Thursday, July 14, 2022

Sim, Claribel Alegría

 


DAME TU MANO

Claribel Alegría

                              "Hoy me gusta la vida mucho menos

                                     pero siempre me gusta vivir"...

                                                                 César Vallejo

 

Dame tu mano

amor

no dejes que me hunda

en la tristeza

Ya mi cuerpo aprendió

el dolor de tu ausencia

y a pesar de los golpes

quiere seguir viviendo.

No te alejes

amor

encuéntrame en el sueño

defiende tu memoria

mi memoria de ti

que no quiero extraviar.

Somos la voz

y el eco

el espejo

y el rostro

dame tu mano

espera

debo ajustar mi cuerpo

hasta alcanzarte.

DÁ-ME TUA MÃO

“Hoje gosto da vida muito menos, porém, sempre gosto de viver”

                                                                                      César Vallejo

 

Dá-me tua mão

amor

não deixes que me afogue

na tristeza.

Meu corpo já aprendeu

a dor de tua ausência

e, apesar dos golpes,

quer seguir vivendo.

Não te afastes

amor

encontra-me no sonho

defende tua memória

minha memória de ti

que não quero extraviar.

Somos a voz

e o eco,

o espelho

e o rosto.

Dá-me tua mão

Espera

devo ajustar meu corpo

até te alcançar.

https://emergenciapoetica.wordpress.com/


E, agora, Cristina Polli

 


L’ESILIO DI EVA

Cristina Polli

Al limitare del sogno

si avvede dell’angelo

che terribile

la attende

 

-Eva

esiliata

del nome

di madre-

 

E ora è donna

che conosce e dice.

O EXÍLIO DE EVA

No limite do sonho
toma consciência do anjo
que terrível
a atende

-Eva
exilada
do nome
de mãe


E agora é uma mulher
que sabe e diz.

Ilustração: https://1.bp.blogspot.com/


Wednesday, July 13, 2022

CATIVEIRO BLUES

 


O de cima sobe, 

o debaixo desce

e esta música horrível, 

primitiva e de macaco, 

ninguém merece.

Mas, como se a loucura 

fosse normal

o som pesado vira prece 

na cabeça dos desinformados,

tontos, tresloucados, 

de droga ou não, 

que dançam como pensam:

sem a menor poesia,

escravos da sensação.

Então o caranguejo e o homem

andam para trás

como se voltar fosse progresso

e a civilização não existisse mais

e tudo vira música 

inclusive esta monótona batida

que não tem sentido algum. 

Ah! Que tristeza!

Não vejo mais 

futuro nenhum! 


Monday, July 11, 2022

ESPERANÇA ATEMPORAL

 


Talvez nem saibas que te quero tanto.

É que, meu amor, um amor dilacerado,

me pede que não te engane,

tanto que, ao teu lado,

não faço promessas

que não poderei cumprir.

No entanto, o prazer

de estarmos juntos,

em momentos muitos,

é algo que jamais

poderei deixar de sentir.

O estranho tempo,

que, às vezes,

não parece ir

(e que depois me sabe

sempre pouco)

é que me faz,

uma coisa de louco,

ter esta fraqueza imensa

de pensar,

como recompensa,

que, por mais que demore,

me esperas

como se renovam

sempre as primaveras.

E, de volta, Lope de Vega

 


SONETO

Lope de Vega

Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso;

no hallar fuera del bien centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso;

huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor süave,
olvidar el provecho, amar el daño;

creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño;
esto es amor, quien lo probó lo sabe.

SONETO

Desmaiar, atrever-se, estar furioso,

áspero, terno, liberal, esquivo,

encorajado, mortal, defunto, vivo,

leal, traidor, covarde e espirituoso;

 

não se achar fora do bom centro e no repouso,

mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,

enojado, valente, fugitivo,

satisfeito, ofendido, receoso;

 

fugir o rosto ao claro desengano,

beber veneno por licor suave,

esquecer o proveito, amar o dano;

 

crer que um céu num inferno cabe,

dar vida e alma a um desengano;

isto é amor, quem o provou sabe.

Ilustração: O Segredo.

Uma poesia de Emily Skillings

 

 


TENANT

 

Emily Skillings

 

Crablike
it uncloaks
from itself—
removes
its own ghost-
ly paper. A leg
of mostly air
remains in air.
The hollowed
onionskin bulbs
where eyes once lay
look out on the field.
The din of it.
A new body
is painful. Exposed,
it must retreat
what was once inside
further inside.
Globe perched
on translucent needles,
the articulated twin
chooses tomb or home.
It violates a form.
Bud like a fist.
Like a thought
about to give
out. There is a pink
so clear and pale
a rose can’t
call it kin.
A dwelling clutches
close to itself—
Its what?
Its brief solitude
before welcoming
the traveler
to crawl
its repeating galleries
to wait in holy center. 
It drags 
the outside there.

INQUILINO

Caranguejo

ele desvenda

a si mesmo—

remove

seu próprio fantasma

de papel. Uma perna

sobretudo de ar

permanece no ar.

O oco

bulbo de casca de cebola

onde os olhos jazem

olham para o campo.

O estrépito disso.

Um novo corpo

é doloroso. Exposto,

deve recuar

o que estava uma vez dentro

mais para dentro.

Globo empoleirado

em agulhas translúcidas,

o gêmeo articulado

escolhe túmulo ou casa.

Viola um formulário.

Broto como um punho.

Como um pensamento

prestes a dar

o fora. Existe um rosa

tão clara e pálida

uma rosa que não pode

chamar de parente.

Uma habitação agarra

perto de si mesmo—

É o que?

Sua breve solidão

antes de receber

o viajante

rastejar

suas galerias repetidas

esperar no centro sagrado.

Ele arrasta-se

lá para fora.

Ilustração: https://santoscavalcanti.adv.br/.

Uma poesia de José María Eguren

 


LA SANGRE  

José María Eguren

El mustio peregrino

Vió en el monte una huella de sangre:

La sigue pensativo

En los recuerdos claros de su tarde.

El triste, paso a paso,

La ve en la ciudad, dormida, blanca,

Junto a los cadalsos,

Y al morir de ciegas atalayas.

El curvo peregrino

Transita por bosques adorantes

Y los reinos malditos,

Y siempre mira las rojas señales.

O SANGUE

O peregrino murcho

viu na montanha um rastro de sangue:

o seguiu pensativo

nas claras lembranças de sua tarde.

O triste, passo a passo,

vê na idade, adormecida, branca,

junto com os andaimes,

E ao morrer de vigias cegos.

O peregrino curvo

transita por florestas adoradoras

e os reinos malditos,

e sempre olha os sinais vermelhos.

Ilustração: https://gartic.com.br/.

Friday, July 08, 2022

Uma poesia de Rosamond S. King

 


DO NOT TRUST THE ERASER

Rosamond S. King

                                   for Gabrielle Civil & Madhu H. Kaza

Do not trust the eraser. Prefer

crossed out, scribbled over monuments

to something once thought correct.

Instead: colors, transparencies

track changes, versions, iterations.

How else might you return

after discards, attempts

and mis takes, to your

original genius?

NÃO CONFIE NA BORRACHA

                para Gabrielle Civil e Madhu H. Kaza

Não confie na borracha. Prefira

riscos, rabiscados sobre os monumentos

como algum coisa considerada correto.

Em vez de: cores, transparências

seguir alterações, versões, iterações.

Como se poderia retornar

depois de descartes, tentativas

e erros, para o seu

gênio original?

Ilustração: https://www.fnac.pt/. 

 

Tuesday, July 05, 2022

Emily Dickinson e seu julho

 


ANSWER JULY

Emily Dickinson

Answer July-

Where is the Bee-

Where is the Blush-

Where is the Hay?

Ah, said July-

Where is the Seed-

Where is the Bud-

Where is the May-

Answer Thee-Me-

 

Nay-said the May-

Show me the Snow-

Show me the Bells-

Show me the Jay!


Quibbled the Jay

Where be the Maize

Where be the Haze-

Where be the Bur

Here-said the Year-

RESPONDA JULHO

Responda julho-

Onde está a abelha-

Onde está o rubor-

Onde está o feno?

 

Ah, disse julho-

Onde está a semente-

Onde está o botão-

Onde está o maio-

Responda a ti-Eu-

 

Não -disse o maio-

Mostre-me a Neve-

Mostre-me os Sinos-

Mostre-me a gralha!


Insignificante a gralha-

Onde está o milho-

Onde está a Névoa-

Onde estar o carrapicho?

Aqui - disse o Ano -

Ilustração: https://www.proveitoso.com/.

 

Monday, July 04, 2022

E com vocês Lope de Vega

 


DULCE DESDÉN, SI EL DÃNO QUE ME HACES

Lope de Vega

Dulce desdén, si el daño que me haces
de la suerte que sabes te agradezco,
qué haré si un bien de tu rigor merezco,
pues sólo con el mal me satisfaces.

No son mis esperanzas pertinaces
por quien los males de tu bien padezco
sino la gloria de saber que ofrezco
alma y amor de tu rigor capaces.

Dame algún bien, aunque con él me prives
de padecer por ti, pues por ti muero
si a cuenta dél mis lágrimas recibes.

Mas ¿cómo me darás el bien que espero?,
si en darme males tan escaso vives
que ¡apenas tengo cuantos males quiero!

DOCE DESDÉN, SE O DANO QUE ME FAZES

Doce desdém, se o dano que me fazes

da sorte que sabes te agradeço,

que farei se um bem do teu rigor mereço,

pois só com o mal me satisfazes.

 

Não são minhas esperanças pertinazes

por quem os males do teu bem padeço

sim a glória de saber que te ofereço

alma e amor de teu rigor capazes.

 

Dá-me algum bem, ainda que me prives

de padecer por ti, pois por ti morro

se a conta  de minhas lágrimas recebes.

 

Mas como me darás o bem que eu espero?

Se em me dar males tão escassos vives

que apenas tenho quantos males quero!

Ilustração:  https://br.freepik.com/.

 

 

Saturday, July 02, 2022

Chá com Louis Calaferte

  


Et ta théière emmaillotée...

Louis Calaferte

Et ta théière emmaillotée

et tes deux grandes tasses roses

le temps autour de nous se pose

dans une chambre qu'ankylose

la pâleur d'une fin d'été

 

Rien peut-être n'a existé

que pour cette minute close

de fragile sérénité

moi qui suis ta métamorphose

et toi ma Charlotte Brontë

 

One for you

one for me

and one for the tea-pot

 

C'est l'heure du thé

E O SEU BULE ESMALTADO

E seu bule esmaltado

e suas duas grandes xícaras rosa

o clima ao nosso redor surge

em uma sala com anquilose

a palidez de um final de verão

 

Talvez nada existisse

que por este minuto fechado

de frágil serenidade

Eu que sou sua metamorfose

e você minha Charlotte Brontë

 

Um para você

um para mim

e um para o bule de chá

 

É hora do chá

Ilustração: Festival do Fazer.

E uma pausa com Octavio Paz

  


Entre ir y quedarse

Octavio Paz

Entre irse y quedarse duda el día,
enamorado de su transparencia.

La tarde circular es ya bahía:
en su quieto vaivén se mece el mundo.

Todo es visible y todo es elusivo,
todo está cerca y todo es intocable.

Los papeles, el libro, el vaso, el lápiz
reposan a la sombra de sus nombres.

Latir del tiempo que en mi sien repite
la misma terca sílaba de sangre.

La luz hace del muro indiferente
un espectral teatro de reflejos.

En el centro de un ojo me descubro;
no me mira, me miro en su mirada.

Se disipa el instante. Sin moverme,
yo me quedo y me voy: soy una pausa.

ENTRE SAIR E FICAR

Entre sair e ficar as dúvidas do dia,

apaixonado por sua transparência.

 

A tarde circular é já baía:

no seu quieto vai e vem se mede o mundo.

 

Tudo é visível e tudo é indescritível,

tudo está próximo e tudo é intocável.

 

Os papéis, o livro, o vidro, o lápis

repousam na sombra de seus nomes.

 

A batida do tempo que na minha têmpora se repete

a mesma sílaba teimosa de sangue.

 

A luz faz do muro indiferente

um espectral teatro de reflexos.

 

No centro de um olho me descubro;

não me olha, me olho em seu olhar.

 

se dissipa o instante. Sem mover-me,

eu fico e vou: sou uma pausa.

Ilustração: https://revista.meuretiro.com.br/.