Friday, October 13, 2023

Outra poesia de Victoria Chang

 


GRASS, 1967

Victoria Chang

When I open  the  door,  I smile  and wave to people who  only
have  eyes  and  who  are  infinitely joyful.  I  see  my  children,
but  only the backs  of their  heads.  When  they turn around,  I
don’t recognize  them.  They  once had mouths  but  now  only
have  eyes.  I  want  to leave  the  room  but   when  I do, I  am
outside,  and everyone  else  is inside. So next time, I open the
door  and  stay  inside.  But  then  everyone is  outside.  Agnes
said that  solitude  and  freedom  are  the same.  My solitude is
like the  grass.  I  become  so  aware of its presence  that it too
begins to feel like an audience.  Sometimes  my solitude grabs
my  phone  and  takes a  selfie,  posts  it somewhere for others
to   see   and    like.    Sometimes   people   comment  on   how
beautiful  my  solitude is  and  sometimes  my  solitude  replies
with  a  heart.  It  begins  to   follow  the  accounts  of  solitudes
that  are half its age.  What if my solitude is  depressed?  What
if even my solitude doesn’t want to be alone?

GRAMA, 1967

Quando abro a porta, sorrio e aceno para as pessoas que só

têm olhos e são infinitamente alegres. Eu vejo meus filhos,

mas apenas a parte de trás de suas cabeças. Quando eles se viram, eu

não os reconheço. Eles já tiveram bocas, mas agora só

tem olhos. Quero sair da sala, mas quando saio, estou

fora, e todos os outros estão dentro. Então, da próxima vez, eu abro a

porta e fico dentro. Mas então todo mundo está do lado de fora. Inês

disse que solidão e liberdade são a mesma coisa. Minha solidão é

como a grama. Fico tão consciente de sua presença que ela também

começa a se sentir como um público. Às vezes minha solidão agarra

meu celular e tira uma selfie, posta em algum lugar para outras pessoas

para ver e curtir. Às vezes as pessoas comentam sobre como

é bela minha solidão é e às vezes minha solidão responde

com um coração. Começa a seguir os relatos das solidões

que têm metade da sua idade. E se minha solidão for deprimida? O que

se até a minha solidão não quer ficar sozinha?

Ilustração: Focused Collection.

Ainda María Ángeles Maeso

 


 

María Ángeles Maeso 

Lo impensable, una y otra vez, sucede.
Los caros caballos de sirga,
en la hora de la siesta, se apiadan
de las mujeres que tiran como ellos
y a mitad de precio. Al caer el sol,
picoteadas por los tábanos,
con la cabeza puesta en buscar llaves,
se abre el laberinto de la vuelta a casa.

Hay quien pasea bordeando el estanque,
ellas leen a zancadas lo grabado,
a punta de navaja, en la corteza
de los robles: Las bestias fieras andan,
ponen de rodillas a la calandria
y le hacen pregonar al colibrí
y al ruiseñor que lo bueno del bosque
es que los yernos del Cid no entren.

Se y los tábanos de lo impensable
en un reza que te reza ahogado,
que una y otra vez sucede.

O impensável, repetidamente, sucede.

Os caros cavalos de reboque,

na hora da soneca, se apiedam

das mulheres que atiram como elas

e pela metade do preço. Quando o sol se põe,

bicado por mutucas,

com a cabeça voltada para a procura de chaves,

se abre o labirinto de voltar para casa.

Há quem ande à beira do lago,

Elas lêem o que está registrado em passos largos,

na ponta de uma navalha, na casca

dos carvalhos: as bestas feras andam,

colocam a calandria de joelhos

e fazem gritar o beija-flor

e ao rouxinol que o bem da floresta

é que os genros do Cid não entram.

Seja as moscas do impensável

em uma reza te reza afogado,

que uma e outra vez sucede.

Ilustração: Revista Serrote.

Tuesday, October 10, 2023

DESCONSOLO

 


Nem sei se cometi alguma tolice.

Ou foi você quem fez, ou não fez, alguma coisa.

É que, sem que me desse conta,

nem você, eu penso,

ficou, entre nós, este espaço imenso,

apesar de estarmos tão perto,

e de carinhos, um deserto.

Sinto-me só,

com a paciência de Jô

e na garganta um nó.

Pateta sempre fui.

Parece que, no passado, um pateta mais contente.

O passado é sempre melhor na ilusão da gente.  

Bebo vinho, no frio.

Cerveja, no calor

e, me embriago, como uma compensação

para enganar a vida sem emoção.

E, em qualquer época, sinto falta de amor.

Mas, vou te dizer o quê?

Você todo dia reza por nós,

faz o almoço, foge para Netflix

para maratonar numa série

que sempre tem um final feliz.

Nenhum de nós se queixa nem diz

que a vida passa e não tem bis.

E nunca mais seremos

o que já fomos.

E a felicidade, agora,

Parece um filme

que passou da hora

e só nos resta ir embora.

Outra poesia de Carla Badillo Coronado

 


Carla Badillo Coronado 

Vengo de un animal extinto

en la boca de una mujer

como una palabra pronunciada

únicamente bajo la primera lluvia

por eso llevo en mis genes

la nostalgia de quien me vio nacer

sobre un territorio que nunca

se registró en ningún mapa

 

En ello radica mi búsqueda

mi vértigo

mi movilidad

amo el misterio de las criaturas perdidas.

 

Venho de um animal extinto

na boca de uma mulher

como uma palavra pronunciada

unicamente sob a primeira chuva

por isso levo em meus gens

a nostalgia de quem me viu nascer

sobre um território que nunca

se registrou em nenhum mapa

 

Nele habita minha busca

minha vertigem

minha mobilidade

amo o mistério das criaturas perdidas

Ilustração: Freepik.

Sunday, October 08, 2023

É Theophile Gautier

 


DERNIER VOEU

Theophile Gautier

Voilà longtemps que je vous aime

- L'aveu remonte à dix-huit ans ! -

Vous êtes rose, je suis blême ;

J'ai les hivers, vous les printemps.

 

Des lilas blancs de cimetière

Près de mes tempes ont fleuri ;

J'aurai bientôt la touffe entière

Pour ombrager mon front flétri.

 

Mon soleil pâli qui décline

Va disparaître à l'horizon,

Et sur la funèbre colline

Je vois ma dernière maison.

 

Oh ! que de votre lèvre il tombe

Sur ma lèvre un tardif baiser,

Pour que je puisse dans ma tombe,

Le cœur tranquille, reposer !

ÚLTIMO DESEJO

Faz tanto tempo que te adoro,

Dezoito anos atrás são muitos dias...

És de cor rosa, eu sou pálido,

Eu sou inverno e tu, a primavera.

 

Lilás brancos como num campo sagrado

em torno dos meus seios floresceram,

e de repente invadem todo o meu cabelo

emoldurando o rosto já murchado.

 

Meu sol descolorido que declina

Vai desaparecer no horizonte,

e sobre a funerária colina,

Contemplo minha última morada .

 

Oh! Deixa dos seus lábios tombar

nos meus lábios um tardio beijo,

para quando eu estiver na minha tumba,

o coração tranquilo repousar.

Ilustração: Lera.

 

 

MUNDO CRUEL

 


Na mesa de um botequim

ruim

com hálito de aguardente

e um pé doente,

que me incomoda,

olho o céu

sem lua,

sem estrelas

e um vaga-lume

que também parece bêbado.

Tento ler

alguma poesia,

todavia não passo de uma linha.

Começo a beber uma cerveja,

meio diferente,

é que está quente.

Peço um rum,

mas não tem coca

nem limão.

Assim não!

O mundo nesta conjuntura

virou uma ditadura.

Ah! se tivesse

uma margarita,

uma tequila,

até uma vodka.

Só tem cachaça

e Israel declarou guerra

contra a Palestina.

Que sina!

Como anda difícil

viver nesta terra.

O Madeira secou,

Porto Velho

virou uma fornalha.

O Brasil se tornou

uma flor murcha dos sonhos.

E a minha lira

já não delira

pela amada dos negros olhos.

Até se penso

em fazer versos

surgem perversos

do fundo

do meu mórbido coração.

Agora minha musa,

minha inspiração

que nunca foi

lá essas coisas,

foi embora,

só me machuca

porque nem com bebida

há o menor sinal

de que há de voltar,

que possamos esperar

ser possível

melhorar de vida!

Friday, October 06, 2023

LES BALLETS TROCKADERO

 


Como a primeira bailarina de uma companhia

é um homem,

artisticamente pensando na beleza feminina,

não consigo entender nem explicar,

embora seja demasiado humano

(e só homens eram no passado).

Independente do que se pense

fica do jeito que é,

fica do jeito que está

que cada um fique em seu lugar.

Afinal, quem hoje em dia sabe

o que é um homem

e o que é uma mulher?

Ilustração: IMG Artists.

Uma poesia de Victoria Chang

OBIT [Memory]

Victoria Chang

Memory—died August 3, 2015.  The

death was not sudden but slowly over a

decade.  I wonder if, when people die,

they  hear  a  bell.   Or  if  they  taste

something sweet, or if they feel a knife

cutting them in half, dragging through

the flesh like sheet cake.  The caretaker

who witnessed my mother’s death quit.

She holds the memory and images and

now they are gone.  For the rest of her

life, the memories are hers.  She said

my mother couldn’t breathe, then took

her last breath 20 seconds later.  The

way I have imagined a kiss with many

men I have never kissed.  My memory

of  my  mother’s  death  can’t  be  a

memory but is an imagination, each

time the wind blows, leaves unfurl

a little differently.

ÓBITO [Memória]

Memória - morreu em 3 de agosto de 2015. O

a morte não foi repentina, mas suavemente ao longo de uma

década. Eu me indago se, quando as pessoas morrem,

elas escutam uma campainha. Ou se elas sentem gosto

de algo doce, ou se senem uma faca

cortando-os ao meio, arrastando

a carne como se um bolo. A zeladora

que testemunhou a morte da minha mãe desistiu.

Ela guarda a memória e as imagens e

agora elas se foram. Para o resto da

vida, as memórias são dela. Ela disse que

minha mãe não conseguia respirar, então assistiu

seu último suspiro 20 segundos depois. Da

maneira como imaginei um beijo com muitos

homens que nunca beijei. Minha memória

da morte da minha mãe não pode ser uma

memória, mas é uma imaginação, cada

vez que o vento sopra, as folhas se desenrolam

um pouco diferente.

Ilustração: https://eternizarte.squidcommunity.com/. 

 


Juan Herrero de novo

 


conversación de cantina con una doctora de la zona 18

Juan Herrero

Hay en los hospitales quienes van a burlar
los eternos gemidos de una mujer de noche.
Los patojos que yacen convertidos en piedra
de sacrificio pintan con su sangre las jambas
de las puertas de madres con los vientres estériles.
Bailan con el sonido del disparo que busca
certificar la muerte de la culpa heredada.

CONVERSAÇÃO DE CANTINA COM UMA DOUTORA DA ZONA 18
Há gente nos hospitais que vão tirar sarro
dos eternos gemidos de uma mulher de noite.
Os patinhos que jazem convertido em pedra
de sacrifício pintam com seu sangue os umbrais
das portas das mães com úteros estéreis.
Dançam ao som do disparo que busca
certificar a morte da culpa herdada.

Ilustração: ehow.com.br.

Thursday, October 05, 2023

O BEIJO

 


E era tudo que eu não queria.

E era tudo que devia ser.

Não entendi

quando acontecia

e sei que jamais vou compreender.

Não sei a hora,

não sei o dia,

razão não havia,

nem porquê

fora a vontade que nos consumia.

Só sei que com o beijo doido

que você me deu

toda defesa se desfazia.

Não sei quem mais enlouqueceu:

se foi você ou se fui eu,

se foi o mundo

e tudo, então, nos pareceu

só alegria,

só fantasia

com o beijo que você me deu!!!

Ilustração: artmajeur.com.

Outra poesia de Juan Herrero

 


11 vueltas de reloj a 10.000 metros de altura sobre el Atlántico Norte

Juan Herrero

Encima de las nubes apenas se distingue
la línea que separa cielo, mar y horizonte.
No hay límite de espacio para el alma que busca.
No hay límite de tiempo para el viaje que espera
hallar tras la vereda la luz de la penumbra,
el rastro de la huella que habita en el instante.
No hay límite de vida para quienes persiguen
acabar con la sed a pesar de la lluvia.

11 VOLTAS DO RELÓGIO A 10.000 METROS ACIMA DO ATLÂNTICO NORTE
Acima das nuvens você mal consegue distinguir
a linha que separa céu, mar e horizonte.
Não há limite de espaço para a alma que busca.
Não há limite de tempo para a viagem que o espera
encontre a luz das trevas atrás do caminho,
o traço da pegada que vive o momento.
Não há limite de vida para aqueles que perseguem
saciar a sede apesar da chuva.

Tuesday, October 03, 2023

Uma poesia de Carla Badillo Coronado

 


20

Carla Badillo Coronado 

La vida es un terreno salvaje

¡Acostúmbrate!

Serás dueño de tu circo

pero nunca faltarán payasos

que intenten matarte.

20

A vida é um terreno selvagem.

Acostuma-te!

Serás dono de teu circo

porém nunca faltarão palhaços

que intentem te matar.

Ilustração: X.com. 

Monday, October 02, 2023

MODERNIDADE

 


Que tudo muda muito rapidamente
Para ser cada vez mais igual
Me garante o âncora do telejornal.

Entre violência e crimes, as notícias
De política se confundem com polícia
E a banalização do mal
Se torna também parte do comercial.

Sonhar, agora, se tornou impossível.
Ser celebridade virou por encanto,
Da sereia da mediocridade, o canto
E trágico, o palhaço, não é mais risível.

A verdade se tornou a mentira consagrada.
O ideal se configura em ser nada:
Dos idiotas ser o chefe da manada.

Ilustração: Psicastrologia:  Psicanálise e Astrologia.

Outra poesia de María Ángeles Maeso

 


María Ángeles Maeso 

No ha sido un mal sueño mal atado
en una cuerda de ciegos, solo
son noches en las que no se ve
quién va delante y quien va detrás.
Supones que has aplastado algo,
un puñado de paja o un pequeño
animal que ha hecho temblar al coche.
Pasada la curva, vuelves a la mancha,
para oírte repetir que ira o saña
están descartadas, pero la mosca
que zumbó sobre Duras te alcanza:
La muerte de cualquiera es la muerte entera.

 

Não foi um sonho ruim mal amarrado

numa corda de cegos, só

são noites nas que não se vê

quem vai adiante e quem vai atrás.

Supões que esmagou algo,

um punhado de palha ou um pequeno

animal que fez o carro tremer.

Passada a curva, voltas à mancha,

para ouvir-te  repetir que a ira é sã

estão descartados, porém a mosca

que zumbiu sobre Duras te alcançou:

A morte de qualquer um é a morte inteira.

Ilustração: Meer.

 

Sunday, October 01, 2023

10

"O homem é o lobo do homem" (Thomas Hobbes)

Que queres?

Ser dono do picadeiro

quando nem ganhaste dinheiro 

para comprar a lona?

Se nada dá certo.

Se as confusões  vem à tona

isto é normal. 

A vida, meu filho, é uma arena.

Ninguém de ti tem pena

se pensastes que era o carnaval!

Nietzsche filosofa na poesia

 


HERAKLITISMUS

Friedrich Nietzsche

Alles Glück auf Erden,

Freunde, giebt der Kampf!

Ja, um Freund zu werden,

Braucht es Pulverdampf!

Eins in Drei'n sind Freunde:

Brüder vor der Noth,

Gleiche vor dem Feinde,

Freie- vor dem Tod!

HERACLITISMO
Toda felicidade na terra
Amigos, está na luta!
Sim ser amigo
requer a fumaça em pólvora!
Um em cada três coisas criam os amigos:
irmãos na necessidade,
iguais perante o inimigo,
livres diante da morte!

Ilustração: Sos Brasília.

Uma poesia de Eugenio Gerardo Lobo

 


DEFINE UM AMANTE SEU AMOR E DECLARA SEU CUIDADO

Eugenio Gerardo Lobo

Confianza y temor, ansia y sosiego,

aliento del espíritu y quebranto,

efecto natural, fuerza de encanto,

ver que estoy viendo y contemplarme ciego;

 

la razón libre, preso el albedrío,

querer y no querer a cualquier hora,

poquísimo valor y mucho brío;

 

contrariedad que el alma sabe e ignora,

es, Marsia soberana, el amor mío.

¿Preguntáis quién lo causa? Vos, Señora.

 

Arder em chama viva e gelar logo,

mesclar fúnebre queixa e doce canto,

confundir o riso com o pranto,

não saber distinguir neve nem fogo.

 

Confiança e temor, ânsia e sossego,

alento do espírito e quebranto,

efeito natural, força de encanto,

veja que estou vendo e contemplar-me cego;

 

a razão livre, preso o arbítrio,

querer e não querer a qualquer hora,

pouquíssimo valor e pouco brio;

 

decepção que a alma sabe e ignora,

És, Marsia soberana, meu amor.

Perguntais quem o causa? Vós, senhora.

Ilustração: Sonhos Transcendentais.