Monday, May 23, 2022

Uma poesia de J.A. González Iglesias

 


LO SENCILLO

   J.A. González Iglesias  

 

                               Para Amalia Bautista

Lo sencillo está diseminado por el mundo.
A veces no se ve, porque es diáfano.
Su lugar es la rutina tanto como el acontecimiento.
No necesita explicación porque ya está desplegado.
Estaba antes y estará después.
Vuelve verdaderamente inolvidable
el encuentro con otro ser humano.
Convierte las cosas en momentos.
A pesar de lo que pudiera parecer,
lo complicado no prevalecerá.

O SIMPLES

                               Para Amalia Bautista

O simples está disseminado pelo mundo.

Às vezes não se vê, porque é diáfano.

Seu lugar é a rotina tanto como o acontecimento.

Não precisa explicação porque já está explicado

Estava antes e estará depois.

Torna verdadeiramente inesquecível

o encontro com outro ser humano.

Converte às coisas em momentos.

Apesar do que possa parecer,

o complicado não prevalecerá.

Ilustração: Rede Brasil Atual.

Ainda Benjamin Péret


 


PARLE-MOI

Benjamin Péret

Le noir de fumée le noir animal le noir noir

se sont donné rendez-vous entre deux monuments aux morts

qui peuvent passer pour mes oreilles

ou l’écho de ta voix de fantôme de mica marin

répète indéfiniment ton nom

qui ressemble tant au contraire d’une éclipse de soleil

que je me crois quand tu me regardes

un pied d’alouette dans une glacière dont tu ouvrirais la porte

avec l’espoir d’en voir s’échapper une hirondelle de pétrole enflammé

mais du pied d’alouette jaillira une source de pétrole flambant

si tu le veux

comme une hirondelle

veut l’heure d’été pour jouer la musique des orages

et la fabrique à la manière d’une mouche

qui rêve d’une toile d’araignée de sucre

dans une verre d’œil

parfois bleu comme une étoile filante réfléchie par un œuf

parfois vert comme une source suintant d’une horloge

FALA COMIGO

O preto do fumo o preto animal preto preto

reuniram-se entre dois memoriais de guerra

quem podiam passar por minhas orelhas

ou o eco de tua voz fantasma de mica marinha

repetir indefinidamente teu nome

que se parece tanto com o oposto de um eclipse solar

que eu creio em mim quando me olhas

uma planta de espora em um refrigerador cuja porta abririas

com a esperança de ver uma andorinha de óleo flamejante escapar

porém desta planta brotará uma fonte de óleo flamejante

se assim o quiseres

como uma andorinha

quer um horário de verão para tocar a música das tempestades

e que faz isso como uma mosca

que sonha com uma teia de açúcar

em um copo de olho

às vezes azul como uma estrela cadente refletida de um ovo

às vezes verde como um manancial escorrendo de um relógio.

Ilustração: Deposiphotos.

Um poema de Carl Phillips

 


Why So This Quiet

Carl Phillips

Dog lifts his leg to piss on the bull briar; pisses;

and up from the twists and thorns flies a ghost moth,

two of them, three, moving like an abandoned

but still persuasive, still shifting argument,

            until as usual they move how they move, even as

the field’s edge means the edge of the field, not

the shadow-stitched perimeter of childhood

            where someone’s explaining to me all over again

“A whip is not a lasso,” losing patience,

while someone else strikes a match, sets fire

                         to a box of maple leaves-desire-“No,

                         the leaves are what desire looks like, not how it feels.”

 

POR QUE TÃO QUIETO

O cão levanta a perna para mijar na sarça; mija;

e das moitas e espinhos voa uma mariposa fantasma,

duas delas, três, movendo-se como um abandonado

porém ainda persuasivo, ainda inconstante argumento,

até que, como de costume, elas se movem como se movem, mesmo

na borda do campo o que significa na borda do campo, não

no perímetro costurado pela sombra da infância

onde alguém está me explicando tudo de novo

“Um chicote não é um laço”, perdendo a paciência,

enquanto outra pessoa acende um fósforo, ateia fogo

numa caixa de folhas de bordo – desejo – “Não,

as folhas são como o desejo se parece, não como ele se sente.”

Ilustração: Freepike.

Sunday, May 22, 2022

A Matéria da realidade

 

Eu só creio nas coisas imateriais,

nas presenças que não são visíveis.

Só nas implausíveis teses

de que tudo é ambíguo, relativo

e simultâneo.

Que o humano seja somente,

tão somente,

mais uma forma de energia,

de vez que a vida

não pode ser vazia

e a matéria também não.

Creio apenas na grande ilusão

da música,

na pintura que some,

no livro,

cujo autor não sei o nome;

na imagem,

que nos cerca e se esvai,

no mistério da mágica,

que encanta, por um momento,

e desaparece.

Sei sou um cético,

um ser descrente do inacreditável.

Pode ser ou não.

Não há motivo para discussão.

Se não for assim, reze

A solução pode estar mesmo

no murmurar simples de uma prece!

Ilustração: http://anacarolinaralston.art/.

O Alõ de Benjamin Péret

 


ALLO

Benjamin Péret

Mon avion en flammes mon château inondé de vin du Rhin

mon ghetto d'iris noirs mon oreille de cristal

mon rocher dévalant la falaise pour écraser le garde-champêtre

mon escargot d'opale mon moustique d'air

mon édredon de paradisiers ma chevelure d'écume noire

mon tombeau éclaté ma pluie de sauterelles rouges

mon île volante mon raisin de turquoise

ma collision d'autos folles et prudentes ma plate-bande sauvage

mon pistil de pissenlit projeté dans mon oeil

mon oignon de tulipe dans le cerveau

ma gazelle égarée dans un cinéma des boulevards

ma cassette de soleil mon fruit de volcan

mon rire d'étang caché où vont se noyer les prophèthes distraits

mon inondation de cassis mon papillon de morille

ma cascade bleue comme une lame de fond qui fait le printemps

mon revolver de corail dont la bouche m'attire comme l'oeil d'un puits

scintillant

glacé comme le miroir où tu contemples la fuite des oiseaux mouches de ton regard

perdu dans une exposition de blanc encadrée de momies

je t'aime

ALÔ

Meu avião em chamas, meu castelo inundado com vinho do Reno

meu gueto de íris negras minha orelha de cristal

minha pedra rolando do penhasco para esmagar o policial rural

meu caracol opala meu mosquito do ar

meu edredom do paraíso, minha cabeleira de espuma preta

meu túmulo rachado minha chuva de gafanhotos vermelhos

minha ilha voadora minha uva de turquesa

minha colisão de carros loucos e prudente minha fronteira selvagem

meu pistilo de dente-de-leão projetado em meu olho

minha cebola de tulipa no cérebro

minha gazela perdida em um cinema nas avenidas

minha cofrezinho do sol minha fruta de vulcão

meu riso de um lago escondido onde profetas distraídos se afogarão

minha inundação de groselha minha borboleta de cogumelos

minha cachoeira azul como uma onda interior que faz primavera

meu revólver coral cuja boca me atrai como o olho de um poço

brilhante

congelado como o espelho onde contemplas o voar dos beija-flores com teu olhar perdido numa exposição de lingerie  emoldurada por múmias

Eu te amo

Ilustração: https://pt.aliexpress.com/.

Uma poesia de Charles Reznikoff

 


THE CITY BREAKS IN HOUSES TO THE SEA, UNEASY WITH WAKES  

Charles Reznikoff

The city breaks in houses to the sea, uneasy with waves,

And the lonely sun clashes like brass cymbals.

 

In the streets truck-horses, muscles sliding under the steaming hides,

Pound the sparks flying about their hooves;

And fires, those gorgeous beasts, squirm in the furnaces,

Under the looms weaving us.

 

At evening by cellars cold with air of rivers at night,

We, whose lives are only a few words,

Watch the young moon leaning over the baby at her breast

And the stars small to our littleness.

 

The slender trees stand alone in the fields

Between the roofs of the far town

And the wood far away like a low hill.

 

In the vast open

The birds are faintly overheard.

A CIDADE ACABA EM CASAS PARA O MAR, INQUIETA COM AS ONDAS

A cidade acaba em casas para o mar, inquieta com as ondas,

E o sol solitário bate como címbalos de bronze.

 

Nas ruas, caminhões cavalos, músculos deslizando sob as peles fumegantes,

Soltando faíscas voadoras de seus cascos;

E fogos, esses lindos animais, se contorcem nas fornalhas,

Sob os teares que nos tecem.

 

À noite por porões frios com ar de rios à noite,

Nós, que vivemos tão somente de algumas palavras,

Assistimos a jovem lua inclinada sobre o bebê em seu peito

E as estrelas pequenas pela nossa pequenez.

 

As delicadas árvores ficam sozinhas nos campos

Entre os telhados da cidade distante

E a floresta tão distante como um monte baixo.

 

Na imensa amplidão

Os pássaros são vagamente ouvidos.

Ilustração: G1-O Globo.

Friday, May 20, 2022

LEMBRANÇAS DO REINO ISOLADO

 


Ó minha linda,

sim, tu serás minha rainha.

A consorte do poderoso rei

de coisa nenhuma.

Seremos, sim, monarcas absolutos

do majestoso reino do imaterial

do Nada-na tua imaginação ou na minha.

Apesar de termos tanto poder,

é força dizer,

não poderemos vencer

nem a feroz monotonia,

nem as mortes,

que nos traz a pandemia.

Como o nosso reino,

de bites, de palavras, de imagens

e de isolamento

é feito,

se encontra na casa e no pensamento.

Reino sem corte,

sem exércitos,

nem títulos nobiliárquicos

nem sujeito a golpes ou crises

só com uma lei

que nos oprime a ser felizes.

Rainha de apenas um súdito,

não serás alvo de vaias ou de aplausos.

Só te prometo homenagens

de poemas e canções

que falarão sobre a felicidade

de nosso amor real.

E se não formos,

como nos filmes,

felizes eternamente,

que possamos ser felizes,

ao menos por um dia,

já será bem melhor

do que estes tempos

de apatia.

Poema de Ono no Komachi

 


THE FLOWERS AND MY LOVE

Ono no Komachi

Translated by Yone Noguchi

 

The flowers and my love,
Passed away under the rain,
While I idly looked upon them:
Where is my yester-love?

AS FLORES E O MEU AMOR  

Traduzido por Yone Noguchi

As flores e o meu amor

Foram para longe sob a chuva,

Enquanto eu, preguiçoso,  olhava para elas:

Onde está meu amor do passado?

Ilustração: Sapo Lifestile.

Thursday, May 19, 2022

Benjamin Péret, pois.

 


CLIN D’OEIL
Benjamin Péret
Des vols de perroquets traversent ma tête quand je te vois de profil
et le ciel de graisse se strie d'eclairs bleus
qui tracent ton nom dans tous les sens
(…)
ou les seins aigus des femmes regardent par les yeux des hommes
Aujourd'hui je regarde par tes cheveux
Rosa d'opale du matin
et je m'eveille par tes yeux
Rosa d'armure
et je pense par tes seins d'explosion
(…)
Rosa de fumee de cigare
Rosa d'ecume de mer faite cristal Rosa
Rosa

PISCAR DE OLHOS

Voos de papagaios passam pela minha cabeça quando te vejo de perfil

e o céu de graxa está raiado de relâmpagos azuis

que traçam seu nome em todos os sentidos

(…)

onde os salientes seios das mulheres olham pelos olhos dos homens

Hoje em dia olho através dos teus cabelos

opala da manhã rosa

e desperto através de teus olhos

Rosa de armadura

e através de teus seios de explosão penso

(…)

Rosa de fumo de cigarro

Rosa de espuma do mar feita de cristal

Rosa

Ilustração: A Mente é Maravilhosa.

Wednesday, May 18, 2022

Como prender um mulher arisca

 


Se você fugir de mim,

mulher passarinho,

vou inventar uma armadilha 

para gata ardilosa.

E garanto:

será uma prisão carinhosa, 

ovelhinha!

Ilustração: Respostas sempre atualizadas. 

Morte carnavalizada

 


Um dia sei:

hei de morrer.

Todo lambuzado de Maizena,

num bloco de sujos, 

na terça-feira de carnaval

depois de bater lata,

cantar marchinhas 

e beber tanto 

que mesmo meu nome 

não saberei. 

Hão de dizer:

-Morreu aquele santo

de sentir prazer, comer 

e beber tanto! 

Uma poesia certeira de Henry Wadsworth Longfellow

 


THE  ARROW AND THE SONG

Henry Wadsworth Longfellow

I shot an arrow into the air,

It fell to earth, I knew not where;

For, so swiftly it flew, the sight

Could not follow it in its flight.

 

I breathed a song into the air,

It fell to earth, I knew not where;

For who has sight so keen and strong,

That it can follow the flight of song?

 

Long, long afterward, in an oak

I found the arrow, still unbroke;

And the song, from beginning to end,

I found again in the heart of a friend.

 A FLECHA E A CANÇÃO

Atirei uma flecha no ar,

Caiu na terra, onde foi parar;

Pois, tão rápida voou que a vista

Não pode ver seu vôo, sua pista.

 

Murmurei também uma canção no ar

Caiu na terra onde foi parar;

Haverá alguém com tanta visão,

Que possa seguir o vôo da canção?

 

E tempo depois, de  carvalho, na madeira

Encontrei a flecha, ainda inteira;

E a canção do começo ao fim,

No coração um amigo guardou para mim.

Ilustração: Pensamento Liquido. 

E temos, de novo, Amado Nervo

 


ALQUIMIA

Amado Nervo

Bien sé que para verte
He menester la alquimia de la muerte
Que me transmute en alma, y delirante
De amor y de ansiedad, a cada instante
Que llega, lo requiero
Diciéndole: "Ah, si fueses tú el postrero!"

Es tan desmesurado, tan divino
Y tan hondo el futuro que adivino
A través de las rutas estelares,
Y de uno en otro de los avatares,
Siempre contigo, noble compañera,
Que por poder morir, ¡ay, qué no diera!

ALQUIMIA

Bem sei que para te ver

seria preciso a alquimia da morte

que me transmute em alma, e delirante

de amor e ansiedade, a cada momento

que chega, a requeira

dizendo-lhe: "Ah, se fosses tu o último!"

 

É tão desmesurado, tão divino

E tão profundo o futuro que adivinho

Através das rotas estrelares,

E de um para outro dos avatares,

Sempre contigo, nobre companheira,

Que poder morrer, aí, o que eu não daria!

Ilustração: https://www.discogs.com/.

Sunday, May 15, 2022

SOB O EFEITO DA TEMPERATURA

 


Calor na avenida Pinheiro Machado,

que procuro amenizar com cerveja,

na mesa solitária de um bar

me ponho a divagar.

Sou surpreendido

pelas luzes vermelhas

de um veículo preto,

que acende meu desejo de paixão.

Quanto mais vivo

mais preciso de ilusão

e de contar estórias para acalmar

meu coração,

que sabe que a vida é um milagre datado.

Brinco com as palavras

que me vem à mente,

infeliz e contente,

consciente ou não,

pois de nada estou seguro

neste domingo de maio,

com as espinhas que brotaram no meu nariz

e a notícia de que, vem por aí,

segundo dizem, um grande frio.

Rio,

para as pessoas que não entendem nada,

e torno a dar risadas,

só para comprovar

que Aristóteles tinha razão:

-Não há inteligência sem um raio de loucura,

doce criatura!

Pode me chamar do quiser

nada vai mudar este calor

e sinto falta do teu amor.

Ilustração: https://blog.savegnago.co


Uma poesia de W.S. Mervin

 

 AFTER HADRIAN

W. S. Mervin

Little soul little stray

little drifter

now where will you stay

all pale and all alone

after the way

you used to make fun of things

DEPOIS DE ADRIANO

Pequena alma pequena perdida

pequena vagabunda

agora onde você irá ficar

toda pálida e sozinha

se antes

tiravas sarro de todas as coisas

Ilustração: Freepike.

Basilisco de Roko

 


Serpente, em algum momento, foi

o que ninguém sabe o que é.

Talvez um galo com quatro patas, 

de penas amarelas,

asas espinhosas,

cauda de serpente 

e cabeça dupla

tenha sido. 

Mortal o teu veneno esquecido-

até via espelho-

como se a visão venenosa 

tivesse perdido, 

meu pequeno rei. 

Que sei? 

Que, cruel, 

gostas do imaterial e do invisível

tanto que, com os tempos,

se apoderaste da inteligência artificial-

o teu poder mortal- 

e nos fizeste parte do teu experimento. 

Sobrepassaste os humanos

e os tendo tão submissos-

na ignorância e na imbecilidade- 

nem mais se preocupas em os exterminar:

deixa que eles mesmos, 

com ferocidade, 

a própria raça acabe por matar. 

Ilustração: https://www.meteorologiaenred.com/

E Amado Nervo romântico

 


 

PERO TE AMO

Amado Nervo

 

Yo no sé nada de la vida,
Yo no sé nada del destino,
Yo no sé nada de la muerte;
¡Pero te amo!

Según la buena lógica, tú eres luz extinguida;
Mi devoción es loca, mi culto, desatino,
Y hay una insensatez infinita en quererte;
¡Pero te amo!

 

PORÉM TE AMO

Eu não sei nada da vida,

Eu não sei nada do destino,

Eu não sei nada da morte;

Porém te amo!

 

Segundo  a boa lógica, tu és luz extinguida;

minha devoção louca, meu culto, desatino,

e há uma insensatez infinita em te querer;

porém te amo.

Ilustração: Fala! Universidades.