Sunday, August 20, 2023

Uma poesia de Douglas Kearney

 

MINOATUR

Douglas Kearney

                      after Carl Phillips

The best part,

how we make to

part the beast

from its self.

 

Take the bull 

(whose head it’s got.

Now, conjure you-

the offal, bovine throat,

a veiny tract meant

for an alfalfa pasture,

clover, sundry grasses

soon to cud; or

 

a garden got at: trampled

angel’s breath, marigold,

            daisy, rose, chomped down,

            also, though, grown, only,

            it seems, to prune to mean

            a human being

what humans are—

 

and there: a tendril

coils from your skull,

then petals split

the temple, come

to bloom. See, how

now the bull face,

stricken, blinks),

finding a way,

reeling, through new

bewildering appetites.

MINOTAURO

                              depois de Carl Phillips

A melhor parte,

como fazemos

parte da besta

de si mesmo.

 

pegue o touro

(de quem é a cabeça.

Agora, una você-

as miudezas, garganta bovina,

um trato venoso significativo

para um pasto de alfafa,

trevo, ervas diversas

logo para ruminar; ou

 

um jardim que tem: pisoteado

hálito de anjo, calêndula,

             margarida, rosa, mastigada,

             também, porém, crescido, só,

             ao que parece, podar significa

             um ser humano

o que os humanos são-

 

e ali: um cacho fino

bobinas de seu crânio,

então as pétalas se dividem

o templo, vem

florescer. Veja como

agora a cara de touro,

golpeado, pisca),

encontrando um caminho,

cambaleando, através de novos

e desconcertantes apetites.

Ilustração: Segredos do Mundo.

Alda Merini, pois.

 


 Alda Merini 

Chi ha paura della morte si offenda.

La morte è una riviera musicale,

il seno curvo della donna amata.

Non c'è spazio tra l'uomo e la sua morte.

Soltanto il batticuore di un nemico che ride al suo passaggio

 

Quem tiver medo da morte se ofenda.

A morte é uma costa musical,

a curva do seio da mulher amada.

Não há espaço entre o homem e sua morte.

Somente o bater do coração de um inimigo que ri de sua passagem.

Ilustração: Pinterest.

Saturday, August 19, 2023

SINAPSES

 

Sei que não há sentido. O outro plano é a inconsciência. Porém questionar não é viver. E viver sempre nos coloca entre isto e aquilo. Entre ter que escolher. Escolher o possível. Ah! A liberdade!!! Está mulher utópica de roupas brancas manchadas que foge mais rápida que os mosquitos que tentamos matar com as mãos. Ah! Felicidade, controle, prazer e tantas coisas que ter que pensamos ser realidade. Realidade, esta visão líquida da vida que se dissolve no ar quando a tentamos segurar. Nas mãos, nas mãos só ficam, por breve tempo, enquanto podemos ter o que nós somos no minuto presente e as centelhas que somos no luzir veloz dos pensamentos. 

Ilustração: Universo Racionalista. 


Um poema de Dolores Veintimilla

 

A un reloj 

Dolores Veintimilla 

Con tu acompasado son
Marcando vas inclemente
De mi pobre corazón
La violenta pulsación...
¡Dichosa quien no te siente!

Funesto, funesto bien
Haces reloj... La venida
Marcas del ser a la vida,
Y así impasible también
La hora de la partida

A mis enemigos

A UM RELÓGIO

Com teu compassado som

Marcando vais inclemente

De meu pobre coração

A violenta pulsação...

Feliz quem não te sente....

 

Funesto, funesto bem

Fazes relógio...na vinda

Marcas de ser da vida.

Assim, impassível também

A hora da partida

Para meus inimigos.

Ilustração: Relógios Diferentes.

Friday, August 18, 2023

Sim, Miguel Hernández

 


 

MENOS TU VIENTRE

Miguel Hernández

Menos tu vientre,

todo es confuso.

Menos tu vientre,

todo es futuro

fugaz, pasado

baldío, turbio.

Menos tu vientre,

todo es oculto.

Menos tu vientre,

todo inseguro,

todo postrero,

polvo sin mundo.

Menos tu vientre,

todo es oscuro.

Menos tu vientre

claro y profundo.

 

 

MENOS TEU INTIMO

 

Menos teu íntimo,

tudo está confuso.

Menos teu íntimo,

tudo é futuro

fugaz, passado

estéril, nublado.

Menos teu íntimo,

tudo é oculto.

Menos teu íntimo,

tudo inseguro,

póstero tudo,

poeira sem mundo.

Menos teu íntimo,

tudo é escuro.

Menos teu íntimo

claro e profundo.

Ilustração: Poemas da Lusofonia.

MODERNIDADE

 


Que tudo muda muito rapidamente
Para ser cada vez mais igual
Me garante o âncora do telejornal.

Entre violência e crimes, as notícias
De política se confundem com polícia
E a banalização do mal
Se torna também parte do comercial.

Sonhar, agora, se tornou impossível.
Ser celebridade virou por encanto,
Da sereia da mediocridade, o canto
E trágico, o palhaço, não é mais risível.

A verdade se tornou a mentira consagrada.
O ideal se configura em ser nada:
Dos idiotas ser o chefe da manada.

Ilustração: Conhecimento Científico. 

 

Uma poesia de Shivram Gopinath

 


POTTU/DOT

Shivram Gopinath

a little red dot is

a laser pointer

a moving target

a danger button

a recorder button

a pottu

a pimple

a popstar

a rash

a makaan orredi?

a smile of a query unconcerned with whether

it was mealtime

a panic room

a piercing

pain

pinpointing

a period

of uncertainty asking

why can’t I question what I love?

why can’t I love what I question?

a third eye for an eye

on the prize

an accessory to murder

of crows on an angsana

a birdcall

flitting across

sky

catcalling worms

a discreet witness

to bargain basement love stories

screaming

onwards and up yours

a cockroach friend scurrying over unwashed masses

murmuring

this boy does not know anything

such a waste

thinks he is headlight

when he is just deer

a song that goes

this is

home?

is this

home?

is this

a home?

this is

a home?

what home

is this?

POTTU / PONTO

um pequeno ponto vermelho é

um apontador laser

um alvo em movimento

um botão de perigo

um botão de gravador

um pottu

uma espinha

uma estrela pop

uma erupção cutânea

um desvio de casa?

um sorriso de uma pergunta despreocupada se

era hora da refeição

um quarto do pânico

um piercing

dor

identificar

um período

de incerteza perguntando

por que não posso questionar o que amo?

por que não posso amar o que questiono?

um terceiro olho por olho

no prêmio

cúmplice de assassinato

de corvos em uma árvore

um canto de pássaro

voando através

céu

vermes cantando

uma testemunha discreta

barganhar histórias de amor no porão

gritando

em frente e até o seu

uma amiga barata correndo sobre massas não lavadas

murmurando

este menino não sabe de qualquer coisa

tal desperdício

pensa que é farol

quando é justo um gamo

uma música que vai

isto é

lar?

é isto

lar?

é isto

um lar?

isto é

um lar?

que casa

é esta?

Ilustração: Medium.

Thursday, August 17, 2023

E ainda Manuel Ruiz Amezcua

 


DE LA RAZÓN CÍNICA

Manuel Ruiz Amezcua

 Las apariencias no engañan

J. R. Jiménez

Son actores de reparto,
convertidos en guiñapos.

Son los mismos de siempre
en gira permanente.

No se les caen de la boca
las grandes palabras.

 

La retahíla es larga.

 

Libertad, justicia, igualdad, progreso,
dignidad, verdad, democracia y demás
compañeras de viaje.

 

Las escupen a diario
hasta en el baño.

 

Gracias a ellas, se colocaron
en la primera fila.

 

Gracias a ellas, prometen
la tierra prometida.

 

Son las mismas palabras
que usaron los de siempre
para honrar su justicia
y ocultar la injusticia.

 

Aunque todo ha sido una gran mentira,
con las mismas palabras
nos siguen prometiendo
la tierra prometida.

 

De esas grandes palabras sabe mucho
el dios de la mentira.

 

Son las palabras huecas
de la ética democrática,
que ni fue ética, ni es democrática.

 

Son las palabras fijas,
que también los tiranos
tuvieron de pupilas.

 

Como quien tiene el poder,
y puede hacer daño,

los viejos demonios
perseveran en su ser.

 

Su verdadera tradición
descansa en la traición.

 

DA RAZÃO CÍNICA

As aparências não enganam
J. R. Jiménez

 

São atores secundários,

convertidos em trapos.

 

São os mesmos de sempre

em turnê permanente.

 

Não lhes caem da boca

as grandes palavras.

 

O rosário é grande.

 

Liberdade, justiça, igualdade, progresso,

dignidade, verdade, democracia e demais

companheiras de viagem.

 

As esculpem diariamente

até no banheiro.

 

Graças a elas, se colocaram

na linha de frente.

 

Graças a elas, prometem

a terra prometida.

 

São as mesmas palavras

que usaram os de sempre

para honrar sua justiça

e esconder a injustiça.

 

Ainda que tudo tenha sido uma grande mentira,

com as mesmas palavras

eles seguem nos prometendo

a terra prometida.

Dessas grandes palavras sabe muito

o deus das mentiras.

 

São as palavras ocas

da ética democrática,

que nem foi ética nem democrática.

 

São as palavras fixas

que também os tiranos

tiveram como alunos.

 

Como quem tem o poder,

e pode fazer danos,

 

os velhos demônios

perseveram em seu ser.

 

Sua verdadeira tradição

Descansa na traição.

Ilustração: Legião dos Heróis.

CANÇÃO DO AMOR MAIS TRISTE



É triste. Tudo é triste. E o meu coração
terra desolada, 
Bate descompassado num rumor de solidão.
Todo prazer, toda graça da vida acabou.
Onde estás? Onde estou?
Onde a felicidade de dias tão doces, tão bons
Nos quais ignoramos o significado
da distância e da saudade?
Insone minha cabeça arde
E meu corpo, cansado, sente a falta do teu
E, em tudo, só persiste a triste lembrança
Da imobilidade de teus olhos tristes
E do mais triste adeus.

Tudo me amarga a boca e me desencaminha.
Não me resta, apesar de frágil e melancólico,
Nem as volúpias inúteis das lágrimas.
Os olhos que me seguem,
As pessoas que me cercam
Não percebem o meu sofrer nem a dor
Nem são capazes de entender o amor
Nem os carinhos que abandonei
Contigo, mulher que amei,
E que ainda sonho amar,
Hoje, porém, não posso nem chorar.
Ilustração: Lenscope. 

Wednesday, August 16, 2023

Outra poesia de Luis Carlos Mussó

 


 rememoración

[cfr. historia de la eternidad]

Luis Carlos Mussó

Después de aquella noche –la de luna preñada, por más señas– en que pronunciamos al unísono el dolor y la herida en nuestros cuerpos, y en la que anegamos una terrible canción en ciénagas y resuellos –aferrados, ambos, con los dientes–, me negaste siete veces.

Recordé los hielos escandinavos. Esperé a que los lobos engulleran al sol y a la luna y pisé fuertemente el puente de la nave que me llevaría lejos –muy lejos–. Aquella nave construida con uñas de muertos y con pretensiones de trasatlántico o trirreme. Sentí la fuerza quebrada en mis rodillas, un humor vacío en el sexo y dos marcas color marrón –una en la nuez de Adán, otra en el hombro– que me estrangulaban. Pisé fuertemente sobre el puente de la nave, la que sería un abismo dispuesto a abrirme su secreto. Y viajé en aquella nave. Aquella nave pesada como tierra curada con uranio. Aquella nave construida con mis propias uñas.

REMEMORAÇÃO

[cfr. história da eternidade]

Depois daquela noite –a da lua prenha, por mais sinais– em que pronunciamos em uníssono a dor e a ferida em nossos corpos, e nela afogamos uma terrível canção nos pântanos e chiados –aferrados, ambos, com os dentes -, [ me negastes sete vezes.

Recordei os gelos escandinavos. Esperei que os lobos engolissem o sol e a lua e pisei fortemente na ponte do navio que me levaria longe - muito longe. Aquele navio construído com as unhas dos mortos e com pretensões de um transatlântico ou de um trirreme. Senti a força quebrada em meus joelhos, um humor vazio no sexo e duas marcas marrons - uma no meu pomo de adão, outra no meu ombro -  que me estrangulavam. Pisei fortemente na ponte do navio, o que seria um abismo disposto a abrir-me seu segredo. E eu viajei naquele navio. Aquele navio pesado como terra curada com urânio. Aquele navio construído com minhas próprias unhas.

Ilustração: Fronteira da Consciência.