Saturday, October 26, 2024

Outra poesia de Gustavo Yuste

 


OJOS DE VIDEOTAPE

Gustavo Yuste

La pantalla apagada
no devuelve tu reflejo
y yo necesito una distracción,
estímulos breves pero constantes
que me saquen del ruido blanco
de la nostalgia.
La programación caótica del algoritmo
imita a la perfección
todos esos recuerdos que te incluyen.
Afuera de este cuarto oscuro,
el mundo gira al revés;
no puede haber otra explicación
para entender por qué nunca
logramos coincidir.

OLHOS DE VIDEOTAPE

A tela desligada

não devolve teu reflexo

e eu necessito de uma distração,

estímulos breves, porém, constantes

que me tirem do ruído branco

da nostalgia.

A programação caótica do algoritmo

imita com perfeição

todas aquelas memórias que te incluem.

Fora deste quarto escuro,

o mundo gira de cabeça para baixo;

não pode haver outra explicação

para entender por que nunca

conseguimos coincidir.

Ilustração: Descomplica Caititu. 

 

Gato de Metal

 


 Eu desejava decorar o tempo

com o ar de magia do passado,

porém me sinto um gato de metal:

tudo internamente está errado

e, por fora,

sou o que não sou:

calmo e forte,

para ser compreendido

aceito pelo mundo exterior.

É que me sinto assustado

num mundo assombrador,

com tantas conexões

e tão desconectado.

Procuro a autenticidade

na confusão

de minha própria identidade

e num universo de incertezas

onde o irreal

me surge

como a improbabilidade.

Ilustração: Alibaba.com.

Uma poesia de Timothy Yu

 


     CHINESE DREAM 61

Timothy Yu 

 

Cartoons. Computer-generated smiles
and fixed eyes fill my daughter’s screen, show her
form is content, content form.
She’s over unicorns. Now she plays a child
who always knows best. There’s nothing to fear
except when we near

an evening when the moon’s not giving light,
turning away. It’s late for attitude,
but it’s now that rude
words are a parent’s heritance. Is she white?
Race is something her father has, a way
of arresting play

away from her, in Timothy’s long trail
of ancestors, immigrants, grasping arms
out of elsewhere, of whom she’ll be one. The child is real.
In the bedtime story she tells herself she’s charmed,
just like her own father.

SONHO CHINÊS 61

Os desenhos animados. Sorrisos gerados por computador

e olhos fixos preenchem a tela da minha filha, mostram a ela

que forma é conteúdo, conteúdo, forma.

Ela superou unicórnios. Agora ela é uma criança

que sempre sabe como escolher melhor. Não há nada a temer

exceto quando nos aproximamos

de uma noite em que a lua não está dando luz,

se afastando. É tarde para atitude,

mas é agora que palavras rudes

são herança dos pais. Ela é branca?

Raça é algo que seu pai tem, uma maneira

de arrastar a brincadeira

para longe dela, na longa trilha de Timothy

de ancestrais, imigrantes, agarrando braços

de outros lugares, dos quais ela será uma. A criança é real.

Na história de ninar, ela diz a si mesma que está encantada,

assim como seu próprio pai.

Ilustração: Reescrevendo Encantamento.


Friday, October 25, 2024

Prelúdio de Amor

 


Sem dúvida a flor desconhecida

que procuro,

entre encontros e desencontros, 

de bocas, pernas e mãos,

deve florescer, sem pressa,

como florescem as melhores flores do amor.

Este calor, que sinto,

o frio, o calafrio, o tremor 

de teus lábios molhados

me dizem 

ser a hora de sermos felizes. 

Enfim, estás pronta, 

lassa, preparada para a festa

tão esperada. 

E, eu, não posso reclamar

se demorou um pouco mais

de tempo 

para vir a ter tanto prazer. 

Ilustração: Pernambuco tem. 


Uma poesia de Quincy Scott Jones

 


WHY WAKE UP HAPPY

Quincy Scott Jones

when i can creep into our 3 am bed

slink into the sliver of mattress

you saved for me watch the streetlight

slice through the curtain leaving a streak

of fluorescence in your hair stare

at the ceiling and wait   maybe

you’ll steal back the covers maybe

you’ll offer me your leg maybe

you’ll beg for quiet then in a whisper

so not to stir the monster masquerading

as jeans on a chair you’ll ask get any

writing done?  no, read two articles though.

 

they say love is no different than large amounts of chocolate.

also, the cocoa bean will soon be no more.

POR QUE ACORDAR FELIZ

quando eu posso me esgueirar, às 3 da manhã, para nossa cama

me enfiar sorrateiramente dentro do pedaço de colchão

que você guardou para me deixar ver a luz da rua

se infiltrar na cortina deixando um rastro

de fluorescência em seu cabelo a olhar

para o teto a esperar talvez

que você me roube as cobertas de volta talvez

que você me ofereça tua perna talvez

que você implore por quietude então num sussurro

para não agitar o monstro disfarçado

de jeans numa cadeira você pedirá para

escrever alguma coisa? não, mas leia dois artigos.

 

dizem que o amor não é diferente de enormes quantidades de chocolate.

além disto, o grão de cacau logo não existirá mais.

Uma poesia de Gustavo Yuste

 


GATO DE METAL

Gustavo Yuste

De techo en techo
como de tristeza en tristeza.
El año nuevo ya se deja ver,
pero no trae nada novedoso,
solo un sampler de viejos problemas
con nombres más modernos
y precios remarcados.
Cada vez más lejos de la ternura,
desde hace tiempo
lo único que te encuentra
es mi ansiedad.

GATO DE METAL

De telhado em telhado

como de tristeza em tristeza.

O ano novo já está visível,

porém não traz nada de novo,

apenas uma amostra de velhos problemas

com nomes mais modernos

e preços remarcados.

Cada vez mais longe da ternura,

desde muito tempo

a única coisa que te encontra

é a minha ansiedade.

Ilustração: Peres Project.

Wednesday, October 23, 2024

O X do Programa

 


Este ponto nós vivemos discutindo

sem consenso. 

Não desdenho do seu bom senso

nem me considero mais inteligente

e, talvez, seja possível provar o contrário,

num tempo diferente. 

Ocorre que o imprevisto, 

por mais que desejemos o programado, 

nos surpreende sempre 

com o futuro sendo divergente 

do que foi imaginado.

O vir à ser sempre nos irá surpreender

por se apresentar como não se espera ser. 

Sei que, com estatísticas, algoritmos e 

inteligência artificial,

há formas de prever o comportamento em geral.

Mas, tome tento, até que ponto?

As emoções, estas estranhas energias

que movem a vida, 

nos impedem de acreditar 

que os programas, por melhores 

que venham a rodar,

façam mais do nos oferecer 

ilações com dados oriundos do passado

e conclusões do que já foi coletado. 

Não há como o programado

nos surpreender com o imprevisto. 

O melhor da inteligência artificial 

é que nos permite nossos dons aprimorar, ´

porém para contigo concordar, 

chegar a crer que robôs 

são capazes de nos dominar,

é preciso antes 

que me mostre um capaz de amar. 

Ilustração: Terra.


Uma poesia de J. Mae Barzio

 


INDETERMINACY

J. Mae Barzio

How many times I tried to record the Goldberg Variations

Once in Iceland another time in California

It was Mercury in retrograde I didn’t get the chords right

You see I wanted a different kind of music

One that felt like a foreign city or ice cracking

A prediction of snow and then the snow itself endless

I wanted the blue stripes on your shirt the paleness of your underarm

The whiteout of a spring blizzard, everything unexpected

See I didn’t do well with indeterminacy-the blank sides of a dice

The piano chord I recognized but couldn’t name

A different kind of intimacy because I was tired of being unsurprised

Behind me in the photo the black river unraveled

Like a list of the dead children or the ones I never had

The field split open like a lip

I asked the river for answers but heard nothing

The path was obscured by another person’s tracks in the snow

Snow falling so slowly that no one noticed it.

INDETERMINAÇÃO

Por muito tempo tentei gravar as Variações Goldberg

Uma vez na Islândia, outra tempo na Califórnia

Estava Mercúrio retrógrado, não acertei os acordes

Veja, eu queria um tipo diferente de música

Uma que parecesse uma cidade estrangeira ou gelo quebrando

Uma previsão de neve e então a própria neve sem fim

Eu queria as listras azuis na sua camisa, a palidez da sua axila

O branco de uma nevasca de primavera, tudo inesperado

Veja, eu não me dei bem com indeterminação -os lados em branco de um dado

O acorde de piano que eu reconheci, mas não consegui nomear

Um tipo diferente de intimidade porque eu estava cansado de não ser surpreendido

Atrás de mim na foto, o rio negro se desfez

Como uma lista de crianças mortas ou aquelas que eu nunca tive

O campo se abriu como um lábio

Eu pedi respostas ao rio, mas não ouvi nada

O trajeto estava obscurecido pelos rastros de outra pessoa na neve

Neve caindo tão lentamente que ninguém percebia.

Ilustração: Brasil na Neve-CBDN.

Monday, October 21, 2024

De volta Lucía Emanuel

 


3

Lucía Emanuel

Aita y ama roncan al otro lado del pasillo.
Yo cuento estrellas, fluorescencias,
mi cama el globo que vuela en la oscuridad.

Aita y ama roncan más allá de mi puerta.
Travesía de manos pequeñas,
pies fríos y lunares en los brazos.

Aita y ama roncan en su habitación.
Yo cuento estrellas, fluorescencias.

Aita y ama roncan y cierro los ojos.
A veces tengo miedo de morir.

3

Aita e ama roncam do outro lado do corredor.

Eu conto estrelas, fluorescências,

minha cama é o globo que voa na escuridão.

 

Aita e ama roncam mais além da minha porta.

Travessia de mãos pequenas,

pés frios e verrugas nos braços.

 

Aita e ama roncam no seu quarto.

Eu conto estrelas, fluorescências.

 

Aita e ama roncam e eu fecho os olhos.

Às vezes tenho medo de morrer.

Ilustração: Psicólogo e Terapia.

Uma poesia de Helene Achanzar

 


     THE ONLY POEM I CAN WRITE

Helene Achanzar

 

is the one in which she devours an egg sandwich on the overcast train ride to Montauk. Both of us desperate to quit the city, even just for one day, so foolishly we underdressed for the sea. How far a few bucks take us: to the top of a lighthouse, a tote bag full of ceramic souvenirs, a single lobster roll. She poses for photos along the bluffs. I dip my feet into the cold ocean. We talk about our parents, their failures, our own. As she naps on the sand, wrapped in a gauzy scarf, I shiver and watch the clouds move fast across the horizon to reveal sunset’s approach. It is just a sunset. It’s beautiful, and means nothing more than the end of a long day. At dinner, we bicker about the bacon in our pasta. The argument is more about exhaustion than it is about pork. We spend what feels like hours in silence drinking water from a patient bartender. We don’t speak again till we board the last train back to the city when she offers me gummy candy from the depths of her bag. She is alive, and our bodies recline on the train’s seats and thrash with laughter from a joke only we know.

O ÚNICO POEMA QUE POSSO ESCREVER

é uma em que ela devora um sanduíche de ovo na viagem de trem nublada para Montauk. Ambos os dois desesperados para deixar a cidade, ainda que só por um dia, tão tolamente nos vestimos mal para o mar. Quão longe alguns trocados nos levam: ao topo de um farol, uma sacola cheia de souvenirs de cerâmica, um único rolo de lagosta. Ela posa para fotos ao longo dos penhascos. Eu mergulho meus pés no oceano frio. Nós falamos sobre nossos pais, seus fracassos, os nossos. Enquanto ela cochila na areia, enrolada em um lenço transparente, eu tremo e observo as nuvens se movendo rapidamente no horizonte para revelar a aproximação do pôr do sol. É apenas um pôr do sol. É lindo e não significa nada mais do que o fim de um longo dia. No jantar, discutimos sobre o bacon em nossa massa. A discussão é mais sobre exaustão do que sobre carne de porco. Passamos o que parecem horas em silêncio bebendo água de um barman paciente. Não falamos mais nada até embarcarmos no último trem de volta para a cidade, quando ela me oferece balas de goma do fundo de sua bolsa. Ela está viva, e nossos corpos reclinam nos assentos do trem e se debatem de tanto rir de uma piada que só nós sabemos.

O ÚNICO POEMA POSSÍVEL

 


Sei que, antes de tudo, 

preciso prender o leitor

no primeiro verso. 

E, por uma mágica,

que não se explica, 

reduzindo o tamanho do universo, 

fazer com que sinta o ritmo

musical do que escrevo

e que esqueça toda e qualquer coisa

fora das palavras que lê

para se envolver. 

Devia ser desta forma

e tentei fazer pela norma

o único poema que posso escrever. 

Todavia, insisto em dizer 

que te amo

e, descubro com emoção, 

que sinto falta de teus beijos, 

da doçura de tuas mãos 

de dizer que te amo-

este é o fim de todos os meus versos-

e do único poema possível 

de escrever. 

Sunday, October 20, 2024

De volta Maggie Smith

 



GOOD BONES

Maggie Smith

Life is short, though I keep this from my children.
Life is short, and I’ve shortened mine
in a thousand delicious, ill-advised ways,
a thousand deliciously ill-advised ways
I’ll keep from my children. The world is at least
fifty percent terrible, and that’s a conservative
estimate, though I keep this from my children.
For every bird there is a stone thrown at a bird.
For every loved child, a child broken, bagged,
sunk in a lake. Life is short and the world
is at least half terrible, and for every kind
stranger, there is one who would break you,
though I keep this from my children. I am trying
to sell them the world. Any decent realtor,
walking you through a real shithole, chirps on
about good bones: This place could be beautiful,
right?
You could make this place beautiful.

BONS OSSOS

A vida é curta, embora eu esconda isso dos meus filhos.

A vida é curta, e eu encurtei a minha

de mil maneiras deliciosas e imprudentes,

de mil maneiras deliciosamente imprudentes

que esconderei dos meus filhos. O mundo é pelo menos

cinquenta por cento terrível, e essa é uma estimativa conservadora

embora eu esconda isso dos meus filhos.

Para cada pássaro, há uma pedra atirada em um pássaro.

Para cada criança amada, uma criança quebrada, ensacada,

afundada em um lago. A vida é curta e o mundo

é pelo menos metade terrível, e para cada tipo

estranho, há um que te quebraria,

embora eu esconda isso dos meus filhos. Estou tentando

vender o mundo a eles. Qualquer corretor de imóveis decente,

levando você por um verdadeiro buraco de merda, tagarela

sobre bons ossos: Este lugar poderia ser lindo,

certo? Você poderia tornar este lugar lindo.

Ilustração: Horário Nobre da Sua Vida.


QUIXOTE FORÇADO


A vida inteira,

nem sei se por destino ou vocação,

lutei sempre contra a corrente

impulsionado a combater moinhos de vento,

que me impediram, inesperadamente, 

de ser o que pensei que seria.

É uma agonia. 

É imperativo. 

Não o queria,

porém, sem aparente motivo, 

acabei Dom Quixote

por falta de opção 

e sem mesmo um Sancho Pança 

para fazer companhia.  

Outra poesia de Andrea Cote

 


DESIERTO

Andrea Cote

La tierra que jamás quiso tocar el agua
es el desierto que al norte está creciendo
como un estrago de luz.
Pero los hombres que han visto el despoblado,
su amplitud sin sobresaltos,
saben que no es cierto que la tierra esté reseca por capricho

o sin ninguna bondad,
es su manera de mostrar
lo que transcurre en claridad
y sin nosotros.

DESERTO

A terra que jamais quis tocar a água

é o deserto que, ao norte, está crescendo

como um estrago de luz.

Porém os homens estão vendo o despovoamento,

sua amplitude sem sobressaltos,

sabem que não é certo que a terra esteja ressecando por capricho

 

ou sem nenhuma bondade,

é sua maneira de mostrar

o que transcorre na claridade

e sem nós.

Ilustração: Infoescola.

Saturday, October 19, 2024

Outra poesia de Maggie Smith


 

STARLINGS

Maggie Smith

The starlings choose one piece of sky above the river

      and pour themselves in. Like a thousand arrows 

              pointing in unison one way, then another. That bit of blue

      doesn’t belong to them, and they don’t belong to the sky,

or to the earth. Isn’t that what you’ve been taught-nothing is ours?

      Haven’t you learned to keep the loosest possible hold?

              The small portion of sky boils with birds.

       Near the river’s edge, one birch has a knot so much

like an eye, you think it sees you. But of course it doesn’t.

ESTORNINHOS

Os estorninhos escolhem um pedaço do céu acima do rio

 

e se jogam nele. Como mil flechas

 

apontando em uníssono um caminho, depois outro. Este pedaço de azul

 

não pertence a eles, e eles não pertencem ao céu,

 

ou à terra. Isto não foi o que lhe ensinaram-nada é nosso?

 

Você não aprendeu a guardar o controle mais frouxo possível?

 

A pequena porção do céu ferve com pássaros.

 

Perto da margem do rio, uma bétula tem um nó tão

 

parecido com um olho, que você pensa que ele vê você.

Porém, certamente, não vê.

Ilustração: Socientífica.