Monday, August 14, 2023

AGOSTO

  


 

Embora agosto seja agosto

um agosto diferente de outro agosto

ainda que todo agosto imprima em nós

certos sentimentos imprevistos,

certas incertezas estranhas,

certas sensações tamanhas

que só agosto pode dar.

Agosto-dizem- que dá azar.

Pode ser se for sua hora de morrer.

E sempre tem hora, ou não, de morrer?

Sempre terá,

mas, quando não se sabe,

e é natural que tudo se acabe,

agosto é um mês a mais,

melhor quando te satisfaz.

Agosto, para mim, é o aniversário

de minha mãe,

que faz tempo que morreu.

Um mês, muitas vezes, frio;

outras vezes, muito quente,

como agora, que parece um forno.

Ainda que agosto possa ser morno

é um mês sempre de inquietações,

um mês de uma indefinível beleza,

um mês de tantas flutuações

que me traz sempre a certeza

de que desejo

muitos agostos mais!

Ilustração: Blog do Correio Braziliense.

Uma poesia de Ricardo Palma

 

TORPEDO

Ricardo Palma

Hablaba un diputado en el Congreso

De Lima, Quito, Bogotá o Santiago

Pues fiel memoria de lugares no hago

Y nada importa el sitio del suceso.

 

-Si queréis gloria, libertad, progreso,

A Roma contemplad. Mirad que estrago

Causa el puñal de un Bruto dando en pago

De tiranía vil muerte a un obseso.

 

¡Y Roma se salvó! Mas un tunante

De aquellos que en la barra echan venablos

Gritó, del aguardiente en los eructos:

 

Esa es grilla, señor preopinante

Si un bruto salvó a Roma, ¿cómo diablos

No salvan a esta patria tantos brutos?

TORPEDO

Falava um deputado no Congresso

De Lima, Quito, Bogotá ou Santiago,

Pois fiel memória dos lugares não faço

E nada importa o local do sucesso.

 

Se quereis gloria, liberdade, progresso

Contemplai Roma. Olha que estrago

Porque o piunhal de um Bruto dado em pago

Da tirania vil a morte a um obsessivo.

 

E Roma foi salva! mais um bandido

Daqueles que jogam lanças no bar

Gritou, do conhaque em seus arrotos:

 

Esta é o grilo, senhor preopinante

Se um bruto salvou Roma, como diabos

Tantos brutos não salvam este país?

Ilustração: Professor João Paulo.

Sunday, August 13, 2023

Eu quero mesmo



Eu quero mesmo é te dizer que és bela
mais que as flores amarelas de ipê.
Eu quero mesmo é te dizer que rio,
neste domingo frio, 
quente de desejo,
louco por teu beijo. 
Eu quero mesmo é te chamar
para me amar
sem receio
porque creio 
que nosso amor será tão doce 
como bombom de cupuaçu. 
Eu quero mesmo é te dizer 
que preparei a cama, 
com cheiro de patchouli, 
com garrafada de mulher amada, 
certo que tu hás de nela cair
porque não posso mais 
passar um dia 
nesta agonia 
de tanto te querer!
Ilustração: G1. 


E trago novamente Dylan Thomas

 


Dylan Thomas

The hand that whirls the water in the pool

Stirs the quicksand; that ropes the blowing wind

Hauls my shroud sail.

And I am dumb to tell the hanging man

How of my clay is made the hangman’s lime.

 

The lips of time leech to the fountain head;

Love drips and gathers, but the fallen blood

Shall calm her sores.

And I am dumb to tell a weather’s wind

How time has ticked a heaven round the stars.

 

And I am dumb to tell the lover’s tomb

How at my sheet goes the same crooked worm.

 

A mão que agita a água da piscina

Remexe a areia movediça; que amarra o vento que sopra

Puxa minha vela mortalha.

E eu sou burro para dizer ao homem enforcado

Como da minha argila é feita a cal do carrasco.

 

Os lábios do tempo sugam para a fonte;

O amor pinga e se acumula, mas o sangue caído

Deve acalmar suas feridas.

E eu sou burro para contar ao vento do tempo

Como o tempo marcou um céu em volta das estrelas.

 

E eu sou burro para contar ao túmulo do amante

Como no meu lençol vai o mesmo verme torto.

Ilustração: Unanimidade em Varsóvia.

Thursday, August 10, 2023

Eu Canto

 


Se as nuvens são negras e escuras, eu canto.

Se me bate o desalento, o desencanto, eu canto.

Se não consigo fazer nada direito, eu canto.

Se nos caminhos me perco, eu canto.

Se cai a chuva pesada e fria, eu canto.

Se canta muito, a cotovia, eu canto.

Se não sei o que fazer, eu canto.

Se o meu canto perder, eu canto.

E se nada acontecer, ainda mais canto

Até desaparecer

Porque cantar é minha forma de viver.

Ilustração: Topleitura.com.

Tuesday, August 08, 2023

DEVAGAR, DIVAGAR

 


Quando o sol se vai…

Faz-se noite com os seus mistérios,

Com seus rumores, com um vagar,

Quase como o manto do luar

Iluminando os cantos mais escuros…

O ar imóvel…que tranquilidade…

Que quietude, nos pensares meus!

E me encontro com, não sei que deus,

A pedir por dias de felicidade!

Ó desejos tolos!  Como é bom ter sonhos…

Novos, Novos… Jamais são demais…

– São como as ovelhas tão desiguais,

Por mais que pareçam as mesmas no rebanho…

Sonhos e coisas irão embora…

Como, na manhã, irá o luar,

Melhor andar na vida devagar

E divagar nesta doce hora

Noturna, feita para sonhar…

Ilustração: SoundCloud.

Eis aqui Dylan Thomas



IN MY CRAFT OR SULLEN ART 

Dylan Thomas

In my craft or sullen art

Exercised in the still night

When only the moon rages

And the lovers lie abed

With all their griefs in their arms,

I labour by singing light

Not for ambition or bread

Or the strut and trade of charms

On the ivory stages

But for the common wages

Of their most secret heart.

 

Not for the proud man apart

From the raging moon I write

On these spindrift pages

Nor for the towering dead

With their nightingales and psalms

But for the lovers, their arms

Round the griefs of the ages,

Who pay no praise or wages

Nor heed my craft or art.

NO MEU OFÍCIO OU ARTE OBSCURA

No meu ofício ou arte obscura

Exercido na noite silenciosa

Quando somente a lua se enraivece

E os amantes deitam na cama

Com todas suas mágoas em seus braços,

Eu trabalho para cantar a luz

Não por ambição ou pão

Não por pompa e comércio de encantos

Nos palcos de marfim

Mas pelas remunerações comuns

Do seu coração mais secreto.

 

Não para orgulho do homem em pedaços

Da lua enfurecida  eu escrevo

Nestas páginas enevoadas

Nem para os mortos imponentes

Com seus rouxinóis e salmos

Mas para os amantes, seus braços

Ao redor das tristezas das eras,

Que não pagam elogios ou salários

Nem prestam atenção ao meu ofício ou arte.

Ilustração: Vadio Amor.


Sunday, August 06, 2023

Amorosa Lembrança



Me assusta a nitidez

como se uma perfeita fotografia

viva na memória

o teu corpo exposto, 

os bicos de teus seios, 

aos meus olhares alheios, 

de lado na cama

ignorando o desejo e os pensamentos 

de quem te ama,

plácida e lânguida 

como as águas dos rios da minha terra.

É o tempo, penso,

a negrura da janela 

que só me deixou de ti 

esta amorosa lembrança. 

Ilustração: Quadro de Andrew Wyeth. 

Uma poesia de Martine Broda

 

Martine Broda

Sumergidas las ciudades de la memoria

por un exceso de sueño

con gran esfuerzo remontas las aguas

el pálido sufrimiento cuya sed así tu apagas
jamás lo hubieses podido imaginar

vivir persiste y anuncia una débil y desnuda
voluntad frente a los ojos congelados del porvenir

Afundadas as cidades da memória

por um excesso de  sono

 

com grande esforço remontas as águas

o pálido sofrimento cuja sede assim tu apagas

jamais o houvesse podido imaginar

 

viver persiste e anuncia uma débil e desnuda

vontade frente aos olhos congelados do porvir

Ilustração: Missão Urbana. 

E, novamente, Mary Jo Bang

 


NO EXIT  

Mary Jo Bang

The story is written,

Here is the kingdom-castle and castle

Turret seen from a train.The interruption

 

To the ongoing sight line.

She had come from being the slip

Of a girl without a clue to someone

 

Who knew. She came from the room.

On the table, the empty vessel of the word missing

In the figurative and literal language.

SEM SAÍDA

A história está escrita.

Aqui esta o reino-o castelo

e a torre do castelo vista do trem. A interrupção.

 

da linha de visão em curso.

Ela veio de a ser o deslizamento

De uma garota sem a menor ideia de ser alguém

 

Que sabia. Ela veio da sala.

Sobre a mesa, o vaso vazio da palavra ausente

Na figurativa e literal linguagem.

Friday, August 04, 2023

COMENTÁRIOS ABALIZADOS MODERNOS

 


É verdade que nem sei direito

sobre este pintor de quadros,

o tal do Picasso

(aliás o nome já é indicativo

de fracasso),

se bem que, hoje, com tanta propaganda

até se eu,

que não toco nada,

formar uma banda

e fizer marketing digital

não irei ficar mal

na fotografia.

O que me espanta mesmo

é que ele, invés de pintar

uma atriz conhecida,

como a Bruna Marquezin

ou mesmo uma mais antiga,

como a Bruna Lombardi,

pinta esta estrelinha desconhecida,

a Dora Maar,

que nem sei quem é,

nem fez nenhuma novela

ou comercial de sucesso

e deve ser da Record-

que, em matéria de cultura,

promove essas beatas novas-

basta ser religiosa!

Hai-Kaizinhos de Ocasião

 


Ser um gato era um sonho, para mim,

porém, não ser um gato chinfrim

desses que viram couro de tamborim!

 

Como a nova moda é a China

estou vidrado em doramas

mesmo sem entender de ideogramas.

 

Não me compare ao Elon Musk.

Não me veio nada de esmeraldas

E em tecnologia só vejo embuste.

 

Te ensino a ficar rico em um minuto!

Claro que se me pagar antes.

Sou igual a todos os meliantes.

 

Quem como coaching se apresenta

Seguro a língua, mas me tenta

Dizer:-conta outra! E senta!

Ilustração: Jornal daqui. 

 

Thursday, August 03, 2023

Mary Jo Bang novamente



MASQUERADE: AFTER BECKMANN

Mary Jo Bang

We’re sitting here quietly.

You’re feeling your arm, I’m feeling my face.

We’re supposed to stay quiet

 and live the waiting life.

 

We were told to be a portraitist’s object

and imitate a sad fate.

We are a skull times two.

We’re supposed to stay quiet.

  

Herr Moment is looking

at a watch that says now.

Its red face reminds me of the eye of an ogre.

Its shiny rim reminds me

 

of Herr Moment’s handcuffs.

I don’t want to speak

about what can’t be fathomed-

mourning and missing, rings cut from corpses,

 

Herr Moment’s refusal to show his real face.

 

MÁSCARA: DEPOIS DE BECKMANN

Nós estamos sentados, aqui, quietamente.

Você toca em teu braço. Eu sinto minha face.

Nós, supostamente, que devemos ficar quietos

e viver esperando a vida.

 

Eles nos ordenaram ser objetos de um fotografo

e repetir um triste destino.

Nós somos uma caveira multiplicada por dois. 

Nós, supostamente, que devemos ficar quieto.

  

O Sr. Momento está olhado

o relógio que diz agora.

Sua face vermelha me recorda o olho de um ogro.

Sua borda brilhante me recorda

 

as esposas do Sr. Momento.

Não preciso falar  

sobre o que não pode ser compreendido-

luto e ausência, anéis arrancados de cadáveres,

 

a negativa do Sr. Momento a de mostrar sua face real.

Ilustração: Todo Cuadros.

AS PRIMEIRAS IDEIAS

 


Começo por

Dar nomes às

formas

e às coisas.

 

E, para fugir do silêncio,

Crio as falas e gritos,

Sem ritos.

 

Para criar movimento

As horas

São essenciais

E algo mais...

 

Alguém que possa

Apreciar a beleza

da minha criação,

o homem então.

 

Sozinho? Não!

Uma parceira

E outros

que participem do jogo,

alguns imóveis  

seria o

óbvio.

 

Mas, é preciso

que saibam me reconhecer

sem ter que dizer.

Só o desconhecido

Pode ser

a chave do

abismo

ou do caos.

Ilustração: Reflexões.

Tuesday, August 01, 2023

FELICIDADE



Eu gosto tanto de você

que, muitas vezes, estar a seu lado, 

mesmo calado, 

é tudo que posso querer.

É verdade que te amar-

 algo que sempre irei desejar-

ser teu amor

já me parece, como a vida, milagre,

principalmente nos fins de tarde

quando o sol morre

e nasce a noite para que o nosso amor

possa crescer como uma flor

inesperada e doce. 

E se isto não for felicidade 

é como se fosse!

Ilustração: Correio Braziliense. 

O Soberbo Jorge Luis Borges

 


RELIGIO MEDICI, 1643

Jorge Luis Borges

Defiéndeme, Señor. (El vocativo

No implica a Nadie. Es sólo una palabra

De este ejercicio que el desgano labra

Y que en la tarde del temor escribo).

 

Defiéndeme de mí. Ya lo dijeron

Montaigne y Browne y un español que ignoro;

Algo me queda aún de todo ese oro

Que mis ojos de sombra recogieron.

 

Defiéndeme, Señor, del impaciente

Apetito de ser mármol y olvido;

Defiéndeme de ser el que ya he sido,

 

El que ya he sido irreparablemente.

No de la espada o de la roja lanza

Defiéndeme, sino de la esperanza.

RELIGIO MEDICI, 1643

Defende-me, Senhor. (O vocativo

Não envolve ninguém. É só uma palavra

Deste exercício que o desengano lavra

E que na tarde de temor escrevo).

 

Defenda-me de mim.  Eles já disseram

Montaigne e Browne e um espanhol que ignoro;

Algo me sobra ainda de todo aquele ouro

Que meus olhos de sombra recolheram.

 

Defende-me, Senhor, dos impacientes

Apetite de ser mármore e esquecimento;

Defende-me de ser o que já hei sido,

 

O que há sido irreparavelmente.

Não da espada ou de vermelha lança

Defende-me, sim da esperança.

Ilustração: Americanas.

Yes, Charles, o inigualável Baudelaire

 


LA GÉANTE

Charles Baudelaire

Du temps que la Nature en sa verve puissante

Concevait chaque jour des enfants monstrueux,

J'eusse aimé vivre auprès d'une jeune géante,

Comme aux pieds d'une reine un chat voluptueux.

J'eusse aimé voir son corps fleurir avec son âme

Et grandir librement dans ses terribles jeux;

Deviner si son coeur couve une sombre flamme

Aux humides brouillards qui nagent dans ses yeux;

Parcourir à loisir ses magnifiques formes;

Ramper sur le versant de ses genoux énormes,

Et parfois en été, quand les soleils malsains,

Lasse, la font s'étendre à travers la campagne,

Dormir nonchalamment à l'ombre de ses seins,

Comme un hameau paisible au pied d'une montagne.

A GIGANTE

Desde quando a Natureza, em sua verve potente,

Concebeu todos os dias infantes monstruosos,

Eu gostaria de viver com uma jovem gigante,

Como aos pés de uma rainha um gato voluptuoso.

Ver seu corpo florir com a flor de sua alma

E crescer livremente nos seus terríveis jogos;

Adivinhar no seu coração oculta alguma chama,

Das chispas úmidas que nadam nos seus olhos.

Percorrer por lazer seus magníficos feitios,

Rastejar na vertente dos joelhos imensos

E, às vezes, no verão, quando os sóis malsãos,

Cansado espalhar-se, ao longo da campina,

Dormir indiferente à sombra dos seus seios,

Como uma aldeia tranqüila ao pé de uma colina.

Ilustração: DC.