Monday, April 24, 2017

Coração fugitivo




Eu tentei fazer uma armadilha                                   para prender teu coração.
Não deu certo não!
Teu coração gosta de liberdade,
de ar, de amplidão
e parece ter asas
ou gostar de estar no espaço sideral.
Minha armadilha pegaria um coração qualquer,
mas, teu coraçãozinho é sem igual
só se consegue tocá-lo de forma marginal.
E, mesmo assim, é tão esquivo
que, com certeza, tem uma vocação inigualável
para ser um coração eternamente fugitivo.

Thursday, April 20, 2017

Mais um poesia de José Ángel Buesa

José Ángel Buesa

Mi viejo corazón toca a una puerta,
Mi viejo corazón, como un mendigo
Con el afán de su esperanza incierta
Pero callando lo que yo no digo.

Porque la que me hirió sin que lo advierta,
La que sólo me ve como un amigo
Si alguna madrugada está despierta
Nunca será porque soñó conmigo.

Y sin embargo, ante la puerta oscura
Mi corazón, como un mendigo loco
Va a pedir su limosna de ternura.

Y cerrada otra vez, o al fin abierta,
No importa si alguien oye cuando toco,
Porque nadie sabrá cuál es la puerta.

Amor discreto

Meu velho coração toca uma porta,
Meu velho coração como um mendigo
Com o o alento de sua esperança incerta
Porém,  calando o que eu  não digo.

Porque o que  me fere sem que o advirta,
A que só me vê como um amigo
Se em alguma madrugada está desperta
Nunca será porque sonhou comigo.

E, sem embargo, ante a porta escura
Meu coração, como um  mendigo louco
Vai pedir a sua esmola de ternura.

E fechada outra vez, ou, ao fim,  aberta,
Não importa se alguém ouve quando toco,
Porque ninguém  saberá  qual é a porta.

Ilustração: MyCharades.com



Uma poesia de Juan Manuel Roca


SUEÑO CON ÁNGELES

Juan Manuel Roca

“Han llegado los ángeles en un buque de carga”
                                                                  (María Baranda)

Por el sueño navega un barco cargado de ángeles. Vienen en cajas de madera, en guacales de tablones salvados de un naufragio.
Los marineros los ven comiendo flores en su cepo como reos andróginos de una mudez de ostra.
Su destino es un misterio. No se sabe si serán vendidos a un zoológico, a un circo, a un aviario, a un taxidermista, a un tratante de alas.
Por tratarse de un extraño contrabando, -aunque no hay leyes marítimas que prohiban el transporte de ángeles en barcos- por tratarse de un tráfico de sueños, el capitán evita tocar los grandes puertos del mundo.
Es como si el barco estuviera condenado a no anclar nunca, a viajar sin destino con la carga emplumada y melancólica. Cada día huelen peor, a pústulas y almizcle, los maltrechos ángeles en sus podridos guacales. La nave se enfantasma en la niebla apagando sus luces y sus voces. Y la tripulación empieza a impacientarse, empieza a impacientarse...


SONHO COM  OS ANJOS

“Os anjos chegaram em um navio de carga”
(María Baranda)

Pelo sonho navega um barco carregado de anjos. Eles vêm em caixas de madeira, em caixas de pranchas salvadas de um naufrágio.
Os marinheiros os veem comendo flores em suas ações como prisioneiros andróginos de uma mudez de ostra.
O seu destino é um mistério. Não se sabe se serão vendidos a um zoológico, um circo, um aviário, um taxidermista, um tratante de asas.
Por se tratar de um contrabando estranho, embora não hajam leis marítimas proibindo o transporte de anjos em barcos- por tratar-se de um tráfico de sonhos, o capitão evitar tocar nos principais portos do mundo.
É como se o navio estivesse condenado a nunca ancorar, a viajar sem destino com a carga emplumada e melancolia. Cada dia cheiram pior, a pústulas e almíscar, os maltratados anjos em seus caixotes podres. O navio se assombra na névoa apagando suas luzes e suas vozes. E a tripulação começa a impacientar-se, começa a perder a impacientar-se ...

LÓGICA AMOROSA

O absurdo é que insistem                  

Em que a menor distância
Entre dois pontos
É uma linha reta
Ignorando a atração
De nossos corpos
Na razão inversa
Da razão e da distância.

Beijo teus seios.
Percorro retamente as curvas
Que me encaminham ao triângulo
Da perdição e do prazer
Para descobrir que ser sábio
É nada saber
E sim descobrir a delícia de teu corpo
Pelo gosto.  

Gemidos, gritinhos
E o êxtase inesperado
Que nos torna crianças
Lambuzando-se nos mais deliciosos doces,
Infantis
Na brincadeira mais feliz....

Inútil explicações...
Sobre a inutilidade da beleza de teus quadris.
Tudo em ti foi feito para amar
E só te amando me sinto feliz!

 


 

Wednesday, April 19, 2017

Uma vez mais a poesia de Cohen

DEAD SONG                           

Leonard Cohen

As I lay dead
In my love-soaked bed,
Angels came to kiss my head.
I caught one gown
And wrestled her down
To be my girl in death town.
She will not fly.
She has promised to die.
What a clever corpse am I!

CANÇÃO MORTA

Quando jazia de corpo presente
na minha cama de amor fluente
os anjos vieram beijar minha fronte.
Eu  agarrei forte na visão
e, pelejando, a derrubei no  chão:
seria minha pequena na cidade morta.
Ela não voava.
Ela tinha prometido morrer.
Que esperto cadáver eu sou.

Ilustração: Acontecendo Aqui



ABRIL




É um dia brilhante de abril.
O céu está azul,
Porém, com um jeito de que pode mudar
Sem qualquer aviso.
Talvez por me sentir nebuloso
ao lembrar de teus olhos azuis,
que insistes em dizer que são verdes,
e penso que o inferno
deve ser um tempo infinito,
como o que vivo agora,
longe de você.


Ilustração: Horóscopo do dia – Uol. 

Tuesday, April 18, 2017

Mais um poema de Ungaretti



ATTRITO

Giuseppe Ungaretti

Con la mia fame di lupo
ammaino
il mio corpo di pecorella
Sono come
la misera barca
e come l’oceano libidinoso

ATRITO

Com a minha fome de lobo
amaino
o meu corpo de cordeiro
Sou como
o mísero barco
e como o oceano libidinoso

Ilustração: xd.globo.com


Monday, April 17, 2017

TEMPOS



Sobre quem fui não sei dizer
nem lembro
é como uma folha branca
que se sabe apagada.

Hoje sou outro
que as chuvas molham
nos dias que me compõem
uma nova história
que ante os meus passos
o caminho traçam.

O meu futuro é uma ostra
que nunca saiu do mar,
embora já façam o leilão
da pérola que não sei se há.  

E, no presente, o destino é esperar.

Ilustração: http://ostra-viva.blogspot.com.br/
(De "Jardim Diz Persivo", Editora Per Se, 2013).

Wednesday, April 12, 2017

Mais uma poesia de Lorca

El poeta pide a su amor que escriba                         

Federico García Lorca

Amor de mis entrañas, viva muerte,
en vano espero tu palabra escrita
y pienso, con la flor que se marchita,
que si vivo sin mí quiero perderte.

El aire es inmortal. La piedra inerte
Ni conoce la sombra ni la evita.
Corazón interior no necesita
la miel helada que la luna vierte.

Pero yo te sufrí. Rasgué mis venas,
tigre y paloma, sobre tu cintura
en duelo de mordiscos y azucenas.

Llena, pues, de palabras mi locura
o déjame vivir en mi serena
noche del alma para siempre oscura.


O POETA PEDE A SEU AMOR QUE ESCREVA

Amor de minhas entranhas, vivo morto,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, como a flor que se murcha,
que, se vivo sem eu, quero perder-te.

O ar é imortal.  A pedra inerte
Nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
O mel gelado que a lua verte.

Porém, por ti sofri. Rasguei minhas veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordidas e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena

noite de alma para sempre escura. 

Tuesday, April 11, 2017

Uma poesia de Patrizia Ariza

La vida                              
Patrizia Ariza

El chaleco antibalas no sirve
la pistola nueve milímetros no sirve
el colt caballito 48 no sirve
la miniuzi es chatarra vieja
lo único que sirve es la vida, Hermano

A VIDA

O colete à prova de balas não serve
a pistola de nove milímetros não serve
o colt cavalinho 48 não serve
a MiniUzi é uma velha sucata
a única coisa que serve é a vida, o irmão

Ilustração: Caminhos da Iluminação.