Wednesday, June 20, 2018

TENDÊNCIA PREGUIÇOSA


Não espero que me compreendas                              (me compreender seria um erro irreparável).
Só espero que entendas
que o que tenho de notável
é a minha preguiça e a inconstância,
que me faz ser livre de seguir os comuns.
Sei o quanto deve ser difícil
conviver com a minha lógica torta
e com a minha vontade imensa de nada fazer.
O que pode ser tua mínima recompensa,
podes crer,
é esta minha vontade imensa de te amar
de te querer
contra toda a inércia
que me induz a nada fazer
que só melhora, um pouco,
perto de você.

Uma poesia de Victor Segaten


Éloge du jade                                    
Victor Segalen

Si le Sage, faisant peu de cas de l’albâtre,
vénère le pur Jade onctueux, ce n’est point que
l’albâtre soit commun et l’autre rare: Sachez
plutôt que le Jade est bon,

Parce qu’il est doux au toucher –mais
inflexible. Qu’il est prudent: ses veines sont
fines, compactes et solides.

Qu’il est juste puisqu’il a des angles et ne
blesse pas. Qu’il est plein d’urbanité quand,
pendu de la ceinture, il se penche et touche terre.

Qu’il est musical: sa voix s’élève,
prolongée jusqu’à la chute brève. Qu’il est
sincère, car son éclat n’est pas voilé par ses
défauts ni ses défauts par son éclat.

Comme la vertu, dans le Sage, n’a besoin
d’aucune parure, le Jade seul peut décemment
se présenter seul.

Son éloge est donc l’éloge même de la vertu.

ELOGIO DO JADE

Se o Sábio, com pouca consideração pelo alabastro,
venera a pura jade oleoso, não é só esse ponto
o alabastro é comum e o outro raro: Saber
sabem que o jade é bom,

Porque é suave ao toque-ainda que
inflexível. E prudente: suas veias são
finas, compactas e sólidas.

É justo tenha ângulos e não
não ferem. É tanta sua urbanidade que,
pendurado na cintura, se inclina e toca a terra.

É musical: sua voz se eleva
prolongada até a breve queda.
É sincero, já que seu brilho não se vela
Com seus defeitos nem estes com o seu brilho.

Como a virtude, no Sábio, não requer
nenhum adorno, só o jade pode decentemente
apresenta-se só.

Seu elogio é, portanto, o próprio elogio da virtude.

Ilustração: materialesde.com.

Uma poesia de Benjamin Péret



Allo

Benjamin Péret

Mon avion en flammes mon château inondé de vin du Rhin
mon ghetto d'iris noirs mon oreille de cristal
mon rocher dévalant la falaise pour écraser le garde-champêtre
mon escargot d'opale mon moustique d'air
mon édredon de paradisiers ma chevelure d'écume noire
mon tombeau éclaté ma pluie de sauterelles rouges
mon île volante mon raisin de turquoise
ma collision d'autos folles et prudentes ma plate-bande sauvage
mon pistil de pissenlit projeté dans mon oeil
mon oignon de tulipe dans le cerveau
ma gazelle égarée dans un cinéma des boulevards
ma cassette de soleil mon fruit de volcan
mon rire d'étang caché où vont se noyer les prophèthes distraits
mon inondation de cassis mon papillon de morille
ma cascade bleue comme une lame de fond qui fait le printemps
mon revolver de corail dont la bouche m'attire comme l'oeil d'un puits
scintillant
glacé comme le miroir où tu contemples la fuite des oiseaux mouches de ton regard
perdu dans une exposition de blanc encadrée de momies
je t'aime

ALLO

Meu avião em chamas meu castelo inundado com vinho do Reno
meu gueto de íris negra minha orelha de cristal
minha rocha caindo no penhasco para esmagar o guarda do campo
meu caracol de opala meu mosquito de ar
minha colcha do paraíso meu cabelo de espuma preta
meu túmulo aberto minha chuva de gafanhotos vermelhos
minha ilha voadora minhas uvas turquesa
minha colisão de carros loucos e meu cauteloso canteiro de flores
meu dente-de-leão projetado no meu olho
minha cebola tulipa no cérebro
minha gazela perdida em um bulevar de cinema
meu cassete de sol meu fruto vulcão
minha lagoa escondida rir onde vou afogar os profetas distraídos
minha inundação de groselha minha borboleta de erva de moura
minha cachoeira azul como pano de fundo que faz a primavera
meu revólver de coral cuja boca me atrai como o olho de um poço
cintilante
gelado como o espelho onde você contempla a fuga dos pássaros voa do teu olhar
perdido numa exposição de brancas múmias emoldurada
eu te amo

Ilustração: Helena Kolody. 




Tuesday, June 19, 2018

Uma poesia de Zéno Bianu



INVOCATION
                                                                
Zéno Bianu
                                                              Rager, s’enrager contre la morte de la lumière. 


                                                                 Dylan Thomas

le ciel s’éteint
les yeux s’éclairent

ne nous pardonne rien

quand la mort
n’en finit pas
de chasser la vie

quand le couteau
de la nuit froide
tranche l’arc-en-ciel

ne pardonne rien
aux hommes consumés
de crépuscule

viens
dénuder la haute blessure
l’ardent souci
de solitude

l’aimantation

entre la plaie et le baume

entre la cendre errante
et la langue des anges

par la grâce d’un cœur
enfin broyé

puissions-nous agrandir
l’abîme endormi en toi


ne nous pardonne rien


INVOCAÇÃO

Enfureça-se, enfureça-se ante a morte da luz.
Dylan Thomas

O céu se apaga
os olhos se iluminam

não nos perdoam nada

quando a morte
não acaba
de expulsar a vida

quando a faca
da noite fria
recorta o arco-íris

não perdoe nada
aos homens consumidos
do crepúsculo

vem
descascar a ferida alta
a ardente inquietude
da solidão

a magnetização

entre a ferida e o bálsamo

entre a cinza errante
e a linguagem dos anjos

pela graça de um coração
enfim esmagado

que possamos ampliar
o abismo que dorme em ti

não nos perdoe nada

Ilustração: meetnigerians.co.uk.

A poesia de Sabines novamente



Te quiero a las diez de la mañana

Jaime Sabines

Te quiero a las diez de la mañana, y a las once,
y a las doce del día. Te quiero con toda mi alma y
con todo mi cuerpo, a veces, en las tardes de lluvia.
Pero a las dos de la tarde, o a las tres, cuando me
pongo a pensar en nosotros dos, y tú piensas en la
comida o en el trabajo diario, o en las diversiones
que no tienes, me pongo a odiarte sordamente, con
la mitad del odio que guardo para mí.

Luego vuelvo a quererte, cuando nos acostamos y
siento que estás hecha para mí, que de algún modo
me lo dicen tu rodilla y tu vientre, que mis manos
me convencen de ello, y que no hay otro lugar en
donde yo me venga, a donde yo vaya, mejor que tu
cuerpo. Tu vienes toda entera a mi encuentro, y
los dos desaparecemos un instante, nos metemos
en la boca de Dios, hasta que yo te digo que tengo
hambre o sueño.
Todos los días te quiero y te odio irremediablemente.
Y hay días también, hay horas, en que no
te conozco, en que me eres ajena como la mujer
de otro, Me preocupan los hombres, me preocupo
yo, me distraen mis penas. Es probable que no piense
en ti durante mucho tiempo. Ya ves ¿Quién
podría quererte menos que yo amor mío?

Eu te quero às dez da manhã

Eu te quero às dez da manhã e às onze,
e às doze horas do dia. Eu te quero com toda a minha alma e
com todo o meu corpo, às vezes, nas tardes de chuvas.
Porém, às duas da tarde, ou às três, quando me ponho
a pensar em nós dois e tu pensas na
comida ou no trabalho diário, ou nas diversões
que não tens, me ponho a te odiar surdamente, com
a metade do ódio que guardo para mim.

Logo volto a te querer novamente, quando nos deitamos e
sinto que fostes feita para mim, que, de alguma modo,
me dizem teu joelho e teu ventre, que minhas mãos
me convencem disso, e que não há outro lugar em
onde eu venha, onde eu vou, melhor que teu
corpo. Tu vens inteira ao meu encontro, e
nós dois desaparecemos por um instante, ficamos
na boca de Deus, até que te digo que tenho
fome ou sono.
Todos os dias te quero e te odeio irremediavelmente.
E há dias também, há horas, em que
não te conheço, em que me és estranha como a mulher
de outro. Me preocupam os homens, me preocupo
eu, me distraem minhas tristezas. É provável que não pense
em ti durante muito tempo. Já vês. Quem
poderia te querer menos que eu, amor meu?

Ilustração: EOH. 


E, de volta a poesia de Rafael Alberti


Te digo adiós, amor, y no estoy triste   

Rafael Alberti

Te digo adiós, amor, y no estoy triste.
Gracias, mi amor, por lo que ya me has dado,
un solo beso lento y prolongado
que se truncó en dolor cuando partiste.

No supiste entender, no comprendiste
que era un amor final, desesperado,
ni intentaste arrancarme de tu lado
cuando con duro corazón me heriste.

Lloré tanto aquel día que no quiero
pensar que el mismo sufrimiento espero
cada vez que en tu vida reaparece

ese amor que al negarlo te ilumina.
Tu luz es él cuando mi luz decrece,
tu solo amor cuando mi amor declina.

TE DIGO ADEUS E NÃO ESTOU TRISTE

Te digo adeus, amor e não estou triste.
Graças, meu amor, pelo que  já me há dado,
Um só beijo lento e prolongado
que se tornou em dor quando partiste.

Não soubeste entender, não compreendeste
que era um amor final e desesperado
nem tentas-me me arrancar do teu lado
quando com um duro coração me feriste.

Chorei tanto naquele dia que não quero
pensar que o mesmo sofrimento espero
cada vez que em tua vida reaparece

esse amor que, ao negá-lo te ilumina.
Tua luz é ele quando minha luz decresce
tu só amor quando meu amor declina.


Ilustração: www.deart.ufu.br. 

Uma poesia bem religiosa


Aquellas palavras                       
 Santa Teresa de Jesús

Ya toda me entregué y di
y de tal suerte he trocado,
que es mi amado para mí,
y yo soy para mi amado.

Cuando el dulce cazador
me tiró y dejó rendida,
en los brazos del amor
mi alma quedó caída.

Y cobrando nueva vida
de tal manera he trocado
que es mi amado para mí,
y yo soy para mi amado.

Hirióme con una flecha
enherbolada de amor,
y mi alma quedo hecha
una con su Criador,

ya no quiero otro amor
pues a mi Dios me he entregado,
y mi amado es para mi,
y yo soy para mi amado.

AQUELAS PALAVRAS

Já toda me entreguei e dei
e de tal sorte me hei mudado,
que é meu amado para mim
e eu sou para o meu amado.

Quando o doce caçador
me tirou e deixou rendida,
nos braços do amor
minha alma quedou caída.

E ganhando vida nova
de tal maneira hei mudado
que é meu amado para mim
e eu sou para o meu amado.

Me feriu com uma flecha
enquadrado de amor,
e minha alma ficou feita
uma com seu criador,

Já não quero outro amor,
pois, a meu Deus me hei entregado
e meu amado é para mim
e eu sou para o meu amado.

Ilustração: Frades carmelitas. 



Friday, June 08, 2018

E, ainda uma vez , Gabriela Mistral


Apegado a mí                  
Gabriela Mistral

Velloncito de mi carne
que en mis entrañas tejí,
velloncito tembloroso,
¡duérmete apegado a mí!

La perdiz duerme en el trigo
escuchándola latir.
No te turbes por aliento,
¡duérmete apegado a mí!

Yo que todo lo he perdido
ahora tiemblo hasta al dormir.
No resbales de mi pecho,
¡duérmete apegado a mí!
  
APEGADO A MIM 

Carnezinha da minha carne
que em minhas entranhas teci
carnezinha tremendo,
dorme apegado a mim!

A perdiz dorme no trigo
ouvindo-o bater.
Não te turbes com o alento
dorme apegado a mim!

Eu que tudo já perdi
agora eu tremo até dormir.
Não resvales do meu peito
dorme apegado a mim!

Ilustração: Lado M. 



E, ainda uma vez, Dulce María Loynaz


Rosas                               
Dulce María Loynaz

En mi jardín hay rosas:
Yo no te quiero dar las rosas
que mañana…
mañana no tendrás.

En mi jardín hay pájaros
con cantos de cristal:
No te los doy,
que tienen alas para volar …

En mi jardín abejas
labran fino panal:
¡Dulzura de un minuto…
no te la quiero dar!

Para ti lo infinito o nada;
lo inmortal o esta muda tristeza
que no comprenderás …
La tristeza sin nombre de no tener que dar
a quien lleva en la frente algo de eternidad …

Deja, deja el jardín…
No toques el rosal:
las cosas que se mueren
no se deben tocar.

ROSAS

No meu jardim há rosas:
Eu não quero te dar rosas
o que amanhã ...
amanhã você não terá

No meu jardim há pássaros
com cantos de cristal:
Eu não os dou para você
que tem asas para voar ...

Nas minhas abelhas de jardim
Eles trabalham bem favo de mel:
Doçura de um minuto ...
Eu não quero dar a você!

Para você o infinito ou nada;
o imortal ou essa tristeza muda
que você não vai entender ...
A tristeza sem nome de não ter que dar
que tem algo de eternidade na testa ...

Saia, deixe o jardim ...
Não toque na roseira:
as coisas que morrem
eles não devem tocar.


Ilustração: Gshow-Globo.com.