Thursday, January 30, 2014

Susana Cerdà




EL ME AMA 

Susana Cerdà

El me ama. Me ama tanto que yo huelo la muerte en sus caricias, en su mirada veo el crimen, en cada gesto suyo: la absorción, el tironeo.
En el espectáculo de su amor la tierra gira a una velocidad que deforma mi cuerpo...
Succionada por su sed, yo: una gota de carne horizontal, que él se dispone a chupar, sin pudor alguno.
Espera con espasmos, con ira, con sollozos, el momento justo, enfocado, fatal, de abalanzarse sobre eso y penetrarlo. Enarbolar ese coágulo de vida, levantarlo como una ofrenda a su espejo.
Haga lo que haga, él ha decidido amarme, izarme en su soledad como una bandera santa, sangrienta. Ya me ha condecorado, condenado con su amor.
Cómo buscar en su cuerpo, si cada roce sería una profecía; sus extremidades como tentáculos traspasarían mis fronteras.
Caer en sus brazos: desbarrancarse por su avidez. Más que tomarme, atravesarme, hincarme en lo puntiagudo de su historia, clavarme en su cruz particular, hacerme la virgen madre de su santuario musculoso.
Devorar algo en mí que toda yo le represento, o sea, tenerme, hacerme suya, hacerme de él.
El, ser eso que soy.

Ele me ama

Ele me ama. Me ama tanto que cheiro a morte nas suas carícias, nos seus olhos eu vejo o crime, em cada gesto seus a absorção, os espasmos.
No espetáculo do seu amor a terra gira a uma velocidade que deforma o meu corpo ...
Sugada pela sua sede, eu: uma gota de carne horizontal, que ele se dispõe a chupar  descaradamente .
Espera com espasmos, com a ira nos olhos, soluçando, o momento justo, focado,  fatal de balançar-se sobre isso e penetrá-lo. Empunhar o coágulo de vida como uma oferta a seu espelho .
Faça o que ele faça, ele já decidiu me amar-me, içar-me na solidão como uma bandeira santa, sangrenta. Já me condecorou, condenando com o seu amor.
Como buscar no seu corpo, se cada roçar seria uma profecia, suas extremidades como tentáculos transpassariam minhas fronteiras.
Cair em seus braços: desbarrancar-se por sua avidez. Mais que tomar-me, atravessar-me, fincar-me no pontiagudo de sua história, pregar-me na sua cruz particular, fazer-me a virgem mãe do seu santuário muscular.
Devorar algo em mim que tudo represento, ou seja, ter-me, fazer-me sua, fazer-me dele.
Ele, ser isto que sou.


Ilustração: docemeninatravessa.blogspot.com





Alejandra Pizarnik




AMANTES 

Alejandra Pizarnik

una flor
no lejos de la noche
mi cuerpo mudo
se abre
a la delicada urgencia del rocio

Amantes

Uma flor
não muito longe da noite
meu corpo mudo
se abre
à delicada urgência do orvalho

Almudena Guzmán




USTED SE ME ESCAPA 

Almudena Guzmán

Usted se me escapa en los pasillos como
un discóbolo impregnado de aceite.


Pero todo lo que habla es una mano enguantada
por mis medias.
(Desnuda, froto su voz contra las caderas de la sábana
para no dormirme tan triste).

Você me escapa

Você me escapa nos corredores como
um discóbolo de óleo impregnado.


Porém, tudo o que fala é uma mão enluvada
por minhas meias.
(Nua, esfrego sua voz contra os limbos das folhas
para não dormir tão triste).

Não escapa mesmo




Você não me escapa

Bem que tentas escapar alegando coisas
como falta de transporte ou escuridão.

Porém, tudo o que consegues, são
 umas cervejas com pastel

(A conversa é a de sempre e a mesma cama
onde, para dormir, fazemos do amor uma alegria).

Ana Milena Puerta




SOBRE LOS DULCES CANSANCIOS

Ana Milena Puerta

Hombre de la medida justa
para mis caderas,
recipiente de todos los temblores
de mi cuerpo,
madera antigua, de fino roble,
erecto.
Volcán de lava que me siembra
hacedor de los dulces cansancios,
la ondulación de mi vientre,
de mi piel estrecha y concreta.
Navégame, marinero alucinado,
navégame y viérteme luego
en tus manos.
Soy todos los frutos
y tú
todos los labios.
Bebámonos.

Sobre os doces cansaços

Homem da justa medida
para os meus quadris,
recipiente de todos os meus tremores
de meu corpo,
madeira antiga, de fino talhe
ereto.
Lava do vulcão que me semeia
fazedor de doces cansaços,
da ondulação do meu ventre,
de minha pele estreita e concreta.
Navega-me, marinheiro alucinado
navega-me e despeja-me logo
nas tuas mãos.
Sou todos os frutos
e tu,
todos os lábios.
Bebamo-nos.

Tuesday, January 28, 2014

César Vallejo




Los Dados Eternos
 César Vallejo

Para Manuel González Prada esta
emoción bravía y selecta, una de
las que, con más entusiasmo me
ha aplaudido el gran maestro.
Dios mío, estoy llorando el ser que vivo;
me pesa haber tomádote tu pan;
pero este pobre barro pensativo
no es costra fermentada en tu costado:
tú no tienes Marías que se van! 
Dios mío, si tú hubieras sido hombre,
hoy supieras ser Dios;
pero tú, que estuviste siempre bien,
no sientes nada de tu creación.
Y el hombre sí te sufre: el Dios es él!
Hoy que en mis ojos brujos hay candelas,
como en un condenado,
Dios mío, prenderás todas tus velas,
y jugaremos con el viejo dado…
Tal vez ¡oh jugador! al dar la suerte
del universo todo,
surgirán las ojeras de la Muerte,
como dos ases fúnebres de lodo. 
Dios mío, y esta noche sorda, oscura,
ya no podrás jugar, porque la Tierra
es un dado roído y ya redondo
a fuerza de rodar a la aventura,
que no puede parar sino en un hueco,
en el hueco de inmensa sepultura.

Os Dados Eternos

Para Manuel González Prada esta
emoção brava e seleta, uma das
que, com mais entusiasmo,
me aplaudiu o grande maestro.
Meu Deus, estou chorando o ser que vivo;
me pesa por haver tomado o teu pão;
porém, este pobre barro pensativo
não é crosta fermentada nas tuas costas:
tu não tens Marias que se vão!
Meu Deus, se tu houvesses sido homem,
hoje saberias ser Deus;
porém, tu, que estivestes sempre bem,
nada sentes da tua criação.
E o homem, sim, te sofre: O Deus é ele.
Hoje que em meus olhos bruxos há correntes,
como em um condenado,
Meu Deus, acenderás todas tuas velas,
e jogaremos com o velho dado…
Talvez, ó jogador!, ao jogar a sorte
do universo todo,
olheiras surgirão da própria morte Morte,
como dois ases fúnebres de lodo.
Meu Deus, e esta noite surda, obscura,
já não poderás jogar, porque esta Terra
É um dado roído e já redondo
por força de girar à aventura,
que não pode parar senão em um buraco,
Num buraco de imensa sepultura.

Ilustração: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgZxLA42k2oaWZ8satnLEA4HZYI83uLXm4DQuSBMTsFRUQlT0biykjbe67leJ5b8ujPcFAn0atmCt-kj-o-2j7OCQ9wmK-AqOgpavP7URxUFyF7vml4IM2QFtLvgb-Enm-qv4qLVQ/s400/dados.jpg