Sunday, September 17, 2023

De novo Octavio Paz, pois.

 


SILENCIO

Octavio Paz

Así como del fondo de la música

brota una nota

que mientras vibra crece y se adelgaza

hasta que en otra música enmudece,

brota del fondo del silencio

otro silencio, aguda torre, espada,

y sube y crece y nos suspende

y mientras sube caen

recuerdos, esperanzas,

las pequeñas mentiras y las grandes,

y queremos gritar y en la garganta

se desvanece el grito:

desembocamos al silencio

en donde los silencios enmudecen.

SILÊNCIO

Assim como do fundo da música

brota uma nota

que enquanto vibra cresce e se afina

até que em outra música emudece,

brota do fundo do silêncio

outro silêncio, aguda torre, espada,

e sobe e cresce e nos suspende

e enquanto  sobem caem

lembranças, esperanças,

as pequenas mentiras e as grandes,

e queremos gritar e na garganta

se desvanece o grito:

desembocamos no silêncio

onde os silêncios emudecem.

Ilustação: Conceito.de.

Friday, September 15, 2023

Uma poesia de Wendy Xu

 


NOTES ON SENTENCE CROSSING

Wendy Xu

Let it be an unruly one—an unplucked ass hair—not collagen but spite—not to live to

annihilate other living things—just to receive—I live to sieve—she says—who says—I

say now to her—I say now I admire the melodrama of this particular moment of

your suffering recorded—it was so cold that day, mom—and how did you do it—

how did you survive the baby off-cycling nocturnal so you were up all night—and

the language how did you survive that too—

 

My little girl’s mouth is shaped like a tulip—her lip wiggles and the electrons in her

brain crackle like tin foil when she thinks—which is all of the time—I won’t let them

grind her up into meat—not today—they’d separate her into buckets and dispose of

her personality—and when she asks—what does she ask—could I feel the rupture-

swell in the syntax the bead of blood like a ruby—well of course you have a

personality I say to her—it was not to annihilate other living things—

 

I walked through the city with my moo-moo colors—hanging off my left arm—and

the habit I had was to speculate about when darkness would descend—thinking

about the hydroponically grown herbs that he loves—they dismiss him as their

owner—and this is how it goes with pets and children—they walk with you through

this forever-year—this distortion-spring—this element of toxicity falling like snow

through the air—or it was snowing real snow which is a kind of ash—I felt so weak

in my feather tuxedo—of ultramarine—

NOTAS SOBRE O CRUZAMENTO DE FRASES

Que seja indisciplinado - um pêlo de bunda depenado - não colágeno, mas rancor - para não viver até

aniquilar outras coisas vivas-justo para receber -eu vivo para peneirar -ela diz- quem diz -eu

digo agora para ela - eu digo agora que eu admiro o melodrama particular deste momento de

seu sofrimento recordado-estava tão frio naquele dia, mãe-e como você fez isto-

como você sobreviveu ao bebê fora do ciclismo noturno, então ficou acordado a noite toda - e

a linguagem, como você sobreviveu a isto também-

 

A boca da minha garotinha tem o formato de uma tulipa -seus lábios se mexem e os elétrons dentro dela

no cérebro estalam como papel alumínio quando ela pensa - o que acontece o tempo todo - não vou deixá-los

triturá-la até virar carne - hoje não - eles a separariam em baldes e descartariam

sua personalidade - e quando ela pergunta - o que ela pergunta - eu poderia sentir a ruptura

inchar na sintaxe a gota de sangue como um rubi - bem, é claro que você tem uma

personalidade eu digo a ela - que não é para aniquilar outras coisas vivas -

 

Ando pela cidade com minhas cores moo-moo - penduradas no braço esquerdo - e

o hábito que eu tinha de especular sobre quando a escuridão cairia - pensando

sobre as ervas cultivadas hidroponicamente que ele adora - eles o descartam como seu

proprietário - e é assim que acontece com animais de estimação e crianças - eles caminham com você

este ano eterno -esta distorcida primavera - este elemento de toxicidade caindo como neve

pelo ar - ou estava realmente nevando neve, que é uma espécie de cinza - eu me senti tão fraco

no meu smoking de penas - de ultramarino –

Ilustração: Purebreak.

O grande poeta Octavio Paz

 


LA CALLE 

Octavio Paz

Es una calle larga y silenciosa.

Ando en tinieblas y tropiezo y caigo

y me levanto y piso con pies ciegos

las piedras mudas y las hojas secas

y alguien detrás de mí también las pisa:

si me detengo, se detiene;

si corro, corre. Vuelvo el rostro: nadie.

Todo está oscuro y sin salida,

y doy vueltas en esquinas

que dan siempre a la calle

donde nadie me espera ni me sigue,

donde yo sigo a un hombre que tropieza

y se levanta y dice al verme: nadie.

A RUA

É uma rua longa e silenciosa.

Ando na escuridão e tropeço e caio

e me levanto e piso com os pés cegos

as pedras mudas e as folhas secas

e alguém atrás de mim também nelas pisa:

Se me detenho, se detém;

Se corro, corre. Viro o rosto: ninguém.

Tudo está escuro e não há saída,

e dou volta nas esquinas

que dão sempre  na rua

onde ninguém me espera nem me segue,

onde eu sigo um homem que tropeça

e se levanta e diz ao me ver: ninguém.

Ilustração: O Globo.

Hai-kai da Felicidade

 



Quando bebo um chope duplo

A felicidade deve provir do lúpulo

E do inevitável tira-gosto de linguiça. 

Ilustração: Tripobet. 

Tuesday, September 12, 2023

Uma poesia de Mina Loy

 


MOREOVER, THE MOON

Mina Loy

Face of the skies
preside
over our wonder.

Fluorescent
truant of heaven
draw us under.

Silver, circular corpse
your decease
infects us with unendurable ease,

touching nerve-terminals
to thermal icicles

Coercive as coma, frail as bloom
innuendoes of your inverse dawn
suffuse the self;
our every corpuscle become an elf.

ALÉM DO MAIS, A LUA

Rosto dos céus

a presidir

sobre a nossa maravilha.

 

Fluorescente

ao faltar

ao céu

atrai-nos para baixo.

 

Prateado corpo circular

seu declínio

infecta-nos com uma insuportável facilidade ,

 

tocando os terminais nervosos

de térmicos pingentes de gelo

 

Coercitivo como o coma, frágil como a flor,

as insinuações do seu amanhecer inverso

impregnam o eu;

cada fragmento nosso se torna um elfo.

Ilustração: João Bidu.

INVENTANDO MODA

 


O pensamento não pesa.

E quem pesa o pensamento?

Para que alguém o meça

uma nova régua invento.


O pensamento é tormento.

Logo passa como o agora. 

Não volta. Já foi embora

e sua ida lamento.


Mas, fica o sentimento

que muito me incomoda

de que a vida é o vento. 


Estou inventando moda?

Quem passa é o momento

e minha vida é que roda!

Ilustração: Linkedin. 


Outra poesia de Roy Sigüenza

 


FELICIDAD

Roy Sigüenza

Bebimos cerveza

de a poquito

(tomémosla como si fuera vino,

te propuse)

tú dijiste que la bosta de vaca

elevaba

(la fumamos)

 

estaba claro que los dos buscábamos

abandonar este mundo.

FELICIDADE

Bebemos cerveja

pouco a pouco

(tomemos como se fosse vinho,

te propus)

tu disseste que esterco de vaca

elevava

(e fumamos)

 

Estava claro que nós dois estávamos procurando

deixar este mundo.

Ilustração: Jornal Ouvidor.

Monday, September 11, 2023

Discípulo Tibetano


Eu vou nem que seja a pé

passar um ano meditando no Tibet

para virar monge. 

Será um longo ano

de sacrifícios e orações

no qual espero me livrar 

das tentações 

do teu perfume, de teus olhos, de teus seios.

Isto se, de tanta dor,

antes não morrer de amor-

é tua falta 

que me causa estes receios. 

Ilustração: Myloview.  

Uma poesia de Salomón de la Selva

 


TROPICAL TOWN

 

Salomón de la Selva

 

For Miss Eugenia L. V. Geisenheimer

Blue, pink, and yellow houses, and, afar,
The cemetery, where the green trees are.

Sometimes you see a hungry dog pass by,
And there are always buzzards in the sky.
Sometimes you hear the big cathedral bell,
A blindman rings it; and sometimes you hear
A rumbling ox-cart that brings wood to sell.
Else nothing ever breaks the ancient spell
That holds the town asleep, save, once a year,
The Easter festival . . .
                                                I come from there,
And when I tire of hoping, and despair
Is heavy over me, my thoughts go far,
Beyond that length of lazy street, to where 
The lonely green trees and the white graves are.

CIDADE TROPICAL

Casas azuis, rosa e amarelas e, ao longe,

O cemitério, onde as árvores verdes estão.

Às vezes você vê um cachorro faminto passando,

E sempre há urubus no céu.

Às vezes você ouve o sino da grande catedral,

Um cego toca; e às vezes você ouve

Um barulhento carro de boi que traz madeira para vender.

Caso contrário, nada quebra o feitiço antigo

Que mantém a cidade adormecida, exceto, uma vez por ano,

A festa da Páscoa. . .

                                                 Eu venho de lá,

E quando eu me cansar de esperar e me desesperar

E pesa sobre mim, meus pensamentos vão longe,

Além daquela extensão de rua preguiçosa, lá onde

As solitárias  árvores verdes e os túmulos brancos estão.

Ilustração: Pxfuel.



E, de volta, Pier Paolo Pasolini

 


Pier Paolo Pasolini

Io sono una forza del passato.

Solo nella tradizione è il mio amore.

Vengo dai ruderi, dalle chiese,

dalle pale d’altare, dai borghi

abbandonati sugli Appennini o le Prealpi,

dove sono vissuti i fratelli.

Giro per la Tuscolana come un pazzo,

 per l’Appia come un cane senza padrone.

 O guardo i crepuscoli, le mattine

 su Roma, sulla Ciociaria, sul mondo,

come i primi atti del Dopostoria,

cui io assisto, per privilegio d’anagrafe,

sull’orlo estremo di qualche età

sepolta. Mostruoso è chi è nato

dalle viscere di una donna morta.

E io, feto adulto, mi aggiro

più moderno di ogni moderno

a cercare i fratelli che non sono più.

 

Eu sou uma força do passado.

Só na tradição está o meu amor.

Venho das ruínas, da igreja,

do pé dos altares, das cidades

abandonadas nos Apeninos ou Prealpes,

onde viveram os irmãos.

Passeio pela Tuscolona feito um louco,

Pela Appia como um cão sem dono.

Ou assisto o crepúsculo, as manhãs

sobre Roma, Ciociaria, sobre o mundo,

como os primeiros atos depois da história,

aos quais assisto, por um privilégio do cartório,

na orla extrema de alguma idade

sepultada. Monstruoso é quem nasceu

das vísceras de uma mulher morta.

E eu, feto adulto, ando às voltas,

mais moderno que qualquer moderno,

à procura dos irmãos que não são mais.

Ilustração: Spring your English.

Sunday, September 10, 2023

Dias Abreviados



E agora lá vai setembro!

Vai passando..

Logo chegando dezembro. 

Ilustração: Guiame. 


 

Lorca voltando

 

 


SONETO DE LA DULCE QUEJA

Federico García Lorca

Tengo miedo a perder la maravilla
de tus ojos de estatua, y el acento
que de noche me pone en la mejilla
la solitaria rosa de tu aliento.

Tengo pena de ser en esta orilla
tronco sin ramas; y lo que más siento
es no tener la flor, pulpa o arcilla,
para el gusano de mi sufrimiento.

Si tú eres el tesoro oculto mío,
si eres mi cruz y mi dolor mojado,
si soy el perro de tu señorío,

no me dejes perder lo que he ganado
y decora las aguas de tu río
con hojas de mi otoño enajenado.

SONETO DA DOCE QUEIXA

Tenho medo de perder a maravilha

de teus olhos de estátua, e o acento

que à noite me põe na bochecha

a solitária rosa de teu alento.

 

Tenho pena de estar nesta orla

tronco sem ramos; e o que mais sinto

é não ter flor, polpa ou argila,

pelo verme do meu sofrimento.

 

Se tu és o meu tesouro escondido,

Se tu és minha cruz e molhada agonia,

Se sou o cachorro da tua senhoria,

 

não me deixes perder o que hei ganhado

e as águas do teu rio decorado

com as folhas do meu outono alienado.

Ilustração: Interflora.pt.

Uma poesia de Sandro Penna

 


 

NELLA NOTTE PROFONDA

Sandro Penna

Nella notte profonda

si consumano le stelle.

Un odore m’innonda:

un amor di cose belle.

NA NOITE PROFUNDA

Na noite profunda

se consomem as estrelas.

Um odor me inunda:

um amor das coisas belas.

Ilustração; SoundCloud.

Saturday, September 09, 2023

Eluard de volta

 


PAR UN BAISER  

Paul Eluard

Jour la maison et nuit la rue

Les musiciens de la rue

Jouent tous à perte de silence

Sous le ciel noir nous voyons clair

 

La lampe est pleine de nos yeux

Nous habitons notre vallée

Nos murs nos fleurs notre soleil

Nos couleurs et notre lumière

 

La capitale du soleil

Est à l'image de nous-mêmes

Et dans l'asile de nos murs

Notre porte est celle des hommes.

POR UM BEIJO

Casa de dia rua de noite

Os músicos na rua

Todos tocam e seguem tocando

Sob o céu escuro vemos claro

 

A lâmpada está plena de nossos olhos

Habitamos em nosso vale

Nossos muros flores e sol

Nossas cores nossa luz

 

A capital do sol

É o reflexo de nós mesmos

E no asilo dos nossos muros

Nossa porta é a dos homens.

Ilustração: Climatempo.

Uma poesia de Roy Sigüenza

 


CABALLOS

Roy Sigüenza

Las patas de los caballos dan vueltas y vueltas
sobre el lodazal de la molienda vueltas y vueltas
como en mi cabeza tu ausencia.

CAVALOS

As patas dos cavalos dão voltas e voltas

sobre o atoleiro do moinho voltas e voltas

como, em minha cabeça, a tua ausência.

IMPOSSIBILIDADE


Eu nunca poderia te deixar,

meu amor, 

porque não há formas de viver

sem o coração. 

Às vezes, te digo sem pensar

que vou embora, 

imerso na ilusão 

de que isto seja possível, 

todavia me dou conta,

na hora,

do deserto terrível,

e sem oásis, 

que é viver sem teu carinho. 

E, logo, de mansinho

peço perdão,

pois não sei viver não

sem você. 

Ilustração: Mensagens de Amor. 

Friday, September 08, 2023

ODE AOS QUE ME QUEREM MAL

 


Se você não gosta de mim-

e nem sei nem porquê-

o problema é seu 

Zebedeu. 

Não preciso do seu ódio 

para nada. 

E, talvez, até venha

de uma admiração 

porque sou o que você não é. 

Não pense que não sei

que seu ódio

pode me fazer mal.

Sei- e tenho provas 

do que ódios assim já me fizeram.

Mas, teu ódio 

eu zero. 

Não, não é grandeza minha.

É que, por natureza 

e por preguiça, 

tenho problemas de me abaixar 

e ficar na altura 

que você está. 

Ilustração; Extra online.