Monday, September 21, 2026

"A Visit" de Margareth Atwood

 

                                           A VISIT

 Margaret Atwood

Gone are the days
when you could walk on water.
When you could walk.

The days are gone.
Only one day remains,
the one you’re in.

The memory is no friend.
It can only tell you
what you no longer have:

a left hand you can use,
two feet that walk.
All the brain’s gadgets.

Hello, hello.
The one hand that still works
grips, won’t let go.

That is not a train.
There is no cricket.
Let’s not panic.

Let’s talk about axes,
which kinds are good,
the many names of wood.

This is how to build
a house, a boat, a tent.
No use; the toolbox

refuses to reveal its verbs;
the rasp, the plane, the awl,
revert to sullen metal.

Do you recognize anything? I said.
Anything familiar?
Yes, you said. The bed.

Better to watch the stream
that flows across the floor
and is made of sunlight,

the forest made of shadows;
better to watch the fireplace
which is now a beach.

UMA VISITA

Já se foram os dias

em que você podia andar sobre as águas.

Em que você podia andar.

Os dias se foram.

Resta apenas um dia,

aquele em que você está.

A memória não é amiga.

Ela só sabe dizer

o que você já não tem:

uma mão esquerda que você pode usar,

dois pés que caminham.

Todos os mecanismos do cérebro.

Olá, olá.

A única mão que ainda funciona

agarra, não solta.

Aquilo não é um trem.

Não há grilo algum.

Não vamos entrar em pânico.

Vamos falar de machados,

quais são os bons,

os muitos nomes da madeira.

É assim que se constrói

uma casa, um barco, uma barraca.

Não adianta; a caixa de ferramentas

recusa-se a revelar seus verbos;

a grosa, a plaina, o furador,

voltam a ser metal inerte.

Você reconhece alguma coisa? eu disse.

Algo familiar?

Sim, você disse. A cama.

Melhor observar o riacho

que corre pelo chão

e é feito de luz do sol,

a floresta feita de sombras;

melhor observar a lareira

que agora é uma praia.

Ilustração: Arquitetura-Vida Decora. 



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