Friday, January 30, 2026

Uma poesia de Juan L. Ortiz

 



TODOS AQUÍ

Juan L. Ortiz

Todos aquí para mirar arder y consumirse ese fuego.
Fuego sólo?

No es un corazón apasionado que se ilumina en los cielos?

La pasión de la luz antigua abriéndose en flores encendidas
para mirarse en el espejo humano.

El corazón dice: criaturas terrestres, la vida es gloriosa,
alzaos hasta el fuego armonioso como hasta la sangre
del éxtasis para que todos seáis como simientes ardiendo
para las cosechas sucesivas de la luz común que encenderá hasta la sombra
y la estrellará como un jardín.

TODOS AQUI

Todos aqui para olhar arder e consumir-se esse fogo.

Fogo só?

Não é um coração apaixonado que se ilumina nos céus?

A paixão da luz antiga abrindo-se em flores

acesas

para se olhar no espelho humano.

O coração disse: criaturas terrestres, a vida é gloriosa,

Alça-os até o fogo harmonioso como até o sangue

do êxtase para que todos sejais como sementes ardendo

para as colheitas sucessivas da luz comum que acenderá

até a sombra

e se estampará como um jardim.

Ilustração: Folha BV.

Thursday, January 29, 2026

O Cozidão Perfeito

COZIDÃO PERFEITO

Silvio Persivo

Ossobuco, oh! Que carne tão preciosa

Chambaril, iguaria mais saborosa

Equilíbrio perfeito de maciez e sabor

Impossível não se apreciar seu valor

 

Temperado com sal e pimenta do reino

Descansando no vinho, um toque divino

Para o tutano não se desgrudar

Sal dos dois lados, o truque a lembrar

 

Azeite na panela, fogo alto para aquecer

Cebola refogada, alho para dar mais prazer

Deve se mexer com colher de pau e

Temperos adicionados, para o sabor se perpetuar

 

Cebolinha, tomate, louro e extrato de tomate

Cozinhando nos próprios temperos para arremate

Acompanhar, ficar atento, sem tirar o olho

E adicionar, para ficar no ponto, água se secar o molho

 

Uns 30 minutos leva para a carne cozinhar

Veja se está macia, se precisa sal para temperar

E quando estiver, tenha certeza, no ponto certo

Sirva com um bom pirão, o prato perfeito.

(De "Receitas da Amazônia Temperadas com Poesia", E-book da Hotmart) 

Ilustração: Espetinho de Sucesso. 

Outra poesia de George Herbert

 


                                         LOVE (III)

By George Herbert

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Love bade me welcome. Yet my soul drew back

                              Guilty of dust and sin.

But quick-eyed Love, observing me grow slack

                             From my first entrance in,

Drew nearer to me, sweetly questioning,

                             If I lacked any thing.

 

A guest, I answered, worthy to be here:

                             Love said, You shall be he.

I the unkind, ungrateful? Ah my dear,

                             I cannot look on thee.

Love took my hand, and smiling did reply,

                             Who made the eyes but I?

 

Truth Lord, but I have marred them: let my shame

                             Go where it doth deserve.

And know you not, says Love, who bore the blame?

                             My dear, then I will serve.

You must sit down, says Love, and taste my meat:

                             So I did sit and eat.

AMOR (III)

Alternar anotações

O Amor me deu as boas-vindas. e minha alma recuou

Culpada de sujeira e pecado.

Mas o Amor, de olhar perspicaz, observando-me hesitar

Desde minha primeira entrada,

Aproximou-se de mim, questionando docemente,

Se me faltava alguma coisa.

 

Um convidado, respondi, digno de estar aqui:

Disse o Amor: Você será ele.

Eu, o ingrato, o descortês? Ah, meu querido,

Não consigo olhar para você.

O Amor tomou minha mão e, sorrindo, respondeu:

Quem fez os olhos senão eu?

 

Verdade, Senhor, mas eu os estraguei: que minha vergonha

Vá para onde merece.

E você não sabe, diz o Amor, quem carregou a culpa?

Meu querido, então eu servirei.

Você deve se sentar, diz o Amor, e provar minha comida:

Então eu me sentei e comi.

Ilustração: A Mente é Maravilhosa. 


Outra poesia de Santiago Loza

 


DESPEDIDA

Santiago Loza

Como voy a morir esa mañana

miro todo de más

camino por veredas otoñales

admiro el sol tenue

y todo el tránsito de gente

escucho demasiado

el corazón golpea

entro a una librería

compro un cuaderno

es un acto de fe

hojas blancas

de marca “Maratón”

220 pe

(el que cobra se llama Juan)

hay un cartel

dólar cambio a 220 pe

sigo temblando

una madre reta a un niño

le dice Manuel quedate quieto

sigo temblando

pienso

con este miedo escribiré un poema

eso me calma

un rato

sigo

el amigo que me acompaña

me cuenta que varias veces

entra un pichón desorientado a su casa

no lo puede sacar

se choca con las paredes

cuando lo olvida, sale

vuela, desaparece

la enfermera se llama Esther

hay otra pero no retengo el nombre

es enorme, como una montaña

son amables

antes de apagarme quisiera nombrar todo

me duermo

sobrevivo como siempre

tengo un resto

me asusto mucho

no soy una persona estoica

prometí no quejarme más

prometo mucho en el apuro

después me olvido

pasamos una mañana linda

dice el amigo

claro, repetimos alguna vez

digo por decir algo.

ADEUS

Como vou morrer essa manhã,

observo tudo demais.

Caminho por trilhas outonais.

Admiro o sol suave

e todo o trânsito de gente.

Escuto demais.

Meu coração dispara.

Entro numa livraria.

Compro um caderno.

É um ato de fé.

Folhas brancas

da marca "Marathon"

220 pesos

(o nome do caixa é Juan)

Há uma placa: "Câmbio dólar 220 pesos."

Continuo tremendo.

Uma mãe repreende um menino.

lhe diz: "Manuel, fica quieto."

Continuo tremendo.

Penso:

com esse medo, vou escrever um poema.

isso me acalma

por um tempo.

Sigo.

O amigo que me acompanha

me conta que várias vezes

um pombo desorientado entra em sua casa.

Não pode tirá-lo de lá. Se choca com as paredes.

Quando o esquece, sai,

Voa, desaparece

o nome da enfermeira é Esther.

tem outra, mas não retenho o nome.

é enorme, como uma montanha

são amáveis

antes de eu desaparecer, gostaria de dar um nomear tudo.

adormeço

sobrevivo como sempre

tenho um resto

me assusto muito

não sou uma pessoa estoica.

prometi não me queixar mais.

prometo muita coisa no apuro

depois esqueço

tivemos uma manhã linda

disse o amigo

claro, repetiremos alguma vez

digo só por dizer algo

Ilustração: O Segredo. 


Sunday, January 25, 2026

Sim, Pierre de Ronsard

 


À CUPIDON

Pierre de Ronsard

Le jour pousse la nuit,
Et la nuit sombre
Pousse le jour qui luit
D'une obscuro ombre.

Mais la fièvre d'amours
Qui me tourmente,
Demeure en moy tousjours,
Et ne s'alente.

Ce n'estoit pas moy, Dieu,
Qu'il falloit poindre,
Ta fleche en autre lieu
Se devoit joindre.

À CUPIDO

O dia afasta a noite,

E a noite escura

Afasta o dia brilhante

De uma sombra obscura.

 

Mas a febre do amor

Que me atormenta,

Permanece sempre em mim,

E não diminui.

 

Não fui eu, Deus,

Quem deveria ter sido ferido,

Sua flecha outro lugar

Deveria ter atingido.

Ilustração: Pikbest.

Louvação à Maniçoba

 


LOUVAÇÃO À MANIÇOBA

Silvio Persivo

A maniçoba é dos deuses um presente,

Feita com a maniva e nobres ingredientes,

como toucinho, charque e calabresa,

a feijoada vegetal é uma beleza.

 

Cortados em rodelas o bacon, o paio

E, com folhas de louro, se faz o ensaio

Costelinhas defumadas e porco assado,

Com a maniva dissolvida em um ensopado.

 

Cozinhando por dias em fogo brando,

Até o caldo ficar preto e consistente,

A maniçoba encorpada é um deleite,

Acompanhada de farinha e arroz quente.

 

Depois de provar, é impossível esquecer,

Por isto a maniçoba, um tesouro da culinária,

Agradável, maravilhoso, o que dá mais prazer

Entre todos pratos que existem na Amazônia!

(De "Receitas da Amazônia Temperadas com Poesia, e-book Hotmart)

Ilustração: Jornal Correio. 

 

Uma poesia de Martin Prieto

 


                       UNA MÚSICA EN LA MEMORIA

Martin Prieto

De zapatillas y pantalones negros,

con el torso desnudo,

lleno de yerba una calabaza marrón.

El paisaje es el de todos los días,

salvo por una música que no silbo

y sin embargo sé.

UMA MÚSICA NA MEMÓRIA

De tênis e calça preta,

com o torso nu,

cheia de grama uma cabaça marrom.

 

A paisagem é a de todos os dias,

salvo por uma música que não assobio,

e, sem embargo, sei.

Ilustração: The Bard News. 


Uma poesia de Santiago Loza

 


UNA VEZ

Santiago Loza

No hicimos el Camino del Inca
tampoco nos preparamos para el sol
que estaba muy cerca de las ruinas
compramos unas gorras
caminamos en fila
sacamos pocas fotos
en el tren que nos devolvía al Cuzco
nos reímos de otros turistas
que hacían más o menos
lo mismo que nosotros
las camareras dejaron de vender comida
y se pusieron a desfilar ponchos
me levanté para estirar las piernas
fui al baño
y en la ventanita chica
vi de pronto un cielo rutilante
desmesurado
estrellas agolpadas estallaban la noche
y me quedé mirando
eso que los antiguos veneraban
y llamamos firmamento
con todo su misterio
y algunas esperanzas

UMA VEZ

Não fizemos o caminho do Inca

tampouco nos preparamos para o sol

que estava muito perto das ruínas

compramos uns bonés

caminhamos em fila

tiramos poucas fotos

no trem que nos devolvia a Cuzco

nos rimos de outros turistas

que faziam mais ou menos

o mesmo que nós

as garçonetes deixaram de vender comida

e se puseram a desfilar seus ponchos

me levantei para estirar as pernas

fui ao banheiro

e na janelinha

vi de repente um céu deslumbrante

desmesurado

estrelas aglomeradas brilhavam na noite

e me quedei olhando

isto que os antigos veneravam

e chamamos de firmamento

com todo o seu mistério

e algumas esperanças

Ilustração: Ingressos Machu Picchu.


Uma poesia de George Herbert

 


THE WINDOWS

By George Herbert

Lord, how can man preach thy eternal word?

    He is a brittle crazy glass;

Yet in thy temple thou dost him afford

    This glorious and transcendent place,

    To be a window, through thy grace.

 

But when thou dost anneal in glass thy story,

    Making thy life to shine within

The holy preachers, then the light and glory

    More reverend grows, and more doth win;

    Which else shows waterish, bleak, and thin.

 

Doctrine and life, colors and light, in one

    When they combine and mingle, bring

A strong regard and awe; but speech alone

    Doth vanish like a flaring thing,

    And in the ear, not conscience, ring.

AS JANELAS

Senhor, como pode o homem pregar a tua eterna palavra?

Ele é um frágil e insensível vidro;

Contudo, em teu templo, tu lhe concedes a lavra

Este glorioso e transcendente lugar,

De ser uma janela, tua graça dar.

 

Mas quando tu revestes em vidro a tua história,

Fazendo a tua vida dentro brilhar

Dos santos pregadores, então a luz e a glória

Tornam-se mais reverentes e para mais conquistar;

O que poderiam aguado, sombrio e ameno se mostrar.

 

Doutrina e vida, cores e luz em um se fazem

Quando se combinam e se misturam, para trazer

Um forte respeito e temor; mas que só falem

Como um clarão a desaparecer

E na consciência e não no ouvido vem bater.

Ilustração: Diocese de São João del rei.


Saturday, January 24, 2026

Só há o momento

 


A DANÇA DO MOMENTO

 Silvio Persivo

Se formos pensar

Tudo que existe nada nos importa

E, no fim, tudo pesa

Como a folha ao vento.

Mundo passageiro

Como um sonho breve

Ou um jogo ligeiro.

 

Nada levamos desta vida.

Seja a glória, a fama, amor, dinheiro.

É tudo apenas uma memória

Como se a lembrança

De uma partida bem jogada.

O contentamento, depois o nada.

 

A glória pesa como um fardo.

A fama, uma febril ilusão.

O amor, no final, uma prisão.

O dinheiro, um logro mascarado

de termos feito um jogo bem jogado.

 

A vida, no entanto, joga xadrez

conosco como uma inteligência artificial:

é impossível ganhar no final.

O xeque mate nos foi dado no nascimento,

no momento da primeira jogada.

Devemos felizes nos sentir pelo jogo

e mais nada.

 

E é verdade que, alguns,

por meio da ciência, ou pelo vinho,

pensam ter, por um momento, uma vitória.

Porém logo a morte ou a idade

encerra o sentimento de felicidade.

As sombras chamam por nós:

cala-se a voz.

 

Talvez, por algum tempo,

fique a lembrança.

O sonho, no entanto,

já se foi,

depois se vai a memória

e o jogo se esvai,

com as peças retiradas,

para a vala comum do esquecimento.

Goza, pois o que te resta: o momento

John Donne, pois

 

Holy Sonnets: Batter my heart, three-person'd God

By John Donne

Batter my heart, three-person'd God, for you

As yet but knock, breathe, shine, and seek to mend;

That I may rise and stand, o'erthrow me, and bend

Your force to break, blow, burn, and make me new.

I, like an usurp'd town to another due,

Labor to admit you, but oh, to no end;

Reason, your viceroy in me, me should defend,

But is captiv'd, and proves weak or untrue.

Yet dearly I love you, and would be lov'd fain,

But am betroth'd unto your enemy;

Divorce me, untie or break that knot again,

Take me to you, imprison me, for I,

Except you enthrall me, never shall be free,

Nor ever chaste, except you ravish me.

SONETOS SAGRADOS: GOLPES NO MEU CORAÇÃO, AS TRÊS PESSOAS DE DEUS

Golpes no meu coração, as três pessoas de Deus, pois

Até agora apenas bates, respiras, brilhas e busca consertar;

Para que possa me erguer, levantar, derrubar-me e dobrar

Sua força para quebrar, soprar, queimar e me fazer novo.

 

Eu, como uma cidade usurpada a outro devida,

Esforço-me para lhe admitir, mas, oh, em vão;

A razão, teu vice-rei em mim, deveria me defender,

Mas está cativa e se mostra fraca ou falsa.

Contudo, eu te amo profundamente e anseio ser amado,

Mas estou prometido ao teu inimigo;

Divorcia-me, desata ou rompe esse nó novamente,

Leva-me para ti, aprisiona-me, pois eu,

A menos que me escravizes, jamais serei livre,

Nem jamais casto, a menos que me arrebates.

Ilustração: Estudo Bíblico.

 



Ainda Fran Bariffi

 


PAISAJE INTERIOR

Fran Bariffi

Veo árboles de 300 años
siluetas de ángeles y antiguas escalinatas de piedra
como en fotos de parís o alguna antigua
ciudad de los andes.

es un placer rarísimo
estar sentada en mi escritorio y tardar
diez minutos en elegir dos palabras
absorbida por el azul del aire
que de la atmósfera pasa a mis dedos
y libera como un río su caudal en el papel

y es que siempre que el cuaderno se abre
veo la misma puerta
el mismo marco azul anacarado
el mismo pasillo hacia el mismo sitio sin tiempo
al que fui enviada
para jugar

PAISAGEM INTERIOR

Vejo árvores de 300 anos,

silhuetas de anjos e antigas escadarias de pedra,

como em fotos de Paris ou de alguma antiga

cidade dos Andes.

É um prazer raríssimo

Estar sentado em meu escritório e dedicar

dez minutos para escolher duas palavras,

absorvido pelo azul do ar

que da atmosfera passa aos meus dedos

e libera como um rio seu fluxo sobre o papel.

E sempre que o caderno se abre,

vejo a mesma porta,

a mesma moldura azul perolada,

o mesmo corredor que leva ao mesmo lugar atemporal

para o qual foi enviada

para brincar.

Ilustração: Youtube.


O desejo de amar em vão

 


A TRISTEZA DOS AMORES

Silvio Persivo

Oh! Desejo de amar! Oh! Vontade de viver!
Uma hora que seja, mas, uma hora vivida
depois do sonho, se pode até morrer,
-porque se morre celebrando a vida!

Porém, essa hora doce na qual se vive
é o que se pode sonhar de maior ventura,
nos salva de desesperar por uma criatura,
e de sofrer e dizer esperei-a, e nunca a tive!

E são muitos, como eu, que a desejaram!
E poucos, como eu, que, por fim, tiveram
a venturosa hora de amor com que sonharam!

E quanto olhar triste não ficou nublado
pelo desespero do amor que não viveram;
do mar de desejos nunca, na vida, saciado!

Ilustração: Purepeople. 


Saturday, January 17, 2026

Um devaneio de Emily Dickson

 


TO MAKE A PRAIRIE (1755)

Emily Dickinson

To make a prairie it takes a clover and one bee,

One clover, and a bee.

And revery.

The revery alone will do,

If bees are few.

PARA FAZER UMA PRADARIA (1755)

Para fazer uma pradaria, é preciso um trevo e uma abelha,

Um trevo e uma abelha.

E devaneio.

O devaneio sozinho faz,

Se as abelhas forem poucas.

Ilustração: Pintura de Arthur Percy Dixon.