Monday, March 17, 2025

Um poema de Daniel Durand

 


LUZ Y OSCURIDAD

Daniel Durand

Llego, entro, prendo la luz de la cocina

y sorprendo a las hormigas coloradas

puliendo los platos y cargando

todos los restos de comida.

No me molestan, pero mentalmente

las advierto sobre la superpoblación:

hasta ahora el ecosistema se mantiene.

Sin embargo, si consigo trabajo,

comeré más, vendrán amigos y mujeres,

habrá más restos, ustedes crecerán

y tendré que echar insecticida.

Sólo esta pobreza puede mantenernos

delicadamente unidos.

LUZ E ESCURIDÃO

Chego, entro, acendo a luz da cozinha

e surpreendo as formigas vermelhas

limpando os pratos e carregando

todos os restos de comida.

Não me aborrecem, porém mentalmente

as advirto sobre a superpopulação:

até agora o ecossistema se mantém.

Sem embargo, se consigo trabalho,

comerei mais, virão amigos e mulheres,

haverá mais restos, vocês cresceram

e terei que achar inseticida.

Só esta pobreza pode nos manter

delicadamente unidos.

Ilustração: Jornal da Cidade.

Sunday, March 16, 2025

Prisma de Louise Glück

 


PRISM
Louise Glück

1.
Who can say what the world is? The world
is in flux, therefore
unreadable, the winds shifting,
the great plates invisibly shifting and changing-

2.
Dirt. Fragments
of blistered rock. On which
the exposed heart constructs
a house, memory: the gardens
manageable, small in scale, the beds
damp at the sea's edge-

3.
As one takes in
an enemy, through these windows
one takes in
the world:

here is the kitchen, here the darkened study.

Meaning: I am master here.

4.
When you fall in love, my sister said,
it's like being struck by lightning.

She was speaking hopefully,
to draw the attention of the lightning.

I reminded her that she was repeating exactly
our mother's formula, which she and I

had discussed in childhood, because we both felt
that what we were looking at in the adults

were the effects not of lightning
but of the electric chair.


PRISMA
1.
Quem  pode dizer o que é mundo? O mundo
está fluindo, é
por isto ilegível, mudam os ventos,
as grandes placas invisíveis mudam e trocam-
2.
Poeira. Fragmentos
de rocha com bolhas. Sobre eles
o coração exposto constrói uma casa,
a memória: os jardins
manejáveis, pequenos, na escala, os leitos
apenas úmidos na borda do mar-
3.
Assim como se aceita
um inimigo, por estas janelas
se aceita
o mundo:

esta é a cozinha, este é o estúdio na penumbra.

O que significa: eu mando aqui.
4.
Quando te enamoras, disse minha irmã,
é como se te caísse um raio.

Falava com esperança
como para atrair o raio.

Eu lhe recordei que estava repetindo exatamente
a formula de nossa mãe, aquela que ela e eu

havíamos discutido na infância porque sentíamos
o que víamos nos adultos

não eram os efeitos de um raio
sim de uma cadeira elétrica.

Ilustração: Identidade Cinéfila.

Presentes no Sono Eterno

 


No éter cósmico fomos espaçonaves

Viajantes de universos inexistentes

Navegando feito barcos em oceanos sólidos

Repletos de esperanças nas alagações do desespero.

 

Fomos os primeiros, e, também, os últimos amores

Desafiando a dor, ultrapassando seus limites

Como supersônicos, rompemos o som

Sentindo a morte mesmo antes de morrer.

 

Existimos como avatares, seres irreais

Imersos no sono eterno, sem termos existido.

E imaterialmente perdidos num tempo

E espaço que sabemos não ser material.

 

Nós temos consciência na inconsciência,

Por um breve momento, num longo tempo.

Depois o longo sono nos envolve no manto

E não há sentimento algum nos ausentes.

Saturday, March 15, 2025

IV

 



É bem possível

que, hoje, sem tema

não consiga fazer um poema.

Não há de se perder

muita coisa, com certeza.

Mas, mesmo sem inspiração nenhuma,

pensei na tua beleza,

no brilho intenso e doce de teus olhos,

e vi que para superar os obstáculos

preciso apenas aqui dizer-

o que é um prazer

dos dias meus-

que não há nada mais belo

que os olhos teus-

e o poema está feito, e findo,

e para os olhos mais lindos.


(De "Cem Poemas em Cem Dias", Editora Viseu, 

2021). 

Ilustração: Pinterest.

Nota de Esclarecimento


Não,  poesia para você não faço. 

Nem para mim mesmo; ela tem seu passo. 

E se manifesta com o que cai no laço!

Ilustração: CEE-ES.

Uma poesia de Giovanni Raboni

 


Ci sono sere che vorrei guardare

 Giovanni Raboni

Ci sono sere che vorrei guardare

da tutte le finestre delle strade

per cui passo, essere tutte le rade

ombre che vedo o immagino vegliare

 

nei loro fiochi santuari. Abbiamo,

sussurro passando, lo stesso sogno,

cancellare fino a domani il sogno

opaco, cruento del giorno, li amo

 

anch’io i vostri muri pallidamente

fioriti, i vostri sonnolenti acquari

televisivi dove i lampadari

nuotano come polpi, non c’è niente

 

che mi escluda tranne la serratura

chiusa che esclude voi dalla paura.

HÁ NOITES EM QUE QUIS OLHAR

Há noites em que quis guardar

desde cada janela a estrada

por onde passo, ser esta engraçada

sombra, a que imagino vigiar

 

desde o santuário pouco iluminado,

ser o sussurro que passa, idêntico sonho

e cancelar até de manhã o sonho

opaco e cruento do dia, já chegado.

 

amo suas paredes tão palidamente

floridas, seus sonolentos aquários

a televisão onde lâmpadas e candelabros

nadam qual pólipos nada convenientes

 

que me exclua, salve desta fechadura

fechada que do medo vos segura.  

Ilustração: Senderos de Reflexão.

Um Esclarecimento de Seamus Heaney

 


Seamus Heaney

‘When for fuck’s sake are you going to write
Something for us?’ ‘If I do write something,
Whatever it is, I’ll be writing for myself.’


‘Quando, seu ferrado você vai escrever

Alguma coisa para nós?’ ‘Se eu escrever alguma coisa,

Seja lá o que for, eu irei escrever para mim mesmo.’

Ilustração: Race Comunicação.

Friday, March 14, 2025

Um Mundo Cruel





Na mesa de um botequim

ruim

com hálito de aguardente

e um pé doente,

que me incomoda,

olho o céu

sem lua,

sem estrelas

e um vaga-lume

que também parece bêbado.

Tento ler

alguma poesia,

todavia não passo de uma linha.

Começo a beber uma cerveja,

meio diferente,

é que está quente.

Peço um rum,

mas não tem coca

nem limão.

Assim não!

O mundo nesta conjuntura

virou uma ditadura.

Ah! se tivesse

uma margarita,

uma tequila,

até uma Vodka.

Só tem cachaça

e Israel declarou guerra

contra a Palestina.

Que sina!

Como anda difícil

viver nesta terra.

O Madeira secou,

Porto Velho

virou uma fornalha.

O Brasil se tornou

uma flor murcha dos sonhos.

E a minha lira

já não delira

pela amada dos negros olhos.

Até se penso

em fazer versos

surgem perversos

do fundo

do meu mórbido coração.

Agora minha musa,

minha inspiração

que nunca foi

lá essas coisas,

foi embora,

só me machuca

porque nem com bebida

há o menor sinal

de que há de voltar,

que possamos esperar

ser possível

melhorar de vida!

 


Thursday, March 13, 2025

Uma poesia de Robert Hass

           


        MEASURE

         Robert Hass

          Recurrences.

          Coppery light hesitates

          again in the small-leaved

 

          Japanese plum. Summer

          and sunset, the peace

          of the writing desk

 

          and the habitual peace

          of writing, these things

          form an order I only

 

          belong to in the idleness

          of attention. Last light

          rims the blue mountain

 

          and I almost glimpse

          what I was born to,

          not so much in the sunlight

 

         or the plum tree

         as in the pulse

         that forms these lines.

      MEDIDA

    Recorrências.

    A luz acobreada hesita

    de novo contra os ramos de folhas

 

    da ameixa japonesa. Verão

    e pôr do sol, a paz

    da escrivaninha

 

    e a habitual paz

    de escrever, essas coisas

    que formam uma ordem que eu só

 

    vejo pertencer à ociosidade

    de atenção. Última luz

    aros da montanha azul

 

    e eu quase vislumbro

    que eu nasci,

    não tanto na luz do sol

 

    ou que a ameixeira

    é como o pulso

    que forma essas linhas.

    Ilustração: Vertiflora.

Wednesday, March 12, 2025

Outra poesia de Margarita Engle

                   

                          

 


Tula [“City life is a whirl of poetry readings”

Margarita Engle

   City life is a whirl of poetry readings

   and forbidden tertulias, gatherings

   where young and old, rich and poor,

   male and female, dark and light-

   runaway slaves and freed ones,

   former masters and former

  servants-all take turns

  sharing secret verses

  rooted in startling

  new ideas.

 

  Each evening, I go home

  with a mind that glows

  in the light of words,

  which leap

  like flames...

  Tula [“A vida na cidade é um turbilhão de leituras de poesia”

   A vida na cidade é um turbilhão de leituras de poesia

   e tertúlias proibidas, encontros

   onde jovens e velhos, ricos e pobres,

   homens e mulheres, escuro e claro-

   escravos fugitivos e libertados,

   ex-mestres e ex

   criados- todos se revezam

   compartilhando versos secretos

   enraizados em surpreendentes

   novas ideias.

 

  Cada noite eu vou para casa

  com uma mente que brilha

  à luz das palavras,

  qual salto

  como chamas ...

  Ilustração: Nossa Poesia de Cada Dia.


Monday, March 10, 2025

Outra poesia de Salvatore Ritrovato



AMORE FA LA SPOLA

 Salvatore Ritrovato

Amore fa la spola fra l’invariata

fuga di un’onda e l’avventura

di un’ora, scarduffa i capelli

li asciuga, s’invola in una buca.

Esiste ancora, forse: è una civiltà sepolta.

Così mi chiudo anch’io

nella faglia del mio ombrellone

mossa sulla sabbia come una cupa

infiorescenza che spezza la visione.

Lei si accosta a consultare l’ambulante

cupìdo di colore, ed io li sento.

Vende visiere, cocco, gli orologi senza

lancette per le ore.

Contesto il prezzo di questa metamorfosi.

O AMOR VAI E VEM

Amor vai e vem entre a invariável

fuga de uma onda e a aventura

de uma hora, desgrenha os cabelos

os seca, desaparece em um buraco.

Talvez, ainda existe: é uma civilização sepultada.

Assim eu também me fecho

na falha de meu guarda-chuva

que se move na areia como uma escura

inflorescência rompendo a visão.

Ela se acerca, consulta o ambulante

cupido de cor, e eu os ouço.

Vende vísceras, coco, relógios sem

ponteiros para as horas.

Contesto o preço desta metamorfose.

Ilustração: O Mar Me Quer.

VI

 



VI

Em nenhum momento pensei

em lembrar de ti.

Sem aviso, porém, invadiu os meus pensamentos

uma tristeza vaga, imprecisa, cheia de lamentos

nublando minha vida e senti

o que foi evidente, e um cego poderia ver:

simplesmente, não dá para esconder,

que, para viver bem, preciso de você!


 (De "Cem Poemas em Cem Dias", Editora Viseu,

 2021).

Ilustração: Edvard Munch.

Olha uma poesia de Louise Glück


 

10.

Louise Glück

Abstracted

shapes, patterns.

The light of the mind. The cold, exacting

fires of disinterestedness, curiously

blocked by earth, coherent, glittering

in air and water,

the elaborate

signs that said now plant, now, harvest-

I could name them, I had names for them:

two different things.

10.

Abstratas

formas, padrões.

A luz da mente. O frio

exatos frios do desinteresse, curiosamente

bloqueados pela terra, coerente,

brilhante de água e ar,

os elaborados signos

que dizem: agora semeia, agora colhe -

Eu poderia nomeá-los. Eu tinha nomes para eles:

duas coisas diferentes.

Ilustração: Pinterest.