Saturday, April 26, 2025

Estranha Poesia

 


Um dia, um certo momento,

tudo é estranho.

Estranhos são teus filhos.

Estranha tua estranha mulher.

Tua amante, uma estranha.

 

Tudo estranho como estranho

É o estranho olhar

Do estranho rosto no espelho,

estranho objeto,

Que estranhamente identificas como teu.

Estranho como tudo se perdeu

neste mundo de estranhamento.

 

Há um momento

Breve de reconhecimento

na memória

em que este passado estranho se esclarece

como da tua estranha vida.

E estranhas ainda mais

Que o estranho te pareça tão familiar

Como se o comum fosse ser estranho.

 

E não podes continuar:

Todas as coisas,

inclusive as palavras,

São estranhas.


Friday, April 25, 2025

Uma poesia de José Luis Díaz Caballero

 


FRÁGIL UNIFORME

José Luis Díaz Caballero

Es el flamante pecado

de saberse visto así,

rodeado de rincones con tanta carne.

 

Intuidas las dimensiones del placer,

siento que solo a ti

te amasan los hirientes uniformes

del deseo.

UNIFORME FRÁGIL

É o pecado novinho em folha

de saber-se visto assim,

rodeado por rincões com tanta carne.

 

Intuídas as dimensões do prazer,

sinto que só a ti

te amassam os lacerantes uniformes  

do desejo.

Ilustração: Agenda Espírita do Brasil.

INSÔNIA

 


                          Para Vitor Grassi

Os cachorros de Londrina
De noite
Latem desesperadamente
Latem incessantemente
Latem insuportavelmente
Ininterruptamente
Como se, caso parassem,
fossem morrer
Ou, com seus latidos, despertar
a piedade de Deus.
Quando parece que não vão
Silenciar nunca mais,
Surge a manhã
E os passarinhos vem cantar
Para os substituir.
Mas é tarde.
Tenho que trabalhar.
Já não posso mais dormir.

(De "Águas Passadas", Editora Per Se, 2013)>

Ilustração: Ocean Drop. 


Thursday, April 24, 2025

Sim, Rafael Alberti

 


PARTE II

5

Rafael Alberti

No hagas caso, Altair,
de las murmuradoras, ciegas constelaciones,
calumniosas estrellas solitarias,
los errantes cometas
o las indefinidas oscuras nebulosas.
Tú a todos los apagas, Altair, con tu brillo,
temblor irresistible, capaz de derramarse,
bañando los ansiosos labios del universo.

5

Rafael Alberti

Não faças caso, Altair,

das murmuradoras, cegas constelações,

caluniosas estrelas solitárias,

os cometas errantes

ou as nebulosas escuras indefinidas.

Tu a todos os apagas, Altair, com teu brilho,

tremor irresistível, capaz de derramar-se,

banhando os lábios ansiosos do universo.

Ilustração: Threads.

Wednesday, April 23, 2025

Explicação


Por seres infantil na tua doçura
Conquistada pelas graças do pecado
É que, na mulher, vejo a menina pura
Como águas de um lago indevassado.

Por seres de uma inocência tão patente
Leve, que se danças até flutuas,
Não explicas porque navegas mansamente
Ainda quando brilham as carnes nuas.

E porque não há razão no sentimento,
Embora no sentimento haja razão,
Me embrulho na paixão e no momento.

Sei que explicar, às vezes, é tão vão
Como captar em palavras o movimento:
Melhor deixar falar toda a emoção.

(Do livro “Águas Passadas”, Editora Per Se, 2013)

Ilustração: 1FICINA. 


Monday, April 21, 2025

Ainda Fer Gutiérrez

 


Fer Gutiérrez

El odio ejerce con puñales de hombre

del pico
deja caer la paloma el verdor del olivo
un estruendo de cerezas machacadas
oscurece las manos

a la vista
el desuso de sembrar

 

O ódio se exerce com os punhais de um homem

do pico

deixa cair, a pomba, o verde da oliveira

um estrondo de cerejas machucadas

escurece as mãos

à vista

o desuso de semear

Ilustração: Projeto Luz do Mundo.

Saturday, April 19, 2025

Outra poesia de Humberto Díaz Casanueva

 


LA VISIÓN

Humberto Díaz Casanueva

Yacía obscuro, los párpados caídos hacia lo terrible
acaso con el fin del mundo, con estas dos manos insomnes
entre el viento que me cruzaba con sus restos de cielo.
Entonces ninguna idea tuve, en una blancura enorme
se perdieron mis sienes como desangradas coronas
y mis huesos resplandecieron como bronces sagrados.
Tocabas aquella cima de donde el alba mana suavemente
con mis manos que traslucían un mar en orden mágico.
Era el camino más puro y era la luz ya sólida
por aguas dormidas, resbalaba hacia mis orígenes
quebrando mi piel blanca, sólo su aceite brillaba.
Nacía mi ser matinal, acaso de la tierra o del cielo
que esperaba desde antaño y cuyo paso de sombra
apagó mi oído que zumbaba como el nido del viento.
Por primera vez fui lúcido mas sin mi lengua ni mis ecos
sin lágrimas, revelándome nociones y doradas melodías;
solté una paloma y ella cerraba mi sangre en el silencio,
comprendí que la frente se formaba sobre un vasto sueño
como una lenta costra sobre una herida que mana sin cesar.
Eso es todo, la noche hacía de mis brazos ramos secretos
y acaso mi espalda ya se cuajaba en su misma sombra.
Torné a lo obscuro, a larva reprimida otra vez en mi frente
y un terror hizo que gozara de mi corazón en claros cantos.
Estoy seguro que he tentado las cenizas de mi propia muerte,
aquellas que dentro del sueño hacen mi más profundo desvelo.

A VISÃO

Ele estava deitado no escuro, com as pálpebras caídas em direção ao terrível

talvez com o fim do mundo, com essas duas mãos sem dormir

entre o vento que me atravessou com seus restos de céu.

Então eu não tinha ideia, numa brancura enorme

minhas têmporas estavam perdidas como coroas sangrentas

e meus ossos brilhavam como bronze sagrado.

Você tocou aquele pico de onde o amanhecer flui suavemente

com minhas mãos que revelaram um mar em ordem mágica.

Era o caminho mais puro e era a luz já sólida

por águas paradas, deslizei em direção às minhas origens

rompendo minha pele branca, apenas seu óleo brilhava.

Meu ser matinal nasceu, talvez da terra ou do céu

que esperou há muito tempo e cuja passagem sombria

Ele desligou meu ouvido que zumbia como um ninho de vento.

Pela primeira vez fiquei lúcido mas sem a minha língua nem os meus ecos

sem lágrimas, revelando-me noções e melodias douradas;

Soltei uma pomba e ela fechou meu sangue em silêncio,

Compreendi que a testa era formada sobre um vasto sonho

como uma crosta lenta numa ferida que escorre incessantemente.

Isso é tudo, a noite fez dos meus braços buquês secretos

e talvez minhas costas já estivessem se contorcendo em sua própria sombra.

Voltei para a escuridão, para uma larva reprimida novamente em minha testa

e o terror me fez alegrar meu coração em canções claras.

Tenho certeza de que provei as cinzas da minha própria morte,

aqueles que dentro do sonho me causam a mais profunda insônia.

Ilustração: Mundo Maior Editora.

Acaso

 


As engrenagens tendem sempre a ter problemas

E, numa hora incerta, não funcionarão.

 

Talvez quando delas dependa a vida

Ou meu pobre e sofrido coração.

 

Sei que é imperceptível o mudar. Não temas!

O acaso, mesmo sem som,

É onde Deus põe a mão.

Ilustração: Fragrantica.

Thursday, April 17, 2025

Fran Garcerá, pois

 


ORIGEN II

Fran Garcerá

El día que nació mi deidad tenía quince años y me miraba en el espejo del baño. No era un lugar majestuoso era íntimo, había agua, tierra, la ventana abierta al fondo, sudaba. Me observaba con atención. Surgió con una calma agitada: «¿Por qué a mí? ¿Por qué yo?». Aquello era un aliento primigenio que aceptó que siempre fue que siempre estuvo.

No se abrió el mar. Tampoco fue todo silencio. Estaba el canto exaltado de las golondrinas. Tiempo después derribaron sus nidos y ninguna voluntad, tampoco la mía, detuvo la aniquilación.

Me lavé las manos y cerré la puerta del baño. La imagen en mi frente zumbaba o quizás era mi dios radiante. Bajé los escalones y salí a la calle. Era verano el aire olía incomparable. Respiraba. Tenía en mi lengua una verdad: «Soy». En fracciones de segundo, hallé un mundo.

ORIGEM II

No dia em que minha divindade nasceu, tinha quinze anos e  me olhava no espelho do banheiro. Não era um lugar majestoso, era íntimo, havia água, terra, a janela estava aberta ao fundo, suava. Me observava com atenção. Surgiu com uma calma agitada: "Por que a mim?" "Por que eu?" Aquelo era uma respiração primordial que aceitou que sempre fui, que sempre estive.

O mar não se abriu. Tampouco foi tudo silêncio. Havia o canto exaltado das andorinhas. Tempos depois derrubaram seus ninhos e nenhuma vontade, nem mesmo a minha, deteve a aniquilação.

Lavei as mãos e fechei a porta do banheiro. A imagem na minha testa zumbia ou talvez fosse meu deus radiante. Desci as escadas e saí para a rua. O verão estava no ar  com um cheiro incomparável. Respirava. Tinha na minha língua uma verdade: "Eu sou". Em frações de segundo, encontrei um mundo.

Ilustração: Dreamstime.

Tuesday, April 15, 2025

A Coragem de Olhar para Trás de Guillaume Apollinaire

 


J'ai eu le courage de regarder en arrière...
Guillaume Apollinaire
J'ai eu le courage de regarder en arrière
Les cadavres de mes jours
Marquent ma route et je les pleure
Les uns pourrissent dans les églises italiennes
Ou bien dans de petits bois de citronniers
Qui fleurissent et fructifient
En même temps et en toute saison
D'autres jours ont pleuré avant de mourir dans des tavernes
Où d'ardents bouquets rouaient
Aux yeux d'une mulâtresse qui inventait la poésie
Et les roses de l'électricité s'ouvrent encore
Dans le jardin de ma mémoire

EU TIVE A CORAGEM DE OLHAR PARA TRÁS

Eu tive a coragem de olhar para trás

Os cadáveres dos meus dias

Marcando minha rota e eu os lamento

Alguns deles apodrecendo nas igrejas italianas

Ou em pequenos pomares de limão

Que florescem e dão frutificam

Ao mesmo tempo em todas as estações

Outros dias choravam antes de morrer em tavernas

Onde buquês ardentes rolavam

Aos olhos de uma mulata que inventou a poesia

E as rosas da eletricidade que se abrem novamente

No jardim da minha memória

Ilustração: iCultgeneration.

 

Monday, April 14, 2025

14 de Abril

 


Hoje, neste 14 de abril,

Talvez eu não responda por mim.

Quem sabe seja

o efeito da cerveja,

a sensação de que já vivi,

dez mil anos atrás,

e, agora, já não vivo mais

ainda que meu sangue

esteja correndo

e o coração acelerado

me chamando de culpado

por não ter as onze mil virgens

prometidas para o paraíso,

aqui, na terra nunca prometida

e sempre amada.

Continuo a ter a sensação

de ser tão puro

quando cantava nos corais de igreja

e tinha certeza,

menino na fé ungido,  

que seria protegido,

quando dizia Deus me proteja.

Com a crença forte

de que prolongava a vida dos seus

e abreviava a dos ímpios,

não temia a morte,

bem sabia que mil poderiam cair do meu lado,

dez mil à minha direita,

nada me atingiria.

Hoje ainda,

antes de deitar,

hei de rezar

para o meu anjo da guarda,

mas o que está a me perturbar,

lembrando de você,

é que sinto uma vontade danada

de pecar!

Ilustração: Diocese de Apucarana.

Uma poesia de Vicente Gaos

 

 


SÓLO TÚ

Vicente Gaos

Tú, mi razón de vida, mi razón
de amor; mi razón, mi pensamiento,
mi desencadenado sentimiento,
la luz y el fuego de mi corazón.

Vivir en ti es vivir, viva pasión,
y la vida sin ti no es mi tormento,
sino injustificable y vano intento,
imposible, imposible abdicación.

Si tú eres la verdad, si tú la vida,
morir será morir, pero prefiero
tan breve posesión de la verdad

a otra existencia luego concedida.
Vivir será morir, pero te quiero.
Sólo tú, sólo tú mi eternidad.

SÓ TU

Tu, minha razão de vida, minha razão

de amor; minha razão, meu pensamento,

meu desordenado sentimento,

a luz e o fogo de meu coração.

Viver em ti é viver, viva a paixão

E a vida sem ti não é meu tormento,

sim injustificável e vão intento,

impossível, impossível abdicação.

Se tu és a verdade, se tu és a vida,

Morrer será morrer, porém prefiro

tão breve possessão da verdade

a outra existência logo concedida.

Viver será morrer, porém te quero.

Só tu, só tu minha eternidade.

Ilustração: Illustracion X.

Photographie de Guillaume Appolinaire


PHOTOGRAPHIE

Guillaume Apollinaire
Ton sourire m'attire comme
Pourrait m'attirer une fleur
Photographie tu es le champignon brun
De la forêt
Qu'est sa beauté
Les blancs y sont
Un clair de lune
Dans un jardin pacifique
Plein d'eaux vives et de jardiniers endiablés
Photographie tu es la fumée de l'ardeur
Qu'est sa beauté
Et il y a en toi
Photographie
Des tons alanguis
On y entend
Une mélopée
Photographie tu es l'ombre
Du Soleil
Qu'est sa Beauté

FOTOGRAFIA

Teu sorriso me atrai como

Poderia me atrair uma flor

Te fotografei és o cogumelo marrom

da floresta

Qual é a tua beleza?

Os brancos que lá estão

Um clarão de luar

Em um jardim tranquilo

Repleto de águas brancas e jardineiros endiabrados

Te fotografei és a fumaça do ardor

Qual é tua beleza?

E que há em ti

Fotografia

Tons lânguidos

Nós ouvimos lá

Uma melodia

Fotografia tu és a sombra

Do Sol

Qual é a tua beleza?

Ilustração: Aventuras na História.

Sunday, April 13, 2025

A Destruição de Charles Baudelaire

  


LA DESTRUCTION

Charles Baudelaire
Sans cesse à mes côtés s'agite le Démon;
Il nage autour de moi comme un air impalpable;
Je l'avale et le sens qui brûle mon poumon
Et l'emplit d'un désir éternel et coupable.

Parfois il prend, sachant mon grand amour de l'Art,
La forme de la plus séduisante des femmes,
Et, sous de spécieux prétextes de cafard,
Accoutume ma lèvre à des philtres infâmes.

Il me conduit ainsi, loin du regard de Dieu,
Haletant et brisé de fatigue, au milieu
Des plaines de l'Ennui, profondes et désertes,

Et jette dans mes yeux pleins de confusion
Des vêtements souillés, des blessures ouvertes,
Et l'appareil sanglant de la Destruction!

A DESTRUIÇÃO

Sem cessar se agita o Diabo ao meu lado;

Ele nada ao meu redor como um ar impalpável;

Eu engulo e sinto meu pulmão queimando.

E o enche de um desejo eterno e culpável.

 

Às vezes toma, ciente do meu grande amor pela Arte,

A forma das mais sedutoras mulheres,

E, sob pretextos especiosos de farsante,

Acostuma meus lábios a poções infames.

 

E assim me conduz para longe da vista de Deus,

Ofegante e quebrado de fadiga, ao centro

Das planícies do Tédio, profundas e desertas,

 

E cheios de confusão deixa nos olhos meus

Roupas sujas, feridas abertas,

E a Destruição, seu adereço sangrento!

Ilustração: Aventura na História.

Uma poesia de Humberto Díaz Casanueva

 


DOTO MI VIDA DE UNA ESPERANZA AGÓNICA

Humberto Díaz Casanueva

Úntenme manos traspasadas por un

clavo de oro macizo

manos cuelgan del hombre

manos pinchadas

Tengo hambre

hambre del sueño que afluye en la

mínima sal

Todo mi cuerpo pegajoso

de moscas sucias y doradas

DOU À MINHA VIDA UMA ESPERANÇA AGONIZANTE

Unge-me as mãos trespassadas por um

prego de ouro maciço

mãos penduradas no homem

mãos picadas

Tenho fome

fome de sono que flui do

sal mínimo

Meu corpo inteiro pegajoso

de moscas sujas e douradas

Ilustração: Canção Nova.




MUDANDO O OLHAR

 


Comprei uns óculos de lentes azuis

para ver o mundo de outra forma.

E, supreendentemente, deu certo,

o que não é de norma.

Tudo ficou belo e repleto

de um encanto novo no ar,

mesmo sendo tudo igual ao olhar,

as coisas ficaram diferentes,

pela frente, em lindas amostras,

embora como todo ser prudente,

não comemoro muito cedo,

continuo a ter muito medo

do que pode vir pelas costas!

Ilustração: Dreamstime.

Friday, April 11, 2025

Uma poesia de Kenneth Rexroth

 


CONFUSION

Kenneth Rexroth

I pass your home in a slow vermilion dawn,

The blinds are drawn, and the windows are open.

The soft breeze from the lake

Is like your breath upon my cheek.

All day long I walk in the intermittent rainfall.

I pick a vermilion tulip in the deserted park,

Bright raindrops cling to its petals.

At five o'clock it is a lonely color in the city.

I pass your home in a rainy evening,

I can see you faintly, moving between lighted walls.

Late at night I sit before a white sheet of paper,

Until a fallen vermilion petal quivers before me.

CONFUSÃO

Eu passei por sua casa num lento amanhecer vermelho,

As persianas fechadas e as janelas abertas.

A brisa suave do lago

como sua respiração sobre o meu rosto.

Todo o longo dia eu caminhei sob a chuva intermitente.

Eu peguei uma tulipa vermelha no parque deserto,

Brilhantes  gotas de chuva agarram-se às suas pétalas.

Às cinco horas há uma cor solitária na cidade.

Eu passei por sua casa numa noite chuvosa,

Eu posso vê-la fracamente, movendo-se entre paredes iluminadas.

Tarde da noite, eu me sento diante de uma folha de papel branca,

Até que uma pétala vermelha caída estremeça diante de mim.

Ilustração: Creative Fabrica.

CARTÃO DE VISITA DIGITAL

 


Nome: Silvio Persivo

Cor: Em geral branca, mas depende do local onde estou. Já me senti até sem cor quando nem os brancos nem os negros me aceitavam em Washington D.C.  

Residência: Qualquer toca, espaço pequeno, com uma cama, uma geladeira, uma mesa em Porto Velho, Londrina ou Rio de Janeiro, onde possa dormir.

E-mail: silvio.persivo@gmail.com.

Ocupação: Aposentado, poeta, blogueiro, bebedor de vinho e de cerveja, ocasionalmente de caipirinha ou cachaça, ouvinte de boa música (e com o som baixo, por favor), quase monge não fosse a compulsão por uma boa feijoada, carne de porco e dourado ao molho de camarão. Escritor preguiçoso e um dos melhores amantes do mundo, segundo meus próprios sonhos noturnos.

Sinais característicos: Um fogo eterno, um desejo incessante de vida, de paixão, de amor, um verdadeiro buraco negro que atrai quem deseja fazer da existência um permanente carnaval. 

Bens: Afora os que vendi todos os outros estão dependendo da Justiça, ou seja, por enquanto, sou um cidadão muito rico de sonhos. Imaginariamente sou dono do mundo todo, da lua e de algumas estrelas. Não me atrevo a tomar conta do sol.

Orgulho: De ser um sobrevivente que nunca deixou de lutar por um futuro melhor. E das mulheres que amei: todas amaram o que não sou. Elas podem reclamar de mim. Delas não tenho reclamações.  Eu também vivo de ilusões

Expectativas: Continuar a sonhar que dias melhores virão e acreditar que o Brasil, apesar de tudo, será o país do futuro.

 

Uma poesia de Manuel Rueda

 


ME LEVANTO, ME AFEITO, ME ACOMODO

Manuel Antonio Rueda González

Me levanto, me afeito, me acomodo
a la vida y doy bajo la ducha
a la piel de mis sueños tanta lucha
que al sumidero van, vueltos ya lodo.
Retomo mi lugar, mi voz, mi apodo
salgo al día: la luz ahora es mucha.
Hago ruido, me muevo: nadie escucha.
Vuelvo a mi soledad, después de todo.
Cada hora a mis ritos de hombre sano.
Sonreír al que pasa. Dar la mano
al amigo, al malvado, al pordiosero.
Pero al fin a mi cuarto nuevamente,
a encontrarme conmigo frente a frente
sin saber si es que vivo o es que muero.

ME LEVANTO, ME BARBEIO, ME ARRUMO

Eu me levanto, me barbeio, me arrumo

para a vida e tomo um banho de ducha

na pele dos meus sonhos tanta luta

que vão para o ralo, feitos lodo.

Retomo meu lugar, minha voz, meu apelido

Saio para o dia: a luz agora é muita.

Faço ruído, me movo: ninguém escuta.

Volto à minha solidão, depois de tudo.

Cada hora, aos meus ritos de homem são.

Sorrio ao que passa. Dou a mão

ao amigo, ao malvado, ao mendigo.

Porém, ao fim no meu quarto novamente,

me encontro comigo frente a frente

sem saber estou vivo ou se morro.

Ilustração: Pplware-SAPO.

Thursday, April 10, 2025

Uma poesia de Leonora Simonovis

 


LITTLE BRUJA

Leonora Simonovis

      There’s nothing left except to try.

      -Mrs. Whatsit in A Wrinkle in Time

I tried, believe me, I did, but my cheap Caribou jeans

and Buster Brown polos couldn’t match the prestige

of Levi’s, Nikes, Lacoste worn by my fifth-grade classmates

who visited Magic Kingdom every summer. There was

Claudia with her button-y nose and perfect smile;

blonde and green-eyed Caroline. Despite her rumpled clothes,

she looked like a queen. And then Federico, who pulled

my braids and boasted about meeting Mickey Mouse. I said

mice are dirty, they poop everywhere, will make you sick.

You’d know, he sneered-I wished him gone. Abuela told me

about giving mal de ojo to a woman who spoke ill of her.

The woman got sick, almost died. One day Federico fell,

pierced his knee on a sharp piece of metal. I whispered in his ear

as he wailed: I don’t need to go to Magic Kingdom. Magic is in my blood.

A     PEQUENA BRUXA

Não resta nada a não ser tentar.

-Sra. Whatsit em Uma Dobra no Tempo

Eu tentei, acredite em mim, eu tentei, mas meus jeans Caribou barato

e polos Buster Brown não conseguiam igualar o prestígio

das Levi's, Nikes e Lacoste usadas pelos meus colegas da quinta série

que visitavam o Magic Kingdom todo verão. Havia

Claudia com seu narizinho de botão e sorriso perfeito;

Caroline, loira e de olhos verdes. Apesar das roupas amarrotadas,

ela parecia uma rainha. E então Federico, que puxou

minhas tranças e se gabou de ter conhecido o Mickey Mouse. Eu disse

que ratos são sujos, eles fazem cocô em todo lugar, vão te deixar doente.

Você saberia, ele zombou - eu queria que ele fosse embora. A avó me disse

sobre dar mal olhado a uma mulher que falou mal dela.

A mulher adoeceu, quase morreu. Um dia Federico caiu,

furou o joelho em um pedaço de metal afiado. Sussurrei em seu ouvido

enquanto ele chorava: Não preciso ir para o Magic Kingdom. A magia está no meu sangue.

Ilustração: Escola de Feltro.