Thursday, June 22, 2017

NAVEGANDO NA INCERTEZA



O futuro, esta incógnita que nos estimula,
pode ter algum desvio imprevisível?
Sei lá!
Faço o que é possível.
Rio do provável.
Aceito o inevitável,
pois, dói menos
e dou os meus acenos
para o acaso
com ambição e gula.
Depois rezo,
e, finalmente, bebo.
Aqui o império do impulso
se impõe sobre o do desejo.
Deixo para depois saborear teu beijo-
um modo de na vida ter recurso-,
um prazer grandioso e previsível
que me salva, em qualquer percurso,
das topadas e da maldade
que não vejo,
enquanto na imaginação solfejo
uma música que não sei bem qual é
que lembra o amor de uma mulher.

Ilustração: "Imensidão" de Roberto Baeta


Wednesday, June 21, 2017

Outra poesia de Lauren Mendinueta


El espacio en su jardín                               

Lauren Mendinueta

Lo visible y lo invisible
están en eterna contradicción,
y esta lucha tiene por fuerza
el poder de matarme lentamente.
El triunfo de lo invisible,
carece de espectáculo,
mientras incluso en la derrota
lo visible gana en notoriedad.
Si la brevedad es el signo de la vida humana,
el tiempo es asunto mío, también.

Y la roca gritó, otra vez

El mundo habla en lengua extranjera,
al tiempo que en él la voluntad se cumple
portadora de exilio y soledad.
Creo en los signos secretos,
en las llamadas sin responder
y en ciertos árboles abandonados
en la orilla equivocada de los caminos.

Si se desnudara lo original,
se reflejaría en la superficie de la tierra
y no en la cara teatral de lo humano,
estoy segura.

En medio de tanto ruido,
el grito ignorado de la roca
dice lo que otra vez preferimos no entender:
si esto es vivir, la muerte es un jardín florido.

O espaço no seu jardim

O visível e o invisível
estão em eterna contradição,
e esta luta tem por força
o poder de me matar lentamente.
O triunfo do invisível,
carece de espetáculo,
enquanto inclusive na derrota
o visível ganha notoriedade.
Se a brevidade é o sinal da vida humana,
o tempo é assunto meu, também.

E a rocha gritou outra vez

O mundo fala em uma língua estrangeira,
ao tempo em que nela a vontade se cumpre
portadora de exílio e solidão.
Creio nos sinais secretos,
nas chamadas sem resposta
e em certas árvores abandonadas
no lado errado dos caminhos.

Se nos despimos do original,
Isto se reflete na superfície da terra
e não no rosto teatral da humanidade,
tenho certeza.

Em meio a tanto barulho,
o grito ignorado da rocha
diz outra vez o que nós preferimos não entender:

Se isso é viver, a morte é um jardim de flores.

Ilustração: Revista Total. 

Monday, June 19, 2017

Outra poesia de Daniel Durand

MALABARISMOS                    
Daniel Durand

Bajó el sol, salgo a la sombra del pátio
para fazer malabares. Tiro
las bols bien alto y
al levantar na vista veo
el cielo todavia soleado.
Dentro de unos dias se morirá mi madre.
Unas cuantas golondrinas
vuelan a media altura
entre la casa y el cielo
se pelean con  chirridos
y se alimentam de insectos invisibles.

MALABARISMOS

O sol baixou, eu vou para a sombra do pátio
para fazer malabares. Atiro
os pratos bem para o alto e
ao levantar a vista vejo
o céu, todavia, ensolarado.
Dentro de alguns dias minha mãe vai morrer.
Algumas andorinhas
voam à meia altura
entre a casa e o céu
lutam aos guinchos
e se alimentam de insetos invisíveis.

Ilustração: Flickriver. 

Uma poesia de Clara Vasco

AUTORRETRATO INSOMNE                                  
Clara Vasco

Nada me tranquiliza tanto
como inclinarme frente a heladera
con la puerta abierta

Permanezco
pensativa e concentrada
mirando mis entrañas
me siento acompanhada

y luego cuelgo uma foto mia.

AUTORETRATO INSONE

Nada me tranquiliza tanto
como inclinar-me em frente à geladeira
com a porta aberta

Permaneço
pensativa e concentrada
olhando as  minhas entranhas  
me sinto acompanhada

e logo penduro uma foto minha.

Ilustração: Insone. 

Uma poesia de Daniel Durand


MÉTODOS PARA LA DANZA

Daniel Durand

Guadalupe, Gustavo
estoy agitando un paraíso
en el patio
de mi casa.

Crecerá y dentro de
quinientos años
hablaremos y tomaremos
adentro de la sombra.


MÉTODOS PARA A DANÇA

Guadalupe, Gustavo
estou acenando com um paraíso
no pátio
da minha casa.

Crescerá e dentro
quinhentos anos
conversaremos e beberemos
na sua sombra.


Ilustração: Barriga lisa. 

Friday, June 16, 2017

SONHOZINHO DE JUNHO

  
Hoje eu me sinto um bruto!
Preciso urgente de um charuto
Para defumar os chatos,
Esquecer os fatos
E convidar os santos.
Hoje quero a alegria
De quem ganhou na loteria
E só desejo ouvir Tom,
Certeza de sonhar com som,
Recordar Vinicius,
Com todos os seus bons vícios,
Escutar Nara Leão
Só para verificar
Que ainda existe poesia, canção...
Hoje quero recuperar a delicadeza:
Reconstruir a sutileza, 
a quietude, 
Navegar na sensação de ser,
de bem estar, 
Sentir a beleza
De estar aqui sozinho,
Sentado,
Só eu e minha caipirinha,
Nesta doce vidinha,
Sonhando que vou
Esperar você!  


Ilustração: Um Drink no Inferno. 

E MAIS UMA POESIA DE CÉSAR VALLEJO


LOS HERALDOS NEGROS

César Vallejo

Hay golpes en la vida tan fuertes... Yo no sé!
Golpes como del odio de Dios; como si ante ellos,
la resaca de todo lo sufrido
se empozara en el alma... Yo no sé!

Son pocos, pero son... Abren zanjas oscuras
en el rostro más fiero y en el lomo más fuerte.
Serán tal vez los potros de bárbaros atilas;
o los heraldos negros que nos manda la Muerte.

Son las caídas hondas de los Cristos del alma,
de alguna fe adorable que el Destino blasfema.
Esos golpes sangrientos son las crepitaciones
de algún pan que en la puerta del horno se nos quema.

Y el hombre... Pobre... pobre! Vuelve los ojos, como
cuando por sobre el hombro nos Ilama una palmada;
vuelve los ojos locos, y todo lo vivido
se empoza, como charco de culpa, en la mirada.

Hay golpes en la vida, tan fuertes... Yo no sé!

OS ARAUTOS NEGROS

Há golpes na vida tão fortes...Eu não sei!
Golpes como do ódio de Deus;  como se ante eles,
a ressaca de todo sofrimento
se represasse na alma...Eu não sei!

São poucos, porém são...abrem rugas escuras
no rosto mais feroz e no lombo mais forte.
Serão, talvez, os cavalos selvagens de Átilas,
ou os arautos negros que nos manda a morte.

São as quedas profundas dos Cristos da alma,
de alguma fé adorável que o destino blasfema.
Estes golpes sangrentos são os estalos
De algum pão que na boca do forno se queima.

E o homem...Pobre...pobre! Volta os olhos, como
ao sentir, atrás de nós, a  batida de uma palmada ressoar;
volta os olhos loucos, e tudo o que há vivido
se represa, como um charco de culpa, no olhar.

Há golpes na vida tão fortes....Eu não sei!

Ilustração: Pinterest.


E AINDA JOSÉ HIERRO


VIDA

José Hierro

Después de todo, todo ha sido nada,
a pesar de que un día lo fue todo.
Después de nada, o después de todo,
supe que todo no era más que nada.

Grito: '¡todo!', y el eco dice '¡nada!'.
Grito'¡nada'!, y el eco dice '¡todo!'.
Ahora sé que la nada lo era todo,
y todo era ceniza de la nada.

No queda nada de lo que fue nada.
(Era ilusión lo que creía todo
y que, en definitiva, era la nada).

Qué más da que la nada fuera nada
si más nada será, después de todo,
después de tanto todo para nada.


VIDA

Depois de tudo, tudo foi nada,
apesar de que um já foi tudo.
Depois de nada ou depois de tudo,
soube que não era mais que nada.

Grito: tudo! E o eco diz nada!
Grito nada! E o eco diz tudo!
Agora sei que o nada era o tudo,
e tudo era cinza do nada.

Não fica nada do que foi nada.
(Era ilusão o que cria tudo
e que, em definitivo, era o nada).

Que mais do que nada fora nada
se mais nada era, depois de tudo,
depois de tanto tudo para nada.


Ilustração: Plus.google.com/Marcus Paulo. 

E, DE VOLTA, JOSÉ HIERRO



EL BUEN MOMENTO

José Hierro

Aquel momento que flota
nos toca con su misterio.
Tendremos siempre el presente
roto por aquel momento.

    Toca la vida sus palmas
y tañe sus instrumentos.
Acaso encienda su música
sólo para que olvidemos.

    Pero hay cosas que no mueren
y otras que nunca vivieron.
Y las hay que llenan todo
nuestro universo.

    Y no es posible librarse
de su recuerdo.


O BOM MOMENTO

Aquele momento que flutua
nos toca com o seu mistério.
Teremos sempre o presente
quebrado por aquele tempo.

    A vida toca suas palmas
e tange seus instrumentos.
Talvez para acender sua música
só para que esqueçamos.

     Porém, há coisas que não morrem
e outras que nunca viveram.
E há as que preenchem todo
o nosso universo.

     E não é possível livrar-se
de sua memória.

Ilustração: Penso Positivo. 

UM SONHO DE ALCOBA



Que eu possa me perder,
Entre as veredas de árvores
Numa trilha do Buçaco
Sem sentido nem compasso
Em qualquer direção
É bem provável.
É bem possível.
Entretido com as flores,
Com  a vista da serra,
Com a claridade, 
Com as belezas naturais.  
Mas, se estiver contigo,
Podes crer, 
Que farei apenas
Colher umas frutinhas vermelhas,
Bem pequenas, 
Da grande variedade que lá existe,
Para que possa nos teus lábios,
Esmagá-las com meu beijo.
Daí, quem sabe, louco de desejo
Não querer saber de nada mais
Que encher a manhã de ais.
É um programa bem português
Que muito me satisfaz! 

Wednesday, June 14, 2017

Doce menina


“Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, como eu vos amo.” (São João 15,12).

Por mais bela que fosse e encantadora
Jamais compreendi seu modo de ser-
Tenho de dizer.

Gostava de frisar que é tolice ler-
Mesmo sendo uma voraz leitora de quadrinhos e bulas de remédios.
Preguiçosa se negava a ir aos museus e exposições
Me explicando que, entre suas noções,
Esteticamente ver palhaços tristes, capas de revistas velhas
E rabiscar corações, por não ter o que fazer,
Eram atividades mais sérias.


Não se cansava de dizer
Que, por hábito e precaução,
Preferia os percevejos e as pulgas
A estar com as pessoas,
Mas ria à-toa-
O que me parecia sempre um sinal de humanidade-
Apesar de sua maldade
Ser evidente
No prazer que sentia
Em matar moscas,
Cortar pernas de aranhas
E sempre fazer carinho nos gatos
Antes de jogá-los pela janela
Com o mesmo prazer
Com que dizia amar a todos os seres.

(De "Águas Passadas" , Per Se Editora, 2013).  



Uma poesia de Brytni Mosley



Sunrise Love

Brytni Mosley

Through the sunrise I see your face,
We're all alone in this place,
Your beautiful eyes,
Shine like gold,
A wonderous treasure,
That's untold.
You tell me you love me,
I smile real bright,
You're the best thing that's happened to me,
I say with delight.

O amor no sol nascente

Através do sol nascente eu vejo teu rosto,
estamos sozinhos neste lugar,
e teus belos olhos,
brilham como ouro,
um tesouro maravilhoso,
que é incalculável.
Tu me dizes que me amas,
eu sorrio com o brilho da realidade,
de que és a melhor coisa que me aconteceu,
e o digo com delicioso prazer.

Ilustração: Pixabay. 


Thursday, June 08, 2017

COISAS DO CORAÇÃO...

Nem sei bem a razão, mas, me deu vontade de reviver este poeminha que fiz em 2014, talvez, nem lembro mais. Afinal faz tanto tempo! Minha memória acelerou e mais de dois anos agora é pré-história. Não gostei mais do título e mudei.



Aguenta coração! 

Passei teu coração em revista
(desconsiderei as alergias, normais)
E, mesmo sem ser neurocardiologista,
vi, em todo o mapeamento das imagens,
que bate acelerado, selvagem,
as pulsações excedendo todas as margens.
Meu amor, não fique cheia de pavor,
que esta doença não é tão terrível assim.
É comprovado que gostas de mim
e este é o teu único remédio
contra este teu longo tédio.
Pena que, infelizmente, agora
não seja ainda, para te curar, a hora.
Uma gripe, uma dor de garganta
me põe em feroz abatimento,
de forma que lamento,
porém, terás que esperar,
mas, te aviso para se preparar:
só é de cama que irás mudar!


Wednesday, June 07, 2017

Outra poesia de Begoña Abad

Begoña Abad                                     
Sin acto de amor que me conciba,
sin madre que me espere,
sin saber para qué,
sigo empeñada en nacer
a cualquier hora,
de cualquier manera,
por olvidarme de los días
en los que nacía muerta
o en los que me moría
de a poquitos silenciosos.
Nacerme a cada paso
aunque venga de nalgas
y con dos vueltas de cordón
enrollado en el alma,
nacerme y respirarte…

Sem um ato de amor que me conceba,
Sem uma mãe que me espere,
sem saber para quê,
sigo empenhada em nascer
a qualquer hora,
de qualquer maneira,
para esquecer-me dos dias
em que nasci morta
ou dos em que morria
aos pouquinhos, silenciosamente.
Nascer-me a cada passo
Ainda que venha pela culatra
e com duas voltas de cordão
enrolado na alma,
nascer-me e respirar-te ...


Ilustração: Vagalume.