Saturday, October 08, 2011
Ginsberg outra vez
An Eastern Ballad
Allen Ginsberg
I speak of love that comes to mind:
The moon is faithful, although blind;
She moves in thought she cannot speak.
Perfect care has made her bleak.
I never dreamed the sea so deep,
The earth so dark; so long my sleep,
I have become another child.
I wake to see the world go wild.
Uma balada do Leste
Eu falo do amor que me vem à cabeça:
A lua é fiel, apesar de cega;
Ela se move no pensamento e não fala.
O cuidado perfeito tem feito sua desolação.
Eu nunca sonhei com o mar tão profundo,
A terra tão escura, tão longo o meu sono,
Eu me tornei uma outra criança.
Eu acordo para ver o mundo ir à loucura.
Friday, October 07, 2011
Allen Ginsberg, my brothers
Sunflower Sutra
Allen Ginsberg-Berkeley, 1955
I walked on the banks of the tincan banana dock and
sat down under the huge shade of a Southern
Pacific locomotive to look at the sunset over the
box house hills and cry.
Jack Kerouac sat beside me on a busted rusty iron
pole, companion, we thought the same thoughts
of the soul, bleak and blue and sad-eyed,
surrounded by the gnarled steel roots of trees of
machinery.
The oily water on the river mirrored the red sky, sun
sank on top of final Frisco peaks, no fish in that
stream, no hermit in those mounts, just ourselves
rheumy-eyed and hungover like old bums
on the riverbank, tired and wily.
Look at the Sunflower, he said, there was a dead gray
shadow against the sky, big as a man, sitting
dry on top of a pile of ancient sawdust--
--I rushed up enchanted--it was my first sunflower,
memories of Blake--my visions--Harlem
and Hells of the Eastern rivers, bridges clanking Joes
Greasy Sandwiches, dead baby carriages, black
treadless tires forgotten and unretreaded, the
poem of the riverbank, condoms & pots, steel
knives, nothing stainless, only the dank muck
and the razor-sharp artifacts passing into the
past--
and the gray Sunflower poised against the sunset,
crackly bleak and dusty with the smut and smog
and smoke of olden locomotives in its eye--
corolla of bleary spikes pushed down and broken like
a battered crown, seeds fallen out of its face,
soon-to-be-toothless mouth of sunny air, sunrays
obliterated on its hairy head like a dried
wire spiderweb,
leaves stuck out like arms out of the stem, gestures
from the sawdust root, broke pieces of plaster
fallen out of the black twigs, a dead fly in its ear,
Unholy battered old thing you were, my sunflower O
my soul, I loved you then!
The grime was no man's grime but death and human
locomotives,
all that dress of dust, that veil of darkened railroad
skin, that smog of cheek, that eyelid of black
mis'ry, that sooty hand or phallus or protuberance
of artificial worse-than-dirt--industrial--
modern--all that civilization spotting your
crazy golden crown--
and those blear thoughts of death and dusty loveless
eyes and ends and withered roots below, in the
home-pile of sand and sawdust, rubber dollar
bills, skin of machinery, the guts and innards
of the weeping coughing car, the empty lonely
tincans with their rusty tongues alack, what
more could I name, the smoked ashes of some
cock cigar, the cunts of wheelbarrows and the
milky breasts of cars, wornout asses out of chairs
& sphincters of dynamos--all these
entangled in your mummied roots--and you there
standing before me in the sunset, all your glory
in your form!
A perfect beauty of a sunflower! a perfect excellent
lovely sunflower existence! a sweet natural eye
to the new hip moon, woke up alive and excited
grasping in the sunset shadow sunrise golden
monthly breeze!
How many flies buzzed round you innocent of your
grime, while you cursed the heavens of the
railroad and your flower soul?
Poor dead flower? when did you forget you were a
flower? when did you look at your skin and
decide you were an impotent dirty old locomotive?
the ghost of a locomotive? the specter and
shade of a once powerful mad American locomotive?
You were never no locomotive, Sunflower, you were a
sunflower!
And you Locomotive, you are a locomotive, forget me
not!
So I grabbed up the skeleton thick sunflower and stuck
it at my side like a scepter,
and deliver my sermon to my soul, and Jack's soul
too, and anyone who'll listen,
--We're not our skin of grime, we're not our dread
bleak dusty imageless locomotive, we're all
beautiful golden sunflowers inside, we're blessed
by our own seed & golden hairy naked
accomplishment-bodies growing into mad black
formal sunflowers in the sunset, spied on by our
eyes under the shadow of the mad locomotive
riverbank sunset Frisco hilly tincan evening
sitdown vision.
Sutra de girassol
Eu andava nas margens das docas de bananas nanicas
sentado sob a profunda sombra de uma locomotiva do Pacífico
Sul olhando para o por do sol sobre
o quadrado das casas nas colinas e chorei.
Jack Kerouac, sentado ao meu lado sobre um robusto pólo
de ferro enferrujado, me acompanhava, pensamos os mesmos pensamentos
de alma, sombria e azul e de olhos tristes,
cercados pelas raízes de aço retorcidos das árvores de
máquinas.
A água oleosa no rio espelhava o céu vermelho, o sol
afundava-se no topo de picos nos confins de Frisco, nenhum peixe nos
córregos, nem eremita naqueles montes, apenas nós mesmos
úmidos de olhos de ressaca e como velhos vagabundos
nas margens do rio, cansados e astutos.
Olhei para o girassol, ele disse, que era uma sombra
cinza morta contra o céu, grande como um homem, sentado
seco sobre uma pilha de antiga serragem -
- Corri encantado - foi o meu primeiro girassol,
memórias de Blake - minhas visões - Harlem
e Hells dos rios do Leste, pontes Joes rangendo
Sanduíches gordurosos, carrinhos de bebê morto, preto
piso de pneus esquecidos e não recuperados, o
poema da margem do rio, preservativos e panelas,
facas de aço, nada inoxidável, só a sujeira desagradável
e os artefatos afiados passando para o
passado -
e o girassol cinzento reclinado contra o pôr do sol,
densamente sombrio e ressecado pela fuligem e pela fumaça
das velhas locomotivas no seu olho -
corola de turvas pontas retorcidas e quebradas
como uma coroa arrebentada, de sementes roladas,
boca precocemente desdentada ao ar ensolarado, raios solares
se apagando na sua cabeça peluda como uma teia de fios secos de aranha,
folhas tesas como braços presos ao tronco, gestos
enraizados na serragem, quebrados pedaços de gesso
caídos dos galhos negros, uma mosca morta no seu ouvido,
Ímpia coisa velha arrebentada,você estava, meu girassol Ó
minha alma, como te amei, então!
A sujeira não era sujeira humana, mas, morte e humanas
locomotivas,
todas vestidas de poeira, esse véu de pele escurecida
da estrada, de fumaça da bochecha, de pálpebra de miséria
preta, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância de algo
artificial pior do que a sujeira - industrial -
moderna - toda a civilização manchando sua
louca coroa dourada -
e todos esses remelentos pensamentos de morte e olhos empoeirado
do desamor e tocos e raízes distrocidas embaixo,
dentro de seu monte de areia e serragem, notas de borrachas falsas de dólar,
pele de máquinária, as tripas e as vísceras
do carro que tosse chora, as latas vazias e abandonadas
com suas línguas enferrujadas de fora, o que
mais eu poderia nomear, a cinzas queimadas de algum
charuto galo, conas de carrinhos de mão e as
mamas leitosas de carros, bundas usadas em cadeiras
e esfíncteres dos dínamos - tudo isto
enredado nas suas raízes mumificadas- e você aí postado
diante de mim no pôr do sol, em toda a sua glória
em toda sua forma!
A beleza perfeita de um girassol! uma excelente e perfeita
existência de um adorável girassol! um doce olho natural
para uma nova quadra da lua, acordei vivo e excitado
agarrando na sombra o nascer do sol dourado
das brisa mensais!
Quantas moscas zumbiram ao seu redor inocente de sua
fuligem, enquanto você amaldiçoava os céus da
ferrovia na sua alma flor?
Pobre flor morta? Quando você se esqueceu que era uma
flor? Quando você olhou para a sua pele e
decidiu que era uma velha locomotiva impotente e suja?
o fantasma de uma locomotiva? o espectro e
a sombra de uma outrora poderosa locomotiva louca americano?
Você nunca foi uma locomotiva, girassol, você era um
girassol!
E você locomotiva, você é uma locomotiva, não esqueça
não!
Então eu peguei o duro esqueleto do girass e o finquei
ao meu lado como um cetro,
e entreguei o meu sermão à minha alma, e a alma de Jack
também, e quem iria ouvir,
- Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos o nosso horrível
locomotiva sem imagem empoeirada e desolada, por dentro , somos todos
belos girassóis dourados, somos abençoados
por nosso própria semên & dourados corpos peludos e e nus
de realização, corpos em crescimento dentro dos loucos
girassóis negros e formais no pôr do sol, espiados pelos nossos
olhos sob à sombra da locomotiva louca
do cais na visão do poente de latas e colinas de Frisco
sentados ao anoitecer.
Thursday, October 06, 2011
Como se fosse Santo Agostinho
Minha vida é feita
das coisas mais mínimas
de quem crê num deus pequeno
e, impuro, reza, com sua fé derramada,
e a ajuda inesperada de um anjo errado,
com uma história de ovelha desgarrada.
E, por mais que negue meus pecados,
usando uma máscara de inocência,
nada encobre minha culpa
E a mim nada me basta
Nem a sombra que me deixa,
nem o corpo que se afasta,
nem a vontade de amar,
que só me faz pecar e prometer,
que, um dia, ainda, um santo hei de ser...
Delírios
este incessante querer
que não aceita o não ter
e vive a me empurrar
não tem como se acalmar
este sentir-se subir,
no momento de cair,
me faz permanecer no ar
este não ser e não estar
que se transforma em sonhar
que se afoga em sentir
este teimoso insistir
que é o meio de resistir
e inconsciente vagar
este imenso saber
de ignorância solar
É que me faz delirar
Wednesday, October 05, 2011
Trair Lord Byron? Minha professora de inglês há de me matar...
STANZAS FOR MUSIC
Lord Byron
I speak not - I trace not - I breathe not thy name,
There is grief in the sound - there were guilt in the fame;
But the tear which now burns on my cheek may impart
The deep thought that dwells in that silence of heart.
Too brief for our passion, too long for our peace,
Were those hours, can their joy or their bitterness cease?
We repent - we abjure - we will break from our chain;
We must part - we must fly to - unite it again.
Oh! thine be the gladness and mine be the guilt,
Forgive me adored one - forsake if thou wilt;
But the heart which I bear shall expire undebased,
And man shall not break it - whatever thou may'st.
And stern to the haughty, but humble to thee,
My soul in its bitterest blackness shall be;
And our days seem as swift - and our moments more sweet,
With thee by my side - than the world at our feet.
One sight of thy sorrow - one look of thy love,
Shall turn me or fix, shall reward or reprove;
And the heartless may wonder at all we resign,
Thy lip shall reply no to them - but to mine.
Estâncias para a música
Eu não falo. Não desenho. Respiro apenas o teu nome
Não há tristeza no som - nem havia culpa na fama;
Mas, a lágrima que agora arde no meu rosto pode dar conta
Do pensamento profundo que habita no silêncio do coração.
Muito breve para a nossa paixão, muito longa para a nossa paz,
Foram aquelas horas- pode cessar sua alegria ou sua amargura?
Nós nos arrependemos -abjuramos - desejamos romper nossas cadeias;
Devemos partir - é preciso voar- para nos unir novamente.
Oh! Que seja tua a alegria e minha a culpa,
Perdoa-me adorada- abandona-me se assim o desejais;
Mas o coração que carrego expirará sem ser rebaixado,
E os homens não o quebraram- o que só tu podéis.
E firme e altivo, porém, humilde diante de ti,
Há ser minh’alma na sua mais amarga escuridão;
E nossos dias hão de ser mais rápidos-e nossos momentos mais doces,
Contigo ao meu lado- mais que com o mundo aos teus pés.
Uma visão de tua dor-uma imagem do teu amor,
Haverá de me mudar ou confirmar-me, de castigar ou reprovar;
E os sem coração poderão maravilhar-se do tanto que renunciamos
E os teus lábios não responderão a eles- mas, aos meus.
Ilustração: http://ladydark-darkness.blogspot.com/
Lord Byron
SO, WE'LL GO NO MORE A ROVING...
Lord Byron
So, we'll go no more a roving
So late into the night,
Though the heart be still as loving,
And the moon be still as bright.
For the sword outwears its sheath,
And the soul wears out the breast,
And the hearth must pause to breathe,
And love itself have rest.
Though the night was made for loving,
And the days return too soon,
Yet we'll go no more a roving
By the light of the moon.
Não, não voltaremos mais a vagar
Assim é, não voltaremos a vagar
tão tarde dentro da noite,
ainda que o coração siga amando
e a lua continue a ter o mesmo brilho.
Pois, a espada se gasta em sua bainha,
e a alma se desgasta no seu peito,
e o coração deve deter-se para respirar,
e até mesmo o amor deve descansar.
Ainda que a noite tenha sido feita para amar,
e os dias retornem demasiadamente cedo,
ainda assim não voltaremos a vagar
sob a luz do luar.
Ilustração: aquelaquenaoeperfeita.blogspot.com
Tuesday, October 04, 2011
Frederico Rivas Frade
Postal
Frederico Rivas Frade
No sé si me engañaste, más fingiste
tan bien tu amor y tu entusiasmo loco,
que hoy, aunque nada entre los dos existe,
aún me parece que me amaste un poco.
Y si hoy, otra mujer, una alegría
dejar quisiera en mi existencia triste,
para hacerme feliz le pediría
que me engañara como tú lo hiciste.
Postal
Eu nem sei se me enganastes, mas, fingistes
tão bem o teu amor e o teu entusiasmo louco
que, hoje, ainda que nada entre nós dois existe,
ainda me parece que me amastes um pouco.
E se hoje, outra mulher, uma alegria
deixar quisera em minha existência triste
para me fazer feliz lhe pediria
que me enganasse como tu o fizestes.
ILustração: fanzineversoslivres.blogspot.com
Aprimorando a tradução do poema de Carlos Bousoño
Eres feliz
Eres feliz. Saber no quieras
lo que brilla en los ojos humanos.
Sonríe tú como mañana fresca,
como tarde colmada en su ocaso.
Porque eres eso, sí: la tarde pura
en que a veces yo mojo mis manos,
en que a veces yo hundo mi rostro.
¡La tarde pura en su placer dorado!
La savia dulce de la primavera,
toda la luz de la tarde en un cántico,
sube entonces feliz y presurosa
desde tu corazón hasta mis labios.
És feliz
És feliz. Saber não queiras
o que brilha nos olhos humanos.
sorria tu como a manhã fresca,
como a tarde gloriosa no seu ocaso.
Porque és isto sim, a tarde pura
em que, às vezes, molhei minhas mãos,
em que, às vezes, afundo meu rosto.
A tarde pura no seu prazer dourado!
A doce seiva da primavera,
toda a luz da tarde num cântico,
sobe, então, feliz e pressurosa
desde teu coração para os meus lábios.
Ilustração: http://poesiaemuitoamor.blogs.sapo.pt
Saturday, October 01, 2011
Mais de José Luis García Martins
Elogio del olvido
José Luis Garcia Martins
¿A qué grabar un nombre en las paredes,
manchar con torpes trazos la blancura
deslumbrante, impoluta, de la nada?
¿A qué este vano empeño de ir dejando señales,
de escribir en la arena, a resguardo del viento,
las triviales miserias que conforman tu vida?
Sobre las tercas líneas que dibujan un rostro
ha de pasar la mano piadosa de los años
borrando letras, sílabas, palabras sin sentido.
El papel en que escribes volverá a estar en blanco.
¿Y habrá dicha mayor que no haber sido?
De "El pasajero" 1992
Elogio ao esquecimento
Por que escrever um nome nas paredes,
manchar com torpes traços a brancura
deslumbrante, impoluta, do nada?
Por que este vão empenho de ir deixando sinais,
de escrever na areia, protegido do vento,
as misérias triviais que fazem sua vida?
Sobre as tenuês linhas que desenham um rosto
hão de passar a mão piedosa dos anos
apagando as letras, sílabas, palavras sem sentido.
O papel em que escreves voltará a ficar em branco.
Haverá sorte maior do que haver sido?
Ilustração: ultradownloads.uol.com.br
José Luis Garcia Martins
Al acecho
José Luis Garcia Martins
¿No oyes sus jadeos? Cada vez
yo los oigo más cerca: solo,
contigo, en medio del verano,
entre los gritos de la multitud,
junto al fuego, en invierno,
con un hermoso libro,
en el crujido de la nieve,
en el estruendo de la lluvia,
cuando enciendo las luces de mi casa,
cuando el mar, cuando llegas,
cuando alargo la mano
hacia los rojos frutos palpitantes.
Está ahí, al acecho,
alza la zarpa, espera.
Tú no la ves, sonríes,
sonrío yo también.
Déjame que te bese una vez más
antes de que su aliento nos alcance.
De "Material perecedero" 1998
À espreita
Não ouves sua respiração ofegante? Cada vez
eu ouço mais próximo: só,
contigo, no meio do verão,
entre os gritos da multidão,
junto ao fogo no inverno
com um belo livro,
com o ruído da neve,
o barulho da chuva,
quando acendendo as luzes de minha casa,
quando ouço o mar, quando chegas,
quando estendo as mãos
aos frutos vermelhos palpitantes.
Está lá, à espreita,
levanta a foice, espera.
Tu não a vês, sorri,
sorrio também.
Deixa que te beije uma vez mais
antes que sua respiração nos alcance.
Ilustração: D. Siqueira (jdbsiqueira.blogspot.com).
Friday, September 30, 2011
Ainda Eliseo Diego
COMIENZA UN LUNES
Eliseo Diego
La eternidad por fin comienza un lunes
y el día siguiente apenas tiene nombre
y el otro es el oscuro, al abolido.
Y en él se apagan todos los murmullos
y aquel rostro que amábamos se esfuma
y en vano es ya la espera, nadie viene.
La eternidad ignora las costumbres,
le da lo mismo rojo que azul tierno,
se inclina al gris, al humo, a la ceniza.
Nombre y fecha tú grabas en un mármol,
los roza displicente con el hombro,
ni un montoncillo de amargura deja.
Y sin embargo, ves, me aferro al lunes
y al día siguiente doy el nombre tuyo
y con la punta del cigarro escribo
en plena oscuridad: aquí he vivido.
Começa na segunda
A eternidade, por fim, começa na segunda-feira
e, no dia seguinte, só tem um nome
e é outro é o escuro, quando abolido.
E nele se apagam todos os sussurros
e aquele rosto que amávamos está desaparecido
e em vão é a espera, ninguém vem.
A eternidae ignora os costumes,
lhe dá o mesmo o vermelho ou o azul terno,
se inclina ao cinza, à fumaça, as cinzas.
Nome e data tu gravas no mármore,
os roça displicente com o ombro,
nem um montículo de amargura deixa.
E sem embargo, vês me aferro à segunda-feira
e ao dia seguinte dou o nome teu
e com a ponta do charuto escrevo
em plena a escuridão: aqui eu vivi.
Eliseo Diego
CALMA
Eliseo Diego
Este silencio,
blanco, ilimitado,
este silencio
del mar tranquilo, inmóvil,
que de pronto
rompen los leves caracoles
por un impulso de la brisa,
Se extiende acaso
de la tarde a la noche, se remansa
tal vez por la arenilla
de fuego,
la infinita
playa desierta,
de manera
que no acaba,
quizás,
este silencio,
nunca?
Calma
Este silencio,
branco, ilimitado,
este silencio
do mar tranqüilo, imóvel,
que de pronto
rompe os leves caracóis
por um impulso da brisa,
Se estende acaso
da tarde à noite, se remansa
talvez pelas areiazinhas
de fogo,
a infinita
praia deserta,
de maneira
Que não acaba,
talvez,
este silencio,
nunca?
Wednesday, September 28, 2011
Os versos que não fiz
Soneto dos versos que não te fiz
Eu fiz uns versos para ti tão bobos..
Versos que, na verdade, pouco dizem.
Eram só palavras sobre o quão felizes
São meus dias contigo, todos, todos...
Não consegui os versos lindos, raros,
Que na mente sonhei pra te dizer !
Postos no papel já nem são claros
Como os que pensava pra te oferecer.
Mas, se bons versos não te digo ainda...
E que me pareces cada vez mais linda
Como nenhum um verso meu bem diz !
Talvez é que te amo tanto ! E nem mais sei...
Se esta falta não é que todo amor já dei
E até sem versos me sinto mais feliz!
Monday, September 26, 2011
Ainda Pedro Salinas
DON DE LA MATERIA
Pedro Salinas
Entre la tiniebla densa
el mundo era negro: nada.
Cuando de un brusco tirón
—forma recta, curva forma—
le saca a vivir la llama.
Cristal, roble, iluminados,
¡qué alegría de ser tienen,
en luz, en líneas, ser
en brillo y veta vivientes!
Cuando la llama se apaga,
fugitivas realidades,
esa forma, aquel color,
se escapan.
¿Viven aquí o en la duda?
Sube lenta una nostalgia
no de luna, no de amor,
no de infinito. Nostalgia
de un jarrón sobre una mesa.
¿Están?
Yo busco por donde estaban.
Desbrozadora de sombras
tantea la mano. A oscuras
vagas huellas, sigue el ansia.
De pronto, como una llama
sube una alegría altísima
de lo negro: la luz del tacto.
Llegó al mundo de lo cierto.
Toca el cristal, frío, duro,
toca la madera, áspera.
¡Están!
La sorda vida perfecta,
sin color, se me confirma,
segura, sin luz, la siento:
realidad profunda, masa.
O dom da matéria
Entre as densas trevas
o mundo era negro, nada.
Quando um brusco safanão
-de forma reta e curvada-
acende de vez a chama.
Cristal, carvalho, iluminados,
que alegria de ser tem
em luz, em linhas, ser
vivendo em brilho e grãos!
Quando a chama se apaga,
fugitivas realidades,
essa forma, aquela cor,
se escapam.
Vives aqui ou na dúvida?
Adicione lentamente uma nostalgia
não de lua ou de amor,
nem de infinito. Nostalgia
de um jarro sobre uma mesa.
Onde estão?
Eu busco por onde estavam.
Desbravadora de sombras
tateia a mão. Às escuras
traços vagos, segue a ânsia.
De repente, como uma chama
sobe uma altíssima alegria
de preto: a luz do tato.
Chego ao mundo do certo.
Toca o cristal, frio, duro,
toca a madeira, àspera.
Onde estão!
A surda vida perfeita
sem cor, só me confirma,
seguro, sem luz, a sinto:
realidade profunda, massa.
Ilustração: Umberto Boccionni
Pedro Salinas
LA VOZ A TI DEBIDA
Pedro Salinas
La forma de querer tú
es dejarme que te quiera.
El sí con que te me rindes
es el silencio. Tus besos
son ofrecerme los labios
para que los bese yo.
Jamás palabras, abrazos,
me dirán que tú existías,
que me quisiste: jamás.
Me lo dicen hojas blancas,
mapas, augurios, teléfonos;
tú, no.
Y estoy abrazado a ti
sin preguntarte, de miedo
a que no sea verdad
que tú vives y me quieres.
Y estoy abrazado a ti
sin mirar y sin tocarte.
No vaya a ser que descubra
con preguntas, con caricias,
esa soledad inmensa
de quererte sólo yo.
A voz a ti devida
Tua forma de querer
é deixar-me que te queiras.
E assim que tu me rendes
com o silêncio. Teus beijos
são oferecerem-se aos lábios
para que os beije eu.
Jamais palavras, abraços,
me dirão que tu existias,
que me quisestes, jamais.
Me dizem as folhas brancas
mapas, augúrios, telefones;
tu, não.
E eu estou abraçado a ti
sem te perguntar, de medo,
que isto não seja verdade
que tu vives e me queres.
E estou abraçado a ti
sem olhar e sem tocar-te.
Não pode ser que descubra
com perguntas, com carícias,
esta solidão imensa
de querer-te somente eu.
Ilustração: http://navegandonotempo.blogspot.com/2005/08/os-namorados.html
Saturday, September 24, 2011
Mais uma vez Concha Garcia
Leve delicadeza
Concha García
No sé. Abro el buzón. Llegan
aquellas cosas mal puestas
en una silla o sobre ella.
Aturdirme de letras,
vivir tardíamente dos pasos
lo justo para intransitar lo cotidiano.
Verme en el espejo: sí, otro día.
Sí, son varios. Sí, fueron muchos.
No sé. Llegar, doblar la ropa
otear la casa, el interior de la casa,
de soslayo, y a veces de frente
sin dejar de examinarme. Es eso.
Sí es eso. La felicidad no tiene temblores
ni arquea días. Es eso. Fíjate
qué cotidiano. Qué leve delicadeza
casi a solas.
Leve delicadeza
Não sei. Abro a caixa de correio. Chegam
aquelas coisas mal postas
numa cadeira ou sobre ela.
As letras me atordoam
vivo tardiamente os passos
justo para intransitar o cotidiano.
Olho-me no espelho: sim, outro dia.
Sim, são vários. Sim, foram muitos.
Não sei. Chegar, dobrar a roupa
passear pela casa, no interior da casa,
de lado, e às vezes de frente
sem deixar de examinar-me. É isto.
Sim, é isto. A felicidade não tem tremores
nem escolhe os dias. É isto aí. Fixa-se
no cotidiano. Numa leve delicadeza
quase a sós.
Concha García
Alegoría del tiempo
Concha García
Somos moderadamente felices,
los dos vivíamos en una afinidad
absoluta: las palabras
no pueden expresar la experiencia.
Yo tampoco.
Alegoria do tempo
Somos moderamente felizes,
Nós dois vivemos numa afinidade
Absoluta: as palavras
Não podem expressar a experiência.
Eu tampouco.
Wednesday, September 21, 2011
Gabriel Celaya
AVISO
Gabriel Celaya
La ciudad es de goma lisa y negra
pero con boquetes de olor a vaquería,
y a almacenes de grano, y a madera mojada,
y a guarnicionería, y a achicoria, y a esparto.
Hay chirridos que muerden, hay ruidos inhumanos
hay bruscos bocinazos que deshinchan
mi absurdo corazón hipertrofiado.
Yo me alquilo por horas; río y lloro con todos;
pero escribiría un poema perfecto
si no fuera indecente hacerlo en estos tiempos.
Aviso
A cidade é de borracha e preta,
mas, com bocas de lobo com odor de leite,
e de armazenamento de grãos, e de madeira molhada,
e de material de couro, chicória e esparto.
Há gritos que mordem, ruídos desumanos,
Há afiados chifres que desinflam
meu insensato coração hipertrofiado.
Eu me alugo por horas; rio e choro com todos;
porém, escreveria um poema perfeito
se não fosse indecente fazê-lo nestes tempos.
Ilustração: ajaxianos.com.br
Borges
La Lluvia
Jorge Luis Borges
Bruscamente la tarde se ha aclarado
Porque ya cae la lluvia minuciosa.
Cae o cayó. La lluvia es una cosa
Que sin duda sucede en el pasado.
Quien la oye caer ha recobrado
El tiempo en que la suerte venturosa
Le reveló una flor llamada rosa
Y el curioso color del colorado.
Esta lluvia que ciega los cristales
Alegrará en perdidos arrabales
Las negras uvas de una parra en cierto
..
Patio que ya no existe. La mojada
Tarde me trae la voz, la voz deseada,
De mi padre que vuelve y que no ha muerto.
A Chuva
De repente a tarde se há aclarado
Porque já cai a chuva minuciosa.
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que, sem dúvida, sucede no passado.
.
Quem a ouve cair há recobrado
O tempo que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor chamada rosa
E de uma curiosa cor avermelhada.
.
Esta chuva que cega os cristais
Alegrará em perdidos bairros mais
As uvas pretas de uma videira em certo
Pátio que não existe mais. A molhada
Tarde me traz a voz, a voz desejada,
Do meu pai que volta e não está mais morto.
Saturday, September 17, 2011
Epitáfio para Neide Barros
A morte escolheu a flor mais bonita
E, sem pena, ceifou a rosa
Que mesmo assim deixou seu perfume
E a lembrança da sua imagem
Povoando o mundo de poesia.
Rosa, branca e doce Neide, a vida, agora, parece mais vazia.
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