UM MENINO DO CEARÁ
Silvio Persivo
Eu era um menino que cabia numa rua. A Rocha Lima, em Fortaleza-o
mundo começava depois da esquina e ia até o céu se alongando no mar.
Li Nietzsche antes de saber amarrar os sapatos. Machado
me ensinou que as palavras têm espinhos. Os russos me mostraram que a neve
também dói. E Balzac
O rádio da naquele tempo era um oráculo de voz. Dentro
dele moravam vozes que falavam mais alto que o silêncio do sertão.
O cinema era no domingo. A música de todos os dias. E
eu -eu era um menino que colecionava ausências como quem coleciona figurinhas.
Hoje, cinquenta anos depois, pergunto: o que sobrou
daquele menino? Respondo: sobrou o Ceará. O resto foi travessia.

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