Wednesday, June 30, 2021

SOZINHO NA NOITE FRIA



Numa noite muito fria assim de junho

devo confessar que ser poeta é tão difícil!

E ser homem muito mais ainda!

Tudo por sentir tanto tua falta, minha linda.

É um frio que vem da ausência da tua presença desejada

tanto que até sonhei que estavas do meu lado

(para o teu nunca iria, pois, faz muito mais

frio por aí).

Nem me importava 

que viesses toda encapuzada.

Afinal não queria mesmo nada, 

 exceto sentir na madrugada 

a doce quentura de teu corpo. 

Ilustração: Blog Esposas on line. 

Uma releitura de Carmen Sánchez


Carmen Sánchez

Abrazar su estrato de mar.

Abrazar su piel de roca.

Sentir el enmascarado

paisaje del atardecer.

Sal, brisa, espuma

cuando aparecen

sus ojos de niño,

sus ojos de lobo,

sus ojos de amante.

Dejar los besos

en su cuello de arena

para los días de sombra.

 

Abraçar o seu estrato de mar.

Abraçar sua pele de rocha.

Sentir a paisagem

mascarada do entardecer.

Sal, brisa, espuma

quando aparecem

seus olhos de criança,

seus olhos de lobo,

seus olhos de amante.

Deixar os beijos

no seu pescoço de areia

para os dias sombrios.

Ilustração: Tabitha Vevers.

Mais uma poesia de Giovanni Quessep

 


Mediodía

Giovanni Quessep

Pájaros. Araucarias. No hay esencia
sin claridad en este mediodía.
Toma la fantasía
que me da la divina indiferencia.

Profundo en la memoria
va el girasol que la mirada advierte.
No pasa el cielo de cristal. Oh muerte,
el polvo cesa de mover tu noria:

Músicas y alta rama
del tiempo en la delicia del que espera.
¿Quién viene? ¿Quién me llama?
Otra forma se inicia en la pradera.

MEIO-DIA

Pássaros Araucárias. Não há essência

sem claridade ao meio-dia.

Toma a fantasia

 que me dá a divina indiferença.

 

Profundo na memória

vai o girassol que o olhar adverte.

Não passa pelo céu cristalino. Oh! Morte,

a poeira para de mover tua roda giratória:

 

Música e alta rama

do tempo da delícia do que espera.

Quem está vindo? Quem me chama?

Outra forma se inicia na planura.

Monday, June 28, 2021

DANÇAS

 


O teu olhar tantas vezes me disse,

por vezes de modo profundo,

como se preocupar era tolice

pelas mudanças e voltas do mundo. 


Tua voz, para mim uma melodia,

ainda soa, no presente, rouca,

porém sumiu no tempo, um dia,

levando o gosto doce de tua boca.

Tuas mãos que, em vão, procuro

não me seguram mais sempre a teu lado

e acordo assombrado no escuro

me perguntando o que deu errado.

É no vinho que a lucidez me invade

e lembro do teu corpo, da felicidade,

de dias e noites, da inesgotável sede

de tanto amor, sem culpa nem maldade.

E sem amor, sem paixão, amor na vida

me vendo no espelho como sou.

Ilustração: cinemais.com.br. 

Saturday, June 26, 2021

RETALHOS

 


Não esperarei mais por tua volta.

A porta está aberta, a fechadura destravada,

Mas as dores do passado estão mortas.

 

Nem sei se terei mais alegria

Na tua companhia. E se chegas serás uma incógnita

Depois de tantos dias de silêncio e esquecimento.

 

Serás, por acaso, a mesma nos carinhos e beijos?

Ou, pelos caminhos, na busca de esperança,

Em imaginários desejos e lábios outra se fez?

 

Nem sempre depois da tempestade a vida recompõe

O que as águas e os ventos destruíram. São fatos.

A passagem pode não ser visível e ser mortal.

 

Na realidade do viver se afoga a utopia

E o ponto na distância some, ou se agiganta,

Dependendo do olhar. Talvez não haja o que restaurar...

 

Talvez quando voltares se rasgue a fantasia,

Todo o passado, seja um mundo fictício; o amor, um vício.

Nosso romance, uma mera ilusão.

 

Não esperarei tua chegada... partido estou na partida.

Ilustração: pensesonheviva.blogspot.com

 

E, de volta Langston Hughes

 


Dream Variations

Langston Hughes

To fling my arms wide
In some place of the sun,
To whirl and to dance
Till the white day is done.
Then rest at cool evening
Beneath a tall tree
While night comes on gently,
Dark like me-
That is my dream!

To fling my arms wide
In the face of the sun,
Dance! Whirl! Whirl!
Till the quick day is done.
Rest at pale evening...
A tall, slim tree...
Night coming tenderly
Black like me.


 VARIAÇÕES DO SONHO

Para espalhar meus amplos braços
Em algum lugar ao sol,
Para o turbilhão e a dança
Até o dia branco é feito.
Então descansa a fria noite
Sob uma alta arvore
Enquanto a noite vem gentilmente,
Preta como eu -
Este é o meu sonho!

Para espalhar meus amplos braços
Em face do sol,
Danço! Turbilhão! Turbilhão!
Até o dia rápido é feito.
Resta a pálida noite ...
Uma alta, esguia árvore ...
Noite vindo ternamente
Preta como eu.

Ilustração: Bing.


Mais de Francisco Quevedo

 


POLVOS DE AMOR

Francisco Quevedo

Amor postrero más allá de la muerte.

Cerrar podrá mis ojos la postrera

Sombra que me llevare el blanco día,

Y podrá desatar esta alma mía

Hora, a su afán ansioso lisonjera;

Mas no de esotra parte en la ribera

Dejará la memoria, en donde ardía:

Nadar sabe mi llama el agua fría,

Y perder el respeto a ley severa.

Alma, a quien todo un Dios prisión ha sido,

Venas, que humor a tanto fuego han dado,

Médulas, que han gloriosamente ardido,

Su cuerpo dejará, no su cuidado;

Serán ceniza, mas tendrá sentido;

Polvo serán, mas polvo enamorado.

AMOR EM PÓ

 Amor futuro, mais além da morte.

Quando fechar meus olhos bem mais tarde

Na sombra que me levar o branco dia,

Que poderá desatar a alma minha

Hora, em sua ânsia fugaz, ligeira;

Mas, que não desta outra parte do rio

Deixará a memoria, onde ardia:

Nadar sabe minha chama na água fria,

E perder o respeito à lei severa.

Alma, a quem a todo um Deus prisão tem sido,

Veias que folego a tanto fogo há dado,

Medulas, que gloriosamente tem ardido,

Seu corpo deixará não sem cuidado;

As cinzas que serão, mas, com sentido;

Poeira sim, mas, uma poeira de amor.

 

Tuesday, June 22, 2021

URGÊNCIA

 


Nesta noite, hoje, agora, já, há
Esta imensa necessidade de teu corpo,
Teus braços, tuas coxas, teu ventre, teus seios.
Todo meu conhecimento se resume
A este desejo desconhecido, e súbito,
Que me impele a dizer
Todas as palavras impensadas
Que brotam como flores incompreensíveis
Para que compreendas
O pouco significado do amanhã
Que, suspeito, tu sabes
Quando agora, já, neste momento,
Representas tudo e tudo represento:
Um homem, uma mulher e um doce momento
Em que a vida se faz mágica
E a paixão e o prazer são nossa razão
e alimento,
E alcançar, ao mesmo tempo, o céu,
O compasso que rege a dança
De nosso comum pensamento
Que nossos corpos conduz
A mais doce aliança.

Ilustração: Bing.

Outra poesia de Vicente Quirarte

 


LA POESÍA


 Vicente Quirarte

 Mancha expansiva de café vino o aceite sobre un mantel en blanco.

Llegaste cuando debías. Tu carruaje como tienda de gitanos.

Tus anillos con forma de serpiente,

ávida de tocar, morder, meterse, enajenar.

No llegaste montada en el potro de lujo donde a veces me ha tocado cabalgarte en pelo.

Eras, como las hembras donde se queda el verano,

tienda humilde por fuera.

Se filtraban en mi sangre voces de otras mercaderías.

Mi abuelo murió loco.

Mi padre tradujo el idioma de los acantilados

y surcaba las noches

montado en la bruja roja de las anfetaminas.

Y tú llegaste, a veces con tus grandes pechos,

otras con tus pezones niños.

Y pensé que eras para mí.

Afuera esperaba, impaciente, un regimiento.

 

A POESIA

Mancha expansiva de café vinho ou azeite em uma toalha de mesa branca.

Chegastes quando devias. Tua carruagem como uma loja de ciganos.

Teus anéis em forma de serpentes

avida  por tocar, morder, meter-se, alienar-se.

Não chegastes montada num potro de luxo onde às vezes tive que cavalgar-te em pelo.

Eras, como as fêmeas onde fica o verão,

loja humilde por fora.

Se filtravam em meu sangue vozes de outras mercadorias.

Meu avô morreu louco.

Meu pai traduziu a língua dos penhascos

e sulcava as noites

montado na bruxa vermelha das anfetaminas.

E tu chegastes, às vezes com teus seios grandes,

outras com teus mamilos infantis.

E pensei que eras para mim

Lá fora, esperava impacientemente, um regimento.

Ilustração: https://vilamulher.com.br/.

Sunday, June 20, 2021

DESCONSOLO

 

De repente, hoje, somente

sem motivo nenhum aparente

senti tua falta.

E me arrependi amargamente

escutando os mesmos tristes boleros,

que me faziam,

entre beijos e taças de vinho,

tão feliz antigamente.

Me senti tão sozinho,

tão frágil

que entrei na internet

tentando localizar teu nome

só para dizer que te amo,

mas, preguiçosa do jeito que és,

só tu, meu bem, lá não pões os pés

quanto mais as mãos.

E sem um meio de te mandar um e-mail

este cibernauta infeliz

desesperado,

só teve o recurso

de fazer estes versos

para dizer como está desconsolado.

 


E, de volta Salvador Díaz Míron


LA CANCIÓN DEL PAJE
 

Salvador Díaz Míron

Tan abierta de brazos como de piernas,

Tocas el harpa y ludes madera y oro.

Dejo al mueble la plaza por el decoro,

Y contemplo caricias a hurgarme tiernas.

 

A tu ardor me figuras y subalternas

En la intención del alma que bien exploro,

Y en el roce del cuerpo con el sonoro

Y opulento artefacto que mal gobiernas.

 

Y tanto me convidas, que ya me infiernas;

Y refrenado y mudo finjo que ignoro,

Para que si hay ultraje no lo disciernas.

 

Por fiel a un noble amigo pierdo un tesoro...

Tan abierta de brazos como de piernas,

Tocas el harpa y ludes madera y oro.

 A CANÇÃO DO PAJEM

 Tão aberta de braços como de pernas,

Tocas harpa e jogas madeira e ouro.

Deixo a praça para os móveis por decoro

E contemplo carícias a meu ver ternas.


A teu ardor me afiguras e subalternas

Na intenção da alma que bem exploro,

E no roçar do corpo com o sonoro

E opulento artefato que mal governas.

 

E tanto me convidas que me infernizas;

E refreado e mudo finjo que ignoro,

Para que se há ultraje não o percebas.

 

Fiel a um nobre amigo perco um tesouro ...

Tão aberta de braços como de pernas,

Tocas a harpa e jogas madeira e ouro.

Ilustração: Freepik.

 


Saturday, June 19, 2021

É A VIDA


 

Tecnicamente a vida é simples:

Acordar, comer, amar, sorrir,

fazer alguma coisa e dormir.

É verdade que existem as doenças,

os deveres, os débitos, os desvios e os delírios.

Dizem que também o carma, a carne e o carnaval. 

Hoje, a chuva e o tempo não fazem diferença ou mal.

Na prática só desejo

vinho e a calma furiosa de teu corpo,

que, no amor, tem a mansidão do mar

em tsunami. 

Isto é a vida.

E, sem dúvida, é doce e complicada.

Ilustração: unsfiosdecabeloeumacaneta.blogspot.com.

DESPEDAÇADOS


O que era mistério, doçura, desejo
se revelou, com um beijo,
constante tentação,
porém, o tempo,
cruel carrasco da beleza,
a liberdade do prazer
prendeu na jaula do cotidiano
e a glória dos grandes momentos
se tornou apenas a repetição sistemática
da mesma peça, igual, estática.
E agora o que foi delícia
É só monotonia.
E o que era sublime,
banal;
E o que era sonho,
só desilusão.
E o todo do que fomos
são só partes
de um quebra-cabeças
sem possibilidades
de ser resolvido.


Outra poesia de Maria Ángeles Pérez López





[Sobre su pecho muerto]

 María Ángeles Pérez López

Sobre su pecho muerto, la mujer

pinta una gran ventana para el aire.

El corazón, en su áspera alegría,

asoma al sur su sala octogonal

por el hueco del seno que extirparon

la enfermedad, la mano, el bisturí.

Sobre su pecho muerto, la mujer

raspa cualquier recuerdo doloroso

y colorea el soplo y el zumbido

del arrebato rojo de quedarse.

El hospital se borra en su blancura,

esa sala de espera es no lugar,

la habitación sin lágrimas ni olivos

es también no lugar, los lavatorios

y ascensores que nunca se detienen,

el pasillo alargado como el miedo

de biopsia en biopsia es no lugar.

La madre le cosió dos grandes senos

con hilo destrenzado del cordón

que la anudaba al tiempo y sus asomos.

Ahora un médico serio, preocupado

descose uno de ellos, lo retira

en silencio, y la extensa cicatriz

que corre por el tórax como el frío

abrasa los paisajes de la tundra.

Pero sobre su pecho, la mujer

sombrea un árbol negro, transversal

por la ira de perderse en el otoño.

También nubes y niños anhelantes

en su transpiración y su ajetreo

para mojar la tarde y las palabras.

El viento que entra en tromba la despeina

y su risa es un pájaro veloz.

SOBRE SEU PEITO MORTO

Sobre seu peito morto, a mulher

pinta uma grande janela para o ar.

O coração, em sua áspera alegria,

assoma ao sul sua sala octogonal

pelo oco do seio que extirparam

a doença, a mão, o bisturi.

Sobre seu peito morto, a mulher

raspa todas as memórias dolorosas

e colore o murmúrio e zumbido

do arrebatamento vermelho de ficar.

O hospital é apagado em sua brancura,

a sala de espera não é lugar,

o quarto sem lágrimas ou oliveiras

Também não é o lugar, as pias

e elevadores que nunca param,

o corredor comprido como o medo

de biópsia em biópsia não é o lugar.

A mãe costurou dois seios grandes

com fio sem torção do cordão

que o ligava ao tempo e às suas aparências.

Agora um médico sério e preocupado

descompacta um deles, remove-o

em silêncio, e a extensa cicatriz

que atravessa o peito como frio

chamusca as paisagens da tundra.

Mas em seu peito, a mulher

sombreia uma árvore negra, transversal

da raiva de se perder no outono.

Também as nuvens e as crianças ansiosas

em sua transpiração e sua agitação

molham a tarde e as palavras.

O vento que vem soprando bagunça seus cabelos

e sua risada é um pássaro veloz.                


Thursday, June 17, 2021

E, de volta Miguel Hernandez

 Besarse, mujer


Miguel Hernandez

Besarse, mujer,
al sol, es besarnos
e toda la vida.

Ascienden los labios
eléctricamente
vibrantes los rayos,
con todo el fulgor
de un sol entre cuatro.

Besarse a la luna,         
mujer, es besarnos
en toda la muerte.

Descienden los labios
con toda la luna
pidiendo su ocaso,
gastada y helada
y en cuatro pedazos.

Beijar-se mulher

Beijar-se, mulher,

ao sol, é nos beijarmos

e toda vida.


Ascendem os lábios

eletricamente

vibrantes os raios,

com todo o brilho

de um sol feito em quatro.

 

Beijar-se à lua,

mulher, é nos beijarmos

em toda a morte.

 

Descendo dos lábios

com toda a lua

pedindo seu ocaso,

cortada e gelada

em quatro pedaços.

 



DESFAZENDO

Que tudo acontece por alguma razão

Acreditei sem razão nenhuma-

Isto me pareceu lógico.

 

No entanto também é tão racional

Que o acaso me pareceu irreal

E toda mágica inexistente

Por isto mesmo tão inconsistente.

 

Nada pode ser tão pré-determinado

Me lembra Heisenberg

E, como tudo é relativo,

O destino é uma variável

Cheia de incógnitas.

 

Não há razão para coisa alguma.

Ilustração: Imaginação Colorida.

 


E, de volta, Stephen Crane


And you love me

Stephen Crane

I love you.

 

You are, then, cold coward.

 

Aye; but, beloved,

When I strive to come to you,

Man's opinions, a thousand thickets,

My interwoven existence,

My life,

Caught in the stubble of the world

Like a tender veil --

This stays me.

No strange move can I make

Without noise of tearing

I dare not.

 

If love loves,

There is no world

Nor word.

All is lost

Save thought of love

And place to dream.

You love me?

 

I love you.

 

You are, then, cold coward.

 

Aye; but, beloved –

E VOCÊ ME AMA

 

Eu te amo.

 

Você é, então, um frio covarde.

 

Aye; porém, amado,

Quando eu me esforço para chegar até você,

As opiniões dos homens, mil arvoredos,

Minha existência entrelaçada,

Minha vida,

Pega no restolho do mundo

Como um suave véu -

Isto me mantém.

No movimento estranho que eu possa fazer

Sem barulho de lágrimas

Eu não me atrevo.

 

Se o amor ama,

Não há mundo

Nem palavra.

Tudo está perdido

Salvo o pensamento de amor

E o lugar do sonho.

Você me ama?

 

Eu te amo.

 

É, então, um frio covarde

Aye; Mas, amado-

Ilustração: https://www.spiritfanfiction.com.