Thursday, September 12, 2019

Saudade não mata não!


                                                                                                                     


Eu vou levar um sorvete
para refrescar tua boca,
minha louca,
e um bolo de limão,
para amolecer teu coração.
Lembra, querida menina,
que todo amor é brincadeira
e a vida, uma ilusão.
Pode ser que vá embora...
Se quiser chorar, até chora,
mas, saudade não mata não!
O que mata é não poder
satisfazer meu desejo
de encher tua boca de beijos
e roubar teu coração!


Outra poesia de Cristina Mosca



QUI DOVE IL CUORE TREMA

Cristina Mosca

Ogni silenzio è tuono
quando il tuono ha preso il silenzio.
Nuda,
io
davanti a chi ha perduto.
Ricca,
sulla terra spoglia.
Profana,
qui
dove il canto trema.


AQUI ONDE O CORAÇÃO TREME

Todo silêncio é trovão
quando o trovão prendeu o silêncio.
nu,
eu
diante daqueles que perderam.
rica,
na terra nua.
profana,
aqui
onde o canto treme.


Wednesday, September 11, 2019

RESUMO DE ZÉ NINGUÉM


Antes fui um nada, 
um nada inconsciente.
Até mais que nada, 
uma remota possibilidade.
Um dia acordo um nada
quase, tentando ser consciente,
para ter certeza apenas 
que, a qualquer hora, 
serei um nada eternamente. 
É o ciclo eterno da vida
(minha, tua, de todos os zés ninguéns): 
ir do nada para o nada, 
ser o breve sonho 
de coisa nenhuma! 


Ilustração: https://respeite-o-esquisito.blogspot.com/

Uma poesia de A.E. Housman



An Epitaph

A. E. Housman

Stay, if you list, O passer by the way;
Yet night approaches; better not to stay.
I never sigh, nor flush, nor knit the brow,
Nor grieve to think how ill God made me, now.
Here, with one balm for many fevers found,
Whole of an ancient evil, I sleep sound.

UM EPITÁFIO

Fique, se quiser ser mais um da lista, ó transeunte pelo caminho;
No entanto, a noite se aproxima; melhor não ficar.
Eu nunca suspiro, nem lavei, nem costurei a testa,
Nem lamento pensar em quão doente Deus me fez, agora.
Aqui, como um bálsamo para muitas febres encontradas,
Todo um mal antigo, eu durmo sadio.

Ilustração: tripadvisor.es.

Tuesday, September 10, 2019

ODE AOS CHORÕES MINEIROS




(Uma singela homenagem aos notáveis músicos e amigos, Cícero Gonzaga, Artur Pádua, Agostinho Paolucci, Ronaldo Pereira, Pedro Alvarez, Nixon Fonseca, Adilson Barbosa de Paula e Armando de Souza Pinto, que, com Lito Casara, tornaram os dias quentes de setembro de Porto Velho e Guajará-Mirim muito melhor com música de primeira qualidade)

Ah! Esses meninos chorões universais!
Mineiros de Rondônia!
Que extraem a pureza da música
com uma mansidão e uma forma simples
que torna o belo descomplicado.
Não! Não vou exaltar o acordeom de Cícero Gonzaga.
Nem falar nada do violão de 7 cordas
dos fantásticos Artur Pádua e Agostinho
que nos sons se demonstram grandes.
Mineiramente irei falar da flauta transversal
do Pedro Alvarez,
um encantador de serpentes,
e rondonianamente me gabarei
do cavaquinho do Nixon
e do pandeiro do Ronaldinho
que faz o bandolim de Lito Casara balançar.
Nada direi do Armando Souza Pinto,
que, com qualquer pequena dose, faz a platéia levantar,
mesmo sem a assistência de palco
do Adilson Barbosa.
Como isto não é prosa;
é poesia
direi que são músicos cuja magia
enche de fantasia os lugares onde se apresentam
e tudo que é beleza, prazer, encanto representam.
Se imortais existissem estariam condenados.
Para mim, são, indubitavelmente, uns danados!

Outra poesia de Layli Long Soldier


                           

                          
                                 OBLIGATIONS 2

Layli Long Soldier
                                                    As we

                                        embrace          resist

                          the future       the present      the past

             we work          we struggle          we begin          we fail
to understand       to find        to unbraid        to accept        to question

              the grief          the grief           the grief          the grief

                          we shift         we wield           we bury​

                                    into light               as ash

                                                       across our faces

                              
                             OBRIGAÇÕES 2

                                             Como nós

                                      abraçados      resistimos

                           o futuro         o presente           o passado

       nós trabalhamos   nós lutamos    nós começamos     nós falhamos

compreender        encontrar            desafiar       aceitar        questionar

              a dor                    a dor                    a dor                 a dor

                       nós   mudamos  nós empunhamos  nós enterramos

                                     na luz               como na cinza

                                                        em redor de nossos rostos

                                  Ilustração: ponderavel.blogspot.com.

Monday, September 09, 2019

Uma poesia de Antonio Alleva


CIAO, PAPA’                

Antonio Alleva

No, no, perché questa commozione?
ammira piuttosto il movimento della lacrima:

sotto una girandola di calmissimi fiocchi
sotto l’anglosassone eleganza dei bianchissimi tigli

               lungo la guancia sulla foglia
            quindi su tre fili d’erba stillando
facendoli ondulare poi la inghiotte il manto bianco.

Sorridi dalla radice a quel lieve sussulto.


OLÁ, PAPAIZINHO

Não, não, por que esta comoção?
admirar prefiro o movimento da lágrima:

sob um redemoinho calmíssimo de flocos
sob a anglo-saxônica  elegância de branquíssimas limas

                ao longo da bochecha na folha
             depois em três fios de erva pingando
fazendo-os ondulados, em seguida engula o manto branco.

Sorria desde a raiz até aquele ligeiro suspiro.

Ilustração: spcuriosos.com.br.


Uma poesia de Layli Long Soldier


 
IRONY                                                                 
Layli Long Soldier

I wake to
red sand I
sleep here
coral brick
hooghaan I
walk thin
rabbit brush
trails side-
step early
autumn
tarantulas
pick desert
white flowers
on full days I
inhale fe-
male rain
I stop wheels
slow sheep
bounce drop
sheep shit
across
highways
potholed
me I grass
nothing
here I meta-
grass I sleep-
walk grasses
open eyes to
blue corn sky
to cook up
stews chunks
half-chewed thru
I am this
salivating
mouth without
hands with-
out arms
bent down
shameless
face to plate to
some origin(al)
hunger aware
that I’m alone
and I alone am
the one -> pushing
the head
to eat


IRONIA

Eu acordo para
areia vermelha eu
durmo aqui
no tijolo coral
desordeiro eu
ando magro
escova de coelho
trilhas ao lado-
passo cedo
outono
tarântulas
escolhendo o deserto
flores brancas
por dias inteiros eu
inspiro
chuva masculina
Eu paro as rodas
ovelha lenta
pulo gotas
merda de ovelha
através
das rodovias
esburacadas
eu grama
nada
aqui eu meta-
grama eu durmo
caminhando na grama
olhos abertos para
o céu azul de milho
cozinhado
pedaços de ensopados
meio mastigado
Eu sou isto
salivação
sem boca
sem mãos
braços abertos
curvados
sem-vergonha
rosto na placa de
alguma origem (al)
consciente da fome
de que estou sozinho
e sozinho estou
aquele -> empurrão
na cabeça
para comer

Ilustração: Bing.

Thursday, September 05, 2019

Outra poesia de Lucianna Argentino


 
Lucianna Argentino

Ha un senso vivere e lavorare
se una bambina mi guarda a lungo
e poi mi dice sei bella
e alla sua voce io di lei mi accorgo
e del suo sguardo fermo su me assente
e sanata risalgo al mio presente.
E le sorrido pure se so che non è bello
il mio viso stanco, annoiato
e a disagio per il mio scoperto esilio
per quell’asilo in me la benedico,
per i suoi occhi patria al mio foglio là in apnea
e all’inchiostro calmo che spero sia tempesta.


Faz sentido viver e trabalhar
se uma garota me olha há muito tempo
e logo me diz que que sou belo
e na sua voz eu noto
o seu olhar ausente em mim
e curado, volto ao meu presente.
E eu sorrio mesmo que eu saiba que não é belo
meu rosto cansado, entediado
e desconfortável com o meu exílio descoberto
Eu te abençoo por esse jardim de infância,
por seus olhos, lar do meu lençol na apneia
e para a tinta calma que eu espero que seja tempestade.


Outra poesia de Clementina Isabel Azlor





ARCANO

Clementina Isabel Azlor

¿Qué mano misteriosa erizó de doradas,
Promisorias espigas, el siniestro abrojal?
¿Qué vendaval maldito derramó la simiente
Que hoy viste de esmeralda lujoso el cenagal?

¿Qué espíritu invisible llegó en la tarde lívida
 A borrar con su magia la apariencia del mal?
¿Quién te dio esa sonrisa seductora y aviesa?
¿Quién te puso en los labios ese embrujo fatal?


ARCANO

Que mão misteriosa capeou de dourado,
as espigas promissoras, o sinistro matagal?
Que vendaval maldito derramou a semente
Que hoje viste na luxuosa esmeralda do lodaçal?

Que espírito invisível chegou na tarde lívida
 A apagar com sua magia a aparência do mal?
Quem te deu esse sorriso sedutor e engraçado?
Quem te pôs nos lábios esse feitiço fatal?


Wednesday, September 04, 2019

Uma poesia de Jean-Michel Maulpoix



Le bleu ne fait pas de bruit...

Jean-Michel Maulpoix

Le bleu ne fait pas de bruit.

C’est une couleur timide, sans arrière-pensée, présage, ni projet, qui ne se jette pas brusquement sur le regard comme le jaune ou le rouge, mais qui l’attire à soi, l’apprivoise peu à peu, le laisse venir sans le presser, de sorte qu’en elle il s’enfonce et se noie sans se rendre compte de rien.

Le bleu est une couleur propice à la disparition.

Une couleur où mourir, une couleur qui délivre, la couleur même  de l’âme après qu’elle s’est déshabillée du corps,  après qu’a giclé tout le sang et que se sont vidées les viscères, les poches de toutes sortes, déménageant une fois pour toutes le mobilier de ses pensées.

Indéfiniment, le bleu s’évade.

Ce n’est pas, à vrai dire, une couleur. Plutôt une tonalité, un climat, une résonance spéciale de l’air. Un empilement de clarté, une teinte qui naît du vide ajouté au vide, aussi changeante et transparente dans la tête de l’homme que dans les cieux.

L’air que nous respirons, l’apparence de vide sur laquelle remuent nos figures, l’espace que nous traversons n’est rien d’autre que ce bleu terrestre, invisible tant il est proche et fait corps avec nous, habillant nos gestes et nos voix. Présent jusque dans la chambre, tous volets tirés et toutes lampes éteintes, insensible vêtement de notre vie.


O AZUL NÃO FAZ RUÍDO

O azul não faz ruído.

É uma cor tímida, sem segundas intenções, presságio ou projeto, que não se lança bruscamente no olhar como o amarelo ou vermelho, mas que atrai a si mesma, a aprisiona pouco a pouco, a deixa vir sem pressioná-lo, de sorte que nele se afunde e se afogue sem ter consciência de nada.

O azul é uma cor propícia ao desaparecimento.

Uma cor onde morrer, uma cor que liberta, a própria cor da alma depois de se desabilitada do corpo, depois de ter derramado todo o sangue e esvaziado vísceras, bolsos de todos os tipos, em movimento de uma vez por todas a mobília de seus pensamentos.

Indefinidamente, o azul se evade.

Não é mais, para dizer a verdade, uma cor. Antes uma tonalidade, um clima, uma ressonância especial do ar. Uma pilha de clareza, um tom que nasce do vazio adicionado ao vazio, tão mutável e transparente na cabeça do homem quanto no céu.

O ar que respiramos, a aparência de vazio em que se movem nossas figuras, o espaço que atravessamos não passa de azul terrestre, invisível por estar próximo e de fato no corpo conosco, vestindo nossos gestos e nossas vozes. Presentes na sala, todas as persianas e todas as lâmpadas apagadas, vestimentas insensíveis da nossa vida.