Thursday, May 17, 2018

E, de novo, Jaime Gil de Biedma


DE VITA BEATA                                            
Jaime Gil de Biedma

En un viejo país ineficiente,
algo así como España entre dos guerras
civiles, en un pueblo junto al mar,
poseer una casa y poça hacienda
y memoria ninguna. No leer,
no sufrir, no escribir, no pagar cuentas,
y vivir como un noble arruinado
entre las ruinas de mi inteligencia.

DA VIDA BEATA

Em um velho país ineficiente,
algo assim como a Espanha entre duas guerras
civis, numa vila junto ao mar,
possui uma casa, uma pequena fazenda
e memória nenhuma. Não ler,
não sofrer, não escrever, não pagar as contas,
e viver como um nobre arruinado
entre as ruínas da minha inteligência.

Ilustração: José Luiz. 

E, voltando, Derek Walcott



El amor después del amor

Derek Walcott

El tiempo vendrá
cuando, con gran alegría,
tú saludarás al tú mismo que llega
a tu puerta, en tu espejo,
y cada uno sonreirá a la bienvenida del otro,
y dirá, siéntate aquí. Come.
Seguirás amando al extraño que fue tú mismo.
Ofrece vino. Ofrece pan. Devuelve tu amor
a ti mismo, al extraño que te amó
toda tu vida, a quien no has conocido
para conocer a otro corazón,
que te conoce de memoria.
Recoge las cartas del escritorio,
las fotografías, las desesperadas líneas,
despega tu imagen del espejo.
Siéntate. Celebra tu vida.

O AMOR DEPOIS DO AMOR

A tempo virá
quando, com grande alegria,
tu saudarás a tu mesmo que chega
à tua porta, no teu espelho,
e cada um sorrirá dando as boas vindas ao outro,
e dirá, sente-se aqui. Come.
Seguirás amando o estranho que fui tu mesmo.
Oferece vinho. Oferece pão. Devolve o teu amor
a ti mesmo, o estranho que te amou
toda tua vida, a quem tu não conheceu
para conhecer a outro coração
que te conhece de memória.
Recolhe as cartas da escrivaninha,
as fotografias, as desesperadas linhas,
desprega tua imagem do espelho.
Senta-te. Celebre tua vida.

Uma poesia de Jaime Gil de Biedma


CANCIÓN FINAL            
Jaime Gil de Biedma

Las rosas de papel no son verdad
y queman
lo mismo que una frente pensativa
o el tacto de una lámina de hielo.

Las rosas de papel son, en verdad,
demasiado encendidas para el pecho.


CANÇÃO FINAL

As rosas de papel não são de verdade
e queimam
o mesmo que uma testa pensativa
ou o toque de uma lâmina de gelo.

As rosas de papel são, na verdade,
demasiado iluminadas para o peito.


E, de volta, o grande José Afustin Goytisolo














A VECES                                                      

José Agustín Goytisolo

A veces
alguien te sonríe tímidamente en un supermercado
alguien te da un pañuelo
alguien te pregunta con pasión qué día es
hoy en la sala de espera del dentista
alguien mira a tu amante o a tu hombre con
envidia
alguien oye tu nombre y se pone a llorar.

A veces
encuentras en las páginas de un libro una
vieja foto de la persona que amas
y eso te da un tremendo escalofrío
vuelas sobre el Atlántico a más de mil kilómetros por hora y piensas en sus
ojos y en su pelo
estás en una celda mal iluminada y te acuerdas de un día luminoso
tocas un pie y te enervas como una quinceañera
regalas un sombrero y empiezas a dar gritos.

A veces
una muchacha canta y estás triste y la quieres
un ingeniero agrónomo te saca de quicio
una sirena te hace pensar en un bombero o
en un equilibrista
una muñeca rusa te incita a levantarle las
falda a tu prima
un viejo pantalón te hace desear con furia
y con dulzura a tu marido.

A veces
explican por la radio una historia ridícula
y recuerdas a un hombre que se llama
Leopoldo
disparan contra ti sin acertar y huyes penen tu mujer y en tu hija
ordenan que hagáis esto o aquello y enseguida te enamoras de quien no hace
ni caso
hablan del tiempo y sueñas con en una chica
egipcia
apagan lentamente las luces de la sala y ya
buscas la mano de tu amigo.
A veces
esperando en un bar a que ella vuelva escribes un poema en una servilleta de
papel muy fino
hablan en catalán y quisieras de gozo o lo
que sea morder a tu vecina
subes una escalera y piensas que sería bonito
que el chico que te gusta te violara
antes del cuarto piso
repican las campanas y amas al campanero
o al cura o a Dios si es que existiera
miras a quien te mira y quisieras tener todo
el poder preciso para mandar que en
ese mismo instante se detuvieran todos los relojes del mundo.

A veces
sólo a veces gran amor.

ÀS VEZES

Às vezes
alguém te sorri timidamente num supermercado
alguém te dá um lenço
alguém te pergunta com paixão que dia é
hoje na sala de espera do dentista
alguém olha para o seu amante ou seu homem com
inveja
Alguém ouve teu nome e se põe a chorar.

Às vezes
encontras nas páginas de um livro uma
foto antiga de uma pessoa que amas
e isso te dá um tremendo arrepio
voas sobre o Atlântico a mais de mil quilômetros por hora e pensas no seus
olhos e no cabelo dela
está em uma cela mal iluminada e te lembras de um dia luminoso
tocas um pé e ficas brava como uma debutante
lhes dá um chapéu e começa a gritar.

Às vezes
uma garota canta, ficas triste e a queres
um agrônomo te deixa louco
uma sirene te faz pensar em um bombeiro ou
em um equilibrista
uma boneca russa te incentiva a levantar
a saia da tua prima
uma velha calça te faz desejar com fúria
e docemente o teu marido.

Às vezes
Explicam pelo rádioa uma história ridícula
e te lembrad de um homem chamado
Leopoldo
disparam contra ti sem acertar e foge de tua esposa e tua filha
que ordenam que faça isso ou aquilo e imediatamente te apaixonas por quem não
faz nem caso
falam sobre o tempo e sonhas com uma garota
egípcia
lentamente desligam as luzes da sala e
procuras a mão do teu amigo.
Às vezes
esperando em um bar ela voltar escreves um poema em um guardanapo
de papel muito fino
falam em catalão e gostaria de brincadeira ou o que
seja morder tua vizinha
sobes uma escada e pensas que seria bonito
que o garoto que você gosta te violasse
antes do quarto andar
tocam os sinos e amas a campainha
ou o sacerdote de Deus, se houvesse um
olhas a quem te olha e querias ter tudo
o poder preciso para mandar que neste
mesmo instante se detivessem todos os relógios do mundo.

Às vezes
só às vezes, meu grande amor.

Ilustração: Deus me livro.

Saturday, May 12, 2018

Mais uma poesia de Blanca Varela


A ROSE IS A ROSE                 
Blanca Varela

inmóvil devora luz
se abre obscenamente roja
es la detestable perfección
de lo efímero
infesta la poesía
con su arcaico perfume


UMA ROSA É UMA ROSA

Imóvel devora luz
se abre obscenamente vermelha
na detestável perfeição
do efêmero
infesta a poesia
com o seu arcaico perfume

Wednesday, May 09, 2018

Uma poesia de Eduardo Carranza



Poesía                                                               

Eduardo Carranza

Antonio, nuestro oficio es ir poniendo
las palabras, una tras otra,
como días y días, unos tras otros,
con su pausa nocturna de estrellas o silencio.
Trabajo que de pronto, tú lo sabes,
vuela de nuestras manos convertido
en radiante paloma o gerifalte.
La luz anda descalza en lo que hablamos,
pero también la noche y la tristeza.
Nuestra palabra, tú también los sabes,
suena a veces como un reloj
en una casa abandonada, oscura,
dando las horas para nadie.
Como la campanilla del teléfono
en la estancia vacía.
O como una campana en un desierto
tañendo para nadie.
Nuestro trabajo, Antonio, es ir cayendo
todos los días hacia el corazón.
Cierro tu libro y pienso: estamos solos
en el umbral de qué, de qué, Díos mío?
Y la noche nos lleva como un ciego
a otro ciego, del brazo, dulcemente.

POESIA

Antônio, nosso ofício é ir colocando
as palavras, uma atrás da outra,
como dias e dias, uns atrás dos outros,
com sua pausa noturna de estrelas ou silêncio.
Trabalho que logo, tu o sabes,
voa de nossas mãos convertido
em radiante pomba ou falcão.
A luz anda descalça no que falamos,
porém, também a noite e a tristeza.
Nossa palavra, tu também o sabes,
Soa, às vezes, como um relógio
em uma casa abandonada, escura,
marcando as horas para ninguém.
Como a campainha do telefone
na casa vazia.
Ou como um sino no deserto
badalando para ninguém.
Nosso trabalho, Antônio, é ir caindo
todos os dias até o coração.
Fecho teu livro e penso: estamos sós
no umbral de quê? de quê, Deus meu?
E a noite nos leva como um cego
a outro cego, de braço, docemente.


Ilustração: obviousmag.org

E lá vem, de novo, Juan Ramón Jimémez


Mares                             
Juan Ramón Jiménez

Siento que el barco mío
ha tropezado, allá en el fondo,
com algo grande.
İY nada
sucede! Nada... Quietud... Olas...

– Nada sucede; o es que ha sucedido todo,
y estamos ya, tranquilos, en lo novo?

Mares
Sinto que o meu barco
tropeçou, ali no fundo,
com algo grande.
E nada
sucede! Nada... Quietude... Ondas...

– Nada sucede; ou é que tudo há sucedido,
e já estamos, tranquilos, no novo?


Uma poesia de Neftalí Beltrán


La Poesía Existe                         
Neftalí Beltrán

La poesía existe.
Tal vez no sepamos entenderla
tal vez la vida que llevamos
no nos deje sentirla
tal vez la vivimos sin darnos cuenta
o dándonos cuenta,
tal vez, tal vez.
La poesía existe
así como existe la violência
lo mismo que existe el amor.
Vivimos entre años-oscuridad y años luz
y sin embargo la poesía existe
y un dia tendremos que comprenderla,
tal vez, tal vez.

A POESIA EXISTE

A poesia existe.
Talvez não saibamos entendê-la
talvez a vida que levamos
não nos deixe sentí-la
talvez a vivemos sem nos dar conta
ou nos dando conta,
talvez, talvez.
A poesia existe
assim como existe a violência
ao mesmo tempo existe o amor.
Vivemos entre anos de escuridão e luz
e, sem embargo, a poesia existe
e um dia teremos que compreendê-la,
talvez, talvez.

Ilustração: A viagem dos Argonautas. 


Monday, May 07, 2018

E mais um poema de Wallace Stevens




Man carrying thing

Wallace Stevens 

The poem must resist the intelligence
Almost successfully. Illustration:

A brune figure in winter evening resists
Identity. The thing he carries resists

The most necessitous sense. Accept them, then,
As secondary (parts not quite perceived

Of the obvious whole, uncertain particles
Of the certain solid, the primary free from doubt,

Things floating like the first hundred flakes of snow
Out of a storm we must endure all night,

Out of a storm of secondary things),
A horror of thoughts that suddenly are real.

We must endure our thoughts all night, until
The bright obvious stands motionless in cold.


O HOMEM CARREGANDO COISA

O poema tem que resistir à inteligência
Até quase conseguir. Exemplo:

Um vulto pardo na tarde de inverno resiste
Identidade. O que ele carrega resiste

Ao mais premente sentido Aceite-os, então,
Como secundários (partes não bem percebidas

Do óbvio todo, partículas incertas
Do certo sólido, o primário livre de dúvidas,

Coisas flutuando como os cem primeiros flocos de neve
Lá fora de uma tempestade que há que de durar a noite inteira,

De uma tempestade de coisas secundárias),
Horror de pensamentos que, súbitamente, são reais.

Temos que suportá-los a noite inteira, até
Como o claro óbvio se mostrando, imóvel, no frio.



Outra poesia de Manuel Gutiérrez Nájera






PARA ENTONCES

                                                                      Manuel Gutiérrez Nájera

Quiero morir cuando decline el día,
en alta mar y con la cara al cielo,
donde parezca sueño la agonía
y el alma un ave que remonta el vuelo.

No escuchar en los últimos instantes,
ya con el cielo y con el mar a solas,
más voces ni plegarias sollozantes
que el majestuoso tumbo de las olas.

Morir cuando la luz triste retira
sus áureas redes de la onda verde,
y ser como ese sol que lento expira;
algo muy luminoso que se pierde.

Morir, y joven; antes que destruya
el tiempo aleve la gentil corona,
cuando la vida dice aún: «Soy tuya»,
aunque sepamos bien que nos traiciona.

PARA ENTÃO

Quero morrer quando decline o dia,
no alto mar e com o rosto para o céu
onde pareça sonho a agonia
e a alma uma ave que volta a voar ao léu.

Não escutar nos últimos instantes,
já com o céu e com o mar sozinho,
mais vozes ou orações soluçantes
que das ondas o majestoso marulhinho.

Morrer quando a luz triste retira
suas  douradas redes da onda verde,
e ser como esse sol que lento expira;
algo muito luminoso que se perde.

Morrer e jovem; antes que destrua
o tempo leve a gentil coroa
quando a vida ainda diz: "Sou tua",
embora saibamos bem que nos traia.