Thursday, May 16, 2019

SÁBADO NO GREGO ORIGINAL

Balde? Para que balde? 
Para chutar!    
No Grego Original
ser original
é pedir Antarctica Original-
não long neck.
Ah! Minha linda,
você, tem atributos de vedete,
de celebridade,
porém, tenho a sabedoria da idade.
Sei que, no Grego, é praxe
nos tornarmos invisíveis para os garçons
(só os seguranças nos percebem).
E se são altos os sons
das guitarras-
para os seus ouvidos sensíveis-
o que nos amarra a este local
é que é sábado,
a feijoada maravilhosa,
a vida doce
e festejamos, com alegria,
o prazer de comer e beber bem!
Vem pro Grego Original,
você também!

Uma poesia de Alessandro Baricco


OCEANO MARE          
Alessandro Baricco

Quando facevo i ritratti alla gente iniziavo dagli occhi.
Li studiavo per minuti e minuti,
li abbozzavo con la matita
e quello era il segreto
perché una volta che voi avete disegnato gli occhi
Succede che tutto il resto viene da sé, è come se tutti gli altri pezzi scivolassero da soli intorno a quel punto iniziale […]
il problema è: dove cavolo sono gli occhi del mare?

OCEANO MAR

Quando tirava retrato de pessoas iniciava pelos olhos.
Os estudava por minutos e minutos,
os desenhei com um lápis
e este era o segredo
porque uma vez que desenhava os seus olhos
sucedia que todo o resto vem por si só, é como se todas as outras peças deslizassem por si mesmas em torno daquele ponto inicial [...]
o problema é: onde diabos estão os olhos do mar?

Ilustração: O amor vai salvar o dia.

De volta Raúl Gómez Jattin


 
Erótico imaginário

Raúl Gómez Jattin

Está quieto el jardín soportando la tarde
de un marzo que se anunciara ventoso

Tan fugaz que parece un enero

Penetrado de noche en limoneros y acacias
Opalino a lo lejos en la frente del cielo
El jardín se estremece por dentro

Entre ramas secas y hojas podridas
dormitan escarabajos Libélulas Lagartos
Un gato de ocio y maldad acecha una mariposa

De repente una casi invisible neblina desciende
y posa su penumbra en la fronda
acariciando el nudo de nuestros cuerpos
con la misma dulzura lentísima
con que yo mitad fuerza mitad miedo
beso tu cuello y tu barba de negro cristal
Está el jardín oloroso a sudor masculino
a saliva de besos profundos que anhelan
desatar el torrente del deseo en su cima
y que fluyan las savias y descansen los cuerpos

O imaginário erótico

Está quieto o jardim suportando a tarde
de um março que se anunciara de ventos

Tão fugaz que parece um janeiro

Penetrado de noite em limoeiros e acácias
opalino à distância em frente ao céu
o jardim arrepia-se por dentro

Entre galhos secos e folhas podres
dormem  besouros libélulas lagartos
Um gato de ócio e maldade persegue uma borboleta

De repente, uma névoa quase invisível desce
e pousa sua penumbra na copa das árvores
acariciando o nó dos nossos corpos
com a mesma doçura lentíssima
com que eu metade força metade medo
beijo seu pescoço e sua barba de negro cristal
Está o jardim cheirando a suor masculino
à saliva de beijos profundos que anseiam
desatar a torrente de desejo em seu topo
e que fluam as seivas e descansem os corpos.

Ilustração: Jardim Cor.

Wednesday, May 15, 2019

Uma poesia de Ángel González



Otro tiempo vendrá

Ángel González

Otro tiempo vendrá distinto a éste.
Y alguien dirá:
«Hablaste mal. Debiste haber contado
otras historias:
violines estirándose indolentes
en una noche densa de perfumes,
bellas palabras calificativas
para expresar amor ilimitado,
amor al fin sobre las cosas
todas».

Pero hoy,
cuando es la luz del alba
como la espuma sucia
de un día anticipadamente inútil,
estoy aquí,
insomne, fatigado, velando
mis armas derrotadas,
y canto
todo lo que perdí: por lo que muero.


OUTRO TEMPO VIRÁ

Outro tempo virá diferente deste.
E alguém dirá:
“Falaste mal. Deverias ter contado
outras histórias:
violinos estirando-se indolentes
numa noite densa de perfumes,
belas palavras qualificativas
para expressar o amor ilimitado,
amor, ao fim, sobre as coisas
todas”.

Porém, hoje,
quando é a luz do amanhecer
como a espuma suja
de um dia antecipadamente inútil,
estou aqui,
insone, fatigado, velando
minhas armas derrotadas
e canto
tudo que eu perdi: pelo que morro.

Ilustração: the moment mag. 


Outra poesia de Ana Blandiana




Un tempo gli alberi avevano occhi

Ana Blandiana

Un tempo gli alberi avevano occhi,
posso giurarlo,
so di certo
che vedevo quando ero albero,
ricordo che mi stupivano
le strane ali degli uccelli
che mi sfrecciavano davanti,
ma se gli uccelli sospettassero
i miei occhi,
questo non lo ricordo più.
Invano ora cerco gli occhi degli alberi.
Forse non li vedo
Perché albero non sono più,
o forse sono scivolati lungo le radici nella terra,
o forse,
chissà,
solo a me m’era parso
e gli alberi sono ciechi da sempre
Ma allora perché
Quando mi avvicino
Sento che
Mi seguono con gli sguardi,
in un modo che conosco,
perché, quando stormiscono e occhieggiano
con le loro mille palpebre,
ho voglia di gridare
Cosa avete visto?…

ERA UM TEMPO ONDE AS ÁRVORES TINHAM OLHOS

Era um tempo em que as árvores tinham olhos,
posso jurar
tenho certeza
que vi quando era uma árvore
recordo que me surpreenderam
as estranhas asas dos pássaros
que passaram por mim,
mas, se as aves suspeitavam
de meus olhos
não recordo mais.
Em vão busco os olhos das árvores agora.
Talvez não os veja
Porque não sou árvore mais
ou talvez tenham escorregado ao longo das raízes para a terra,
ou talvez
quem sabe,
só a mim pareceu
e as árvores foram cegas sempre
Mas, então porque
Quando me aproximo
sinto que
me seguem com olhares,
de um jeito que sei
porque, quando elas sussurram e espreitam
com suas mil pálpebras,
desejo gritar
que coisa avistou?

Ilustração: A Viagem dos Argonautas- Com pintura de Maria Keil.

Tuesday, May 14, 2019

E, agora, Raúl Gómez Jattin


Casi obsceno                                                        

Raúl Gómez Jattin

Si quisieras oír lo que me digo en la almohada
el rubor de tu rostro sería la recompensa
Son palabras tan íntimas como mi propia carne
que padece el dolor de tu implacable recuerdo

Te cuento ¿Sí? ¿No te vengarás un día? Me digo:
Besaría esa boca lentamente hasta volverla roja
Y en tu sexo el milagro de una mano que baja
en el momento más inesperado y como por azar
lo toca con ese fervor que inspira lo sagrado

No soy malvado Trato de enamorarte
Intento ser sincero con lo enfermo que estoy
y entrar en el maleficio de tu cuerpo
como un río que teme al mar pero siempre muere en él


QUASE OBSCENO 

Se quiseres ouvir o que me digo no travesseiro
o rubor de teu rosto seria a recompensa
São palavras tão íntimas como minha própria carne
que padece a dor de tua memória implacável

Te conto sim? Não te vingarás um dia? Me digo:
Beijaria essa boca lentamente até deixá-la vermelha
E no teu sexo o milagre de uma mão que baixa
no momento mais inesperado e como se, por acaso,
o toca com esse fervor que inspira o sagrado

Não sou malvado. Trato de me apaixonar-te.
Intento ser sincero doente que estou
e entrar no malefício do teu corpo
como um rio que teme o mar, porém, sempre morre nele.

Ilustração: Astrocentro.

Uma poesia de Carmen Sánchez Álvarez


 

Carmen Sánchez Álvarez

Un ara en el jardín redime
el tránsito libre por tu cuerpo.
Estrellas, cerezas y luciérnagas
salvajes en su seno,
florecen, esta noche y al alba,
al esconderse el sueño.
Luce el abismo al despertar el día.
Tan lejos, tan vacíos, tan atrás
quedan los besos
que quisiera
renovar a cada instante
efímeros votos en tu lecho.


Um sulco no jardim redime
o trânsito livre por teu corpo.
Estrelas, cerejas e vagalumes
selvagens no teu seio,
florescem, esta noite e ao amanhecer
ao esconder-se o sonho.
Brilha o abismo ao despertar do dia.
Tão distantes, tão vazios, tão atrás
permanecem os beijos
que quisera
renovar a cada instante
efêmeros votos em teu leito.

Uma poesia clássica de Robert Frost


 
THE ROAD NOT TAKEN                            
 Robert Frost

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

A ESTRADA QUE NÃO TOMEI

Duas estradas divergiam num bosque amarelo
E infelizmente, não poderia percorrer as duas
E sendo um só viajante, por um tempo ali fiquei
E olhei uma delas tão distante quanto podia
Até onde se inclinava a vegetação rasteira

Então, tomei a outra, igualmente justa,
E tendo talvez uma maior atração,
Porque cheia de grama desejando ser usada;
Ainda que os que os que passaram por lá
Tenham desgastado ambas quase do mesmo modo.

E ambas naquela manhã pisadas igualmente
Em folhas que passo algum escureceu.
Ah, deixei a primeira para outro dia!
Ainda sabendo que caminhos levam a caminhos,
Eu duvidava que algum dia voltasse.

Isto hei de dizer com um suspiro
Em algum lugar anos e anos, consequentemente:
Duas estradas divergiram em um bosque, e eu-
Eu fui pela estrada menos usada,
E isso fez toda a diferença.

Ilustração: Talita Almeida.

O notável Robert Frost


Fire and Ice                  

Robert Frost

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favour fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

FOGO E GELO

Alguém diz que o mundo irá terminar em fogo,
alguém diz que em gelo.
Daquilo que eu já provei de desejo
Eu estou a favor dos que acreditam no fogo.
Porém, se tivesse que perecer duas vezes,
Eu penso que sei o bastante de ódio
Para dizer que a destruição pelo gelo
Também é ótima
E seria suficiente.

Ilustração: Pngtree.

Monday, May 13, 2019

E, agora, José Agustín Goytosolo


 
Esa flor instantânea      
José Agustín Goytisolo

Miedo a perderse ambos,
vivir el uno sin el otro:
miedo a estar alejados
en el viento de la niebla,
en los pasos del día,
en la luz del relámpago,
en cualquier parte. Miedo
que les hace abrazarse,
unirse en este aire
que ahora juntos respiran.
Y se buscan y buscan
esa flor instantánea
que cuando se consigue
se deshace en un soplo
y hay que ir a encontrar otras
en el jardín umbrío.
Miedo; bendito miedo
que propicia el deseo
la agonía y el rapto,
de los que mueren juntos
y resucitan luego.

ESSA FLOR INSTANTÂNEA

Medo de perder-se ambos
de viver um sem o outro:
medo de estar longe
no vento da névoa,
nos passos do dia,
na luz do raio,
em qualquer lugar. Medo
o que os faz abraçar-se
unir-se neste ar
que agora juntos respiram.
E buscam-se e se buscam
essa flor instantânea
que quando se consegue
se desfaz em um sopro
e outras ha que se encontrar
no jardim sombrio.
Medo, bendito medo
que propicia o desejo
a agonia e o arrebatamento
dos que morrem juntos
e ressuscitam logo.

Ilustração: Acasos afortunados.