Sunday, January 25, 2026

Sim, Pierre de Ronsard

 


À CUPIDON

Pierre de Ronsard

Le jour pousse la nuit,
Et la nuit sombre
Pousse le jour qui luit
D'une obscuro ombre.

Mais la fièvre d'amours
Qui me tourmente,
Demeure en moy tousjours,
Et ne s'alente.

Ce n'estoit pas moy, Dieu,
Qu'il falloit poindre,
Ta fleche en autre lieu
Se devoit joindre.

À CUPIDO

O dia afasta a noite,

E a noite escura

Afasta o dia brilhante

De uma sombra obscura.

 

Mas a febre do amor

Que me atormenta,

Permanece sempre em mim,

E não diminui.

 

Não fui eu, Deus,

Quem deveria ter sido ferido,

Sua flecha outro lugar

Deveria ter atingido.

Ilustração: Pikbest.

Louvação à Maniçoba

 


LOUVAÇÃO À MANIÇOBA

Silvio Persivo

A maniçoba é dos deuses um presente,

Feita com a maniva e nobres ingredientes,

como toucinho, charque e calabresa,

a feijoada vegetal é uma beleza.

 

Cortados em rodelas o bacon, o paio

E, com folhas de louro, se faz o ensaio

Costelinhas defumadas e porco assado,

Com a maniva dissolvida em um ensopado.

 

Cozinhando por dias em fogo brando,

Até o caldo ficar preto e consistente,

A maniçoba encorpada é um deleite,

Acompanhada de farinha e arroz quente.

 

Depois de provar, é impossível esquecer,

Por isto a maniçoba, um tesouro da culinária,

Agradável, maravilhoso, o que dá mais prazer

Entre todos pratos que existem na Amazônia!

(De "Receitas da Amazônia Temperadas com Poesia, e-book Hotmart)

Ilustração: Jornal Correio. 

 

Uma poesia de Martin Prieto

 


                       UNA MÚSICA EN LA MEMORIA

Martin Prieto

De zapatillas y pantalones negros,

con el torso desnudo,

lleno de yerba una calabaza marrón.

El paisaje es el de todos los días,

salvo por una música que no silbo

y sin embargo sé.

UMA MÚSICA NA MEMÓRIA

De tênis e calça preta,

com o torso nu,

cheia de grama uma cabaça marrom.

 

A paisagem é a de todos os dias,

salvo por uma música que não assobio,

e, sem embargo, sei.

Ilustração: The Bard News. 


Uma poesia de Santiago Loza

 


UNA VEZ

Santiago Loza

No hicimos el Camino del Inca
tampoco nos preparamos para el sol
que estaba muy cerca de las ruinas
compramos unas gorras
caminamos en fila
sacamos pocas fotos
en el tren que nos devolvía al Cuzco
nos reímos de otros turistas
que hacían más o menos
lo mismo que nosotros
las camareras dejaron de vender comida
y se pusieron a desfilar ponchos
me levanté para estirar las piernas
fui al baño
y en la ventanita chica
vi de pronto un cielo rutilante
desmesurado
estrellas agolpadas estallaban la noche
y me quedé mirando
eso que los antiguos veneraban
y llamamos firmamento
con todo su misterio
y algunas esperanzas

UMA VEZ

Não fizemos o caminho do Inca

tampouco nos preparamos para o sol

que estava muito perto das ruínas

compramos uns bonés

caminhamos em fila

tiramos poucas fotos

no trem que nos devolvia a Cuzco

nos rimos de outros turistas

que faziam mais ou menos

o mesmo que nós

as garçonetes deixaram de vender comida

e se puseram a desfilar seus ponchos

me levantei para estirar as pernas

fui ao banheiro

e na janelinha

vi de repente um céu deslumbrante

desmesurado

estrelas aglomeradas brilhavam na noite

e me quedei olhando

isto que os antigos veneravam

e chamamos de firmamento

com todo o seu mistério

e algumas esperanças

Ilustração: Ingressos Machu Picchu.


Uma poesia de George Herbert

 


THE WINDOWS

By George Herbert

Lord, how can man preach thy eternal word?

    He is a brittle crazy glass;

Yet in thy temple thou dost him afford

    This glorious and transcendent place,

    To be a window, through thy grace.

 

But when thou dost anneal in glass thy story,

    Making thy life to shine within

The holy preachers, then the light and glory

    More reverend grows, and more doth win;

    Which else shows waterish, bleak, and thin.

 

Doctrine and life, colors and light, in one

    When they combine and mingle, bring

A strong regard and awe; but speech alone

    Doth vanish like a flaring thing,

    And in the ear, not conscience, ring.

AS JANELAS

Senhor, como pode o homem pregar a tua eterna palavra?

Ele é um frágil e insensível vidro;

Contudo, em teu templo, tu lhe concedes a lavra

Este glorioso e transcendente lugar,

De ser uma janela, tua graça dar.

 

Mas quando tu revestes em vidro a tua história,

Fazendo a tua vida dentro brilhar

Dos santos pregadores, então a luz e a glória

Tornam-se mais reverentes e para mais conquistar;

O que poderiam aguado, sombrio e ameno se mostrar.

 

Doutrina e vida, cores e luz em um se fazem

Quando se combinam e se misturam, para trazer

Um forte respeito e temor; mas que só falem

Como um clarão a desaparecer

E na consciência e não no ouvido vem bater.

Ilustração: Diocese de São João del rei.


Saturday, January 24, 2026

Só há o momento

 


A DANÇA DO MOMENTO

 Silvio Persivo

Se formos pensar

Tudo que existe nada nos importa

E, no fim, tudo pesa

Como a folha ao vento.

Mundo passageiro

Como um sonho breve

Ou um jogo ligeiro.

 

Nada levamos desta vida.

Seja a glória, a fama, amor, dinheiro.

É tudo apenas uma memória

Como se a lembrança

De uma partida bem jogada.

O contentamento, depois o nada.

 

A glória pesa como um fardo.

A fama, uma febril ilusão.

O amor, no final, uma prisão.

O dinheiro, um logro mascarado

de termos feito um jogo bem jogado.

 

A vida, no entanto, joga xadrez

conosco como uma inteligência artificial:

é impossível ganhar no final.

O xeque mate nos foi dado no nascimento,

no momento da primeira jogada.

Devemos felizes nos sentir pelo jogo

e mais nada.

 

E é verdade que, alguns,

por meio da ciência, ou pelo vinho,

pensam ter, por um momento, uma vitória.

Porém logo a morte ou a idade

encerra o sentimento de felicidade.

As sombras chamam por nós:

cala-se a voz.

 

Talvez, por algum tempo,

fique a lembrança.

O sonho, no entanto,

já se foi,

depois se vai a memória

e o jogo se esvai,

com as peças retiradas,

para a vala comum do esquecimento.

Goza, pois o que te resta: o momento

John Donne, pois

 

Holy Sonnets: Batter my heart, three-person'd God

By John Donne

Batter my heart, three-person'd God, for you

As yet but knock, breathe, shine, and seek to mend;

That I may rise and stand, o'erthrow me, and bend

Your force to break, blow, burn, and make me new.

I, like an usurp'd town to another due,

Labor to admit you, but oh, to no end;

Reason, your viceroy in me, me should defend,

But is captiv'd, and proves weak or untrue.

Yet dearly I love you, and would be lov'd fain,

But am betroth'd unto your enemy;

Divorce me, untie or break that knot again,

Take me to you, imprison me, for I,

Except you enthrall me, never shall be free,

Nor ever chaste, except you ravish me.

SONETOS SAGRADOS: GOLPES NO MEU CORAÇÃO, AS TRÊS PESSOAS DE DEUS

Golpes no meu coração, as três pessoas de Deus, pois

Até agora apenas bates, respiras, brilhas e busca consertar;

Para que possa me erguer, levantar, derrubar-me e dobrar

Sua força para quebrar, soprar, queimar e me fazer novo.

 

Eu, como uma cidade usurpada a outro devida,

Esforço-me para lhe admitir, mas, oh, em vão;

A razão, teu vice-rei em mim, deveria me defender,

Mas está cativa e se mostra fraca ou falsa.

Contudo, eu te amo profundamente e anseio ser amado,

Mas estou prometido ao teu inimigo;

Divorcia-me, desata ou rompe esse nó novamente,

Leva-me para ti, aprisiona-me, pois eu,

A menos que me escravizes, jamais serei livre,

Nem jamais casto, a menos que me arrebates.

Ilustração: Estudo Bíblico.

 



Ainda Fran Bariffi

 


PAISAJE INTERIOR

Fran Bariffi

Veo árboles de 300 años
siluetas de ángeles y antiguas escalinatas de piedra
como en fotos de parís o alguna antigua
ciudad de los andes.

es un placer rarísimo
estar sentada en mi escritorio y tardar
diez minutos en elegir dos palabras
absorbida por el azul del aire
que de la atmósfera pasa a mis dedos
y libera como un río su caudal en el papel

y es que siempre que el cuaderno se abre
veo la misma puerta
el mismo marco azul anacarado
el mismo pasillo hacia el mismo sitio sin tiempo
al que fui enviada
para jugar

PAISAGEM INTERIOR

Vejo árvores de 300 anos,

silhuetas de anjos e antigas escadarias de pedra,

como em fotos de Paris ou de alguma antiga

cidade dos Andes.

É um prazer raríssimo

Estar sentado em meu escritório e dedicar

dez minutos para escolher duas palavras,

absorvido pelo azul do ar

que da atmosfera passa aos meus dedos

e libera como um rio seu fluxo sobre o papel.

E sempre que o caderno se abre,

vejo a mesma porta,

a mesma moldura azul perolada,

o mesmo corredor que leva ao mesmo lugar atemporal

para o qual foi enviada

para brincar.

Ilustração: Youtube.


O desejo de amar em vão

 


A TRISTEZA DOS AMORES

Silvio Persivo

Oh! Desejo de amar! Oh! Vontade de viver!
Uma hora que seja, mas, uma hora vivida
depois do sonho, se pode até morrer,
-porque se morre celebrando a vida!

Porém, essa hora doce na qual se vive
é o que se pode sonhar de maior ventura,
nos salva de desesperar por uma criatura,
e de sofrer e dizer esperei-a, e nunca a tive!

E são muitos, como eu, que a desejaram!
E poucos, como eu, que, por fim, tiveram
a venturosa hora de amor com que sonharam!

E quanto olhar triste não ficou nublado
pelo desespero do amor que não viveram;
do mar de desejos nunca, na vida, saciado!

Ilustração: Purepeople. 


Saturday, January 17, 2026

Um devaneio de Emily Dickson

 


TO MAKE A PRAIRIE (1755)

Emily Dickinson

To make a prairie it takes a clover and one bee,

One clover, and a bee.

And revery.

The revery alone will do,

If bees are few.

PARA FAZER UMA PRADARIA (1755)

Para fazer uma pradaria, é preciso um trevo e uma abelha,

Um trevo e uma abelha.

E devaneio.

O devaneio sozinho faz,

Se as abelhas forem poucas.

Ilustração: Pintura de Arthur Percy Dixon.


Sunday, January 11, 2026

Mais uma poesia de Izaskun Gracia Quintana

 


ni siquiera en la emergencia me siento bandada

no comparto el dolor ni la purgad

ni el alivio cuando la excepción llega a su fin

y el mundo finge que todo vuelve a ser como antes

soy una espectadora

activo espejos recito cuñas

y duermo cargada de preguntas sin cabida en este espectáculo

barajando terca piezas de otro puzle

avanzando hacia el mismo sitio al ritmo de todas las alarmas


Nem sequer na emergência me sinto parte de um grupo

nem compartilho a dor, nem a purificação

nem o alívio quando a exceção chega ao seu fim

e o mundo finge que tudo volta a ser como antes

sou um espectador

ativo espelhos, recito frases de efeito

e durmo sobrecarregado de perguntas sem lugar neste espetáculo

embaralhando teimosamente as peças de outro quebra-cabeça

avançando para o mesmo lugar ao ritmo de todos os alarmes

Ilustração: Blog do Correio Braziliense.


Insuficiência

 


Sou este ser desconcertado

que, para amarrar o sapato, 

precisa de alguma ajuda

ou me arranjar como posso

numa banqueta ou numa cama. 

Mas, ainda tenho desejo,

vez por outra é verdade, 

de superar a covardia

e te amar com uma maldade,

que é pura fantasia.

Ilustração: ND Mais. 


Thursday, January 08, 2026

Uma poesia de Sandra Cisneiros

 


YOUR NAME IS MINE


Sandra Cisneiros


And holy to me And your spirit
And that twin of divine
Death granted me in my sex
A complete breath And this silence
I trust And howl This body this
Spirit you gave me
A gift of Taxco rain
Fine as silver
An antique pleasure
Obsidian and jade
The centuries I knew you
Even before I knew your man
Sex mother me the elegance
Of your jaguar mouth.

SEU NOME É MEU

E sagrado para mim E seu espírito

E aquele duplo de divino

Que a morte me concedeu no meu sexo

Uma completa respiração E este silêncio

Eu confio E uivo Este corpo, este

Espírito que você me deu

Um presente da chuva de Taxco

Fino como a prata

Um prazer ancestral

Obsidiana e jade

Os séculos em que lhe conheci

Mesmo antes de conhecer seu homem

Sexo, mãe, me mostre a elegância

Da tua boca de jaguar.

Ilustração: Vanessa Guedes. 

 

Uma homenagezinha ao Chef Luiz Carlos Marques

 


PANTOUM DAS SARDINHAS GRELHADAS DE LUIZ CARLOS MARQUES

Sardinhas grelhadas de Luiz Carlos Marques

Forte e único, textura firme e carnuda

Com um sabor leve, salgado e defumado

Quem não sabe vai saber o que é pecado

 

Forte e único, textura firme e carnuda

Sabor inconfundível que conquista

Quem não sabe o que é pecado vai saber

Ao provar essa iguaria o que é prazer

 

Sabor inconfundível que conquista

Um prazer que não se pode resistir

Ao provar essa iguaria que encanta

A mais safada alma fica santa

 

Um prato a que não se pode resistir

Com um sabor leve, salgado e defumado

Quem come sente da cozinha as artes

Com as sardinhas de Luiz Carlos Marques.

(Do e-book "Receitas Amazônicas Temperadas com Poesia", de Silvio Persivo, disponível na Hotmart). 

Wednesday, January 07, 2026

Ainda Antonietta Tiberia

 


                                       Antonietta Tiberia

VII

Apre il sereno

un varco tra le nuvole

Si fa più chiaro

VII

Abre o céu sereno

uma brecha nas nuvens

E se faz mais claro

 

VIII

La luna calva

naviga tra le nuvole

   Come annoiata    

VIII

A lua careca

navega entre as nuvens

Como se estivesse entediada
                   

IX

Litigio in strada

Risuonano nell'aria

urla e bestemmie

IX

Litígio na estrada

Ressoam no ar

Gritos e palavrões

Ilustrações: Pngtree. 


Outra poesia de Izaskun Gracia Quintana

 


Izaskun Gracia Quintana

quizá lo que falta

es lo que no cejé en evitar y late ahora desde el fondo de mi deseo

arañando mis huellas

dispuesto a mostrar su grandeza en el preciso instante en el que aparte la mirada

y revuelva entre sombras las míseras armas que aún me quedan

las que rechacé segura de mis habilidades y de la justicia divina

desbordante de imágenes de un posible mejor

de aquel que te viste pese a los saltos y los laberintos

y a todo el metal que vendiste precioso y hoy nos vuelve los dedos glaucos

 

Talvez o que falta

é o que não deixei de tentar evitar, e pulsa agora do fundo do meu desejo,

arranhando minhas trilhas,

disposto a mostrar sua grandeza no preciso instante em que desvio o olhar

e revolvo entre as sombras as poucas armas que ainda me restam,

as que rejeitei, segura de minhas habilidades e da justiça divina,

transbordando de imagens de uma possível vida melhor,

do que aquela que tu viste apesar dos saltos e labirintos,

e todo o metal precioso que vendeste, e hoje volta a empalidecer nossos dedos.

 

Saturday, January 03, 2026

Amigos, Amigos

 


A verdade é que não sei porque amo meus amigos.

Alguns, poucos, talvez, seja por serem loucos ou tristes.

Outros porque tocam bandolim, violão, pandeiro

(não sei explicar, mas, poucos são movidos por dinheiro)

e, quase todos, bebem muito cerveja, vinho, uísque e cachaça.

Muitos por cantarem bem, ou terem algum talento inato,

e, uns poucos poetas, poetas, em geral, são muito chatos.

Há os que sempre me encantam pela delicadeza ou trato

e os que, simplesmente, são amigos por apenas amigos serem.

Não sei também explicar como se fizeram amigos.

Há uns que chegaram de repente, outros bem devagar.

Há os que se perdem na estrada e nunca mais vão voltar.

Sempre fazemos amigos em qualquer lugar,

mas, os maiores, os verdadeiros, dos quais nem preciso falar,

são os menos lembrados, deles nem vivo a falar

porque estão sempre à mão,

pois, não importa o tempo, nem a distância,

que eles vivem no meu coração.

(De “Poemas Malcomportados”, Rio de Janeiro, Courier Brasil, 2021).

Ilustração: Mapa do Meu Céu.

Ode à Estrela Cadente

                       Para Úrsula Maloney, um exemplo de ser humano. 

Sinto que os dias do ano novo

não são mais os mesmos. 

Eu também não sou.

Mas, é diferente. 

Os dias seguem em frente

seguem o tempo eternamente.

E sinto a sensação imensa

de sermos tão transitórios

como uma estrela cadente

que caiu na Terra 

no dia primeiro. 

Ilustração: Freepik. 

 

Outra vez Antonietta Tiberia

 


Antonietta Tiberia

IV

Le stelle lucono

sullo sfondo del cielo

come annebbiate

IV

As estrelas brilham

contra o fundo do céu

como se estivessem enevoadas

V

Fitta boscaglia

Mi sbarrano la vista

cespugli e siepi

V

A densa vegetação rasteira

Me barra a vista

Arbustos e sebes

VI

Pioggia obliqua

frustava le finestre

Sempre più fita 

VI

A chuva oblíqua

Batia contra as janelas

Cada vez mais forte

Ilustração: GZH.