Friday, September 22, 2023

Outra poesia de Kevin Cuadrado

 


LA SENCILLEZ COTIDIANA DE VIVIR  

Kevin Cuadrado

Es más fácil decir

existo bajo el cielo de mayo

que decir existo en un lugar específico.

No es lo mismo regirse por el lenguaje de los días

que por el idioma de las cosas.

Yo diré: canario, rosa, beso

y en mayo serán un canario, una rosa y un beso.

Pero en una ciudad distinta

tendrán otros significados

y será un lugar

sin canarios sin rosas ni besos.

A SIMPLICIDADE COTIDIANA DE VIVER

É mais fácil dizer

existo sob o sol de maio

que dizer existo num lugar específico.

Não é o mesmo reger-se pela linguagem dos dias

que pelo idioma das coisas.

Eu direi: canário, rosa, beijo

E, em maio, serão um canário, uma rosa e um beijo.

Porém, numa cidade distinta

terão outros significados

e será um lugar

sem canários sem rosas sem beijos.

Ilustração: Top Movies.

O Infinito de Giacomo Leopardi

 


L’INFINITO

Giacomo Leopardi

Sempre caro mi fu quest’ermo colle,

E questa siepe, che da tanta parte

Dell’ultimo orizzonte il guardo esclude.

Ma sedendo e mirando, interminati

Spazi di là da quella, e sovrumani

Silenzi, e profondissima quiete

Io nel pensier mi fingo; ove per poco

Il cor non si spaura. E come il vento

Odo stormir tra queste piante, io quello

Infinito silenzio a questa voce

Vo comparando: e mi sovvien l’eterno,

E le morte stagioni, e la presente

E viva, e il suon di lei. Cosi tra questa

Immensita s’annega il pensier mio:

E il naufragar m’è dolce in questo mare.

O INFINITO

Sempre querido me foi este morro tão deserto

E esta cerca viva por toda parte

Do último horizonte o olhar me exclui.

Mas sentando e mirando, intermináveis

Espaços e além disso, e sobre-humanos

Silêncio e profundíssima quietude,

Eu no meu pensamento finjo; onde por pouco

Meu coração não tem medo. E como o vento

Ouço farfalhar entre essas plantas, sou eu

Infinito silêncio com esta voz

Vou comparando: e me fornece o eterno,

E as estações mortas, e o presente

E viva, e o seu rumor. E assim eu nesta

Imensidão afogo o pensamento:

E o naufragar é doce neste mar.

Ilustração: Superinteressante.

Thursday, September 21, 2023

Uma poesia Lorine Niedecker


 Foreclosure

Lorine Niedecker

Tell em to take my bare walls down

my cement abutments

their parties thereof and clause of claws

 

Leave me the land

Scratch out: the land

 

May prose and property both die out

and leave me peace

Execução hipotecária

Diga para derrubarem minhas paredes nuas

meus pilares de cimento

suas partes e cláusula de garras

 

Deixe-me a terra

Raspe: a terra

 

Que a prosa e a propriedade ambas morram

e me deixem em paz.

Ilustração: Rota Juridica.

Uma poesia de Andrés Navarro

 


BIFOCAL

Andrés Navarro

La chica sexi y su perrito barbudo y sus tobillos

de actriz con adicciones

pasan

frente al edificio de correos y al estrecho parterre

en el que nada, ni el mínimo indicio,

descubre la necrópolis de enjoyadas señoras

que la juzgan

con un pálido gesto detectado sólo por el perro

y sometido a cálculo sumario. Tres gotitas

de ámbar, invisibles

entre el pasto pisado, son su humilde elegía.

BIFOCAL

A garota sexy e seu cachorro barbudo e seus tornozelos

de atriz com vícios

passam

em frente ao prédio dos correios e ao estreito canteiro de flores

em que nada, nem mesmo o menor indício,

descubra a necrópole das damas de cheias de joias

que a julgam

com um pálido gesto detectado só pelo cachorro

e submetido ao cálculo sumário. Três gotas

âmbar, invisíveis

entre a erva pisoteada, são a sua humilde elegia.

Ilustração: Lentes Voltz.

Tuesday, September 19, 2023

FÉ NA FELICIDADE


É mais fácil dizer que existo 

neste setembro ardente

ainda que todo meu corpo sente

a falta de teus carinhos e beijos,

da companhia inseparável 

e sempre amável.

E digo que, amanhã, será diferente

quando não sei de nada...

Só escuto do relógio as pancadas

e vou em frente. 

Uma poesia de Kevin Cuadrado

 


LO QUE ESTÁ FUERA DE TIEMPO  

Kevin Cuadrado

Recordamos solo aquello que nos recuerda,

lo que está fuera de tiempo.

Sobre la mesa de la cocina

las verduras crudas parecen cadáveres

hasta que llegan a las manos de mamá

donde se convierten en alimento y memoria.

O QUE ESTÁ FORA DE TEMPO

Recordamos só aquilo que nos recorda,

o que está fora de tempo.

Sobre a mesa da cozinha

as verduras cruas parecem cadáveres

até que chegam às mãos de mamãe

onde se convertem em alimento e memória.

Ilustração: Infomoney.

Monday, September 18, 2023

Uma poesia de Laurie Sheck

 


WHAT IS THE DIFFERENCE

Laurie Sheck

Stein asked what is the difference. She did not ask what is the sameness. Did not ask what like is. Or proximity.  Resemblance. Did not ask what child of what patriarch what height what depth didn’t use a question mark but still wondered at the difference what mutinies it carries over what vast Arctic what far shore.

What is the difference between blind and bond. Between desk and red. Between capsize and sail. Between commodity and question. A lively thing, a fractured thing. To smile at the difference.

(Such gray clouds passing over. Thick, wet sky.)

What is the difference between mutiny and dust. Between noose and edge. Between brittle and obey.

Between shunned and stun. What is the difference.

As now, Mary Shelley’s monster flees to the north, his sack of books his lone companions.

QUAL A DIFERENÇA

Stein perguntou qual é a diferença. Ela não perguntou o que é a mesmice. Não perguntei como é. Ou proximidade. Semelhança. Não perguntei qual filho de qual patriarca, qual altura, qual profundidade, não usei um ponto de interrogação, porém ainda me perguntei a diferença entre os motins que ele carrega, em que vasto Ártico, em que costa distante.

 

Qual é a diferença entre cego e vínculo. Entre a mesa e o vermelho. Entre virar e navegar. Entre mercadoria e questão. Uma coisa viva, uma coisa fraturada. Sorrir com a diferença.

 

(Como as nuvens cinzentas passando. Céu espesso e úmido.)

 

Qual é a diferença entre revolta e poeira. Entre o laço e a borda. Entre frágil e obedecer.

 

Entre evitado e espantado. Qual é a diferença.

 

Como agora, o monstro de Mary Shelley foge para o norte, e seu saco de livros são seus companheiros solitários.

Ilustração: Vittude.

O sempre mágico Amado Nervo

 


Á LEONOR

 Amado Nervo

     Tu cabellera es negra como el ala

del misterio; tan negra como un lóbrego

jamás, como un adiós, como un «¡quién sabe!»

    Pero hay algo más negro aún: ¡tus ojos!

 

    Tus ojos son dos magos pensativos,

dos esfinges que duermen en la sombra,

dos enigmas muy bellos . . . Pero hay algo,

pero hay algo más bello aún: tu boca.

 

    ¡Tu boca! ¡oh, sí!; tu boca, hecha divina-

mente para el amor, para la cálida

comunión del amor, tu boca joven;

pero hay algo mejor aún: ¡tu alma!

 

    Tu alma recogida, silenciosa,

de piedades tan hondas como el piélago,

de ternuras tan hondas . . .

                                         Pero hay algo,

pero hay algo más hondo aún: ¡tu ensueño!

À LEONOR

Teu cabelo é negro como a asa

do mistério; tão negro quanto sombrio

nunca, como um adeus, como um “quem sabe!”

     Mas há algo ainda mais negro: os teus olhos!

 

     Teus olhos são dois magos pensativos,

duas esfinges que dormem na sombra,

dois enigmas muito bonitos. . . Mas há algo,

mas há algo ainda mais bonito: tua boca.

 

     Tua boca! Oh sim!; tua boca, feita

divinamente por amor, para a cálida

comunhão de amor, tua boca jovem;

mas há algo ainda melhor: a tua alma!

 

     tua alma recolhida, silenciosa,

de devoções tão profundas quanto o mar,

de tão profunda ternura. . .

                                          Mas há algo,

mas há algo ainda mais profundo: o teu sonho!

Ilustração: Nada Além do Simples.

Sunday, September 17, 2023

De novo Octavio Paz, pois.

 


SILENCIO

Octavio Paz

Así como del fondo de la música

brota una nota

que mientras vibra crece y se adelgaza

hasta que en otra música enmudece,

brota del fondo del silencio

otro silencio, aguda torre, espada,

y sube y crece y nos suspende

y mientras sube caen

recuerdos, esperanzas,

las pequeñas mentiras y las grandes,

y queremos gritar y en la garganta

se desvanece el grito:

desembocamos al silencio

en donde los silencios enmudecen.

SILÊNCIO

Assim como do fundo da música

brota uma nota

que enquanto vibra cresce e se afina

até que em outra música emudece,

brota do fundo do silêncio

outro silêncio, aguda torre, espada,

e sobe e cresce e nos suspende

e enquanto  sobem caem

lembranças, esperanças,

as pequenas mentiras e as grandes,

e queremos gritar e na garganta

se desvanece o grito:

desembocamos no silêncio

onde os silêncios emudecem.

Ilustação: Conceito.de.

Friday, September 15, 2023

Uma poesia de Wendy Xu

 


NOTES ON SENTENCE CROSSING

Wendy Xu

Let it be an unruly one—an unplucked ass hair—not collagen but spite—not to live to

annihilate other living things—just to receive—I live to sieve—she says—who says—I

say now to her—I say now I admire the melodrama of this particular moment of

your suffering recorded—it was so cold that day, mom—and how did you do it—

how did you survive the baby off-cycling nocturnal so you were up all night—and

the language how did you survive that too—

 

My little girl’s mouth is shaped like a tulip—her lip wiggles and the electrons in her

brain crackle like tin foil when she thinks—which is all of the time—I won’t let them

grind her up into meat—not today—they’d separate her into buckets and dispose of

her personality—and when she asks—what does she ask—could I feel the rupture-

swell in the syntax the bead of blood like a ruby—well of course you have a

personality I say to her—it was not to annihilate other living things—

 

I walked through the city with my moo-moo colors—hanging off my left arm—and

the habit I had was to speculate about when darkness would descend—thinking

about the hydroponically grown herbs that he loves—they dismiss him as their

owner—and this is how it goes with pets and children—they walk with you through

this forever-year—this distortion-spring—this element of toxicity falling like snow

through the air—or it was snowing real snow which is a kind of ash—I felt so weak

in my feather tuxedo—of ultramarine—

NOTAS SOBRE O CRUZAMENTO DE FRASES

Que seja indisciplinado - um pêlo de bunda depenado - não colágeno, mas rancor - para não viver até

aniquilar outras coisas vivas-justo para receber -eu vivo para peneirar -ela diz- quem diz -eu

digo agora para ela - eu digo agora que eu admiro o melodrama particular deste momento de

seu sofrimento recordado-estava tão frio naquele dia, mãe-e como você fez isto-

como você sobreviveu ao bebê fora do ciclismo noturno, então ficou acordado a noite toda - e

a linguagem, como você sobreviveu a isto também-

 

A boca da minha garotinha tem o formato de uma tulipa -seus lábios se mexem e os elétrons dentro dela

no cérebro estalam como papel alumínio quando ela pensa - o que acontece o tempo todo - não vou deixá-los

triturá-la até virar carne - hoje não - eles a separariam em baldes e descartariam

sua personalidade - e quando ela pergunta - o que ela pergunta - eu poderia sentir a ruptura

inchar na sintaxe a gota de sangue como um rubi - bem, é claro que você tem uma

personalidade eu digo a ela - que não é para aniquilar outras coisas vivas -

 

Ando pela cidade com minhas cores moo-moo - penduradas no braço esquerdo - e

o hábito que eu tinha de especular sobre quando a escuridão cairia - pensando

sobre as ervas cultivadas hidroponicamente que ele adora - eles o descartam como seu

proprietário - e é assim que acontece com animais de estimação e crianças - eles caminham com você

este ano eterno -esta distorcida primavera - este elemento de toxicidade caindo como neve

pelo ar - ou estava realmente nevando neve, que é uma espécie de cinza - eu me senti tão fraco

no meu smoking de penas - de ultramarino –

Ilustração: Purebreak.

O grande poeta Octavio Paz

 


LA CALLE 

Octavio Paz

Es una calle larga y silenciosa.

Ando en tinieblas y tropiezo y caigo

y me levanto y piso con pies ciegos

las piedras mudas y las hojas secas

y alguien detrás de mí también las pisa:

si me detengo, se detiene;

si corro, corre. Vuelvo el rostro: nadie.

Todo está oscuro y sin salida,

y doy vueltas en esquinas

que dan siempre a la calle

donde nadie me espera ni me sigue,

donde yo sigo a un hombre que tropieza

y se levanta y dice al verme: nadie.

A RUA

É uma rua longa e silenciosa.

Ando na escuridão e tropeço e caio

e me levanto e piso com os pés cegos

as pedras mudas e as folhas secas

e alguém atrás de mim também nelas pisa:

Se me detenho, se detém;

Se corro, corre. Viro o rosto: ninguém.

Tudo está escuro e não há saída,

e dou volta nas esquinas

que dão sempre  na rua

onde ninguém me espera nem me segue,

onde eu sigo um homem que tropeça

e se levanta e diz ao me ver: ninguém.

Ilustração: O Globo.

Hai-kai da Felicidade

 



Quando bebo um chope duplo

A felicidade deve provir do lúpulo

E do inevitável tira-gosto de linguiça. 

Ilustração: Tripobet. 

Tuesday, September 12, 2023

Uma poesia de Mina Loy

 


MOREOVER, THE MOON

Mina Loy

Face of the skies
preside
over our wonder.

Fluorescent
truant of heaven
draw us under.

Silver, circular corpse
your decease
infects us with unendurable ease,

touching nerve-terminals
to thermal icicles

Coercive as coma, frail as bloom
innuendoes of your inverse dawn
suffuse the self;
our every corpuscle become an elf.

ALÉM DO MAIS, A LUA

Rosto dos céus

a presidir

sobre a nossa maravilha.

 

Fluorescente

ao faltar

ao céu

atrai-nos para baixo.

 

Prateado corpo circular

seu declínio

infecta-nos com uma insuportável facilidade ,

 

tocando os terminais nervosos

de térmicos pingentes de gelo

 

Coercitivo como o coma, frágil como a flor,

as insinuações do seu amanhecer inverso

impregnam o eu;

cada fragmento nosso se torna um elfo.

Ilustração: João Bidu.