Thursday, December 29, 2022

SEM MEMÓRIA

 


Eu era feliz.

Só não sei quando nem por qual razão.

 

Eu sou feliz.

Talvez ... seja pelo sol tão quente.

Ou porque ela me diz o que preciso ouvir,

mas me deixa tão contente.

 

Eu serei feliz.

Por não ter motivo para não ser.

E pelas pequenas coisas,

que me dão prazer.

 

Ser feliz é um charme.

É a glória!

E nunca se sabe onde ela está 

quando se tem memória.

Ilustração: Clok Oftalmologia. 



Uma poesia de Julie Lumsden

 


 MERMAN

Julie Lumsden

Your letter, the familiar firm hand

smudging in the humid bathroom:

Remember when I stood up in the bath

and you called me your merman?

 

I remember all day and all night

and at sunrise, my blue bedroom curtains

turn the room aqueous.

TRITÃO

Tua carta, a familiar mão firme

Manchando-se no banheiro úmido:

Recorda-te quando eu estava de pé no banho

e você me chamou de seu tritão?

 

Eu recordo o dia todo e toda noite

e ao nascer do sol, as cortinas azuis do meu quarto

tornaram aquosa a sala.

Ilustração: Blog das Resenhas.

Wednesday, December 28, 2022

LXXXII

 


Há sempre um amanhã,

não importa a negrura da noite,

ser o dia enevoado, ou não, 

se estamos bem

ou nos treme o coração.

É só olhar para a frente-

nossa única questão real-

pois, todo o resto é banal.

Nós, estamos aqui, 

sempre estaremos,

com consciência ou sem ela,

podendo, ou não, olhar pela janela.

É inevitável 

o fluir do tempo

e voltarmos ao nosso estado natural.

Não há nada a temer:

aproveita o teu tempo,

pó de estrelas,

vive o que puder viver!

(De "Cem Poemas em Cem Dias", Editora Viseu, 2021)

Ilustração: ZAP aeiou. 


THE UNBIRTHDAY SONG

 


THE  UNBIRTHDAY SONG

Statistics prove, prove that you've one birthday,

one birthday ev'ry year.

But there are three hundred and sixty four

unbirthdays.

That is why we're gathered here to cheer.

A very merry unbirthday to you, to you.

A very merry unbirthday to you,

It's great to drink to someone and I guess that you will do.

A very merry unbirthday to you.

A CANÇÃO DO DESANIVERSÁRIO

As estatísticas provam, provam que somente há um aniversário,

um aniversário a cada ano.

Porém há trezentos e sessenta e quatro dias

de não aniversários.

É por isto que nós viemos com gosto e prazer felicitá-lo.

Um feliz aniversário para você, você.

Um feliz não aniversário para você,

Que alegria brindar a tua saúde e o faremos.

Um feliz não aniversário para você.

Fonte: http://365traducciones.blogspot.com/2005/12/.

Uma poesia de Daniel Calabrese

 


LA CASA DEL LIBRO DE POUND

Daniel Calabrese

Las hendijas por las que se cuela

un susurro.

El camino de tierra.

Una aguada.

Los rincones lamidos por el perro.

 

Y todas esas huellas desordenadas

en el frente,

como si las trajera el viento.

 

Un pañuelo del otro mundo.

No es de aquí.

Un espejo curvo, donde se

dobla el tiempo.

 

El  libro de Pound

lleno de códigos, sin corazón.

 

Y todas esas pisadas en tropel

como si las arrastrara el viento.

 

A CASA DO LIVRO DE POUND

As rachaduras pelas quais se esgueira

um sussurro.

O caminho de terra.

Um guache.

Os cantos lambidos pelo cachorro.

 

E todas as trilhas desordenadas

na frente,

como se trazidas pelo vento.

 

Um lenço de outro mundo.

Não é daqui.

Um espelho curvo, onde

se dobra o tempo.

 

O livro de Pound

cheio de códigos, sem coração.

 

E todas aquelas pisadas em tropel

como se arrastadas pelo vento.

Ilustração: https://www.blogletras.com/.

Uma poesia de Laura Solomon

 


BACH

Laura Solomon

Before we met,

but when was that?

There are more of questions

than of anything.

 

I was born, yes.

Once I learned to play

the piano. My mother

was like a brick.

 

There have been so many

houses called home, days

called today and then

yesterday, I thought

 

tomorrow I will.

Something. The piano

tuner will come and then

again I will play.

BACH

Antes de nos encontrarmos,

mas quando foi isto?

Há mais perguntas

do que de qualquer outra coisa.

 

Eu nasci, sim.

Uma vez eu aprendi a tocar

o piano. Minha mãe

era como um tijolo.

 

Tiveram tantas

casas chamadas lar, dias

que chamei hoje e depois

ontem penso que

 

Amanhã eu poderei.

Alguma coisa. O afinador

de piano virá e então

novamente eu poderei tocar.

Ilustração: SABRA-Sociedade Artística Brasileira.

Monday, December 26, 2022

Salada Pronta

 


Tenho que aceitar

o que me dizem.

Sem reclamar

quando me roubam o amanhã.

Ser rebelde é para quem pode.

Meus irmãos, obedeçam às ordens!

 

Ser da América do Sul

é se acostumar com o eito.

Não tem jeito!
Não tem jeito.

Você tem direito a futebol e

carnaval.

Se quiser mais terá deboche

e é bom ficar calado

para não acabar cancelado!

 

Os civilizados não sabem

Que ser selvagem é a salvação.

Pego na tua mão,

Beijo tua boca

Com uma paixão louca

Sem temer mais nada,

Sem temer o amanhã

Que não verei.

 

Sou da América do Sul.

De deboche, de banana

e carnaval entendo.

Como um bom animal

Vou vivendo

Como me deixam.

 

Não tenho mais como ter timidez.

Já sei que nunca vou ter vez.

E me rendo: 

os heróis perderam a vez. 

A história será escrita pelos vilões. 

O passado por Pier Paolo Pasolini

 


Pier Paolo Pasolini

Io sono una forza del passato.

Solo nella tradizione è il mio amore.

Vengo dai ruderi, dalle chiese,

dalle pale d’altare, dai borghi

abbandonati sugli Appennini o le Prealpi,

dove sono vissuti i fratelli.

Giro per la Tuscolana come un pazzo,

per l’Appia come un cane senza padrone.

O guardo i crepuscoli, le mattine

su Roma, sulla Ciociaria, sul mondo,

come i primi atti del Dopostoria,

cui io assisto, per privilegio d’anagrafe,

sull’orlo estremo di qualche età

sepolta. Mostruoso è chi è nato

dalle viscere di una donna morta.

E io, feto adulto, mi aggiro

più moderno di ogni moderno

a cercare i fratelli che non sono più.

 

Eu sou uma força do passado.

Só na tradição está meu amor.

Venho das ruínas, das igrejas,

dos santuários, dos burgos

abandonados nos Apeninos ou Prealpes,

onde moravam os irmãos.

Giro pela Tuscolana feito um louco,

pela Appia feito um cão sem dono.

Ou olho para os crepúsculos, as manhãs

sobre Roma, sobre a Ciociaria, no mundo,

como os primeiros atos de depois-da-História,

aos quais assisto, por um privilégio de cartório,

na orla extrema de alguma idade

sepulta. Monstruoso é quem nasceu

das vísceras de uma mulher morta.

E eu, feto adulto, por aí

mais moderno que qualquer moderno

à procura dos irmãos que não sou mais.

Ilustração: National Geografic. 

 

Outra poesia de José Daniel Espejo

 


TANGO

José Daniel Espejo 

La madrugada del día

de mi cuadragésimo primer

cumpleaños soñé una voz

familiar que decía la gente

como tú se muere sola

y borracha. Me di la vuelta:

me vi a mí mismo, más viejo

más mísero más sucio

más sabio y esto no es

un poema es más bien un baile

entré el y yo

agarrados

 

un tango.

TANGO

 

A madrugada do dia

de meu quadragésimo primeiro

aniversário sonhei com uma voz

familiar que me dizia que gente

como tu morre só

e embriagada. Eu me virei:

vi a mim mesmo, mais velho,

mais miserável, mais sujo.

Mais sábio e isto não é

um poema é bem mais um baile

entre ele e eu

agarrados.

 

Um tango.

Ilustração: Ali Express.

Poeminha da Bailarina

 


A criança bailarina

dança na ponta do pé

com seu jeito tão menina,

brigadeiro, chocolate, café,

roda, roda, cheia de graça,

sonhando que a vida passa

como a valsa, que no ar,

faz a pequenina

sorrir e sonhar!

Ilustração: Bhaz. 

Uma poesia de Jenny Xie

 


ABSTRACT WITH RED SQUARE

Jenny Xie

                                      after Etel Adnan

And there,

between clean walls

you assume

the position,

angled toward

the red squares

roiling

on her canvases.

 

Into the oils

of a new tense

she herself

days before

had dissolved.

 

There, impasto:

her mountain.

 

Trimmed down

to the first

seeing.

 

Tamalpais

at every pitch,

pistachio

patches scraping

against cobalt.

Edges opaque

until they refused.

 

Mountainous,

she, too-

which is to say

surfacing,

color latching

to the seasons

where meaning

rushes.

 

Of this transition

the living are given

no access.                                                               

 

You, turning

away from

the dry wall,

where nothing

tears through.

 

A red square

appears in your days

yet you know

not yet where.

RESUMO COM QUADRADO VERMELHO

                                        depois de Etel Adnan

E lá,

entre paredes limpas

você assume

a posição,

inclinada para

os quadrados vermelhos

rolando

em suas telas.

 

nos óleos

de um novo tempo

ela própria

dias antes

tinha se dissolvido.

 

Aí, impasto:

a montanha dela.

 

Aparado

para a primeira

visão.

 

Tamalpais

a cada pintura,

pistache

raspagem de remendos

contra cobalto.

Bordas opacas

até que eles recusaram.

 

Montanhoso,

ela também-

o que quer dizer

superfície,

trava de cor

para as estações

onde significado

corre.

 

desta transição

os vivos são dados

sem acesso.

 

você, virando

longe da

parede seca,

através de nenhuma

lágrima.

 

um quadrado vermelho

aparece em seus dias

ainda assim você sabe

ainda não onde.

Ilustração: pngtree.

Uma poesia de José Daniel Espejo

 


EL OLOR DE LA LEJÍA

José Daniel Espejo 

He enseñado a mis hijos a amar el olor
de la lejía como un lujo
o al menos una prórroga         la uso sin guantes
se queda conmigo                   unas horas de paz
me arrasa las manos   miradlas ahora
miradlas bien.

O CHEIRO DE ÁGUA SANITÁRIA

Eu ensinei meus filhos a amar o cheiro

de água sanitária  como um luxo

ou, ao menos, uma extensão  a uso sem luvas

fica comigo  umas horas de paz

arrassa minhas mãos, olhe-as agora

olhe-as bem.

Ilustração: Higiclear.

E temos hoje Blaise Cendrars

 


RÉVEILLER

Blaise Cendrars

Ce matin je me penche par la fenêtre

Je vois

Le ciel

La mer

La gare maritime par laquelle j'arrivais de New York en 1911

La baraque de pilotage

Et a gauche

Des fumées des cheminées des grues des lampes à arc à contre-jour

Le premier tram grelotte dans l'aube glaciale

Moi j'ai trop chaud

Adieu Paris

Bonjour soleil

DESPERTAR

Esta manhã me inclino pela janela

vejo

o céu

o mar

a estação marítima pela qual

eu fugi de New-York en 1911

a barraca de pilotagem

eu tenho à esquerda

a fumaça das chaminés dos guindastes das lâmpadas de arco contra a luz

o primeiro bonde estremece na madrugada gelada

eu tenho demasiado calor

adeus paris

bom dia raio de luz

 

Tuesday, December 20, 2022

Com vocês, Maria Sanz

 

 


LA PROFECIA

Maria Sanz

Aunque ahora estos versos vaticinen

tu vida en sus metáforas, tan sólo

serán la voz que clame en el destierro

al que fuiste a parar, después que nadie

reconociese el eco de tus pasos

sobre tantos adioses. Un poema

dirá de ti la última palabra.

Para entonces, tal vez hayas vivido.

A PROFECIA

Ainda que agora estes versos vaticinem

tua vida em suas metáforas, tão só

serão a voz que clama no exílio

em que fostes parar, depois de ninguém

reconhecer o eco de teus passos

depois de tantos adeuses. Um poema

dirá de ti a última palavra.

Para então, talvez, teres vivido.