Thursday, May 25, 2017

E, mais uma vez, Jorge Cuesta Porte-Peti


De otro fue la palabra antes que mía

Jorge Cuesta Porte-Petit

De otro fue la palabra antes que mía
Que es el espejo de esta sombra, y siente
Su ruido, a este silencio, transparente,
Su realidad, a esta fantasía.

Es en mi boca su substancia, fría,
Dura, distante de la voz y ausente,
Habitada por otra diferente,
La forma de una sensación vacía.

Al fin es la que hoy, obscura y vaga,
Otra prolonga en mí, que no se apaga,
Sino igual a sí misma oye su sombra

Al hallarla en el ruido que la nombra
Y en el oído hacer crecer su hueco
Más profundo cavándose en el eco.

De outra foi a palavra antes que minha

De outro foi a palavra antes que a minha
Que és o espelho desta sombra, e sente
Seu ruído, a este silêncio, transparente,
Sua realidade, a esta fantasia.

É na minha boca sua substância, fria,
Dura, distante da voz e ausente,
Habitada por uma outra diferente,
A forma de uma sensação vazia.

Ao fim, é a que hoje, obscura e vaga,
Outra prolonga em mim, que não se apaga,
Senão igual a si mesma ouve sua sombra

Para encontrá-la  no ruído que a nomeia
E na orelha fazer crescer o seu buraco
Mais profundo ampliando-se no eco.

Ilustração: Pão Diário do Ministério da Palavra. 




NO FIM DE MAIO...UM DESMAIO

LIÇÃO                            
Para Jean

E, de repente, um corpo cai.
Cai sem razão alguma plausível
que não seja a de cair
quando os sentidos começam a não sentir. 
Quem, de tudo, brincava pouco tempo atrás 
Agora nem sabe de si mais.
Agora jaz como um boneco desengonçado,
com um tornozelo torto, talvez, fraturado,
todo estropiado
por algo simples como uma queda, ou alta, de pressão. 
É assim com qualquer homem, 
mesmo quem se pensa o super-homem, 
caímos sem esperar e sem motivo
da ilusão de ser. 

Uma poesia de Philippe Jaccotter

L’enterrement                            
Philippe Jaccottet

Il y a six hommes pour porter la bière:
un mort, c’est plus lourd qu’un vivant;
le cortège va lentement
sur le chemin du cimetière.
Lorsque le pasteur a fini la prière,
le mort était sorti, les femmes étaient sorties aussi,
les femmes s’étaient mises à pleurer.
On avait voulu les consoler,
mais elles n’en pleuraient que plus fort
à cause du mort
dans les escaliers.
Il y a six hommes pour porter la bière;
un mort, c’est plus lourd qu’un vivant;
le cortège va lentement
sur le chemin du cimetière.
C’est un vieux. N’est-ce pas? les vieux
qui passent leur temps au coin de leur feu,
ça doit s’attendre à s’en aller,
mais c’est dur quand même, et c’est dur pour eux
et puis pour la femme.
A présent il pleut, il fait de la boue,
on est arrivé le trou est creusé,
le fossoyeur est à cóté,
les gens se sont decouverts,
on met le cercueil sur la fosse,
le cercueil descend, les cordes grincent,
la terre en tombant sonne creux,
et les gens s’en vont se mouchant
avec leur mouchoir sur les yeux,
parce que, de voir ça, ça remue.

O enterro

Seis homens levam o caixão funéreo,
um morto é mais pesado do que um vivo,
o cortejo vai lentamente
pelos portões do cemitério.
Logo que o pastor termina a prece,
o morto sai, as mulheres saem também,
elas começam a chorar,
bem que as queria consolar,
mas, elas chorariam ainda mais forte
por essa morte
nas escadarias.
Seis homens levam o caixão funéreo,
Um morto é mais pesado do que um vivo,
Segue o cortejo compassivo
Pelos portões do cemitério.
É um velho. Não é? Estou a ver.
Dos que passam o tempo todo a se aquecer.
É de esperar que eles se vão,
Mas, mesmo assim é duro, não?
Duro pra ele e pra a mulher.
Agora chove, lama pra todo lado,
chegamos, o buraco está cavado,
e o coveiro ali à frente.
Todos tiraram o chapéu,
põem o caixão por sobre a cova,
desce o caixão. As cordas roçam,
a terra cai a soar ocamente,
As pessoas vão saindo se assoando,
Tapando os olhos com os lenços
Porque, vendo isto, se comovem.


Ilustração: Portinari

Tuesday, May 23, 2017

Outra poesia de Perla Rivera


Barcos de papel

Perla Rivera

De pie junto a la orilla sostengo barquitos de papel,
los arrullo como a niños huérfanos.
Los cubro de armonías con mi voz.
Elijo entre los colores que habitan esas cartas-barcos;
el violeta, una sombra se asoma desde mi habitación,
me observa desde el espejo, vierte por sus ojos un aguacero.
Los barquitos nadan sobre la lluvia que se derrama,
cada uno tiene un color distinto,
el color de los días que se deshojan como margaritas…
me quiere, no me quiere, me quiere, no me quiere.
Y de nuevo estoy junto al borde,
eligiendo barcos y retomando el canto.

Barcos de papel

De pé junto da praia seguro os barquinhos de papel,
que arrulham como meninos órfãos.
Os cubro de harmonias com a minha voz.
Escolho entre as cores que habitam essas cartas-barcos;
o violeta, uma sombra que espreita desde meu quarto,
me observa a partir do espelho, vertendo por seus olhos um aguaceiro.
Os barquinhos nadam na chuva que se derrama,
cada um tem uma cor distinta,
a cor dos dias que se desfolham como margaridas ...
me quer, não me quer, me quer, não me quer.
E novamente estou perto da praia,
a escolher barcos e retomando o canto. 

Ilustração: Fotolog. 

Mais uma poesia de Fernando Linero

 
INGRAVIDEZ                
Fernando Linero

Confiado como el vuelo del halcón hacia su presa
desde un recoveco
gozo de la ingravidez del atardecer.
Mi mujer lava la frase de un bolero
en la que se hunde su voz.
Lava un presentimiento una camisa.
Y la nobleza del agua en el cuenco
de las manos es la única certeza.
La casa zumba como un enjambre de abejas.
Confiado como el vuelo del halcón hacia su presa
desde un recoveco
gozo de la música del atardecer.
A través de la ventana una galaxia me mira.
Acaso en la que vaga mi padre con su muerte a cuestas.
La casa zumba como un enjambre de abejas.

LEVEZA

Confiante como o voo do um gavião voando até sua presa
de desde um ninho
gozo da leveza do sol cair da tarde.
Minha mulher lava a frase de um bolero
no qual sua voz afunda.
Lava um pressentimento de uma camisa.
E a nobreza da água na bacia
nas mãos é a única certeza.
A casa vibra como um enxame de abelhas.
Confiante como o voo de um gavião até sua presa
de um ninho
gozo da música do cair da tarde.
Através da janela uma galáxia me olha.
Talvez na vaga de meu pai com a sua morte às costas.
A casa vibra como um enxame de abelhas.


Ilustração: www.popmundi.com.br6

Mais uma poesia de Daniel Calabrese

LA DETENCIÓN           
Daniel Calabrese

Si los amores amarran, amor,
voy  a entregarme a tu largo peregrinar de río.
He de saber que me hundo.

Todo empezó a ir más lento, mi caballo
tenía la cabeza larga y lloraba
espesamente como los potros de Aquiles
(después supimos del poeta
y de su amor indomable;
de la áspera mujer que lo amó
y le devolvió la risa
con sus caricias de fieltro).

Esta mañana,
frente a las ventanas del oeste,
me hice objeto, abandoné
toda pulsión.

En mis ojos vivía esa mujer
que era un recuerdo, una imagen
esperando la dirección de la luz.
Me detuve y su mano,
la que atraviesa la noche,
está cayendo aún sobre mi cuerpo.

Porque han sembrado luz
bajo este foco estéril.
aquí no crece nada, ni la sombra.
Cuando es húmedo el viento como el río
tampoco nace el fuego
(ni aquella lógica materna
que dice que la sangre
más la sangre de la sangre
te ilumina el furor en las entrañas).

Me detuve y existo hoy
como existen los perros,
que no pueden calcular su amor.

Como toda esa gente humilde y feliz,
con una pala en los ojos
y la mirada perdida,
enterrando a sus muertos en el cielo.

A DETENÇÃO

Se os amores amarram, amor,
vou entregar-me ao teu longo peregrinar de rio.
Hei de saber que me afundo.

Tudo começa a ir mais lento, meu cavalo
tinha a cabeça larga e chorava
pesadamente como os potros de Aquiles
(depois soubemos do poeta
e de seu amor indomável;
da áspera mulher que o amou
e lhe devolveu o riso
com suas carícias de feltro).

Esta manhã
frente às janelas do oeste,
me fiz objeto, abandonei
toda pulsão.

Em meus olhos vivia esta mulher
que era uma recordação, uma imagem
esperando a direção da luz.
Me deteve em sua mão,
a que atravessa a noite,
está caindo ainda sobre meu corpo.

Porque hão semeado luz
sob este foco estéril.
Aqui não cresce nada, nem a sombra.
Quando está úmido o vento como o rio
Tampouco nasce o fogo
(nem aquela lógica materna
que disse que o sangue
mais o sangue do sangue
te ilumina o furor das entranhas).

Me deteve e existo hoje
como existem os cães,
que não podem calcular o seu amor.

Como toda essa gente humilde e feliz,
como uma venda nos olhos
e uma olhada perdida,
enterrando a seus mortos no céu. 

Ilustração: Paulo Veras - blogger



Uma poesia de Antonio Deltoro



ÁNGELES COBARDES

 Antonio Deltoro

Tienen alas y no vuelan. Su mirada estúpida y cruel, su grotesco y ridículo estar aquí. Desterradas del infierno, insoportable su mezquindad para los seres grandiosos y soberbios. Ángeles caídos con las alas atrofiadas por la impotencia. A ciegas, sin saberlo, buscan con el pico sus infernales orígenes. Condenadas por su cobardía a la superficie, llevan en su carne, carne de gallina, el castigo. Muchedumbre de soledades en el corral que en venganza se matan a picotazos. Demonios desterrados, ángeles caídos, tienen alas y no vuelan, condenados por su cobardía a la superficie.

ANJOS COVARDES

Tem asas e não voam. Seu olhar estúpido e cruel, seu grotesco e ridículo estar aqui. Desterradas do inferno, insuportável em sua mesquinhez para os seres grandiosos e soberbos. Anjos caídos com as asas atrofiadas pela impotência. Às cegas, sem saber, buscam o pico de suas infernais origens. Condenadas por sua covardia à superfície, levam em sua carne, carne de galinhas, o castigo. Multidão de solidões no curral em que em vingança se matam em pedacinhos. Demônios desterrados, anjos caídos, tem asas e não voam, condenadas por sua covardia  à superfície.


Ilustração: Fallen Brasil - blogger

Uma poesia de Ricardo Miguel Costa

 
CONCERT

Ricardo Miguel Costa

Aseguran que al hombre
se lo conoce por su silencio.

Pero jamás mujer alguna
tocó mayor música
que su cuerpo desnudo.

Él la escucha con pasión
y la recibe plenamente,
a voluntad.
Es más, la aplaude de pie
pero se reserva secretamente
la fiebre del sonido.

Moraleja: el hombre es un sordo
abandono de sí mismo.

(apenas una campana golpeando
bajo el agua)

CONCERTO

Asseguram-me que ao homem
só o conhecemos por seu silêncio.

Porém, jamais mulher alguma
tocou maior música
que seu corpo desnudo.

Ele a escuta com paixão
e a recebe plenamente,
à vontade.
E mais, a aplaude de pé,
porém, se reserva secretamente
para febre do som.

Moral: o homem é um surdo
abandono de si mesmo.

(apenas uma campainha tocando
debaixo d’água).


Ilustração: www.loriga.de

Monday, May 22, 2017

CONTRADIÇÃO


Vacilo. Se te beijar de novo morro.
Se não te beijar sei que vou morrer.
Para te beijar, então, eu corro
E prá não te beijar vivo a correr.

Mas, longe prá ti sempre volto
E perto de ti sempre fujo.
No teu amor vivo ainda envolto
E por mais limpo me considero sujo.

Juro, então, nunca mais beijar-te a boca
Lutando por cumprir minha promessa
Que, bem sei, o quanto tem de louca,
Porque para beijar-te tenho pressa.

(De "Apocalypse", Per Se Editora, 2013).
Ilustração: Universo Marvel. 

ÚLTIMA PALAVRA


No último minuto da minha vida
Já sem forças e do mundo exausto
Hei de, antes da grande despedida,
Encher o peito num supremo hausto

Com quem as forças recupera.
Ante este alento tão inesperado
Hão de dizer:- a dor ele supera-
E pensar que o mal está sanado.

Fecharei os olhos lentamente
Fitando o infinito em minha frente
Enquanto a existência de mim some.

Eu não me agitarei garanto,
Tampouco terei tempo para o pranto
Preocupado em sussurrar teu nome!

(De "Apocalypse", Per Se Editora, 2013).
Ilustração: Borboletas ao Luar. 

Friday, May 19, 2017

E LA NAVE VA....

QUE A FELICIDADE SEJA UM VÍCIO                                     
Levanta esta bebida, comemora,
brindemos, pois, a este dia tão feliz,
este dia do teu aniversário.
Que as taças que tilintam sejam a música
que inundem de alegria a caminhada
onde os tempos maravilhosos se renovem
como amanheceres brilhantes e formosos.
Que a chuva, ou a névoa, se algum tempo,
na tua vida te surpreender
que seja, se possível, por momentos
que jamais tirem a beleza do viver.
Que a luz dos olhos teus iluminados
afastem a escuridão dos dissabores
e tua forma de ser, tua bondade
faça do cotidiano um exercício
de bem viver, de amar, de ser contente
para tornar a felicidade, em ti, um vício,
contra a lógica, quem sabe, eternamente!


Outra poesia de Laura Campmany

SONETO                  
                                                                                                            


En un soneto cabe cualquier cosa:
la tarde del revés, la golondrina
que asoló con sus alas mi oficina,
y el humo, convertido en mariposa.

Le cabe la certeza luminosa
del rayo que ni cesa ni fulmina.
Le cabe la soberbia gongorina
que urdió en la noche el nombre de la rosa.

Si abarcara universos literales,
campos, espigas, lunas, mares, montes,
que, por caber, le caben catedrales
y lirios que resumen horizontes.

¿Y dices que no cabe el amor nuestro?
Si me das un papel, te lo demuestro.

SONETO

Em um soneto cabe qualquer coisa:
a tarde de revés, a andorinha
que assolou com suas asas a escrivaninha
e o fumo, convertido em mariposa.

Bem cabe a certeza luminosa
do raio que nem cessa nem fulmina.
Bem cabe a escrita gongorina
Que urdiu, na noite, o nome da rosa.

Se abarcasse os universos literais,
campos, espigas, luas, mares, montes,
que, por caber, lhe cabem catedrais
e lírios que resumem horizontes.

E dizes que não cabe o amor nosso?
Se me dás um papel, te mostro que posso.


Ilustração: http://poesiapaixaoeamor.blogspot.com.br/

Uma poesia de Laura Campmany




Mi vida tiene...

Laura Campmany

Mi vida tiene forma de camino,
y un fondo de verdad en la maleta,
y una ilusión, ridícula y secreta,
donde confluyen Dios y mi destino.

Mi vida tiene ya sabor a vino,
y a noches de relente y escopeta,
y a pan desmenuzado en la cuneta,
y a humilde vocación de peregrino.

Mi vida es algo tonto que dormita
bajo la higuera azul de la esperanza
mientras el tiempo, inexorable, avanza.

Mi vida es un clamor que resucita
cuando siente que existe, cuando alcanza
un poco del amor que necesita.


MINHA VIDA TEM...

Minha vida tem o modo de um caminho,
e um fundo de verdade na maleta,
e uma ilusão ridícula e secreta,
onde vão Deus e meu destino juntinhos.

Minha vida tem já sabor de vinho
e de noites de orvalho e de escopeta
e de pão esfarelado na sarjeta,
e de humilde vocação de peregrino.

Minha vida é algo tonto que adormece
sob a figueira azul da esperança,
enquanto o tempo, inexorável, avança.

Minha vida é um clamor que já renasce
Quando sente que existe, quando alcança
Um pouco do amor pelo qual padece.

Ilustração: Obvious Lounge.

Thursday, May 18, 2017

Mais uma poesia de Excilia Saldaña

El fondo del mar                                             

Excilia Saldaña

Vive en el centro 
del 
agua 
y nadie 
la 
puede 
habitar.

Se envuelve en redes
de 
algas 
y sale 
de 
noche 
a cantar.

Tiene un secreto. 
Lo 
calla. 
Olokun 
es 
lo hondo 
de la mar.


O FUNDO DO MAR

Vive no centro
da
água
e ninguém
a
pode
habitar.

Se envolve nas redes
de
algas
e sai
de
noite
a cantar.

Tem um segredo.
O
cala.
Olokún
é
o fundo
do mar.