Tuesday, December 18, 2012

Juan Gelman retorna




Nota V                                           


Juan Gelman                                                    

no echés a la tristeza del fogón/
siéntese aquí a mi lado/vieja/
usted nunca me va a dejar/
perdonemé si la olvidé

si anduve de rabia en rabia
saliendo de un muerto entrando
a otro muerto o mundo roto/
si así viaje todos estos años/

arrímese/tristeza/
que me hace tanta furia
y tanto puerto muerto y
necesito viajar/viajar


Nota V

Não jogues a tristeza do fogão/
sentando-se aqui a meu lado / velha /
você nunca vai me deixar /
Perdoe-me se a esqueci

se tivesse andado da raiva para a raiva
saindo de um morto entrando
em outro morto ou num mundo roto /
se assim viajei todos esses anos /

arremesse/ a tristeza /
que me faz tanta fúria
e tanto porto morto e
necesito viajar / viajar

Monday, December 17, 2012

Traindo ( e muito) a Catulo





CARMEN CVII
 
Catulo
Si cui quid cupido optantique obtigit unquam
insperanti, hoc est gratum animo proprie.
quare hoc est gratum nobis quoque, carius auro,
quod te restituis, Lesbia, mi cupido:
restituis cupido atque insperanti, ipsa refers te
nobis. o lucem candidiore nota!
quis me uno vivit felicior, aut magis hac res
optandas vita dicere quis poterit?

Carmen CVII

Se de repente  acontece o que sempre anseiamos  e queremos
isto nos será intimamente agradável para a alma.
De fato, isto é melhor e mais desejável que o ouro para mim
porque  tu voltastes  a mim, Lesbia,
minha querida, voltastes a mim, esperada inesperada
A luz do dia mais branca se nota!
Quem será mais feliz do que sou,
o que mais posso desejar na vida?


Ilustração:neoqeav-ira.blogspot.com 

Sunday, December 16, 2012

Rafael Alberti Merello




Te digo adiós

Rafael Alberti Merello

Te digo adiós, amor, y no estoy triste.
Gracias, mi amor, por lo que ya me has dado,
un solo beso lento y prolongado
que se truncó en dolor cuando partiste.
No supiste entender, no comprendiste
que era un amor final, desesperado,
ni intentaste arrancarme de tu lado
cuando con duro corazón me heriste.
Lloré tanto aquel día que no quiero
pensar que el mismo sufrimiento espero
cada vez que en tu vida reaparece
ese amor que al negarlo te ilumina.
Tu luz es él cuando mi luz decrece,
tu solo amor cuando mi amor declina.

Te digo adeus

Te digo adeus amor, e eu não estou triste.
Obrigado, meu amor, pelo que já me há dado,
um  só beijo lento e prolongado
que se transformou em dor quando partistes.
Não soubestes entender, não compreendestes
que era um amor final, desesperado,
nem tentastes arrancar-me de teu lado
quando com o coração duro me feristes.
Eu chorei tanto aquele dia que não quero
pensar que o mesmo sofrimento espero
cada vez que em tua vida reaparece
este amor que ao negá-lo me ilumina.
Tua luz é tal que, quando minha luz decresce,
só teu amor me resta quando meu amor declina.
 

Ilustração: horasimpossiveis.blogspot.com

López Valverde retorna




Y pensar que pudimos

Ramón López Velarde

Y pensar que extraviamos
la senda milagrosa
en que se hubiera abierto
nuestra ilusión, como perenne rosa...
Y pensar que pudimos
enlazar nuestras manos
y apurar en un beso
la comunión de fértiles veranos...
Y pensar que pudimos
en una onda secreta
de embriaguez, deslizarnos,
valsando un vals sin fin, por el planeta...
Y pensar que pudimos,
al rendir la jornada,
desde la sosegada
sombra de tu portal y en una suave
conjunción de existencias,
ver las cintilaciones del zodíaco
sobre la sombra de nuestras conciencias...

Pensar que nós poderíamos

E pensar que extraviamos
da senda milagrosa
em que se tinha aberto
nossa ilusão, como uma rosa perene ...

E pensar nós poderíamos
enlaçar nossas mãos
e sentir num beijo
a comunhão dos verões férteis ...

Pensar que nós poderíamos
uma onda secreta
slide, embriagado,
valsa interminável valsa no planeta ...

E pensar que poderíamos,
ao terminar o dia
desd’a sossegada
sombra de teu portão numa suave
combinação de existências,
ver as cintilações do zodíaco
sobre a sombra de nossas consciências ...

Ilustração: olhandoparadentro.wordpress.com

Ramón López Valverde




Alma en pena

Ramón López Velarde

A fuerza de quererte
me he convertido, amor, en alma en pena.

¿Por qué, Fuensanta mía,
si mi pasión de ayer está ya muerta
y en tu rostro se anuncian los estragos
de la vejez temida que se acerca,
tu boca es una invitación al beso
como lo fue en lejanas primaveras?

Es que mi desencanto nada puede
contra mi condición de ánima en pena
si a pesar de tus párpados exangües
y las blancuras de tu faz anémica,
aun se tiñen tus labios
con el color sangriento de las fresas.

A fuerza de quererte
me he convertido, amor, en alma en pena,
y con el candor angélico de tu alma
seré una sombra eterna.


Alma penada

À força de te querer
me hei convertido, amor, em alma penada.

Por que, santa fonte minha,
se a minha paixão de ontem já está morta
e em teu rosto se anunciam os estragos
da velhice temida que se acerca,
tua boca é um convite ao beijo
como o foi em distantes primaveras?

Eis que meu desencanto nada pode
contra a minha condição de ânimo em pena
Se, apesar de
tuas pálpebras exangues
e a brancura de tua tez anêmica,
ainda se tingem teus lábios
com a cor sangrenta dos morangos.

À força de te querer
me hei convertido, amor, em alma penada,
e com a candura angelical de tua alma
serei uma sombra eterna.

Ilustração: http://www.usina.com/solo/2004/02/

Thursday, December 13, 2012

Haikaizinhos





Haikai silencioso

A chuva tamborila e cai...
Esforço vão e inútil
Captar seu som no haikai.

Haikai barulhento

A chuva revive tua lembrança
Multiplica tua falta
E, mesmo morto, meu coração dança!

Canto da beira do Madeira



Ó belas que passeiam ao sol poente,
Na beira do rio Madeira a cantar!
Me faz feliz ouvir este canto ardente
Que me enleva e me faz sonhar.

Cantai, ó belas, com jeito inocente,
O sol que desce as águas a dourar
Numa fartura de beleza reluzente,  
As próprias graças, a vida, o luar.

Cantai! Cantai essas doces cantigas!
Que me trazem suave nos seus ais
De retorno todas as ilusões antigas

Ó alegres e doces amigas soltem o canto.
Que não cesse a música nunca mais,
Não parem! O som põe na vida encanto.

Tuesday, December 11, 2012

Um poeta australiano




Waltzing Matilda

Banjo Patterson

Oh there once was a swagman camped in the billabongs,
Under the shade of a Coolibah tree;
And he sang as he looked at the old billy boiling,
‘Who’ll come a-waltzing Matilda with me!

Who’ll come a-waltzing Matilda, my darling,
Who’ll come a-waltzing Matilda with me.
Waltzing Matilda and leading a water-bag,
Who’ll come a-waltzing Matilda with me.

Up came the jumbuck to drink at the waterhole,
Up jumped the swagman and grabbed him in glee;
And he sang as he put him away I his tucker-bag,
‘You’ll come a-waltzing Matilda with me!’

Who’ll come a-waltzing Matilda, my darling,
Who’ll come a-waltzing Matilda with me.
Waltzing Matilda and leading a water-bag,
Who’ll come a-waltzing Matilda with me.

Up came the squatter a-riding his thoroughbred;
Up came policemen – one, two, and three.
‘Whose is the jumbuck you’ve got in the tucker-bag?
You’ll come a-waltzing Matilda with we!

Who’ll come a-waltzing Matilda, my darling,
Who’ll come a-waltzing Matilda with me.
Waltzing Matilda and leading a water-bag,
Who’ll come a-waltzing Matilda with me.

Up sprang the swagman and jumped in the waterhole,
Drowning himself by the Coolibah tree;
And his voice can be heard as it sings in the billabongs,
‘Who’ll come a-waltzing Matilda with me!

Who’ll come a-waltzing Matilda, my darling,
Who’ll come a-waltzing Matilda with me.
Waltzing Matilda and leading a water-bag,
Who’ll come a-waltzing Matilda with me.

Dançando com Matilde

Oh uma vez havia um tropeiro que acampou num riacho,
Sob as sombras de uma árvore de eucalipito;
E ele cantou olhando para o velho bule em ebulição,
"Quem virá dançando uma valsa comigo e com Matilde!

Quem virá dançando uma valsa com Matilde, minha querida,
Quem virá dançando uma valsa com Matilde e comigo.
Dançando com Matilde e levando uma bolsa de água,
Quem virá dançando uma valsa com Matilde e comigo.

Então vieram as ovelhas para beber no charco
Então pulou o tropeiro e agarrou uma com alegria;
E ele cantou enquanto a colocava no saco de viagem
"Você virá dançando uma valsa com Matilde e comigo! '

Quem virá dançando uma valsa com Matilde, minha querida,
Quem virá dançando uma valsa com Matilde e comigo.
Dançando valsa com Matilde e levando uma bolsa de água,
Quem virá dançando uma valsa com Matilde e comigo.

Então veio o posseiro montando o seu puro-sangue;
Então vieram os policiais - um, dois e três.
De quem é a ovelha que você tem no saco de viagem?
Você virá dançando valsa com Matilde e conosco!

Quem virá dançando valsa com Matilde, minha querida,
Quem virá dançando valsa com Matilde e comigo.
Dançando valsa com Matilde e levando uma bolsa de água,
Quem virá dançando valsa com Matilde e comigo.

Então o tropeiro pulou no redemoinho das águas,
Afogando-se sob a árvore de eucalipito;
E sua voz pode ser ouvida cantando no riacho,
"Quem virá dançando valsa com Matilde e comigo!

Quem virá dançando valsa Matilde, minha querida,
Quem virá dançando valsa com Matilde e comigo.
Dançando valsa com Matilde e levando uma bolsa de água,
Quem virá dançando valsa com Matilde e comigo.

Ilustração:  rosanazul-rosana.blogspot.com

Pausides de volta






CANCIÓN TRISTE                                                            

Alex Pausides

Estoy dándole forma a las palabras llegadas
                                                                 en un hilo
Estoy pulsando mis canciones más claras las
                                           raíces más seca
He salido hoy al dia
y terrible es este aire si nos estás aliviándolo
Y me vuelvo qué huraño
contra el triste y opaco el tristísimo invierno
que se adhiere a las puertas. Y pareciera
que alguien me llamara al silencio y ya
                                           no le respondo
Ya no soy el que habla. Ahora soy
el que calla inconsolablemente bajo
                                           los quietos árboles
Ya no viene la muchacha delgada a tocarme
                                           los párpados
Ya no soy el que canta.

Canção triste

Estou dando forma as palavras chegadas
                                            por um fio
Estou pulsando minhas músicas mais claras as
                                            raízes mais secas
Eu saí, hoje, no dia
e terrível é este ar, se não está nos aliviando
E me torna mal-humorado
contra o triste e opaco inverno tristíssimo  
que  se adere às portas. E faz parecer
que alguém me chamou no silêncio e já
                                            não lhe respondo.
Já não sou o que fala. Agora sou
o que calla inconsolávelmente sob
                                            as árvores quietas.
Já não vem a menina esguia me tocar
                                            as   pálpebras
Já não sou eu quem canta.

Ilustração:  carlosmachado.bandcamp.com

Monday, December 10, 2012

Alex Pausides




VARIACIÓN                                                                   

Alex Pausides

Cómo olvidar entonces esa luz
que alguien ha prendido en nuestros ojos
y nos echarnos el viento en brazos
y apagar su sed terrible
Ahora mismo iría a buscarte bella Eurídice
y nos alzaría los ojos hasta que no se abrieran
los astros en tu rostro
lejos de la niebla
muy lejos del humo y del abismo

Variação

Como esquecer, então, esta luz
que alguém prendeu em nossos olhos
e nos jogou o vento nos braços
para saciar sua sede terrível
Agora mesmo iria te buscar bela Eurídice
e levantaríamos os olhos até que não se abririam
as estrelas no teu rosto
longe da névoa
muito longe da fumaça e do abismo

Ilustração: http://wordsbyleila.blogspot.com.br

Sunday, December 09, 2012

Outro poeta da Nova Zelândia




Just another poem

Stu Bagby

Most times when you write a poem
you think that it is wonderful,

and that you’re the one who made it
must mean that you are special.

You put it in the folder
and go outside to mow the lawns

or pick the beans, and find yourself
reciting it, that’s how good it seems.

Then, when it’s time to type it up
you find that it’s gone flat.

The words appear mundane, the imagery is off.
You wonder if it’s possible

to fix it up.
Whole lives can be like that.



Apenas um outro poema

Na maioria das vezes, quando você escreve um poema
você pensa que ele é maravilhoso,

e que você é a pessoa que o fez
portanto, significa que você é especial.

Você o ponhe numa pasta
e sai para cortar o gramado

ou pegar o feijão, e encontrar-se
recitando-o, de tão bom que ele parece.

Então, quando é tempo de digitá-lo
você acha que ele está incompleto.

As palavras aparecem superficiais, a imaginação insuficiente.
Você imagina que será possível

melhorá-lo mais. 
Enquanto viver pode ser assim.

Um poeta da Nova Zelândia






Rob Allan

 

Offset connections to the real,
it’s not a center you can make yourself,
attempting veracity and true feeling,
words come out this way
interpreted sweet or sour, the touch of maybe.
I yield to power as you push off
into strangeness. I catch up on reading
the post modern hour. I train the imagination.
I moved in here. I gleaned the myths.
A domestic episode lengthens in shadows,
the details of naturally lit rooms,
art’s stable home, all in contrast to life’s sometime monochrome,
love drained of colour,
I’m fading into age with flowery bursts of fulsomeness.



Fora das conexões com o real,
não é um centro o que posso fazer de mim mesmo,
tentando ter veracidade e um sentimento verdadeiro,
as palavras saem desta forma
interpretadas doce ou azedas, com o toque do talvez.
Eu me rendo ao poder de como lhe empurrar
na estranheza. Eu cato na leitura
a hora pós moderna. Eu treino a imaginação.
Eu me mudei aqui. Eu recolhi os mitos.
Um episódio doméstico espalha as sombras,
os detalhes de salas com luz natural,
arte de um lar estável, tudo em contraste com a vida, em algum momento monocromática,
como o amor sem cor,
Eu vou envelhecendo com menos flores desabrochando.


Ilustração:  http://arnobiorocha.com.br