Monday, June 13, 2022

E o sempre poético Ángel González

 


Me basta así

Ángel González

Si yo fuese Dios
y tuviese el secreto,
haría
un ser exacto a ti;
lo probaría
(a la manera de los panaderos
cuando prueban el pan, es decir:
con la boca),
y si ese sabor fuese
igual al tuyo, o sea
tu mismo olor, y tu manera
de sonreír,
y de guardar silencio,
y de estrechar mi mano estrictamente,
y de besarnos sin hacernos daño
-de esto sí estoy seguro: pongo
tanta atención cuando te beso-;
entonces,

si yo fuese Dios,
podría repetirte y repetirte,
siempre la misma y siempre diferente,
sin cansarme jamás del juego idéntico,
sin desdeñar tampoco la que fuiste
por la que ibas a ser dentro de nada;
ya no sé si me explico, pero quiero
aclarar si yo fuese
Dios, haría
lo posible por ser Ángel González
para quererte tal como te quiero,
para aguardar con calma
a que te crees tú misma cada día,
a que sorprendas todas las mañanas
la luz recién nacida con tu propia
luz, y corras
la cortina impalpable que separa
el sueño de la vida,
resucitándome con tu palabra,
Lázaro alegre,
yo, mojado todavía
de sombras y pereza,
sorprendido y absorto
en la contemplación de todo aquello
que, en unión de mí mismo,
recuperas y salvas, mueves, dejas
abandonado cuando -luego- callas…
(Escucho tu silencio.
Oigo
constelaciones: existes.
Creo en ti.
Eres.
Me basta.)

ME BASTA ASSIM

Se eu fosse deus

e tivesse o segredo

faria

um ser exato a ti;

eu provaria

(à maneira de padeiros

quando provam o pão, isto é:

com a boca),

e se esse sabor fosse

igual a ti, ou seja

teu mesmo odor, e teu jeito

de sorrir,

e guardar silêncio,

e apertar minha mão estritamente,

e de nos beijarmos sem machucar

-Disso tenho certeza: coloco

tanta atenção quando te beijo-;

então,

 

se eu fosse Deus

poderia repetir-te e repetir-te,

sempre a mesma e sempre diferente,

sem cansar-me jamais do jogo idêntico,

sem desdenhar tampouco o que fostes

por que serias um ser dentro do nada;

já nem sei se me explico, porém quero

esclarecer se eu fosse

Deus eu faria

tudo possível para ser Silvio Persivo

e te amar como te amo,

para aguardar com calma

que acreditasses em ti mesmo a cada dia,

para que surpreendas todas as manhãs

a luz recém-nascida com a tua própria

luz e corras

a cortina impalpável que separa

o sonho da vida,

ressucitando-me com a tua palavra,

feliz Lázaro,

molhado, todavia

de sombras e preguiça,

surpreso e absorto

na contemplação de tudo aquilo

que, em união comigo mesmo,

recuperas e salvas, moves, deixas

abandonado quando -logo- calas...

(Escuto o teu silêncio.

ouço

constelações: existes.

Creio em ti.

És.

Me basta.)

Ilustração: Napster.

 

Saturday, June 11, 2022

SENILIDADE ADOLESCENTE

 


Não me julguem, por favor,

pela régua da idade.

Os homens não são iguais na realidade

nem no tempo de amadurecimento.

É sabido que, alguns, são adultos

muito cedo;

outros, este sempre foi meu medo,

jamais chegam a ter juízo.

Para mim, sopesando a trajetória,

com muito esforço de memória,

sinto que foi muito diferente

e, por isto mesmo, me sinto tão isolado.

É que feliz, ou infelizmente,

custei demais a ser adolescente

com todos os sintomas,

menos as espinhas e as sardas.

Minha juventude é tão senil

que, muitas vezes,

me sinto até infantil.

Ilustração: http://brazil-1970s.blogspot.com/. 

Inteiramente Dulce María Loynaz

 


QUIÉREME ENTERA

Dulce María Loynaz

Si me quieres, quiéreme entera,
no por zonas de luz o sombra…
Si me quieres, quiéreme negra
y blanca, Y gris, verde, y rubia,
y morena…
Quiéreme día,
quiéreme noche…
¡Y madrugada en la ventana abierta!…

Si me quieres, no me recortes:
¡Quiéreme toda… O no me quieras

QUEIRA-ME INTEIRA

Se me queres, queira-me inteira,

não por zonas de luz ou sombra...

Se me queres, queira-me negra

e branca, e cinza, verde, ruiva,

e morena....

Queira-me dia,

Queira-me noite...

E madrugada com a janela aberta!...

Se me queres, não me recortes:

Queira-me toda...Ou não me queiras

Um poeminha imenso de Bécquer


POR UNA MIRADA, UM MUNDO

Gustavo Adolfo Bécquer

Por una mirada, un mundo,
por una sonrisa, un cielo,
por un beso… ¡yo no sé
qué te diera por un beso!

POR UM OLHAR, UM MUNDO

Por um olhar, um mundo,

por um sorriso, o céu,

por um beijo...eu nem sei

o que te daria por um beijo!

Ilustração: https://artrianon.com/. (Psiquê Reanimada por Um Beijo, do italiano Antonio Canova). 


Thursday, June 09, 2022

Super Homines

 


Dizem que, depois de ressuscitado, 

Jesus, ainda muito abalado, 

com o que lhe fizeram, 

começou a beber vinho 

e, caminhou, a refletir sozinho

sobre onde poderia ter errado. 

Pensou: será que foram as chibatadas, 

quando expulsei do templo os vendilhões , 

que, na hora, pensei tão merecidas,

ou a vaidade de ter feito sermões 

aos sacerdotes de cãs envelhecidas?

Pode ter sido algum milagre que não fiz

e deixei alguma alma muito infeliz?

Porém até o filho de Deus

nem sempre tem respostas,

e rezam os manuscritos destruídos

que subiu aos céus, 

como alguns de nós, talvez, iremos

com as dúvidas que temos

sobre os desígnios do Senhor, 

para nós, pobres mortais, 

ignorantes do seu teor, 

sempre tão indecifráveis e incompreendidos. 

Ilustração: Ramo da Fé. 

Uma poesia de Marian Aguiló

 


DECEPCIÓN

Marian Aguiló

La dolencia del alma a nadie mata,

Mas le hace agonizar su gran presión...

Cuando el dolor el corazón maltrata,

Se escapa por los ojos su aflicción.

 

Mas la pena que el llanto nos desata

No aminora el ardor del corazón;

Sus fibras moja y con rencor dilata

Para acopiar más cruel desolación.

 

¡Ay, pobre del que en hora maldecida

Siente el amor y es del amor proscrito!

¡Le huye la muerte, mas también la vida!

 

Vive para probar que no es un mito

Que, si el hombre se inflama sin medida,

¡Su dolor, sin amor, será infinito!

DECEPÇÃO

A enfermidade da alma ninguém mata,

Mas o faz agonizar sua grande pressão...

Quando a dor o coração maltrata,

Se escapa pelos olhos sua aflição.

 

Mas a pena que o pranto nos desata

Não diminui o ardor do coração;

Suas fibras molham e, com azedume, dilata

Para reunir a mais cruel desolação.

 

Oh, pobre do que na hora amaldiçoada

Sinta o amor e é do amor proscrito!

Lhe  foge a morte, mas também a vida!

 

Vive para provar que não é um mito

Que, se o homem se inflama sem medida,

Sua dor, sem amor, irá ao infinito!

Ilustração: Bem Blogado.

Wednesday, June 08, 2022

POEMINHA PARADOXO EXPLICADO


Pois é, irmão, um dia dormi em casa,

e, para meu espanto, 

acordei em outro canto, 

num lugar estranho. 

Meu susto foi tamanho. 

E não havia como explicar

como fui parar lá. 

-Que coisa! Foi teletransportado no tempo

ou entrou num buraco de minhoca?

Mano, se toca, 

uma coisa assim, 

no fim, 

só podia ser muita cachaça mesmo! 

Ilustração: Revista Galileu. 

 

Outra poesia de Maruja Falena

 


Maruja Falena

Apaga las luces, que vengo

con un tatuaje de estrellas en el alma.

No me conoces, no.

Apaga las luces,

que quiero arrancar con mi boca

tus ojos.

Así, entonces, hombre

entrarás en mí.

La sombra persigue a la sombra

en esta casa deshabitada.

El espejo, cómplice de mi desnudez,

calla.

El reloj sonámbulo

que midió nuestras horas

es una araña de doce patas, muerta.

Nada.

¿Quién sabe si esta casa es un barco

donde los muertos son grumetes?

 

Apaga as luzes, que vou

com uma tatuagem de estrelas na alma.

Não me conheces, não.

Apaga as luzes,

que eu quero arrancar com a minha boca

teus olhos.

Então assim,

homem, entrarás em mim

A sombra persegue a sombra

nesta casa vazia.

O espelho, cúmplice da minha nudez,

cala.

O relógio sonâmbulo

que mediu nossas horas

É uma aranha de doze patas, morta.

Nada.

Quem sabe se esta casa é um navio

onde os mortos são grumetes?

Ilustração: Uol.

Uma poesia de Andrea Zanzotto

  


Andrea Zanzotto

Eppure tra questa che seppi menzogna,
nella vita, rabbioso m’attardo.
Ecco, è come se verso la brughiera
che è eletta dalla lepre
e che il pioppo circonda e vuole a
ombroso letto ai riposi
della sua corona che perisce
nei giorni, è come se
in questo andare che non ha ancora
senso, ma già rifiuta la paura
rifiuta il silenzio – ah, individuata
e subito confusa legge, bruto
plasma, densissima lingua –
io sia colui che “io”
“io” dire, almeno, può, nel vuoto,
può, nell’immenso scotoma,
“io”, più che la pietra, la foglia, il cielo, “io”:

 

Entretanto, entre isto que aprendi uma mentira,

na vida, raivoso com meu atraso.

Aqui, é como se estivesse em direção ao pântano

que é eleito pela lebre

e que o álamo circunda e deseja

leito sombreado em repouso

de sua coroa que perece

nos dias, é como se

isto andasse ainda que sem

sentido, mas já rejeita o medo

refuta o silêncio - ah, individualiza

e súbito confusa lei, bruto

plasma, densíssima língua -

Eu sou aquele que "eu"

"Eu" direi, pelo menos, posso, no vácuo,

pode, na imenso mancha,

"Eu", mais que a pedra, a folha, o céu, "eu"

Ilustração: https://gartic.com.br/.

Sunday, June 05, 2022

Outra poesia de Mina Loy

LOVE SONGS

Mina Loy

II

At your mercy

Our Universe

Is only

A colorless onion

You derobe

Sheath by sheath

Remaining

A disheartening odour

About your nervy hands

II

À sua mercê

nosso Universo

é só

uma cebola incolor.

Roubaram

cobertura por cobertura

permanece um odor desanimador

sobre suas mãos nervosas

Ilustração: Amazon.

COMPANHIA IMUTÁVEL

 


Estarei ao teu lado,

mesmo distante, meu amor.

Por ti

onipresente sou.

Como um deus

terei a onisciência

e, pode crer,

a bondade,

a santidade,

a paciência

e a virtude de te acompanhar

onde estiver,

ou está,

enquanto vida tiver.

Escuta, mulher,

sinta meua batimentos:

é o teu sangue

que circula

e te diz

que sou o teu coração.

Ilustração: https://pantokrator.org.br/

Outra poesia de Antonio Alleva

 


ARSENIO

 Antonio Alleva

                  Da quando sono rientrato, erano circa le 18,

   non ha fatto neanche un miao. Patrocinano Webber Pie Jesu e In Paradisum di Fauré.

 

se ne sta andando

tenero e silenzioso come è sempre stato.

Prego i rintocchi serali del villaggio

di farsi anche loro bisbiglio,

qui c'è una tana schiarata solo dalle luci di Natale

accese un mese prima.

 

Gli ho poggiato una piccola borsa d'acqua calda

tra i reni e il plaid che sa di Scozia e Portogallo

 

           "dài su, fammi un po' di posto,

            vengo anch'io lascia che mi acciambelli anch'io"

 

andiamo via insieme nel soffio di questo Agnus Dei

via insieme da questi battiti dolenti

dal pandemonio di graffi su tutti questi specchi.

 

ARSENIO

                           Desde que voltei, eram cerca de 18h,

                                    nem sequer fez um miado.

                                    Patrocinado por Webber Pie Jesu

                                    e In Paradisum de Fauré.

 

ele está saindo

terno e silencioso como sempre foi.

Eu rezo e os sinos da noite da aldeia

parecem sussurrar também,

aqui está um locaç iluminado apenas por luzes de Natal

aceso um mês antes.

 

Entreguei a ele uma pequena bolsa de água quente

entre os rins e o xadrez que tem gosto de Escócia e Portugal

 

            "Vamos, me dê um pouco de espaço,

             Estou chegando também, deixe-me enrolar também"

 

andamos juntos no sopro deste Agnus Dei

longe das batidas dolorosas juntos

do pandemônio dos arranhões de todos esses espelhos.

Ilustração: O Tempo.

Saturday, June 04, 2022

Uma poesia de Maruja Falena

 


SOY POBRE FALENA CON EL ALA ROTA

Maruja Falena

Soy pobre falena con el ala rota,

que inestable y feble, por el aire flota.

Caña sin azúcar, colmena sin miel;

soy de jugo amargo, de exprimida hiel.

Zarzal espinoso que no tiene flores,

nido del que huyeron greguescos cantores.

Soy árbol sin savia, que no cría fruta;

invernada triste, que todo lo enluta.

Campana sin voz, arpa sin cordaje,

surtidor sin linfa, mar sin oleaje.

Amustiada rosa que perdió fragancia,

candela apagada de fúnebre estancia.

Soy lo que no soy! porque soy incierta,

soy arcilla viva con el alma muerta.

SOU UMA POBRE MARIPOSA DE ASA PARTIDA

Sou uma pobre mariposa de asa partida,

que instável e débil, pelo ar levantada.

Cana sem açúcar, colmeia sem mel;

Sou um suco amargo, de espremido fel.

Sarça espinhosa sem flores,

ninho de onde fugiram os gregos cantores.

Eu sou uma árvore sem seiva, que não dá fruta;

invernada triste, que a tudo enluta.

Sino sem som, harpa sem cordas,

fonte sem jorro, mar sem ondas.

Murcha rosa de perdida fragrância,

vela apagada de fúnebre estância.

Eu sou o que não sou! porque sou incerta,

sou barro vivo com a alma morta.

Ilustração: BBC.

Uma poesia de Rosa Chacel


Rosa Chacel

Tú que fuiste sirena y golondrina,

tú que escondiste cielos en tu alcoba,

tú que oíste la música que roba

su sueño al pez y la borrasca empina.

 

Sal de esa oscura gruta, mortecina

como caverna de medrosa loba,

y al sol embalsamado que te arroba,

sembrado por tu mano, sé vecina.

 

Infiel a aquella risa y a aquel viento,

a las espumas que te acariciaran,

a la verde esperanza de las tardes.

 

Destapa el mányala de tu ardimiento

y aunque saurios de hiel te amenazaran,

de su diente tu seno nunca guardes.

 

Tu que fostes sereia e andorinha,

tu que escondestes os céus em tua alcova,

que ouvistes a música que enleva

seu sono aos peixes e a tempestade advinha.

 

Sal dessa gruta escura, esmaecida

como a caverna de medroso loba,

e ao sol embalsamado que te rouba,

semeado por tua mão, se aproximada.

 

Infiel à aquele riso e à aquele vento,

às espumas que te acariciarão,

na esperança verde das tardes.

 

Descobrirão a casca dos teus ardimentos

e ainda que os sáurios de fel te ameaçarão,

de seu dente teu seio nunca guardes.

Ilustração: fofoqueando.com.

De volta, sim, Sara Teasdale

 


LET IT BE FORGOTTEN

Sara Teasdale

Let it be forgotten, as a flower is forgotten,

Forgotten as a fire that once was singing gold,

Let it be forgotten for ever and ever,

Time is a kind friend, he will make us old.

 

If anyone asks, say it was forgotten

Long and long ago,

As a flower, as a fire, as a hushed footfall

In a long forgotten snow.

DEIXE SER ESQUECIDO

Deixe ser esquecido, como uma flor é esquecida,

Esquecido como fogos que uma vez  eram vermelhos

Que seja esquecido para o todo e sempre,

O tempo é um bom amigo, ele nos tornará velhos.

 

Se alguém perguntar, diga que foi esquecido

Há um longo e muito longo tempo,

Como uma flor, como o fogo, como um passo abafado

Em uma neve há muito esquecida.

Ilustração: Pixabay.