UNA PAREJA PERDIDA
Gabriel Celaya
Iban los dos vestidos con descaro
-minifalda, melenas-
cogidos de la mano,
tan jóvenes que casi daban miedo,
tan absortos en un cero
que, aunque no se veían, les unía absolutos
algo fieramente puro.
Iban a cualquier parte cogidos de la mano.
Se amaban sin tristeza,
ni alegría, ni nada.
Y a veces se miraban, pero no se veían.
Y luego se sentaban en un banco cualquiera.
Pero no se veían.
Ella era muy bonita; parecía aturdida;
él, feroz y esmirriado.
No hablaban. No tenían ya nada que decirse.
Ya no se deseaban.
Pero seguían juntos, cogidos de la mano,
frente a algo que espantaba.
Mientras el transistor seguía sonando.
UM CASAL PERDIDO
Iam os dois vestidos com desfaçatez
-minissaia, cabelos
longos-
de mãos dadas,
tão jovens que quase
davam medo,
tão absortos em um nada
que, embora não se
vissem, os unia
algo ferozmente puro.
Iam a qualquer lugar, de
mãos dadas.
Amavam-se sem tristeza,
nem alegria, nem nada.
E, às vezes, se olhavam, porém
não se viam.
E logo sentavam-se em um
banco qualquer.
Porém não se viam.
Ela era muito bonita;
parecia aturdida;
ele, feroz e franzino.
Não falavam. Já não
tinham nada a dizer um ao outro.
Já não se desejavam.
Porém seguiam juntos, de
mãos dadas,
diante de algo que espantava.
Enquanto o rádio seguia
tocando.
Ilustração: Dephositos

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