Tuesday, August 29, 2023

E ainda Manuel Ruiz Amezcua

 


EL JUDÍO ERRANTE
(Uriel da Costa, hereje)

Manuel Ruiz Amezcua

Yo, Uriel da Costa, judío,
un extraño para todos,
desde el púlpito de la sinagoga,
leí la confesión de mis errores
y sufrí treinta y nueve latigazos,
y fui pisoteado por los míos,
atado al frío de la piedra.

Por todo lo que sigue
fui condenado.

Viví de niño donde
todos sospechaban de todos.
Porque los hombres, desde siempre,
organizan su reino
a través de la astucia y la mentira.
Y por eso declaro lo que sigue:
que todo lo que escribo
me traerá la muerte.

Dios no hizo ningún alma
separada del cuerpo.
El alma es engendrada
por nuestros mismos padres.
Igual que le sucede
al alma de los demás animales.
El alma nunca sobrevive
a la muerte del cuerpo.
Nada escapa
a la condición mortal.

Las leyes orales son invenciones
de hombres ambiciosos,
que nada tienen que ver con Dios.

No tenemos necesidad ninguna
de la parafernalia de los ritos.

Los hombres, desde siempre,
organizan su reino
a través de la astucia y la mentira.

Y no saben el yugo
que van a colocar sobre sus nucas
los que abrazan la religión.

Todo lo tienen montado
sobre la injusticia.

Y nos engañan todos cada día.

O JUDEU ERRANTE

Eu, Uriel da Costa, Judeu,

um estranho para todos,

do púlpito da sinagoga,

leio a confissão dos meus erros

e sofri trinta e nove chibatadas,

e fui pisoteado pelos meus amigos,

atado ao frio da pedra.

 

Por tudo o que se segue

fui condenado.

 

Vivi de menino de onde

todos suspeitam de todos.

Porque os homens, desde sempre,

organizam seu reino

através da astúcia e da mentira.

E, por isto, declaro o que se segue:

que tudo o que escrevo

me trará a morte.

 

Deus não fez nenhuma alma

separada do corpo.

A alma é engendrada

por nossos mesmos pais.

Igual ao que sucede

a alma dos outros animais.

A alma nunca sobrevive

a morte do corpo.

Nada escapa

à condição mortal.

 

As leis orais são invenções

de homens ambiciosos,

que nada tem a ver com Deus.

 

Não temos nenhuma necessidade

da parafernália dos ritos.

 

Os homens, desde sempre,

organizam seu reino

através da astúcia e da mentira.

 

E não sabem o jugo

que vão colocar sobre seu pescoço

aqueles que abraçam a religião.

 

Todos o mantêm montado

sobre a injustiça.

E nos enganam todos os dias.

Ilustração: Museum of the Jewish People. 

 

Saturday, August 26, 2023

Sem muito para dizer

 


Aqui, enfim descanso, impregnado do cheiro da vida lá de fora.
As roupas, os cabelos, o suor, as mãos
Dizem o que não sei como falar, mas do meu ar escapam
Alargando o abismo que já é imenso
E permaneces incrédula e exausta, tão na margem de mim,
Como sempre estivestes.

Tento fugir do cerco inevitável das palavras.
Mas, sei que, intimamente, sorris da tentativa inútil
De esconder o que tão claro aparece.
Nem me perguntas onde estive
Ou de onde vim.
Não perguntas por que já tens resposta.
O silêncio, a culpa escancarada
Que confesso por não dizer nada, pesa,
Entre nós, feito um fardo insuportável.
Como uma criança arrependida
Procuro te agradar em vão
Tu
sabes, e eu sei,
Que não há ilusão e só as lembranças,
Entre nossos exercícios de silêncio,
Servem como último elo
Para nos encontrarmos,
Mas, mesmo assim,
Não dizem nada.

Ilustração: Estado da Arte. 

Uma poesia de Adalber Salas Hernández

 


XXI

Adalber Salas Hernández

(Relazioni in torno al primo viaggio di circumnavigazione. Notizia del Mondo Novo con le figure dei paesi scoperti, Antonio Pigafetta)

 

El miércoles 28 de noviembre

abandonamos el estrecho para entrar

en la grande mar

 

a la que dimos de inmediato

el nombre de mar Pacífico

 

en la que navegamos por el curso

de tres meses

veinte días

dieciocho horas

 

sin gustar de ningún

alimento fresco.

 

El bizcocho que comíamos

ya no era pan

sino cosa ciega

 

polvo

pólvora agria

mezclado con gusanos

que habían deglutido

toda su substancia

 

pan que ya nunca

podría ser carne

de mi carne

 

y que además era de un hedor

 

impregnado como estaba

con orina de ratones.

 

XXI

(Relações em torno da primeira viagem de circunavegação. Notícias do Novo Mundo com os números dos países descobertos, Antonio Pigafetta)

 

Quarta-feira, 28 de novembro

saímos do estreito para entrar

no grande mar

 

ao qual demos imediatamente

o nome do mar Pacífico

 

em que navegamos no curso

três meses

vinte dias

dezoito horas

 

sem gostar de nenhum

alimento fresco.

 

O bolo que comemos

já não era pão

mas coisa cega

 

pólvora azeda

misturado com vermes

que havíamos engolido

toda a sua substância

 

pão que nunca

poderia ser carne

da minha carne

 

e que também era um fedor

 

impregnado como estava

com urina de rato.

 

Quarta-feira, 28 de novembro

saímos do estreito para entrar

no grande mar

 

ao qual demos imediatamente

o nome do mar Pacífico

 

em que navegamos no curso

três meses

vinte dias

dezoito horas

 

sem gostar de ninguém

comida fresca.

 

O bolo que comemos

já não era pão

mas coisa cega

 

pólvora azeda

misturado com vermes

que eles tenham engolido

toda a sua substância

 

pão que nunca

poderia ser carne

da minha carne

 

e que ademais era  de um fedor

 

impregnado como estava

com urina de ratos.

Ilustração: Mar sem fim.

Friday, August 25, 2023

Uma poesia de Lauren Russel

 


EXPOSITION

Lauren Russell

Each new  arrival  walks  into  an incomplete  fiction.

The meaning  of the work  is fragmentary.  The story

has  begun  with  a  driving  question:  “What   is  the

function of  diagnosis?”  or  “What can  be made out

of loneliness?” Lauren  is very  elaborate  and writes,

“What is the meaning  of an  accumulation of  coffee

pots?”  When   asked  to   identify  a  yoke,  she  says,

“Thing   you    put   around   an   ox-noose.”  Lauren

withdraws,  stops  doing her  homework,  and  hangs

shards of scenery:  jigsaw  puzzles,  broken  cameras,

decrees.  All   the  characters  are  happenstance  and

helium.  All the dialogue is conditional. When asked

to      identify    a     tourniquet,     she     answers,    “a

blood-pressure   thingie,”    testifying  to  a  life   now

reduced on the Suicide Potential Scale.  Lauren  also

endorses the phrase,  “I wish I could  be as  happy as

others seem to be.” She sits inside a viewfinder while

the  horizon  scans her  brain for  fires.  The sky  sags

into  a   blue  body  cast.   What  is  the  meaning of  a

mountain of masks?

EXPOSIÇÃO

Cada recém-chegado entra numa ficção incompleta. O significado da obra é fragmentário. A história tem início com uma pergunta motivadora: “Qual é a função de diagnóstico?” ou “O que pode ser feito da solidão?” Lauren é muito elaborada e escreve, “Qual é o significado de um acúmulo de potes de café? Quando solicitada a identificar um jugo, ela diz: “Coisa que você coloca em volta de um boi... laço.” Lauren se retira, para fazer o dever de casa e desliga fragmentos de cenário: quebra-cabeças, câmeras quebradas, decretos. Todos os personagens são casualidade e hélio. Todo o diálogo é condicional. Quando perguntada para identificar um torniquete, ela responde: “uma coisa de pressão arterial”, testemunhando uma vida agora reduzida na Escala de Potencial Suicida. Lauren também endossa a frase: “Eu gostaria de poder ser tão feliz quanto outros parecem ser. Ela se senta dentro de um visor enquanto o horizonte escaneia seu cérebro em busca de incêndios. O céu afunda em um molde de corpo azul. Qual é o significado de uma montanha de máscaras?

Ilustração: Telemedicina Morsch.

NO DIVÃ

 


Ninguém me espera assim.
Ninguém me deixa assim.
Ninguém me faz assim tão feliz!
Nenhuma outra tem o gosto
que ela tem.
Nenhuma outra foi tão doce
ou comportada
Nem teve a vantagem de me amar calada.
Não me convence não
Toda esta falação
Que cheira a Jung ou Freud.
Vamos parar aqui.
Que rodar por aí
não tem nenhum sentido
Tem dito e repetido,
Mas não quer me dizer
de forma clara
Que não acha normal
Esta paixão total,
Determinada e inarredável
Por minha boneca inflável!

Ilustração: Ali Express.

Thursday, August 24, 2023

Uma poesia inédita de Olga Jimenéz

 


MINOTAURA

Olga Jimenéz

Bajo tu yugo, humanidad, que es soledad y es laberinto,

me transformo en un engendro.

 

Toda masa uniforme de carne y pensar,

paso a asumir el castigo dictado por ser

(agravio maldito, que estallen los espejos)

lo que, sin pena, habéis hecho de mí.

 

Aquí me tenéis, ante vosotros,

desnuda y sangrando, desde las vértebras hasta los poros,

bailando vuestras pútridas melodías:

uno-dos, uno-dos.

 

Solo me falta ceñirme hasta el filo del cuello una cabeza grotesca de toro

 

para que podáis llamarme miedo

y prenderle fuego fatuo

al reflejo de mi libertad. 

MINOTAURA

Sob o teu jugo, a humanidade, que é solidão e labirinto,

Eu me transformo em uma aberração.

 

Toda massa uniforme de carne e pensamento,

passo a assumir o castigo ditado por ser

(maldita queixa, que estalem os espelhos)

o que, sem pena, fizestes de mim.

 

Aqui me tens, ante ti,

desnuda e sangrando, das vértebras aos poros,

dançando suas pútridas melodias:

um-dois, um-dois.

Só o que falta fazer é enrolar na ponta do pescoço uma grotesca cabeça de touro

 

Para que possa me chamar de medo

e ligar o fogo-fátuo

ao reflexo da minha liberdade.

Ilustração: Knight  of Hammer.

 

 

 

 

 

Tuesday, August 22, 2023

CORRENDO DO MINOTAURO



No sonho,

inesperadamente me aparece,

com sua ferocidade bovina

e sua arma mortal,  

o terrível ser original, 

meio touro, meio homem-

o Minotauro. 

E livre...

Não estava no labirinto.

Imagine o pavor que sinto!!!

Sem espada mágica, 

sem novelo, 

sem Ariadne nenhuma 

para me ajudar,

com certeza, 

vou comida virar. 

Só pensei em correr 

como um louco

para escapar 

e ele, ali, 

quase me pegando por pouco...

até que, por fim, 

do sonho conseguir acordar. 

Impura em Dolores Veintimilla

 


Dolores Veintimilla

¿Qué os hice yo, mujer desventurada

Que en mi rostro, traidores, escupís

De la infame calumnia la ponzoña

Y así matáis a mi alma juvenil?

 

¿Qué sombra os puede hacer una insensata

Que arroja de los vientos al confín

Los lamentos de su alma atribulada

Y el llanto de sus ojos, ¡ay de mí!

 

Envidiáis, envidiáis que sus aromas

Le dé a las brisas mansas el jazmín?

Envidiáis que los pájaros entonen

Sus himnos cuando el sol viene a lucir?

 

No! no os burléis de mí sino del cielo...

Que, al hacerme tan triste e infeliz,

Me dio para endulzar mi desventura

De ardiente inspiración rayo gentil.

 

Por qué, por qué queréis que yo sofoque

Lo que en mi pensamiento osa vivir?

¿Por qué matáis para la dicha mi alma?

¿Por qué ¡cobardes a traición! me herís?

 

No dan respeto la mujer, la esposa,

La madre amante a vuestra lengua vil...

Me marcáis con el sello de la impura...

¡Ay! ¡Nada, nada respetáis en mí!

 

O que eu te fiz, mulher desventurada

Que em meu rosto, traidores, cospem

Da infame calúnia o veneno

E assim matais minha alma juvenil?

 

Que sombra te pode fazer uma insensata

Que lança dos ventos aos confins

Os lamentos de sua alma atribulada

E o pranto de seus olhos, ai de mim!

 

Invejais, invejais que seus aromas

Lhes dê as brisas mansas do jasmim?

Invejais que os pássaros entoem

Seus hinos quando o sol vem brilhar?

 

Não! Não os burleis de mim, mas do céu...

Que, ao fazer-me tão triste e infeliz,

Me deu para adoçar minha desventura

De ardente inspiração, raio gentil.

 

Por que, por que quereis que eu sufoque

O que em meu pensamento ousa viver?

Por que matais para a sorte minha alma?

Por que covardes à traição! me feres?

 

Não respeitam a mulher, a esposa,

A mãe amante de sua linguagem vil...

Me marcais com o selo de impura...

Oh! Nada, nada respeitais em mim!

​Ilustração: Aviva Nuestros Corazones.