Tuesday, January 17, 2023

Uma poesia de Wanda Coleman

 


THE SATURDAY AFTERNOON BLUES

 Wanda Coleman

can kill you

can fade your life away

friends are all out shopping

ain’t nobody home

suicide hotline is busy

and here i am on my own

with a pill and a bottle for company

and heart full of been done wrong

i’m a candidate for the coroner, a lyric for a song

 

saturday afternoons are killers

when the air is brisk and warm

ol’ sun he steady whispers

soon the life you know will be done

suicide line i can’t get you

best friend out of town

alone with a pill and a bottle

i drink my troubles down

 

the man i love is a killer

the man i love is  thief

the man i love is a junky

the man i love is grief

 

some call saturday the sabbath

it’s the bottom of the line some say

whether last or first, my heart’s gonna burst

and there ain’t no help my way

here with a pill and a bottle

and a life full of been done wrong

i’m a candidate for the coroner, a lyric

for a song

O BLUES DE SÁBADO À TARDE

posso te matar

posso desaparecer sua vida

os amigos estão todos fazendo compras

não tem ninguém em casa

a linha direta de suicídio está ocupada

e aqui estou eu sozinho

com um comprimido e uma garrafa por companhia

e o coração cheio de coisas erradas

eu sou um candidato para o legista, uma letra para uma canção

 

as tardes de sábado são matadoras

quando o ar é fresco e quente

o velho sol sussurra constantemente

em breve a vida que você conhece irá ter fim

a linha suicida eu não consigo te pegar

o melhor amigo fora da cidade

sozinho com uma pílula e uma garrafa

eu bebo meus problemas abaixo

 

o homem que eu amo é um assassino

o homem que eu amo é ladrão

o homem que eu amo é um drogado

o homem que eu amo é a dor

 

alguns chamam sábado de sábado

é o fim da linha, alguém diz

seja o último ou o primeiro, meu coração vai explodir

e não há nenhuma ajuda no meu caminho

aqui com uma pílula e uma garrafa

e uma vida cheia de coisas erradas

eu sou um candidato ao legista, uma letra

para uma música

Ilustração: Mercado Livre.

Tuesday, January 10, 2023

Uma poesia de Paige Lewis

 


I’M NOT FAKING MY ASTONISHMENT, HONEST

Paige Lewis

Looking out over the cliff, we’re overwhelmed

by a sky that seems to heap danger upon us. We

end up staring at a single white fluff in the air—

feather, fur, dandelion puff—we don’t care

to define it. The relief of having something

to focus our attention. At home, our patio furniture

unscrews itself under the usual sun. On this trip—

well, I’m not any sadder, I just have more space

for my sadness to fill. I don’t want to give

particulars. A woman huffing up the trail behind

us says to her hiking partner, It wasn’t my size,

but it was only 9 dollars. And now all I want

is to see what it is. The future refuses

to happen, so where else should I turn?

 

 

 

EU NÃO ESTOU FINGINDO ASSOMBRO, HONESTAMENTE

Olhando para a colina, nós estamos sobrecarregados

por um céu que parece amontoar perigos sobre nós. Nós

acabamos por olhar para uma única penugem branca no ar-

pena, pele, folhagem de dente-de-leão - não nos importamos

para defini-lo. O alívio de ter algo

para focar nossa atenção. Em casa, nossa mobília do pátio

desenrosca-se sob o habitual sol. Nesta viagem-

bem, não estou mais triste, só tenho mais espaço

para preencher minha tristeza. Eu não desejo dar

detalhes. Uma mulher bufando na trilha atrás

de nós diz ao seu parceiro de caminhada, que não é do meu tamanho,

mas que foi só 9 dólares. E agora tudo que eu quero

é ver o que é. O futuro se recusa

a acontecer, então para onde mais devo recorrer?

Ilustração: Portal do Conhecimento.

Sunday, January 08, 2023

Outra poesia de Imanol Ulacia Aramendi

 


MI CANCIÓN FAVORITA

Imanol Ulacia Aramendi

No tiene título,

ni letra,

por no tener

no tiene ni música,

solo compositora.

 

Cuando apareces tú

suena.

MINHA CANÇÃO FAVORITA

não tem título

nem letra,

por não ter

não tem nem musica

só compositora.

 

quando  apareces tu

toca.

Ilustração: https://samuelrangel.wordpress.com/.

Um poema de Léonie Adams

 


A GULL GOES UP

Léonie Adams

Gulls when they fly move in a liquid arc,

Still head, and wings that bend above the breast,

Covering its glitter with a cloak of dark,

Gulls fly. So as at last toward balm and rest,

Remembering wings, the desperate leave their earth,

Bear from their earth what there was ruinous-crossed,

Peace from distress, and love from nothing-worth,

Fast at the heart, its jewels of dear cost.

 

Gulls go up hushed to that entrancing flight,

With never a feather of all the body stirred.

So in an air less rare than longing might

The dream of flying lift a marble bird.

Desire it is that flies; then wings are freight

That only bear the feathered heart no weight.

UMA GAIVOTA SOBE

As gaivotas quando voam se movem num arco líquido,

Ficam com a cabeça imóvel e  as asas dobradas acima do peito,

Cobrindo seu brilho com um manto de escuridão,

As gaivotas voam. Então, por fim, para o bálsamo e descanso,

recordando asas, os desesperados deixam sua terra,

Tira de sua terra o que havia cruzado de ruinoso ,

Paz da aflição, e amor das coisas sem valor,

Velocidade  no coração, suas joias de alto custo.

 

As gaivotas sobem em silêncio para um voo arrebatador,

Sem que nunca uma pena de todo o corpo se mexa.

Então, em um ar menos raro do que o desejo poderia

O sonho de voar levanta um pássaro de mármore.

O desejo é que voa; então asas são o frete

Que só levam o coração emplumado sem peso.

Ilustração: A Mente é Maravilhosa.

Saturday, January 07, 2023

Um soneto de Sarah Rosenhthal

 


SONNET

Sarah Rosenthal

I’m reparenting myself

through reading. Books

are my mothers. My mother

is the one who made me love

books. She said, No emotional

contact except when we weep

over psalms. Except when I

weep, she said. I would watch

her weep saying to myself,

what a deep feeler. Getting lost

in the e’s. In the night I’d dream

of eels swishing. In the morning

I’d tell her. She’d turn

away. That is literature.

SONETO

Eu reencontro meus ancestrais

através da literatura. Os livros

são minhas mães. Minha mãe

foi quem me fez amar

os livros. Me disse, sem contato

emocional, exceto ao chorar

lendo os salmos. Exceto

quando choro, dizia. Ao vê-la

chorando dizia a mim mesmo

que profundo sentimento. Me perdia

nas curvas. Nas noites sonhava

com enguias deslizando. Na manhã

lhe dizia. Ela se virava

sempre. Isto é a literatura.

Ilustração: Conhecimento Científico.

Uma poesia de Joan Maragall

 


LAS JOYAS

Joan Maragall

Quiero cubrir de joyas tu cabello,

tu garganta y tu pecho, brazos, manos,

en memoria de todas las caricias

que te haga ahora y que te hice antes.

 

Como lluvia, las joyas en tus miembros,

como lluvia los besos de mi amor,

y bajo cada beso que se encienda

un nuevo resplandor, como una estrella.

 

Una joya por beso, que ilumine,

quieta noche, lo noble de tu cuerpo;

mas después del gran día, luego el día;

la esposa, sin las joyas, del esposo.

AS JOIAS

Quero cobrir de joias teu cabelo

tua garganta e teu peito, braços, mãos,

em memória de todas as carícias

que te faço agora e que te fiz antes.

 

Como a chuva, as joias em teus membros,

como a chuva os beijos do meu amor,

e sob cada beijo que incendeia

um novo esplendor, como uma estrela.

 

Uma joia por beijo, que ilumine,

Quieta noite, o nobre do teu corpo;

mas depois do grande dia, logo o dia;

a esposa, sem as joias, do esposo.

Ilustração: Massate Exclusive.

Thursday, January 05, 2023

SOBRE UM BAR DE PORTO VELHO

 


Há sim,

entre outros dias

que também são bons,

embora muitas vezes pareça que não,

essas quintas-feiras

no Buraco do Candiru.

Claro que, um bar de Porto Velho,

mesmo com estilo

e jeito próprio,

não é muito diferente de qualquer bar do mundo.

Mas é,

embora se beba, se coma também,

em geral os pratos do Chef Orlando Júnior,

ou algum tira-gosto frio,

como o olhar do dono quando não gosta de alguma coisa,

mas, principalmente se discute,

por tudo e por nada.

E, por incrível que possa parecer,

nossa fauna de especialistas

entende de tudo

(enquanto bebe, é claro),

e não raro,

resolvem, num segundo,

todos os problemas do mundo.

Nem sei se é um bar

onde cabe todo mundo,

porém, às vezes,

depois de umas taças de vinho,

penso

que, por ali passam,

os últimos guerreiros de uma tropa de espartanos

prestes a se extinguir

e que, mesmo assim,

conseguem rir

do fato de que perderam as batalhas,

mas sabem que o mundo está afundando.

Talvez esta não seja uma boa explicação

porque é um bom local.

O que também não quer dizer nada.

Ninguém vai para lá para explicar

e sim beber.

E, para isto, asseguro, é um bom lugar.

Um poema de Imanol Ulacia Aramendi

 


ODA A LOS GATOS

Imanol Ulacia Aramendi

Son elegantes,

bonitos y sigilosos,

y tienen vidas de repuesto.

 

Frente a sus primos hermanos

 

tigres, leones, guepardos –

 

como los buenos perfumes,

van en frascos pequeños.

ODE AOS GATOS

São elegantes,

bonitos e sigilosos,

e tem vidas de reposição.

 

Frente a seus primos irmãos

 

tigres, leões, leopardo-

 

como os bons perfumes,

vem em pequenos frascos.

Ilustração: Mercado Livre. 

Uma poesia de Sarah Cooper

 


ELASTIC LOVE CONTRAPUNTAL

Sarah Cooper

 

“The subject of lesbianism is very ordinary;”
            - Judy Grahn

in darkness of March’s midnight          she is eyes:
            moon rays rebound lake ripples to eggplant purple walls
your hands find her body         face lies upturned, opened
            smaller than weeks prior. She knows you prefer protruding hip bones,
feels hungered for by you,       not memory of the boy, her brother 
diaphragms guttural groan,      cold in body bag not on pleated comforter,
            you’ve described your favorite body your type as “heroin skinny” 
she knows you like the ripples of her torso but            before you knew her brother  
also concave trajectory to pelvis bones            as drug addict,
            loving you is an argument with the impossible.

 

CONTRAPONTO DE UM AMOR ELÁSTICO

“O assunto do lesbianismo é muito comum;”

             -Judy Grahn

na escuridão da meia-noite de março ela é olhos:

             os raios da lua refletem as ondulações do lago nas paredes roxas de berinjela

suas mãos encontram o seu corpo, o rosto está virado para cima, aberto

             menor do que semanas antes. Ela sabe que você prefere os ossos do quadril salientes,

sente fome de você, não a memória do menino, seu irmão

gemido gutural do diafragma, frio no saco do corpo, não no edredom plissado,

             você descreveu seu corpo favorito,  como tipo  uma “heroína magra”

ela conhece você como as ondulações do torso dela, mas antes de você conhecer o irmão dela

também trajetória côncava para os ossos da pelve como viciado em drogas,

             amar você é um argumento com o impossível.

Ilustração: https://br.pinterest.com/pin/397231629632572819/.

Wednesday, January 04, 2023

DESENCONTRO À MEIA NOITE

 


Vou esperar que a meia noite

o meu amor apareça,

como nos contos de fadas.

Esta é a hora que o meu amor

deveria vir por aqui

(sei que não virá e por isto me embriago).

Se viesse, com certeza,

a agarraria, cobriria de beijos e

confessaria o meu amor eterno.

 

Estou esperando-a à meia noite em vão.

Sei que meu amor muito distante

não virá;

que nem sabe que a estou esperando

à meia noite.

Não lhe direi as palavras de amor

que ensaiei para dizer,

nem derramarei as carícias 

que desejava derramar, 

nem lágrimas,

nem virarei abóbora.

 

Só ficarei embriagado e com saudades do meu amor.

Que nem sei se já dormiu tão distante de mim

como sempre esteve.

Uma poesia de Richard Crashaw

 

 

 


 AN EPITAPH UPON HISBAND AND WIFE WHICH DIED AND WHERE BURIED TOGETHER  

Richard Crashaw

TO these whom death again did wed

This grave 's the second marriage-bed.

For though the hand of Fate could force

'Twixt soul and body a divorce,

It could not sever man and wife,

Because they both lived but one life.

Peace, good reader, do not weep;

Peace, the lovers are asleep.

They, sweet turtles, folded lie

In the last knot that love could tie.

Let them sleep, let them sleep on,

Till the stormy night be gone,

And the eternal morrow dawn;

Then the curtains will be drawn,

And they wake into a light

Whose day shall never die in night.

 

UM EPITÁFIO PARA OS ESPOSOS QUE MORRERAM E FORAM ENTERRADOS JUNTOS

Para estes que a morte desposou de novo

foi esta sepultura o segundo leito nupcial.

Esta sepultura é o segundo leito nupcial.

Pois embora a mão do Destino pudesse forçar

Entre a alma e o corpo um divórcio,

Não poderia separar marido e mulher,

Porque ambos viveram apenas uma vida.

Paz, bom leitor, não chore;

Paz, aos amantes que dormem.

As doces tartarugas se abraçam

No último nó que o amor poderia amarrar.

Deixe-os dormir, que sigam dormindo,

Até que passe esta noite de tormenta,

até que amanheça a imortal manhã;

Então se descerraram as cortinas,

E despertaram a luz de um dia

em jamais haverão de morrer.

Ilustração: Lady Hollywood.

Um poema de Pablo García Casado

 


CUM

Pablo García Casado

El sabor se queda entre los dientes, en la saliva. Está en cada cosa que comes. En los yogures, en el queso. Te lavas los dientes después de cada comida, te los cepillas bien, colutorio de fresa mentolada. Lo mantienes en la boca unos segundos, luego lo escupes.

CUM

O gosto fica entre os dentes, na saliva. Está em cada coisa que comes.Nos iogurtes, no queijo. Lavas os dentes depois de cada refeição, escova-os bem, enxaguante bucal de morango mentolado. O mantém na boca uns segundos e logo o cospe.

Tuesday, January 03, 2023

Uma poesia de Leila Chatti

 


I WENT OUT TO HEAR

Leila Chatti

The sound of quiet. The sky

indigo, steeping

deeper from the top, like tea.

In the absence

of anything else, my own

breathing became obscene.

I heard the beating

of bats’ wings before

the air troubled above

my head, turned to look

and saw them gone.

On the surface of the black

lake, a swan and the moon

stayed perfectly

still. I knew this was

a perfect moment.

Which would only hurt me

to remember and never

live again. My God. How lucky to have lived

a life I would die for.

EU SAI PARA OUVIR

O som do silêncio. O céu

índigo, esfacelamento

mais profundo em cima, como o chá.

Na ausência de

de qualquer outra coisa, minha própria

respiração torna-se obscena.

Eu ouvi a batida

das asas de morcego antes

o ar perturbado acima

da minha cabeça, virou-se para olhar

e os vi partirem.

Na superfície do lago

negro, um cisne e a lua

permaneceram perfeitamente

ainda. Eu sabia que era

um momento perfeito.

O que só me feriria

lembrar e nunca

viver de novo. Meu Deus. Como tenho sorte de ter vivido

uma vida pela qual eu morreria.

Ilustração: Science CUE.

Monday, January 02, 2023

CÂNTICO DE ALEGRIA DOS PRIMEIROS DIAS



Sim, bebo sim.

por ti, por mim, pelos que não podem

ou não sabem beber.

Bebo por prazer, pelos que não cantam

nem sabem tocar;

bebo pelos músicos e os cantores, 

atores, trapezistas, mágicos;

pelo circo, e  pelo museu, bebo. 

Bebo pelas canções no ar, 

pelos que dançam 

e os que não saem do lugar.

Bebo pelos sisudos, pelos hilários,

pelos os que contaram

e pelos os que não entenderam a piada.

Bebo pelos honestos e pelos fraudadores, 

pelos culpados e pelos inocentes

e, loucamente, bebo muito mesmo, pelos dementes. 

Bebo pelos mansos, pelos bem comportados, 

bebo pelos de sangue quente, pelos exaltados, 

pelos rebeldes como bebo.

Bebo para os que olham para o futuro

sem receio

e pelos que temem a própria sombra, bebo.

E bebo bem, e com qualidade, 

seja cachaça, vermute, uísque, cerveja ou vinho

bebo,

bem e devagarinho, 

para brindar o ano novo

e desejar para todos, 

que bebem, ou não, 

saúde e prosperidade,

e que, se for para o bem geral

e a satisfação comum, 

que bebam, cantem, sorriam,

e igual a mim,

se embriaguem,

se isto lhe traz 

amor, alegria e felicidade! 

DIA PRIMEIRO

 


Como o dia, que é primeiro,

Como o tempo, que é ligeiro,

Feito o ano e o calendário,

Urge me reinventar.

Criar outra identidade

Ser outro, na verdade,

Ainda que, na memória, 

Conservando toda a história,

Porém sendo outra pessoa, 

Um ser de luz, coisa boa,

Fonte de amor e conforto. 

Ser a jangada e o porto,

O portador de esperança,

Ser de novo tão criança,

que, creia, mesmo sem prova, 

que a vida será nova!

De: "Poemas Malcomportados", Editora Courier Brasil, 2021.

Ilustração: Imagem de dashuc83 no Freepik