Wednesday, June 12, 2019

PERDIDO NA FLORESTA


Não há nada para fazer na floresta,                             
exceto seguir adiante,
comer o que puder, inclusive as sobras
e rezar para escapar das cobras,
dos mosquitos, do calor escaldante.

Não há nada para fazer na floresta,
talvez seguir, na trilha, o mateiro
até mesmo quando a noite desce,
os medos aumentam, o frio aparece,
porém, nada flui ligeiro.

Não há nada para fazer na floresta,
afora se acostumar com a repetição
de troncos, folhas, suor e águas escuras,
de paisagens inóspitas, das vidas duras
de quem quer mesmo é ter salvação.

Não há nada para fazer na floresta,
salvo se manter ileso e viver
cada centímetro examinando
e seguir em frente, andando,
até onde se possa sair e sobreviver.

Ilustração: Facebook.

Friday, June 07, 2019

POEMA PARA A BRANCA DE NEVE




Amo a brancura de tua pele
como me fere,
com a doce entrega
do azul do bico de teus seios,
fontes de mel, nascedouro de prazeres,
porto de precipícios, criadouro de desejos,
brinquedos lúdicos de sonhos infantis.
Ainda sinto os teus beijos....
Tua boca ainda passeia no meu sono
e ainda guardo os ardores insaciados
de desejos guardados
que soltos se expandirão
pela mansidão leitosa de tua pele
e ainda estão flutuando atrás de ti,
como fantasmas de paixão
que rondam terras desconhecidas
em busca da flor do gozo
que guardas entre as pernas
nos campos brancos de neves,
onde vicejam guardas filiformes, pelos negros,
onde nunca aportaram
os pingos de minha língua
seca ainda, chorosa, à míngua
do sêmen que há de brotar,
do germinar sem fim
do amor que há em ti,
em mim
e quer te ver esposa, menina, mulher
a gemer, gritar, escandalizar
ao dizer
que, no teu corpo, existe vida sim,
que te guardaste tanto tempo,
de modo quase santo,
a esperar por uma festa assim,
a esperar por quem te desse tanto amor,
a esperar a festa que chegou,
a esperar por mim!



Ilustração: Tours & Tickets.

Um poema de Mario Meléndez


COMO ÚLTIMO DESEO                          
Mario Meléndez

La
muerte
pidió
que
la
cremaran
y
esparcieran
sus
cenizas
sobre
todos
los
vivos

COMO ÚLTIMO DESEJO

A
morte
pediu
que
a
cremassem
e
espalhassem
suas
cinzas
sobre
todos
os
vivos

Ilustração: fiéis católicos de ribeirão preto.

A PRIMEIRA LIÇÃO


I                                                   
Aproxime-se!
Não tenhas receio.
Sabes que resistir dói mais
do que deixar fluir o desejo.
Não! Não fujas!
Me dá o teu beijo...
O resto acontece; é natural.

II
Temer é a primeira reação, normal
contra esta torrente de emoções.
Este calor, porém, que torna rósea tua pele clara
que queima com ardor e te delata
é só o começo de novas sensações.
Não estremecerás depois de medo.
Mais tarde
será o prazer que virá fazer alarde.

III
Não te culpes....
Nem explique
(não há ninguém, nem nada, inocente).
Só pega na minha mão e docemente
se deixe levar de volta à vida.
Agora saberás, ò doce amada,
o que é a doçura, o prazer, o amor.

Ilustração: Youtube.

E, de volta, Maria Luisa Spaziani


ULTRASUONO

Maria Luisa Spaziani

Il rumore soffoca il canto
ma il canto è uno spillo che attraversa il pagliaio,
cercalo se puoi con torce e calamite
lui ti punge e trafigge quando vuole.

Voce clamante nel deserto, gemito,
ultrasuono, anno-luce, urlo di tribù riscattata,
inconsùtile varchi i deserti del tempo,
le inutili matasse dello spazio.

ULTRASOM

O rumor sufoca o canto,
mas, o canto é um alfinete que atravessa o palheiro
busca-o, se puderes, com tochas e imãs
ele te fura e trespassa quando quer.

Voz que clama no deserto, gemido,
ultrasom, ano-luz, grito de tribo resgatada,
inconsútil cruzas os desertos do tempo,
as inúteis meadas do espaço.

Ilustração: pt.dreamstime.com.

INSUFICIÊNCIA


Sou este ser desconcertado        que, para amarrar os sapatos,
precisa de alguma ajuda
ou me arranjar como posso
num banquinho ou numa cama.
Mas, ainda tenho desejo,
só vez por outra, é verdade,
de superar a covardia
e te amar com uma maldade,
com um vigor e energia
e uma paixão desvairada,
que é pura fantasia.

Ilustração: Só Queria Ter Um.


Thursday, June 06, 2019

Outra poesia de Maddalena Lotter


Maddalena Lotter                                                                
Avvenne
quando per tutto il giorno cercai
di isolarmi e solo respirare
verticale e non ascoltarli mai
nelle loro paure e sterminate pretese;
finalmente dimenticata
il sonno mi fu sora zitto e fondo
come la mano del mare.

Aconteceu
quando por todo o dia tentei
me isolar e só respirar
vertical e não ouvi-los mais
em seus medos e intermináveis pretensões;
finalmente esquecida
o sono me deixou em silêncio e profundo
como a mão do mar.

Ilustração: marsemfim.com.br.

Outra poesia de Goliarda Sapienza


Goliarda Sapienza                                                                          
Vorrei all’ombra del tuo
sguardo
sostare e con la
mano disegnare
la tua voce
che cala verso
me a raccontare.

Vorrei al ritmo
del verso
abbandonarmi ma
il tempo stringe
e devo correre
ancora.


Eu suspenderia a sombra
do teu
olhar
e com a
mão desenharia
a tua voz
que ensaia versos
para me contar.

Eu faria o ritmo
do verso
me abandonar, mas,
o tempo se esgota
e tenho que correr
ainda.

Ilustração: Eucontigo.

Wednesday, June 05, 2019

COMPUTA COMPUTADOR


O hoje, 
este fiapo transitório, 
é a nossa única certeza. 
Diante do computador, 
sentado na cadeira, 
embaralhado em sites, fakes e vídeos de anúncios, 
que não desejo ver, 
tudo me parece vago e possível
na imensidão do caos virtual. 
Não fiz check-up.
De Facebook, Instagram ou  de e-mails 
não quero saber
e de notícias ruins me bastam as da tv. 
Me sinto mal longe de meu amor
e ainda morro de calor,
nesta temperatura amazônica insuportável,
sem uma cerveja. 
O mundo me parece de cabeça para baixo
e eu, que nasci para ser Raul Seixas, 
só tive da vida as ameixas secas
e esta voz desafinada 
que nem Reginaldo Rossi, 
bêbado e com dor de barriga, tem. 
A imagem não me vem. A poesia me falta. 
Até a tela me maltrata.
Deu pane
e, por mais que me engane, 
sair, hoje, não vou. 
Meus dois times foram derrotados, 
devo estar com azia,
nem ganhei na loteria 
e tudo que me resta é esta gana de viver 
misturada com a doída saudade de você! 

Ilustração: Aladim José Martins. 

Tuesday, June 04, 2019

Uma poesia de André Pieyre de Mandiargues


Tu riras                            
André Pieyre de Mandiargues

Tu riras d’avoir eu faim
Tu riras du besoin
Et de la satisfaction,

Tu riras du froid et du chaud
Tu riras d’avoir ri et pleuré
Tu souriras d’avoir aimé,

Tu te moqueras d’avoir eté vivante.

TU RIRÁS

Tu rirás de estar com fome
Tu rirás da necessidade
E da satisfação,

Tu rirás do frio e do calor
Tu rirás de rir e chorar
Tu sorrirás por ter amado,

Tu tirarás sarro de ter vivido.

Ilustração: Para tudo na vida há uma solução!

ADEUS ÀS ILUSÕES


                         
Imagino sempre
lugares que não existem,
espaços que os olhos não podem ver,
rios que não correm para o mar
e se perdem em horizontes  
que ninguém sabe onde estão.

Não me apresso!
Meu pobre coração
que desejava ser azul
parece não bater,
ao ritmo de uma música clássica suave,
comprimido pelo peso da vida,
que, na sua repetição, me deixa com as mãos vazias
e a memória dos tempos felizes,
de canções e amores perdidos.

Cada momento
é como se fosse uma onda
que deságua no invisível,
no indizível, no indecifrável,
na esperança inalcançável,
na água imensa da longa noite eterna
– morto ainda vivo
persisto em busca da ilusão perdida
e, apesar de tudo, 
na minha eterna fantasia 
finjo que a vida tem alegria.

Ilustração: Dm.

Uma poesia de Mattew Arnold


Longing                                            

Matthew Arnold

Come to me in my dreams, and then
By day I shall be well again!
For then the night will more than pay
The hopeless longing of the day.

Come, as thou cam’st a thousand times,
A messenger from radiant climes,
And smile on thy new world, and be
A kind to others as to me!

Or, as thou never cam’st in sooth,
Come now, and let me dream it truth,
And part my hair, ad kiss my brow,
And say: My love, why sufferest  thou?

Come to me in my dreams, and then
By day I shall be well again!
For then the night will more than pay
The hopeless longing of the day.

SAUDADE

Venha nos meus sonhos, e depois
De dia me sentirei bem outra vez!
Pois, assim, a noite vai mais do que pagar
O desejo sem esperança do dia.

Venha, como fizeste mil vezes,
Um mensageiro de climas radiantes,
E sorria no teu novo mundo, e  seja
Tão gentil para os outros quanto comigo!

Ou então, como nunca se acalmou,
Vem agora, e faz, o sonho ser verdade.
Reparte meus cabelos, beija-me a testa
E diga: meu amor, porque sofres?

Venha nos meus sonhos, e depois
De dia me sentirei bem outra vez!
Pois, assim, a noite vai mais do que pagar
O desejo sem esperança do dia.

Ilustração: DocPlayer.com.br.

Monday, June 03, 2019

Outra poesia de Francis Ponge


RHUM DES FOUGERES                                      
Francis Ponge

De sous les fougères et leurs belles fillettes ai-je la perspective du Brésil?
Ni bois pour construction, ni stères d’allumettes : des espèces de feuilles entassées par terre qu’un vieux rhum mouille.
En pousse, des tiges à pulsations brèves, des vierges prodiges sans tuteurs : une vaste saoulerie de palmes ayant perdu tout contrôle qui cachent deux tiers chacune du ciel.

RUMO ÀS SAMAMBAIAS

Debaixo das samambaias e suas lindas folhinhas terei a perspectiva do Brasil?
Nem madeira para construção e nem palito de fósforo: espécies de folhas amontoadas pelo chão que um rum velho molha.
Na parte alta, caules com breves pulsações, virgens prodígios sem guardiões: uma vasta bebedeira de palmeiras, que tendo perdido todo o controle escondem cada um dois terços do céu.
Ilustração: Mercado Livre.

Uma poesia de Silvina Ocampo


 
AL RENCOR                  
 Silvina Ocampo

No vengas, te conjuro, con tus piedras;
con tu vetusto horror con tu consejo;
con tu escudo brillante con tu espejo;
con tu verdor insólito de hiedras.

En aquel árbol la torcaza es mía;
no cubras con tus gritos su canción;
me conmueve, me llega al corazón,
repudia el mármol de tu mano fría.

Te reconozco siempre. No, no vengas.
Prometí no mirar tu aviesa cara
cada vez que lloré sola en tu avara
desolación. Y si de mí te vengas,

que épica sea al menos tu venganza
y no cobarde, oscura, impenitente,
agazapada en cada sombra ausente,
fingiendo que jamás hiere tu lanza.

Entre rosas, jazmines que envenenas,
¿por qué no te ultimé yo en mi otra vida?
Haz brotar sangre al menos de mi herida,
que estoy cansada de morir apenas.

AO RANCOR

Não venha, te conjuro com tuas pedras;
com teu vetusto horror com teu conselho;
com teu escudo brilhante com teu espelho;
com tua verdor insólito de heras.

Naquela árvore é minha a cotovia;
não cubra com teus gritos sua canção;
me move, me chega ao coração,
repudia o mármore da tua mão fria.

Te reconheço sempre. Não, não venha.
Prometi não olhar tua maligna cara
cada vez que chorei só em tua avara
desolação E se de mim te venha

que épica seja, pelo menos, tua vingança
e não covarde, escura, impenitente,
agachado em cada sombra ausente,
fingindo que jamais fere tua lança.

Entre rosas e jardins que envenenas,
porque não te acabei em minha outra vida?
Faz brotar, ao menos, sangue da minha ferida
que estou cansada de morrer apenas.

Ilustração: O Segredo.