Sara Toro
Que me voy a morir,
piensan mis padres cada
vez que mi cuerpo
deja un rastro
defractario
en cielo extranjero,
o viajo en un vehículo
que no conducen
sus pies,
sus manos,
la espalda recta
de sus decisiones.
Tampoco yo contemplo que
sus dedos de tubérculo
alejado del agua,
o que su cintura kintsugi de
Supergen setentero
estercolen la tierra
antes que yo,
fruto último de su
cosecha
arrancado verde
y exportado
para alimento de otros.
Si les precedo,
enterrarán de mí
la parte que no conocen.
Me vestirán con un jersey
incómodo
e informarán de la
tragedia a familia
y amigos varados
en el muelle de la
infancia.
Yo que siempre fui
de vagabundeo
requeriré de hombros de
hombre
y fémur-clavícula de
mujer
para gestionar la materia
fungible
de mi cuerpo.
(Ojalá se salven de la
tragedia
algunos dedos manchados
de carmín
y las córneas).
A mis ascendientes legaré
una sucesión intestada de
perros
y amantes callejeros
que acariciará el agujero
negro
de la historia.
Sobrevivirán,
inexplicablemente,
muchas de mis plantas de
interior.
Alguien dirá tras mi
funeral:
Me encantó. Lloré.
Mi fantasma arrepentido
de haber tardado tanto
en volver a casa,
tratará de atravesarse el
lóbulo
con un zarcillo.
Pasará el pendiente,
la muerte pendiente
pasará.
CARROSEL DE HIPÓTESES DO
MEU MORRER
Que vou morrer,
pensam meus pais toda vez
que meu corpo
deixa um rastro
fragmentado
em céus estrangeiros,
ou quando viajo em um
veículo
que não é dirigido
por seus pés,
suas mãos,
a firmeza
de suas decisões.
Nem contemplo seus dedos tubérculo
distantes da água,
ou suas cinturas kintsugi
de Supergen dos anos setenta
fertilizando a terra à
minha frente,
o último fruto de sua
colheita
colhido verde
e exportado
para alimentar outros.
Se eu os preceder,
eles enterrarão
a parte de mim que não
conhecem.
Eles me vestirão com um
suéter desconfortável
e informarão a família
e os amigos encalhados
no cais da infância sobre
a tragédia.
Eu, que sempre fui
um andarilho,
precisarei dos ombros de
um homem
e do fêmur e da clavícula
de uma mulher
para lidar com a matéria
consumível
do meu corpo.
(Espero que alguns dedos
e córneas manchados de batom sejam poupados da tragédia.)
Aos meus ancestrais,
legarei uma sucessão infestada de cães e amantes perdidos que acariciarão o
buraco negro da história.
Muitas das minhas plantas
de casa sobreviverão, inexplicavelmente.
Alguém dirá depois do meu
funeral: "Me encantou.
Chorei."
Meu fantasma, arrependido
De ter demorado tanto
para voltar para casa,
tentará perfurar o lóbulo da orelha
com uma gavinha.
O brinco passará,
a morte iminente
passará.
Ilustração: Bandalheira.
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