Tuesday, December 31, 2019

E, de volta, para fechar o ano José Ángel Buesa




Canción del amor prohibido

José Ángel Buesa


Sólo tú y yo sabemos lo que ignora la gente
Al cambiar un saludo ceremonioso y frío,
Porque nadie sospecha que es falso tu desvío,
Ni cuánto amor esconde mi gesto indiferente.

Sólo tú y yo sabemos por qué mi boca miente,
Relatando la historia de un fugaz amorío;
Y tú apenas me escuchas y yo no te sonrío
Y aún nos arde en los labios algún beso reciente.

Sólo tú y yo sabemos que existe una simiente
Germinando en la sombra de este surco vacío,
Porque su flor profunda no se ve, ni se siente.

Y así dos orillas tu corazón y el mío,
Pues, aunque las separa la corriente de un río,
Por debajo del río se unen secretamente.


Canção do amor proibido

Só tu e eu sabemos o que  ignora a gente
Ao trocar  um cumprimento cerimonioso e frio,
Porque ninguém suspeita de ser falso teu desvio,
Nem quanto amor esconde meu gesto indiferente.

Só tu e eu sabemos por que minha boca mente,
Contando a história de um namoro transitório;
E tu apenas me escutas e eu não te sorrio
E ainda nos arde nos  lábios algum beijo recente.

Só tu e eu sabemos que há uma semente
Germinando na sombra deste sulco vazio,
Porque sua flor profunda não se vê, nem se sente.

São assim o teu coração e o meu, assim  sente,
Pois, ainda que os separe a corrente de um rio,
Por debaixo dele se unem secretamente.

Ilustração: Conceitos.com. 


Monday, December 30, 2019

Paixão adormecida


O risco de dizer que te amo é enorme.                                                  

Dentro de mim um dragão de prazer dorme.

Lamento a santa inocência de teu olhar
Que, sem mim, não há de saber o que é gozar.

E rio dos que, inutilmente, te cortejam.
Sei que somente os mosquitos te beijam.

E sei também que a paixão adormecida
Mais cedo ou mais tarde há de criar vida.

Na espera só choro as horas perdidas.

Ilustração: Galeria de Desenhos. 


Uma poesia de José Pedroni


EL GRILLO

José Pedroni

Un grillo manso que te quiere, amiga,
Y que en quererte vanamente insiste,
Cada vez que el silencio rehace
Te silabea su reclamo triste.

Abre los ojos. No te duermas. Ponte
Bien cerca, amiga, de mi pecho añoso;
Y así, callados, escuchemos juntos
La campanita del cri-cri amoroso

Entre las gentes del camino, siempre
Un hombre humilde me propongo ser,
Como el grillito que te quiere tanto
Y que te canta sin dejarse ver.


O GRILO

Um grilo manso que te ama, amiga,
E que em te amar inutilmente insiste
Cada vez que o silêncio se refaz
Te presenteia com seu canto triste.

Abre teus olhos. Não dorme. Chega
Bem perto, amiga de meu velho peito;
E assim calados, escutemos juntos
A campainha do cri-cri amoroso

Entre as pessoas do caminho, sempre
Um homem humilde me proponho a ser,
Como o grilo que te ama tanto
E que te canta sem deixar-se ver.

Ilustração: Facebook.

Outra poesia de Mary Oliver




Breakage

Mary Oliver

I go down to the edge of the sea.
How everything shines in the morning light!
The cusp of the whelk,
the broken cupboard of the clam,
the opened, blue mussels,
moon snails, pale pink and barnacle scarred—
and nothing at all whole or shut, but tattered, split,
dropped by the gulls onto the gray rocks and all the moisture gone.
It’s like a schoolhouse
of little words,
thousands of words.
First you figure out what each one means by itself,
the jingle, the periwinkle, the scallop
       full of moonlight.

Then you begin, slowly, to read the whole story.

ARREBENTAÇÃO

Eu desço até a beira do mar.
Como tudo brilha na luz da manhã!
A ponta do búzio,
o armarinho quebrado do molusco,
os mexilhões azuis,  abertos,
caracóis da lua, rosa-pálidas cracas cicatrizadas –
e nada de todo ou fechado, mas em frangalhos, fendido,
largado pelas gaivotas nas pedras cinzentas e toda umidade perdida.
É como uma escola
de pequenas palavras,
milhares de palavras.
Primeiro você descobre o significado de cada uma em si,
o tinir, a pervinca, a vieira
cheia de luar.

Aí você começa, lentamente, a ler a história inteira.
Então você começa, lentamente, a ler toda a história.

Ilustração: Fluxexperience.com.br

Uma poesia de Eduardo Mileo


 
XXXIX                                                                 
Eduardo Mileo

Es un día de fuego.
Estalla en los ojos
el sol de la cúpula
y es un incendio de odio la campana.

Cantan los fieles una fe que se apaga.
San Cayetano tiene la espiga marchita.

Pero bailan como alambres
las filas de fidedignos,
las columnas encendidas de la grey.

Es un día de fuego
porque hay fuego en los ojos
porque es de fuego el rostro que confía.

Es de fuego y tiene hambre.
La sombra no se come.

Ya no se bendice el agua.
Dios no tiene perdón.

El que está sin amor
o el que está sin trabajo
abandona la fila de creyentes
y camina junto a las paredes
escritas por los herejes.

De Extracción del agua de la niebla (inédito).


XXXIX

É um dia de fogo.
Estala nos olhos
o sol da cúpula
e é um incêndio de ódio, o sino.

Cantam os fiéis uma fé que se apaga.
São Caetano tem uma espiga murcha.

Porém, eles dançam como fios
as filas de fidedignos,
as colunas iluminadas do rebanho.

É um dia de fogo
porque há fogo nos olhos
porque o rosto que confia é de fogo.

É de fogo e tem fome.
A sombra não se come.

Já não se bendiz a água.
Deus não tem perdão.

O que está sem amor
ou o que está sem trabalho
abandona a fila dos crentes
e caminha junto às paredes
escritas pelos hereges.

De “Extração da água e da névoa” (Inédito).

Ilustração: Revista Adventista.

FICO AQUI



FICO AQUI                                 

Silvio Persivo

Levanto-me.
Baila no ar
uma canção de amor
de Claúdio Santoro
com letra de Vinicius de Moraes.

Eu não tento me organizar mais.
Alegremente
disperso os papéis.
E concentro o pensamento
onde você não está.

O amor não irá nunca
E, por isto, outra vez,
faço poesias para você
neste mesmo lugar.

................

I STAY HERE

I stand up
Ballet in the air
a love song
by Claudio Santoro
with lyrics by Vinicius de Moraes.

I don't try to get organized anymore.
Happily
I scatter the papers.
And I concentrate the thought
where you are not.

Love will never go
And for that, again,
I make poetry for you
in this very place.

Ilustração: Plano Critico.

Turbulência no avião




Senti, quando entrei, que embarcar neste avião
era como entrar em velocidade na contramão.
E, ao olhar para a cabine do piloto,
reconheci, de pronto, o cara louco
que, ontem, bebia vodca como se fosse água.
Nem pensem que extravaso alguma mágoa.
Não. Devo reconhecer que devia ter descido,
mas, a vida, de qualquer modo, é um perigo,
de forma que fiquei e depositei minha confiança
na estatística, que me informa que uma queda
é mais difícil do que ganhar na loteria.
Agora, com este descalabro, este balançar,
como se fosse bola de pingue pongue,
sinto que errei, que não devia.
Talvez tenha sido o fato de que esta companhia,
além de cumprir horários, nunca perdeu uma nave,
esqueci que avião é pesado, não é ave,
e o passado nada informa sobre o futuro.
Na verdade, só nos resta rezar,
principalmente, vendo o medo, é duro,
que se vê no olhar da comissária,
depois de falar com o co-piloto.
Não é hora de procurar culpados.
Mortos não culpam ninguém
e também nenhuma culpa tem.
Vão passar anos investigando
e, depois, numa breve nota
dirão que foi erro humano
ou de manutenção.
Nada de chorar.
Encare as coisas com isenção:
pegamos o voo errado.
É muito azar!

Outra poesia de Alain Freixe


A chants perdus dans un ciel dur         

Alain Freixe

(…)
ce soir
le ciel a la transparence austère
d’un cristal mal taillé

s’ils volaient
les oiseaux s’y blesseraient

mais c’est aux nids
abris rebelles et assourdis
qu’ils confient leurs chants
alentis dans les fourches
sombres des branches

c’est dans le silence
que le vent sèche
qu’on les entend

c’est là qu’ils prennent corps
et s’absentent

(…)


(...)
esta noite
o céu de uma transparente austeridade
de um cristal mal talhado

se eles voassem,
os pássaros, se machucariam

mas, é para os ninhos de
abrigos rebeldes e surdos
que confiam suas canções
nos galhos
escuros dos ramos

é em silêncio
que o seco vento
os entende

é aí que eles tomam corpo
e estão ausentes

Ilustração: Meg Tomio Roussenq.


Friday, December 20, 2019

BIPOLAR


Eu te odeio com o amor mais imenso
que se pode ter. 
E te amo com o ódio mais feroz 
que alguém pode conceber.
E nem sei se te amo ou te odeio
quando, com raiva, beijo teus seios,
invado teu ventre, 
num amor demente, 
que tem tudo de paixão e desejo,
ao se completar numa chuva de beijos,
que se desfaz numa névoa de prazer
porque sou completamente louco:
amo e odeio você! 

Ilustração: Diário da Psique. 


Friday, December 13, 2019

Outro poema de Tomás Segovia


Y SIN EMBARGO, A VECES, TODAVÍA…

Tomás Segovia

Y sin embargo, a veces, todavía,
así de pronto, cuando te estoy viendo,
vuelvo a verte como antes, y me enciendo
del mismo modo inútil que solía.

Y me pongo a soñar en pleno día,
y reprocho al destino, corrigiendo,
como los locos, lo que fue; y no entiendo
cómo no pude nunca hacerte mía.

E imagino que anoche me colmaste
de placeres sin nombre, y que esa chispa
perversa y de ternura en tu mirada

prueba que lo otro es nada -que gozaste,
que a ti también este limbo te crispa,
¡que al fin te di el orgasmo!- y lo otro es nada.


E SEM EMBARGO,  ÀS VEZES, TODAVIA ...

E sem embargo, às vezes, todavia,
assim de pronto, quando te estou vendo,
volto a te ver como antes, e me acendo
do mesmo modo inútil que fazia.

E me ponho a sonhar em pleno dia,
e reprovo ao destino, corrigindo,
como os loucos, o que fui; e não entendo
Como não pude nunca fazer-te minha?

E imagino que de noite me preenches
de prazeres sem nome, e que esta faísca
perversa e de ternura em tua olhada

prova que o outro é nada - que gozastes,
que a ti também este limbo te crispa,
que, no fim, te dei um orgasmo! e o outro é nada.


Outra poesia de Miguel Antonio Caro


Hora XVI.                         
Miguel Antonio Caro

¿Por qué en el rayo de estrellas remotas
Que en cristalino raudal se estremece?
¿Por qué en aquellos que el músico ofrece
Acordes trinos, dulcísimas notas?

¿Por qué en los ojos, do en tímidas gotas
Que un beso enjuga, amor resplandece,
Hay algo triste que el pecho enternece
Y el alma cubre de sombras ignotas?

¡Ah, siente el hombre que ser más debía!
No es inocente y está desterrado;
Algo le falta que tuvo algún día.

¡Hondo vestigio de un bien que ha pasado!
¡Reminiscencia de antigua alegría!
¡Remordimiento de antiguo pecado!


HORA XVI.

Por que no raio de estrelas remotas
Que no cristalino fluxo estremece?
Por que naqueles que o músico oferece
Acordes trinos, notas doces?

Por que nos olhos, doem em gotas tímidas
Que um beijo enxuga, o amor resplandece,
Há algo de triste que o peito enternece
E a alma cobre com sombras ignoradas?

Ah, sente o homem que ser mais devia!
Não é inocente e está desterrado;
Algo lhe falta que teve um dia.

Profundo vestígio de um bem passado!
Reminiscência da antiga alegria!
Remorso do antigo pecado!

Ilustração: Youtube.