fala de dor, seu cabelo é loiro.

                                          A que dor você se refere?

                                                                               J. F. Kosta

Entre os galhos dos fícus

e uma placa de trânsito,

entre um outdoor de telefone

e alguns prédios

em construção, você consegue distinguir

ao longe

uma faixa de mar.

me falas de sede,

daquilo que você ama.

Para chegar à água,

precisas atravessar ilhas de concreto,

faixas amarelas

e alguns becos

onde latas de lixo se alinham,

os cactos abandonados

e algumas lanchonetes.

Na Gran Vía de La Manga, ninguém.

Apenas o silêncio

quebrado

pelas motos de entrega.

No vazio, os hotéis desertos se equilibram

no horizonte,

mal uma luz

em um prédio de vinte andares.

Uma placa nos convida para aulas de alemão:

Die Zukunft ist da!

Os jornais dizem que milhares de peixes são levados para a praia

para morrer,

feridos por fosfatos.

me contas sobre Anne Sexton,

sobre sua deliciosa loucura.

Ao fundo, um murmúrio.

A placa de Surfing La Manga

resiste a ceder os últimos vestígios

da luz do verão passado.

Jet skis,

pranchas de surfe, espreguiçadeiras são alugadas,

mas ainda não:

tudo está fechado agora.

Finalmente, o mar,

atrás do arame farpado de um ferro-velho,

como um animal cinzento

agarrando-se à sua presa pouco antes de engoli-la.

Ilustração: Yumping. 


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