Monday, July 20, 2026

Nocturno, Gabriel Zaid

 


NOCTURNO

Gabriel Zaid

Manantiales del agua
ya perenne, profunda vida
abierta en tus ojos.

Convive en ti la tierra
Poblada, su verdad
numerosa y sencilla.

Abre su plenitud
callada, su misterio,
la fábula del mundo.

Hallan su vocación
del Huerto, su quehacer,
manos contemplativas.

Estalla un mediodía
nocturno, arde en gracia
la noche, calla el cielo.

Tenue viento de pájaros
de recóndito fuego
habla en bocas y manos.

Viñas, las del silencio.
Viñas, las de las palabras
cargadas de silencio.

NOTURNO

Mananciais de água

já perenes, profunda vida

aberta nos teus olhos.

 

Convive em ti, a terra

povoada, sua verdade

numerosa e sensível

 

Abre sua plenitude,

calada, seu mistério,

a fábula do mundo.

 

Acham sua vocação

da horta, seu quefazer,

mãos contemplativas.

 

Estala um meio-dia

noturno, arde em graça

a noite, cala o céu.

 

Tênue vento de pássaros,

de recôndito fogo

fala em bocas e mãos.

 

Vinhedos, os do silêncio.

Vinhedos, os das palavras

Carregadas de silêncio.

Ilustração: Facebook.


BALLAD FOR YOKO ONO

 

BALADA PARA YOKO ONO

Silvio Persivo

Nada é tão bonito

Quanto o olhar

Da mulher que se ama.

BALLAD FOR YOKO ONO

Nothing is so beautiful

as for the look

of the woman who loves

Ilustração: Cantinho Vegetariano. 

 


Sunday, July 19, 2026

E, mais uma vez, Beatriz de La Vega

 


Beatriz de La Vega

Algunas noches cuando todos duermen
me escapo en silencio al monte
a llorarle a la luna.

Porque de día una madre es invencible
y no debe andar aullando por las esquinas.

Otras, sin embargo, salto por los tejados
con el arco y las flechas
buscando enemigos escondidos y batallas.

Alguien para salvar.
A cualquiera menos a una misma.

Algumas noites, quando todos dormem,

eu escapo em silêncio para ao monte

para chorar para a lua.

Porque de dia uma mãe é invencível

e não deveria andar uivando pelas esquinas.

Outras vezes, sem embargo, salto pelos telhados

com o arco e as flechas

buscando inimigos escondidos e batalhas.

Alguém para salvar.

Qualquer um, menos a mim mesmo.


"A Glass Of Wine" de Andrew Motion

 

A GLASS OF WINE

Andrew Motion

Exactly as the setting sun
clips the heel of the garden,

exactly as a pigeon
roosting tries to sing
and ends up moaning,

exactly as the ping
of someone’s automatic carlock
dies into a flock
of tiny echo-aftershocks,

a shapely hand of cloud
emerges from the crowd
of airy nothings that the wind allowed
to tumble over us all day
and points the way

towards its own decay
but not before
a final sunlight-shudder pours
away across our garden-floor

so steadily, so slow
it shows you everything you need to know
about this glass I’m holding out to you,

its open eye
enough to bear the whole weight of the sky.

UMA TAÇA DE VINHO

Exatamente quando o sol poente

toca a extremidade do jardim,

 

exatamente quando um pombo

empoleirado tenta cantar

e acaba gemendo,

 

exatamente quando o bip

do travamento automático de um carro

se morre numa revoada

de minúsculos ecos residuais,

 

uma mão de nuvem de formas belas

emerge da multidão

de nadas etéreos que o vento deixou

rolarem sobre nós o dia todo

e aponta o caminho

 

para a sua própria decadência,

mas não sem antes

um último tremor de luz solar derramar-se

através das flores do nosso jardim

 

tão constante, tão lento,

que lhe revela tudo o que precisa saber

sobre esta taça que estendo para você,

 

de olho aberto

ser suficiente para suportar todo o peso do céu.

Ilustração: Blog Milium. 


Saturday, July 18, 2026

Outra poesia de Andrea Franco

 


                                          Andrea Franco

la noche en que volví

a dormir fue la única

en la que no dormiste

te vi después perfectamente

los metros cuadrados

por los que circulaste

tu contorno vacío en

el sillón la mesada los

intentos de encender

la hornalla y la chispa

un sol intacto en medio de

los árboles los dibujos

grabados las horas que

siguieron atrás o adentro

de mis párpados

las páginas que leíste

sin saber que leíamos

lo mismo

 

A noite em que voltei a dormir

foi a única

em que não dormistes

Depois, eu te vi perfeitamente

os metros quadrados

pelos quais circulastes

seu contorno vazio na

poltrona, no balcão, as

tentativas de acender

o fogão e a faísca

um sol intocado em meio

às árvores, os desenhos

gravados, as horas que

se seguiram atrás ou dentro

das minhas pálpebras

as páginas que lestes

sem saber que estávamos lendo

a mesma coisa

Ilustração: Atena Editora. 


Soneto das Borboletas (Sonnet of Butterflies) de Silvio Persivo

 


SONETO DAS BORBOLETAS

Silvio Persivo

Assim deitada e nua te encontro

Molhada de desejo, um ar tão natural

Que atiça a chama do amor sedento

Que se sacia em ti com uma fúria animal

Porém, mais do que eu, queimas em brasas

E queres muito mais do que até posso,

Pois tu queres a música sem pausas

E muito além da carne comes até o osso

Queimando na fogueira sempre acesa,

Entre as paredes, nossa vida presa,

É a melhor com que jamais sonhamos

Nem sei, nem sabes, o que lá fora espera

O mundo é aqui. E, em plena primavera,

Há menos borboletas do que nós gozamos!

SONNET OF BUTTERFLIES

So lying down and naked I find you

Wet with desire, an air so natural

That stokes the flame of thirsty love

That satiates itself in you with an animal fury

However, more than me, you burn in embers

And you want much more than I can,

Because you want music without pauses

And far beyond the flesh you eat to the bone

Burning in the ever-lit fire,

Between the walls, our life trapped,

It's the best we've ever dreamed of

I don't even know, you don't even know, what awaits out there

The world is here. And in the middle of spring

There are fewer butterflies than we enjoy!

Ilustração: Concursos do Brasil. 

 

 

Friday, July 17, 2026

God's Grandeur de Gerard Manley Hopkins

 


GOD’S GRANDEUR

Gerard Manley Hopkins

THE WORLD is charged with the grandeur of God.
It will flame out, like shining from shook foil;
It gathers to a greatness, like the ooze of oil Crushed.
Why do men then now not reck his rod? Generations have trod, have trod, have trod;
And all is seared with trade; bleared, smeared with toil;
And wears man’s smudge and shares man’s smell:
the soil Is bare now, nor can foot feel, being shod.
And for all this, nature is never spent;
There lives the dearest freshness deep down things;
And though the last lights off the black West went
Oh, morning, at the brown brink eastward, springs
-Because the Holy Ghost over the bent
World broods with warm breast and with ah! bright wings.

A GRANDEZA DE DEUS

O MUNDO está carregado da grandeza de Deus.

Ela há de flamejar, como o brilho de uma lâmina metálica agitada;

Concentra-se em grandeza, como o óleo que escorre ao ser prensado.

Por que, então, os homens não respeitam o seu cetro? Gerações passaram, passaram, passaram;

E tudo está marcado pelo comércio; turvado, manchado pelo labor;

E traz a nódoa do homem e partilha o cheiro do homem:

o solo está nu agora, e o pé não o sente, pois está calçado.

E, apesar de tudo isso, a natureza nunca se esgota;

Há um frescor preciosíssimo vivendo no âmago das coisas;

E, embora as últimas luzes tenham deixado o negro Oeste,

Oh, a manhã, na orla parda a leste, desponta

-Porque o Espírito Santo, sobre o mundo curvado,

Paira com peito quente e com -ah!- asas brilhantes.

Ilustração: Ministério Verbo da Vida. 


Uma poesia de Clementina Isabel Azlor

 


ARCANO

 Clementina Isabel Azlor

¿Qué mano misteriosa erizó de doradas,
Promisorias espigas, el siniestro abrojal?
¿Qué vendaval maldito derramó la simiente
Que hoy viste de esmeralda lujoso el cenagal?

¿Qué espíritu invisible llegó en la tarde lívida
 A borrar con su magia la apariencia del mal?
¿Quién te dio esa sonrisa seductora y aviesa?
¿Quién te puso en los labios ese embrujo fatal?

ARCANO

Que mão misteriosa espalhou douradas

E promissoras espigas de milho pelo sinistro matagal?

Que vendaval maldito derramou as sementes

Que hoje veste de esmeralda o luxuoso pântano?

 

Que espírito invisível chegou na tarde lívida

Para apagar com sua magia a aparência do mal?

Quem te deu esse sorriso sedutor e enviesado?

Quem te pôs nos lábios esse feitiço fatal?

Ilustração: Dalla Blog.

 


Thursday, July 16, 2026

Canto ao Gozo Divino, de Silvio Persivo

 

                          CANTO AO GOZO DIVINO

Silvio Persivo

Morrer é como dormir e não mais acordar.

Não me importa mais.

E por que haveria de me importar?

Se ontem, feliz, beijei o bico dos teus seios intumescidos,

Abri, sem nenhum pudor, os tecidos que te cobriam,

Descobrindo, com febril amor, as doçuras de teu corpo,

Para deslizar nas tuas curvas mais sinuosas,

Como quem despenca num tobogã sem freio,

Sem medo algum, sem nervos, sem receio,

Precipitando-me ditoso nos teus orifícios

Que me fizeram desejar fazer da paixão vício

E sugar de tua flor todo o perfume, suor, sêmen, ais,

Numa sofreguidão, e calma,

De não se acabar mais.

Quase me senti um deus,

E, se deus há,

Nunca deve ter visto antes

Humanos tão felizes, saciados,

Amolecidos, puros, contentes, conscientes

De que gozaram o que podiam ter gozado.

E só quem amou um amor assim

Pode, sem susto, esperar o fim,

De vez que tanto amor

Jamais será superado

 

SONG TO DIVINE JOUISSANCE

 

Dying is like sleeping and never waking up.

I don't care anymore.

And why should I care?

If yesterday, happy, I kissed the tip of your swollen breasts,

I opened, without any shame, the fabrics that covered you,

Discovering, with feverish love, the sweetness of your body,

To slide on your most sinuous curves,

Like someone who falls down a toboggan without a brake,

Without any fear, without nerves, without apprehension,

Rushing blissfully into your orifices

That made me want to make passion an addiction

And suck from your flower all the perfume, sweat, semen, alas,

In eagerness, and calm,

Of not ending anymore.

I almost felt like a god,

And if there is a god,

never have seen before

Humans so happy, satiated,

Softened, pure, content, aware

What they enjoyed what they could have enjoyed.

And only those who loved a love like that

You can, without fear, wait for the end,

Since so much love

will never be surpassed.

Ilustração: Kama Sutra-Domestika. 



Um poema de Max Ehrmann

 

 

WE ARE ALL SHIPS...

Max Ehrmann
We are all ships returning home
laden with life's experience,
memories of work, good times and sorrows,
each with his special cargo;
And it is our common lot
to show the marks of the voyage,
here a shattered prow, there a patched rigging,
and every hulk turned black
by the unceasing batter of the restless wave.

May we be thankful for fair weather and smooth seas,
and in times of storm have the courage
and patience that mark every good mariner;
And, overall, may we have the cheering hope of joyful meetings,
as our ship at last drops anchor
in the still water of the eternal harbor.

NÓS TODOS SOMOS BARCOS...

Nós todos somos navios retornando para casa

carregados com as experiências da vida,

memórias de trabalho, bons momentos e tristezas,

cada um com sua carga especial;

E é nosso destino comum

mostrar as marcas da viagem,

aqui uma proa despedaçada, ali um cordame remendado,

e cada casco enegrecido

pelo incessante impacto das incansáveis ondas.

 

Que sejamos gratos pelo bom tempo e mares tranquilos,

e que em tempos de tempestade tenhamos a coragem

e a paciência que caracterizam todo bom marinheiro;

 

E, acima de tudo, que tenhamos a animadora esperança de encontros felizes,

quando nosso navio finalmente lançar âncora

nas águas calmas do porto eterno.

Ilustração: Arquidiocese de Manaus. 



De volta Andrea Franco

 

                                       Andrea Franco

después la casa se llenó de grillos

saltamontes iguanas una gacela

color caramelo

una avispa en las botas de lluvia

una invasión de vaquitas de san antonio

 

estando oculto

el mal se alimenta y vive

 

después hubo algo en todo

 

en la mariposa el tigre

un ninja en el pájaro

en la rama una serpiente

en los arbustos la mujer

 

estando oculto el espíritu

puede tragar lo que se lleva adentro

 

después soñé cada noche una cara

distinta a la tuya

hasta el arrocerito índigo

inflado como un pompón de peluche

era azul y volaba al ras del agua

 

Depois a casa se encheu de grilos

gafanhotos, iguanas, uma gazela

cor de caramelo

 

uma vespa nas botas de chuva

uma invasão de joaninhas

 

estando oculto

o mal se alimenta e vive

 

depois houve algo em tudo

 

na borboleta, o tigre

um ninja no pássaro

no galho, uma cobra

nos arbustos, a mulher

 

estando escondido, o espírito

pode tragar o que leva dentro

 

depois sonhei todas as noites com um rosto

distinto do teu

até com o pássaro-do-arroz-índigo

inchado como um pompom de pelúcia

que era azul e voava roçando a água

Ilustração: guiaesoterico.com. 



Guillaume Apollinaire olhando para trás...

 


J’AI EU LE COURAGE DE REGARDER EN ARRIÈRE...

Guillaume Apollinaire
J'ai eu le courage de regarder en arrière
Les cadavres de mes jours
Marquent ma route et je les pleure
Les uns pourrissent dans les églises italiennes
Ou bien dans de petits bois de citronniers
Qui fleurissent et fructifient
En même temps et en toute saison
D'autres jours ont pleuré avant de mourir dans des tavernes
Où d'ardents bouquets rouaient
Aux yeux d'une mulâtresse qui inventait la poésie
Et les roses de l'électricité s'ouvrent encore
Dans le jardin de ma mémoire

EU TIVE A CORAGEM DE OLHAR PARA TRÁS...

Eu tive a coragem de olhar para trás

Os cadáveres dos meus dias

Marcam minha rota e eu os lamento

Alguns apodrecem em igrejas italianas

Ou bem em pequenos pomares de limão

Que florescem e dão frutos

Ao mesmo tempo e em todas as estações

Outros dias choraram antes de morrer em tabernas

Onde buquês ardentes eram lançados

Diante dos olhos de uma mulata que inventou a poesia

E as rosas da eletricidade ainda florescem

No jardim da minha memória

Ilustração: Meus Pensamentos: Olhando para trás.

Wednesday, July 15, 2026

REENCONTRO


Quando você me olha, 

e meu coração se acelera,

até penso que a vida já era

que vou morrer de tanto amor. 

Seja assim,

ou se não for, 

viver sem teu olhar, 

sem o dom do teu sorriso

é como ser uma pedra,

que, por maior que seja seu tamanho,

nada nela medra. 

E, de novo, refeito do susto de viver,

na sombra carinhosa de teu olhar

não sentirei receio de morrer 

e até acredito que possa sonhar

em ser feliz e amar. 

Ilustração: Mensagens de Amor. 

 

Um poema de Andrea Franco

 


Andrea Franco

las casas se suceden y el paisaje

mental es siempre una ventana

de celosías apenas sostenidas

por un encastre débil en las junturas

y una palma

 

alta donde clavar un gallo negro

de madrugada llamar

a san cipriano pedir al diablo que a los buenos

espíritus los vuelva malos

 

dejar un puñado de tabaco

en el alféizar y alejarse

 

de la fascinación del precipicio

de la punta de montaña

de fijar la vista de más

del fondo del agua

 

As casas se sucedem, e a paisagem

mental é sempre uma janela

com treliças apenas sustentadas

por um encaixe frágil nas  

juntas,

e uma palmeira

 

 alta onde se pode pregar um galo preto

 para de madrugada chamar

 São Cipriano pedir ao diabo que os bons

 espíritos se tornem maus.

 

 deixar um punhado de tabaco

 no parapeito da janela e afastar-se

 

 da fascinação do precipício,

 do pico da montanha,

 de fixar o olhar

 no fundo das águas.

 Ilustração: Revista Adega. 



Monday, July 13, 2026

Uma poesia de Jordi Doce

 


PARA VIVIR

Jordi Doce

La mano escribe para no morir.
O cuenta el mundo en sílabas contadas
para decir: aquí termina el mundo,
fuera impera la noche
y el frío de la noche,
el lento gotear de las estrellas
y su terco silencio impenetrable.

La mano escribe para no morir.
Semeja su hermana, la lengua,
envuelta en un temblor que no comprende,
ajena a la raíz que la redime.

La mano escribe para no morir.
O dice el mundo en sílabas contadas
para decir: aquí termina el mundo,
fuera impera la noche
y el frío de la noche,
quietud de lo que nunca vive o muere
pues nunca tuvo nombre.

PARA VIVER

A mão escreve para não morrer.

Ou conta o mundo em sílabas contadas

Para dizer: aqui termina o mundo,

fora impera a noite

e o frio da noite,

o lento gotejar das estrelas

e seu teimoso silêncio impenetrável.

 

A mão escreve para não morrer.

Assemelha-se a sua irmã, a língua,

envolta em um temor que não compreende,

alheia a raiz que a redime.

 

A mão escreve para não morrer.

Ou diz o mundo em sílabas contadas

para dizer: aqui termina o mundo,

fora impera a noite

e o frio da noite,

quietude do que nunca vive ou morre

pois nunca teve nome.

Ilustração: Nexo Jornal.