Wednesday, February 19, 2014

Giuliano Salvatore




I

Giuliano Salvatore

Poco me falta para declararme un imbécil de aeropuerto

                           Un tarado en terminales, despidiendo a todo el mundo

entre arrivals y departures, anclado en este unísono

                            babeando tus maletas

Tu futuro es más grande que este hueco

         Una esfnge creciendo en una lata

                                             una ola de piscina

         Oro para dientes de difuntos

No te duela dejarme

          Mi pista es corta

                           Espero no pensaras estar siempre

a paso en esta mula que es tan miope.

I

Pouco me falta para declarar-me um imbecil de aeroporto

                            Um tarado de terminais, despedindo-me de todo mundo

entre chegadas e partidas, ancorado neste uníssono

                             babando nas tuas malas

Teu futuro é maior que este buraco

           Uma esfinge crescendo numa lata

                                             uma onda de piscina

           Ouro para dentes de defuntos

Que não te doa deixar-me

           Minha pista é curta

                             Espero que não penses estar sempre

atrelado ao passo de uma mula tão míope.

Ilustração: ideal.es

Poemas mal comportados




Check-up completo

Depois de muito tempo fez um exame completo.
Os olhos, bem o sabia, já não viam muito bem.
Nem surpresa foi constatar
Que, por uma dessas ironias da natureza,
Para quem vive numa região inóspita,
Cultivava 98 diferentes tipos de alergia
E qualquer picada de inseto na sua pele
Fazia crescer um calombo e tudo ardia.
Para acrescentar mais problemas,
Além de estar gripadinha,
Banhos prolongados não deve tomar
E até mesmo as roupas coloridas
Podem complicar ainda mais sua vida.
Recomendaram também para evitar
Comidas, ácaros e até gatos.
E andar só por onde tem ladrilhos
Ou viver numa redoma de vidro, se possível.
E, convenhamos, com uma tosse forte,
Muitas vezes, acaba com qualquer arroubo,
Mesmo o mais juvenil.
Esquece mesmo algumas coisas,
Embora não dê sinais de estar senil.  
Apesar de todos estes males-
Porém, devo dizer-
Que a enferma,
Mesmo povoada de brotoejas,
É uma pessoa amorosa, sensível
Que, mesmo sem ser uma mulher fruta,
Me parece bastante saborosa
E apetecível!

Monday, February 17, 2014

Ainda Julián Del Casal


TRISTISSIMA NOX

Julián Del Casal

Noche de soledad. Rumor confuso
 hacer el viento surgir de la arboleda,
 donde su red de transparente seda
 grisácea araña entre las hojas puso.

 Del horizonte hasta el confín difuso
 la onda marina sollozando rueda
 y, con su forma insólita, remeda
 tritón cansado ante el cerebro iluso.

 Mientras del sueño baja el firme amparo
 todo yace dormido en la penumbra,
 sólo mi pensamiento vela en calma,

 como la llama de escondido faro
 que con sus rayos fúlgidos alumbra
 el vacío profundo de mi alma.

Tristissima noite

  Noite de solidão. Rumor confuso
  fazendo o vento surgir do arvoredo,
  onde sua rede de transparente seda
  pôs uma aranha cinza entre folhas.

  Do horizonte até os confins difuso
  a onda marinha soluçando vaga
  e, com a sua forma insólita, remenda
  um deus cansado ante o cérebro iludido.

  Ainda que do sono baixe firme amparo
  tudo está adormecendo na penumbra,
  e só meu pensamento vela em calma,

  como a chama de uma luz escondida
  que com os seus raios fúlgidos ilumina
  o  profundo vazio na minha alma.


Ilustração: jjcruzfilho.blogspot.com 

Julián Del Casal


EL ARTE

Julián Del Casal

Cuando la vida, como fardo inmenso,
 Pesa sobre el espíritu cansado
 Y ante el último Dios flota quemado
 El postrer grano de fragante incienso;

 Cuando probamos, con afán intenso,
 De todo amargo fruto envenenado
 Y el hastío, con rostro enmascarado,
 Nos sale al paso en el camino extenso;

 El alma grande, solitaria y pura
 Que la mezquina realidad desdeña,
 Halla en el Arte dichas ignoradas,

 Como el alción, en fría noche obscura,
 Asilo busca en la musgosa peña
 Que inunda el mar azul de olas plateadas.

A arte
 
Quando a vida como um fardo imenso,
 Pesa sobre o espírito cansado
 E ante o último deus flutua queimado
 O último grão de aromático incenso;

 Quando provamos, com afã intenso,
 De todo amargo fruto envenenado
 E o tédio com o rosto mascarado,
 Segue conosco no caminho extenso;

 A alma grande, solitária e pura
 Que a mesquinha realidade desdenha,
 Fala em artes ditas ignoradas

Como um peixe que, em fria noite escura,
 Procura asilo na pedra musgosa
 Que inunda o mar de ondas prateadas.


José Lezama Lima


LA MUJER Y LA CASA

José Lezama Lima

 Hervías la leche
 y seguías las aromosas costumbres del café.
 Recorrías la casa
 con una medida sin desperdicios.
 Cada minucia un sacramento,
 como una ofrenda al peso de la noche.
 Todas tus horas están justificadas
 al pasar del comedor a la sala,
 donde están los retratos
 que gustan de tus comentarios.
 Fijas la ley de todos los días
 y el ave dominical se entreabre
 con los colores del fuego
 y las espumas del puchero.
 Cuando se rompe un vaso,
 es tu risa la que tintinea.
 El centro de la casa
 vuela como el punto en la línea.
 En tus pesadillas
 llueve interminablemente
 sobre la colección de matas
 enanas y el flamboyán subterráneo.
 Si te atolondraras,
 el firmamento roto
 en lanzas de mármol,
 se echaría sobre nosotros.

A mulher e a casa

Fervias o leite
e seguias os deliciosos costumes do café.
Percorrendo a casa
com uma medida sem desperdícios.
Cada minúcia era um sacramento,
como uma oferenda ao peso da noite.
Todas tuas horas eram justificadas
ao passar do quarto para o refeitório,
onde estavam os retratos
que gostam de teus comentários.
Fixas a lei de todos os dias
e o pássaro dominical se abre
com as cores do fogo
e as espumas do caldeirão.
Quando se rompe um vaso,
é o teu riso que se espalha.
O centro da casa
voa como um ponto numa linha.
Nos teus pesadelos
chove  interminavelmente
sobre a coleção de matas
anãs e o flamboyant subterrâneo.
Se te atordoares, 
o firmamento roto
em  lanças de mármore
cairia sobre nós.


Ilustração:   www.myrianrios.com.br

Thursday, February 13, 2014

Leopoldo Lugones




EL AMOR ETERNO

Leopoldo Lugones

 Deja caer las rosas y los días
 una vez más, segura de mi huerto.
 Aún hay rosas en él, y ellas, por cierto,
 mejor perfuman cuando son tardías.

 Al deshojarse en tus melancolías,
 cuando parezca más desnudo y yerto,
 ha de guardarse bajo su oro muerto
 las violetas más nobles y sombrías.

 No temas al otoño, si ha venido.
 Aunque caiga la flor, queda la rama.
 La rama queda para hacer el nido.

 Y como ahora al florecer se inflama,
 leño seco, a tus plantas encendido,
 ardiente rosas te echarán en su llama.

O amor eterno

 Deixa cair às rosas e os dias
 Uma vez mais, segura de meu jardim.
 Ainda há rosas nele, e elas, são assim
 melhor perfumam quanto mais tardias.

 Ao despojar-se das melancolias,
 quando parece mais seco e deserto,
 hão de ser mantidas sob o ouro morto
 as violetas mais nobres e sombrias.

 Não tema que o outono tenha vindo.
 Ainda que caia a flor, quebre o ramo.
 O ramo caído serve para o ninho.

  E como, agora, ao florescer se inflama,
 o lenho seco, as tuas plantas no fogo acendido,
 ardentes rosas encontrarás na sua chama.



Ilustração: mariaduth.blogspot.com