BLUES DEL CEMENTERIO
Antonio Gamoneda
Conozco un pueblo -no lo olvidaré-
que tiene un cementerio demasiado grande.
Hay en mi tierra un pueblo sin ventura
porque el cementerio es demasiado grande.
Sólo hay cuarenta almas en el pueblo.
No sé para qué tanto cementerio.
Cierto año la gente empezó a irse
y en muchas casas no quedaba nadie.
El año que la gente empezó a irse
en muchas casas no quedaba nadie.
Se llevaban los hijos y las camas.
Tenían que matar los animales.
El cementerio ya no tiene puertas
y allí entran y salen las gallinas.
El cementerio ya no tiene puertas
y salen al camino las ortigas.
Parece que saliera el cementerio
a los huertos y a las calles vacías.
Conozco un pueblo. No lo olvidaré.
Ay, en mi tierra sin ventura,
no olvidaré a mi pueblo.
¡Qué mala cosa es haber hecho
un cementerio demasiado grande!
BLUES DO CEMITÉRIO
Conheço uma cidade- não a esquecerei-
Que tem um cemitério demasiadamente grande.
Há na minha terra uma cidade sem ventura
Porque o cemitério é demasiadamente grande.
Só há quarenta almas na cidade.
Não sei para que tanto cemitério.
Certo ano as pessoas começaram a ir-se
E, em muitas casas, não restou ninguém.
O ano em que as pessoas começavam a ir-se
em muitas casas, não restou ninguém.
Levaram os seus filhos e as camas.
Tinham que matar os animais.
O cemitério já não tem portas
e ali entram e saem as galinhas.
O cemitério já não tem portas
e saem no caminho as urtigas.
Parece que sairá o cemitério
para as hortas e ruas vazias.
Conheço uma cidade. Não a esquecerei.
Aí! Em minha terra sem ventura,
não esquecerei minha cidade.
Que coisa ruim é haver feito
um cemitério demasiado grande!
Ilustração: Coroa de Flores Brasil.
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