Wednesday, July 16, 2008

E. E. CUMMINGS

Nice smug me

by e. e. cummings

this here verse's
disjuncti
i used to
stick to regular metered
poetry
now i write onetwothreefourfive poemsjustlikethat
Jesus

but this is simple work
and what i want to know is
how much am i going to get paid for this
mister editor

Sinto-me orgulhoso
Estes versos aqui
desconjuntados
Eu usei
para esticar a métrica
da poesia
agora eu escreverei umdoistresquatrocincopoemascertoscomo
Jesus

mas este trabalho é simples
e o que eu quero saber
é quanto vou receber de pagamento por este
Mister editor

Tuesday, July 15, 2008

NATURALMENTE SIMPLES

A COMPLEXIDADE DE UM SIMPLES

Ser simples costuma ser complexo.
Agarro-me em idéias que me agarram
Enquanto só me valia saudável, o sexo,
Que as conveniências todas barram.

Ultrapasso na mente os grilhões
Que, na vida, realmente, não ultrapasso
E meu avanço se traduz em escorregões
Que são sem ritmo, melodia ou compasso.

Se eu fosse simples...com que alegria
Não aceitaria o que me acontecia,
Mas, minha simplicidade é tão complexa
Que mesmo sem arco dispara a flecha.

Na verdade sou toda a sabedoria
Que, em dez mil anos, foi acumulada.
Sou o antes, a história, a pré-história.
Um resumo de tudo que não diz nada.

Monday, July 14, 2008

O SONHO É O REAL

PONTOS DE PARTIDA
Os teus peitinhos!
Os teus peitinhos!
Amo vê-los assim durinhos,
eretos, excitados.
Os teus petinhos!
Os teus peitinhos!
Em azeitonas negras terminados
São fonte e gozo de todos meus pecados.
Os teus peitinhos!
Os teus petitinhos!
Me lembram sempre
que tu és criança
(por mais que o tempo já tenha passado)
E mais ainda criança sou
Que não posso vê-los
Sem pensar em amor!

A REALIDADE É IRREAL

NA PONTA DOS PÉS

O teu pézinho dançando
sem motivo
Faz minha imaginação
também dançar.
Penso em beijá-lo
como aperitivo
Do corpo todo
que vivo a desejar.
Será uma festa! Meu Deus,
como será!
Beijar teus pés, desnudos,
perfumados,
Uma vitória do amor
mais deslavado
E a certeza de um tempo
iluminado.

Friday, July 11, 2008

Seja Rebelde

Que é tudo veloz
Que é tudo rápido
Atestam as luzes que se afastam,
As palavras que se dissolvem,
As imagens que desaparecem.

Sei que te ofereceram um controle remoto,
Que te deram um veículo sem limites
Que te disseram que podes ir e voltar à vontade
Que tens a mais completa liberdade.

Não creia!Não creia!
Escapa mentalmente
Faz de conta que acredita,
Porém, saibas
Que só serás livre
Enquanto não aceitar
O que aí está
E brincar como criança
Com as regras
Fazendo apenas tua vontade.

Se segues a lógica da velocidade
Será mais um robô,
Um boi na manada.
O que fazes não significará nada
E tua alma,
Para sempre, estará perdida.

Ilustração:http://baixaki.ig.com.br/imagens/wpapers/BXK15424_velocidade_maxima800.jpg

VIVER SE VIVE DE QUALQUER JEITO

Violência

Tenho medo de lâminas
Assim como tremo
Só de pensar em revolveres.
As balas, porém, já fazem
Parte do cotidiano
Incorporadas à paisagem,
Nos buracos e nos sons,
Como um trem no interior.
Com tudo nos acostumamos,
Mas, a ausência da tua voz,
Querida, é algo desumano.
É um peso insuportável
No meu coração
Sem contar o vazio
Que se espalha por todo lugar
E a maior das violências
Que é não poder te amar.

Ilustração: http://abyssusabyssuminvocat.zip.net/

É CLARO QUE O CASAL XX EXISTE

Casal Feliz

Quem nos vê abraçados
Trocando juras de amor
Há de ficar encantado
Com tanto amor.

Quem nos vê sorridentes
Sem brigas e sem dramas
Há de pensar que, entre nós,
A felicidade aportou,
Mas, é apenas na cama
Que se conhece o amor.

Eu represento, ela finge.
Tudo parece normal.
Ela é feliz em outros braços,
Em outros braços, tentei
Porém, é tudo tão louco
Que, de verdade, não sei
Se ela, alguma vez, me amou
Se, alguma vez, a amei.

E trocamos juras de amor.
Todos dizem: São tão felizes!E nosso amor vive em crises
Numa calma tão total
Que nem as paredes discordam
Que somos o par ideal.

(De Poemas Mal-Comportados)
Ilustração: http://www.madrugadeiro.blogger.com.br/

Thursday, July 10, 2008

JULHO...JULHOS...

Estopim

O vento frio da manhã batia no seu rosto
E ela seguia com o olhar, indiferente ao tempo,
Uma estrela invisível, que não se percebia
Tão enevoado andava o cinza céu de julho.

Impossível saber que nela viviam calmas
Duas almas incapazes de viverem juntas,
Mas, a suavidade, a graça de suas feições
Escondiam um ar selvagem de paixão, se acaso,

Por pouco caso, se acendia a chama do desejo
Ainda que numa manhã feita para o leito
E o sono. O abandono a um beijo soltava
Nela a fera que queria morder, gritar, amar.

(Do livro A Alquimia da Vida, Editora Castanheira, Laser Print, 1999).

LAMPEJOS

OPERAÇÃO

Não há remédios que curem
A dor de tantas feridas
Feitas por espadas velozes
Nos combates pela vida.
Nem adianta ouvir vozes.

Aberto o meu coração
Derrama dor e lamentos
Se desmancha em sentimentos
Que nem sei para onde vão.
Todos são folhas ao vento.

Porém, em tudo que existe
A dor está sempre presente.
Não sei se a vida é que é triste
Ou se o coração da gente-
Sempre a dúvida persiste.

(Do livro A Alquimia da Vida, Editora Castanheira, Laser Print, 1999).

Wednesday, July 09, 2008

AINDA NERUDA

SI TÚ ME OLVIDAS

Pablo Neruda

Quiero que sepas
una cosa.
Tú sabes cómo es esto:
si miro
la luna de cristal, la rama roja
del lento otoño en mi ventana,
si toco
junto al fuego
la impalpable ceniza
o el arrugado cuerpo de la leña,
todo me lleva a ti,
como si todo lo que existe,
aromas, luz, metales,
fueran pequeños barcos que navegan
hacia las islas tuyas que me aguardan.
Ahora bien,
si poco a poco dejas de quererme
dejaré de quererte poco a poco.
Si de pronto
me olvidas
no me busques,
que ya te habré olvidado.
Si consideras largo y loco
el viento de banderas
que pasa por mi vida
y te decides
a dejarme a la orilla
del corazón en que tengo raíces,
piensa
que en ese día,
a esa hora
levantaré los brazos
y saldrán mis raíces
a buscar otra tierra.
Pero
si cada día,
cada hora
sientes que a mí estás destinada
con dulzura implacable.
Si cada día sube
una flor a tus labios a buscarme,
ay amor mío, ay mía,
en mí todo ese fuego se repite,
en mí nada se apaga ni se olvida,
mi amor se nutre de tu amor, amada,
y mientras vivas estará en tus brazos
sin salir de los míos.


Se tu me esqueces

Quero que saibasuma coisa.
Tu sabes como é isto:
se olho a lua de cristal,
as folhas vermelhas
do lento outono de minha janela,
se toco junto ao fogo
a cinza impalpável
ou o áspero corpo da lenha,
tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luzes, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até as tuas ilhas que me aguardam.
Agora bem,
se pouco a pouco deixas de me querer
deixarei de te querer pouco a pouco.
Se de repente me esqueces
não me procures,
que já terei te esquecido.
Se me consideras expansivo e louco
o vento de bandeiras
que passa por minha vida
e te decides
a deixar-me à margem do coração
em que tenho raízes,
pensa que nesse dia,
a essa hora
erguerei os braços
e sairão minhas raízes
em busca de outra terra.
Porém,
se a cada dia,
a cada hora sentes
que estás a mim destinada
com implacável doçura.
Se cada dia
sobe uma flor
em teus lábios a me buscar,
aí amor meu, aí minha amada,
em mim todo este fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
Meu amor se alimenta de teu amor, amada,
e enquanto viveres estarás em teus braços
sem sair dos meus.

Tuesday, July 08, 2008

UM POEMA DA JUVENTUDE

MEDITACIÓN BAJO LA LLUVIA
(Fragmento)
Frederico Garcia Lorca
3 de Enero de 1919

A José Mora

Ha besado la lluvia al jardín provinciano
dejando emocionantes cadencias en las hojas.
El aroma sereno de la tierra mojada
inunda el corazón de tristeza remota.

Se rasgan nubes grises en el mudo horizonte.
Sobre el agua dormida de la fuente, las gotas
se clavan, levantando claras perlas de espuma.
Fuegos fatuos que apaga el temblor de las ondas.
La pena de la tarde estremece a mi pena.
Se ha llenado el jardín de ternura monótona.
¿Todo mi sufrimiento se ha de perder, Dios mío
,como se pierde el dulce sonido de las frondas?
¿Todo el eco de estrellas que guardo sobre el alma
será luz que me ayude a luchar con mi forma?
¿Y el alma verdadera se despierta en la muerte?
¿Y esto que ahora pensamos se lo traga la sombra?
¡Oh, qué tranquilidad del jardín con la lluvia!
Todo el paisaje casto mi corazón transforma,
en un ruido de ideas humildes y apenadas
que pone en mis entrañas un batir de palomas.
Sale el sol. El jardín desangra en amarillo.
Late sobre el ambiente una pena que ahoga,
yo siento la nostalgia de mi infancia intranquila,
mi ilusión de ser grande en el amor,
las horaspasadas como ésta contemplando la lluvia
con tristeza nativa. Caperucita roja
iba por el sendero...Se fueron mis historias,
hoy medito, confuso,
ante la fuente turbia que del amor me brota.
¿Todo mi sufrimiento se ha de perder, Dios mío,
como se pierde el dulce sonido de las frondas?
Vuelve a llover.
El viento va trayendo a las sombras.


Meditação sob a Chuva
(Fragmentos)

Quando a chuva beijou o jardim provinciano
Provocou emocionantes tremores nas folhas.
E o aroma sereno da terra molhada
Inundou o coração de uma tristeza remota.

Se rasgam nuvens cinzas no mudo horizonte.
Sobre a água dormida da fonte, as gotas
Se cravam, levantando claras pérolas de espumas.
Fogos fátuos que apagam o ondular das ondas.

A tristeza da tarde estremece minha pena.
Isolado o jardim de uma ternura monótona.
Todo o meu sofrimento será perdido? Deus meu,
Como se perde o doce sonata das folhagens?
Todo o eco das estrelas que guardo na alma
será a luz que me ajuda a lutar com a minha forma?
E a alma verdadeira só desperta na morte?
E isto que agora pensamos só nos traz as sombras?
Oh! Que tranqüilidade do jardim com a chuva!
Toda a paisagem pura meu coração transforma,
Num ruído de idéias humildes e dolorosas
Que me soam nas entranhas como um voar de pombas.

Sai o sol. O jardim sangra amarelo.
Pulsa sobre o ambiente como uma pena que se afoga,
Eu sinto a saudade de minha infância intranqüila,
Minha ilusão de ser grande no amor, as horas
Passadas como estas contemplando a chuva
Com uma tristeza nativa. Chapeuzinho vermelho
Ia por um caminho...
Se foram minhas histórias, hoje medito, confuso
Ante a fonte turva que do amor me brota.

Todo o meu sofrimento perdido, Deus meu,
Como se perde a doce sonata das folhagens?

Volta a chover.
O vento vai trazendo as sombras.

TRAINDO NERUDA

Soneto XLIV

Pablo Neruda

Sabrás que no te amo y que te amo
puesto que de dos modos es la vida,
la palabra es un ala del silencio,
el fuego tiene una mitad de frío.
Yo te amo para comenzar a amarte,
para recomenzar el infinito
y para no dejar de amarte nunca:
por eso no te amo todavía.
Te amo y no te amo como si tuviera
en mis manos las llaves de la dicha
y un incierto destino desdichado.
Mi amor tiene dos vidas para amarte.
Por eso te amo cuando no te amo
y por eso te amo cuando te amo.
Soneto XLIV

Saberás que não te amo e que te amo
porque de dois modos é feita a vida,
a palavra tem sua asa de silêncio,
e o fogo tem sua metade de frio.
Eu te amo para começar a te amar,
E para retomar o infinito como via
e para não deixar nunca de te amar:
Só por isto não te amo, todavia.
Te amo e não te amo como se tivesse
Nas minhas mãos as chaves da sorte
E de um incerto e infeliz destino.
Meu amor tem duas vidas para te amar.
Por isto te amo quando não te amo
E por isto te amo quando te amo.

SONHAR...DEIXE-ME SONHAR


VISÃO


Eu a vi nua
Eu a vi nua
Completamente nua
Linda, clara, alva
Como a lua
Como a lua
Eu a vi nua.


Não sei se foi um sonho
Não sei se foi uma viagem
Toda a beleza e o encanto da imagem
Que, em mim, se perpetua.

Não importa se miragem ou ilusão
Eu a vi nua
Eu a vi nua
Linda e inacessível
Como a lua
Como a lua.

Monday, July 07, 2008

UM SALMO

Psalm

George Oppen

In the small beauty of the forest
The wild deer bedding down --
That they are there!

Their eyes
Effortless, the soft lips
Nuzzle and the alien small teeth
Tear at the grass

The roots of it
Dangle from their mouths
Scattering earth in the strange woods.
They who are there.

Their paths
Nibbled thru the fields, the leaves that shade them
Hang in the distances
Of sun

The small nouns
Crying faith
In this in which the wild deer
Startle, and stare out.


Salmo

Na pequena beleza da floresta
O selvagem cervo veio abaixo
Lá onde elas estão!

Seu olhos
Sem esforço, os macios lábios
Tremem com os pequenos dentes estranhos.
Lágrimas na grama.

As raízes dela
Atingindo sua boca
Difundindo no chão
Estranhas madeiras.
Elas que estão lá.

Seus caminhos
Riscando os campos, as folhas que os ensombrecem
Enforcando as distâncias
De sol

Os pequenos termos
Gritando fé
No local onde o cervo caiu
E assustado fita o infinito.

Saturday, July 05, 2008

DUAS POESIAS DE LETELIER

Teoría de los zapatos

Elías Letelier

Quiero pedir permiso.
¡No quiero molestar a nadie!
Olvídense de mí por un momento:
demos paso a cosas más esenciales.
Ocurre,
por ejemplo,
que siempre me han impresionado los zapatos:
son tan vanidosos como las aceitunas,
y arrogantes como las farmacias;
y aunque yo no estoy de acuerdo,
a veces parecieran que ellos son
lo único valioso que ambula por las calles.
Tiene tanta personalidad como una mueblería;
pasan por tantas partes,
ignorando tantas cosas de los caminos,
que me aterra no saber lo que piensan.
Son tan interesantes sus vidas,
que otro día,
cuando tenga más papel,
apareceré en otra página
para hablarte
de la teoría de los cordones.
¡Muchas gracias!

Silence. Montreal: The Muses Company, 1992
A teoria dos sapatos
Quero pedir permissão.
Não quero aborrecer ninguém!
Esqueça-me por um momento:
como primeiro passo as coisas mais essenciais.
Ocorre, por exemplo,
que sempre me impressionou sapatos:
são tão vaidosos como azeitonas,
e arrogantes como as farmácias;
e embora eu não concorde,
às vezes parece que eles são
a única coisa valiosa que passeia pelas ruas.
Eles têm tanta personalidade como um mobiliário;
passam por tantas partes,
ignorando tantas coisas nos caminhos,
que me aterra saber o que pensam.
Eles são tão interessantes nas suas vidas,
que, outro dia,
quando tiver mais papel,
aparecerei em outra página
para falar-te
sobre a teoria dos cordões.
Obrigado!

Silêncio. Montreal: A Companhia das Musas. 1992.



Mientras estabas durmiendo

a Monique Girard

Cuando pregunté por la noche,
alguien salió corriendo
y gritó.
Tuve miedo.
No podía encontrar tus ojos:
todo estaba cubierto de hojas secas.
Grité:
¡Tráiganme la oscuridad!
Y después que la última luciérnaga
cayera ejecutada por una sandalia de plástico,
sólo vi al humo
colgando de un alambre,
mirando al vacío con estupor.
Una manzana pasó volando
y el aire clandestino, prófugo,
me acarició imitando al rocío
y cantando trajo, cauteloso,
tus ojos que dormían junto a mí.
Silence. Montreal: The Muses Company, 1992.

Enquanto estavas dormindo

Quando perguntei pela noite,
Alguém saiu correndo e gritou.
Teve medo.
Não poderia encontrar teus olhos:
tudo estava coberto de folhas secas.
Gritei:
Tragam-me a escuridão!
E, depois que o último vaga-lume caiu
executado por uma sandália de plástico,
só viram a fumaça
pendurada por um fio,
olhando com estupor para o vazio.
Uma maçã passou voando
e o ar clandestino, evasivo,
me acariciou imitando o orvalho
e cantando trouxe, cauteloso,
teus olhos que dormiam do meu lado.

UMA POETISA CHILENA

Sentencia

Alejandra Ziebrecht

Como un condenado
a muerte
se aísla tu recuerdo
tan humano
el tan constante
se me olvida a veces
cuando quiero dibujarlo
gritarlo en un bar
hacerlo diatriba
En algún lugar de mi memoria
(terrorista arrepentido)
me traiciona
empuña mis heridas
enrodado
insurrecto
roba alas al calendario
como si no bastase este sol a media asta
la calle bordada de esqueletos
y este cigarrillo interminable
con que enfrento
tu lento caminar
al paredón.
ENROMPECAIDA, “Entredicho” Pp. 23, 1995


A Sentença

Tal como
uma condenação
a morte
A sua memória isolada
tão humana
e tão constante
Eu esqueço às vezes
quando quero desenhá-lo
gritá-lo no bar
fazer diatribes.
Em algum lugar minha memória
(terrorista arrependido)
Me trai
empunhando minhas feridas
enredado
rebelde
roubando asas do calendário
como se não bastasse este sol a meia haste
a rua bordada de esqueletos
e este interminável cigarro
com que enfrento
seu lento caminhar
para o paredão.

UM POETA CHILENO

Confesiones más o menos espontâneas

Thomas Harris

Tengo el vientre tibio
como todas las mujeres vivas.
Tengo, aúnlos pechos erguidos
y llenos de pulpa y jugo,
como los chupones del bosque.
pero no se te ocurra chupar,
no tragues,
mi leche está envenenada.
Ayer nomás tuve contacto carnal con
el Can.

Confissões mais ou menos espontâneas

Tenho a barriga quente
como todas as mulheres vivas.
Tenho, ainda
Os seios erguidos e plenos de polpa
e de suco, como açaizeiros da floresta.
Porém, não pretendas chupar,
Nem engolir,
Meu leite está envenenado.
Ainda ontem tive um contato sexual
com satanás.

Wednesday, July 02, 2008

TRÊS POEMAS DE MEMET

La influencia de las cosas

José Maria Memet


Una sociedad del pensamiento
debiera notar
que todos están muertos.

A influência das coisas

Uma sociedade do pensamento
deveria notar
que todos estão mortos.


Epílogo

Ya entiendo, no hay problema,
todos caminan hacia el pasado.
Es por eso que no veía a nadie
mientras avanzaba.

Epílogo

Já entendo, não há problema,
todos caminham até o passado.
É por isto que não vi ninguém
enquanto avançava.

OUTRA POESIA DE JULIA

Yo misma fui mi ruta

Julia de Burgos

Yo quise ser como los hombres quisieron que yo fuese:
un intento de vida;
un juego al escondite con mi ser.
Pero yo estaba hecha de presentes,
y mis pies planos sobre la tierra promisor
ano resistían caminar hacia atrás,
y seguían adelante, adelante,
burlando las cenizas para alcanzar el beso
de los senderos nuevos.
A cada paso adelantado en mi ruta hacia el frente
rasgaba mis espaldas el aleteo desesperado
de los troncos viejos.

Pero la rama estaba desprendida para siempre,
y a cada nuevo azote la mirada mía
se separaba más y más y más de los lejanos
horizontes aprendidos;
y mi rostro iba tomando la expresión que le venía de adentro,
la expresión definida que asomaba un sentimiento
de liberación íntima;
un sentimiento que surgía
del equilibrio sostenido entre mi vida
y la verdad del beso de los senderos nuevos.

Ya definido mi rumbo en el presente,
me sentí brote de todos los suelos de la tierra,
de los suelos sin historia,
de los suelos sin porvenir,
del suelo siempre suelo sin orillas
de todos los hombres y de todas las épocas.

Y fui toda en mí como fue en mí la vida...

Yo quise ser como los hombres quisieron que yo fuese:
un intento de vida;
un juego al escondite con mi ser.
Pero yo estaba hecha de presentes;
cuando ya los heraldos me anunciaban
en el regio desfile de los troncos viejos,
se me torció el deseo de seguir a los hombres,
y el homenaje se quedó esperándome.


Eu mesma fiz minha rota


Eu quis ser como os homens queriam que eu fosse:
uma tentativa de vida;
um jogo de esconder-me de mim mesma.
Porém, eu estava cheia de presentes,
E meus pés postos sobre a terra promissora
não relutavam em caminhar atrás,
e continuavam em frente, em frente,
contornando as cinzas para alcançar o beijo dos novos caminhos.

A cada passo dado no meu caminho em frente
rasgava meus ombros na passagem
desesperada por velhos troncos.
Porém, os galhos estavam desprendidos para sempre,
e a cada novo açoite nos meus olhos me separava
cada vez mais e mais e mais distante do horizontes conhecidos;
e meu rosto foi tomando a expressão que vinha do interior,
a expressão definida que assomava
do sentimento de uma liberação intima;
Um sentimento que surgia
Do equilíbrio sustentado entre a minha vida
e da verdade dos beijos dos novos caminhos.

Já definidos meus rumos no presente,
eu me senti brotar de todos os cantos da terra,
de solos sem história, de solos sem futuro,
de solos, sempre solos, sem fronteiras
de todos os homens e de todas as épocas.

E fui toda eu como fui em minha vida....

Eu quis ser como os homens queriam que eu fosse:
uma tentativa de vida;
um jogo de esconder-me de mim mesma.
Porém, eu estava cheia de presentes,
e quando os arautos me anunciaram
o desfile real dos velhos troncos,
eu resisti ao desejo de continuar a seguir os homens,
e a homenagem ficou lá me esperando.

Tuesday, July 01, 2008

UMA GRANDE POETISA DE PORTO RICO




Julia de Burgos

Este corazón mío, tan abierto y tan simple,
es ya casi una fuente debajo de mi llanto.

Es un dolor sentado más allá de la muerte.
Un dolor esperando... esperando... esperando...

Todas las horas pasan con la muerte en los hombros.
Yo sola sigo quieta con mi sombra en los brazos.
No me cesa en los ojos de golpear el crepúsculo,
ni me tumba la vida como un árbol cansado.
Este corazón mío, que ni él mismo se oye,
que ni él mismo se siente de tan mudo y tan largo.
¡Cuántas veces lo he visto por las sendas inútiles
recogiendo espejismos, como un lago estrellado!
Es un dolor sentado más allá de la muerte,
dolor hecho de espigas y sueños desbandados.
Creyéndome gaviota, verme partido el vuelo,
dándome a las estrellas, encontrarme en los charcos.¡
Yo que siempre creí desnudarme la angustia
con solo echar mi alma a girar con los astros!¡
Oh mi dolor, sentado más allá de la muerte!
¡Este corazón mío, tan abierto y tan largo!

Poema da intima agonia

Este coração meu tão aberto e tão simples,
é já quase uma fonte debaixo do meu pranto.
É uma dor sentida além da morte.
Uma dor esperando ... esperando ... esperando ...
Todos as horas passam com a morte sobre os ombros.
E só sigo quieto com a sombra ainda nos braços.
Não me cessa os olhos de golpear o crepúsculo,
Nem meu túmulo a vida como uma árvore cansada.
Este coração meu, que nem mesmo se ouve,
que nem ele mesmo se sente tão mudo e tão largo.
Tantas vezes o vejo por caminhos inúteis
recolhendo centelhas como num lago estrelado!
É uma dor sentida além da morte,
dor de espigas secas e sonhos debulhados.
Crendo-me gaivota com o vôo impedido,
Sonhando com estrelas, caindo nos pântanos.
Eu que sempre acreditei derrubar minha angústia
Fazendo minha alma girar com os astros!
Oh minha dor, sentida além da morte!
Este coração tão aberto e tão largo!

A GRANDE DAMA DA POESIA PARAGUAIA

Invención de la muerte

Josefina Plá

Esa sombra
La veréis alargarse cada vez como un agua vertida
sin remedio
como un manto cayendo despacio de sus hombros
como si fuese él mismo arrepentido que quisiera
volver sobre sus pasos
-reptil de limpia muerte sin cadáver-

La veréis ahilar su arroyo
sobre un suelo
por siempre horizontal a la aventura
Y será también la única
que dormirá con él reconciliada
con la sombra total
de que se desgajó
enemiga de todos los espejos un día.

A Invenção da morte

Esta sombra
A vereis alargar-se cada vez mais como uma água vertida
Sem remédio
Como um manto caindo devagar sobre seus ombros
Como se fosse ele mesmo arrependido que quisesse
Voltar sobre seus passos
-réptil de uma morte limpa sem cadáver-

A vereis aninhar suas lágrimas
Sobre um solo
Para sempre horizontal à aventura

E será a única vez
Que dormirá com ela reconciliada
Com a sombra total
Da qual se despedaçou
Inimiga de todos os espelhos um dia.

DESPEDAÇADOS

O que era mistério, doçura, desejo
se revelou, com um beijo,
constante tentação,
porém, o tempo,
cruel carrasco da beleza,
a liberdade do prazer
prendeu na jaula do cotidiano
e a glória dos grandes momentos
se tornou apenas a repetição sistemática
da mesma peça, igual, estática.
E agora o que foi delícia
É só monotonia.
E o que era sublime,
banal;
E o que era sonho,
só desilusão.
E o todo do que fomos
são só partes
de um quebra-cabeças
sem possibilidades
de ser resolvido.

Saturday, June 28, 2008

UM POETA COLOMBIANO

POEMA

William Ospina

Estuvo aquí hace poco. Como una diosa en fuga
llevaba débilmente sus temblores divinos.
Por un instante el cielo detuvo a la hilandera
y la muchacha hermosa se detuvo un momento.

Ahora ha partido. Carne que sabe la sentencia,
comprendo que mis ojos la han perdido por siempre.
Roja sombra, has de ser la ceniza de un sueño.
Dulce, fugaz sonrisa... ¿No estarás en mi cielo?

Nada nos pertenece. Todo sigue um oscuro
rumbo. Son sueño el árbol, el castillo, la esfinge.
El mar abre sus líquidos brazos de cruel sirena
hacia donde incesantes naves se precipitan.

Adiós, sagrada imagen. En la tarde solemne
despido astros y Dioses que otorgan oro y sangre.
Muero un poco con todas las flores abatidas
y se apaga el crepúsculo, pero la noche es grande.


POEMA

Esteve aqui faz pouco. Como uma deusa em fuga
Levava debilmente seus tremores divinos.
Por um instante o céu deteve a fiandeira
e a formosa moça parou por um momento.

Agora se foi. Carne que sabe a sentença,
Compreendo que meus olhos a perderam para sempre.
Vermelha sombra, hás de ser a cinza de um sonho.
Doce, fugaz sorriso... Não a verei no meu céu?

Nada nos pertence. Tudo segue num escuro
rumo. Um sonho, a árvore, o castelo, a esfinge.
O mar que abre seus líquidos braços de cruel sereia
até onde incessantes naves se precipitam.

Adeus, sagrada imagem. Na tarde solene
Despidos astros e deuses que outorgam ouro e sangue.
Morro um pouco com todas as flores abatidas
e se apaga o crepúsculo, mas a noite é imensa.

VIVER E SER FELIZ


Lembrançinha

Nem quero pensar
Em tanto amor que tive.
Nos tempos felizes
Que vivi nos teus braços.
Hoje sinto que os espaços
E o tempo são miúdos, pequenos
E a ternura e os desejos mais amenos.
Que já não existe
A febre, a procura, a pressa, a loucura
Do tempo em que
Respirar era viver!

TEORICAMENTE...


É A VIDA


Tecnicamente a vida é simples:

Acordar, comer, amar, sorrir,

fazer alguma coisa e dormir.

É verdade que existem as doenças,

os deveres, os débitos, os desvios e os delírios.

Dizem que também o carma, a carne e o carnaval.

Hoje, a chuva e o tempo não fazem diferença ou mal.

Na prática só desejo

vinho e a calma furiosa de teu corpo.

Isto é a vida.

E, sem dúvida, é doce e complicada.

Thursday, June 26, 2008

UM POETA DO EQUADOR


RECOMENDACIONES

Julio Pazos

Dentro de la memoria que canta
esperan lugares de felicidad y muerte.

No dejes que las palabras dormiten,
ya tendrán su oceánica clausura o su polvo.

Permite que las invenciones merodeen
sobre las especies que danzan.

Persigue a las nubes del poniente hasta doblegarlas,
ciñe con ellas tu cabeza.
Avanza por el camino del horizonte
y oye tus latidos,
ese coro que acompaña el crecimiento del fuego.

Deja tu espejo a la intemperie
para que reproduzca las alas del amor
que se agitan antes de perderse.

De Documentos discretos (2003)


Recomendações

No interior da memória que canta
esperam lugares de felicidade e morte.

Não deixes que as palavras durmam,
Ou se encerrem numa oceânica clausura ou virem pó.

Permita que as invenções se imponham
sobre as espécies que dançam.

Persiga as nuvens do poente até dominá-las,
Cinge com elas tua cabeça.
Avança pelo caminho do horizonte
e ouve teus pulsares,
este coro que acompanha o crescimento do fogo.

Deixa teu espelho na intempérie
para que reproduza as asas do amor
que se agitam antes de se perder.

CONTROVÉRSIAS


O CERNE DO REAL


"Se mesmo o positivo é sonho e controvérsia/Nem porvir, nem ninguém, coisa alguma desliga/A ciência que sonha e o verso que investiga" (Jorge de Lima).


Se sonho
É com o azul
das longas ondas
que se estendem pelo além.

Se sonho
É com a luminosidade
das manhãs largas
com um céu azul infinito
como querer alguém.

Há controvérsias
se sonho,
ou se não sonho.
É que teus risos,
como o verso e a ciência-
único real-
são feitos de coisas etéreas.

Tuesday, June 24, 2008

OUTRO POETA COLOMBIANO

SENÕR DON JORGE LUIS

Luis Fernando Baque

Usted que todo lo vio
y lo leyó
con los ojos del espíritu,
de lo único que se ha perdido
es de éste,
el mundo de las apariencias;
estos farsantes
quieren hacernos creer
en su realidad por decreto.

¡Tienen miedo de usted!
que siempre imagino el paraíso
bajo una biblioteca,
y a quien “Dios con magnífica ironía
le Dios a la vez los libros y la noche”.

Ellos saben lo que significan
algunas verdades,
en las manos iluminadas de un ciego.

SENHOR DOM JORGE LUIS

Você que tudo viu
e leu
com os olhos do espírito,
o único que não se perdeu
neste
mundo das aparências;
estes farsantes
querem nos fazer crer
na sua realidade por decreto.

Tremem de medo de você!
que sempre imaginou o paraíso
de uma biblioteca,
e a quem “Deus com magnífica ironia
lhe deu de uma vez os livros e a noite”.

Eles sabem o que significam
algumas verdades,
nas mãos iluminadas de um cego.

UM POETA COLOMBIANO

Podia ser também "Todo Poeta é Mórbido"
CERCANÍA DE LA MUERTE

Giovanni Quessep

El hombre solo habita
Una orilla lejana
Mira la tarde gris cayendo
Mira las hojas blancas
Rostro perdido del amor
Apenas canta y mueve
La rueda del azar
Que lo acerca a la muerte
Extranjero de todo
La dicha lo maldice
El hombre solo a solas habla
De un reino que no existe

NAS PROXIMIDADES DA MORTE

O homem somente habita
Uma margem distante
Olha a tarde cinzenta caindo
Olha as folhas brancas

Rosto perdido de amor
Apenas canta e move
A roda da fortuna
Que o aproxima da morte

Exilado de tudo
A sorte o maldiz
O homem sozinho, isolado fala
De um reino que não existe

CONTRABALANÇANDO

CONTRABALANÇANDO

Perdido na Estação do cais
Lembro uma Belém que não existe mais
E uma mulher que, talvez,
Nem mais exista.
Uma cantora negra se avista
Balançando
No ar
Nem sei se está a cantar
(Tal o barulho que há)
Embora soe
uma música lenta
quase um fado
como se portuguesa fosse.
Penso que a vida está a degradar
ou degradada está.
E bebo chope:
Alguma coisa tem que se fazer
para contrabalançar
enquanto saboreio a beleza
do sol, do rio mar
e penso como será bom
te amar
Nem que seja uma vez só.

POR MIM...VOU DE GIN

ODE AO BOM AMIGO GIN

Dizem que faz mal ao coração
Que bem não faz ao tesão.
Ilusão,
meu querido e amado gin,
Te amo assim,
Contra a maldade e a maledicência reinante,
Bebendo mais a cada instante
Quase me sinto um gigante,
Um atleta,
Um artista
No trapézio a andar de bicicleta!

Monday, June 23, 2008

O ANJO DA MORTE


Canto Negro I
Se vou ao teu encontro,
Negra amiga,
E se tal encontro é certo,
Inevitável,
Vem com calma,
por favor,
não te apressa
Que é tão curta a vida
E a eternidade
infindável!

NEM TUDO TEM GRAÇA

A PALHAÇA

Nosso amor começou pela graça
Que ela demonstrava em ser palhaça
E viveu sempre de risadas e carinhos
Mesmo quando me sentia pequeninho
Vendo-a usar pernas de pau,
Ou balançar-se perigosamente no trapézio,
E rebolar desafiadoramente lá em cima
Os quadris que não eram de menina
Sempre me parecia como a lua
Muita alta e irreal.
A palhaçada terminou em dor
Quando depois de tanto rir
Me fez chorar
Fugindo com o bigodudo domador,
Que de nada ria,
Sem ao menos me avisar.

(De Poemas Mal-Comportados).

Friday, June 20, 2008

AINDA O SOBERBO WILLIAM

76

William Skakespeare

Why is my verse so barren of new pride,
So far from variation or quick change?
Why with the time do I not glance aside
To new-found methods and to compounds strange?
Why write I still all one, ever the same,
And keep invention in a noted weed,
That every word doth almost tell my name,
Showing their birth and where they did proceed?
O, know, sweet love, I always write of you,
And you and love are still my argument;
So all my best is dressing old words new,
Spending again what is already spent:
For as the sun is daily new and old,
So is my love still telling what is told.
76
Por que o meu verso é tão estéril, tão sem brilho,
Tão sem variações ou rápidos ritmos?
Por que com o tempo não combina o estribilho
E aos novos métodos parecem versos estranhos?
Por que escrevo sempre o mesmo, sempre igual
E mantenho na invenção a mesma roupa,
De modo que cada palavra é tal e qual,
Exibindo na origem a inspiração tão pouca?
Oh! Doce amor, sabes que és sempre o meu tema,
E és, com o meu amor, o meu único argumento;
De forma que fazer do velho, novo é o estratagema,
Que me faz repetir de novo o que sempre fiz:
Pois, como sol, é diariamente novo e velho, tento,
Assim com o meu amor se repetindo ser feliz.

Thursday, June 19, 2008

QUEM TRAI PERMANECE...

138

William Shakespeare

When my love swears that she is made of truth
I do believe her, though I know she lies,
That she might think me some untutor'd youth,
Unlearned in the world's false subtleties.
Thus vainly thinking that she thinks me young,
Although she knows my days are past the best,
Simply I credit her false speaking tongue:
But wherefore says she not she is unjust?
And wherefore say not I that I am old?
O, love's best habit is in seeming trust,
And age in love loves not to have years told:
Therefore I lie with her and she with me,
And in our faults by lies we flatter'd be.

138

Quando meu amor jura que diz a verdade
Creio nela, ainda quando sei que mente,
Para deixá-la eternamente crer na juventude,
E que não sou habituado à falsidade reinante.
Assim pensa que creio na própria imaturidade,
Ainda se sabe que minha juventude é mentira.
Simplesmente crédito à falsa língua sinceridade
Sabendo ambos que o que se diz o real retira.
Porém, por que não me diz que é mentirosa?
E por que não lhe digo que sou maduro?
Oh! Porque, no amor, confiar é conduta forçosa,
E a idade e o amor não gostam do ocaso:
Portanto não mentimos, jura ela, eu juro,
Para esconder nossas faltas e manter o caso.
“Si nostre vie”

Joachim Du Bellay

Si nostre vie est moins qu'une journée
En l'eternel, si l'an qui faict le tour
Chasse nos jours sans espoir de retour,
Si périssable est toute chose née,

Que songes-tu, mon ame emprisonnée ?
Pourquoy te plaist l'obscur de nostre jour,
Si pour voler en un plus cler sejour,
Tu as au dos l'aele bien empanée ?
La, est le bien que tout esprit desire,
La, le repos où tout le monde aspire,
La, est l'amour, la, le plaisir encore.
La, ô mon ame au plus hault ciel guidée !
Tu y pouras recongnoistre l'Idée
De la beauté, qu'en ce monde j'adore.

Se nossa vida…

Se a nossa vida é menor do que um dia
Na eternidade do tempo em disparada
Que nos leva os dias e nos reduz à nada,
E tudo quanto nasce é coisa fugidia,
Por que tu sonhas, ó minha alma aprisionada?
Por que te agrada o breu desta prisão escura,
Quando o teu dorso alado te assegura
Que voes para a mais lúcida morada?
Lá está o bem que todo espírito deseja,
A paz que todo mundo tanto almeja,
Lá o amor, o prazer pelo qual todo espírito clama.
È lá, ó minha alma, guiada lá para cima,
Do céu, que podes ver o Ideal, a matéria-prima
Da beleza, que neste mundo tanto ama.

Wednesday, June 18, 2008

AINDA WILLIAM

139

William Shakespeare


O, call not me to justify the wrong
That thy unkindness lays upon my heart;
Wound me not with thine eye but with thy tongue;
Use power with power and slay me not by art.
Tell me thou lovest elsewhere, but in my sight,
Dear heart, forbear to glance thine eye aside:
What need'st thou wound with cunning when thy might
Is more than my o'er-press'd defense can bide?
Let me excuse thee: ah! my love well knows
Her pretty looks have been mine enemies,
And therefore from my face she turns my foes,
That they elsewhere might dart their injuries:
Yet do not so; but since I am near slain,
Kill me outright with looks and rid my pain.

139

Ó! Não me chame para justificar o errado
Que é uma indelicadeza com meu coração;
Fira-me com tua língua, mas não com tua visão;
Usa teu poder e não me mate de modo dissimulado.
Fala-me de teus amores longe da minha presença,
Querido coração, não me olhes de soslaio:
Que necessidade tens de enganar com tua força imensa
Que é tão forte que sem defesas caio?
Deixa-me perdoar-te: ah! Meu amor bem sabe
Que seus olhares maldosos foram meu inimigo maior,
Se afastando do meu rosto a quem, de fato, cabe,
Eles que podem atingir como dardos outra pessoa:
Ainda assim, não o faças, já estou perto da morte, seja boa
Mate-me agora e me livre por completo da minha dor.

Tuesday, June 17, 2008

TRAIR E COÇAR...É SÓ COMEÇAR

83

William Shakespeare

I never saw that you did painting did need,
And therefore to your fair no painting set.
I found, or thought I found, you did exceed
The barren tender of a poet's debt.
And therefore have I slept in your report,
That you yourself, being extant, well might show
How far a modern quill doth come too short
Speaking of worth, what worth in you doth grow.
This silence for my sin sis you impute,
Which shall be muost my glory, being dumb,
For I impair not being beauty being mute,
When others would give life and bring a tomb.
There lives more life in one of you fair eyes
Than both you poets can in praise devise.

83

Nunca de te pintar tive a menor necessidade,
E não havia como melhorar tua beleza .
Pensei, ao te ver, haver se excedido à natureza
Muito além de um poesia são teus dotes, na verdade.
Assim fiquei inibido de tentar exaltar
O que era desnecessário, pois, com tua presença
Que inadequado seria um verso tão vulgar
Para tratar de méritos de clara evidência.
Este silêncio que como pecado me imputa,
O meu calar, sem ser mudo, será minha maior glória
Por não prejudicar uma beleza absoluta,
Querem te dar brilho e a vida só amortecem.
Há mais vida no teu olhar que em toda história
E poetas fazem versos jamais preces.

UM NORDESTINO NA AMAZÔNIA

O Néctar

Como pimenta e chocolate,
Bebo cerveja e caipirinha,
Amo uma mulher
Que não é a minha
E outra que nunca será
Como se fosse um néctar
Como se fosse um néctar.

Ah! Rapadura com farinha!
O tacacá ou o açaí
Me lembram sob o mormaço
Dos bons tempos que vivi.
Tudo tempo, tudo espaço
E a sensação no ar
De que é preciso da vida
O néctar, o néctar.

Monday, June 16, 2008

UMA GRANDE TRAIÇÃO AO WILLIAM

Carpe Diem

William Shakespeare

O mistress mine, where are you roaming?
O stay and hear! your true-love's coming
That can sing both high and low;
Trip no further, pretty sweeting,
Journey's end in lovers' meeting-
Every wise man's son doth know.


What is love? 'tis not hereafter;
Present mirth hath present laughter;
What's to come is still unsure:
In delay there lies no plenty,-
Then come kiss me, Sweet and twenty,
Youth's a stuff will not endure.


Carpe Diem

Ó amada minha, onde tens andado?
Pára e me ouve! - o seu real amor está vindo
Isto pode cantar em alto e baixo tom, segura;
Não viaje para longe, adorada doçura,
No fim da jornada os amantes se unirão
Cada homem sábio sabe os filhos de quem são.
O que é o amor? Não é o mundo para o futuro;
É a alegria presente de quem agora ri;
O que virá ainda é inseguro:
No atraso não há plenitude-
Então vem beijar-me, doce e nova jovem,
Há coisas que os jovens não resistem.

Saturday, June 14, 2008

A BELEZA DOS AMORES DELICADOS


Soneto do Amor Sereno

Se me quiseres amor como te quero..
...suave e leve que me faz tão contente Só em guardar tua imagem que encaro
Como defesa contra o banal presente.


Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vejo em teu corpo não mais adolescente
Que, nem em pensar, das roupas, separo
Preso no teu encanto tão perdidamente.

Não exijas nada que te dei o meu desejo
Maduro, profundo, delicado, enquanto
O resto é simples feito as grandes cenas.
Veja a grandeza que temos sem um beijo!
È um amor acima das imperfeições. Tanto
Que sobrevive das atenções serenas.

Friday, June 13, 2008

HAI KAIs

TRÊS PERDIDOS NO FIM DE TARDE




Na maior dor o mundo é belo.

O sol, inigualável pintor,

Enfeita o rio Madeira de amarelo.


Até parece que foi ontem-

Só no meu pensamento.
Os dias não contem.



Vivo para te encontrar um instante

E do teu lado me distancio tanto

Que só me encontro bem distante!

UMA POETISA DO URUGUAI

«TU AMOR, ESCLAVO, ES COMO UN SOL MUY FUERTE...»

Delmira Agustini

Tu amor, esclavo, es como un sol muy fuerte:
Jardinero de oro de la vida,
Jardinero de fuego de la muerte,
En el carmen fecundo de mi vida.

Pico de cuervo con olor de rosas,
Aguijón enmelado de delicias
Tu lengua es. Tus manos misteriosas
Son garras enguantadas de caricias.

Tus ojos son mis medianoches crueles,
Panales negros de malditas mieles
Que se desangran en mi acerbidad;
Crisálida de un vuelo del futuro,
Es tu abrazo magnífico y oscuro
Torre embrujada de mi soledad.

Teu amor escravo é como um sol forte

Teu amor, escravo, é como um sol muito forte:
Jardineiro de ouro da vida,
Jardineiro de fogo da morte,
No caminho fecundo de minha vida.

Um bico de corvo com aroma das rosas,
Uma agulha envolta nos prazeres
Tua língua é. Tuas mãos misteriosas
São garras ensangüentadas de carícias.

Teus olhos são minhas meia-noites cruéis,
Maldito favos de mel pretos
Que sangram na sua amargura

Crisálida de um vôo do futuro,
É teu abraço magnífico e escuro
Torre feiticeira da minha solidão.

Thursday, June 12, 2008

QUATRO POEMAS SEM TÍTULO DE CORMAN

CID CORMAN EM QUATRO GRANDES POEMAS

Who are we to die?
Who are we to live?

There is no end and
there is no beginning—there's
only always this.


Que somos nós a morrer?
Que somos nós a viver?


Não há qualquer finalidade
E não há começo- há
Só sempre o presente.


I leave my
life with you
Make of it
what you can.

Eu deixei
minha vida com você

Faça dela
o que quiser.



What could be clearer—
a completely blue sky as
empty as empty is.

O que poderia ser mais claro-
o céu completamente azul
vazio como vazio é.

There are things to be said. No doubt.
And in one way or another
they will be said. But to whom tell.

The silences? With whom share them
now? For a moment the sky is
empty and then there was a bird.


Há coisas para serem ditas. Sem dúvida.
E de um modo ou de outro
eles dirão. Mas, há quem diga.

Os silêncios? Com quem compartilhá-los agora?
Por um momento o céu se
esvazia e, em seguida, existe um pássaro.

NOVAMENTE UNGARETTI

SENZA PIÙ PESO

Giuseppe Ungaretti

A Ottone Rossi,1934

Per um Iddio che rida como um bimbo
Tanti gridi de passeri
Tanti danci nei rami

Un’ anima se fa senza più peso,
I pratti hanno una tale tenerezza
Tale pudore negli occhi revive,

La mani come foglie
S’incanto nell’aria…

Chi tene più, chi giudica?

Sem Mais Peso

Por um Deus que ria como um garoto
Tantos trinados de pássaros
Tanta dança nos ramos

Uma alma se livra de todo o peso,
Os campos ganham uma tal ternura,
Um tal pudor novo nos olhos revividos,

As mãos como se folhas
Encantam-se na brisa...

Quem teme mais, ou julga?

UM POETA AMERICANO

To Say Much

Cid Corman


To say much
not have said
the little meant

A burnt match points
from the ashtray’s
edge to the ash.

Falar muito

Falar muito
sem ter dito
absolutamente nada

É como um fósforo queimado
na borda de um cinzeiro
que aponta as cinzas.

Wednesday, June 11, 2008

COM AS PALAVRAS MAIS FORTES


Retalhos do Cotidiano

Rabisco, pinto, traço, cisco
Talvez não tenhas nada com isto
Nem queiras ter.
Mas, minha arte me dá prazer
E nela, como um Rembrandt,
Sei dar a cor e o tom
E até mesmo faço, se quero,
Um elo entre o azul e o amarelo
E a cor da lua
Nos dias que não fiz falta.
Sinto que as rosas tão altas
São cor de rosa
E termino assim
Com um pouco de mel
Para adoçar o doce engano
Do cotidiano
Da paisagem.
Ilustração: "Moon" de Pollock