Saturday, February 01, 2020

Uma poesia de Charles-Ferdinand Ramuz


L’IGNORANT                                                

Charles-Ferdinand Ramuz

Plus je vieillis et plus je croîs en ignorance,
plus j’ai vécu, moins je possède et moins je règne.
Tout ce que j’ai, c’est un espace tour à tour
enneigé ou brillant, mais jamais habité.
Où est le donateur, le guide, le gardien?
Je me tiens dans ma chambre et d’abord je me tais
(le silence entre en serviteur mettre un peu d’ordre),
et j’attends qu’un à un les mensonges s’écartent:
Que reste-t-il? que reste-t-il à ce mourant
qui l’empêche si bien de mourir? Quelle force
le fait encor parler entre ses quatre murs?
Pourrais-je le savoir, moi l’ignare et l’inquiet?
Mais je l’entends vraiment qui parle, et sa parole
pénètre avec le jour, encore que bien vague:
“Comme le feu, l’amour n’établit sa clarté
que sur la faute et la beauté des bois en cendres…”


O IGNORANTE

Quanto mais envelheço, mais cresço em ignorância,
quanto mais vivo, menos possuo e menos reino.
Tudo o que tenho é um espaço, por sua vez
com neve ora brilhante, mas nunca habitado.
Onde está o donatário, o guia, o guardião?
Eu estou no meu quarto e permaneço calado
 (o silêncio entra como servo para pôr ordem),
e espero que, uma a uma, as mentiras se descartem:
Que resta? O que resta a este moribundo
que o impede de morrer tão bem? Que força
o leva ainda a falar entre quatro paredes?
Poderia saber, eu, o ignaro, eu o inquieto?
Mas, é certo que posso entendê-lo falando, e sua fala
penetra-me com o dia, ainda que bem vaga:
“Como o fogo, o amor não estabelece sua claridade
senão pela falta e na beleza das cinzas da madeira ... ”


Ilustração: https://docplayer.com.br/




1 comment:

Margarida Pires said...

Não passamos de breves aves esvoaçantes. Que vivem num tempo preciso.
E partem sem nada levar.
Por vezes sinto - me tão ignorante com tamanho pesar.
Um sorriso de luz.
Megy Maia