Saturday, January 03, 2026

Amigos, Amigos

 


A verdade é que não sei porque amo meus amigos.

Alguns, poucos, talvez, seja por serem loucos ou tristes.

Outros porque tocam bandolim, violão, pandeiro

(não sei explicar, mas, poucos são movidos por dinheiro)

e, quase todos, bebem muito cerveja, vinho, uísque e cachaça.

Muitos por cantarem bem, ou terem algum talento inato,

e, uns poucos poetas, poetas, em geral, são muito chatos.

Há os que sempre me encantam pela delicadeza ou trato

e os que, simplesmente, são amigos por apenas amigos serem.

Não sei também explicar como se fizeram amigos.

Há uns que chegaram de repente, outros bem devagar.

Há os que se perdem na estrada e nunca mais vão voltar.

Sempre fazemos amigos em qualquer lugar,

mas, os maiores, os verdadeiros, dos quais nem preciso falar,

são os menos lembrados, deles nem vivo a falar

porque estão sempre à mão,

pois, não importa o tempo, nem a distância,

que eles vivem no meu coração.

(De “Poemas Malcomportados”, Rio de Janeiro, Courier Brasil, 2021).

Ilustração: Mapa do Meu Céu.

Ode à Estrela Cadente

                       Para Úrsula Maloney, um exemplo de ser humano. 

Sinto que os dias do ano novo

não são mais os mesmos. 

Eu também não sou.

Mas, é diferente. 

Os dias seguem em frente

seguem o tempo eternamente.

E sinto a sensação imensa

de sermos tão transitórios

como uma estrela cadente

que caiu na Terra 

no dia primeiro. 

Ilustração: Freepik. 

 

Outra vez Antonietta Tiberia

 


Antonietta Tiberia

IV

Le stelle lucono

sullo sfondo del cielo

come annebbiate

IV

As estrelas brilham

contra o fundo do céu

como se estivessem enevoadas

V

Fitta boscaglia

Mi sbarrano la vista

cespugli e siepi

V

A densa vegetação rasteira

Me barra a vista

Arbustos e sebes

VI

Pioggia obliqua

frustava le finestre

Sempre più fita 

VI

A chuva oblíqua

Batia contra as janelas

Cada vez mais forte

Ilustração: GZH.

Uma poesia de Izaskun Gracia Quintana

 


 Izaskun Gracia Quintana

pase lo que pase

no vamos a aprender nada

cubiertos los ojos de buey

nos creceremos ante lo (a)cometido

y brindaremos hasta la ceguera con la savia de otros tótems

olvidando en el proceso todos los pasos posibles

 

y así despertar en un futuro incierto

gastadas las suelas quemados los pulmones

y maldecir la suerte con la angosta seguridad de los ausentes


Aconteça o que acontecer,

não vamos aprender nada

cobertos os olhos com uma venda

nos cresceremos ante o (a) cometido

e brindaremos até a cegueira com a seiva de outros

totens

esquecendo, no processo, todos os passos possíveis

 

e assim despertaremos em um futuro incerto

solas cansadas, pulmões queimados

e maldizendo a sorte com a estreita segurança dos ausentes

Ilustração: Wook.      


Tuesday, December 30, 2025

Salmo do Ano Novo

 



Longe soam, as notas do clarim, sons poderosos

Arautos de um novo tempo

Que fazem fortes e felizes nossas vidas passageiras.

Nós requentamos, com o óleo do otimismo, as nossas esperanças

E esquecemos a espada trocando-as pelas danças

E nos tornamos, inesperadamente, ótimos dançarinos.

Que toquem os sinos

Que o nosso amor seja a argamassa

Dos dias felizes

Dos caminhos não percorridos por nós e pelos ventos.

Que os deuses nos tragam de volta nossos sonhos de outrora

E possamos, satisfeitos de amor, saudar a aurora

Felizes com o novo amanhecer

Preparados para cantar, sorrir, viver

Um Novo Ano.

Ilustração: Freepik.

Poema das Coisas que Não Sei



Eu não poderia te dizer, sobre as coisas que não sei,

muito mais do que te digo:

Sou feliz contigo.

Sou feliz

contra toda lógica, circunstâncias, ocasião.

Se for loucura, prefiro não ser são.

E, se por muito tempo, não podemos estar juntos,

então, mudemos de assunto.

Falemos de amores ainda mais impossíveis.

Afinal não somos nenhum Romeu nem Julieta-

até pela idade- e o fato de que nossa nobreza é tupiniquim,

porém, não tenho culpa de te ter conhecido mais tarde do que devia,

da vida nos ter feito esta ironia

e de te amar tanto assim.

Não creio que isto possa ser ruim.

Ainda mais quando penso

que, sem você,                              

não tenho mais prazer

não tenho paz,

e quando, como agora,

fico distante, dói demais! 

Ilustração: Guiame.

 


Outro poema de Luiz Díaz

 

Por que tantas pessoas evitam espelhos? Entenda o que está por trás

Luiz Díaz

nunca quise la nariz de mi padre me miraba en los espejos buscando cambios como quien observa una flor esperando a que se abra

nunca quis o nariz do meu pai me olhava nos espelhos buscando mudanças, como quem observa uma flor esperando que ela desabroche.


Uma poesia de Álvaro Menen Desleal





Recetas a una vieja burguesa para que sea feliz del todo

Álvaro Menen Desleal

Sepulta cuidadosamente las páginas insólitas de

viejos cascarrabias como Marx, el gran culpable;

 

destruye hoja por hoja los versos de Rimbaud,

joven durazno con vicios milenarios, y quiebra

ojo por ojo a todo Baudelaire, harapo brujo,

alcohol mistificado, viejo corozo de durazno

con vicios renovados;

 

escupe por las rejas de la cárcel en que moran,

empotrados en sus huesos, algunos jóvenes poetas.

vigila que el guardián ponga las llaves

y agrega siete que te sean de confianza;

 

espulga el Nuevo Testamento y abomina del Antiguo,

cargados de puercas porquerías para lapidar

perezosos; de pechos como paloma para reyes

lúbricos y junturas de muslos como goznes

labrados de mano maestra;

 

compra galas chillonas sedosas suntuosas para

halagar al gazmoño;

 

lávate cada hora, refriégate de alcohol, pues el

talento, con todo y no ser contagioso, podría

afectarte de ictericia;

 

castiga tu pensamiento sin pausa ni misericordia,

si es que puedes pensar y si te sobra alguna

misericordia.

 

clávate las uñas en la carne cuando veas el amor

adolescente;

 

(desde luego, te prevengo contra mi persona);

 

pero, sobre todo, enciende hogueras altas

relucientes pulidas pendencieras piras funerarias

para quemar, quemarnos;

 

verás entonces, varicosa, que todo es más tranquilo.

y más tuyo.

al fin y al cabo

Dios te hizo cortada a su medida.


Receitas para uma Velha Burguesa Ser Completamente Feliz

Enterre cuidadosamente as páginas incomuns de

velhos rabugentos como Marx, o grande culpado;


destrua página por página os versos de Rimbaud,

pêssego jovem com vícios ancestrais, e quebre

olho por olho tudo de Baudelaire, trapo de feiticeiro,

álcool mistificado, caroço de pêssego velho

com vícios renovados;


cuspa pelas grades da prisão onde alguns jovens poetas habitam,

incrustada em seus ossos.


certifique-se de que o guarda coloque as chaves

e adicione sete em quem você possa confiar;

examine o Novo Testamento e abomine o Antigo,

carregado de lixo imundo para apedrejar os

preguiçosos; com seios como pombas para

reis lascivos e juntas de coxa como dobradiças

fabricadas por uma mão mestra;

Compre roupas vistosas, sedosas e suntuosas para lisonjear a pudica;

Lave-se a cada hora, esfregue-se com álcool, pois o talento, embora não contagioso, pode lhe causar icterícia;

castigue seus pensamentos sem pausa ou piedade, se é que você consegue pensar e se ainda lhe resta alguma piedade.

crave as unhas na própria carne quando vir o amor adolescente;

(é claro que eu o advirto contra mim);

mas, acima de tudo, acenda piras funerárias altas, reluzentes, polidas e briguentas para queimar, para nos queimar;

você verá então, varicoso, que tudo é mais calmo,

e mais seu.

afinal, Deus o fez talhado à sua medida.

Sunday, December 28, 2025

Antonietta Tiberia

 


                                 Antonietta Tiberia

I

Gradatamente

la notte si dirada

Pallida aurora

II

Nel tronco cavo

trabocca già di miele

Un alveare

III

Un globo rosso

buca il cielo al tramonto

Il sole cala

I

Gradativamente

a noite se clareia

Pálido amanhecer

II

No tronco oco

transbordante já de mel

Uma colmeia

III

Um globo vermelho

perfura o céu ao pôr do sol

O sol se põe

Ilustração: Civitatis Magazine.

 

 


Para um novo mundo de Claudia Keelan

 


                                TO THE NEW WORLD

Claudia Keelan

Saturday grieves

    Puritan seeking more weight

Machines look unhappy in the desert

    “you can’t tell me

he didn’t do it”

    no one there and it’s true

Her hands against the window

Her breath

The empty backs of trucks are screaming

what more do you want from me

I’ll be as clear as I can

My son knows the puddle is an ocean

Our camera killed Her

He fell by himself

Imperfection is everywhere. I wear her star.

Africa is a long scar in my head.

Sad grass.

Lovely mud ocean.

I’m seeing a world, no, a room, or

    a space like a musical phase

princess, sister/s’aint & tribe

    imperfect under funeral flowers

P/ity        Merc(I)(Y)        Peace

             &

           luve

All alone in our boats

 

PARA O NOVO MUNDO

Sábado de luto

Puritano buscando mais peso

Máquinas parecem infelizes no deserto

Você não pode me dizer

que ele não fez isso

Ninguém lá e é a verdade

As mãos dela contra a janela

Sua respiração

As traseiras vazias dos caminhões estão gritando

O que mais você quer de mim?

Serei o mais claro que posso ser

Meu filho sabe que a poça é um oceano

Nossa câmera a matou

Ele sentiu por ele mesmo

A imperfeição está em toda parte. Eu carrego sua estrela.

A África é uma longa cicatriz na minha cabeça.

Grama triste.

Lindo oceano de lama.

Estou vendo um mundo, não, um quarto, ou

um espaço como uma fase musical

Princesa, irmã/santa e tribo

Imperfeita sob flores fúnebres

Piedade Merc(I)(Y) Paz

e

amor

Sozinhos em nossos barcos

Ilustração: Wikipédia. 



Um poema narrativa de Luis Díaz

 


Luis Díaz

en esta familia tenemos un historial médico en el que abundan las mujeres con depresión y los maridos que no escuchan que están demasiado ocupados mirándose al espejo intentando sacarse los pelos enquistados de la barba estos mismos hombres llegan a su vejez deseando quedarse viudos pero cuando sus mujeres mueren se pasan lo que les queda de vida llorando se vuelven blandos como peras podridas solo quieren que les cojan la mano ahora que las tienen suaves ahora que ya no las usan para trabajar

Nesta família, temos um histórico médico onde abundam mulheres com depressão e maridos que não ouvem porque estão ocupados demais se olhando no espelho, tentando tirar pelos encravados da barba. Estes mesmos homens chegam à sua velhice desejando serem viúvos, porém quando suas esposas morrem, passam o que lhes resta da vida chorando se tornam moles como peras podres; só querem que lhes segurem as mãos agora que estão suaves, agora que já não as usam mais para trabalhar.

Ilustração: Aleteia. 

Uma poesia de Claudia Keelan

 

 

TOWARDS

 Claudia Keelan 

It was love and then

it was poetry

but it was poetry

that believed in love.

It was doubt and then

well, it was faith

but it was poetry

we worried the beads of.

It was death and then

--or before then?

in the actual face of—

in the deep pilings of—

fallen in the bagged old city

of—and then it was life,

savaged in the mouthings,

scraped in the garbage tin

of, ate in the holy

oh holy day of it was life

but it was poetry

we closed her lids with

 

EM DIREÇÃO

 

Foi amor e, então,

foi poesia

porém, foi poesia

que acreditava no amor.

Foi dúvida e depois

bem, foi fé,

porém, foi poesia

nos preocupamos com os seus pedaços.

Foi a morte e depois

- ou antes disso?

no rosto atual de ...

nas camadas profundas de ...

caídas na velha cidade ensacada

de ... e então foi a vida,

selvagem nas bocas

raspadas na lata de lixo

de, comi como santo

oh dia santo da vida

porém, foi poesia

nós fechamos com ela as pálpebras.

Ilustração: Kconline.site.



Outra poesia de Franco Pasquale

 


HO MEMORIA DI TE  

Franco Pasquale

Ho memoria di te,

indifferente e sfumata

al brusio della pioggia.

Del mio respiro corto

come piccole

foglie secche

ingiallite.

La luna di vetro

svelava la sua missione

profetica

decisa  ad esigere

 il conto.

Incuranti  ci amammo

e fu

la  nostra accecata

rivolta.

 

 

LEMBRO-ME DE TI

Lembro-me de ti,

indiferente e desvanecido

ao murmúrio da chuva.

Do meu curto respirar

como pequenas

folhas secas

amareladas.

A lua de vidro

revelou sua missão

profética,

decidida a cobrar

o preço.

Nós nos amávamos,

despreocupados,

e era

cega nossa revolta.

Ilustração: BBC.

Saturday, December 27, 2025

No Meu Olhar


O amor somente se revela

Sem saber a hora de se revelar.

Sei bem ao olhar para ela,

E perceber o amor no seu olhar.

 

Não precisa me dizer o que sente

Nem sei se sabe o que dizer.

Não tenho o dom de ler sua mente

Cala: parece esquecer...

 

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

P'ra saber que a estou a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma, nem fala,

Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder lhe contar

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que lhe falar

Porque lhe falo no olhar...

Ilustração: Blog de Psicoanálise.

Friday, December 26, 2025

A Abelha por Emily Dickinson

 



THE BEE

By Emily Dickinson

Like trains of cars on tracks of plush

I hear the level bee:

A jar across the flowers goes,

Their velvet masonry

 

Withstands until the sweet assault

Their chivalry consumes,

While he, victorious, tilts away

To vanquish other blooms.

 

His feet are shod with gauze,

His helmet is of gold;

His breast, a single onyx

With chrysoprase, inlaid.

 

His labor is a chant,

His idleness a tune;

Oh, for a bee’s experience

Of clovers and of noon!

A ABELHA

Como trens de carros sobre trilhos de veludo

Ouço a abelha nivelada:

Um jarro atravessa as flores,

Sua alvenaria aveludada

 

Resiste até o doce ataque

Sua cavalaria consumir,

Enquanto ele, vitorioso, se inclina para longe

Para vencer outras flores.

 

Seus pés são calçados com gaze,

Seu capacete é de ouro;

Seu peito, uma ônix única

Com crisoprásio incrustado.

 

Seu trabalho é um cântico,

Sua ociosidade uma melodia;

Oh, pela experiência de uma abelha

De trevos e do meio-dia!

Ilustração: TerraMagna.