Monday, October 26, 2026

Uma poesia de Gabriel Celaya

 

UNA PAREJA PERDIDA

Gabriel Celaya

Iban los dos vestidos con descaro
-minifalda, melenas-
cogidos de la mano,
tan jóvenes que casi daban miedo,
tan absortos en un cero
que, aunque no se veían, les unía absolutos
algo fieramente puro.
Iban a cualquier parte cogidos de la mano.
Se amaban sin tristeza,
ni alegría, ni nada.
Y a veces se miraban, pero no se veían.
Y luego se sentaban en un banco cualquiera.
Pero no se veían.
Ella era muy bonita; parecía aturdida;
él, feroz y esmirriado.
No hablaban. No tenían ya nada que decirse.
Ya no se deseaban.
Pero seguían juntos, cogidos de la mano,
frente a algo que espantaba.

Mientras el transistor seguía sonando.

UM CASAL PERDIDO

Iam os dois vestidos com desfaçatez

-minissaia, cabelos longos-

de mãos dadas,

tão jovens que quase davam medo,

tão absortos em um nada

que, embora não se vissem, os unia

algo ferozmente puro.

Iam a qualquer lugar, de mãos dadas.

Amavam-se sem tristeza,

nem alegria, nem nada.

E, às vezes, se olhavam, porém não se viam.

E logo sentavam-se em um banco qualquer.

Porém não se viam.

Ela era muito bonita; parecia aturdida;

ele, feroz e franzino.

Não falavam. Já não tinham nada a dizer um ao outro.

Já não se desejavam.

Porém seguiam juntos, de mãos dadas,

diante de algo que espantava.

 

Enquanto o rádio seguia tocando.

Ilustração: Dephositos

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