Monday, January 23, 2023

APOCALYPSE

 


Sereias, dragões,

Gnomos, elfos e duendes.
Seres fantásticos.
Mais fantásticos do que a vida
                    vão chegando:
Olha o cavalo de São Jorge!
Olha o Xangô, Oxum, Yansã, Yemanjá, o caboclo sete flechas.
Saci-Pererê passeia de perna mecânica.
Uma bruxa dança rock com em sua vassoura musical.
Drácula, cercado de morcegos, fala de amor
Enquanto um lobisomem o acompanha ao sintetizador.
Marx, meu filho, tu que acreditavas tanto
Que fazes encostado neste canto?
Lenin, tu que morrestes tentando,
                  que fazes agarrado ao Rockfeller?
Hitler, mamadeira na mão, alimenta judeus pequenininhos,
                   naturalmente, com leite Ninho.
Einstein, língua de fora, ri da relatividade do Grand Finale.
Simon Bolivar contrata Napoleão para unificar a América Latina,
Lucrécia Borgia serve um jantar sem estricnina.
Alan Kardec escuta de João XXIII uma conferência sobre o apocalipse
Ao mesmo tempo, que De Gaulle leva o Brasil a sério,
Pois, Juscelino já pensa em construir um novo universo.
Chaplin, passinhos miúdos, faz lirismo do fim dos tempos
Que Kafka torna um mistério.
Nietzsche procura sinais de Zaratustra.
Freud e Reich discutem sexo
Enquanto Rousseau ainda prega profético
Igualdade, Liberdade, Fraternidade- para um Platão
                     ensimesmado com os reflexos
                     de sua gruta.
Descartes tenta simplificar o final complexo
Diante de um Kant atônito perante
                   a queda das estrelas e das consciências.
Indiferente Tomás de Aquino cristianiza
                   o livro vermelho de Mao
Que, olhos arregalados, não entende a China.
Kennedy e Keynes debatem problemas de orçamento
                     sob o olhar complacente 
                     de um Bachelard desatento.
Schopenhauer vê o desenlace com pessimismo
Hegel com descrédito e Voltaire sarcástico
                     zomba de Galileu, Newton e Leplace
                     equacionando o final.
Todos estão aqui
(Lembro-me de ter visto Smith, Locke, Bacon, Mill, Pascal, Hobbes, Espinosa, Comte, Durkheim, Weber, todos, todos).
Apreciando o fim Maquiavel queixa-se de não ser nada maquiavélico
E Wagner queixa-se a Chopin, Beethoven, Mozart e Bach
                      de que não seja devidamente musicado.
Van Gogh, Rubens, Rembrandt, Renoir, Gauguin, Cezanne, Da Vinci, Velasquéz, Góia e Dürer, Michelangelo, Degas, Rafael, Chagal e Picasso comentam as cores
Ao passo que Goethe, Camões, Valery, Milton, Virgilio, Homero, Drummond,
                       Neruda e Castro Alves nelas se inspiram.
Só Dante e Shakespeare descrevem o cessar do tempo
Que Aleijadinho procura preservar em pedra-sabão.
De repente pula, em meio à claridade impressionista,
Tendo por fundo um cartaz de Minister,
Entre cavalos e caracóis alados,
                        a figura frágil e trêfega de Rita Lee
que, sob os aplausos da Guarda Real do Xá
Tenta segurar o tapete voador de Aladim,
                        o destruidor do muro de Berlim.
Descem pela Avenida Marquês de Sapucaí
O aiatolá Khomeini, com seus reféns, comandando
A Mangueira,
A Portela,
Salgueiro,
Vila Isabel,
Mocidade Independente,
Império Serrano,
Beija-Flor, todas, todas.
Na Avenida Brasil
São reforçadas pela Vai-Vai, a Camisa Verde,
 que vem com todas, todas, sob a batuta
de Sadat de óculos Ray-ban.
Descem pela Rio-Bahia
numa folia
e pegam os trios elétricos,                                    
os Filhos de Ghandi.
No Recife
Pitombeiras, Bloco das Flores, Vassourinhas, todos, todos.
Os maracatus do Ceará
Az de Ouro,
Az de Paus,
Leão Coroado, a Prova de Fogo.
Em São Luiz, bumbas-meu-bois;
Em Belém
O Rancho Não Posso me Amofiná,
Quem São Eles,
arrasta todos, todos
Que vão indo, indo, indo
se embrenhando por uma Transamazônica surrealista
buscar em Porto Velho
a Pobres do Caiari,
a Diplomatas,
a Quilometro Um,
a Banda do Vai Quem Quer
para terminarem
a quarta-feira de cinzas do mundo
           no encontro das águas.
O mágico de Oz, por desencargo, ressuscita múmias egípcias. 
Oráculos e esfinges em Gradientes, Garrards e Polyvoxs sonoros
            predizem o próximo desastre
            (fundo musical na voz de Bethania)
Chove no Ceará.
Faz frio em Terezina.
Enfeita-se o Saara de rosas.
Há neve na Amazônia, selva na Groelândia.
O Brasil torna-se uma ilha, o Japão um continente.
Os índios estão salvos e agradecem ao presidente.
Em Harvard, Salvador Dali e Idi Amin dão cursos de lógica.
Gabriel Garcia Marquez consulta Nostradamus
Sobre a possibilidade de dar certo
Certos planos para a contenção inflacionária.
Cartola ensina samba ao criado-mudo.
Elis finge que toma cocaína,
por ser gente fina,
e inventaram, por fim, a solução da questão agrária.
A Estátua da Liberdade aprendeu a andar.
A Torre Eifel é um Zepellin.
O Cristo sentado no Pão de Açúcar come amendoim.
A Torre de Piza está reta.
A Vênus de Milo recuperou os braços.
Implantaram a democracia na Rússia,
O socialismo nos Estados Unidos,
No Vaticano, um campo de nudismo,
E, no Brasil, um partido social.
E há algo de errado
com um fim onde ninguém chora.
Talvez um palhaço preocupado com a hora;
Tantas Colombinas, Pierrôs e Arlequins
                     ovacionando  Carlos Gardel
       descontente com a imensa batalha de papel
                     entre Inglaterra e Argentina.
Quem sabe se não é a Gioconda
                     de cara amarrada
porque Fidel Castro fez a barba
para ouvir Chico Buarque
que aprendeu com Vinícius de Moraes
                      a arte de não beber mais
ou os Beatles, novamente juntos,
                      percorrendo um céu de pop art
                      avisando que não acabou o sonho.
Explodem fogos de artifícios.
Multidões cantam, riem, dançam, flores nas mãos.
Há alguém que toda violino no telhado.                 Um piano destila poesias em notas,
Um saxofone geme,
Um clarinete toca,
Soam clarins.
Ouve-se a valsa da despedida.
São os anjos que vem vindo!
São os anjos!
Descerram-se as cortinas do céu.
Milhares de anjos barrocos
                     rodeando um carro celeste
                     num todo de Tiepolo. 
Mas...oh! Surpresa...no carro..
Vós, ó Rei Momo!
Soam trombetas celestes.
Holofotes,
Fosfóros Fiat Lux.
Lâmpadas estroboscópicas giram,
Papel picado,
Confetes,
Serpentinas, chuvas de dólares, de francos, de marcos, iens, liras.
Os discos!
Os discos voadores pousam, em perfeita sintonia,
                        em cores da Kodak,
Em todas as esquinas há coca-cola grátis,
Antarctica, Skol, Brahma.
A Máfia, o Esquadrão da Morte, as brigadas vermelhas, os palestinos
                        e os montoneros fazem passeatas pela não-violência.
Em Angra dos Reis há uma usina nuclear em obsolescência,.
Em Belo Horizonte se elege entre festas mil
O gay mais bonito do Brasil-
Promoção da Tradição, Família e Propriedade.
E um militar desconsolado vê seu quartel desativado
                        não há mais o que proteger              
E há ainda uma família que gosta de ié-ié-ié
E Daniel despede-se da Jari,
                        debaixo de palmas
                        de colonos e trabalhadores rurais.
A General Motors, a General Eletric, a Esso, a Shell, a Texaco, a IBM, a ITT, a Hanna,
A US Steel, as cinco irmãs do alimento, todas, todas, todas não querem lucros mais.
(E pedem desculpas ao Terceiro Mundo).
E o Chase Manhattan se propõe a financiar a reconstrução universal.
E gregos e troianos, medos e persas, romanos e cartagineses, americanos e vietnamitas, russos e afegãs, americanos e coreanos, americanos e japoneses, alemães e franceses, argentinos e ingleses, brasileiros e argentinos, russos e chineses, brancos, pretos, vermelhos, amarelos, todos, todos, todos se abraçam, se beija, e se amam.
O mar pega fogo.                                                         O espaço explode.
O universo se extingue.
E, antes do plim, plim final,
ainda se consegue ouvir
de um locutor da Globo a derradeira lição de moral!

(Do livro "Apocalypse", Editora Zanzalás, São Paulo, 1982, agora disponível em e-book na Editora Per Se (http://www.perse.com.br). 

Sim, Dámaso Alonso

 


VIENTO DE NOCHE

Dámaso Alonso

El viento es un can sin dueño,

que lame la noche inmensa.

La noche no tiene sueño.

Y el hombre, entre sueños, piensa.

 

Y el hombre sueña, dormido,

que el viento es un can sin dueño,

que aúlla a sus pies tendido

para lamerle el ensueño.

 

Y aun no ha sonado la hora.

 

La noche no tiene sueño:

¡alerta, la veladora!

VENTO DA NOITE

O vento é um cão sem dono,

que lambe a noite imensa.

A noite não tem sono.

E o homem, entre sonhos, pensa.

 

E o homem sonha, dormindo,

que o vento é um cão sem dono,

que uiva a seus pés estendidos

para lamber seu sonho.

 

E ainda não é hora de sonhar.

 

A noite não tem sono:

alerta, o castiçal!

Ilustração: Freepik.

Sunday, January 22, 2023

Ainda Imanol Ulacia Aramendi

 


UN BUEN SITIO

Imanol Ulacia Aramendi

En el Bar Kabi

cabe todo el mundo:

currelas, poetas, marineros,

viejas mandíbulas de tiburón,

escafandras, sombreros…

 

Junto a las ventanas,

a punto de entrar,

los barcos recién nacidos

de los viejos astilleros…

UM BOM LOCAL

No Bar do Kabi

cabe todo mundo:

caracóis, poetas, marinheiros,

velhas mandíbulas de tubarões,

escafandros, chapéus...

 

pelas janelas,

a ponto de entrar,

os barcos recém-nascidos

dos velhos estaleiros...

Ilustração: https://nicelocal.es/.

Saturday, January 21, 2023

Alda Merini, pois

 

            

Alda Merini

Tra le tue braccia

C’è un posto nel mondo

dove il cuore batte forte,

dove rimani senza fiato,

per quanta emozione provi,

dove il tempo si ferma

e non hai più l’età;

quel posto è tra le tue braccia

in cui non invecchia il cuore,

mentre la mente non smette mai di sognare…

Da lì fuggir non potrò

poiché la fantasia d’incanto

risente il nostro calore e no…

non permetterò mai

ch’io possa rinunciar a chi

d’amor mi sa far volar.

 

Entre os teus braços

Em algum lugar do mundo

onde o coração bate forte,

onde fica sem fôlego,

por quanta emoção que sente,

onde o tempo para

e não se é mais velho;

naquele lugar entre os teus braços

em que o coração não envelhece,

enquanto a mente nunca cessa de sonhar...

Não posso escapar de lá

porque a fantasia do encanto

sente nosso calor e não...

eu não posso renunciar a este

amor que me faz voar.

Ilustração: Arte e Cultura.

Friday, January 20, 2023

Doce Lembrança

 


Não era sábado.                                

Não era domingo.

Era um dia impreciso e sem noção.

Peguei, sem receio, tua mão

E pensei seja o que Deus quiser.

Deus é o sábio que é

Por ter inventado a mulher

Como forma de preservação da espécie,

De vez que o homem é um inútil sem ela.

Assim me agarrei na tua costela

E fiz uma prece

Antes de me aventurar no imponderável.

E fui, entre beijos e abraços,

Mergulhar no precipício

Que prometia tanto ser

Paixão como vício.

Ilustração: https://www.zankyou.com.br/.

Uma poesia de Erin Rose Coffin



REMEMBERING OUR FIRST PARTIES

Erin Rose Coffin

remembering the boys—

much older, only unsettling

in hindsight

 

back then, they gave us

beers and we took them,

uncertain in the summer

 

of sage and honey.

we hid in the bathroom

so we could talk

 

for a while, swimming in the empty

bathtub and watching each

other’s reflections in the mirror.

 

the boys waited outside

in the yard, and we let them

 

wait while we were fifteen

and silver-tongued, all shoulder-

blades and hummingbird and safe

for now

RELEMBRANDO NOSSAS PRIMEIRAS FESTAS

relembrando dos meninos-

muito mais velhos, apenas inquietante

na retrospectiva

 

naquela época, eles nos deram

cervejas e nós as levamos,

num incerto verão

 

de sálvia e mel.

nos escondemos no banheiro

para que pudéssemos conversar

 

por um tempo, nadando no vazio

da banheira e observando cada um

o reflexo do outro no espelho.

 

os meninos esperaram do lado de fora

no pátio, e nós os deixamos

 

esperar enquanto tínhamos quinze anos

e de língua prateada, todas as omoplatas

e beija-flores e segura

por agora

Ilustração: O Espaço.


Uma poesia de Eva Vaz

 


SECUELAS

Eva Vaz

El hambre por adelgazar

es más intensa

que el hambre por existir.

 

No soy más que un tubo de ensayo

y el hueco entre mis piernas

es un triunfo.

 

Sobreviví al osario de mi cuerpo

en un infierno de manzanas negras.

 

El vértigo de las formas

me cambió la vida.

E insiste.

 

Sigo comiendo

en los mismos platos pequeños

y con la misma cuchara,

aunque ahora no esté vacía.

 

El tiempo me devuelve

un rostro que no conozco

y me sorprendo en los espejos.

 

Todavía

“me toco los huesos

buscando la calma

de su vehemencia”.

 

Yo soy mi prisión.

CONSEQUÊNCIAS

A fome por emagrecer

é mais intensa

que a fome de existir.

 

Não sou mais que um tubo de ensaio

e o buraco entre minhas pernas

é um triunfo.

 

Sobrevivi ao ossuário de meu corpo

num inferno de maças negras.

 

A vertigem das formas

me modificou a vida

e insiste.

 

Sigo comendo

nos mesmos pratos pequenos

e com a mesma colher,

ainda que agora não esteja vazia.

 

O tempo me devolve

um rosto que não conheço

e me surpreendo com os espelhos.

 

Todavia

“me toco os ossos

buscando a calma

de sua veemência”.

 

Eu sou minha prisão.

Ilustração: Resenha Semanal.

Thursday, January 19, 2023

Uma poesia de David Hernández Sevillano

 


A MODO DE DESPEDIDA

David Hernández Sevillano

Despertarán tus ojos

más allá de la lluvia.

Abrirás el balcón que da a la vida

de par en par, dejando atrás la noche

y todos sus espectros.

Habrá un coro de pájaros

charlando en las barandas

y sonará su canto

grave y afectuoso,

como de viejo amigo.

Arrimarás mi corazón al ascua

o el ascua al corazón de la sardina

que bucea en mi voz.

Y no habrá ya ningún infierno a mano,

lo prometo,

pequeña marioneta que me habitas.

UM MODO DE DESPEDIDA

Despertarão teus olhos

depois da chuva.

Abrirás a varanda que dá para a vida

de par a par, deixando a noite para trás

e todos os seus espectros.

Haverá um coro de pássaros

gorjeando nas grades

e soará seu canto

grave e afetuoso,

como de um velho amigo.

Arrumarás meu coração para o fogo

ou o fogo ao coração de sardinha

que mergulha em minha voz.

E já não haverá mais nenhum inferno à mão,

o prometo,

pequeno fantoche que me habita.

Ilustração: Aninha pelo Brasil.

Um Bichinho de Estimação


Gostar de um bichinho 

é uma coisa normal,

mas cada qual com o seu.

Tem gente que gosta

de gato e de cachorro;

de rato e de porquinho corro. 

Este gosto não é o meu.

Eu digo e repito:

estou mais para jardineiro.

Gosto mesmo é de cuidar de flor.

E a mais linda da qual cuido

é você, meu amor!

Ilustração: Twitter. 

 

Tuesday, January 17, 2023

Poema da Felicidade Líquida


Se nas adegas e nas vinhas

os cachos se transformam em líquidos

brancos, rosés, vermelhos,

são nas taças e nas borbulhas 

que se degustam os néctares dos deuses

e na embriaguez e no prazer refinado

de beber sonhos

a vida se renova 

e os adeptos de Baco

risonhos se sentem 

imensamente felizes. 

Ilustração: Vem Vinho. 

 

Outra poesia de Pablo García Casado



RELAX

Pablo García Casado

Tienes que poner la mente en blanco. Pensar en otra cosa, en lo que vas a hacer cuando salgas. Piensa en comida, yo pienso en comida, pudin de espárragos, mousse de limón, pulpo a feira. Es muy fácil, cueces el pulpo, veinte minutos. Luego pones sal gorda, aceite de oliva y pimentón dulce. Tienes que relajarte, toma, ponte esto ahí abajo. Sécate el sudor y sonríe.

RELAXE

Tens que por a mente em branco. Pensar em outra coisa, no que vais fazer quando sair. Pensa na comida, eu penso na comida, pudim de espargos, mousse de limão, polvo à feira. É muito fácil, cozinhar o polvo, vinte minutos. Logo põe sal grosso, azeite de oliva e páprica doce. Tens que relaxar, toma, ponha isto aqui em baixo. Seque o suor e sorria.

Ilustração: Guia do Estudante.

Meu Remédio

Eu fui para a Praia do Rosa.

Para a Praia do Rosa fui.

Que praia bela, formosa;

que lugar encantador!

Para a Praia do Rosa, 

não é prosa, 

vou levar o meu amor. 

Lá além da praia, 

do mar lindo de água azul, 

da beleza dos morros no horizonte, 

bebi batidas capetas, 

com ostras por tira-gosto,

que até pensei estar no céu...

e era só o paraíso. 

Viver mais na Praia do Rosa

é o remédio que preciso. 

Foto: Paulo César Cortêz de Medeiros.